quarta-feira, 16 de abril de 2025

A banalidade do mal em verde e amarelo: por que Déboras não são inocentes

Nos últimos meses, setores bolsonaristas têm tentado transformar os sediciosos do 8 de Janeiro em mártires da liberdade. O caso mais notório é o da cabeleireira Débora, condenada a 14 anos de prisão por participar da invasão da praça dos Três Poderes. "Ela só escreveu ‘Perdeu, mané’ com um batom", diz o deputado Nikolas Ferreira, que chegou a compará-la a Rosa Parks, a moça do Alabama que se recusou a ceder o lugar no ônibus por dignidade e virou símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA.

A comparação, para além do insulto histórico, revela algo mais profundo: uma operação de limpeza moral que tenta apresentar os golpistas como "pessoas comuns" injustamente perseguidas por um Estado tirânico.

É aqui que a filósofa Hannah Arendt oferece uma chave precisa para pensar o mal na modernidade. Quando Adolf Eichmann, funcionário-padrão da burocracia nazista, foi capturado e julgado em Jerusalém, em 1961, Arendt cobriu o julgamento como enviada da The New Yorker e ficou impressionada: ele não parecia um monstro, nem um sádico, nem um fanático. Parecia apenas... um homem comum.


Eichmann era medíocre, burocrático, vaidoso em sua obediência às regras e incapaz de refletir eticamente sobre os próprios atos. Isso levou Arendt a formular a tese da "banalidade do mal" —não no sentido de inofensivo, mas porque pode ser cometido por pessoas comuns, sem intenções malignas, sem ódio e até sem crueldade, apenas por conformismo, carreirismo, covardia moral ou irreflexão.

Arendt afirma que o mal radical não está necessariamente na intenção destrutiva, mas na suspensão do pensamento. Para ela, pensar é julgar, é colocar-se no lugar do outro, é aplicar critérios morais. O homem comum de um sistema ou movimento autoritário abdica de pensar —e, assim, abdica da responsabilidade.

Eichmann é banal porque é fácil ser Eichmann. O mal deixa de ser algo que vem de indivíduos monstruosos e passa a ser uma possibilidade concreta quando se cultiva a obediência cega, o conformismo, o anti-intelectualismo e o desprezo pelo julgamento ético.

Débora não é um monstro. Nem é Bolsonaro, Braga Netto ou Mário Fernandes. Não planejou o golpe, não escreveu seus roteiros. Mas estava lá —e sua presença não foi decorativa. A mulher exaltada como símbolo de injustiça por setores bolsonaristas pode muito bem ser uma pessoa comum: uma mãe de filhos, uma cidadã religiosa, uma trabalhadora. Seu gesto —trivial e "lavável"— fez parte de uma encenação cuidadosamente orquestrada para legitimar uma intervenção militar. A questão aqui não é a dosimetria da pena —talvez 14 anos seja excessivo. Mas trata-se de reconhecer que não se trata de inocência.

Débora, a velhinha da Bíblia e outras mães de família que deixaram seus filhos para acampar diante de quartéis não foram vítimas ingênuas. Foram peças fundamentais de um projeto autoritário: sem a "pessoa comum" para dar rosto humano ao levante, não haveria narrativa de povo oprimido nem ilusão de resistência patriótica.

Não estavam no topo da hierarquia golpista, mas justificavam simbolicamente todo o sangue que se derramaria caso o golpe triunfasse. São responsáveis —não porque pensaram o golpe, mas porque se ofereceram à engrenagem que o faria parecer legítimo. Débora não precisava saber de todos os detalhes do plano —bastava estar ali, no lugar certo, na hora certa, fazendo o que se esperava dela.

Arendt ajuda a entender isso. Mas o bolsonarismo produziu dois tipos ainda mais específicos.

O "inocente útil" —figura consagrada desde a Guerra Fria— é aquele que, mesmo sem plena consciência, empresta sua presença a um projeto que não compreende. Já o "idiota motivado" —conceito que venho usando desde 2013— está um degrau acima: não apenas coopera mas se converte. Sua ignorância é mobilizada por causas simplificadas, narrativas morais e senso de missão. Sente-se parte de algo maior —e por isso atua com entusiasmo, sem se dar conta de que é apenas massa emocional de um projeto golpista.

Essas figuras, supostamente inofensivas, oferecem densidade humana a causas autoritárias. Se o plano golpista tivesse funcionado, haveria assassinatos, perseguições, cassações, prisões —como acontece em toda ruptura autoritária. Déboras não precisariam apertar gatilhos nem assinar decretos. Teriam feito sua parte: legitimar, com sua presença e seu gesto, a encenação do "povo contra as instituições".

Como ensinou Arendt, o mal nem sempre se veste de ódio. Às vezes, basta uma bandeira, uma oração —e uma convicção sem pensamento.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O caso de ver para não crer

Sempre se achou que é preciso ver para crer. Mas Engels, o brilhante parceiro de Marx, ponderava que em ciência a visão como prova definitiva é apenas uma suposição do empirismo radical, pois relações abstratas como na geometria ou na matemática são formalmente comprobatórias. Na vida prática, a tendência, exceto na vida religiosa, é acreditar no que se vê, porque o predomínio das noções comuns impõe ideias adequadas à realidade imediata.

E quando se vê e não crê? Disso a vida pública brasileira passou a dar exemplos alarmantes para o senso comum. É o fato da tentativa de golpe de Estado, motivo para que pela primeira vez na história do país um ex-presidente da República, militares e ex-militares da mais alta patente tenham sido indiciados como réus pelo Supremo Tribunal Federal.

À medida que a anestesia política de setores ponderáveis da população vai perdendo efeito, vibram pensamentos e queimam as palavras atinentes à gravidade do ocorrido. No entanto, é largo o espectro dos que se recusam a crer no que veem. Algo como o caso extremo do juiz que zera um processo por excesso de provas.

Num primeiro plano, avultam a Câmara dos Deputados e o Senado. Da Câmara não há muito o que se esperar, tão heterogênea é a sua composição em termos de idade, educação política e compromisso com o que ainda resta de vinculação ideológico-partidária. O segundo, a se julgar pelo nome romano ("senatus", conselho dos mais velhos) sempre inspirava algum respeito pela suposição de senioridade política.

Resguardados uns poucos nomes, porém, acabou a seriedade. Há quem enxergue Cristo trepado na goiabeira, quem veja a depredação no 8/1 (danos orçados em R$ 50 milhões) como um piquenique de idosos aloprados, quem não reconheça a evidência boçal da tentativa de golpe. Um tipo de cegueira em que, no presente, só se enxergam dejetos do passado.

"Bem-aventurados os que não viram e creram", disse Jesus aos discípulos (João, 20:9). E os que não querem ver para não crer? Dirão ser esse um direito de cada um. Senão, uma excentricidade, que traz de volta um episódio da adolescência. Numa família tradicional, o velho patriarca recusava-se a ver televisão, então novidade cara, convicto de que não era verdadeira a transmissão da imagem. Denunciava o que lhe parecia fraude. Ante a insistência de um parente para que assistisse a uma fala de Jânio Quadros, ameaçou: "Mais uma asneira dessas e eu vou empunhar o meu bacamarte!"

Mas deputados, senadores e membros ditos razoáveis da sociedade civil não têm o direito de não ver dois fatos: primeiro, a trama dolosa nos escalões do poder, comprovada em atas e atos, para um golpe político que previa assassinatos das mais altas autoridades e, em segundo, a manipulação das massas com efeitos violentos de manada. Gado tresmalhado continua sendo aboiado em favor da impunidade. Só que não é caso de anistia. Se foi culposa, isto é, sem dolo, a delinquência de ignorantes como bucha de canhão golpista, a prova diferencial cabe só a advogados e juízes. Para bem ver, basta um pouco de lucidez.
Muniz Sodré

Faça-lhe justiça!


Deus ilumine cada um dos 513 deputados e 81 senadores em seus votos. Se, com nossas decisões, pavimentamos a nossa eternidade, esse voto tem um peso capital. 
Jair Bolsonaro

Ofensiva de Trump contra universidades de ponta

Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump tem colocado em risco a pesquisa universitária nos Estados Unidos por meio do bloqueio de financiamentos e de interferência na gestão de algumas das mais importantes instituições acadêmicas do mundo.

Com um Congresso submisso, controlado pelo Partido Republicano, e uma Suprema Corte dominada por conservadores, o presidente americano não tem tido dificuldade em cumprir sua promessa de campanha de recuperar as instituições educacionais americanas do que ele chama de "esquerda radical".

O governo Trump tem determinado nas últimas semanas a suspensão de centenas de milhares de dólares em financiamentos de diversas instituições de ensino superior, incluindo Harvard, Columbia, Princeton, Johns Hopkins e Universidade da Pensilvânia, e ameaçou ir além caso essas instituições insistam numa suposta "postura antissemita". Na visão da atual administração, isso inclui ações que questionem o governo de Israel, como acolher manifestações estudantis contra a guerra em Gaza.

O governo Trump mandou investigar cerca de 100 instituições de ensino superior por discriminação e antissemitismo. Algumas delas conseguiram recorrer na Justiça contra sanções mas, de forma geral, elas estão se curvando às pressões, já que não podem prescindir dos recursos federais.

Segundo levantamento da agência de notícias Associated Press, essas universidades, juntas, receberam 33 bilhões de dólares (R$ 188,4 bilhões) entre 2022 e 2023, o que representa, em média, 13% de seus orçamentos.

A Universidade de Harvard foi a primeira a se recusar a cumprir as exigências da Casa Branca, como acabar com programas de inclusão e diversidade que, segundo o governo Trump, "alimentam o assédio antissemita". Nesta segunda-feira (14/04), o Departamento de Educação anunciou, por isso, o congelamento de 2,3 bilhões de dólares em subsídios e contratos para a instituição.

Em uma carta enviada a Harvard, o governo americano havia exigido reformas amplas na administração da universidade, a adoção de políticas de admissão e contratação "baseadas em mérito", além da realização de uma auditoria com estudantes, professores e dirigentes.

O presidente de Harvard, Alan Garber, acusou as exigências de Washington de violar os direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA – que garante as liberdades fundamentais, em particular a liberdade de expressão.

"Nenhum governo – independentemente do partido que estiver no poder – deve ditar o que universidades privadas podem ensinar, quem podem admitir ou contratar, e quais áreas de estudo e pesquisa podem seguir", escreveu Garber em uma carta.

Considerada a universidade com mais recursos do mundo, Harvard é acusada pela força-tarefa federal contra antissemitismo de não proteger seus estudantes judeus e de promover "ideologias divisórias através da livre pesquisa". Por conta disso, o órgão havia ameaçado cortar 9 bilhões de dólares (R$ 51,4 bilhões) da Harvard em contratos e subsídios federais.

A Universidade de Princeton foi punida com a suspensão de bolsas de pesquisa no valor de 210 milhões de dólares (R$ 1,1 bilhão). A medida afeta dezenas de projetos que recebiam verbas federais vinculados ao Departamento de Energia, à Nasa (agência espacial americana) e ao Departamento de Defesa.

O reitor da instituição, Christopher Eisgruber, descreveu as ações de Trump como a maior ameaça às universidades americanas em décadas. "Estamos comprometidos em combater o antissemitismo e todas as formas de discriminação e cooperaremos com o governo nesse esforço. Princeton também defenderá vigorosamente a liberdade acadêmica e os direitos ao devido processo desta universidade", disse Eisgruber em comunicado.

Columbia, epicentro dos protestos estudantis pró-palestinos que se alastraram pelos Estados Unidos no ano passado, foi uma das primeiras afetadas pela atual ofensiva. No início de março, o governo determinou o corte de 400 milhões de dólares (R$ 2,3 bilhões) à universidade. A partir de então, a instituição anunciou reformas institucionais, como regras mais rígidas para protestos em seus campi e maior vigilância sobre departamentos de estudos do Oriente Médio.

A Universidade Johns Hopkins, um dos principais centros de pesquisa científica do país, perdeu 800 milhões de dólares (R$ 4,5 bilhões) em financiamento. Segundo o governo, a instituição deveria rever sua postura em relação aos protestos em seu campus e garantir que alunos e professores respeitem as diretrizes do governo sobre antissemitismo e apoio a movimentos considerados vinculados ao Hamas. Como consequência, a universidade anunciou a demissão de mais de 2 mil funcionários.

As medidas do governo Trump têm sido comparadas às adotadas durante a Guerra do Vietnã ( de 1955 a 1976), período em que as universidades consideradas centros de ativismo antiguerra enfrentavam cortes de verbas federais. Professores que expressavam posições críticas ao governo, sobretudo durante a presidência de Richard Nixon, corriam o risco de perder financiamentos para pesquisas e até seus empregos por serem considerados antiamericanos ou comunistas.

No entanto, analistas avaliam que nenhum governo fez uso tão intensivo de ordens executivas– ações unilaterais do presidente – para atacar a oposição ao seu governo e ao de aliados. "Ordens executivas nunca foram concebidas para visar especificamente indivíduos ou atores não governamentais com propósitos de retaliação ou vingança", afirmou à Reuters o advogado Mark Zaid.

Suas ações têm despertado críticas até de aliados. "Ele [Trump] traçou essas amplas linhas de batalha, seja contra pessoas que ele acredita terem tentado arruiná-lo pessoalmente, seja contra aqueles que, em sua visão, tentaram destruir a civilização ocidental", afirma o estrategista republicano Scott Jennings. "Tudo o que ele disse que faria na campanha, ele está fazendo."

Manifestantes, incluindo alguns grupos judaicos, argumentam que o governo Trump erra ao equiparar as críticas à campanha militar de Israel em Gaza e a defesa dos direitos palestinos a antissemitismo e apoio ao grupo terrorista Hamas.

Essa pressão recai não só sobre instituições, mas também sobre estudantes, com prisões, perseguições e ameaças de deportação. É o caso da doutoranda turca Rumeysa Ozturk, que foi levada à força sob custódia por agentes federais em plena luz do dia, perto de sua casa em Massachusetts, e teve seu visto revogado.

Um ano atrás, ela assinou um artigo de opinião no jornal estudantil da Universidade Tufts, onde estuda, defendendo que a instituição deixasse de investir em empresas com vínculos com Israel em reconhecimento ao "genocídio palestino". Não está claro se esse foi o motivo da detenção, já que ela não estava diretamente envolvida em protestos. O governo fala em apoio de Ozturk ao Hamas.

Outro símbolo da repressão do governo americano nas universidades é Mahmoud Khalil, ativista palestino e aluno de pós-graduação de Columbia, detido em 8 de março em seu apartamento universitário em Manhattan. Khalil corre o risco de ser deportado, mesmo tendo green card e sendo casado com uma cidadã americana – que estava grávida de oito meses na época de sua prisão.

"Esta é a primeira prisão de muitas que virão", disse Trump em sua plataforma de rede social Truth Social à época, acusado de ser um "estudante radical a favor do Hamas".

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou ter revogado mais de 300 vistos de estudantes dentro da atual ofensiva do governo.

Entre os temas "proibidos" pela administração Trump estão ainda questões de diversidade, meio ambiente e direitos humanos.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa perseguição à qual o governo chama de "guerra cultural" foi a suspensão de 175 milhões de dólares (quase R$ 1 bilhão) para a Universidade da Pensilvânia devido a políticas esportivas para atletas transgênero.

No centro do caso está a nadadora Lia Thomas, que fez história ao se tornar a primeira mulher trans a vencer o campeonato universitário americano de natação feminina, competindo pela universidade. Sua vitória gerou uma onda de discussões e críticas, especialmente entre aqueles que acreditam que atletas transgênero têm uma vantagem injusta sobre mulheres cisgênero em competições esportivas.

O governo Trump alegou que a universidade não estava aderindo a políticas que o governo considerava necessárias para garantir a "equidade" no esporte feminino.
Sofia Fernandes 

Ditadura deixou o país falido

Eu já cansei de ouvir de todo tipo de pessoa a frase “No tempo da ditadura era melhor”, para na sequência, ouvir as justificativas de que “havia mais respeito”, “havia mais segurança”. Mas, quando pergunto sobre economia, os ombros dizem que não sabem ou a memória não se lembra. Pois é. Parece que a anistia além de política, foi econômica. Os militares entregaram um país falido.

Crise econômica, contexto internacional, cenário político interno. A democracia seria um sonho se o governo dos militares não estivesse tão enfraquecido. Nem o medo dos comunistas emocionava mais. Fica para uma outra vez descobrir por que ficou tatuado no imaginário o milagre econômico ao invés do salto dívida externa, o arrocho, os empréstimos no FMI e a inflação galopante. A gente lembra da inflação do Sarney, os planos econômicos posteriores e acha que aquilo surgiu do nada?


Alguns economistas dizem que o milagre foi um modelo insustentável. Mais que isso, irresponsável. Entre 1968 e 1973 o país cresceu de 11% ao ano em média, era um canteiro de grandes obras e expansão industrial, tudo às custas do aumento da dívida externa e da estagnação dos salários. A Crise do Petróleo entornou o caldo e exigiu ajustes, que não foram feitos.

Em 1964 a dívida externa brasileira era de US$ 3 bilhões. Em 1985, alcançou US$ 95,5 bilhões. O país se transformou no maior devedor do mundo em proporção ao PIB. A inflação rondou os 20% entre 1968 e 1973, chegou a 211% em 1983. A balança comercial acumulava déficits sucessivos. A retração da economia era comprovada pelo PIB, que teve uma queda 4,4% em 1981 e 2,9% em 1983. Os militares não tinham um dado positivo para apresentar à população ou ao mercado.

Em 1982, o país quase declarou moratória. O México havia quebrado em agosto desse ano. Os bancos estrangeiros pararam de rolar a dívida brasileira e as reservas de dólares estavam em colapso. Os militares tiveram que fazer um empréstimo de US$ 4,4 bilhões com o FMI. Em troca, a receita recessiva que se conhece: corte de gastos públicos, aumento de impostos., desvalorização da moeda.

Se houve um índice que cresceu no período de exceção foi a concentração de renda. O 1% mais rico ampliou sua fatia da renda nacional de 12% para 17%, enquanto 48% da população vivia abaixo da linha da pobreza em 1973. Era a ideia de “fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo” de Delfim Neto, estabilizar a economia antes de promover a distribuição de riqueza, o que a economista Maria Conceição Tavares chamava de falácia.

Contra argumentos, não há fatos

Fãs que somos do Iluminismo, gostamos de imaginar a História como um processo pelo qual a razão e a ciência avançam paulatina, mas irresistivelmente. Ao fazê-lo, vão banindo os preconceitos e as superstições que colonizam as mentes das pessoas, num jogo que culminará na emancipação da humanidade.

Isso, é claro, nunca passou de "wishful thinking". O homem não é nem nunca será um ser perfeitamente racional, e a própria razão tem seus limites. Não obstante, nos últimos dois séculos, obtivemos grandes conquistas civilizatórias baseadas em avanços científicos e filosóficos. Reduzimos drasticamente a mortalidade infantil e reconhecemos a existência de direitos humanos universais, para dar apenas dois exemplos.


E isso não ocorreu porque a maioria das pessoas se converteu ao Iluminismo. Já comentei aqui o ótimo livro de Jonathan Rauch ("The Constitution of Knowledge") em que ele mostra que, demograficamente, não chegamos nem mesmo a um consenso sobre quais são os fatos que precisamos considerar.

Dois terços dos americanos acreditam que anjos e demônios atuam no mundo; 75% creem em fenômenos paranormais; e 20% pensam que o Sol gira em torno da Terra. Num tributo à paranoia, um terço julga que o governo age em conluio com a indústria farmacêutica para esconder "curas naturais" que existem para o câncer.

Conhecimento e democracia avançavam apesar de ideias como essas estarem bem enraizadas nas mentes das pessoas. Mas não é tão grave. Não precisamos que haja unanimidade em torno de quais são os fatos que devem ser levados em conta, mas apenas que uma elite de políticos, cientistas e outros detentores de postos-chave estejam de acordo sobre o método para estabelecê-los.

O que preocupa neste segundo mandato de Donald Trump é que chegaram a esses postos-chave pessoas que rejeitam o método para reconhecer fatos. O novo secretário de Saúde, por exemplo, faz parte dos 33% que creem no complô para esconder as curas naturais, além de ser contra vacinas.

Inúmeros americanos próximos da aposentadoria ficarão próximos do pânico

Na semana passada, a Apple perdeu US$ 770 bilhões em valor de mercado. É consideravelmente mais do que vale a Tesla. Pegue todas as ações da Tesla, seja capaz de vender todas essas ações ao mesmo tempo pelo valor cobrado no momento do fechamento desta coluna, e dá mais ou menos isso. Uns US$ 640 bilhões. A Visa, operadora de cartões de crédito, está avaliada pelo mercado em algo próximo de US$ 610 bilhões. Essa dinheirama não é pouco. Valer mais que US$ 600 bilhões quer dizer estar entre as 20 maiores companhias de capital aberto nos Estados Unidos. Até a semana passada, a ação da Apple era considerada estável, segura. Investimento conservador para padrões americanos. Donald Trump, com suas tarifas, a fez sangrar.

Aposentadoria, nos Estados Unidos, é responsabilidade individual. Cada indivíduo pode abrir uma conta-corrente de tipo específico, a 401(k), e mensalmente passar para ela um percentual do salário. Esse valor, até um teto que varia de acordo com a idade do contribuinte, é isento de imposto de renda. É o contribuinte que decide como investir esse dinheiro. Todo americano tem parte de sua aposentadoria investida em Wall Street. É da natureza americana que os cidadãos tenham o hábito de investir suas economias no futuro das empresas americanas. Está entre as forças do país. O tombo gigante da Apple, que perdeu 23% do valor entre os dias 2 e 8 de abril, foi refletido em cada poupança voltada para a aposentadoria em todo o país.




Não foi só a Apple que viu dinheiro virar pó. Num país onde o futuro de cada cidadão está atrelado ao valor das empresas, a loucura de Trump custa muito para todos. Só ficam de fora os tão pobres que não conseguem acumular para o futuro.

Não foi à toa que Trump voltou atrás e isentou parcialmente smartphones, computadores e apetrechos digitais em geral. Foi porque a bomba cresceu rápido e explodiria em sua mão. Ainda assim, o imposto de importação saltou de nada para 20%. Não ser 110%, como a Casa Branca estabelecera até a sexta-feira passada, é pouco consolo.

A briga só está começando. Trump ainda não entendeu o tamanho do problema que criou. Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, anunciou que começou a estudar tarifas sobre serviços digitais americanos. Pois é. Na Casa Branca só fazem conta incluindo coisas que pegamos. Querem, num cálculo infantil, ter certeza de que cada país, individualmente, compre mais coisas dos Estados Unidos do que vende para os Estados Unidos. Só que um terço das exportações americanas não se pega com as mãos. São serviços.

Von der Leyen é uma política conservadora alemã para lá de experiente. Serviu como ministra num dos governos mais frios, pacientes e precisos que a Europa viu desde a unificação — aquele comandado por Angela Merkel. Seu último cargo foi como ministra da Defesa. O trabalho era lidar com gente tipo Vladimir Putin. A Europa taxar serviços quer dizer o seguinte: a publicidade vendida por Meta e Google sentirá. E pode sentir muito pesado. Publicidade na Europa corresponde a 25% do que fatura a Meta e a 30% do que vende a Alphabet, holding do Google. Se os Estados Unidos continuarem jogando pesado, e a Europa retrucar, algo que ainda não fez no nível dos chineses, outras duas gigantes americanas sentirão o baque. Feio. Isso quer dizer que inúmeros americanos próximos da aposentadoria ficarão próximos do pânico.

Um pedaço grande do Vale do Silício fez uma aposta: que, ao apoiar a Presidência de Donald Trump, teriam em Washington um parceiro para enfrentar a regulação do mercado digital no exterior. Esperavam que a Casa Branca pusesse todo o peso do Estado americano para forçar União Europeia, Austrália, Canadá, América Latina a não enfrentar as big techs. Ora, a China não quer enfrentar as big techs. A Apple sozinha representa, dentro da China, uma cadeia que pode chegar a algo como 3 milhões de empregos. (A conta é de Patrick McGee, autor de um livro por lançar chamado “Apple in China”.) Mas a União Europeia quer. E Trump parece facilitar o trabalho em vez de dificultá-lo. À medida que a UE avança, outros a copiarão. Se ficará mais caro exportar para os Estados Unidos, por que não fazer um troco nas costas do Vale do Silício?

Ainda não acabou.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Beira o abismo

Não seria o momento de uma frente discutir caminhos para evitar uma volta ao passado? Não seria a hora de descortinar o futuro diante de tantos desafios como mudanças climáticas, inteligência artificial, crise alimentar? Não entendo a acomodação diante do abismo.

Fernando Gabeira

O que está em risco nos EUA não é (apenas) a democracia, é o liberalismo

Visões subjetivas sobre como o mundo funciona — ou deveria funcionar — compõem o sistema de crenças de um país. Nos Estados Unidos, essa estrutura sempre foi alicerçada no liberalismo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o país se consolidou como seu principal expoente no mundo ocidental e propagador desses valores no cenário global.

Liberdade individual, competição, livre mercado, governo limitado, igualdade perante a lei e democracia foram os pilares que moldaram a ordem institucional americana. Essa crença liberal ajudou a sustentar um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico e estabilidade política, traduzido na ideia do “sonho americano”: esforço individual, trabalho duro e meritocracia como caminhos legítimos para o sucesso e a prosperidade. Enquanto essa crença foi dominante, os EUA operaram quase em “piloto automático”, com ajustes de rota marginais.


Contudo, quando os resultados políticos e econômicos frustram as expectativas da população — especialmente dos principais atores políticos e agentes econômicos —, a crença dominante torna-se maleável e suscetível a mudanças, especialmente diante de choques.

Abrem-se brechas, ou janelas de oportunidade, para a contestação do sistema de crenças vigente — e, por consequência, das instituições que o sustentam. Mudança de crenças, portanto, é a chave para se entender mudanças institucionais.

O retorno de Donald Trump à presidência não pode, portanto, ser interpretado como um acidente — algo esdrúxulo, escatológico ou estranho ao ambiente político americano. A defesa de valores antagônicos ao liberalismo — como nacionalismo, protecionismo, segurança, estranhamento com a diferença, muros, tarifas, barreiras comerciais, preconceito contra imigrantes — sinaliza um estágio explícito de competição entre crenças e valores sobre como o mundo deveria funcionar.

Mudanças estruturais costumam ser inquietantes e até assustadoras, pois ainda não está claro o que irá prevalecer: quais crenças e instituições permanecerão e quais se tornarão dominantes. Portanto, ainda é cedo para afirmar com certeza se os EUA estão atravessando uma transição estrutural de valores. Mas os sinais de desalinhamento entre expectativas e resultados produzidos pelas suas instituições são cada vez mais evidentes.

Mais do que a democracia em seu sentido minimalista — o regime em que partidos perdem eleições competitivas — o que hoje parece realmente em risco, com o novo governo Trump, é a própria base liberal que historicamente definiu o ethos americano e do mundo ocidental.
Carlos Pereira

‘Nunca vi um pobre’

Quando penso que já vi e ouvi de tudo um pouco, a vida insiste em surpreender. Fiquei estarrecida com o relato sobre a euforia e empolgação de um jovem da elite paulistana diante da miséria. "Nunca vi um pobre", disse o estudante de uma renomada instituição privada de ensino superior ao participar de uma ação institucional voltada a prestar serviços públicos à população carente e em situação de rua em São Paulo.

Tamanha falta de discernimento e compreensão da realidade brasileira me deixou chocada. Como pode um universitário "bem-nascido, bem-criado, de boa família" e que vive na maior cidade de um dos países mais desiguais do mundo nunca ter visto um pobre?


Não pode. Afinal, a miséria é explícita no Brasil. E, francamente, não deveria empolgar ninguém, mas causar constrangimento e desconforto generalizado (no mínimo). Em Sampa, para "ver um pobre" basta dar uma volta em qualquer quarteirão da avenida Paulista, cartão postal da cidade.

Nem a vida confortável e luxuosa numa mansão (nos Jardins, no Morumbi, na Vila Olímpia ou em qualquer outro bairro nobre) é capaz de "blindar" a elite do contato com a pobreza. Não dá para ignorar que são os pobres que trabalham como babás, empregadas domésticas, cozinheiras, motoristas, jardineiros, porteiros e toda sorte de "eiros" a serviço de quem tem dinheiro de sobra. Pobres e predominantemente negros —é bom que se diga.

Pelas ruas deste país, é impossível deixar de avistar um pobre miserável perambulando, dormindo ao relento, jogado no chão, pedindo esmola ou comida, vendendo alguma quinquilharia ou ‘chapado’ para tolerar a rudeza de um cotidiano privado de esperança.

É desalentador e vergonhoso constatar que a sociedade brasileira continua a formar futuros "líderes" incapazes de sequer enxergar a realidade nacional —que dirá promover a transformação social necessária para fazer deste um país mais justo e menos desigual.

O fim da globalização como a conhecemos

“A inveja do mundo”. Era assim que Simon Rabinovitch e Henry Curr, editores da publicação inglesa The Economist, descreveram o estado da economia dos Estados Unidos em outubro do ano passado. Na série de sete artigos, os jornalistas tecem loas à pujança econômica estadunidense. Afinal, a economia crescia quase 3% em 2024. No agregado, o PIB do país nunca tinha sido tão alto, deixando para trás a retração da pandemia. O trabalhador norte-americano seguia sendo o mais produtivo do mundo e a concentração crescente de riqueza, argumentavam, era apenas o preço a ser pago por uma economia vigorosa.

O crescimento foi possível tendo em vista a revolução energética do petróleo de xisto, cuja extração foi permitida por tecnologia nova, o fracking. Os combustíveis fósseis extraídos por fraturação hidráulica de rochas profundas trouxeram aos Estados Unidos a soberania energética que permitiu o deslanche econômico. A soberania do dólar e de Wall Street nas finanças internacionais permanecia inconteste frente ao yuan e ao mercado acionário chineses. Apenas obstáculos internos poderiam atravancar a situação econômica norte-americana. Apesar de encontrarem problemas no plano econômico de Kamala Harris, Rabinovitch e Curr viam mais defeitos no de Trump.


Para o dissabor dos editores do Economist, cujos textos foram tirados do ar, o resultado da eleição de novembro daquele ano implicou um cavalo de pau na política econômica de Washington. À frente de uma coalizão eleitoral que incluía amplas parcelas da população do Cinturão da Ferrugem, área cujo setor industrial foi dizimado com o processo de globalização e acirramento da competição comercial nos anos 1990, Donald J. Trump foi alçado pela segunda vez à presidência.

Os empresários e plutocratas que compareceram à posse de Trump na Rotunda do Capitólio em fevereiro deste ano não pareciam estar contentes com a situação econômica deixada por Biden. Talvez na esperança de serem poupados de medidas econômicas nefastas, puseram-se a bajular Trump com doações recordes ao fundo que financiara a cerimônia de posse. Custava US$ 1 milhão sentar-se à frente até mesmo dos membros do gabinete que seriam logo empossados, preço prontamente pago por figuras como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg.

Se Musk já colhia os resultados negativos de imiscuir-se nos mais altos níveis da política do país com o boicote à Tesla, agora foi a vez não só de Bezos, Zuckerberg e diversos outros, mas de todo o mercado pagar o preço de alçar Trump a uma nova presidência. O anúncio de um tarifaço global sem precedentes nos últimos cem anos, a que o governo Trump batizou “Dia da Libertação”, levou o mercado financeiro ao colapso. O S&P500, índice composto de quinhentos ativos negociados nas bolsas de Nova York (NYSE e NASDAQ), perdeu US$ 2 trilhões em capitalização em 20 minutos, principalmente concentrados nos setores têxteis e de tecnologia, dependentes de cadeias de valor internacionais.

Michael Feroli, do JP Morgan, estima que as tarifas podem sobretaxar os consumidores norte-americanos em quase US$ 400 bilhões, acelerando significativamente a inflação e reduzindo a renda disponível, o que aumenta a chance de uma recessão. O Federal Reserve de Atlanta já projetava antes do anúncio das tarifas crescimento negativo da ordem de -3,7% no primeiro trimestre de 2025.

O que chama a atenção, no entanto, é a quase absoluta ausência de quesitos técnicos nas tarifas anunciadas. Os agentes econômicos levaram um tempo para processar qual teria sido o critério que a equipe econômica de Trump havia escolhido para atribuir as alíquotas a cada país.

Para começar, a lista de jurisdições tarifadas inclui peculiaridades geográficas dignas de jogos de curiosidade. O primeiro-ministro Anthony Albanese ficou surpreso porque territórios australianos como as ilhas Norfolk (população: 2188 habitantes), ilhas dos Cocos (ou Keeling) (população 630) e ilha do Natal (1692 habitantes) receberam alíquotas diferentes do território continental da Austrália, que se encontra na faixa tarifária mais baixa de 10%. Era como se Fernando de Noronha tivesse uma alíquota tarifária diferente do resto do Brasil.

Mais surpreendentemente ainda, as ilhas Heard e McDonald, também território australiano no inóspito Oceano Antártico e, portanto, não habitadas, receberam menção independente e tarifa de 10%. É desconhecida a reação dos pinguins que habitam a região e o impacto econômico da medida…

As tarifas também pareciam alheias a qualquer caráter geopolítico, até então aliados de Washington como Israel (17%), Japão (24%), Taiwan (24%) e Coreia do Sul (25%), receberam tarifas maiores que o Irã (10%) e Venezuela (15%), não só rivais, mas objetos de sanções da Casa Branca. Foi notada a ausência da Rússia e da Coreia do Norte da lista dos tarifados, enquanto a Ucrânia recebeu uma alíquota de 10%. Os únicos outros poupados dessa rodada de taxação foram os sócios do USMCA, acordo que sucedeu o Nafta, Canadá e México.

Ao desenrolar da noite confusa que sucedeu o anúncio, internautas curiosos conseguiram decifrar o enigma e revelaram o algoritmo por trás do plano de Trump. Os territórios economicamente irrelevantes na lista devem sua presença ali ao fato de que contam com um código de domínio na internet (como o .br que encerra sites brasileiros, ou o .uk dos britânicos). Descarta-se assim a possibilidade de que a lista foi previamente organizada por um departamento técnico, como o Tesouro ou Comércio, mas por assim dizer “agentes” mais afeitos ao mundo digital. A não soberania, status autônomo, ou até mesmo presença de população permanente não é requisito para ostentar as duas letrinhas. Mesmo a Antártida conta com o código (.aq) e é possível registrar um site com esse código apesar da ausência de governo organizado no território. Não se sabe porque o governo Trump decidiu não tributar o continente gelado.

O anúncio do governo associava as alíquotas atribuídas a cada país a uma proporcionalidade, atenuada pela magnanimidade de Trump, do nível de tarifas e outras barreiras não tarifárias impostas às importações de produtos Made in USA. Os números simplesmente não batiam. Singapura, campeã em abertura comercial, recebeu os mesmos 10% do que o Brasil, que tem mercado sabidamente mais fechado aos produtos estrangeiros.

Tuiteiros (usuários do X?) começaram a levantar a hipótese de que as tarifas não tinham nada a ver com a abertura ou fechamento dos mercados às importações norte-americanas, mas sim alguma relação rudimentar com o déficit que os Estados Unidos apresentavam com cada país. Para aqueles com o quais os norte-americanos apresentavam superávit, tarifa mínima de 10%. De hipótese esdrúxula, a possibilidade sustentada por engenharia reversa, a alegação foi posteriormente confirmada pelo escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), agência responsável pela negociação de acordos comerciais. Para dar ar científico à coisa foi publicada uma fórmula assim como citados alguns artigos. A única diferença para o que havia sido desvendado pelas redes eram dois fatores (representados pelas letras gregas ε e φ) cujos valores multiplicados anulam-se mutuamente (uma conta pueril de 4 × 0,25).

Um usuário do Twitter/X desenvolveu a fórmula utilizada pelo USTR para chegar às alíquotas de tarifas para cada país, demonstrando que as tarifas eram proporcionais ao déficit comercial sobre as importações. 

O rumor agora não era apenas que a abordagem do tarifaço era “crua” e que “carecia de lógica econômica abrangente”, focando apenas nos déficits comerciais de bens sem considerar o panorama econômico completo, como avaliou o economista George Saravelos, do Deutsche Bank. Todo o débâcle econômico parecia ter sido gerado por um plano criado de forma pouco sofisticada utilizando inteligência artificial. O ChatGPT e outras IAs retornam fórmulas muito parecidas quando perguntadas algo como “Qual seria uma maneira fácil de calcular as tarifas que deveriam ser impostas a outros países para que os Estados Unidos estejam em igualdade de condições quando se trata de déficit comercial? Defina o mínimo em 10%”. Caso não acredite, confira por si mesmo.

O tarifaço anunciado no “Dia da Libertação” não só surpreendeu pela forma improvisada, quase amadora, com que foi desenhado – mas também pelo grau de desconexão entre os seus objetivos declarados e os efeitos mais prováveis. A ideia de aumentar a produção industrial dos Estados Unidos e reduzir o déficit comercial em US$ 600 bilhões pode até funcionar no PowerPoint, mas na realidade das cadeias globais de valor, das interdependências logísticas e das estruturas produtivas transnacionais, ela parece deslocada no tempo.

Mais do que isso: ela ecoa uma estratégia que quase um século atrás teve consequências desastrosas. A Smoot–Hawley Tariff Act, sancionada em 1930 por Herbert Hoover, aumentou drasticamente as tarifas de importação norte-americanas em plena crise. O resultado foi um colapso do comércio internacional e a intensificação da Grande Depressão. A história, como se sabe, não se repete – mas às vezes rima. A diferença agora é o mundo em que se insere o novo protecionismo americano. Se nos anos 1930 os Estados Unidos ainda hesitavam em assumir o papel de hegemon global, hoje parecem, deliberadamente, abdicar dele. Desde 1945, os Estados Unidos foram os principais arquitetos – e garantidores – da ordem liberal internacional. Aceitaram os custos disso: abriram mercados, financiaram reconstruções, toleraram déficits bilaterais com aliados estratégicos, como Japão e Alemanha. Não por benevolência, mas porque entenderam que estabilidade global e liderança andavam juntas.

Essa lógica começou a ruir nos anos 2000. A OMC estagnou, a Rodada Doha fracassou, e os Estados Unidos passaram a mirar países como China, Índia e Brasil, exigindo que deixassem de ser tratados como “em desenvolvimento”. A crise de 2008 marcou um novo momento: do G7 ao G20, da unipolaridade à multipolaridade emergente. O comércio seguiu, mas com mais fricção. E agora, com Trump de volta, o que se vê é menos um ajuste e mais uma tentativa de desmontar as engrenagens do sistema.

A reação internacional à nova cruzada tarifária revela os limites da política de força bruta. Sem critério técnico, sem lógica estratégica clara, e com uma execução que parece ter saído de um prompt mal calibrado de IA, o plano gerou mais perplexidade do que temor.

A China, alvo preferencial da retórica trumpista, já não é mais a mesma de 2017. Aprendeu a jogar com as regras do sistema – e agora desenvolve ferramentas próprias para responder. Um novo kit de “coerção econômica”, nos moldes norte-americanos e europeus, foi anunciado por Pequim. Já no campo político, a China começa a costurar encontros com Coreia do Sul e Japão, dois parceiros estratégicos dos Estados Unidos, mas que se viram repentinamente tarifados com alíquotas de 24% e 25%, respectivamente. A simples imagem desses três países sentados à mesma mesa, como aconteceu recentemente em Seul, já é uma rachadura no bloco ocidental.

A Índia, que vinha se aproximando de Washington, também acusou o golpe. É um dos poucos países emergentes com crescimento sólido e ambições globais. Não aceitará ser tratada como ameaça econômica e, ao mesmo tempo, como aliada militar. Nova Délhi já iniciou conversas com a União Europeia e com os Brics sobre alternativas comerciais. E o Vietnã, outro país que Washington cortejava com afinco, se viu atingido em cheio. Sua indústria leve, centrada em manufaturas para exportação, é especialmente vulnerável a esse tipo de tarifação. Há sinais de reaproximação com a China, inclusive em temas sensíveis, como tecnologia e energia. Um realinhamento silencioso, mas significativo.

Entre os que escaparam do tarifaço com a alíquota mínima de 10%, o Brasil talvez tenha sido o maior beneficiado. A capitalização da bolsa disparou, o real se valorizou e as exportadoras brasileiras comemoraram. A primeira reação do governo foi de contenção: conseguiu a aprovação pelo Congresso o direito de retaliar nos setores em que se sentir vulnerabilizado. Ainda assim, dado o contexto geral, é provável que o governo busque estabelecer novas negociações com os norte-americanos e manter o objetivo de diversificar a pauta exportadora. A estratégia parece ser ocupar o espaço deixado por parceiros tradicionais dos Estados Unidos. A reabertura do diálogo com a União Europeia, inclusive no âmbito do acordo Mercosul-UE, provavelmente ganhará novo impulso.

No entanto, a bonança pode ser enganosa. Isso porque as tarifas desorganizam o comércio internacional, tornam as relações bilaterais mais imprevisíveis e expõem o Brasil a pressões por alinhamento político. Já se fala nos bastidores de Washington sobre condicionar a manutenção da alíquota reduzida à adoção de compromissos diplomáticos – o que colocaria Brasília em uma posição delicada, entre a neutralidade pragmática e a barganha geopolítica.

Nesse sentido, o Brasil se alinha à linha adotada pelo México de Claudia Sheinbaum: explorar oportunidades sem comprometer a estabilidade. Mas enquanto o México conta com a blindagem do USMCA, o Brasil precisa navegar com mais astúcia – e entender que sua posição vantajosa pode não durar. A questão é se o país conseguirá transformar esse momento em alavanca para maior protagonismo internacional ou se apenas assistirá à crise norte-americana como espectador privilegiado.

É tentador decretar o fim da globalização. Mas talvez o que esteja em curso não seja o seu colapso – e sim uma mutação. A crise deflagrada pelas tarifas de Trump não é exatamente um ponto fora da curva. Ela está mais para um ponto de inflexão dentro de um processo mais longo, iniciado há pelo menos uma década e meia. A verdade é que o ordenamento liberal construído no pós-1945 já vinha se esgarçando. Seu apogeu talvez tenha sido nos anos 1990, com a consolidação da OMC, a expansão dos tratados bilaterais e regionais, e a promessa de um mercado global cada vez mais integrado, onde normas, instituições e previsibilidade compensariam as assimetrias. Os Estados Unidos lideravam esse processo, com ganhos tangíveis: exportavam produtos, mas também regras, modelos de governança, contratos e valores.

A crise de 2008 abalou as fundações desse sistema. O colapso do Lehman Brothers, a quebra de bancos na Europa e a resposta coordenada do G20 expuseram tanto o poder de articulação dos Estados Unidos, quanto os limites da sua capacidade de manter a estabilidade por meios exclusivamente liberais. Foi ali, no epicentro de Wall Street, que a globalização revelou sua face mais assimétrica. Por isso, para muitos países emergentes, 2008 foi menos uma crise e mais uma revelação: o sistema era instável e enviesado, e mesmo os que o desenharam não conseguiam controlá-lo. Foi nesse contexto que começaram a germinar os primeiros sinais de multipolaridade sistêmica: a criação dos Brics, o fortalecimento do G20, a ascensão da China como investidora alternativa do mundo em desenvolvimento.

Desde então, o que se viu foi uma crescente dissonância entre os discursos em defesa da ordem e as práticas de seus principais fiadores. A OMC estagnou. A Rodada Doha fracassou. Os acordos plurilaterais perderam tração. E os Estados Unidos – que sempre alternaram protecionismo seletivo com retórica liberal – passaram a agir cada vez mais de forma unilateral, impondo sanções, abandonando tratados e esvaziando instituições.

A volta de Trump à Casa Branca apenas leva essa tendência ao extremo. O tarifaço não é só uma política econômica. É uma declaração de abandono das regras que sustentavam a hegemonia americana, não por falta de poder, mas por escolha. Em vez de liderar com instituições, os Estados Unidos ensaiam liderar pelo choque. E isso tem consequências. No mundo do pós-Guerra Fria, a hegemonia norte-americana não se baseava apenas em tanques e dólares. Ela dependia da percepção de legitimidade. As instituições – FMI, Banco Mundial, OMC, ONU – funcionavam como extensões do poder norte-americano, mas revestidas de uma capa de multilateralismo. Quando Washington desrespeita ou ignora essas mesmas regras, sinaliza que a ordem é apenas um instrumento, não um fim. E com isso, abre espaço para alternativas.

A China, hoje, não busca necessariamente destruir o sistema – mas moldá-lo à sua imagem. Lança bancos paralelos (como o AIIB e o Novo Banco de Desenvolvimento – do BRICS), consolida sua moeda como instrumento de trocas regionais, e oferece infraestrutura e crédito a países que já não veem no Ocidente sua única opção. A Índia, o Vietnã, a Indonésia e mesmo países africanos também emergem como polos de estabilidade relativa, com peso demográfico, crescimento econômico e capacidade de articulação regional. E para fechar a história, Japão e Coreia do Sul se encontram em Seul com representantes chineses para buscar alternativas para a abertura comercial conjunta.

O mundo pós-2025 pode não ter um hegemon claro. Mas terá centros de poder, interesses cruzados e coalizões flexíveis. A fragmentação da ordem liberal não significa o retorno ao caos — mas sim um novo tipo de ordenamento, mais contingente, mais regionalizado, menos hierárquico. A globalização não acabou. Mas deixou de ser dirigida por um só maestro.

O mundo em colapso

A imagem já foi usada em textos anteriores. Trata-se da imagem do relógio do Juízo Final. Que está se aproximando meia noite. Para quem desconhece a história. Em 1947, a artista norte-americana, Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr, do projeto Manhattan (fabricação da bomba atômica), desenhou um relógio para a capa do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago.

O relógio faz uma analogia com a raça humana, mostrando que a Humanidade está a segundos da meia noite, hora em que o planeta será devastado por uma guerra nuclear. Todos os anos, a imagem é redesenhada no boletim dos cientistas atômicos, onde se anuncia o apocalipse. Pois bem, nesses primeiros meses de 2025, a meia noite da catástrofe chegará em 90 segundos.

E quem sugere essa proximidade são os dirigentes das grandes potências que têm se referido em suas falas sobre a possibilidade de usar armas de destruição do planeta para defender seus territórios.


Vejamos. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia ultrapassa os limites do bom senso. Fala-se em cessar fogo, mas o que se vê, a cada semana, é a expansão do poder destrutivo dos dois países. A Rússia promete agir contra o que chama de militarização da União Europeia, após os líderes do bloco concordarem em aumentar gastos com defesa.

Na Faixa de Gaza, a guerra entre Israel e os palestinos não dá sinais de arrefecer.

Guerras se multiplicam nos quadrantes do planeta. Além da guerra entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestinos, vivem situações de conflitos os seguintes países: Síria, Iêmen, Sudão, República Democrática do Congo, Etiópia, Afeganistão, Líbia e Mianmar.

Um estudo realizado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) mostra que, no ano passado, houve um grande aumento no sofrimento humano e na intensidade das guerras e conflitos globais. Mais de 200 mil pessoas foram mortas em 134 guerras e outros conflitos armados, representando um aumento de 37% em relação ao número de vítimas registradas no período dos 12 meses imediatamente anteriores, quando o confronto na Ucrânia já estava em seu segundo ano.

O mundo vive um dos ciclos mais tensos de sua história, a ponto de se indagar se não estamos voltando aos tempos da Guerra Fria, período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus respectivos aliados, o Bloco Oriental e o Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial.

O Papa Francisco diz que o mundo está a viver um momento de “autodestruição” com conflitos por todos os lados. Na encíclica “Laudate Deum”, de 2023, afirmava: urge “desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra”. E fazia o alerta: o mundo está “entrando em colapso e talvez se aproximando de um ponto de ruptura“. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também alerta: a “Guerra Fria voltou”.

As tensões se acirram. Nas últimas semanas, a “guerra comercial” deflagrada pelo senhor do topete laranja, paira como ameaça sobre as já combalidas economias do planeta. A trégua de 90 dias dada pelo presidente czar americano, ao suspender o tarifaço que impôs a mais de 60 países e blocos comerciais (com exceção da China), é um alívio passageiro. O mundo pós-tarifaço do mandachuva do Império Norte já não é o mesmo.

A paisagem é tão cheia conflitos que até a interpretação do professor Samuel Huntington em seu livro “Choque de Civilizações”, escrito há 40 anos, parece atual para descrever o caos que o mundo vivencia: “quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.”

A violência se expande em todas as áreas. No Irã, os aiatolás se voltam contra as mulheres. Que vão às ruas para protestar contra o Estado religioso. Em diversas regiões do planeta, o trabalho escravo aumenta seus espaços. Aqui, em nossas plagas, o trabalho infantil desafia as forças da lei. A floresta amazônica é usada como um grande corredor para exportação de drogas. A Nação yanomami continua sendo invadida por garimpeiros.

A sensação é a de que o País navega nas ondas da impunidade. Habitamos um território da desobediência explícita, o que justifica o chiste sobre nossa sociedade: Há quatro tipos de sociedade no planeta: 1. a inglesa, liberal, onde tudo é permitido, exceto o que é proibido; 2. a alemã, rígida, onde tudo é proibido, exceto o que for permitido; 3. a ditatorial (Coréia do Norte), fechada, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido; e 4. a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido.

Nada mais surpreende. O PCC constrói seu cofre de Tio Patinhas, onde esconde cerca de R$ 10 bilhões. Seus negócios se espalham pelo mundo. E onde estão seus comandantes? Em celas de segurança máxima, onde estão trancafiados.

Resumo desse relato: guerras armadas, conflitos, disputas, mortandade, guerra comercial, carteis de droga, Estados fracassados, Nova Guerra Fria, trabalho escravo, trabalho infantil, destruição do meio ambiente, violência contra povos originários, violência contra a mulher – são sinais de que o mundo está em colapso. O relógio do Juízo Final marca, hoje, 90 segundos para Meia Noite, o final dos tempos.

domingo, 13 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Go home!

É estratégico. O governo (Barack) Obama tirou os olhos da bola e deixou a China tomar toda América do Sul e Central, com sua influência econômica e cultural, fazendo acordos com governos locais de infraestrutura ruim, vigilância e endividamento. O Presidente Trump disse ‘não mais’, vamos recuperar o nosso quintal.
Peter Hegseth, Secretário de defesa 

Os americanos que defendem a procriação seletiva

A cidade de Austin, capital do Texas, é um oásis liberal fincado num estado sulista majoritariamente conservador. Sua respeitada universidade também — dois terços dos 52 mil alunos que ali estudam se declaram liberais, e apenas 10% conservadores. Mesmo sem dados específicos sobre o corpo docente da bicentenária instituição, pode-se supor que os mais de 3,2 mil professores de suas 19 faculdades também espelham esse perfil arejado. Daí a estranheza com a realização, num dos 50 prédios do espaçoso campus, de um simpósio bastante exógeno ao saber acadêmico.

O evento anual que atende pelo nome de Natal Conference (ou NatalCon - "Estamos vivendo a maior crise populacional da história da humanidade.
O futuro pertence àqueles que se apresentam"
), agora em sua segunda edição, foi divulgado on-line até em português. Ao longo de dois dias da semana passada reuniu “pró-natalistas” dedicados, em princípio, a buscar soluções para estancar e inverter o declínio das taxas de natalidade no mundo. O tema não é novo, vem sendo debatido desde o pico dos anos 1960 por demógrafos, economistas e cientistas de várias vertentes. O “novo”, no caso da NatalCon, é a naturalidade com que organizadores e participantes convergem para promover, senão a eugenia, algo muito próximo dela.

Joseph Goebbels, ministro da propaganda hitlerista, e família

O preço do ingresso individual neste ano foi de US$ 10 mil (quase R$ 60 mil para um fim de semana ) e, mesmo assim, “sujeito à aprovação”, conforme constava da ficha de inscrição. O site da conferência também avisava que os “debates francos e profundos” seriam a portas fechadas, com celulares proibidos, e que haveria algum tipo de filtro dos participantes. Os solteiros receberam pulseiras amarelas indicativas de que procuravam futuras esposas para formar famílias de filhos múltiplos. Graças a uma reportagem da CNN americana, que obteve acesso parcial ao evento, foi fácil constatar o óbvio: a natalidade desejada é somente para brancos. Brancos americanos. Brancos americanos aptos. Brancos americanos aptos e extremistas.

Oradores martelaram mensagens subliminares:

— Isso é uma guerra da civilização, e vamos vencê-la passo a passo.

— Precisamos de mais crianças para nosso futuro.

— Pessoas marginais devem ser mantidas à margem.

— Enquanto a esquerda se preocupa em abrigar gatos, queremos multiplicar o nascimento de bebês.

O marido de uma palestrante em trajes coloniais e touca branca de algodão, com um dos cinco filhos amarrado às costas, queria saber “por que pessoas focadas em alta fertilidade são vistas como esquisitas?”.

Segundo o discurso oficial, a meta política ou ideológica da conferência era uma só: trabalhar para “um mundo em que nossos filhos podem ter a segurança de vir a ter netos”. Faltou explicitar “netos aptos”.

— Não é eugenia, não se trata de esterilizar pessoas inadequadas — garantiu a genitora da touca de algodão alvo.

Ah, bom.

— Poder escolher o melhor entre nossos próprios embriões não é fazer seleção — acrescentou, convicta.

Uma coisa deve ter ficado clara ao final da conferência com toques de cientificismo racial: o almejado aperfeiçoamento de futuras gerações não se destinava a contemplar bem-estar ou melhorias para a população em geral. Dane-se a humanidade.

Por que desperdiçar tempo com um evento de escopo tão limitado, quando comparado ao precipício global cavado por Trump na Casa Branca? Porque a conferência em Austin e o poder em Washington têm dois cordões umbilicais de peso: um é o vice-presidente J.D.Vance, herdeiro natural do movimento Maga (se algum dia Trump sair do poder). Vance é jovem (40 anos), além de celerado e oportunista. Já abraçou publicamente o “natalismo” e nele se embrenhará com afinco se e quando necessário.

O outro é ninguém menos do que Elon Musk, defensor radical do repovoamento seletivo do mundo. A maioria dos seus 13 filhos foi gerada por fertilização in vitro por quatro mulheres (o caçula tem 7 meses de idade), buscando, talvez, o DNA da genialidade. (A exceção é a filha trans Vivian Jenna, de 21 anos, que do pai não quer sequer o sobrenome.) Musk não apenas apoiou e recomendou a realização da conferência, como tem fundos e mundos para multiplicá-la exponencialmente, onde quiser.

Caso, alguma vez, ele tenha lido algo do biólogo e paleontólogo Stephen Jay Gould, deve ter sido com a ajuda da ferramenta Blinkist, a preferida de CEOs e big techs para economizar tempo. Assim, deve ter passado batido por um dos ensinamentos mais bonitos do cientista que amava as espécies:

— Estou menos interessado no peso e nas convoluções do cérebro de Einstein que na quase certeza de que pessoas com talento igual ao dele viveram e morreram em campos de algodão e oficinas exploradoras.

Quarenta anos de uma democracia fundada por ditadores

Planejaram febrilmente o Brasil ia mudar
Congelaram a pátria amada
Botaram as coisas no lugar
Todo mundo, o mundo inteiro
Essa farsa engoliu
O povo se fodeu e o Brasil faliu
Deu errado
Plano furado
Eles não fraquejaram
Prometeram que iam ver
Uma desculpa nova do plano refazer
Refizeram a Constituinte com um grande bacanal

Não rifaram o Brasil porque era ilegal.
“Plano furado”, Ratos de Porão






Era 2009, 24 anos depois da transição democrática, que os pesquisadores do CPDOC/FGV entrevistaram o ex-ministro das Relações Exteriores, Saraiva Guerreiro. O último chanceler do Regime, ou da “Revolução”, como muitos deles falavam em ambientes internos, mostrou seu depoimento e sua memória sobre a transição. Ele diz: “(…) eu não vejo na Nova República, como é chamada, uma quebra propriamente com o passado, mas sim uma busca de refazer tudo de acordo com o que eram ideais do passado que nunca conseguimos efetivar”.

O historiador Tiago Monteiro inicia seu artigo na saudosa Revista de História da Biblioteca Nacional, destacando um ponto central para entendermos o processo de redemocratização: “A eleição de janeiro de 1985, que muitos insistem em apresentar como uma derrota das Forças Armadas, constitui, na verdade, a própria vitória da Revolução de 1964, através da consolidação do processo político brasileiro”. O que nos faz pensar que a democracia inaugurada pela chamada “Nova República” foi fundada por ditadores. Um paradoxo curioso.

A ideia de que o povo nas ruas, que as manifestações pelas diretas já etc. levaram à redemocratização não é confirmada pelos fatos. Até porque, em 25 de abril de 1984, a emenda das Diretas foi derrotada por escassez de deputados. Deste modo, o professor Marcos Napolitano questiona: “Como milhões de pessoas nas ruas não conseguiram derrotar um regime isolado e desprestigiado, nem dobrar seus representantes no Congresso?”

Os militares queriam uma democracia controlada pelas Forças Armadas. O objetivo era manter o poder militar via Estado de direito. O que vemos aqui é o que Maria Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro chamaram, tendo como objeto a cultura política do período ditatorial brasileiro, de “utopia militar”. Essa utopia “estava claramente fundada na ideia de que os militares eram, naquele momento, superiores aos civis em questões como patriotismo, conhecimento da realidade brasileira e retidão moral”. Para Carlos Fico, a utopia militar trata-se da “crença de que seria possível eliminar quaisquer formas de dissenso (comunismo, ‘subversão, ‘corrupção’) tendo em vista a inserção do Brasil no campo da ‘democracia ociedental cristã’”. De acordo com essa ideologia, o sistema de valores ocidentais só seria “salvo” por meio de uma utópica “democracia militar ocidental”.

No início planejava-se “a constitucionalização do regime, mas não o retorno do país à democracia liberal”. No entanto, quatro fatores prejudicaram esse projeto: a vitória do MDB nas eleições parlamentares de 1974; a crise econômica; o fato do presidente Jimmy Carter iniciar uma política de direitos humanos que não tolerava mais ditaduras no continente; e os assassinatos em quartéis, com as mortes do jornalista Vladimir Herzog e de Manuel Fiel Filho.

Contudo, o projeto militar encontrou uma solução: Tancredo Neves. O candidato civil era “diplomado na ESG e frequentador das reuniões de ex-alunos da instituição”. Tancredo se comprometeu com o projeto de Distensão – então chamado de Abertura – e de não punir nenhum militar envolvido na repressão. Escolheu para ministro generais “esguianos” – formados pela ESG – como os generais Ivan Mendes e Leônidas Gonçalves.

O que ocorreu foi uma transição pelo alto. Talvez por isso, a morte de Tancredo ganhou uma cobertura ampla, que o transformou em um verdadeiro mito pela imprensa que apoiou a ditadura militar. O Fantástico da Rede Globo dedicou quatro horas transformando o presidente eleito em mártir; “claramente representado pelo mito cristão da redenção pela morte do messias”.

Tancredo faleceu em 21 de abril de 1985 e o primeiro presidente civil acabou sendo o seu vice, José Sarney, político vindo da Arena – partido ligado ao regime militar.

Sarney assumiu a posse antes de Tancredo morrer, que só autorizou a cirurgia (que não viria a ter sucesso) ao saber que Sarney seria empossado.

O historiador Jorge Ferreira mostra um episódio emblemático: “O general João Figueiredo, desafeto político de Sarney, negou-se a passar-lhe a faixa presidencial e saiu pela porta dos fundos do Palácio do Planalto. Ninguém parecia perceber e nem se preocupar com o episódio. Os militares, que entraram no Palácio arrombando a porta da frente, saíram sem serem percebidos pela porta dos fundos”.

Desse modo, o povo mais uma vez viu os militares mexerem os pauzinhos e determinarem os rumos da República enquanto assistiam tudo bestializados. Não houve ruptura, apenas a imposição liberal do projeto militar que tem como objetivo central a não participação popular na condução do país.

A frase de Bolsonaro, pronunciada em 2021, perante os militares no Rio de Janeiro descreve o plano militar: “Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas. Não tem ditadura onde as Forças Armadas não a apoiam”. Indiretamente, essa frase pode ser interpretada exatamente da maneira pela qual os militares do período pensavam a redemocratização. Uma espécie de tutela, no qual eles decidem o momento de fazer uma intervenção ou não.

Desde 1985, os militares se retiraram da cena política com a certeza de que não iriam ser punidos pelos crimes cometidos entre 1964 e 1985. De certa forma, eles negociaram a transição com civis que fossem próximos do entorno militar ou que pelo menos tivessem um sentido mais conservador. Como bem aponta o historiador Adriano de Freixo, os militares aceitaram perder o protagonismo político, mas não ser controlados pelas forças civis.

Durante o período em que não estiveram no centro do poder político, as diversas tentativas de controle dos civis causaram crises. Por exemplo, no segundo governo FHC (1998-2002), a criação do Ministério da Defesa (MD) foi uma tentativa de fazer um maior controle das forças, algo que sofreu críticas e acabou não sendo bem aceito pelos militares. Depois, durante uma parte da gestão Lula II (2006-2010) e Dilma (2011-2014), iniciou-se as discussões sobre as reformas no ensino militar, com a possibilidade de mudar o currículo e colocar temáticas que fossem mais próximas do debate democrático. A simples menção a mudanças no currículo gerou muitas dificuldades para as gestões petistas. A última tentativa de mudar o pensamento militar autoritário foi com a Comissão da Verdade, algo que não foi aceito pelos militares que se basearam na Lei da Anistia para não mexer naquele antigo passado.

Entretanto, os militares, após um longo período na caserna, aproveitaram a oportunidade que as jornadas de 2013 trouxeram. A crise econômica e política que gerou o golpe de 2016 abriu uma oportunidade para recuperar o protagonismo político. Apesar de não aceitarem e não respeitarem uma figura do “baixo clero” e indisciplinada como Bolsonaro, eles entenderam que era uma possibilidade de ter alguém comandando a Presidência da República que poderia favorecer as suas pautas. Entre as quais estavam um constante aumento de militares nos cargos da administração federal, valorização salarial e aumento do orçamento para as Forças Armadas.

Para além dessas demandas classistas, os militares da alta cúpula que cercaram Jair Bolsonaro, eram formados pela Escola dos Agulhas Negras (Aman) e com a mentalidade autoritária militar desde 1889. Isto é, ancorada nos três pilares que aponta Carlos Fico: o desprezo pela política, a convicção da superioridade dos militares em relação aos civis e a crença de que a sociedade não está preparada para se governar. Logo, entende-se porque o alto escalão das forças estava disposto a fomentar um golpe de Estado no país. Eles são formados para acreditarem que são superiores moralmente na governança do país, e se levarmos em conta que foram eles que negociaram a transição democrática em 1985, em suas cabeças eles estavam apenas fazendo o que era correto para a sociedade, como bons tutores da nação.

Contudo, nessa democracia forjada pelas Forças Armadas, não são elas que determinam as medidas que serão adotadas pelo governo. Dentro do sistema neoliberal brasileiro, quem dita as regras são o mercado financeiro e o agronegócio. E, como nesse sistema a principal responsabilidade do Estado é a segurança, já que a meta é privatizar tudo (educação, saúde etc.), os militares (principalmente no Brasil onde não houve um acerto de contas com os crimes cometidos por eles durante a ditadura) acabam adquirindo um grande protagonismo, ganhando reconhecimento e prestígio perante a população que vê nas Forças Armadas a solução final para combater a violência. O neoliberalismo tornou-se uma espécie de antessala de uma ditadura em nome da segurança.

Uma democracia fundada por ditadores e administrada pelas elites econômicas pode ser chamada de democracia?

Nesse sentido, é importante desconstruir essa noção de que os militares são superiores em relação aos civis. E para tanto, o julgamento sobre a tentativa de golpe de Estado e destruição das instituições democráticas, é um ponto fundamental, posto que, desde 1889, não houve, em nossa história, punições para os militares que fomentaram golpes militares.

Além disso, seria imprescindível, em termos econômicos, compreender que o capitalismo limita a democracia. A cientista política, Ellen M. Wood, é enfática sobre esta questão: “Não existe um capitalismo governado pelo poder popular no qual o desejo das pessoas seja privilegiado aos dos imperativos do ganho e da acumulação e no qual os requisitos da maximização do benefício não ditem as condições mais básicas de vida. O capitalismo é estruturalmente antiético em relação à democracia, em princípio, pela razão histórica mais óbvia: não existiu nunca uma sociedade capitalista na qual não tenha sido atribuído à riqueza um acesso privilegiado ao poder”.

Enquanto o povo morria de Covid-19, uma ditadura quase renascia

A denúncia do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 36 pessoas envolvidas em um movimento articulado para a promoção de um golpe de Estado no país revela um plano sombrio que vai muito além da simples recusa em aceitar os resultados das eleições de 2022.

O que toda a sociedade brasileira não sabia é que em 2021, enquanto milhares de brasileiros morriam de Covid -19 sem atenção do governo, causando uma enorme dor coletiva, Bolsonaro, com a alta cúpula do governo, já traçava um plano para excluir a possibilidade de honrarmos a memória dos nossos entes queridos nas urnas no ano seguinte.

Enquanto o Brasil registrava números recordes de mortes por Covid-19, o então capitão-presidente e sua cúpula governamental articulavam um golpe para se manter no poder, independentemente da vontade popular. Era a implementação de um projeto sistemático de desestabilização da democracia para que os amantes da tortura e do autoritarismo permanecessem no poder.


Conspiravam enquanto milhares de brasileiros perdiam a vida por negligência do Estado. As famílias choravam seus mortos, Bolsonaro fazia chacotas das mortes e planejava como silenciar o povo e garantir poderes absolutos. Esses dois fatos explicitam o seu desprezo à vida e à democracia. Aliás, um dia ele disse, sem ficar ruborizado, que sua especialidade era a morte. Quanto a isso, não mentiu: mais de 700 mil pessoas morreram vítimas da doença, que se alastrou por conta do negacionismo do governo passado.

Quando Bolsonaro ridicularizou as vítimas imitando uma pessoa sufocada e muitos pensaram que se tratava de sua mera incapacidade mental e de empatia, fez isso porque, segundo a denúncia da PGR, ele e seus comparsas previam o “uso da força”, “dar soco” e “virar a mesa” antes mesmo das eleições. Isso mesmo: queriam calar a nossa voz a qualquer custo.

Enquanto o presidente Lula passou a viajar pelo país ouvindo o sofrimento da população e acreditava no caminho democrático, os golpistas bolsonaristas davam passos para a “execução do plano de permanência no poder, independente do resultado das urnas”. Eles nunca quiseram disputar as eleições constitucionalmente definidas e nem enfrentar a maior limitação para um autoritário na democracia: o poder do povo.

Ao contrário deles, nós acreditamos no poder do povo e na importância da Constituição. Pessoas como o meu pai, perseguido pela ditadura, e tantos outros que sequer tiveram a mesma sorte de estar vivos, enfrentaram o regime militar para termos uma democracia. E é essa democracia que garante aos golpistas, hoje, um devido processo legal e assistência de advogados para se defenderem perante o STF.

Em 2021, governo federal minimizava a gravidade da Covid-19, promovia tratamentos ineficazes e ridicularizava as vítimas. Bolsonaro performava cruelmente para ridicularizar as vítimas da doença. No entanto, a denúncia da PGR mostra que esse comportamento não era apenas fruto de ignorância, mas parte de uma estratégia para deslegitimar o sofrimento alheio e preparar o terreno para medidas autoritárias.

Os brasileiros que sobreviveram à pandemia – e aos anos de desgoverno – tiveram a chance de ir às urnas em 2022 para honrar a memória daqueles que foram vítimas da negligência estatal. Muitos perderam pais, filhos, companheiros e amigos. Essas mortes não foram apenas números; foram vidas interrompidas por um governo que escolheu a omissão e o negacionismo.

Agora, o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) não é apenas sobre Bolsonaro e seus aliados golpistas. É sobre o direito de milhares de brasileiros de serem lembrados. É sobre garantir que nenhum governante possa novamente conspirar contra a democracia enquanto o povo sofre.

A Constituição de 1988 garantiu a todos – negros, brancos, pobres, ricos, LGBTQIA+ – o direito de opinar sobre os rumos do país. Mas milhões de brasileiros foram privados desse direito não pela lei, mas pela morte precoce causada pela crueldade e incompetência do governo Bolsonaro.

Hoje, aqueles que sobreviveram têm a obrigação de lutar para que a justiça prevaleça. Não apenas pela condenação dos responsáveis pelo golpe frustrado, mas para que nenhum outro governo ouse novamente brincar com a vida do povo.

O julgamento dos golpistas pelo STF não diz respeito apenas a lados políticos e à defesa da democracia, mas também ao direito que os milhares de brasileiros mortos têm de ser lembrados. É na memória dos pais, mães, filhos, parentes. companheiros, amigos ou vizinhos que hoje dizemos: nós temos amor ao próximo e não deixaremos que ninguém nos cale. Temos a força da memória e da resistência. Ainda estamos aqui.

Perto do ponto de não retorno

O Pantanal, vasta planície inundável do Brasil e a maior do mundo, é, atualmente, um dramático epicentro das adversidades climáticas exacerbadas pela ação humana. A região enfrenta secas severas e incêndios descontrolados, fenômenos que espelham não apenas uma crise ambiental local, mas, também, uma perturbação climática de escala global.

Os eventos no Pantanal não são um fenômeno isolado. O planeta testemunha um crescimento alarmante na frequência e na gravidade de eventos climáticos extremos. Tempestades devastadoras e ondas de calor sem precedentes são observadas das Américas à Europa, evidenciando uma crise que desafia fronteiras geográficas e exige atenção internacional.


Essa intensificação dos eventos extremos deve-se à interação das atividades humanas com os delicados sistemas naturais do planeta. A queima de combustíveis fósseis, práticas agrícolas insustentáveis e, crucialmente, o desmatamento e a degradação acelerada, especialmente nas regiões tropicais, contribuem significativamente para este cenário.

As florestas e savanas da Amazônia e do Cerrado são vitais para a regulação hídrica e climática. Ao serem degradadas, comprometem o regime de chuvas e afetam regiões dependentes, como o Pantanal. O desmatamento nesses biomas contribui de forma decisiva para a redução drástica na humidade, que precipita secas e incêndios.

É alarmante constatar que, nas últimas três décadas, o Pantanal sofreu uma redução de 60% da sua superfície de água, segundo os dados do MapBiomas, iniciativa que, desde 2015, analisa o uso do solo nos diversos biomas brasileiros. É um indicativo claro do impacto que as alterações climáticas e a destruição dos ecossistemas têm sobre os ambientes aquáticos e a biodiversidade.

A interligação entre o desmatamento nos biomas vizinhos e a alteração no ciclo de água do Pantanal é um exemplo palpável de como os impactos ambientais são interconectados e amplificados pelas atividades humanas. Secas prolongadas no Pantanal não apenas reduzem a humidade do solo e da vegetação, tornando a área mais propensa a incêndios; também afetam a biodiversidade e a vida das comunidades locais.

Diante deste quadro desafiador, a mitigação emerge como uma necessidade urgente. Reduzir emissões de gases de efeito estufa, promover práticas agrícolas sustentáveis e preservar áreas florestais são medidas essenciais. A colaboração global entre sociedades, governos e organizações é fundamental para desenvolver estratégias de adaptação e mitigação que possam enfrentar uma crise tão iminente quanto escalável.

Compreender a magnitude da crise climática e o papel vital que cada um pode desempenhar na promoção de um futuro mais sustentável é crucial.

Podemos estar muito próximos de “pontos de ruptura” climáticos que, uma vez ultrapassados, podem desencadear mudanças irreversíveis e autoperpetuantes nos sistemas terrestres, tornando a vida significativamente mais difícil e imprevisível para as gerações futuras. Evitar esses pontos críticos significa manter a integridade de ecossistemas vitais, como as florestas tropicais e o gelo polar, cuja destruição poderia desestabilizar o clima global de maneiras que ainda lutamos para compreender completamente.

A adoção de medidas rigorosas de proteção ambiental e a rápida transição para uma economia de baixo carbono são essenciais para mitigar os riscos de ultrapassar esses pontos de não retorno. Agir agora não é apenas uma responsabilidade ética; é uma necessidade pragmática para garantir um futuro sustentável e habitável. A nossa geração tem o dever de reconhecer e responder a estas ameaças com a urgência e seriedade que elas exigem, para assegurar que não comprometemos a capacidade de o nosso planeta sustentar a nossa e as futuras gerações.

sábado, 12 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Coragem dos ignorantes

Donald Trump não é um político tradicional. Ele frequenta a categoria dos homens corajosos porque desconhecem os problemas que o cercam. São os destemidos ignorantes. Ele avançou e chegou a preocupar o mundo das finanças quando as letras do Tesouro dos Estados Unidos começaram a ser vendidas em grandes quantidades e os compradores começaram a exigir juros mais elevados. Isso significa, na linguagem de quem lida com o assunto, que a confiança tinha acabado. Ao mesmo tempo, verificou-se grande quantidade de ordens de compra de títulos do governo alemão. As bolsas despencaram, e o previsível caos se anunciava no final da jornada. Diante da catástrofe iminente, Trump recuou. Limitou sua guerra a um alvo: a China.


Seu recuo de 90 dias, três meses, concede um prazo razoável para o mundo entender melhor aonde o presidente dos Estados Unidos quer chegar. A sua proposta de substituição de importações, velha política latino-americana sugerida pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), parece fora do tempo. As indústrias norte-americanas que migraram para a China também se modernizaram no país que as recebeu. Os trabalhadores foram substituídos por robôs. Se a política de Trump tiver algum resultado positivo, nos próximos anos será representada por nova geração de robôs que vão trabalhar em fábricas norte-americanas. Mas nada disso acontecerá no curto prazo, nem dentro de um mandato presidencial de quatro anos.

O mundo conseguiu um prazo para respirar. Os europeus, que já tinham decidido retaliar na mesma proporção do agravo, resolveram aguardar 90 dias. A maioria dos países se contentou com esse novo prazo e passou a assistir de arquibancada à luta entre os dois gigantes do comércio mundial. Os chineses jogam xadrez. Responderam vendendo 50 bilhões de dólares em títulos do Tesouro norte-americano, o que provocou a desvalorização do papel e quebrou a confiança internacional naquele investimento. Os americanos acusaram o golpe e recuaram imediatamente. Mas taxaram os produtos chineses em absurdos 145%.

Guerras tarifárias não costumam consagrar vencedores ou vencidos. Costumam dar motivos para guerras de verdade, tiros e bombas para todos os lados. As últimas duas guerras mundiais estão repletas de exemplos de tributação excessiva que degenerou em conflito bélico. A condenação da Alemanha a pagar vultosas multas após a primeira guerra resultou na indignação do país, na consequente preparação bélica que desaguou no conflito que produziu mais de 50 milhões de mortos.

A irracionalidade dos dirigentes políticos não é recente, nem original. As pessoas suspeitavam que os novos e mais eficientes meios de comunicação produziriam melhores líderes, mais bem informados. Não é verdade. Trump é um legítimo representante do pensamento dos anos 30 do século passado. Além disso, ele é contra a educação nos Estados Unidos — persegue estudantes que façam crítica ao governo norte-americano e a Israel —, expulsa migrantes sem qualquer critério, nem julgamento. Coloca gente de outro país em prisão em El Salvador, a troco de um generoso pagamento. Ataca o Judiciário, não respeita as leis, além de ter traído a confiança de grandes eleitores, que contribuíram com milhões de dólares para sua campanha. Destruiu a aliança ocidental e quebrou o cristal da confiança que o governo de Washington inspirava no mundo. Demitiu milhares de funcionários públicos.

Um espanto. Trump é uma espécie de Nero moderno, com sua pinta de galã dos anos 30, sem qualquer verniz intelectual. O Brasil, com exceção de umas poucas empresas grandes estabelecidas em várias partes do mundo, está protegido das loucuras do homem forte do Norte por ser pequeno e não pertencer a nenhum bloco que possa ser severamente penalizado. Talvez haja algum embaraço na reunião do Brics, quando deverá ser realizado algum tipo de desagravo em relação à China. Mas, o histórico subdesenvolvimento nos protege, porque não há muito o que discutir com o Brasil, que mantém a balança comercial deficitária com os Estados Unidos. Recebeu uma taxa recíproca básica de 10%, mas poderá se beneficiar no eventual aumento de comércio com a China e outros países asiáticos. Até os europeus já admitem a possibilidade de ratificar o acordo Mercosul-União Europeia.

Mas ninguém duvida de que Trump é um personagem da mídia. Ele adora frequentar as manchetes de jornal, estar diante dos holofotes de televisão. Faz qualquer negócio para aparecer sempre. Ele prometeu acabar com a guerra da Ucrânia e com o conflito entre Israel e palestinos. Tudo em uma semana. Não acabou nem com uma nem com outra guerra. Mas apareceu nos jornais do mundo inteiro.