quinta-feira, 13 de março de 2025

A grande bagunça: como Trump governa os Estados Unidos

Trump governa com uma folha de papel, um lápis e uma borracha. Taxou a importação de produtos mexicanos e canadenses. Depois apagou sua decisão. Depois escreveu que ela valerá em breve.

Trump escreveu que cabe ao homem mais rico do mundo, Elon Musk, cortar despesas do governo, atuando diretamente sobre as áreas onde o número de funcionários é gigantesco e sem razão.

Diante da gritaria dos seus secretários de Estado e chefes de departamentos revoltados com as interferências de Musk, Trump reescreveu a decisão. Caberá a Musk apenas aconselhá-los.

Em entrevista a um canal na internet, perguntado se a política econômica do seu governo não poderia provocar uma recessão, ele admitiu que “talvez”. Então, o valor das ações caiu no mundo todo.


A ideia de Trump de esvaziar Gaza de palestinos para transformá-la em uma espécie de colônia de férias para milionários foi cancelada. A bem dizer, não era para sair do papel.

Vez por outra, Trump fala em tomar a Groelândia da Dinamarca e o canal do Panamá do governo panamenho. Mas, pelo menos por ora, não avançou para além da fala. Quanto à guerra na Ucrânia…

Trump encenou o maior espetáculo televisivo jamais vivido por um presidente americano; um espetáculo ao vivo e direto da Casa Branca que deixou chocados os que o assistiram.

A convite dele, Zelensky, presidente da Ucrânia, o visitou. É de praxe que os dois posassem primeiro para fotos, trocassem alguns comentários e depois se reunissem a portas fechadas.

Em seguida, haveria um almoço, e depois uma entrevista coletiva à imprensa. Não foi assim. Zelensky, dependente da ajuda americana para enfrentar a Rússia, caiu numa armadilha.

Logo na etapa inicial do encontro, Zelensky foi humilhado por Trump e pelo vice-presidente JR Vance, aliados da Rússia até o talo. E acabou sendo despejado da Casa Branca.

Em público, jamais um visitante fora tratado daquela maneira na Casa Branca, jamais. O maior vencedor daquele encontro foi Vladimir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia.

Inúmeras decisões tomadas por Trump até aqui, com base no que lhe passa pela cabeça, já foram derrubadas ou suspensas pela justiça americana. Washington está em pânico e perplexa.

Entenda-se: Trump não é um estadista, sequer um aspirante a estadista. É um empreendedor imobiliário, habituado a blefar para extrair vantagens nos negócios, e um homem de televisão.

Zelensky chegou ao poder no seu país como o afamado protagonista de uma série bem-sucedida de televisão onde fazia o papel de presidente da Ucrânia. Apesar disso…

Não é páreo para Trump, a quem precisa adular e se submeter caso queira ajuda em armas e em dinheiro. Nos últimos três anos, Zelensky viajou pelo mundo como uma estrela. Seu show acabou.

O show de Trump mal começou, e ele não precisa cortejar ninguém, nem viajar atrás de apoios. Ele só não pode perder apoio em casa. Começa a perder, segundo as pesquisas.

Winston Churchill, o estadista inglês que combateu Hitler praticamente sozinho no início da Segunda Guerra Mundial, perdeu apoio em casa quando a vitória militar estava à vista.

Os ingleses concluíram que ele fora o melhor líder de que dispunham para ir à guerra, mas que não seria o melhor para reconstruir o país. Vencido em 1945, dedicou-se à pintura.

Essa é justamente uma das belezas do regime democrático: a alternância no poder. Ninguém é insubstituível. A vontade do povo se expressa por meio do voto livre. Cada eleitor, um voto.

Tarifas de Trump enferrujam patriotismo de bolsonaristas

O patriotismo de Bolsonaro e seus devotos, já bem carcomido pela radioatividade do golpismo, passou a ser corroído também pela ferrugem trumpista. Formou-se na direita brasileira uma militância pró-Trump. O silêncio diante das tarifas que o imperialista laranja impôs aos metais importados do Brasil submete os membros dessa tribo ao risco de atrair uma antiga maledicência do ensaísta inglês Samuel Johnson (1709-1784): "O patriotismo é o último refúgio do canalha".


Carbono de Trump no Brasil, Bolsonaro fez da submissão um objetivo de vida. "Acredito que o Trump gostaria que eu fosse elegível", declarou às vésperas da posse do ídolo. "Tenho certeza de que ele gostaria que eu viesse candidato" em 2026. O deputado Eduardo Bolsonaro passou a dar mais expediente em Washington do que em Brasília. Já não tinha pátria. As tarifas de Trump o deixaram sem discurso.

Entre todos os silêncios, o mais constrangedor é o de Tarcísio de Freitas. Quando Trump venceu a eleição, o governador de São Paulo correu às redes sociais para celebrar: "Grande dia", escreveu. Fez pose num vídeo com um boné da "América Grande de Novo". Informou o que esperava de Trump: "Uma economia mais forte, com menos impostos, uma outra visão acerca da América Latina, uma postura diferente em relação às disputas comerciais que podem virar oportunidades para nós se bem lidas e aproveitadas".

Deu tudo errado. Trump promete ampliar o leque de tarifas a partir de abril. Mais de um terço das exportações brasileiras para os Estados Unidos saem de São Paulo. Sabe-se que Tarcísio será candidato a alguma coisa em 2026. Falta definir o cargo. Caindo-lhe a ficha, perceberá em algum momento que precisará pedir votos no Brasil.

O homem privatizado


Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.

Bertolt Brecht

Casa Branca vira uma concessionária Tesla

 Foi outra encenação difícil de acreditar e ainda mais difícil de esquecer. Donald Trump transformou o gramado sul da Casa Branca no cenário de um anúncio dos carros Tesla na terça-feira, de propriedade do homem mais rico do mundo e seu colaborador mais próximo, Elon Musk. O presidente dos EUA e seu Primeiro Amigo posaram esta tarde em frente a uma fileira de cinco veículos elétricos da empresa (quatro utilitários e uma daquelas caminhonetes em ângulo reto) em um evento para a imprensa onde Trump queria mostrar seu apoio ao empresário em vista da queda vertiginosa do preço das ações de sua empresa e da campanha difamatória que sua entrada na política desencadeou.

Trump anunciou que ficaria com um deles, um Model S, pelo qual, segundo ele, pagaria o preço integral (a partir de US$ 79.900, de acordo com o site da Tesla). Ele o comprará “sem nenhum desconto”, acrescentou, antes de posar para fotógrafos ao volante de um carro vermelho e ouvir de Musk que era “tão fácil de dirigir quanto um carrinho de golfe”. Trump também detalhou, como se fosse um comercial da Tesla, os preços de cada modelo e as parcelas mensais disponíveis para compras a prazo.

Não havia nada de incomum no que aconteceu, nem o apoio público de um presidente a uma empresa privada, com as questões éticas que tal gesto levanta. A Casa Branca se recusou a abordar essas preocupações quando questionada por repórteres, talvez porque, como anunciou o comprador, que disse ter pago com cheque, o veículo permanecerá no local para uso de seus funcionários.

As vendas da Tesla despencaram nas últimas semanas em resposta a Musk, que também é dono da SpaceX e da rede social X, liderando o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). Seu mandato é simplificar a administração, e ele já demitiu dezenas de milhares de funcionários e congelou bilhões de dólares em programas públicos. A cruzada desencadeou protestos, proprietários furiosos de Tesla abandonando seus carros e ataques a veículos elétricos e estações de carregamento. Os números da empresa caíram não apenas nos Estados Unidos, mas também na Europa, China e Austrália.

 

“Acho que ele foi tratado de forma muito injusta por um grupo muito pequeno de pessoas, e só quero que as pessoas saibam que ele não pode ser penalizado por ser um patriota, e ele é um grande patriota, e fez um trabalho incrível com a Tesla”, disse Trump sobre Musk no gramado da Casa Branca. O evento, que foi convenientemente transmitido pela X, também contou com a presença do filho de quatro anos do empresário, com quem ele costuma desfilar por Washington, dos corredores do Capitólio ao Salão Oval.

A compra da Tesla alimenta ainda mais a crítica daqueles que criticam os potenciais conflitos de interesse que Musk pode estar enfrentando, já que ele mantém contratos lucrativos com o governo, que ele está trabalhando para desmantelar internamente.

Trump anunciou sua intenção de comprar o carro na terça-feira em sua plataforma de mídia social, Truth, pouco depois da meia-noite. A ideia era “mostrar [sua] confiança e apoio a Elon Musk, um verdadeiro grande americano”, escreveu ele. Não está claro quando ele terá a chance de dirigir seu novo brinquedo . Por razões de segurança, os presidentes dos EUA são obrigados a viajar na The Beast, a limusine presidencial, e os moradores de Washington estão acostumados a vê-la circulando pela cidade, protegida na frente e atrás por um enxame de veículos pretos de alta potência que passam rapidamente pelas ruas antes bloqueadas.

Em uma palavra: bandidos. Em muitas: demônios

Era um dia de agosto. O ano, 1941. Fazia calor em Minsk. Era início de estação, verão. Parecia domingo. Feito festa. Tudo fruição.

A gente do Reich avançava por todo o Leste da Europa. Bielorrússia, Ucrânia, Rússia. Quilômetro por quilômetro. Seu destino: Moscou. Sentido: Ural. Objetivo: triunfar sobre os herdeiros de Tolstói e forjar vitórias totais e sem partilha. Tudo por uma Grande Alemanha. Tipo aquilo projetado em 1938, com a anexação de Anschluss, por um espaço vital que inaugurou uma verdadeira guerra colonial. Teoricamente, por princípios existenciais. Ou, como dizia um general alemão,

“A guerra contra a Rússia é uma parte essencial do combate pela existência do povo alemão. Trata-se do velho combate dos germânicos contra os eslavos, a defesa da cultura europeia contra a invasão moscovito-asiática, a defesa contra o bolchevismo judaico”.

Eis o tom da Barbarossa. 1941 foi o momentum Barbarossa e do deus Molotov-Ribbentrop.

Vivia-se junho-julho. O ano, 1941.

Moscou não era Varsóvia nem Atenas tampouco Paris. A blitzkrieg, por isso, fora insuficiente.

A resiliência do Exército Vermelho era impressionante. Muito maior que dos franceses, gregos e poloneses. O que impôs à Wehrmacht conjuntos de perdas inimagináveis.

Stalin exigia determinação integral de seus oficiais. Hitler também. Era difícil saber quem tinha mais razões para lutar. Ninguém hesitava. Do mais raso ao mais graduado militar, marinheiro ou aeronauta. O limite era morrer. Quem medrasse, sabia, morria. Quem fosse demasiado corajoso, também. Era certo. De qualquer lado. O que brutalizou sobremodo o conflito. Fazendo da violência uma ubiquidade banal. Mais que outrora e mais que jamais.

Tanto que em um, dois meses os alemães perderam mais homens e materiais que em todas as suas batalhas anteriores desde 1939. O pavor tomou conta. Mesmo os mais experimentados oficiais do Reich jamais tinham visto tanta determinação. Exceto em Verdun, La Somme ou La Marne.

A Eurásia era um inferno. Inferno vermelho.

Que, de súbito, fez-se Medusa diante de Hitler.

Que, por seu turno, metamorfoseou a mentalidade do Reich. Evocando, mais que nunca, a superioridade germânica. Tendo por contraparte os judeus. Judeus-bolcheviques. De todas as idades e condições. Homens, mulheres e crianças. Que passaram a ser exterminados sem preguiça nem perdão. Adicionando ao embate dimensões étnicas, para muito além das ideologias.

O mês ainda era julho. E o ano, 1941.

Malgrado as perdas, a bandeira do Reich era mais e mais hasteada. Concretando a fúria de Hitler em todo o Leste da Europa. Capturando populações. Neutralizando-as e confinando. Para, em seguida, eliminar. Enviando para guetos. Impondo privações. Trabalho forçado. Fome, miséria, desnutrição, infecção. E, por fim, fuzilando. Feito espetáculo.

Prender, confinar, fuzilar. Sem piedade nem perdão. Desejo de Hitler. Desígnio do Reich. Desde sempre. Especialmente desde 1939.

Volte-se, então, a outubro de 1939.

O Reich dava início ao plano Nisko. Um processo de deportação de judeus para a região de Lublin, na Polônia, com o propósito de humilhação, desmoralização, eliminação. Era o início da limpeza étnica nazista. Que depois se somou ao projeto Madagascar. Para onde foram enviados milhares de judeus doentes e sadios. Amplificando o martírio. Que, para muitos, não cessaria nunca mais.

Nem com a morte.

Entre 1939 e 1945, porquanto, houve 1941. Início da Barbarossa. Que levou a gente do Reich a mudar de planos, esquecer das deportações para Lublin e Madagascar para focar na Sibéria.

Território de Stalin. Onde, em seu entender, os judeus, antes de morrer, sofreriam ainda mais.

Mas logo se notou não fazer sentido enviar todo mundo para a Sibéria. Os judeus eram muitos e muito espalhados. O que sugeria ao Reich otimizar a receita prender, confinar, fuzilar.

Além de nazistas, aqueles nazistas eram sádicos. Sedentos por sangue, horror e morte. O que os conduziu a criar um pelotão especializado em fuzilar. Chamaram-no Einsatzgruppen. Esquadrão da morte do Reich.

Criado naquele junho-julho de 1941, ele inaugurou as atividades otimizadas de fuzilamento. Que no primeiro exercício assassinou 23.600 judeus em Kamenets-Podolski duma vez só. E, por entenderem ser bom, chegaram ao número mágico de meio milhão de judeus fuzilados em poucas semanas depois dali.

O início passou. Junho-julho também. Chegou agosto. O ano, 1941.

Fazia calor em Minsk. Era início de estação. Parecia domingo. Fazia-se festa. Tudo em fruição.

O oficialato nazista em solo soviético quis evidenciar a sua performance aos seus superiores em Berlim. Convidaram, então, Führer pra ver. Mas ele não foi. Mas enviou Himmler.

Como se disse, parecia ser festa. Um espetáculo foi armado. Não era o Coliseu. Não era cristãos. Não existiam animais. Mas previa-se muito fogo. Deu-se o start. Iniciaram-se os fuzilamentos. Os verdugos da SS, incorporados ao Einsatzgruppen, descarregaram uma quantidade impressionante de munição sobre dezenas de milhares de pessoas simplesmente por serem judeus. Tudo à luz do dia. Pouco mais ou menos que meio-dia. Causando sensações. Alguns carrascos sorriam. Uns poucos choravam. Outros, somente, sentiam. Tudo diante de Himmler, que tudo anotava.

Eram todos, certo, nazistas. Muitos deles, epidermicamente assassinos. Mas todos, inequivocamente, tinham coração. Ainda eram humanos, demasiado humanos. E, por isso, malgrado a pressão, ainda não tinham sido completamente lobotomizados pelo Mein Kampf. O que lhes permitia nesgas de consciência, escrúpulos, decência. Quem sabe, até sentimentos. Nobres ou não. Decentes ou indigentes. Uma confusa piedade. Transformada em hesitação. Eram petrificantes as cenas de martírio. Mesmo que contra seus inimigos. Em sua maioria, mulheres. Quase todas indefesas.

Algumas gestantes. Outras lactantes. Com filhos nos braços ou por vir. Consumidas pelo medo. Clamando por perdão.

Himmler viu tudo aquilo. Era brutalizante. O que o levou à meditação.

A desgraça, o ódio e o desamor eram desmedidos. Eis a conclusão.

Chocado com tudo isso, de volta a Berlim, Himmler reportou o que viu e sentiu ao Führer. Que entendeu a mensagem e providenciou solução. Não por ser sensível por ser artista ou pintor. Mas por interpretar as externalidades negativas daquele despautério, desumano e desumanizador, sobre o próprio Reich. Que poderia ver seus oficiais delirar. O que já acontecia. E produzir sinistros nefastos na saúde mental da tropa. Que, malgrado jovem, sabia e sentia o que fazia.

A demanda de Himmler era por métodos “mais humanos”. A solução era criar alternativas. Quem sabe, até mais baratas. Hitler sugeriu o gás. Para ele, mais ameno e profilático. Incumbiu-se, assim, Reinhard Heydrich para materializar a solução.

O mês ainda era agosto. O ano, 1941.

Reinhard Heydrich consultou Viktor Branck, responsável pelos experimentos com gás desde 1939. Sim: desde 1939 que os alemães assassinavam judeus em casas da morte em Hartheim, Sonnenstein, Hadamar, Bernburg Grafeneck e Brandenburg.

Viktor Branck atestou ser possível sofisticar e aumentar a escala do experimento. Mas a custo de recursos e logística. O que impôs uma reunião interministerial que teria lugar na conferência de Wannsee em fins de 1941.

Essa conferência reuniu apenas tecnocratas. Quinze ao todo. Todos representantes de ministérios relevantes do Reich. Que sabiam, intelectual e tecnicamente, do que se tratava. E, forjados em sinergia, planificaram a solução.

A nota final da conferência foi enviada ao Führer no dia 20 de janeiro de 1942. Dela constavam todos os detalhes. Que foram imediatamente aprovados e mandados obrar. Como slogan, “solução final”. Foi aí que surgiu a expressão. “Solução final às populações judaicas”.

Prender, confinar, gaseificar.

Os olhos de Hitler reluziam. O seu semblante também. O seu prazer era incontido. Ele sabia se tratar de um verdadeiro turning point na evolução do Reich. A sua compleição humana começava a se transfigurar.

Prender, confinar, gaseificar.

“Solução final”.

Hitler não tinha palavras para expressar gratidão. E, por isso, apenas disse: “cumpra-se”. Mas não simplesmente no Leste da Europa. Mas em toda parte. Notadamente na “deutsches Einfluβgebient in Europa” [esfera de influência alemã na Europa]. Que envolvia toda a Europa e todos os domínios europeus no Norte da África.

Fez-se, assim, Belzec, Sobibor, Treblinka, Kulmohof, Majdank, Auschwitz, Birkenau. Vagões e mais vagões de judeus foram nesses campos desembarcados. 5.700.000 foram exterminados.

Impossível esquecer. Insuportável relembrar.

Never more.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Para quê?

Quando se houver conquistado tecnicamente e explorado economicamente até o último rincão do planeta; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar haja se tornado acessível com a rapidez que se deseje; quando se possa “assistir” simultaneamente a um atentado contra um rei da França e a um concerto sinfônico em Tóquio; quando o tempo já somente equivalha à velocidade, instantaneidade e simultaneidade e o tempo enquanto história haja desaparecido de qualquer existência de todos os povos; quando se tenha um pugilista como o grande homem de um povo; quando se tenham por um triunfo as cifras de milhões em assembleias populares... então, todavia então, como um fantasma que se projeta mais além de todas essas quimeras, se estenderá a pergunta: para quê? até onde? e logo quê?

Martin Heiddeger

Homens-fortes

"Apesar de ouvirmos com frequência que homens-fortes são gênios da estratégia, poucos deles, ou talvez até mesmo nenhum, seguem um plano diretor. Seus verdadeiros talentos não são os do mestre de xadrez, mas os dos valentões de rua e vigaristas: rapidez para extrair o máximo das oportunidades que lhes são oferecidas, habilidade para fazer com que as pessoas se liguem a eles e acreditem em suas ficções, e a disposição para fazer qualquer coisa para obter a autoridade absoluta pela qual anseiam. A maioria deles termina com muito mais poder do que jamais imaginou".


O diagnóstico acima é da historiadora americana Ruth Ben-Ghiat (Universidade de Nova York). Ele parece nas páginas finais de "Strongmen" (homens-fortes). O livro pode ser descrito como uma tentativa de entender ditadores e líderes populistas de direita, analisando as características que os unem e, dentro delas, como diferem um do outro. Essas diferenças, é bom frisar, podem ser grandes.

Ben-Ghiat escrutina as trajetórias de Mussolini, Hitler, Franco, Gaddafi, Pinochet, Mobuto Sese Seko, Berlusconi, Erdogan, Putin e Trump. Outros líderes de mesmo jaez, como Bolsonaro, Duterte, Modi e Orbán, fazem aparições mais breves, como coadjuvantes.

A autora mostra como eles ascenderam ao poder, como se utilizaram de nacionalismo, propaganda, virilidade (incluindo catálogos de seus apetites sexuais), corrupção e violência —as ferramentas para exercê-lo— e como eventualmente caíram. Autocracias e ditaduras são sempre mais instáveis do que democracias.

O livro é de 2020. Isso significa que cheguei a ele com um quinquênio de atraso. A demora acabou criando um efeito interessante. Os traços autoritários que ela aponta em Donald Trump são ainda os do primeiro mandato e anteriores à invasão do Capitólio. Se já tínhamos motivos para nos preocupar, temos agora muito mais razões para angústia, pois o que vimos nestas primeiras semanas de segundo mandato são as piores características elevadas ao cubo.

Outra conversa sobre Trump que o X está escondendo

“O que os europeus pensam sobre o que está acontecendo nos Estados Unidos?” Em sua conta no TikTok, @Nikkionherway , uma jovem blogueira de viagens americana , faz a pergunta aos usuários online deste lado do Atlântico. Em seu vídeo, Nikki explica que gostaria de saber o que um europeu pensaria se a encontrasse durante uma de suas viagens e descobrisse que ela é da terra natal de Trump. A postagem se tornou, de longe, a mais bem-sucedida de todas as que compõem seu perfil no TikTok. Já ultrapassou um milhão de visualizações e o mais significativo é que a pergunta feita por Nikki já acumulou mais de 25.000 respostas, que por sua vez foram comentadas por milhares de outros usuários. “Lamentamos que vocês tenham um presidente assim”, dizem eles da Polônia. “Você está numa grande confusão. “Sinto pena de você, mas também estou muito bravo”, diz o finlandês Minna. “Na França, sabemos diferenciar entre o povo e o governo”, diz Sebastien. Frank, um usuário dinamarquês, diz que acabou de cancelar sua viagem planejada para este ano para as “maravilhosas paisagens americanas. Desejo-lhe o melhor e nos vemos em quatro anos, se tivermos sorte!, ele diz.


Milhões de cidadãos ao redor do mundo estão falando nas redes sociais sobre o que está acontecendo nos Estados Unidos, mas mal são ouvidos. As políticas vociferantes de Trump dominam as manchetes e os espaços digitais, começando com o X de Musk, e enterram uma conversa mais humana em plena efervescência. Americanos assustados como @ashleyjames , que acumulou quase três milhões de visualizações com um vídeo chocante no qual ela retrata o retrocesso que a ascensão de Trump representa para os direitos das mulheres. “Que momento assustador para ser mulher no mundo agora! “O que está acontecendo?” Ashley lamenta no texto que acompanha sua postagem. Do assento do seu carro, @jeanpthemc usa o humor para explicar como a maioria dos americanos se sente agora: “Por favor, ajudem-nos!” “Precisamos de ajuda, Batman, Superman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha!” O cachorro do @artisthut1 rosna quando Trump aparece na TV. A sequência tem dois milhões de acessos e milhares de comentários, tantos quanto a reflexão de @deedaw19601 que está alarmado porque “estamos nos isolando do resto do mundo”.

Enquanto Elon Musk coloca o algoritmo X à disposição do regime para amplificar o impacto de suas decisões e reduzir as objeções daqueles que se opõem a elas, grande parte das vozes críticas ou independentes encontraram na Bluesky uma rede social alternativa com maior liberdade e melhores possibilidades de divulgação. As dez contas mais seguidas nesta rede descentralizada já conseguiram reunir comunidades com mais de um milhão de seguidores ou estão perto disso. Entre eles estão a congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez , veículos de comunicação como o The New York Times , o escritor Stephen King e atores comprometidos com a luta pelos direitos civis, como Mark Hamill , o lendário Luke Skywalker, de Star Wars .

Os ataques de Trump à ciência e às universidades, aos jornalistas e à mídia, apoiados por Musk com tanto entusiasmo, conseguiram acelerar a migração para a Bluesky de todos esses setores profissionais ligados ao campo do conhecimento. Sem gritos nem manipulação algorítmica, a plataforma borboleta azul se consolida como uma opção real para obter informações ou acompanhar as iniciativas daqueles que não concordam com as políticas de Trump. Um exemplo: o protesto de cientistas americanos contra os cortes, realizado na última sexta-feira, foi acompanhado e compartilhado principalmente no Bluesky, segundo a ferramenta de análise Talkwalker, que respondeu por quase 80% das referências a #StandUpforScience, slogan do protesto nas redes sociais. A mobilização surgiu discretamente por parte da X apesar de esta ter 20 vezes mais utilizadores que a rede azul.

Há homens e homens

Há homens que lutam um dia e são bons.

Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.

Esses são os imprescindíveis.

Bertolt Brecht

O mundo digital e a recessão da vida pública

Pensava-se que o mundo digital seria um catalisador da vida pública. A Internet, com todas as suas declinações, tornaria mais fácil partilhar opiniões, participar civicamente, conectarmo-nos uns aos outros. Para uma espécie que assenta na comunicação, aumentar a capacidade de comunicar iria logicamente resultar em sociedades mais fortes e vibrantes.

Hoje, temos argumentos para dizer que o efeito foi o inverso.


O mundo digital suga-nos a atenção e entrincheira-a em esferas confortáveis de opiniões consonantes. Os algoritmos servem sucessões de vídeos sobre fazer pão ou crochê, ou podcasts de esquerda ou de direita, em sintonia com as preferências de cada um. Se o leitor costuma usar o YouTube, experimente abri-lo sem ter iniciado a respectiva conta e num navegador anónimo; provavelmente ficará espantado com o tipo de vídeos que nunca viu e que o YouTube nunca lhe mostraria.

O resultado disto, apesar da cacofonia das redes sociais, é uma retirada da esfera pública, até no sentido físico – o das ruas e praças que atravessamos (e que frequentamos pouco) todos os dias.

Um estudo feito por um grupo de oito acadêmicos analisou a forma como as pessoas se deslocavam em espaços públicos de três cidades dos EUA (Nova Iorque, Boston e Filadélfia). Compararam vídeos gravados entre 1979 e 1980 com imagens de 2008 a 2010. Concluíram que, embora a percentagem de transeuntes que circulam sozinhos se tenha mantido, o número de pessoas que estavam paradas ou que deambulavam naqueles espaços caiu 14%. A velocidade a que as pessoas se deslocavam aumentou 15%. Isto “sugere que estão a usar as ruas mais como passagens do que como espaços sociais.” Também caiu “drasticamente” o número de grupos de pessoas, indicando “menos interação espontânea e/ou menos uso dos espaços urbanos como pontos de encontros pré-combinados”.

O estudo é parco em especulações sobre o que motivou a mudança (“transformações no comportamento humano, no uso do solo, ou no carácter do espaço”). Em 2010 os smartphones ainda davam os primeiros passos, embora os celulares já fossem onipresentes. Não é preciso uma investigação académica para saber que quem está fisicamente sozinho em espaços públicos está normalmente imerso no seu mundo digital por via do celular, tecnologia capaz de criar redutos individuais em espaços tradicionalmente públicos, como as esplanadas, as salas de espera ou as carruagens dos comboios.

Entabular conversa com um estranho é prática em franco declínio – seja porque nos vamos intrometer no mundo em que a outra pessoa está embrenhada, seja porque temos sempre qualquer coisa para ver no próprio celular. O onipresente dispositivo acabou até com o pretexto mais fácil: “Que horas tem?”. Quando há dias uma pessoa me perguntou as horas numa avenida movimentada (um celular sem bateria?), a primeira reação foi a de arregaçar a manga e mostrar o pulso, para indicar que não tinha relógio. Foi um reflexo que terá ficado dos tempos em que a pergunta era corriqueira. Retirar apenas um dos auriculares quando chega a nossa vez na fila do supermercado também passou a ser uma pseudo-cortesia aceitável.

Mas o mundo digital vai mais além na capacidade de nos retirar do espaço público. Permite os confortos e as distrações necessários para nos encolhermos quando os acontecimentos tornam o que nos rodeia mais hostil. Por exemplo, um ambiente geopolítico caótico ou deslizantes da democracia.

Após a tomada de posse de Donald Trump, o colunista do Financial Times Janan Ganesh argumentou que se assistia “a um grande encolher de ombros dos liberais” (usando aqui liberais como se usa quando se diz “democracias liberais”, embora as iliberais não existam. Era uma passividade resignada por parte daqueles que se opõem ao trumpismo. Observava Ganesh:

“Tem acontecido em todo o mundo desde que Trump conseguiu a vitória em novembro, e é natural. Não é possível estar sempre zangado. Nas autocracias da Europa do século XX, as pessoas de consciência dissidente muitas vezes fizeram o que era conhecido como ‘migração interior’. Isto é, em vez de fugir ou lutar, retiravam-se para as suas vidas privadas à medida que à volta delas o ambiente político se tornava mais sombrio.”

É possível ver o mesmo face à progressão das direitas radicais na Europa. Não é possível estar zangado o tempo todo e muito menos é possível lutar o tempo todo. E o mundo digital oferece o casulo perfeito: as séries na Netflix, os vídeos no TikTok, os videojogos do Steam, as compras da Amazon ou da Temu. Gratificação instantânea à prova de composições parlamentares ou inclinações de chefes de Estado. Nunca foi tão agradável alienarmo-nos.

É o sonho de qualquer autocrata (ou aspirante a autocrata) ter uma grande fatia da população placidamente satisfeita. Há quase um século, Aldous Huxley imaginou uma droga para isso. O nosso admirável mundo digital foi por um caminho diferente, mas o resultado pode acabar por ser o mesmo.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Uma nova ordem mundial

A questão é instigante: para onde se encaminhará o planeta nos próximos tempos? Que fenômenos balizarão seus rumos? Que entidades e valores permearão os sistemas políticos? Afinal, quais são os contornos e os eixos de uma Nova Ordem Mundial que começa a ganhar feição, a partir dos movimentos, formas de operação nos processos administrativos das Nações e no próprio sistema político?

Ao analista, impõe-se o dever de examinar o conjunto de hipóteses embutidas nas indagações acima, mesmo sabendo que a tarefa, se realizada no ambiente da Academia, abrigaria densas teses universitárias. Sob a sombra dessa observação, de caráter restritivo, tentarei avaliar o desdobramento dos feitos que se operam nos quadrantes do planeta e que servem de alicerce à edificação dos pilares de uma Nova Democracia , cujos sinais são bastante visíveis no horizonte do amanhã.


O norte que guiará essa modesta análise é a mudança que ocorre no seio da maior democracia ocidental, os EUA. Seu governante, que tomou posse no dia 20 de janeiro passado, em dois meses de administração, assinou, com sua emblemática caneta de ponta grossa (que mais parece um elemento de marketing, por conta da assinatura de decretos exibidos para as Câmeras de TV), o maior acervo de decretos e ordens executivas de que se tem conhecimento na história daquela Nação. Donald Trump, com seu modo abrupto e intempestivo, mais parece um ditador do mundo.

Dito isto, vamos ao conjunto de movimentos/hipóteses que constituem o pano de fundo de uma Nova Ordem Mundial em construção, que se torna crível a partir da ruptura proporcionada pelo modo Trump de governar:

Guerra comercial – O mundo entra, de espada em riste, na arena das tarifas e impostos, a partir da decisão do presidente norte-americano, de elevar o patamar das receitas do Estado. China, Canadá e México são os primeiros três países a reagir aos impactos causados pelo tufão tarifário dos EUA. Outros, entre os quais, o Brasil, se preparam para entrar na liça.

Maiores barreiras protecionistas – A guerra comercial é deflagrada com o argumento de que ela significa a defesa do mercado interno. Seu guerreiro maior é Mr. Trump, cujo discurso tem como foco o fortalecimento do parque produtivo americano. Ocorre que o tarifaço imposto aos parceiros (amigos e inimigos) pode produzir efeito contrário ao esperado, eis que a elevação de custos de produtos alimentícios e commodities certamente impactará e irritará os consumidores. A inflação tenderá a subir.

Globalização perde força – A globalização recua, ao mesmo tempo em que se expande o nacionalismo. Os países fecham fronteiras, levantam bandeiras nacionalistas, e os governos tiram do baú velhos símbolos do populismo, como o fomento de programas assistencialistas, os discursos de exaltação da grandeza de seus territórios (Make America Great Again- MAGA).

Curva à direita – No arco ideológico, é visível o declínio dos partidos de esquerda, alguns soterrados pela avalanche de votos e vitórias obtidas pela direita (moderada e radical). Na Europa, Itália, Alemanha, França e até os países nórdicos são exemplos da inclinação à direita. A social-democracia, sentada no meio do arco ideológico, perde força. Nos EUA, o trumpismo é uma eloquente demonstração de compromisso com valores conservadores da direita.

Pluralismo e diversidade (social, étnica, gêneros) perdem referência nas malhas administrativas; o fomento à meritocracia ganha força- Para dar vazão ao conservadorismo, os governos extinguem ou atenuam a presença de grupos minoritários no desenho institucional, com prejuízo de grupos étnicos/raciais e representações do LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, Pan, Não-binárias e mais). O machismo, velho fenômeno cultural, ganha terreno. O mérito passa ser o óleo lubrificador das administrações.

Movimentos migratórios em declínio – O fechamento de fronteiras nacionais, o impulso do nacionalismo e expansão do conservadorismo constroem barreiras para barrar a entrada de imigrantes. Muralhas de contenção de imigrantes voltarão a ser construídas, aumentando a tensão nas fronteiras. O México torna-se o maior vilão das levas migratórias.

Nova carta de valores e princípios – soberania, autoestima, direitos humanos- O planeta começa a conviver com uma Nova Ordem. Que altera conceitos, impõe novas regras, muda visões de mundo, reposicionando a escala de valores. Os direitos humanos passam a ser mais vilipendiados. A soberania será sempre um tema recorrente das Grandes Nações e um mero verbete no dicionário de territórios sem poder econômico e militar. A autoestima estará sujeita aos humores da economia.

Ondas de pânico, violência e medo se multiplicarão. Avanços tecnológicos poderão alcançar a meta de humanizar as máquinas. Disputas e ameaças emergirão com maior intensidade, sob o império de uma Nova Guerra Fria.

A conferir.

A Democracia em seu crepúsculo

Em muitas democracias avançadas já não existe um debate comum, muito menos uma narrativa comum. As pessoas sempre tiveram opiniões diferentes. Agora têm fatos diferentes. Ao mesmo tempo, em uma esfera de informação sem autoridades – políticas, culturais, morais – e sem fontes confiáveis, não existe uma maneira fácil de distinguir entre teorias de conspiração e histórias verdadeiras. Narrativas falsas, partidárias e, amiúde, deliberadamente enganosas difundem-se agora como incêndios digitais, como cascatas de falsidades que se propagam rápido demais para que os verificadores de fatos as possam averiguar. E, mesmo que pudessem, isso já não importa: parte do público jamais lerá ou verá websites de checagem de fatos e, se o fizer, não lhes dará crédito. 


Não se trata somente de histórias falsas, fatos incorretos ou mesmo campanhas eleitorais e marquetagem política desonestas: os próprios algoritmos das mídias sociais fomentam falsas percepções do mundo. As pessoas clicam apenas nas notícias que lhes interessam escutar; e então o Facebook, o YouTube e o Google mostram-lhes ainda mais do que sejam suas prévias preferências, quer se trate de uma certa marca de sabonete ou uma forma particular de política. Os algoritmos também radicalizam os usuários. Se alguém clica, por exemplo, em canais anti-imigração perfeitamente legítimos no YouTube, este podem levá-lo rapidamente, com apenas mais alguns cliques, a canais que estimulam o supremacismo branco e, logo após, a canais que incitam à mais violenta xenofobia. Como foram projetados para manter o usuário on-line, os algoritmos também favorecem as emoções, especialmente a raiva e o medo. E, como os sites são viciantes, eles afetam as pessoas de maneiras inesperadas. A raiva se torna um hábito. A divisão se torna normal. 

A polarização passou do mundo on-line para a realidade.

O resultado é um hiperpartidarismo que aumenta a desconfiança em relação à política “normal”, aos políticos do “establishment”, aos ridicularizados “experts” e às instituições do “mainstream” – incluindo os tribunais, a polícia e o funcionalismo público –, o que não é de surpreender. À medida que aumenta a polarização, os funcionários do Estado são invariavelmente retratados como tendo sido “capturados” por seus oponentes. 

Não por acaso, juízes e tribunais agora se tornaram objeto de crítica, escrutínio e raiva em muitos outros lugares. Num mundo polarizado não pode haver neutralidade, porque tampouco pode haver instituições apolíticas ou apartidárias.
Anne Applebaum, "A Democracia em seu crepúsculo"

Salvação

É urgente reconhecermos os espaços de encontro que podem nos salvar de ser uma multidão massificada assistindo isoladamente à televisão. O paradoxal é que essa tela nos dá a sensação de estarmos ligados ao mundo inteiro, quando na verdade ela nos rouba a possibilidade de convivermos de forma humana e, o que é igualmente grave, nos predispõe à abulia. Tenho dito em muitas entrevistas, em tom de ironia, que “a televisão é o ópio do povo”, alterando a famosa frase de Marx. Mas de fato acho que estamos ficando entorpecidos diante da tela, e mesmo quando não encontramos nada do que procuramos, continuamos lá, incapazes de nos levantar e ir fazer algo de bom.

 Ela nos tira a vontade de trabalhar em algum artesanato, de ler um livro, de fazer um conserto na casa enquanto se escuta música ou se toma um mate. Ou de ir ao bar com um amigo, bater um papo com alguém da família. É um tédio, um fastio a que nos acostumamos “por falta de coisa melhor”. Ficar monotonamente sentado diante da televisão anestesia a
sensibilidade, torna a mente lerda, prejudica a alma.
Ernesto Sábato

O mensageiro do caos

Donald Trump está derrubando os pilares da relativa igualdade de oportunidades, justiça racial, tolerância, prosperidade e segurança, conquistadas pelos americanos com esforço e talento ao longo de décadas. Ele anunciou o fechamento do Departamento de Educação, encarregado de conceder bolsas para alunos de baixa renda e com deficiências, e verbas para capacitação profissional. O departamento não influi em currículos e conteúdos, a cargo de Estados e municípios.

É um ataque à mobilidade social, que garante não só justiça e paz social, mas também o máximo aproveitamento do potencial dos americanos, independentemente de renda e condição física. Isso contribui para o êxito do capitalismo americano.

Trump indultou dois policiais brancos condenados pela morte do jovem negro Karon Hylton-Brown. Agora, Elon Musk, dono do X e mais influente assessor do presidente, defende o indulto ao policial branco Derek Chauvin, que asfixiou até a morte o negro George Floyd, com o joelho sobre seu pescoço.

Trump só pode anular as condenações federais, que somam 20 anos. Chauvin também cumpre penas estaduais, de 22 anos e meio. Mas esses indultos passam a mensagem de que a vida dos negros vale menos do que a liberdade de seus assassinos brancos.

No primeiro dia de governo, Trump decretou que o Estado americano só reconhece os sexos masculino e feminino. Seguiram-se expurgos nas Forças Armadas de oficiais vinculados à diversidade e eliminação de programas de saúde de transição de gênero, entre outras supressões de direitos.

O presidente está desorganizando a economia americana e solapando sua competitividade, com as tarifas de importação, aplicadas ou anunciadas. Todos os setores produtivos do país estão integrados à cadeia de valores global e se beneficiam de matérias-primas, insumos, partes e componentes de menor custo, assim como os consumidores têm acesso a produtos mais baratos, graças às tarifas baixas.

Tanto é assim que os índices das bolsas de valores americanas têm sofrido sucessivas quedas. O mercado sofre com as ameaças de tarifas e com as incertezas de Trump.

A Agência de Segurança e Infraestrutura Cibernética recebeu ordens de não monitorar nem relatar ameaças russas – sua principal atividade. Trump quer derrubar a lei, aprovada com apoio de republicanos, que baniu o acesso da China a chips sofisticados. Esses são apenas alguns exemplos de como o presidente americano governa contra os interesses de seu país.

Mutação identitária do regime americano

Quem olhou pode não ter visto tudo. No Salão Oval da Casa Branca, Donald Trump calado à mesa enquanto Elon Musk, de casaco e boné esportivos, com o filho X de quatro anos nos ombros, fala a um pequeno grupo de jornalistas. A certo instante, Trump tenta dizer alguma coisa, mas X, já no chão, o interpela: "Cale a boca, você não é o presidente!". Cena bizarra, um garoto não só refreia a língua do poderoso boquirroto como deixa transparecer o que deve ouvir em casa. Um episódio miúdo com relevância política que passou batido.

Esse "olhar sem ver" evoca o "inconsciente ótico", de Walter Benjamin, que afirma com esse conceito a existência de alterações perceptivas decorrentes das reproduções técnicas de máquinas visuais como o cinema e outras. Para ele, toda imagem guarda uma latência de acontecimentos despercebidos na ótica natural. A imagem é capaz de aumentar a configuração do campo visual, deixando aspectos imperceptíveis ao observador. Análises magistrais de filmes por grandes críticos de cinema centravam-se intuitivamente em vestígios óticos dessa natureza.

A leitura das imagens televisivas do Salão Oval detecta refrações de cortes reais do passado, agora com um monarca autodeclarado, seu bufão e o superministro, um meme de cardeal Richelieu que age como papa. Bufão é o inverso divertido do rei, mas também o seu alter ego crítico, de onde provêm verdades arriscadas. No Salão, o posto foi ocupado por uma criança aparentemente treinada em casa, ratificando aquilo de que a opinião pública e os chargistas suspeitam, ou seja, a preeminência do superministro também autodeclarado. Existem sem ser, eis a ambiguidade básica das figuras de poder nos EUA.

Não é interpretação ligeira. A existência histórica de um Estado-Nação implica um passado-presente-futuro em que a vida realizada prescreve objetivos para o futuro. Não repetir, mas inovar no essencial. Isso não acontece nas sociedades sem história, onde o passado é refeito ou reativado. Mas nas brechas abertas pela crise da democracia emerge um autoritarismo sujeito a anacrônicas veleidades monárquicas: é o que sugere a passagem do sistema imperialista global para um dúbio nacional-imperialismo. Com um golpe oligárquico, Trump autocoroa-se ao modo de Napoleão-3 (Luis Felipe, presidente republicano francês, tornado imperador por golpe). Sua política é bonapartista, e o bloco ocidental, o adversário a ser desmantelado. Por trás da monarquia como simulacro identitário do passado, real mesmo é a plutocracia.

Tudo começa com a demissão dos servidores públicos formados dentro de parâmetros constitucionais, seguida pelo facão tarifário e troca da diplomacia por grosseria, de que deu testemunho o bullying a Volodimir Zelenski no agora famigerado Salão Oval. Dias após, mentiras impudentes cara a cara com Emmanuel Macron e com o premiê britânico. Foram-se o decoro e o respeito.

A cena com Musk e X é mínima, mas reveladora. Não se achincalha à toa, com bufonaria de circo, a liturgia presidencial de uma potência como os EUA. É uma ruptura simbólica. Testemunhado pelo mundo inteiro, o inimaginável aconteceu: o regime democrático americano alterou sua identidade histórica, tornando-se um não sei o quê. Para condutores de feroz caça às bruxas do identitarismo, uma pungente ironia objetiva.
Muniz Sodré

A política do espetáculo

“A política, outrora, era ideias. Hoje, é pessoas. Ou melhor, personagens. Pois cada dirigente parece escolher um emprego e desempenhar um papel. Como no espetáculo”. Assim começa o livro O Estado Espetáculo de Roger-Gérard Schwartzenberg, (Flamarion, 1977), professor, escritor, político militante. Caso a definição fosse atualizada incluiria inevitavelmente “e algoritmos”, a obra não estaria totalmente comprometida, mas teria que ser submetida a substancial revisão.

Em 1967, foi publicada A Sociedade do Espetáculo, várias vezes reeditados em diversos idiomas, a obra clássica do notável pensador marxista Guy Debord, escrito em nove capítulos e 221 proposições, qualifica o espetáculo como a “ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna” (proposição 213)”. Nesta “ilusão” a vida deixou de ser vivenciada para ser apenas representada, vive-se “por procuração e “o consumidor real torna-se um consumidor de ilusões” (proposição n. 47).

Por sua vez, Mario Vargas Llosa (Nobel de Literatura em 1910), desiludido militante de esquerda, hoje, um liberal de sólidas convicções, escreveu em A Civilização do Espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura (Rio de Janeiro: Objetiva, 2013): “Para essa nova cultura são essenciais a produção industrial maciça e o sucesso comercial. A distinção entre preço e valor se apagou, ambos agora são um só tendo o primeiro absorvido e anulado o segundo […] O único valor existente é agora fixado pelo mercado”.


De fato, o fenômeno da espetacularização abarca e transforma todos os aspectos da sociedade contemporânea. No caso da política, o acréscimo do “algoritmo e da internet” é um permanente desafio porque altera profundamente os mecanismos da competição democrática. Este processo de transformação afeta profundamente o que parecia sólido e impõe uma enorme fluidez nas relações sociais e nas instituições que dão suporte à democracia liberal. Os mecanismos tradicionais não respondem com presteza ao ritmo vertiginoso exigido pelas demandas e aspirações sociais.

No entanto, os meios de comunicação desafiam no palco do “estado espetáculo” métodos maquiavelianos de “O Príncipe” por meio de conselhos, até hoje, em plena validade. O Principe no exercício do poder (a política como ela é de não como devia ser, eis do que se ocupa o notável pensador “florentino”) não pode dispensar a “astúcia da raposa” e a “força do leão”; fingir e disfarçar é um mandamento irrecusável “pois o vulgo só se pronuncia quanto aquilo que vê”, ou seja, no “teatro” da política o que parece é, mesmo não sendo.

Vivendo o momento histórico da transição da estrutura feudal descentralizada e fragmentada para o Estado moderno unificado e centralizado, Maquiavel, arguto observador e pensador sábio, compreendeu profundamente o funcionamento do poder, a psicologia dos governantes e governados; fundou uma nova ética, laica, apartada dos dogmas; e elaborou um tratado sobre a política aplicada à conquista e à manutenção do poder para uma efetiva sobrevivência do Estado.

De lá para cá, a “arte de mentir” lançou mão de progressos tecnológicos extraordinários o que levou Hannah Arendt a uma lúcida constatação: “A política é feita, em parte, da fabricação de uma certa ‘imagem’ e, em parte, da arte de levar a acreditar na realidade dessa imagem” (Da Mentira em Política). Trata-se de manipular a opinião para “comprar” ou “vender” uma imagem no mercado eleitoral ainda que seja necessário enganar e iludir.

Embora decorrido quase meio século de publicado, o livro de Schwartzenberg serve como fonte de consulta e discorre sobre três vertentes: personagens, espetáculo e o público.

No caso dos personagens, estabelece uma tipologia a ser assumida diante das circunstâncias históricas e os respectivos perfis a serem assumidos: o herói, inflado pelo culto à personalidade, salva; o homem comum, o líder que se iguala qualquer pessoa e que, além de manejar ideias e ações populistas, provoca nas pessoas com o jeito simples de ser o “prazer da igualdade”; o líder “charmoso” é o personagem que esbanja jovialidade, dinamismo, sucesso, atrai as pessoas pelas distinções contrastante, traços aristocráticos que não afastam, mas aproximam com uma calibrada igualdade.

O espetáculo é o palco montado onde o líder interpreta o papel da persona que melhor se ajusta e que tenha aderência à preferência do eleitor. Aí entra a gigantesca tarefa das equipes de campanha, com generalistas, especialistas, marqueteiros, redatores, um grupo eclético capaz utilizar as tecnologias disponíveis para dar voz, tela, a um one show man que atraia espectadores, ou seja, o público a ser persuadido, votar no candidato e obedecer ao líder.

O espetáculo, o público, os candidatos são dirigidos por instrumentos de medida cada vez mais sofisticados e desafiadores no quesito ganhar o voto. Neste ponto, tudo que foi dito é produzido por sofisticada tecnologia e, institucionalmente, regrada por um sistema político e eleitoral que, bem ou mal, funcionem.

Atualmente, e diante da revolução digital, tudo que aqui foi escrito, diria Cazuza, é um “museu de grandes novidades”. Nele estão o velho aperto mão, o abraço amistoso e o desempenho nos debates que não resistem ao engajamento provocado por um dedinho deslizando pelo aplicativo Tik Tok.

Analógicos, aposentem-se! digitais, atualizem-se! A geração Alfa vem aí, a Beta começou a nascer. A Inteligência pode ser comprada no Mercado Livre. E a era Trump está, apenas, começando.

O planeta ficará mais quente e desigual

Depois do carnaval, começa o ano no Brasil. Espero que seja próspero e feliz, mas duvido. Passamos por um momento difícil. Algo parecido com o que li neste início de romance: “Naquela época o céu era tão baixo que nenhum homem ousava se erguer em toda a sua estatura. No entanto havia vida, havia desejos e festas. E, ainda que nunca se esperasse o melhor neste mundo, esperava-se a cada dia escapar do pior” ( O rochedo de Tânios — Amin Maalouf) .

Os Estados Unidos se retiraram não apenas do Acordo de Paris, mas também deixaram de apoiar a Ucrânia. Isso significa que a Europa tem dois caminhos: assumir o esforço de guerra sozinha ou receber milhões de refugiados da ocupação russa. Talvez os dois, na pior das hipóteses.


De qualquer forma, faltará recurso para combater o aquecimento global e ajudar os povos em desenvolvimento. Como Trump praticamente fechou a Usaid, o combate à fome e à doença pode minguar no mundo. Em síntese: o planeta ficará mais quente e desigual. Uso esses dois adjetivos, mas reconheço que dão apenas uma pálida impressão do sofrimento real que podem conter: desterro em massa, desastres ambientais, epidemias. A frase que o futuro primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, usou para a Europa poderia ser estendida também a outras partes do mundo: faltam cinco minutos para a meia-noite.

Aqui no Brasil há uma polêmica sobre as relações da oposição com o governo Trump, principalmente as denúncias contra Alexandre de Moraes. De modo geral, quando se sentem estranguladas, as oposições sempre pedem socorro fora. São quase sempre também acusadas de trair a pátria, mas a verdade é que no aperto todos usam essa tática.

O problema do enlace entre parte da oposição e o governo Trump é a própria natureza do autocrata laranja. Se ele conseguir, por meio de seu poder associado às big techs, tirar a direita do sufoco e levá-la de novo ao poder, o preço será alto. A primeira coisa que Trump dirá é o seguinte: o que podemos ganhar com isso? Na Ucrânia, foram as riquezas minerais, em Gaza a transformação dos escombros num resort de luxo, naturalmente expulsando 2 milhões de pessoas que não cabem nesse delírio. O que seria no Brasil?

Ele gosta de petróleo e certamente se interessaria pelo pré-sal, pela exploração na Margem Equatorial. Gosta também de expulsar gente para construir resorts de luxo. Fernando de Noronha é um espaço ideal para esse sonho. Bolsonaro queria criar uma Cancún em Angra; Flávio, seu filho, queria liberar a entrada de transatlânticos em Noronha. Tudo isso é um excelente aperitivo para Trump.

Existem alguns caminhos para evitar essa atividade externa em torno das questões políticas brasileiras. Infelizmente, o que defendo é o menos popular e me vale às vezes alguns insultos e acusações de cumplicidade com a direita. O ideal, no meu entender, seria uma completa transparência sobre os atos de Alexandre de Moraes, para que possamos avaliar internamente. Também seria ideal o conhecimento maior dos detalhes de todos os casos julgados do 8 de Janeiro para avaliar a dosimetria das penas. Da mesma forma, poderíamos esclarecer enigmas, como a denúncia de que se falsificou a entrada de Filipe Martins, ou mesmo a suposição de que contas bancárias de opositores com câncer têm sido bloqueadas.

Antes de me jogarem na lata de lixo da História e de me classificarem como incurável reacionário, quero apenas reafirmar que essa é a melhor forma de combate. A maneira como os vencedores estão conduzindo o processo, no meu entender, fortalece estrategicamente a oposição. Na verdade, travamos um diálogo de surdos com acusações recíprocas de favorecer a vitória da direita. Posso estar errado, mas, pelo que vi e aprendi, há uma arrogância e autossuficiência no ar, e isso é sempre péssimo sinal.

sábado, 8 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


'Direita criou discurso capaz de achar um culpado para tudo'

No recém-lançado livro "Desiguais e Divididos: Uma interpretação do Brasil polarizado", o sociólogo Sérgio Costa, professor da Universidade Livre de Berlim, explica as fraturas sociais do país neste século 21 a partir da compreensão do aumento da classe média — sobretudo depois dos dois primeiros mandatos presidenciais do petista Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010 — e da necessidade de entender esse grupo como internamente desigual.

Costa apresenta então um conceito que permeia o livro: a situação interseccional, uma perspectiva multidimensional da desigualdade social, que não classifica os cidadãos apenas pela sua classe, mas os considera no contexto de outros marcadores, como raça e gênero. "Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional", diz o sociólogo, em entrevista à DW.


Para o especialista, a direita soube dominar melhor as ferramentas de comunicação contemporâneas, sobretudo as linguagens das redes sociais, para adentrar nos círculos outrora imunes aos discursos políticos, como as esferas familiares e das reuniões de condomínio. Ao mesmo tempo, a realidade tem sido habilmente interpretada por grupos de modo e atribuir uma causa única a todos os problemas.

"Os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade", explica Costa.

O que é classe média, afinal?

O conceito de classe média, para a sociologia, é muito difícil de operar. A classe média pode ser a autoidentificação, uma posição na estrutura social ou simplesmente uma ideologia de progresso, a chamada classe média emergente, um fator de propulsão do consumo, do capitalismo. É um termo polissêmico, difícil de definir.

Eu diria que a classe média pode ser definida combinando essas diferentes classificações. Seguramente, uma posição na estrutura social: quem está entre os grupos intermediários de renda. Mas também com as pessoas se veem, e classe média, do ponto de vista da autoidentificação, é uma categoria muito prestigiada: com exceção dos muitos ricos e dos muitos pobres, a população em geral se autodefine como classe média. Isso torna a classe média um grupo muito heterogêneo, que pode ser tanto propulsor de mudanças democráticas como a que hoje alimenta a direita e a extrema direita em muitas partes do mundo.

Hoje classe média é algo "de direita"?

Não necessariamente um sujeito político de direita. É um sujeito político muito volátil tanto por sua heterogeneidade como por sua posição na estrutura social. Ou seja: é quem pode perder ou ganhar com mudanças econômicas e políticas muito rapidamente, portanto ela pode reagir mais à direita e mais à esquerda dependendo do rumo das transformações sofridas.

No Brasil do começo dos anos 2000, a classe média teve um papel fundamental em criar o consenso [da necessidade] de um país com menos pobreza, um pouco mais justo, que promovesse alguma forma de distribuição de renda, de combate ao racismo, de igualdade de gênero. Houve mudanças significativas na sociedade e há setores de classe média que se rebelaram contra esses progressos.

E por que houve essa rebelião?

A questão que se coloca é: esses setores se rebelaram porque são classe média ou porque são classe média branca, classe média masculina. É importante introduzir aqui a dimensão interseccional da desigualdade, algo fundamental para entender a desigualdade da classe média. Não é possível compreender o papel da classe média hoje no Brasil se centrarmos só na análise de classe. É preciso combinar com análise de raça, de gênero, regional… Só assim conseguimos explicar como setores da chamada classe média emergente efetivamente tiveram melhora de vida nos primeiros anos deste século e como, depois, essa mesma classe média se rebela contra governos que proporcionaram essa melhoria de vida.

É a classe média emergente ou são os homens brancos dessa classe média emergente, os heterossexuais dessa classe média emergente, etc. etc. etc.? Introduzir a dimensão interseccional é fundamental.

No livro você comenta que a polarização na sociedade brasileira tomou conta de festas de família e reuniões de condomínio, ambientes outrora neutros ao debate político. De onde veio essa energia? Por que ela soa mais dominada pela direita do que pela esquerda?

É uma questão intrigante: por que a direita logrou penetrar no que a gente chama de espaços comunicativos primários, as redes de família e de vizinhança, contaminando e efetivamente politizando essas esferas? Eu diria que isso não é completamente novo. Mas o que estamos vendo hoje é a direita e a extrema direita com menos esforço, dada sua enorme capilaridade e penetração nas redes virtuais, conseguindo de alguma maneira penetrar os espaços com seus conteúdos e suas interpretações do que está acontecendo.

A esquerda não tem conseguido disputar a hegemonia cultural e política nos mesmos termos, pois perdeu muito sua capacidade de comunicação com a base. Por outro lado, nesse nível de redes de vizinhança, as igrejas pentecostais e neopentecostais, não todas elas, têm papel político fundamental na medida em que esses setores não têm escrúpulos em fazer política dentro das igrejas e, portanto, conseguem um acesso muito direto à população, inclusive a que sofre com mais força, com mais violência, as angústias como carestia, segurança. É um conjunto de fatores que dá vantagens à direita e à extrema direita nessas lutas pelas mentes e corações, nessas lutas por hegemonia.

Mas, como você bem mostra no seu trabalho, essa mesma população perde direitos e benefícios com plataformas de governos de direita…

É verdade que os governos [de Michel] Temer e [de Jair] Bolsonaro penalizaram duramente parte de quem depois foi eleitor de Bolsonaro, não só em 2018 [quando ele foi eleito] como em 2022 [quando ele perdeu para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva], ou seja, os mais pobres, a população negra, as mulheres…

Ainda assim, parte dessa população votou na direita, na extrema direita. Como explicar isso? Trata-se da formiga votando no inseticida? É uma boa imagem, mas o quadro é mais complexo. No fundo, a política não é uma ciência exata. Tanto importam as experiências concretas da vida como a maneira como essas experiências de vida são traduzidas e significadas pela população.

O que a direita e a extrema direita conseguiram produzir foi efetivamente um discurso político plástico, muito maleável, que traduziu muitas das angústias da população, atribuindo uma causa: a causa de todos os males são "os governos de esquerda, corruptos, sem moral". Portanto, os problemas de segurança, que eram e são reais, os problemas de atendimento hospitalar, a qualidade em declínio da educação, tudo isso foi atribuído a governos de esquerda. E muito efetivamente esse tipo de discurso encontrou muitos adeptos na sociedade.

A direita conseguiu produzir um discurso plástico capaz de encontrar um culpado para todas as angústias que a população estava sofrendo e isso levou à canalização de votos [em 2018] para um candidato que tinha claramente um programa de governo que ia contra os interesses de grande parte da população que votou nele. A interpretação das angústias reais teve seu poder de mobilização naquele momento, e segue tendo de alguma forma. Isso levou efetivamente a eleição de governos, inclusive deputados e senadores, que claramente tinham propostas que não correspondiam aos interesses dessa população que votou neles. A percepção, a maneira como são traduzidas as angústias são tão importantes quanto às experiências reais.

Pobres ficaram ainda mais pobres, e isto você mostra em seu livro. Bolsonaro não foi reeleito, mas as eleições de 2022 mostram um bolsonarismo ainda muito forte: Lula ganhou por margem apertada e a direita levou mais cadeiras no Senado, nos poderes legislativos e nos governos estaduais. Como explicar isso, mesmo com as consequências sofridas no bolso dos eleitores?

A política não é baseada apenas em fatores econômicos. Se tomarmos os indicadores econômicos, mesmo em termos de emprego, diríamos que o governo atual está indo bem, ainda que sua popularidade esteja muito em baixa. Portanto, há formas de interpretação da realidade que efetivamente pesam tanto quanto à própria realidade. É isso que vivemos antes da eleição de Bolsonaro. É isso que vivemos hoje.

Há repertórios de interpretação das insatisfações populares que são muito difundidos, sobretudo nas redes sociais, e muito incorporados na maneira de pensar pelo conjunto da população. Há uma espécie de descolamento da realidade propiciado pela difusão de interpretações convincentes para angústias verdadeiras. São interpretações convincentes, mas não objetivas. E a política não se faz apenas com dados objetivos. É sempre um exercício de escolhas e interpretações.

Terror 'invisível'

Os governos ocidentais reservam a classificação de terrorista para os atos de violência indiscriminada realizados por ativistas que não agem enquadrados por uma organização estatal e se negam a reconhecer a existência do terrorismo de Estado. Aproveitam-se do fato de que o terrorismo puro não pretende se esconder – ao contrário, se esforça ao máximo para que a sociedade saiba de sua existência –, enquanto o terrorismo de Estado faz todo o possível para se tornar “invisível”, porque é tanto mais eficaz quanto mais despercebido passa.
José Saramago

O valor do lugar

Esquecemo-nos do lugar onde nascemos ou vivemos, deixámos de pensar, porque tudo nos chega a casa com facilidade e, supostamente, a baixíssimo custo, que é o maior problema. Damos como adquirido e certo que há a fruta que hoje nos apetece, a um preço insignificante, num supermercado sempre próximo, saboreamos uvas durante todo o ano.

Deixámos de ter respostas, porque não nos questionamos, aceitamos que pensem e decidam por nós. O clique fácil, acessível, intuitivo, como que a fazer parte do nosso corpo, anestesiou-nos e adormeceu-nos. Parece um enorme paradoxo, mas deixámos de ser livres. À partida, está tudo decidido.

Alguns, poucos, temos acesso a tudo aquilo de que necessitamos à distância de uma tecla e nada nos importa quanto custou, quem regou e colheu aquelas maçãs ou fez os sapatos, muito menos onde. Tudo é acessível e fácil, barato, quase gratuito, entra-nos pela casa. E o maior paradoxo é estarmos mais longe do essencial, na verdade, mais longe de nós próprios, da nossa família e dos nossos amigos, do lugar onde vivemos.


O lugar onde vivemos deixou de ter importância, a sua alma e a sua identidade há muito que se foram e nem damos por isso, e quando esbarramos nalguma fotografia ou história fóssil, isso já não nos toca e pouco nos diz. Aceitamos tranquilamente porque está tudo pensado para uma vida confortável, sem carências nem perguntas, para os que nascemos nesta geografia, uma enorme minoria na Terra. Se está calor, ligamos o ar condicionado, se faz frio, tocamos num botão que faz uma chama parecida com a do madeiro de outrora. Acreditamos que é possível, e aceitável, voar de Lisboa para Londres por 30 euros. Desde há umas décadas que assim tem sido, a “milagrosa solução” está na mão do clique. O resto, a tecnologia, aparentemente, resolve.

Crescer. Crescem a oferta, a procura e tudo à volta; como se pode crescer sempre? E, então, para onde vamos, onde nos leva o incontornável crescimento a que estamos obrigados? Enquanto tivermos limões, mesmo que seja da África do Sul e não do Algarve, isso não nos importa? Assistimos ou decidimos? Será que podemos assistir passivamente? Será que a Terra nos deixa assistir como se nada tivéssemos a ver com o tema?

A proposta aponta para um lugar, para um sítio onde é possível ter outro modo de vida. Outro modo de vida totalmente diferente, sobretudo verdadeiro, quando comparado com o mundo do clique, do low cost, sem rosto e muito menos alma. Um modo de vida onde os pilares essenciais a uma existência digna e feliz são possíveis. Um lugar com o qual nos identificamos totalmente, que sentimos fazer parte de nós, a nossa terra, que sentimos, respiramos, tocamos e cheiramos. Se for o “nosso lugar”, a terra onde nascemos e crescemos, tanto melhor. O solo, a água e a paisagem onde nascemos. O terroir do nosso corpo, da nossa alma, onde podemos ser mais felizes porque é aqui, na terra que nos sentiu nascer, que melhor nos sentimos. Aqui, neste lugar, há alimento, abrigo e segurança, os três pilares essenciais para o viver feliz. Aqui temos nome e os outros, os vizinhos, conhecem-nos. Não necessitamos de password, integramos esta realidade, esta verdade e é aqui onde melhor podemos estar.

Por muita desmaterialização, sempre ilusória, que nos apregoem, os recursos essenciais – solo, água e ar – continuam a ser locais. Só vivendo o local podemos saber os seus limites, os seus recursos, o seu clima, os seus patrimónios. E só com estes, com todos os seus patrimónios, poderemos aspirar a um modo de vida possível e feliz onde todos caibam e possam dispor dos recursos necessários a uma vida feliz e digna, onde vamos recordar muita coisa essencial que parecemos ter esquecido; as estações do ano sintetizam quase tudo o que é essencial para a vida e a sustentabilidade local. Lugar, aquele território onde a alma suspira de alegria e os olhos riem.

A importância de ainda estar aqui

O Oscar de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, não é apenas o reconhecimento do excepcional talento e da competência do diretor e dos atores do filme e de todos que a ele, em diferentes campos, se dedicaram. A premiação se situa num conjunto de reconhecimentos pela concessão de vários outros prêmios de cinema, que ressaltam a enorme relevância da obra e o excepcional talento de Fernanda Torres no papel principal.

“Ainda Estou Aqui” tem dimensões ocultas que tocam em outras cordas da sensibilidade cultural das populações esclarecidas no mundo. A reação altamente positiva ao filme tem outras motivações além do apreço pela obra-prima da cinematografia brasileira. Inspirado num livro biográfico do filho da heroína do filme, Eunice Paiva, é desdobramento de uma narrativa testemunhal que pedia o complemento de uma modalidade de expressão que alargasse o alcance do texto original. São obras de criatividades diferentes que se completam, o livro de Marcelo Rubens Paiva e o filme de Walter Salles.

O filme chega não apenas aos olhos dos espectadores, mas chega também à alma das multidões que no mundo inteiro estão sendo questionadas no seu direito a uma consciência verdadeira da situação politicamente anômala em que a sociedade contemporânea vem se perdendo.


Durante entrevista a um portal de direita, Bolsonaro criticou o filme. Criticou Rubens Paiva, preso pela ditadura, torturado e morto, o corpo sumido, obra de criminoso covarde que se oculta no cadáver de sua vítima, mesmo que sejam funcionários do Estado. Alude a Lamarca para justificar o crime contra Paiva. Mente.

Bolsonaro fabula, coloca num mundo imaginário todos os que são, por ele e sua ignorância política, vitimados e estigmatizados. Seu saber tosco é constituído de preconceitos contra os diferentes que perfilham valores democráticos. E confessa: “Eu não tenho tempo de ver filme, até ler livro é quase impossível pra mim”.

Sobre a disputa pelo Oscar, subestimou o filme: “O brasileiro ganha em qualquer lugar”. Ou seja, tem tanto mérito como qualquer um.

Esta edição do Oscar se situa num momento de reações crescentes contra a cultura e a erudição que vêm de um mundo que está ficando burro com a ascensão política, direitista e autoritária, na Itália, na Alemanha, nos EUA e na conspiração golpista no Brasil.

Nas premiações houve a valorização do filme independente e, consequentemente, da ampla liberdade de criação. “No Other Land”, documentário palestino-israelense, foi premiado e o discurso dos diretores muito aplaudido pelo público. Uma fala direta à mediocridade de Trump e de Netanyahu, a propósito da questão de Gaza.

Adrien Brody ganhou o prêmio de melhor ator em “O Brutalista”. Ele também ressaltou a importância do cinema independente. Zoe Saldaña, de descendência dominicana, foi dura ao mencionar sua origem em crítica a Trump e sua política de hostilidade aos imigrantes e latinos.

É nessa perspectiva que o filme brasileiro tem um redimensionamento situacional e político, que repercute como explícita crítica à situação no Brasil. Enquanto um dos Bolsonaros bajula Trump e conspira contra o Brasil, ao tratar o presidente americano como juiz da situação brasileira e do mundo e cúmplice da conspiração bolsonarista, o que Trump não nega.

Enquanto isso, o filme brasileiro de alta qualidade cinematográfica, baseado em fatos reais, relativos à ditadura a que Bolsonaro serviu, personifica e espera restaurar, é aplaudido em vários países do mundo pela qualidade fílmica, literária e histórica. Se o beija-pé dos Bolsonaros em Trump indica uma conspiração contra a pátria, o acolhimento internacional de “Ainda Estou Aqui”, por parte de gente culta, indica uma ação de difusão de consciência crítica contra a consciência bufa e a governação rastaquera.

Como se viu no Carnaval, o Brasil dividido pelo bolsonarismo e pelas ideias reacionárias do astrólogo Olavo de Carvalho, de repente, encontrou um motivo racional para o reencontro contra as fake news e contra a manipulação mentirosa da consciência social.

“Ainda Estou Aqui” ilumina a escuridão ideológica em que foi mergulhado o brasileiro alienado pelo direitismo antipatriótico. O filme é a mediação que expõe as irracionalidades da manipulação e o enlouquecimento de multidões, como na intentona de 8 de janeiro de 2023, nas ações terroristas inspiradas por Bolsonaro e seus seguidores: a do caminhão-bomba preparado para explodir no aeroporto, a do homem bomba que se explodiu no pátio de acesso ao STF, e a do homem que, nos últimos dias, tentou ingressar no STF para um atentado. Sem contar a agressão a Marcelo Rubens Paiva num desfile carnavalesco em São Paulo.

Trump, Gaza e a política do espetáculo

Max Weber, em sua teoria sobre os tipos de dominação, descreveu a autoridade carismática como aquela sustentada na devoção quase religiosa a um líder. Essa forma de poder se fortalece em tempos de crise, quando um político se apresenta como um Messias, a única figura capaz de restaurar a ordem e guiar seu povo rumo à redenção. Donald Trump encarna esse modelo com perfeição: ele não se vende como um político tradicional, e sim como um salvador, alguém que os Estados Unidos — e, agora, o mundo — não podem dispensar.

Como qualquer líder carismático que se alimenta do caos, Trump prospera na tragédia. A guerra no Oriente Médio, com suas cenas de horror e destruição, tornou-se para ele mais do que um tema geopolítico; virou um trampolim para reafirmar sua imagem. Seu papel na pressão para que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu aceitasse um acordo de cessar-fogo em troca de reféns foi relevante. Mas seu verdadeiro objetivo não é a paz — é a autopromoção, como fez ao expulsar recentemente o presidente da Ucrânia, Volodimyr Zelensky, da Casa Branca.


Enquanto o mundo ainda sente o impacto brutal dos ataques de 7 de outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas, incluindo o assassinato da família Bibas, celebrado por terroristas, Trump não está interessado em justiça, reparação ou soluções reais. Da mesma forma, ignora deliberadamente as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Netanyahu.

Desde o início da ofensiva israelense, Gaza se tornou um campo de morte. Com bombardeios sistemáticos a áreas civis, ataques a hospitais e bloqueio do fornecimento de água, eletricidade e ajuda humanitária, Israel tem sido amplamente acusado de crimes de guerra. A destruição da infraestrutura essencial não visa apenas o Hamas — ela empurra milhões de palestinos para uma crise humanitária sem precedentes. Mesmo diante de ordens da Corte Internacional de Justiça para permitir ajuda à população civil, o governo israelense segue sua campanha, resultando em mais de 46 mil mortos, segundo autoridades locais, incluindo milhares de crianças.

Mas Trump não condena esses abusos — ele os instrumentaliza. O sofrimento real de palestinos e israelenses não importa para ele. O que importa são os slogans e como a tragédia pode ser convertida em capital político.

Foi assim que surgiu seu vídeo altamente produzido por Inteligência Artificial generativa, publicado na Truth Social, promovendo uma visão fantasiosa: uma “Riviera em Gaza”. A cena é quase surreal. Uma trilha sonora épica embala imagens de praias paradisíacas, enquanto um coro canta “Trump vai te libertar”. No centro da encenação, o bilionário Elon Musk distribui notas de dólares, como um magnata benevolente, pronto para erguer um paraíso capitalista sobre os escombros da guerra.

Mas por trás do espetáculo midiático, há algo muito mais sombrio. Trump sugeriu abertamente que os palestinos deveriam deixar Gaza, uma posição que, segundo o Artigo 2 da Convenção sobre Genocídio de 1948, configura limpeza étnica. Expulsar mais de dois milhões de pessoas de suas casas não apenas viola o direito internacional, mas cria um desastre humanitário de proporções catastróficas. Para onde iriam esses refugiados? Quais seriam as implicações políticas e econômicas para os países vizinhos, já sobrecarregados com décadas de deslocamento forçado? Essas questões não interessam a Trump. Seu discurso não trata de reconstrução nem de paz — trata de marketing político.

A guerra já deixou um saldo devastador. Em Gaza, 1,8 milhão de pessoas passam fome e quase toda a população foi deslocada. Enquanto isso, 250 reféns israelenses foram sequestrados pelo Hamas, muitos submetidos à tortura — por vezes televisionada e celebrada. Enquanto Netanyahu avança com sua ofensiva indiscriminada e violações do direito internacional, Trump usa a tragédia como uma ferramenta de campanha. Ele não está preocupado com os mortos, mas com como pode transformar a guerra em um trampolim para seu próprio retorno ao poder.

Trump governa por meio da atenção que consegue atrair. Ele não precisa estar certo — ele só precisa ser o assunto. Seu modus operandi segue a lógica da “sociedade do espetáculo”, descrita por Guy Debord: uma realidade onde imagens, emoções e narrativas substituem os fatos concretos. Seu vídeo sobre Gaza é um exemplo perfeito. Um projeto absurdo, mas que gera manchetes, distrai da complexidade do conflito e, acima de tudo, mantém seu nome no centro da conversa.

E essa é a verdadeira estratégia. Criar polêmicas e jogar declarações inflamadas ao vento, sabendo que qualquer reação — crítica ou aplauso — apenas reforça sua presença no debate. Ele já fez isso antes, ao transformar crises internas em armas contra a imprensa, o judiciário e seus opositores.

E, agora, usa o Oriente Médio para se consolidar como um líder global, alguém que, na mente de seus seguidores, poderia resolver conflitos internacionais como se fossem episódios de um reality show.

Como Weber descreveu, a dominação carismática mina as instituições democráticas porque substitui o compromisso com a lei pela lealdade cega ao líder. Trump segue essa cartilha com precisão cirúrgica: desacredita a mídia, ridiculariza seus adversários, menospreza instituições e se coloca como o único capaz de salvar não apenas os Estados Unidos, mas o mundo. O problema é que essa ilusão de grandeza não se mede em votos ou likes — mede-se em vidas humanas.