segunda-feira, 10 de março de 2025

A Democracia em seu crepúsculo

Em muitas democracias avançadas já não existe um debate comum, muito menos uma narrativa comum. As pessoas sempre tiveram opiniões diferentes. Agora têm fatos diferentes. Ao mesmo tempo, em uma esfera de informação sem autoridades – políticas, culturais, morais – e sem fontes confiáveis, não existe uma maneira fácil de distinguir entre teorias de conspiração e histórias verdadeiras. Narrativas falsas, partidárias e, amiúde, deliberadamente enganosas difundem-se agora como incêndios digitais, como cascatas de falsidades que se propagam rápido demais para que os verificadores de fatos as possam averiguar. E, mesmo que pudessem, isso já não importa: parte do público jamais lerá ou verá websites de checagem de fatos e, se o fizer, não lhes dará crédito. 


Não se trata somente de histórias falsas, fatos incorretos ou mesmo campanhas eleitorais e marquetagem política desonestas: os próprios algoritmos das mídias sociais fomentam falsas percepções do mundo. As pessoas clicam apenas nas notícias que lhes interessam escutar; e então o Facebook, o YouTube e o Google mostram-lhes ainda mais do que sejam suas prévias preferências, quer se trate de uma certa marca de sabonete ou uma forma particular de política. Os algoritmos também radicalizam os usuários. Se alguém clica, por exemplo, em canais anti-imigração perfeitamente legítimos no YouTube, este podem levá-lo rapidamente, com apenas mais alguns cliques, a canais que estimulam o supremacismo branco e, logo após, a canais que incitam à mais violenta xenofobia. Como foram projetados para manter o usuário on-line, os algoritmos também favorecem as emoções, especialmente a raiva e o medo. E, como os sites são viciantes, eles afetam as pessoas de maneiras inesperadas. A raiva se torna um hábito. A divisão se torna normal. 

A polarização passou do mundo on-line para a realidade.

O resultado é um hiperpartidarismo que aumenta a desconfiança em relação à política “normal”, aos políticos do “establishment”, aos ridicularizados “experts” e às instituições do “mainstream” – incluindo os tribunais, a polícia e o funcionalismo público –, o que não é de surpreender. À medida que aumenta a polarização, os funcionários do Estado são invariavelmente retratados como tendo sido “capturados” por seus oponentes. 

Não por acaso, juízes e tribunais agora se tornaram objeto de crítica, escrutínio e raiva em muitos outros lugares. Num mundo polarizado não pode haver neutralidade, porque tampouco pode haver instituições apolíticas ou apartidárias.
Anne Applebaum, "A Democracia em seu crepúsculo"

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