Em uma enxurrada de decretos e declarações de emergência, o presidente Donald Trump deu um golpe no governo americano e na ordem global. Ele está destruindo o Estado administrativo, fechando agências e demitindo funcionários federais. Está deportando residentes permanentes por seus discursos protegidos pela Primeira Emenda, revogando vistos de estudantes internacionais e enviando imigrantes para Guantánamo e para uma megaprisão em El Salvador. Ele está tentando eliminar a cidadania por direito de nascimento e cortando o financiamento de pesquisa das Universidades. Todos os dias, Trump lança outra ofensiva sem precedentes — ou muda de rumo, deixando seus críticos na dúvida enquanto se protege.
Ele continua extremamente popular entre sua base, mesmo que sua popularidade geral tenha caído para níveis recordes. Seus críticos, porém, o atacam de todas as formas possíveis. Chamam-no de fascista, autoritário, tirano, ferramenta cleptocrática dos bilionários da tecnologia, aproveitador, impostor de reality show, encarnação da masculinidade tóxica, valentão. No entanto, nenhum desses rótulos captura totalmente o alcance ou a coerência do que está acontecendo nos EUA hoje. Esses diagnósticos se concentram demais no indivíduo, e este é um indivíduo que, como um ilusionista virtuoso, mantém seu público hipnotizado pelo espetáculo e distraído do que realmente está acontecendo. Os desenvolvimentos radicais em curso devem ser colocados em uma perspectiva mais profunda. Não apenas porque muitos deles foram prefigurados no projeto de 900 páginas chamado Project 2025, mas também porque forças muito maiores impulsionaram a ascensão de líderes de extrema direita em todo o mundo.
Na verdade, o governo Trump II representa – a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas. O ativista conservador Christopher Rufo admitiu isso em uma entrevista recente ao New York Times: “O que estamos fazendo é realmente uma contrarrevolução. É uma revolução contra a revolução”. Na verdade, as ações do presidente Trump durante os primeiros cem dias de seu segundo mandato é o episódio mais recente de uma vasta e coerente contrarrevolução com um arco histórico mais longo e um alcance global mais amplo.
Nesse sentido, é essencial voltar ao argumento de Marx em seu O 18 Brumário, de que a ascensão de Luís Napoleão não foi simplesmente uma história de um grande homem. O objetivo de Marx era demonstrar, em suas palavras, “como a luta de classes na França criou circunstâncias e relações que tornaram possível que uma mediocridade grotesca desempenhasse o papel de herói”. Temos a tendência de enfatizar o humor nessa frase em detrimento do impulso teórico. Mas o ponto importante é que nosso diagnóstico deve se concentrar nos conflitos sociais mais amplos e nas forças econômicas que são o motor da história em nível global, e não na ascensão de qualquer indivíduo — mesmo quando ele se assemelha a uma mediocridade grotesca.
Não quero minimizar a extravagância ou a natureza radical dos espetáculos diários do presidente Trump — o que Marx chamou, ao falar de Luís Napoleão, de seus “golpes de Estado em miniatura todos os dias”. Mas, em vez de focar nos truques diários, é importante entender, em primeiro lugar, as estratégias mais amplas que os motivam.
Nos primeiros meses do seu segundo mandato, o presidente Trump implementou três estratégias principais: Criar inimigos internos. Com um recorde de 143 decretos executivos até 6 de maio de 2025 — mais do que qualquer outro presidente dos EUA, incluindo FDR —,Trump colocou na mira um punhado de alvos e transformou-os em inimigos internos: candidatos D.E.I. [Diversity, equality and inclusion]: um proxy para afro-americanos, hispânicos, deficientes e transgêneros), “ideologia de gênero” (um proxy para pessoas LGBTQ+), defensores das mudanças climáticas globais (ou qualquer pessoa que supostamente contribua para a “ansiedade climática”), imigrantes e estudantes internacionais, Universidades de ponta, funcionários federais e qualquer pessoa que tenha investigado ou processado pelo presidente norte-americano anteriormente.
Um dos principais artifícios que ele usa para demonizar esses inimigos internos é rotulá-los como malfeitores e privá-los de proteções legais. O presidente Trump adicionou a organização de tráfico de drogas Tren de Aragua à lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) dos EUA e invoca isso para caracterizar qualquer imigrante venezuelano nos Estados Unidos como um terrorista. Ele também invocou a Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798 para afirmar que os imigrantes venezuelanos são inimigos estrangeiros. O presidente Trump afirma que o Tribunal Penal Internacional de Haia é “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”; como resultado, funcionários americanos agora estão potencialmente sujeitos a sanções do país. Ademais, o governo cita o fato de que o Hamas é considerado uma FTO para caracterizar as pessoas que protestam contra a guerra de Israel em Gaza como apoiadores do terrorismo, mesmo que seu discurso seja protegido pela Primeira Emenda.
Outra forma de atacar os inimigos internos é declarar emergências menores — como a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, a Lei de Emergências Nacionais ou, mais uma vez, a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798. O presidente Trump já anunciou uma dúzia dessas emergências. Há uma na fronteira sul dos EUA. Agora, as forças armadas dos Estados Unidos a policiam. Trump declarou uma emergência devido à “ameaça extraordinária representada por estrangeiros ilegais e drogas, incluindo o fentanil mortal” como base para impor tarifas ao Canadá, China e México. Ele também declarou uma emergência em relação à “insuficiente produção de energia, transporte, refino e geração dos Estados Unidos”.
O jurista nazista, Carl Schmitt, definiu um soberano como “aquele que decide sobre a exceção”. Algumas décadas depois, o filósofo Giorgio Agamben argumentou que as sociedades ocidentais haviam entrado em “um estado de exceção permanente”. Mas o presidente norte-americano utiliza as emergências apenas como um dispositivo técnico para exercer o poder executivo e demonizar inimigos internos; elas são apenas uma ferramenta entre outras e não constituem um estado de exceção global. Em vez disso, permitem-lhe reivindicar como suas as zonas cinzentas da lei e expandir as suas fronteiras (como com a deportação de residentes permanentes ou o corte geral do financiamento das Universidades ao abrigo do Título VI). Michel Foucault referiu-se a tais métodos como illégalismes (ilegalismos): criam um espaço entre o legal e o ilegal, onde é a contestação política que determina o que é permitido e o que não é.6 Eliminar esses inimigos internos. Em seguida, o presidente Trump erradica ou neutraliza esses inimigos produzidos. Ele está cortando programas de DEI, não apenas em todo o governo federal, mas também na indústria privada. O governo está tentando acabar com os cuidados de afirmação de gênero e banindo o reembolso pelo Medicaid para jovens menores de 19 anos. Revogou mais de 1.500 vistos de estudante em mais de 100 Faculdades e Universidades. Está eliminando empregos de dezenas de milhares de funcionários federais, deportando estudantes internacionais e residentes permanentes que protestaram contra a forma como Israel está conduzindo sua guerra em Gaza. Donald Trump prometeu enviar 30.000 imigrantes para Guantánamo. Operações de imigração estão ocorrendo em todo o país; em algumas, centenas de pessoas são presas ao mesmo tempo. Conquistar os corações e as mentes do povo americano. Todos os dias surge um novo segmento chocante do que parece ser um reality show. De acordo com um artigo do New York Times, Trump disse a seus assessores, antes de assumir o cargo em 2017, que eles deveriam “pensar em cada dia presidencial como um episódio de um programa de televisão em que ele derrota seus rivais”. Eles se superaram, em parte graças à revolução tecnológica. Musk, certa vez, descreveu o Twitter (antes de comprá-lo) como um ponto de acesso ao id gigante do povo americano. O Truth Social e o X agora estão dando a ele, ao presidente e a outros, o acesso constante e direto à libido nacional. Para sua base MAGA, isso tem sido uma fonte constante de entretenimento e justificação. No final do ataque verbal dele e do vice-presidente J.D. Vance ao presidente Volodymyr Zelensky no Salão Oval, em fevereiro, ele reconheceu: “Isso vai ser ótimo para a televisão”.
Essas três estratégias permeiam o segundo mandato do presidente Trump. Para compreendê-las, proponho dar um passo atrás — conceitualmente, historicamente e contextualmente.
Para explicar o que quero dizer com a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas, vou analisar cada termo separadamente.
Primeiro, uma “contrarrevolução” está em curso desde a invenção da guerra contra a insurgência, na década de 1950 e 1960, por comandantes franceses, britânicos e americanos durante as guerras de independência na Argélia, Indochina, Malásia, Vietnã e em outras ex-colônias. Essas campanhas deram origem à lógica e às estratégias da guerra de contrainsurgência — também conhecida como guerra não-convencional ou antiguerrilha ou, como diriam os franceses, “la guerre moderne”, guerra moderna. Depois, essa lógica e essas estratégias foram trazidas de volta e aplicadas em solo nacional.
A lógica da guerra de contrainsurgência baseava-se numa visão única, essencialmente moldada pela crença de Mao de que a sociedade é composta por três grupos: um pequeno grupo de insurgentes ativos, a grande massa de cidadãos passivos que podem ser influenciados de um lado ou de outro e uma pequena minoria de ‘contrainsurgente’. As estratégias da guerra de contrainsurgência foram desenvolvidas para, em primeiro lugar, reunir informações completas sobre a população a fim de identificar os inimigos internos; em segundo lugar, eliminá-los; e, em terceiro lugar, ganhar a lealdade das massas passivas.
Essas estratégias de contrainsurgência foram utilizadas pela primeira vez nas colônias europeias e americanas durante as guerras de independência. Após o 11 de setembro, os EUA voltaram a utilizá-las nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Sob a presidência de George W. Bush, houve execuções simuladas, afogamento simulado e detenções por tempo indeterminado em Guantánamo; com o presidente Barack Obama, houve assassinatos com drones, vigilância total e a execução sumária de um cidadão americano no exterior. Os métodos foram refinados pelos generais americanos em uma abordagem de contrainsurgência centrada na população, que foi então inculcada nos soldados americanos.
Trazer técnicas de contrainsurgência para casa e aplicá-las nos próprios cidadãos pode ser chamado de “uma contrarrevolução”. Herbert Marcuse já utilizava o termo em seu livro de 1972, Contrarrevolução e Revolta, para caracterizar a repressão aos protestos contra a Guerra do Vietnã na Kent State University e no Jackson State College.7 Na medida em que essa contrarrevoluçãofoi, e é, uma criação da guerra moderna — em contraste com as contrarrevoluções mais antigas, que buscavam restaurar monarcas —, eu a chamaria de “contrarrevolução moderna”.
Em segundo lugar, o governo Trump II representa uma “nova ofensiva”, pois não é único, mas sim mais um episódio da contrarrevolução conduzida em solo americano. Houve ofensivas anteriores ao 11 de setembro, com a revolução conservadora do presidente Ronald Reagan e a Guerra às Drogas na década de 1980; e, mesmo antes disso, com a repressão do presidente Richard Nixon aos negros e aos manifestantes contra a Guerra do Vietnã, o programa COINTELPRO, de J. Edgar Hoover e o Red Scare (medo vermelho) durante a era McCarthy.
Descrevi a última ofensiva em um livro intitulado The Counterrevolution: How Our Government Went to War Against Its Own Citizens (A Contrarrevolução: como o governo entrou em guerra contra os próprios cidadãos), publicado em fevereiro de 2018, durante o primeiro mandato do presidente Trump. Na época, argumentei que ele estava infundindo o paradigma da guerra de contrainsurgência com um populismo nacionalista branco que tinha como alvo muçulmanos americanos, imigrantes da América Latina e manifestantes do movimento Black Lives Matter. Tudo isso chegou ao auge durante as manifestações pelo assassinato de George Floyd no verão de 2020, quando o Trump enviou a 82ª Divisão Aérea para Washington/D.C., e mobilizou a polícia militar e um helicóptero Black Hawk do Exército dos EUA como se o local fosse, nas palavras do então secretário de Defesa Mark Esper, um campo de batalha que precisava ser “dominado”. A polícia militar lançou gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha contra manifestantes pacíficos, abrindo caminho para o presidente Trump marchar com Esper e seu general de mais alta patente, Mark A. Milley (em uniforme de combate completo), para uma infame foto do presidente com uma Bíblia nas mãos.
Em terceiro lugar, digo que esta é a “fase de demolição” da última ofensiva porque o presidente está destruindo o governo federal como o conhecemos, ao mesmo tempo em que endurece as estratégias de contrainsurgência. Como um incorporador imobiliário que está embarcando numa reforma radical, o presidente Trump está demolindo o edifício federal, está cortando a força de trabalho federal, fechando agências federais (a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, o Departamento de Educação), demitindo inspetores gerais em 17 agências e assumindo o controle de agências independentes. Musk e o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) estão cortando o orçamento federal em US$ 150 bilhões (até o ano fiscal que termina em setembro de 2026) e demitindo milhares de outros funcionários federais. O presidente Trump está demolindo o estado administrativo em alta velocidade.
O presidente está, literalmente, sozinho — ao assinar um número recorde de decretos presidenciais — criando uma presidência imperial sem freios e contrapesos. Embora o Partido Republicano controle ambas as câmaras do Congresso e tenha jurado lealdade a ele, Trump está evitando usar o poder legislativo tanto quanto possível, ignorando efetivamente o Congresso. Tendo garantido uma supermaioria conservadora na Suprema Corte dos Estados Unidos, ele está cumprindo em grande parte as decisões dos tribunais federais de primeira instância — confiante de que a revisão judicial acabará por absolvê-lo (como já aconteceu).
Este projeto radical não visa a eliminar o governo federal ou delegar o poder de decisão aos estados. Não se trata de direitos dos estados: o presidente exercerá o poder federal no momento em que discordar de uma política estadual. Em vez disso, ele está transformando o governo federal em um instrumento mais enxuto e mais forte dos poderes policiais — reforçando as fronteiras, deportando brutalmente pessoas, proibindo a D.E.I. e a chamada ideologia de gênero, policiando banheiros, impondo tarifas e sanções econômicas, supervisionando universidades e escritórios de advocacia. Somente no contexto da imigração, o governo Trump pediu o que equivale, segundo o New York Times, a “mais do que um aumento de seis vezes nos gastos para deter imigrantes”. Sua visão do governo federal é altamente ativa e intervencionista.
Estamos testemunhando, portanto, uma contrarrevolução moderna, na medida que, em primeiro lugar, ela se baseia na lógica e nas estratégias brutais da guerra moderna; em segundo lugar, consolida o poder executivo nas mãos do equivalente funcional de um monarca absoluto moderno e tenta reverter os valores do universalismo que fizeram parte da Fundação em 1776 ou da Refundação em 1866; em terceiro lugar, representa uma reversão do Estado administrativo americano construído desde o New Deal, cujo objetivo era proteger a classe média e os desfavorecidos; e, quarto, constitui uma contrarrevolução preventiva e antecipada dentro do quadro que o historiador Arno Mayer desenvolveu para estudar a dinâmica das contrarrevoluções.
É certo que há uma discordância substancial sobre se houve algo como uma revolução completa contra a qual a contrarrevolução moderna estaria reagindo hoje. Para Rufo ou Steve Bannon, ex-assessor de Trump, fronteiras abertas e “imigração descontrolada”, a natureza mutável da família nuclear, a Teoria Crítica da Raça e os Estudos de Gênero representam uma tomada revolucionária pela “wokeness” (conscientização política). Para muitos outros, porém, tudo isso parece evolução, não revolução.
Em 1972, Marcuse disse uma frase famosa sobre a repressão policial aos protestos contra a Guerra do Vietnã: “A contrarrevolução é em grande parte preventiva e, no mundo ocidental, totalmente preventiva. Aqui, não há nenhuma revolução recente a ser desfeita, nem nenhuma à vista.” Da mesma forma, não vejo nenhuma revolução real, nem na história recente, nem em formação. Especialmente quando tantas mudanças seminais desde a década de 1960 foram tão facilmente desfeitas: Roe v. Wade revogada; programas de D.E.I. desmantelados; proteções aos transgêneros eliminadas. Mas, seja uma revolução ou mera evolução, em qualquer caso, o ataque do presidente Trump contra ela certamente faz parte da “contrarrevolução moderna”.
E essa é uma ofensiva vasta, impulsionada por forças geopolíticas, macroeconômicas, sociais, tecnológicas, demográficas e culturais mais amplas, que explicam a ascensão do presidente Trump e de líderes com ideias semelhantes em todo o mundo.
Em todo o mundo, mudanças geopolíticas e macroeconômicas — globalização, financeirização, os efeitos das mudanças climáticas e o surgimento de novas tecnologias digitais, mídias sociais e inteligência artificial — alimentaram ataques virulentos contra os imigrantes. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o discurso anti-imigração está no centro de uma plataforma populista nacionalista que clama pela proteção das fronteiras nacionais e pela melhoria da vida das pessoas dentro do país — America First, La France d’abord pour les Français, Zeit für Deutschland, Brexit e assim por diante.
O gráfico Lakner-Milanovic — também conhecido como elephant graph (gráfico do elefante) — representa a mudança global na concentração de renda entre 1988 e 2008. Muitos economistas, incluindo Paul Krugman, interpretam isso como evidência dos efeitos prejudiciais da globalização sobre as classes baixas e médias nos países ocidentais. Pesquisas apartidárias, por exemplo, do PEW Research Center, confirmam que “a diferença de riqueza entre as famílias mais ricas e mais pobres dos Estados Unidos mais que dobrou entre 1989 e 2016”. De acordo com a maioria dos indicadores, os americanos de classe média estão em pior situação hoje do que antes da Grande Recessão de 2008; apenas as camadas mais ricas da sociedade americana ganharam significativamente desde então.
E 12 dos últimos 16 anos foram sob governos democratas — o que significa que a desigualdade nos EUA cresceu principalmente sob a supervisão do Partido Democrata, que tem promovido o neoliberalismo desde a presidência de Bill Clinton e mantido à distância políticos mais progressistas, como Bernie Sanders. A globalização também corroeu os sistemas bipartidários de muitos países, o que tornou muitos governos tímidos em relação às políticas redistributivas e, por sua vez, alimentou o populismo nacionalista.
Projeções do U.S. Census Bureau indicam que, até 2050, as pessoas não brancas serão mais numerosas do que as pessoas brancas não hispânicas nos EUA. Esse crescimento, ou pelo menos algumas de suas percepções, estão alimentando o movimento MAGA, cujos adeptos são pelo menos 60% brancos, cristãos e homens, e em sua maioria aposentados, com mais de 65 anos. A sensação entre os apoiadores do MAGA de que suas vidas estão estagnadas e de que estão sofrendo com a inflação está alimentando um conjunto de ideias odiosas. A teoria da “grande substituição”: os brancos serão substituídos por imigrantes e trabalhadores estrangeiros. A tese da “invasão criminosa”: os imigrantes são criminosos, estão inundando o país e precisam ser expulsos. E os movimentos “radicais de exclusão trans”: as pessoas transgênero, especialmente as mulheres transgênero, representam uma ameaça existencial à família, à reprodução social e à própria civilização.
As mudanças culturais também são importantes, como Stuart Hall demonstrou com suas análises dos thatcheristas na virada da década de 1980.10 A Fox News está moldando a maneira como os americanos pensam sua realidade política, assim como as redes sociais, especialmente o Truth Social e o X, que agora estão nas mãos da extrema direita. Isso também é verdade no exterior, com magnatas da mídia como Vincent Bolloré na França, Rupert Murdoch e outros. À medida que a propaganda política se globaliza, a informação tornou-se exponencialmente mais fácil de divulgar, quase incontrolável.
O populismo nacionalista está no centro da contrarrevolução americana moderna, tal como na França ou na Alemanha. É o principal dogma da maioria das pessoas do movimento MAGA, incluindo os seus líderes ideológicos, como Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca para a política, e o Sr. Bannon, com o seu Breitbart News. Bannon relembrou em uma entrevista no início deste ano como ele jogou todo o seu peso atrás de Donald Trump; e como o futuro presidente retribuiu com seu próprio tipo único de populismo nacionalista e patriotismo.
Mas enquanto Bannon frequentemente diz que quer “espremer os ricos”, que é a favor de impostos mais altos para os ricos e para as corporações e que acha que os bilionários da tecnologia são “tecno-feudalistas”, Trump formou uma aliança com os magnatas mais ricos. Entre eles estão tanto os bilionários da tecnologia presentes em sua segunda posse quanto também outro grupo de doadores e benfeitores, como Timothy Mellon, Miriam Adelson e Linda McMahon, bem como elites republicanas mais antigas que resistiram a ele no início, mas que desde então se alinharam. Essas pessoas extremamente ricas — referindo-nos à Rússia, nós as chamaríamos de “oligarcas” — entendem muito bem que é do seu interesse financeiro desmantelar o estado regulador federal.
O presidente também consegue atrair o apoio das populações rurais que se consideram a antítese das elites urbanas e dos moradores das cidades, como protetores dos valores familiares. Ele também inspira evangélicos, eleitores da maioria moral e nacionalistas brancos (comício Unite the Right em Charlottesville em 2017). E agora, também, segmentos crescentes de homens negros e latinos, que foram afastados do Partido Democrata.
O resultado é uma coalizão inesperada de aliados aparentemente improváveis. Hoje, tanto os bilionários quanto a base do MAGA querem desmantelar o estado regulador federal como o conhecemos e substituí-lo por um estado policial enxuto, focado em gastos militares e policiais, na imposição da família tradicional, nas crenças conservadoras, nas fronteiras e tarifas.
Engels observou certa vez que uma revolução requer audácia: “nas palavras de Danton, o maior mestre da política revolucionária até hoje conhecido, de l’audace, de l’audace, encore de l’audace!”. Isso se aplica também às contrarrevoluções modernas. A “audácia da esperança” do Sr. Obama empalidece em comparação com o que o presidente Trump fez nos últimos 100 dias.
Será que Trump conseguirá reestruturar tão profundamente o governo dos EUA durante os próximos quatro anos e que este momento político constituirá um ponto de inflexão a longo prazo, como o New Deal? Se assim for, precisamos nos preparar para um país fundamentalmente diferente — e um planeta diferente. Este novo modo de governar anda de mãos dadas com a negação das alterações climáticas, e é difícil imaginar o resto do mundo a lidar com sucesso com o aquecimento global sem a participação ativa dos EUA. No seu livro Slow Down: The Degrowth Manifesto (Devagar: manifesto sobre o decrescimento), Kohei Saito alerta para o “fascismo climático” (desigualdade extrema e poder estatal forte) ou a “barbárie climática” (desigualdade extrema e poder estatal fraco).
Mas pode haver uma reação e um movimento pendular em direção ao Estado administrativo ou mesmo mais além, em direção a alguma forma de coletivismo igualitário ou cooperação. Considerando a inevitabilidade das mudanças climáticas, Saito também descreve a possibilidade de um “maoísmo climático” (igualdade e poder estatal forte) e defende uma quarta opção, o “comunismo do decrescimento” (igualdade com acordos cooperativos e mutualistas). Mas ambos os futuros alternativos exigiriam um movimento social concertado.
Nos EUA, até agora, os democratas têm adotado principalmente uma estratégia de “rope-a-dope” de Muhammad Ali, para usar uma expressão do estrategista James Carville. Ou talvez até mesmo o que Carville chama de “rolar e fingir de morto”: “Deixar os republicanos desmoronarem sob seu próprio peso e fazer com que o povo americano sinta nossa falta”.
A única força contrária nos EUA neste momento parecem ser os tribunais federais de primeira instância, que proibiram provisoriamente mais de uma dúzia de decretos presidenciais. Eles têm sido eficazes em impedir ou atrasar a fase de demolição, pelo menos até agora. É incerto por quanto tempo o poder executivo irá cumprir ou fazer cumprir as ordens dos tribunais federais de primeira instância que o proíbem. A crise constitucional que muitos juristas temem ainda pode estar por vir. O governo Trump, por exemplo, está desafiando os tribunais federais em vários casos de deportação. E o vice-presidente Vance aconselhou o presidente Trump: “quando os tribunais o impedirem, fique diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente do Supremo Tribunal Federal tomou sua decisão. Agora deixe-o cumpri-la’”.
Por enquanto, o crescente número de litígios está alimentando uma resistência cada vez maior. Aplausos generalizados irromperam nos campi de todo o país quando a Universidade de Harvard se recusou a cumprir a carta do governo Trump exigindo auditorias nos departamentos acadêmicos e, em vez disso, entrou com uma ação judicial. Manifestações massivas estão sendo realizadas aos sábados em todo o país.
Usar a estrutura da contrarrevolução moderna deve abrir novos caminhos sobre como resistir e se revoltar. Afinal, há uma longa história de resistência às forças contrarrevolucionárias. Há muitas maneiras de se revoltar, como Marcuse nos lembra no próprio título de seu livro Contrarrevolução e Revolta. E a história mostra que, quando as pessoas mantêm seus valores, as contrarrevoluções raramente têm sucesso.
terça-feira, 20 de maio de 2025
segunda-feira, 19 de maio de 2025
O que se passa com os rapazes?
“Boys will be boys” diz a famosa expressão condescendente em língua inglesa… e agora os rapazes preferem a extrema-direita.
No relatório "From Provider to Precarious: How Young Men’s Economic Decline Fuels the Antifeminist Backlash", publicado há dias pelo European Policy Center, vemos que, em Portugal, por cada rapariga (com menos de 25 anos) que vota num partido de extrema-direita, 4,9 rapazes fazem o mesmo. O número é tão alto que só a Croácia nos ultrapassa.
Outro estudo, de que um artigo no site do European Consortium for Political Research dá conta, mostra que, em 2024, 21% dos jovens rapazes europeus (com idades entre 18 e 29 anos) apoiavam partidos de extrema-direita, enquanto as raparigas se ficavam pelos 14%. O que se passa aqui?
No relatório "From Provider to Precarious: How Young Men’s Economic Decline Fuels the Antifeminist Backlash", publicado há dias pelo European Policy Center, vemos que, em Portugal, por cada rapariga (com menos de 25 anos) que vota num partido de extrema-direita, 4,9 rapazes fazem o mesmo. O número é tão alto que só a Croácia nos ultrapassa.
Outro estudo, de que um artigo no site do European Consortium for Political Research dá conta, mostra que, em 2024, 21% dos jovens rapazes europeus (com idades entre 18 e 29 anos) apoiavam partidos de extrema-direita, enquanto as raparigas se ficavam pelos 14%. O que se passa aqui?
Estávamos habituados a que o clássico voto de protesto antissistema, tão caro à juventude, se situasse na extrema-esquerda. Mais liberais do que os seus pais conservadores, radicais e revolucionários, os jovens pendiam para um extremo político antes de se “aburguesarem”, com a meia-idade, no colo do centrão. O voto antissistema foi capturado pela extrema-direita. Com uma grave distinção: se o sistema que a extrema-esquerda combate é o capitalismo, o sistema que a extrema-direita repudia é a democracia.
Para Đorđe Milosav, um dos autores do segundo estudo acima mencionado, a questão dos rapazes vai muito além do simples “boys will be boys”, no sentido em que o voto masculino jovem reflete a idade da exploração da identidade, do testar de limites, do correr riscos, atitudes mais acentuadas do que no sexo feminino. Se assim fosse, esclarece o investigador de Ciência Política, essa realidade estaria refletida em toda a juventude de décadas passadas. Mas não está. “Esta diferença de género do voto na extrema-direita por parte dos jovens é muito mais pronunciada agora, na Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), do que foi nas gerações passadas. Mas também vemos isso, embora em menor grau, nos Millennials (1981-1996)”, escreve.
“Muitos homens jovens veem o crescente sucesso das mulheres na educação e no trabalho como uma ameaça. Isto alimenta o ressentimento e o desejo de controlo”, acrescenta Đorđe Milosav, alertando para o facto de o voto na extrema-direita lhes dar um sentido de propósito e validação. Pior: “Os partidos de extrema-direita movem-se das franjas para o mainstream. Já não se trata só de um voto de provocação contra pais e professores – à medida que estes partidos se normalizam, a tendência é a de que o voto dos jovens neles não cesse à medida que vão envelhecendo.”
“Há uma crescente divisão ideológica entre os géneros”, diz, por seu lado, Javier Carbonell, autor do relatório do European Policy Center, “em que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores. Esta divisão mostra o poder eleitoral das forças antifeministas”. Mas a ascensão do feminismo não explica tudo.
“A deterioração das condições económicas tem levado a que os rapazes sejam menos escolarizados, ganhem menos e se debatam para estar à altura do que tradicionalmente é esperado do papel masculino: ser o sustento das suas famílias. A extrema-direita tem sabido explorar isto, oferecendo uma visão regressiva da masculinidade”, continua Javier Carbonell.
A ideia tradicional de masculinidade está ultrapassada e entrou em crise. O problema é quando são os próprios jovens a preferir olhar para trás em vez de seguir em frente.
Para Đorđe Milosav, um dos autores do segundo estudo acima mencionado, a questão dos rapazes vai muito além do simples “boys will be boys”, no sentido em que o voto masculino jovem reflete a idade da exploração da identidade, do testar de limites, do correr riscos, atitudes mais acentuadas do que no sexo feminino. Se assim fosse, esclarece o investigador de Ciência Política, essa realidade estaria refletida em toda a juventude de décadas passadas. Mas não está. “Esta diferença de género do voto na extrema-direita por parte dos jovens é muito mais pronunciada agora, na Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), do que foi nas gerações passadas. Mas também vemos isso, embora em menor grau, nos Millennials (1981-1996)”, escreve.
“Muitos homens jovens veem o crescente sucesso das mulheres na educação e no trabalho como uma ameaça. Isto alimenta o ressentimento e o desejo de controlo”, acrescenta Đorđe Milosav, alertando para o facto de o voto na extrema-direita lhes dar um sentido de propósito e validação. Pior: “Os partidos de extrema-direita movem-se das franjas para o mainstream. Já não se trata só de um voto de provocação contra pais e professores – à medida que estes partidos se normalizam, a tendência é a de que o voto dos jovens neles não cesse à medida que vão envelhecendo.”
“Há uma crescente divisão ideológica entre os géneros”, diz, por seu lado, Javier Carbonell, autor do relatório do European Policy Center, “em que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores. Esta divisão mostra o poder eleitoral das forças antifeministas”. Mas a ascensão do feminismo não explica tudo.
“A deterioração das condições económicas tem levado a que os rapazes sejam menos escolarizados, ganhem menos e se debatam para estar à altura do que tradicionalmente é esperado do papel masculino: ser o sustento das suas famílias. A extrema-direita tem sabido explorar isto, oferecendo uma visão regressiva da masculinidade”, continua Javier Carbonell.
A ideia tradicional de masculinidade está ultrapassada e entrou em crise. O problema é quando são os próprios jovens a preferir olhar para trás em vez de seguir em frente.
Submissão
Um homem submisso atrai naturalmente um homem que se compraz em submeter, em mandar. Mais cedo ou mais tarde, um homem muito submisso vai atrair e até criar um déspota junto a si. Eles formarão um casal.
Henri Michaux, "Um bárbaro na Ásia"
Transformando macarrão em pão: a luta de Gaza pela sobrevivência
Os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança.
Em meio ao bloqueio imposto pela ocupação israelense e seu governo em Gaza, os moradores recorreram a meios não convencionais para sobreviver, incluindo transformar macarrão em pão depois que a farinha quase desapareceu dos mercados.
No norte da Faixa de Gaza, Fadwa Hussein compartilhou sua história com o The Palestine Chronicle: “Estamos vivendo em condições catastróficas. Desde que as passagens de fronteira foram fechadas, produtos e alimentos essenciais desapareceram dos mercados. Armazenei alguns suprimentos de comida, mas eles estão se esgotando rapidamente, pois não há alternativa para o que consumimos.”
Fadwa continuou: "Eu tinha dois sacos de farinha, mas com o fechamento das travessias, eles acabaram. Começamos a comprar farinha por quilo a preços altíssimos, mas a falta de dinheiro nos impossibilita de comprar mais a preços tão exorbitantes."
Ela explicou que pesquisou alternativas para fazer pão na internet e encontrou uma maneira de transformar macarrão em pão.
Comecei a experimentar com a minha filha e funcionou. Começamos deixando a massa de molho em água por 5 a 6 horas e depois a sovamos até ficar firme. Também reservei um pouco de farinha para misturar à massa, para ajudar a mantê-la unida.
À medida que a crise se agrava, Fadwa acrescentou: “Tentamos nos adaptar a todas as circunstâncias apenas para sobreviver. Apelamos a todas as consciências e nações vivas do mundo para que nos acompanhem, para que levantem nossas vozes e as vozes dos famintos para o mundo. Israel usa a fome como arma de punição contra nós, contra crianças, mulheres e bebês.”
Enquanto isso, em um centro de deslocados a oeste da Cidade de Gaza, Mona Salama, mãe de três filhos, agora vive com sua família depois de perder sua casa em um bombardeio.
"Depois de perdermos nossa casa, não temos mais dinheiro para comprar farinha por conta própria. Costumávamos contar com a ajuda da UNRWA, mas como a ajuda foi impedida de entrar, não temos condições de comprar nada", disse ela ao The Palestine Chronicle.
“Ouvi dizer que algumas famílias em Gaza começaram a usar lentilhas e macarrão para fazer pão, então perguntei e comecei a preparar pão para meus filhos com meu marido”, acrescentou.
Mona continua com tristeza: “Tenho filhos pequenos que não entendem o que significa fome. Eles choram constantemente, querendo comida. Fico impotente diante deles e, às vezes, choro porque não consigo lhes dar três refeições. Fazemos uma pequena quantidade de pão apenas para os nossos filhos, para aplacar a fome deles, enquanto meu marido e eu comemos o que mais encontramos.”
Mais de dois milhões de palestinos em Gaza estão enfrentando uma crise humanitária sem precedentes devido às restrições impostas por Israel à entrada de ajuda desde o início de março, após o colapso da primeira fase de um acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito, Catar e Estados Unidos em janeiro.
O Gabinete de Imprensa do Governo em Gaza alertou recentemente que os moradores estão "à beira da morte em massa" devido à fome crescente e ao colapso completo de setores vitais, pedindo a criação imediata de um corredor humanitário para resgatar mais de 2,4 milhões de palestinos.
Em um comunicado, o gabinete confirmou que “a fome em Gaza se tornou uma realidade sombria, não apenas uma ameaça, depois que 52 mortes foram registradas devido à fome e à desnutrição, incluindo 50 crianças, em um dos cenários mais horríveis de matança lenta”.
A UNRWA disse que tem milhares de caminhões prontos para entrar em Gaza e que suas equipes estão preparadas para aumentar as entregas assim que forem permitidas.
Em uma publicação no Facebook, a UNRWA escreveu: “Já se passaram mais de nove semanas de bloqueio em Gaza, com Israel impedindo a entrada de toda ajuda humanitária, suprimentos médicos e produtos comerciais.”
A agência acrescentou: “Quanto mais tempo esse bloqueio durar, mais danos irreversíveis serão causados a inúmeras vidas”.
Em meio a essa trágica realidade, os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança para salvar as vidas de milhares de crianças, mulheres e idosos.
Em meio ao bloqueio imposto pela ocupação israelense e seu governo em Gaza, os moradores recorreram a meios não convencionais para sobreviver, incluindo transformar macarrão em pão depois que a farinha quase desapareceu dos mercados.
No norte da Faixa de Gaza, Fadwa Hussein compartilhou sua história com o The Palestine Chronicle: “Estamos vivendo em condições catastróficas. Desde que as passagens de fronteira foram fechadas, produtos e alimentos essenciais desapareceram dos mercados. Armazenei alguns suprimentos de comida, mas eles estão se esgotando rapidamente, pois não há alternativa para o que consumimos.”
Fadwa continuou: "Eu tinha dois sacos de farinha, mas com o fechamento das travessias, eles acabaram. Começamos a comprar farinha por quilo a preços altíssimos, mas a falta de dinheiro nos impossibilita de comprar mais a preços tão exorbitantes."
Ela explicou que pesquisou alternativas para fazer pão na internet e encontrou uma maneira de transformar macarrão em pão.
Comecei a experimentar com a minha filha e funcionou. Começamos deixando a massa de molho em água por 5 a 6 horas e depois a sovamos até ficar firme. Também reservei um pouco de farinha para misturar à massa, para ajudar a mantê-la unida.
À medida que a crise se agrava, Fadwa acrescentou: “Tentamos nos adaptar a todas as circunstâncias apenas para sobreviver. Apelamos a todas as consciências e nações vivas do mundo para que nos acompanhem, para que levantem nossas vozes e as vozes dos famintos para o mundo. Israel usa a fome como arma de punição contra nós, contra crianças, mulheres e bebês.”
Enquanto isso, em um centro de deslocados a oeste da Cidade de Gaza, Mona Salama, mãe de três filhos, agora vive com sua família depois de perder sua casa em um bombardeio.
"Depois de perdermos nossa casa, não temos mais dinheiro para comprar farinha por conta própria. Costumávamos contar com a ajuda da UNRWA, mas como a ajuda foi impedida de entrar, não temos condições de comprar nada", disse ela ao The Palestine Chronicle.
“Ouvi dizer que algumas famílias em Gaza começaram a usar lentilhas e macarrão para fazer pão, então perguntei e comecei a preparar pão para meus filhos com meu marido”, acrescentou.
Mona continua com tristeza: “Tenho filhos pequenos que não entendem o que significa fome. Eles choram constantemente, querendo comida. Fico impotente diante deles e, às vezes, choro porque não consigo lhes dar três refeições. Fazemos uma pequena quantidade de pão apenas para os nossos filhos, para aplacar a fome deles, enquanto meu marido e eu comemos o que mais encontramos.”
Mais de dois milhões de palestinos em Gaza estão enfrentando uma crise humanitária sem precedentes devido às restrições impostas por Israel à entrada de ajuda desde o início de março, após o colapso da primeira fase de um acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito, Catar e Estados Unidos em janeiro.
O Gabinete de Imprensa do Governo em Gaza alertou recentemente que os moradores estão "à beira da morte em massa" devido à fome crescente e ao colapso completo de setores vitais, pedindo a criação imediata de um corredor humanitário para resgatar mais de 2,4 milhões de palestinos.
Em um comunicado, o gabinete confirmou que “a fome em Gaza se tornou uma realidade sombria, não apenas uma ameaça, depois que 52 mortes foram registradas devido à fome e à desnutrição, incluindo 50 crianças, em um dos cenários mais horríveis de matança lenta”.
A UNRWA disse que tem milhares de caminhões prontos para entrar em Gaza e que suas equipes estão preparadas para aumentar as entregas assim que forem permitidas.
Em uma publicação no Facebook, a UNRWA escreveu: “Já se passaram mais de nove semanas de bloqueio em Gaza, com Israel impedindo a entrada de toda ajuda humanitária, suprimentos médicos e produtos comerciais.”
A agência acrescentou: “Quanto mais tempo esse bloqueio durar, mais danos irreversíveis serão causados a inúmeras vidas”.
Em meio a essa trágica realidade, os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança para salvar as vidas de milhares de crianças, mulheres e idosos.
Mujica foi, antes de tudo, um homem inteiro
Sendo a vida um rio que precisa ser atravessado, cabe-nos construir uma ponte capaz de nos sustentar do primeiro engatinhar ao último arrastar de perna. Não é tarefa pouca. Tanto assim que boa parte dos bípedes acaba desperdiçando fortunas ou aflições erigindo passarelas impermanentes, ocas, que desabam ao primeiro infortúnio e acabam varridas da História. José “Pepe” Mujica, que completaria 90 anos nesta terça-feira, nunca confundiu o ser com o ter. Atravessou o tumultuoso rio de sua vida sem precisar escorar-se em vanglórias nem vitimizações. Sua ponte a tudo resistiu. Fora construída de material nobre e raro: a simples decência humana.
A julgar pelos registros nas mídias, elogiosos segundo a régua convencional de atributos, havia morrido um “símbolo da esquerda”, um “ícone da esquerda” ou, no máximo, um “herói da esquerda da América Latina”. Assim fazendo, apequenaram o morto. Isso porque Mujica foi, antes de tudo, um homem inteiro. Seus valores eram universais, e sua moral danada de límpida. “Dediquei a vida a mudar o mundo e não mudei nada, mas não importa — dei sentido à minha vida sonhando, lutando, pelejando. Parto daqui feliz”, explicou ao jornal El País no ano passado, já bastante doente.
A trajetória política do uruguaio José Alberto Mujica Cordano é conhecida: nascido em ambiente rural nos arredores de Montevidéu, aderiu cedo ao movimento guerrilheiro Tupamaro, foi preso quatro vezes, conseguiu fugir duas — uma das quais com lances cinematográficos —, mas acabou recapturado em 1972 para mofar ou enlouquecer no cárcere. O filme “Uma noite de 12 anos”, de 2018, dirigido por Álvaro Brechner, retrata bem o que foram seus 12 anos de cativeiro na ditadura militar uruguaia. Sete deles foram passados em solitária, numa cela-buraco de pouco mais de 1 metro quadrado, privado de leitura ou raio de sol. Espancado e torturado, chegou a comer sabão e alucinar.
Quando finalmente libertado, estava com 50 anos de idade. Não perdera a razão, nem a humanidade. Nem a companheira de militância Lucía Topolansky, com quem se casaria em 2005 e que o acompanhou até o final. Estava pronto para retomar a política redemocratizada e recebeu dos patrícios votos e aprovação — primeiro como membro do Congresso, depois como presidente da República. Ao contrário do que ocorreu na Argentina e no Chile pós-ditadura, decidiu não processar os militares responsáveis pela tortura, mortes e desaparecimentos ocorridos nos porões uruguaios. Tampouco se arrependeu das várias ações de guerrilha urbana de que participou. “Na vida há feridas que não têm cura, é preciso aprender a continuar a viver”, dizia. Assim fez.
Poucas horas depois do anúncio de sua morte, um vídeo caseiro de menos de três minutos mostrava uma bailarina anônima numa viela deserta de Montevidéu. É noite. À frente de um muro descascado com os dizeres “GRACIAS PEPE POR TANTA POESIA” e de uma dezena de velas acesas no chão, a bailarina dança um dos solos mais belos do “Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Difícil imaginar outro líder mundial que gere manifestação de pesar tão significante. Vez por outra, poesia, política e humanidade conseguem conviver e frutificar. São raras essas vezes — somente quando o ser humano foi maior que sua obra estritamente política. Assim foi com o sul-africano Nelson Mandela, assim foi com o argentino Papa Francisco e assim foi com o americano Jimmy Carter.
No seminal livro de Primo Levi “É isto um homem?”, o sobrevivente de Auschwitz nos intima a refletir sobre os abismos e cumes do que é ser humano. Talvez lhe fizesse bem saber que, para Mujica, o significado da vida pode ser encontrado no que nos diferencia das demais espécies — graças a nosso desenvolvimento intelectual, e se exercitarmos nossa consciência, podemos dar à vida algum sentido, escolher uma causa, vivê-la. Mujica diz ter conseguido ser livre por ter escapado da lei da necessidade. Levi não teve essa oportunidade. Coube-lhe a missão desumana de narrar o que não suportamos ver. Ainda assim, também ele inicia seu livro máximo com um poema: “Se questo è un uomo”.
A julgar pelos registros nas mídias, elogiosos segundo a régua convencional de atributos, havia morrido um “símbolo da esquerda”, um “ícone da esquerda” ou, no máximo, um “herói da esquerda da América Latina”. Assim fazendo, apequenaram o morto. Isso porque Mujica foi, antes de tudo, um homem inteiro. Seus valores eram universais, e sua moral danada de límpida. “Dediquei a vida a mudar o mundo e não mudei nada, mas não importa — dei sentido à minha vida sonhando, lutando, pelejando. Parto daqui feliz”, explicou ao jornal El País no ano passado, já bastante doente.
A trajetória política do uruguaio José Alberto Mujica Cordano é conhecida: nascido em ambiente rural nos arredores de Montevidéu, aderiu cedo ao movimento guerrilheiro Tupamaro, foi preso quatro vezes, conseguiu fugir duas — uma das quais com lances cinematográficos —, mas acabou recapturado em 1972 para mofar ou enlouquecer no cárcere. O filme “Uma noite de 12 anos”, de 2018, dirigido por Álvaro Brechner, retrata bem o que foram seus 12 anos de cativeiro na ditadura militar uruguaia. Sete deles foram passados em solitária, numa cela-buraco de pouco mais de 1 metro quadrado, privado de leitura ou raio de sol. Espancado e torturado, chegou a comer sabão e alucinar.
Quando finalmente libertado, estava com 50 anos de idade. Não perdera a razão, nem a humanidade. Nem a companheira de militância Lucía Topolansky, com quem se casaria em 2005 e que o acompanhou até o final. Estava pronto para retomar a política redemocratizada e recebeu dos patrícios votos e aprovação — primeiro como membro do Congresso, depois como presidente da República. Ao contrário do que ocorreu na Argentina e no Chile pós-ditadura, decidiu não processar os militares responsáveis pela tortura, mortes e desaparecimentos ocorridos nos porões uruguaios. Tampouco se arrependeu das várias ações de guerrilha urbana de que participou. “Na vida há feridas que não têm cura, é preciso aprender a continuar a viver”, dizia. Assim fez.
Poucas horas depois do anúncio de sua morte, um vídeo caseiro de menos de três minutos mostrava uma bailarina anônima numa viela deserta de Montevidéu. É noite. À frente de um muro descascado com os dizeres “GRACIAS PEPE POR TANTA POESIA” e de uma dezena de velas acesas no chão, a bailarina dança um dos solos mais belos do “Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Difícil imaginar outro líder mundial que gere manifestação de pesar tão significante. Vez por outra, poesia, política e humanidade conseguem conviver e frutificar. São raras essas vezes — somente quando o ser humano foi maior que sua obra estritamente política. Assim foi com o sul-africano Nelson Mandela, assim foi com o argentino Papa Francisco e assim foi com o americano Jimmy Carter.
No seminal livro de Primo Levi “É isto um homem?”, o sobrevivente de Auschwitz nos intima a refletir sobre os abismos e cumes do que é ser humano. Talvez lhe fizesse bem saber que, para Mujica, o significado da vida pode ser encontrado no que nos diferencia das demais espécies — graças a nosso desenvolvimento intelectual, e se exercitarmos nossa consciência, podemos dar à vida algum sentido, escolher uma causa, vivê-la. Mujica diz ter conseguido ser livre por ter escapado da lei da necessidade. Levi não teve essa oportunidade. Coube-lhe a missão desumana de narrar o que não suportamos ver. Ainda assim, também ele inicia seu livro máximo com um poema: “Se questo è un uomo”.
Ética, confiança e democracia
É generalizada a percepção de que, no momento atual da vida brasileira, a preocupação com a ética não tem predominado na conduta dos atores políticos, tanto da situação quanto da oposição.
Dessa carência de eticidade provém a redução da confiança nas instituições do País que alcança o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
Democracia requer confiança. Uma confiança que se vê comprometida pela presença de uma política “fértil em meios e manhas” (nas palavras de Rui Barbosa), voltada para o bem particular de alguns.
São requisitos de confiança nas regras da democracia, como esclarece Bobbio, tanto a confiança da cidadania nas instituições quanto a confiança recíproca entre os cidadãos que integram a comunidade política. Esta, por sua vez, se vê comprometida pela fragmentação polarizadora, permeada pela intolerância da sociedade brasileira.
Neste contexto, vale a pena lembrar que a palavra corrupção vem do latim, corrumpere, com o significado originário de estragar, decompor, perverter. Este significado na filosofia aristotélica é uma das espécies do movimento que leva à destruição da substância. A falta de ética é um movimento destruidor da substância do Estado Democrático de Direito, consagrado pela Constituição cidadã de 1988.
A perversão da corrupção, proveniente da falta de ética, vai além da transgressiva conduta de pessoas, empresas e associações em esferas da vida nacional. Transcende igualmente o elenco de crimes tipificados pelo Direito Penal. É um sério problema de profundo alcance político ao ensejar a corrupção do espírito público, como aponta Raymond Aron.
É o cupim da corrupção na imagem de Políbio, que transubstancia as formas boas de governo em formas más. No nosso caso, a democracia de governo de muitos, numa oclocracia de submissão e apequenamento. Esta, ao consolidar-se, dá espaço para as manhas e meios de demagogos inconsequentes, propicia as aspirações do cesarismo de falsas lideranças e promove os vínculos espúrios do dinheiro com o poder que leva à plutocracia. Isso acaba no que Michelangelo Bovero denomina de caquistocracia – o governo dos piores.
No Brasil, um ingrediente da caquistocracia da corrupção é um crescente hiato entre o preconizado pela Constituição de 1988 e os costumes constitucionais, que são a melhor garantia da Constituição. O costume tem a necessidade das instituições para desenvolver-se. As instituições têm a necessidade do costume para perdurarem. Uma das virtudes do Estado Democrático de Direito é o respeito às leis e, muito especialmente, à Constituição, e uma dimensão da falta de virtude ética é a complacência no afrouxamento de sua força obrigatória. Evoco nesse sentido os princípios do artigo 37 da Constituição.
Começo com o princípio da moralidade, que aponta para o fato de que o direito, como disciplina da convivência humana, sempre tem como piso um mínimo ético. Esse mínimo ético está em sintonia com os valores da sociedade, que na redemocratização presidiram a elaboração da Constituição. Dele emana a cobertura axiológica da boa-fé e da confiança, que deve nortear, na relação governante-governados, a aquisição e o exercício do poder. O princípio da moralidade adquire especificidade com os princípios da legalidade e da impessoalidade.
O princípio da legalidade afirma que as atividades dos atores políticos regem-se pelo atendimento das normas jurídicas, com base na lei, cuja finalidade é sempre a preservação do interesse público. O princípio está voltado a embargar os ilícitos da corrupção provenientes dos desmandos e dos favoritismos no exercício do poder.
O princípio da impessoalidade prescreve que todos devem ser tratados sem distinção, em obediência ao republicano princípio da igualdade. É o que se contrapõe ao clientelismo das nomeações, ao compadrio do favoritismo da família. Em síntese, as modalidades de corrupção provenientes da confusão entre o público e o privado, entre a casa e a rua, para lembrar a formulação de Roberto DaMatta.
Por último, mas de grande relevo para a eficácia dos demais, o princípio da publicidade. Este parte de um pressuposto essencial da democracia na passagem do dever do súdito para o direito do cidadão: o público, por ser comum a todos, deve ser do conhecimento de todos, e não ser guardado em sigilo por interesses privados.
A transparência, propiciada pela publicidade e fortalecida pelo respeito à veracidade, está voltada para embargar as modalidades de corrupção que se escondem para não passar pelo teste da moralidade oferecida pelo sol da publicidade. A cidadania deve poder saber quem é um ator político, o que faz e com quem anda. E, sobretudo, deve saber tudo em relação àqueles que têm o poder de decidir no âmbito dos poderes e detêm as consequentes competências jurídicas para fazer-se obedecer.
Machado de Assis observa que “a corrupção escondida vale tanto quanto a pública: a diferença é que não fede”. No momento atual, os costumes da falta de ética minam a confiança na democracia, enquanto o mau cheiro da fumaça está asfixiando a cidadania brasileira.
Celso Lafer
Dessa carência de eticidade provém a redução da confiança nas instituições do País que alcança o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.
Democracia requer confiança. Uma confiança que se vê comprometida pela presença de uma política “fértil em meios e manhas” (nas palavras de Rui Barbosa), voltada para o bem particular de alguns.
São requisitos de confiança nas regras da democracia, como esclarece Bobbio, tanto a confiança da cidadania nas instituições quanto a confiança recíproca entre os cidadãos que integram a comunidade política. Esta, por sua vez, se vê comprometida pela fragmentação polarizadora, permeada pela intolerância da sociedade brasileira.
Neste contexto, vale a pena lembrar que a palavra corrupção vem do latim, corrumpere, com o significado originário de estragar, decompor, perverter. Este significado na filosofia aristotélica é uma das espécies do movimento que leva à destruição da substância. A falta de ética é um movimento destruidor da substância do Estado Democrático de Direito, consagrado pela Constituição cidadã de 1988.
A perversão da corrupção, proveniente da falta de ética, vai além da transgressiva conduta de pessoas, empresas e associações em esferas da vida nacional. Transcende igualmente o elenco de crimes tipificados pelo Direito Penal. É um sério problema de profundo alcance político ao ensejar a corrupção do espírito público, como aponta Raymond Aron.
É o cupim da corrupção na imagem de Políbio, que transubstancia as formas boas de governo em formas más. No nosso caso, a democracia de governo de muitos, numa oclocracia de submissão e apequenamento. Esta, ao consolidar-se, dá espaço para as manhas e meios de demagogos inconsequentes, propicia as aspirações do cesarismo de falsas lideranças e promove os vínculos espúrios do dinheiro com o poder que leva à plutocracia. Isso acaba no que Michelangelo Bovero denomina de caquistocracia – o governo dos piores.
No Brasil, um ingrediente da caquistocracia da corrupção é um crescente hiato entre o preconizado pela Constituição de 1988 e os costumes constitucionais, que são a melhor garantia da Constituição. O costume tem a necessidade das instituições para desenvolver-se. As instituições têm a necessidade do costume para perdurarem. Uma das virtudes do Estado Democrático de Direito é o respeito às leis e, muito especialmente, à Constituição, e uma dimensão da falta de virtude ética é a complacência no afrouxamento de sua força obrigatória. Evoco nesse sentido os princípios do artigo 37 da Constituição.
Começo com o princípio da moralidade, que aponta para o fato de que o direito, como disciplina da convivência humana, sempre tem como piso um mínimo ético. Esse mínimo ético está em sintonia com os valores da sociedade, que na redemocratização presidiram a elaboração da Constituição. Dele emana a cobertura axiológica da boa-fé e da confiança, que deve nortear, na relação governante-governados, a aquisição e o exercício do poder. O princípio da moralidade adquire especificidade com os princípios da legalidade e da impessoalidade.
O princípio da legalidade afirma que as atividades dos atores políticos regem-se pelo atendimento das normas jurídicas, com base na lei, cuja finalidade é sempre a preservação do interesse público. O princípio está voltado a embargar os ilícitos da corrupção provenientes dos desmandos e dos favoritismos no exercício do poder.
O princípio da impessoalidade prescreve que todos devem ser tratados sem distinção, em obediência ao republicano princípio da igualdade. É o que se contrapõe ao clientelismo das nomeações, ao compadrio do favoritismo da família. Em síntese, as modalidades de corrupção provenientes da confusão entre o público e o privado, entre a casa e a rua, para lembrar a formulação de Roberto DaMatta.
Por último, mas de grande relevo para a eficácia dos demais, o princípio da publicidade. Este parte de um pressuposto essencial da democracia na passagem do dever do súdito para o direito do cidadão: o público, por ser comum a todos, deve ser do conhecimento de todos, e não ser guardado em sigilo por interesses privados.
A transparência, propiciada pela publicidade e fortalecida pelo respeito à veracidade, está voltada para embargar as modalidades de corrupção que se escondem para não passar pelo teste da moralidade oferecida pelo sol da publicidade. A cidadania deve poder saber quem é um ator político, o que faz e com quem anda. E, sobretudo, deve saber tudo em relação àqueles que têm o poder de decidir no âmbito dos poderes e detêm as consequentes competências jurídicas para fazer-se obedecer.
Machado de Assis observa que “a corrupção escondida vale tanto quanto a pública: a diferença é que não fede”. No momento atual, os costumes da falta de ética minam a confiança na democracia, enquanto o mau cheiro da fumaça está asfixiando a cidadania brasileira.
Celso Lafer
A cara do Brasil
De passagem pelo Brasil, anos atrás, perguntaram a Umberto Eco o que era afinal Silvio Berlusconi, então eleito primeiro-ministro. “Infelizmente ele é a cara da Itália de hoje”, respondeu. Não havia ali ironia, apenas cínico conformismo diante do personagem folclórico e corrupto. O Brasil de 2025 seriam os 315 deputados que votaram para aliviar o golpista Alexandre Ramagem e o chefe do bando? Ou seria o notório ex-ministro Carlos Lupi? Sem muito esforço: é Lula da Silva e sua Janja, ao lado de Nicolás Maduro, entusiasmado com o ditador Vladimir Putin?
Posso olhar para o lado, fugindo dos tipos eleitos pelo voto popular, e pensar em Alaíde Costa, que, aos 89 anos, lança um álbum avassalador: “Uma estrela para Dalva”, em homenagem a Dalva de Oliveira. É um Brasil com outro tipo de civilização, ainda educado e poético, que não precisa mostrar a bunda, como Anitta, em assanhada vulgaridade. Ao lado de Guinga, Antonio Adolfo e André Mehmari, entre outros, Alaíde oferece um repertório de canções — algumas de Herivelto Martins, com quem Dalva foi casada, como “Ave Maria no morro” — de quando o brasileiro acreditava no país do futuro. Mais certo se aferrar à definição de Oswald de Andrade, imbatível: “O Brasil é um monte de gente dando adeus”. Ou seria um “país de chegadas”?
Nos quarenta anos de democracia, a polarização nos coloca falsamente entre a cruz dos Adoradores do Golpe ou das genuflexões para o Populismo de Esquerda. O mundo delicado de Guimarães Rosa e Noel Rosa desapareceu sepultado pelas emendas secretas, pelo fundo eleitoral e pelas redes sociais. A política de coalizão substituiu a possibilidade de Drummond de Andrade pela realidade ralé de Valdemar Costa Neto e Sóstenes Cavalcante. Ou pelo ativismo reverso de Anielle Franco.
A culpa não é dos eleitores, mas de um sistema que nos prende às imagens de mundo do passado, capaz de afastar da política os melhores quadros. Não deve causar entusiasmo levantar da cama na segunda pela manhã sabendo de uma reunião com Arthur Lira. Ou discutir questões atuariais com Carlos Lupi. O desaforado filósofo Sócrates escolheu tomar cicuta para demonstrar na prática ao povo de Atenas sua descrença na democracia, como escrito por I.F. Stone em “O julgamento de Sócrates”. Passados alguns séculos, com algumas graves guerras pela História, e a ortografia de Bolsonaro, as instituições ganharam camadas de proteção. Mas sempre escapa uma Carla Zambelli por baixo da porta.
O historiador Robert Paxton, em sua “Anatomia do fascismo”, caminha pelo surgimento das representações políticas modernas. Ao buscar as raízes do nascimento dos extremismos de direita, mostra a reação das elites ao voto universal, ao surgimento do político profissional (o primeiro Parlamento a dar salário a deputados foi o francês, ainda no século XIX) e a manipulação do eleitorado. Colocado em prática na eleição de 1848, Luís Napoleão (sobrinho do Imperador) foi eleito com ampla maioria (74%) — depois deu um golpe. O velho Marx errou sua aposta ao imaginar a vitória do proletariado sobre a burguesia. Nem ele, tampouco Engels, imaginavam a possibilidade de os trabalhadores votarem num representante das elites (o patrão, na linguagem usual). Parece a surpresa dos democratas ao ser novamente derrotados por Donald Trump.
A extrema direita sempre mostrou habilidades na manipulação dos eleitores nos momentos de crise econômica ou de mudanças nos processos de produção (lá, a Revolução Industrial; agora, a Revolução Digital). Ninguém deve esquecer que tanto Mussolini como Hitler foram eleitos. E já pregavam várias de suas atrocidades.
Mesmo com a volta à democracia, o sistema eleitoral brasileiro sempre se mostrou imperfeito. Nunca houve modelo capaz de representar mais fielmente a vontade popular. Agravando as distorções, na véspera de cada eleição os políticos promovem mudanças em benefício próprio. Em poucos anos, o fundo eleitoral se transformou num maná, surgiram as emendas secretas (e bilionárias) somadas à manipulação das redes sociais.
Sem reforma eleitoral, com um novo sistema, a começar pelo voto distrital, o eleitor manipulado continuará a ser uma arma contra a democracia. A continuar assim, a política permanecerá na mão dos profissionais pagos pelo próprio povo. Como 315 deputados votam para inocentar alguém que quis dar um golpe? Seriam eles representantes da maioria ou instrumento de um grupo minoritário? A manobra de Hugo Motta para aumentar, e não diminuir, o número de deputados novamente deturpa a representação. Mas hoje ele é a face eleita do Brasil.
Miguel de Almeida
Posso olhar para o lado, fugindo dos tipos eleitos pelo voto popular, e pensar em Alaíde Costa, que, aos 89 anos, lança um álbum avassalador: “Uma estrela para Dalva”, em homenagem a Dalva de Oliveira. É um Brasil com outro tipo de civilização, ainda educado e poético, que não precisa mostrar a bunda, como Anitta, em assanhada vulgaridade. Ao lado de Guinga, Antonio Adolfo e André Mehmari, entre outros, Alaíde oferece um repertório de canções — algumas de Herivelto Martins, com quem Dalva foi casada, como “Ave Maria no morro” — de quando o brasileiro acreditava no país do futuro. Mais certo se aferrar à definição de Oswald de Andrade, imbatível: “O Brasil é um monte de gente dando adeus”. Ou seria um “país de chegadas”?
Nos quarenta anos de democracia, a polarização nos coloca falsamente entre a cruz dos Adoradores do Golpe ou das genuflexões para o Populismo de Esquerda. O mundo delicado de Guimarães Rosa e Noel Rosa desapareceu sepultado pelas emendas secretas, pelo fundo eleitoral e pelas redes sociais. A política de coalizão substituiu a possibilidade de Drummond de Andrade pela realidade ralé de Valdemar Costa Neto e Sóstenes Cavalcante. Ou pelo ativismo reverso de Anielle Franco.
A culpa não é dos eleitores, mas de um sistema que nos prende às imagens de mundo do passado, capaz de afastar da política os melhores quadros. Não deve causar entusiasmo levantar da cama na segunda pela manhã sabendo de uma reunião com Arthur Lira. Ou discutir questões atuariais com Carlos Lupi. O desaforado filósofo Sócrates escolheu tomar cicuta para demonstrar na prática ao povo de Atenas sua descrença na democracia, como escrito por I.F. Stone em “O julgamento de Sócrates”. Passados alguns séculos, com algumas graves guerras pela História, e a ortografia de Bolsonaro, as instituições ganharam camadas de proteção. Mas sempre escapa uma Carla Zambelli por baixo da porta.
O historiador Robert Paxton, em sua “Anatomia do fascismo”, caminha pelo surgimento das representações políticas modernas. Ao buscar as raízes do nascimento dos extremismos de direita, mostra a reação das elites ao voto universal, ao surgimento do político profissional (o primeiro Parlamento a dar salário a deputados foi o francês, ainda no século XIX) e a manipulação do eleitorado. Colocado em prática na eleição de 1848, Luís Napoleão (sobrinho do Imperador) foi eleito com ampla maioria (74%) — depois deu um golpe. O velho Marx errou sua aposta ao imaginar a vitória do proletariado sobre a burguesia. Nem ele, tampouco Engels, imaginavam a possibilidade de os trabalhadores votarem num representante das elites (o patrão, na linguagem usual). Parece a surpresa dos democratas ao ser novamente derrotados por Donald Trump.
A extrema direita sempre mostrou habilidades na manipulação dos eleitores nos momentos de crise econômica ou de mudanças nos processos de produção (lá, a Revolução Industrial; agora, a Revolução Digital). Ninguém deve esquecer que tanto Mussolini como Hitler foram eleitos. E já pregavam várias de suas atrocidades.
Mesmo com a volta à democracia, o sistema eleitoral brasileiro sempre se mostrou imperfeito. Nunca houve modelo capaz de representar mais fielmente a vontade popular. Agravando as distorções, na véspera de cada eleição os políticos promovem mudanças em benefício próprio. Em poucos anos, o fundo eleitoral se transformou num maná, surgiram as emendas secretas (e bilionárias) somadas à manipulação das redes sociais.
Sem reforma eleitoral, com um novo sistema, a começar pelo voto distrital, o eleitor manipulado continuará a ser uma arma contra a democracia. A continuar assim, a política permanecerá na mão dos profissionais pagos pelo próprio povo. Como 315 deputados votam para inocentar alguém que quis dar um golpe? Seriam eles representantes da maioria ou instrumento de um grupo minoritário? A manobra de Hugo Motta para aumentar, e não diminuir, o número de deputados novamente deturpa a representação. Mas hoje ele é a face eleita do Brasil.
Miguel de Almeida
A única coisa de jeito que podemos aprender com Trump
Sim, Donald Trump é um perigo ambulante, um narcisista descontrolado com pouquíssimo amor às regras da democracia e sem qualquer respeito pelas suas instituições. Já sabemos tudo isto de cor e salteado. Mas há um aspecto da sua governação a que convém prestar atenção, porque podemos aprender alguma coisa com ele. Estima-se que desde o início deste seu segundo mandato Donald Trump já tenha emitido cerca de 140 ordens executivas, entre questões de imigração, educação ou ambiente. É um recorde absoluto. Por um lado, Trump toma essa opção para fugir a possíveis bloqueios do congresso, e fazer o que lhe dá na real gana. Mas, por outro lado – e é esse o lado que me interessa discutir hoje aqui –, há um claro desejo de reclamar mais força para o poder executivo. E esse desejo não me parece tão despropositado assim. Vale a pena explicar porquê.
Uma das coisas que sempre me impressionaram quando ocasionalmente conversei com pessoas que é suposto terem poder – ministros, presidentes de câmaras, diretores de grandes instituições ligadas ao Estado – foi a enorme quantidade de queixas acerca daquilo que “não se consegue fazer”. Não porque a oposição o impedisse ou lhes faltasse apoio político, mas porque o “sistema” não deixava: as leis eram complexas, a regulação uma tortura, os serviços insuficientes, a burocracia infrene. Queriam fazer, mas não conseguiam. Este sentimento de impotência existe mesmo, e é muito significativo por parte de políticos eleitos. Eles jamais o admitem em público, para não fazerem figura de fraca gente, mas queixam-se abundantemente disso em privado.
Nos Estados Unidos, passa-se o mesmo, ainda com maior intensidade. A oposição entre “Mainstreet” e “Wall Street”, de que tantas vezes ouvimos falar, deriva daqui: da existência de poderes fácticos que, segundo os mais descontentes, têm tornado praticamente inútil o voto – o poder está capturado pelo chamado “deep state”, e é este “Estado profundo”, obscuro e sem escrutínio, que a direita de Trump quer desmantelar (dizem eles). Sendo esse o objetivo, esta segunda vaga trumpista tem vindo a utilizar intensivamente uma táctica conhecida como “flood the zone” – “inundar a área” –, alegada criação do guru Steve Bannon, que consiste em avançar muito rapidamente contra aquilo que se quer derrubar, emitindo um vendaval de ordens executivas e de declarações altamente controversas. A ideia é que ninguém consiga acompanhar o ritmo: nem a oposição, nem os tribunais, nem a comunicação social, que são obrigados a escolher dez ou 20 lutas e indignações, e a deixar passar as outras 120 ou 130.
A estratégia é forte e é bruta, e, dada a falta de amor à democracia de Donald Trump, é também altamente perigosa. Mas ela corresponde a uma inquietação genuína. Quando Trump obtém 77 milhões de votos, nós achamos que há 77 milhões de americanos a concordar com as suas ideias. Pode não ser isso. Basta que concordem com ele numa única grande ideia: não querer que as coisas fiquem como estão. Não se trata, pois, de opor esquerda e direita, mas mudança e imobilidade. Muita gente não gosta de Trump, mas vê nele o político certo para que o poder executivo volte efetivamente a “executar”, sem ficar capturado numa rede de interesses subterrâneos com imenso poder, mas sem legitimidade democrática. Há aqui muita teoria de conspiração? Sim, há. Mas há também um fundo de verdade, que seria bom que os verdadeiros democratas começassem a levar a sério.
João Miguel Tavares
Uma das coisas que sempre me impressionaram quando ocasionalmente conversei com pessoas que é suposto terem poder – ministros, presidentes de câmaras, diretores de grandes instituições ligadas ao Estado – foi a enorme quantidade de queixas acerca daquilo que “não se consegue fazer”. Não porque a oposição o impedisse ou lhes faltasse apoio político, mas porque o “sistema” não deixava: as leis eram complexas, a regulação uma tortura, os serviços insuficientes, a burocracia infrene. Queriam fazer, mas não conseguiam. Este sentimento de impotência existe mesmo, e é muito significativo por parte de políticos eleitos. Eles jamais o admitem em público, para não fazerem figura de fraca gente, mas queixam-se abundantemente disso em privado.
Nos Estados Unidos, passa-se o mesmo, ainda com maior intensidade. A oposição entre “Mainstreet” e “Wall Street”, de que tantas vezes ouvimos falar, deriva daqui: da existência de poderes fácticos que, segundo os mais descontentes, têm tornado praticamente inútil o voto – o poder está capturado pelo chamado “deep state”, e é este “Estado profundo”, obscuro e sem escrutínio, que a direita de Trump quer desmantelar (dizem eles). Sendo esse o objetivo, esta segunda vaga trumpista tem vindo a utilizar intensivamente uma táctica conhecida como “flood the zone” – “inundar a área” –, alegada criação do guru Steve Bannon, que consiste em avançar muito rapidamente contra aquilo que se quer derrubar, emitindo um vendaval de ordens executivas e de declarações altamente controversas. A ideia é que ninguém consiga acompanhar o ritmo: nem a oposição, nem os tribunais, nem a comunicação social, que são obrigados a escolher dez ou 20 lutas e indignações, e a deixar passar as outras 120 ou 130.
A estratégia é forte e é bruta, e, dada a falta de amor à democracia de Donald Trump, é também altamente perigosa. Mas ela corresponde a uma inquietação genuína. Quando Trump obtém 77 milhões de votos, nós achamos que há 77 milhões de americanos a concordar com as suas ideias. Pode não ser isso. Basta que concordem com ele numa única grande ideia: não querer que as coisas fiquem como estão. Não se trata, pois, de opor esquerda e direita, mas mudança e imobilidade. Muita gente não gosta de Trump, mas vê nele o político certo para que o poder executivo volte efetivamente a “executar”, sem ficar capturado numa rede de interesses subterrâneos com imenso poder, mas sem legitimidade democrática. Há aqui muita teoria de conspiração? Sim, há. Mas há também um fundo de verdade, que seria bom que os verdadeiros democratas começassem a levar a sério.
João Miguel Tavares
domingo, 18 de maio de 2025
Um grito de socorro abafado
Na adolescência, era bom dançar ao som de "Blue Gardenia", composta e cantada por Nat King Cole. Ele inscrevia esse nome no melhor do cancioneiro romântico, suavizando o mesmo título de um filme policial (1953), também na boa tradição do thriller americano. Mas a Gardênia Azul que batiza uma comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro reitera o alerta nacional para o descontrole territorial. Ali, o Comando Vermelho desbancou a milícia e passou a taxar o comércio, em alguns casos a R$ 10 mil por mês, além de obrigar restaurante a fornecer 70 quentinhas diárias para os traficantes. Na verdade, tráfico e milícia desbancam o Estado.
Cerca de 800 comunidades podem fazer relatos semelhantes. No mesmo dia em que a imprensa escrita noticiava a situação da Gardênia Azul, uma reportagem televisiva falava dos condôminos de um edifício em Madureira, zona norte, convocados a uma assembleia geral extraordinária para discutir o pagamento mensal de R$ 1.800 ao tráfico da região. Essa é a realidade das classes mais pobres no território carioca. Comunidade deveria ser o lugar onde se pode gritar por socorro e ser ouvido, mas aqui são as próprias comunidades que gritam. Milhões de pessoas vivem sem o direito elementar de ir e vir.
Os megaeventos, destinados a projetar uma imagem favorável da cidade para o mundo e reinjetar dinheiro na economia, tentam camuflar essa realidade opressiva. É a lógica que leva estado e município a gastarem juntos R$ 30 milhões do custo total de R$ 90 milhões com o show de Lady Gaga. O evento deixou memória positiva: impacto econômico de R$ 600 milhões, mínimas ocorrências policiais. Mas é forte a impressão de que tudo isso abafe o grito de socorro da parte da população que vive sob ditadura férrea de delinquentes, ao lado da outra imersa no negacionismo do não querer saber.
A ressonância internacional do vexame comprova-se na vinda de uma delegação dos EUA para discutir o combate ao Comando Vermelho, que já se espalha por várias cidades americanas. Quanto ao megaevento, vantajoso a empresários e políticos, é um plus anestésico num público que, em matéria de solidariedade social ou afetiva, beira a apatia. A quem assiste como coisa mais interessante de suas vidas o show bem policiado de Lady Gaga, pouco importa saber se outra parte da cidade com o mesmo anseio estará ausente por medo de deslocar-se de onde vive.
Embora a paisagem humana carioca pareça ser a mais afetada por essa calamidade cívica, o problema é de toda a nação. Inconcebível que o Estado nacional, mesmo regido por velhas elites predatórias, se mostre tão vulnerável aos sinais de sua derrocada. Divaga-se, certo, sobre retomada de territórios, mas com uma perspectiva apenas policial, enxuga-gelo, que mais prejudica a população dos espaços onde as quadrilhas se instalaram. Com frequência, as operações de "neutralização" de chefões do crime não são mais do que atos de vingança ou retaliação corporativa, com danos colaterais para moradores indefesos. É que, assim como já não se distingue narcotráfico de milícia, talvez não se saiba mais fazer a diferença entre lei e ilegalismo, Estado e banditismo.
Cerca de 800 comunidades podem fazer relatos semelhantes. No mesmo dia em que a imprensa escrita noticiava a situação da Gardênia Azul, uma reportagem televisiva falava dos condôminos de um edifício em Madureira, zona norte, convocados a uma assembleia geral extraordinária para discutir o pagamento mensal de R$ 1.800 ao tráfico da região. Essa é a realidade das classes mais pobres no território carioca. Comunidade deveria ser o lugar onde se pode gritar por socorro e ser ouvido, mas aqui são as próprias comunidades que gritam. Milhões de pessoas vivem sem o direito elementar de ir e vir.
Os megaeventos, destinados a projetar uma imagem favorável da cidade para o mundo e reinjetar dinheiro na economia, tentam camuflar essa realidade opressiva. É a lógica que leva estado e município a gastarem juntos R$ 30 milhões do custo total de R$ 90 milhões com o show de Lady Gaga. O evento deixou memória positiva: impacto econômico de R$ 600 milhões, mínimas ocorrências policiais. Mas é forte a impressão de que tudo isso abafe o grito de socorro da parte da população que vive sob ditadura férrea de delinquentes, ao lado da outra imersa no negacionismo do não querer saber.
A ressonância internacional do vexame comprova-se na vinda de uma delegação dos EUA para discutir o combate ao Comando Vermelho, que já se espalha por várias cidades americanas. Quanto ao megaevento, vantajoso a empresários e políticos, é um plus anestésico num público que, em matéria de solidariedade social ou afetiva, beira a apatia. A quem assiste como coisa mais interessante de suas vidas o show bem policiado de Lady Gaga, pouco importa saber se outra parte da cidade com o mesmo anseio estará ausente por medo de deslocar-se de onde vive.
Embora a paisagem humana carioca pareça ser a mais afetada por essa calamidade cívica, o problema é de toda a nação. Inconcebível que o Estado nacional, mesmo regido por velhas elites predatórias, se mostre tão vulnerável aos sinais de sua derrocada. Divaga-se, certo, sobre retomada de territórios, mas com uma perspectiva apenas policial, enxuga-gelo, que mais prejudica a população dos espaços onde as quadrilhas se instalaram. Com frequência, as operações de "neutralização" de chefões do crime não são mais do que atos de vingança ou retaliação corporativa, com danos colaterais para moradores indefesos. É que, assim como já não se distingue narcotráfico de milícia, talvez não se saiba mais fazer a diferença entre lei e ilegalismo, Estado e banditismo.
Bolsonaro conduz a direita como gado
A direita brasileira saiu do armário e ganhou corpo graças à arrancada e à vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas, desde então, demonstra incapacidade de se livrar de sua tutela, mesmo depois da inédita derrota de um presidente no cargo e da debacle judicial enfrentada por ele desde que deixou (a contragosto) o poder.
Bolsonaro trata o eleitorado e os aliados que se convencionou chamar de bolsonaristas como gado. Que faça isso não surpreende ninguém, pois condiz com a maneira autoritária com que sempre se conduziu na vida pública. O constrangedor é que políticos que hoje detêm mandatos —conferidos, portanto, por voto popular— se submetam a esse jugo que nem faz sentido nem parece ser condição determinante para seu futuro eleitoral.
Bastou verificar que governadores de seu campo ideológico começaram a ensaiar conversas para uma candidatura única da direita no ano que vem para que Bolsonaro pulasse na frente para interditar o campo e dizer que o candidato tem de ser ele ou, no limite, alguém de sua família designado por ele.
O filhotismo é uma das principais características do bolsonarismo desde que Jair lançou o filho Carlos, então menor de idade, para enfrentar a própria mãe na disputa pela vereança no Rio, uma vez que ela, à época já divorciada do chefe do clã, tinha cometido a audácia de achar que o mandato lhe pertencia e pleiteava a possibilidade de se reeleger. É dessa forma desrespeitosa que Bolsonaro segue tratando aqueles que ajudou a impulsionar politicamente, como se, uma vez apoiados por ele, mantivessem a marca a ferro do capitão no couro para sempre.
Ainda que reservadamente esses mandatários reconheçam que existe boa chance para um candidato de centro-direita vencer Lula no ano que vem, na hora em que Bolsonaro estrila, ninguém ousa enfrentá-lo. Está óbvio que a prioridade do ex-presidente, hoje inelegível e réu no processo da trama golpista, não é a vitória de alguém de seu campo. Isso só interessaria se o ungido se comprometesse de papel passado com um indulto para Bolsonaro e os seus, como fez o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em plena Nova York nesta semana, expondo diante dos holofotes uma costura que antecipei neste espaço há mais de um mês.
Os que não são tão explícitos recebem de Bolsonaro o castigo das ameaças, como uma chapa pura do clã para travar a disputa e atrasar que a fila ande. Caciques que reverenciam Bolsonaro em público, mas adorariam ver essa página virada, andavam cabisbaixos na quarta-feira pelas avenidas nova-iorquinas depois do ultimato do capitão. Sem coragem para romper o jugo, faziam um complicado cálculo de que, a esta altura, seria melhor que Lula recuperasse parte de sua popularidade para que chegasse competitivo no ano que vem. Isso daria a Bolsonaro menos cacife para dar as cartas da direita, uma vez que uma nova vitória do petista enterraria toda a indecente costura por indulto, anistia ou qualquer forma de socorro a quem tramou contra a democracia.
A indigência da política brasileira numa das quadras mais desafiadoras da História global fica ainda mais evidente em episódios como esse, mas não é exclusividade da direita submissa a Bolsonaro. Basta ver que, enquanto o escândalo do INSS segue irresoluto, o presidente, a primeira-dama e seus principais ministros se dão ao desplante de protagonizar um vexatório incidente diplomático com direito a caça às bruxas de vazadores numa viagem de Estado à China.
A direita e a esquerda brasileiras, com um centro superlotado, mas acéfalo, seguem atreladas a líderes personalistas, em maior ou menor grau de declínio, mas sem coragem de romper a tutela. A última vez em que se viu um cenário assim não foi há muito tempo, basta voltar algumas páginas e rememorar a eleição dos Estados Unidos.
Vera Magalhães
Bolsonaro trata o eleitorado e os aliados que se convencionou chamar de bolsonaristas como gado. Que faça isso não surpreende ninguém, pois condiz com a maneira autoritária com que sempre se conduziu na vida pública. O constrangedor é que políticos que hoje detêm mandatos —conferidos, portanto, por voto popular— se submetam a esse jugo que nem faz sentido nem parece ser condição determinante para seu futuro eleitoral.
Bastou verificar que governadores de seu campo ideológico começaram a ensaiar conversas para uma candidatura única da direita no ano que vem para que Bolsonaro pulasse na frente para interditar o campo e dizer que o candidato tem de ser ele ou, no limite, alguém de sua família designado por ele.
O filhotismo é uma das principais características do bolsonarismo desde que Jair lançou o filho Carlos, então menor de idade, para enfrentar a própria mãe na disputa pela vereança no Rio, uma vez que ela, à época já divorciada do chefe do clã, tinha cometido a audácia de achar que o mandato lhe pertencia e pleiteava a possibilidade de se reeleger. É dessa forma desrespeitosa que Bolsonaro segue tratando aqueles que ajudou a impulsionar politicamente, como se, uma vez apoiados por ele, mantivessem a marca a ferro do capitão no couro para sempre.
Ainda que reservadamente esses mandatários reconheçam que existe boa chance para um candidato de centro-direita vencer Lula no ano que vem, na hora em que Bolsonaro estrila, ninguém ousa enfrentá-lo. Está óbvio que a prioridade do ex-presidente, hoje inelegível e réu no processo da trama golpista, não é a vitória de alguém de seu campo. Isso só interessaria se o ungido se comprometesse de papel passado com um indulto para Bolsonaro e os seus, como fez o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em plena Nova York nesta semana, expondo diante dos holofotes uma costura que antecipei neste espaço há mais de um mês.
Os que não são tão explícitos recebem de Bolsonaro o castigo das ameaças, como uma chapa pura do clã para travar a disputa e atrasar que a fila ande. Caciques que reverenciam Bolsonaro em público, mas adorariam ver essa página virada, andavam cabisbaixos na quarta-feira pelas avenidas nova-iorquinas depois do ultimato do capitão. Sem coragem para romper o jugo, faziam um complicado cálculo de que, a esta altura, seria melhor que Lula recuperasse parte de sua popularidade para que chegasse competitivo no ano que vem. Isso daria a Bolsonaro menos cacife para dar as cartas da direita, uma vez que uma nova vitória do petista enterraria toda a indecente costura por indulto, anistia ou qualquer forma de socorro a quem tramou contra a democracia.
A indigência da política brasileira numa das quadras mais desafiadoras da História global fica ainda mais evidente em episódios como esse, mas não é exclusividade da direita submissa a Bolsonaro. Basta ver que, enquanto o escândalo do INSS segue irresoluto, o presidente, a primeira-dama e seus principais ministros se dão ao desplante de protagonizar um vexatório incidente diplomático com direito a caça às bruxas de vazadores numa viagem de Estado à China.
A direita e a esquerda brasileiras, com um centro superlotado, mas acéfalo, seguem atreladas a líderes personalistas, em maior ou menor grau de declínio, mas sem coragem de romper a tutela. A última vez em que se viu um cenário assim não foi há muito tempo, basta voltar algumas páginas e rememorar a eleição dos Estados Unidos.
Vera Magalhães
O mundo de ponta-cabeça
Segunda-feira, dia 12, desembarcou em Washington o primeiro grupo de 59 sul-africanos bóeres, que Donald Trump decidiu acolher com estatuto de refugiados. Trump alega que os bóeres, no seu conjunto, estão sendo perseguidos na África do Sul por motivos raciais.
Na África do Sul, país com uma enorme riqueza étnica, e onde tal riqueza é valorizada e até mitificada, coexistem diversos grupos populacionais considerados brancos. Os bóeres são descendentes muito remotos dos primeiros colonos calvinistas de origem holandesa, francesa e escandinava que se estabeleceram no extremo sul da África, fugindo a perseguições religiosas.
Ao longo dos séculos, os bóeres misturaram-se com outros povos, africanos e malaios, criando a sua própria língua, o afrikaans, além de música, culinária e outras práticas culturais. Embora tenham combatido contra os colonos britânicos, os bóeres terminaram aliando-se a estes para fundar um regime de segregação racial, o apartheid, que se prolongou até 1994, e em larga medida os arrancou da pobreza. O apartheid dividiu as famílias bóeres, entre brancos e mestiços. Hoje, a comunidade considerada mestiça (“coloured”) fala afrikaans e partilha com os “bóeres brancos” os nomes de família. No fundo, à semelhança do que acontece com as famílias antigas brasileiras, não existe nenhum bóer que não possua alguma ancestralidade africana.
A comunidade considerada branca, que hoje representa apenas sete por cento da população total, mantém muitos dos privilégios — e toda a riqueza! — que possuía durante o apartheid. Concretamente, essa pequena minoria detém quase 80% das terras agrícolas privadas.
A decisão de Trump, expulsando ou cortando qualquer apoio a pessoas que realmente necessitam de refúgio, e acolhendo outras que não estão sendo hostilizadas, é um insulto exuberante aos direitos humanos, à inteligência e à sensatez, e a todos os generosos princípios cristãos. É o mundo de ponta-cabeça. O mundo de Trump.
Ebrahim Rasool, o embaixador sul-africano que Trump expulsou dos EUA, despertou a ira da direita selvagem americana, ao sugerir que o maior receio da mesma é que os brancos deixem de ser majoritários nos EUA. A atitude de Trump confirma esta ideia — brancos podem entrar, não-brancos têm de sair.
Na África do Sul, a notícia da chegada dos “refugiados sul-africanos” a Washington foi recebida ora com troça, ora com fúria. Alguns comentadores agradeceram a Trump por estar retirando do país os últimos racistas brancos.
A comunidade bóer divide-se entre a vergonha, a perplexidade e a consternação. Os bóeres ligados à extrema direita teriam preferido que Trump apoiasse a sua pretensão absurda de formar uma república independente. Os outros, aqueles que ainda acreditam no país do arco-íris sonhado por Nelson Mandela, mostram-se horrorizados. Sentem-se sul-africanos e não pensam em abandonar a sua pátria, a pátria dos seus ancestrais, embora, como todas as restantes comunidades, estejam desapontados com a forma como o ANC, partido que ocupa o poder desde 1994, vem liderando o país.
Na África do Sul, país com uma enorme riqueza étnica, e onde tal riqueza é valorizada e até mitificada, coexistem diversos grupos populacionais considerados brancos. Os bóeres são descendentes muito remotos dos primeiros colonos calvinistas de origem holandesa, francesa e escandinava que se estabeleceram no extremo sul da África, fugindo a perseguições religiosas.
Ao longo dos séculos, os bóeres misturaram-se com outros povos, africanos e malaios, criando a sua própria língua, o afrikaans, além de música, culinária e outras práticas culturais. Embora tenham combatido contra os colonos britânicos, os bóeres terminaram aliando-se a estes para fundar um regime de segregação racial, o apartheid, que se prolongou até 1994, e em larga medida os arrancou da pobreza. O apartheid dividiu as famílias bóeres, entre brancos e mestiços. Hoje, a comunidade considerada mestiça (“coloured”) fala afrikaans e partilha com os “bóeres brancos” os nomes de família. No fundo, à semelhança do que acontece com as famílias antigas brasileiras, não existe nenhum bóer que não possua alguma ancestralidade africana.
A comunidade considerada branca, que hoje representa apenas sete por cento da população total, mantém muitos dos privilégios — e toda a riqueza! — que possuía durante o apartheid. Concretamente, essa pequena minoria detém quase 80% das terras agrícolas privadas.
A decisão de Trump, expulsando ou cortando qualquer apoio a pessoas que realmente necessitam de refúgio, e acolhendo outras que não estão sendo hostilizadas, é um insulto exuberante aos direitos humanos, à inteligência e à sensatez, e a todos os generosos princípios cristãos. É o mundo de ponta-cabeça. O mundo de Trump.
Ebrahim Rasool, o embaixador sul-africano que Trump expulsou dos EUA, despertou a ira da direita selvagem americana, ao sugerir que o maior receio da mesma é que os brancos deixem de ser majoritários nos EUA. A atitude de Trump confirma esta ideia — brancos podem entrar, não-brancos têm de sair.
Na África do Sul, a notícia da chegada dos “refugiados sul-africanos” a Washington foi recebida ora com troça, ora com fúria. Alguns comentadores agradeceram a Trump por estar retirando do país os últimos racistas brancos.
A comunidade bóer divide-se entre a vergonha, a perplexidade e a consternação. Os bóeres ligados à extrema direita teriam preferido que Trump apoiasse a sua pretensão absurda de formar uma república independente. Os outros, aqueles que ainda acreditam no país do arco-íris sonhado por Nelson Mandela, mostram-se horrorizados. Sentem-se sul-africanos e não pensam em abandonar a sua pátria, a pátria dos seus ancestrais, embora, como todas as restantes comunidades, estejam desapontados com a forma como o ANC, partido que ocupa o poder desde 1994, vem liderando o país.
A grande fome de Gaza
Depois de, já esta semana, três responsáveis israelitas terem reconhecido que o território de Gaza está prestes a sofrer fome generalizada, o mundo acordou na quinta-feira com a notícia de um novo bombardeio na zona de Khan Yunis. Mais 79 mortos. Tinha havido outro ataque na noite anterior.
Enquanto tudo isto acontece, o Presidente americano, Donald Trump, passeia-se por outras zonas do Médio Oriente, inveja as riquezas da região e as suas “maravilhas brilhantes” e considera aceitar um avião opulento como presente.
O saldo da investida de Israel em Gaza, desde outubro de 2023, rondará as 64.260 vítimas mortais, de acordo com o número estimado em janeiro deste ano num estudo da revista The Lancet.
O Governo de Israel tem considerado que este bloqueio à entrada de ajuda, decretado há dois meses, é essencial para pressionar o grupo islamista Hamas, mas, à luz do direito internacional, é ilegal impedir o acesso de missões humanitárias a uma zona em conflito. E mesmo que não fosse uma questão de legalidade, seria, sem qualquer sombra de dúvida, uma questão de humanidade para com os mais de dois milhões de palestinos que tentam sobreviver na Faixa de Gaza.
Perante a situação humanitária em Gaza, Emmanuel Macron (que prometeu reconhecer o Estado da Palestina) visita à fronteira daquele território com o Egito. “Não há água, não há medicamentos, não se consegue retirar os feridos. Foi uma das piores coisas que alguma vez vi”, recordou, recebendo, do lado Benjamin Netanyahu, a resposta de que estava a apoiar uma “organização terrorista”.
Macron também disse que a situação no enclave é “inaceitável” — uma vergonha” — e que o mundo não pode “fingir que nada está a acontecer”. Tem razão o Presidente francês: quando está em causa assistência básica, nenhum fim justifica que Israel se mantenha inflexível e continue a bloquear o acesso humanitário ao enclave.
Se isso acontecer, um dia ouviremos falar na grande fome que arrasou os palestinianos de Gaza.
Enquanto tudo isto acontece, o Presidente americano, Donald Trump, passeia-se por outras zonas do Médio Oriente, inveja as riquezas da região e as suas “maravilhas brilhantes” e considera aceitar um avião opulento como presente.
O saldo da investida de Israel em Gaza, desde outubro de 2023, rondará as 64.260 vítimas mortais, de acordo com o número estimado em janeiro deste ano num estudo da revista The Lancet.
O inferno continua a existir em Gaza e, a aceitar como válidas as declarações das três fontes militares israelitas que falaram sob anonimato ao jornal The New York Times, está prestes a piorar. De acordo com os mesmos responsáveis, para evitar o cenário de fome seria necessária a entrada imediata de ajuda humanitária (que inclui não só alimentos, mas também água, medicamentos e equipamentos médicos).
O Governo de Israel tem considerado que este bloqueio à entrada de ajuda, decretado há dois meses, é essencial para pressionar o grupo islamista Hamas, mas, à luz do direito internacional, é ilegal impedir o acesso de missões humanitárias a uma zona em conflito. E mesmo que não fosse uma questão de legalidade, seria, sem qualquer sombra de dúvida, uma questão de humanidade para com os mais de dois milhões de palestinos que tentam sobreviver na Faixa de Gaza.
Perante a situação humanitária em Gaza, Emmanuel Macron (que prometeu reconhecer o Estado da Palestina) visita à fronteira daquele território com o Egito. “Não há água, não há medicamentos, não se consegue retirar os feridos. Foi uma das piores coisas que alguma vez vi”, recordou, recebendo, do lado Benjamin Netanyahu, a resposta de que estava a apoiar uma “organização terrorista”.
Macron também disse que a situação no enclave é “inaceitável” — uma vergonha” — e que o mundo não pode “fingir que nada está a acontecer”. Tem razão o Presidente francês: quando está em causa assistência básica, nenhum fim justifica que Israel se mantenha inflexível e continue a bloquear o acesso humanitário ao enclave.
Se isso acontecer, um dia ouviremos falar na grande fome que arrasou os palestinianos de Gaza.
sexta-feira, 16 de maio de 2025
Os tempos que testam as almas: a América em 1776 e 2025
Duzentos e quarenta e nove anos atrás, no início da Revolução Americana, foi a prosa de um imigrante recém-chegado da Inglaterra, Thomas Paine, que despertou o espírito revolucionário entre os americanos comuns. Seu apelo claro por unidade, liberdade do domínio britânico e visão da América como um porto seguro para a liberdade está gravado na memória da nação:
“Estes são os tempos que testam a alma dos homens. O soldado de verão e o patriota do sol, nesta crise, se esquivarão do serviço ao seu país, mas aquele que o defende agora merece o amor e a gratidão de homens e mulheres (...) O que obtemos por um preço muito baixo, estimamos com demasiada leviandade; é apenas o preço que dá valor a tudo. Deus sabe como dar um preço justo aos seus bens, e seria realmente estranho se um artigo tão celestial como a liberdade não fosse tão valorizado” (The American Crisis. Número 1, 1776-1783).
Nossos tempos também são tempos que testam as almas dos homens. O santuário da liberdade idealizado por Thomas Paine e outros revolucionários americanos se transformou em um país que detém, deporta à força e faz desaparecer homens e mulheres incomunicáveis em prisões distantes, em total desrespeito aos seus direitos constitucionais; e que pune estudantes por simplesmente defenderem o que é certo: o fim da barbárie de Israel contra o povo indefeso de Gaza.
A questão preocupante é como um país que antes depositava sua fé em presidentes como Washington, Adams, Jefferson, Madison e Lincoln decaiu para figuras como Nixon, Reagan, Clinton, Bush, Obama, Biden e Trump? E, seguindo os conselhos de Paine, por que a classe política americana se dignou a dar ouvidos à defesa de figuras como Ben-Gurion, Meir, Begin, Shamir, Sharon e Netanyahu?
Ao considerar a mudança dos Estados Unidos em direção ao autoritarismo e, consequentemente, a subversão dos direitos constitucionais, dois fatores causais vêm à mente: a entente destrutiva entre EUA e Israel e o crescimento da direita cristã.
Décadas atrás, os Estados Unidos tomaram a decisão insensata de alinhar seus interesses e investir pesadamente em Israel, um país que, desde 1947, está envolvido em um projeto genocida contra o povo palestino: "intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, no todo ou em parte".
A missão do sionismo sempre foi expulsar os palestinos e apagar seus laços com a terra. Os fundadores sionistas de Israel sabiam que, para alcançar seus objetivos expansionistas, precisariam fazer duas coisas: angariar o apoio de um poderoso executor e verdadeiro crente, os Estados Unidos, e contar uma história bíblica que atraísse a grande maioria da população.
Depois de anos vendendo Israel aos americanos e de uma estreita colaboração sistêmica, o ethos político de Washington e Tel Aviv se tornou muito parecido, com a corrupção política e moral e o declínio sendo subprodutos desse alinhamento.
A incessante guerra genocida de Israel contra os palestinos e a cumplicidade dos presidentes Joe Biden e Donald Trump expuseram as falsidades e a corrupção.
A indulgência de Biden com o regime israelense preparou o terreno para as medidas mais draconianas do presidente Donald Trump. Um precedente fatídico foi estabelecido quando, em nome de Israel, ele abandonou a "ordem baseada em regras" que os Estados Unidos essencialmente criaram após a Segunda Guerra Mundial. Trump parece determinado a colocar um último prego no caixão dessa ordem.
A atitude laissez-faire de "aprender a conviver com o genocídio", fomentada por políticos americanos, aliada à conivência da grande mídia, levou os Estados Unidos cada vez mais à direita. Os direitos e liberdades constitucionais, que foram "levados de ânimo leve" por tanto tempo, começaram a se desintegrar sob os ditames de Trump.
Por meio de ameaças e coerção, o governo Trump tentou regulamentar a liberdade acadêmica e a liberdade de expressão. Centenas de estudantes com vistos foram ameaçados de deportação, submetidos a sanções universitárias ou detidos ilegalmente.
O Departamento de Estado dos EUA, por exemplo, anunciou em março de 2025 que estava implementando uma iniciativa de "captura e revogação" com tecnologia de IA, em um esforço para acelerar o cancelamento de vistos de estudante . A iniciativa envolve o policiamento governamental da conduta e da fala de acadêmicos e milhares de estudantes estrangeiros, por meio de análises de suas contas de mídia social, auxiliadas por IA.
Cinicamente, enquanto a liberdade de expressão é restringida, extremistas israelenses e criminosos de guerra indiciados têm sido autorizados a falar nos Estados Unidos. Mais recentemente, o ministro da Segurança Nacional de Israel, de direita, Itamar Ben-Gvir, discursou para apoiadores em Nova York. E Netanyahu e o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, foram recebidos com satisfação.
Muitos nos Estados Unidos estão vivenciando o que os palestinos têm sofrido por décadas sob a ocupação militar israelense. Como não há proteções da Primeira Emenda em Israel, prisões em massa, detenções administrativas (sem acusações e julgamentos), sequestros, maus-tratos, incluindo abusos e tortura, são realidades cotidianas na vida dos palestinos.
Assim como o regime de Netanyahu, que introduziu o que chama de reformas em uma tentativa de minar a estrutura legal de Israel, o regime de Trump também está usando meios extraordinários, muitas vezes ilegais, para restringir a autoridade do judiciário dos EUA e realizar prisões arbitrárias.
A direita cristã, uma força poderosa nos Estados Unidos, tem sido um fator dominante na guinada do país, desde a década de 1970, em direção ao absolutismo doutrinário. Dois grupos influentes dentro da direita cristã mais ampla — os nacionalistas cristãos e os sionistas cristãos — têm sido eficazes nessa guinada.
Suas ideologias são compatíveis e seus eleitores se sobrepõem. Ambos veem a política através de um prisma profético bíblico. Os nacionalistas cristãos defendem um estado branco, cristão e ultraconservador nos Estados Unidos, enquanto os sionistas cristãos defendem um estado fundamentalista religioso, exclusivamente judaico, em toda a Palestina histórica.
A direita americana, particularmente os sionistas cristãos, desempenhou um papel importante em garantir que as políticas dos EUA favorecessem Israel e em moldar percepções negativas dos palestinos e seus apoiadores regionais, como o Irã, como inimigos.
Que Israel tenha soberania e controle exclusivos sobre toda a Palestina é um princípio fundamental da fé. Eles acreditam firmemente que um Estado exclusivamente judeu cumpre a promessa do Fim dos Tempos, conforme profetizado no Antigo Testamento, e que a sobrevivência de Israel é essencial para a Segunda Vinda — o retorno de Jesus a Jerusalém.
Consequentemente, a solidariedade com Israel é vista não apenas como uma obrigação moral, mas como essencial para a própria salvação.
O apagamento total da nação palestina é fundamental para a visão apocalíptica do sionismo cristão. Nesse contexto, eles endossaram algumas das políticas mais severas de Israel, incluindo ocupação militar, apartheid, anexação da Cisjordânia e Gaza e supremacia regional.
Desde a insurreição palestina de 7 de outubro de 2023, eles estão entre os mais ferrenhos defensores de Israel, vendo a guerra como parte integrante do cumprimento da profecia do fim dos tempos.
O fato de o sionismo cristão ser tanto uma crença política quanto religiosa se reflete em sua insistência de que os Estados Unidos devem apoiar Israel incondicionalmente porque, de acordo com o Livro de Gênesis, “Deus abençoará aqueles que abençoarem Israel e amaldiçoará aqueles (indivíduos e países) que o amaldiçoarem” (Gênesis 12:3).
A direita cristã teve grande influência nas administrações de Trump.
Durante seu primeiro mandato, por exemplo, ele reconheceu al-Quds (também conhecida como Jerusalém) como capital de Israel e transferiu a embaixada dos EUA para lá. A pedido de Israel, ele também revogou o acordo nuclear com o Irã, assinou uma proclamação declarando que as Colinas de Golã, na Síria, são parte de Israel e cortou a ajuda financeira crucial a milhões de refugiados palestinos.
A agenda do nacionalismo cristão tem impulsionado as políticas durante o segundo mandato de Trump, com muitos fiéis sendo recompensados com cargos de alto escalão. Por exemplo, o atual embaixador dos EUA em Israel, o sionista cristão Mike Huckabee, declarou que apoia a anexação da Cisjordânia por Israel.
Trump vem implementando as políticas delineadas no Projeto 2025. O projeto prevê uma reestruturação radical do governo federal e a expansão do poder presidencial. Em consonância com seus objetivos, seu governo tem trabalhado para substituir o Estado de Direito por uma visão social de direita, branca e centrada no cristianismo.
A maneira como os governos dos EUA se envolveram e agiram em relação à Palestina e ao Oriente Médio pode ser descrita como arrogante, ignorante e imoral. A América, como um porto seguro para a liberdade, está ligada a Gaza. O que acontecer lá, as decisões tomadas, afetarão a liberdade de palestinos e americanos.
A América que Thomas Paine imaginou se transformou em um pesadelo. Embora os contornos de "senso comum" da vida política que ele defendeu em 1776 tenham se esvaído, eles ainda permanecem. Aqueles ideais que não são "baratos", que estão lá para inspirar a transformação política, podem ser ressuscitados. Eles precisam, no entanto, ser invocados.
“Estes são os tempos que testam a alma dos homens. O soldado de verão e o patriota do sol, nesta crise, se esquivarão do serviço ao seu país, mas aquele que o defende agora merece o amor e a gratidão de homens e mulheres (...) O que obtemos por um preço muito baixo, estimamos com demasiada leviandade; é apenas o preço que dá valor a tudo. Deus sabe como dar um preço justo aos seus bens, e seria realmente estranho se um artigo tão celestial como a liberdade não fosse tão valorizado” (The American Crisis. Número 1, 1776-1783).
Nossos tempos também são tempos que testam as almas dos homens. O santuário da liberdade idealizado por Thomas Paine e outros revolucionários americanos se transformou em um país que detém, deporta à força e faz desaparecer homens e mulheres incomunicáveis em prisões distantes, em total desrespeito aos seus direitos constitucionais; e que pune estudantes por simplesmente defenderem o que é certo: o fim da barbárie de Israel contra o povo indefeso de Gaza.
A questão preocupante é como um país que antes depositava sua fé em presidentes como Washington, Adams, Jefferson, Madison e Lincoln decaiu para figuras como Nixon, Reagan, Clinton, Bush, Obama, Biden e Trump? E, seguindo os conselhos de Paine, por que a classe política americana se dignou a dar ouvidos à defesa de figuras como Ben-Gurion, Meir, Begin, Shamir, Sharon e Netanyahu?
Ao considerar a mudança dos Estados Unidos em direção ao autoritarismo e, consequentemente, a subversão dos direitos constitucionais, dois fatores causais vêm à mente: a entente destrutiva entre EUA e Israel e o crescimento da direita cristã.
Décadas atrás, os Estados Unidos tomaram a decisão insensata de alinhar seus interesses e investir pesadamente em Israel, um país que, desde 1947, está envolvido em um projeto genocida contra o povo palestino: "intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, no todo ou em parte".
A missão do sionismo sempre foi expulsar os palestinos e apagar seus laços com a terra. Os fundadores sionistas de Israel sabiam que, para alcançar seus objetivos expansionistas, precisariam fazer duas coisas: angariar o apoio de um poderoso executor e verdadeiro crente, os Estados Unidos, e contar uma história bíblica que atraísse a grande maioria da população.
Depois de anos vendendo Israel aos americanos e de uma estreita colaboração sistêmica, o ethos político de Washington e Tel Aviv se tornou muito parecido, com a corrupção política e moral e o declínio sendo subprodutos desse alinhamento.
A incessante guerra genocida de Israel contra os palestinos e a cumplicidade dos presidentes Joe Biden e Donald Trump expuseram as falsidades e a corrupção.
A indulgência de Biden com o regime israelense preparou o terreno para as medidas mais draconianas do presidente Donald Trump. Um precedente fatídico foi estabelecido quando, em nome de Israel, ele abandonou a "ordem baseada em regras" que os Estados Unidos essencialmente criaram após a Segunda Guerra Mundial. Trump parece determinado a colocar um último prego no caixão dessa ordem.
A atitude laissez-faire de "aprender a conviver com o genocídio", fomentada por políticos americanos, aliada à conivência da grande mídia, levou os Estados Unidos cada vez mais à direita. Os direitos e liberdades constitucionais, que foram "levados de ânimo leve" por tanto tempo, começaram a se desintegrar sob os ditames de Trump.
Por meio de ameaças e coerção, o governo Trump tentou regulamentar a liberdade acadêmica e a liberdade de expressão. Centenas de estudantes com vistos foram ameaçados de deportação, submetidos a sanções universitárias ou detidos ilegalmente.
O Departamento de Estado dos EUA, por exemplo, anunciou em março de 2025 que estava implementando uma iniciativa de "captura e revogação" com tecnologia de IA, em um esforço para acelerar o cancelamento de vistos de estudante . A iniciativa envolve o policiamento governamental da conduta e da fala de acadêmicos e milhares de estudantes estrangeiros, por meio de análises de suas contas de mídia social, auxiliadas por IA.
Cinicamente, enquanto a liberdade de expressão é restringida, extremistas israelenses e criminosos de guerra indiciados têm sido autorizados a falar nos Estados Unidos. Mais recentemente, o ministro da Segurança Nacional de Israel, de direita, Itamar Ben-Gvir, discursou para apoiadores em Nova York. E Netanyahu e o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, foram recebidos com satisfação.
Muitos nos Estados Unidos estão vivenciando o que os palestinos têm sofrido por décadas sob a ocupação militar israelense. Como não há proteções da Primeira Emenda em Israel, prisões em massa, detenções administrativas (sem acusações e julgamentos), sequestros, maus-tratos, incluindo abusos e tortura, são realidades cotidianas na vida dos palestinos.
Assim como o regime de Netanyahu, que introduziu o que chama de reformas em uma tentativa de minar a estrutura legal de Israel, o regime de Trump também está usando meios extraordinários, muitas vezes ilegais, para restringir a autoridade do judiciário dos EUA e realizar prisões arbitrárias.
A direita cristã, uma força poderosa nos Estados Unidos, tem sido um fator dominante na guinada do país, desde a década de 1970, em direção ao absolutismo doutrinário. Dois grupos influentes dentro da direita cristã mais ampla — os nacionalistas cristãos e os sionistas cristãos — têm sido eficazes nessa guinada.
Suas ideologias são compatíveis e seus eleitores se sobrepõem. Ambos veem a política através de um prisma profético bíblico. Os nacionalistas cristãos defendem um estado branco, cristão e ultraconservador nos Estados Unidos, enquanto os sionistas cristãos defendem um estado fundamentalista religioso, exclusivamente judaico, em toda a Palestina histórica.
A direita americana, particularmente os sionistas cristãos, desempenhou um papel importante em garantir que as políticas dos EUA favorecessem Israel e em moldar percepções negativas dos palestinos e seus apoiadores regionais, como o Irã, como inimigos.
Que Israel tenha soberania e controle exclusivos sobre toda a Palestina é um princípio fundamental da fé. Eles acreditam firmemente que um Estado exclusivamente judeu cumpre a promessa do Fim dos Tempos, conforme profetizado no Antigo Testamento, e que a sobrevivência de Israel é essencial para a Segunda Vinda — o retorno de Jesus a Jerusalém.
Consequentemente, a solidariedade com Israel é vista não apenas como uma obrigação moral, mas como essencial para a própria salvação.
O apagamento total da nação palestina é fundamental para a visão apocalíptica do sionismo cristão. Nesse contexto, eles endossaram algumas das políticas mais severas de Israel, incluindo ocupação militar, apartheid, anexação da Cisjordânia e Gaza e supremacia regional.
Desde a insurreição palestina de 7 de outubro de 2023, eles estão entre os mais ferrenhos defensores de Israel, vendo a guerra como parte integrante do cumprimento da profecia do fim dos tempos.
O fato de o sionismo cristão ser tanto uma crença política quanto religiosa se reflete em sua insistência de que os Estados Unidos devem apoiar Israel incondicionalmente porque, de acordo com o Livro de Gênesis, “Deus abençoará aqueles que abençoarem Israel e amaldiçoará aqueles (indivíduos e países) que o amaldiçoarem” (Gênesis 12:3).
A direita cristã teve grande influência nas administrações de Trump.
Durante seu primeiro mandato, por exemplo, ele reconheceu al-Quds (também conhecida como Jerusalém) como capital de Israel e transferiu a embaixada dos EUA para lá. A pedido de Israel, ele também revogou o acordo nuclear com o Irã, assinou uma proclamação declarando que as Colinas de Golã, na Síria, são parte de Israel e cortou a ajuda financeira crucial a milhões de refugiados palestinos.
A agenda do nacionalismo cristão tem impulsionado as políticas durante o segundo mandato de Trump, com muitos fiéis sendo recompensados com cargos de alto escalão. Por exemplo, o atual embaixador dos EUA em Israel, o sionista cristão Mike Huckabee, declarou que apoia a anexação da Cisjordânia por Israel.
Trump vem implementando as políticas delineadas no Projeto 2025. O projeto prevê uma reestruturação radical do governo federal e a expansão do poder presidencial. Em consonância com seus objetivos, seu governo tem trabalhado para substituir o Estado de Direito por uma visão social de direita, branca e centrada no cristianismo.
A maneira como os governos dos EUA se envolveram e agiram em relação à Palestina e ao Oriente Médio pode ser descrita como arrogante, ignorante e imoral. A América, como um porto seguro para a liberdade, está ligada a Gaza. O que acontecer lá, as decisões tomadas, afetarão a liberdade de palestinos e americanos.
A América que Thomas Paine imaginou se transformou em um pesadelo. Embora os contornos de "senso comum" da vida política que ele defendeu em 1776 tenham se esvaído, eles ainda permanecem. Aqueles ideais que não são "baratos", que estão lá para inspirar a transformação política, podem ser ressuscitados. Eles precisam, no entanto, ser invocados.
IA transforma chips avançados em lixo eletrônico
Além do alto consumo de energia e água, a Inteligência Artificial tem um impacto ambiental menos discutido: ela gera uma grande quantidade de lixo eletrônico, e reciclá-lo e recuperar seus metais essenciais é caro e não está amplamente disponível.
O desenvolvimento exponencial dessa tecnologia aumentou a demanda por chips de processamento gráfico, necessários para treinar modelos de IA generativos capazes de produzir conteúdo novo e original a partir de dados aprendidos anteriormente.
"O ciclo de vida desses chips é de três a cinco anos, o que significa que depois desse tempo, ou até um pouco antes, eles são descartados", explicou à EFE Ana Valdivia, professora de IA, governo e políticas no Internet Institute da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Ela afirma que esse impacto específico da IA é "muito invisível".
O custo de reciclagem desses chips é alto — não é economicamente viável para as empresas, diz Valdivia — então muitos deles acabam incinerados, com as emissões poluentes resultantes, ou em aterros sanitários.
De acordo com o relatório mais recente da Organização das Nações Unidas (ONU), 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico foram geradas no mundo em 2022, um número recorde, dos quais apenas 22% foram coletados e reciclados.
A produção de lixo eletrônico está aumentando cinco vezes mais rápido que sua reciclagem, alertou o relatório, indicando que, sem ação, a quantidade desse tipo de lixo pode aumentar em mais de 33% até 2030.
A reciclagem de lixo eletrônico não apenas reduziria seu impacto ambiental, mas também permitiria a utilização de materiais em um momento em que metais essenciais se tornaram uma questão geoestratégica.
"Estamos lidando com uma matéria-prima muito importante em termos de fonte de metais recuperáveis", disse à EFE Félix Antonio López, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Metalúrgicas do CSIC (Conselho Superior de Pesquisas Científicas). Ele ressalta que materiais como cobre, estanho, prata, ouro, paládio e até níquel podem ser usados.
A União Europeia está promovendo a exploração dos depósitos minerais do continente em busca de terras raras e outros materiais críticos, mas López argumenta que esse compromisso deve ser acompanhado de "políticas claras que incentivem e até exijam" a reciclagem desses materiais no final de seu ciclo de vida.
"Caso contrário, dificilmente conseguiremos minimizar a dependência que temos atualmente de outros países", alerta o pesquisador do CSIC, onde acabam de instalar uma planta piloto "única na Europa" para recuperar metais de resíduos eletrônicos e fabricar ligas de alto valor, no âmbito do projeto RC-Metals.
Esta planta é um embrião do projeto CirCular que a Atlantic Copper está desenvolvendo em Huelva para recuperar metais de resíduos eletrônicos, um projeto declarado estratégico pela Comissão Europeia.
O RC-Metals permitirá o desenvolvimento de novas linhas de pesquisa "porque a sucata eletrônica moderna contém metais que não estavam presentes na sucata mais antiga", como os famosos elementos de terras raras, explica o pesquisador do CSIC.
Uma das empresas dedicadas à reciclagem de resíduos eletrônicos é a Movilex, que atua na Espanha, Portugal e América Latina.
Os dispositivos chegam às fábricas da Movilex vindos de centros de reciclagem, empresas ou outras fontes. Eles são classificados, descontaminados — para remover componentes perigosos — e então o processo de recuperação começa, extraindo seus metais e outros materiais, como plástico.
Em busca de chips mais duradouros
"Atingimos 99% de reciclabilidade em muitos dispositivos. Somos realmente líderes e muito competitivos neste setor", disse Luis García-Torremocha, CEO da Movilex, à EFE. Sua empresa também tem uma linha de negócios dedicada ao refino de metais recuperados.
O empresário acredita que "ainda há muito a ser feito em termos de regulamentação e, principalmente, para atingir taxas de reciclagem bastante altas" na indústria eletrônica, o que, além dos benefícios ambientais, geraria riqueza e empregos.
Mas além de promover a circularidade, o professor Valdivia também insiste que devemos incentivar a extensão da vida útil dos chips e que as empresas que os projetam, como a Nvidia , invistam nisso.
E ele também pede a interrupção do boom da construção de data centers e a introdução da IA em todos os aspectos da vida.
"Precisamos parar, sentar e pensar como sociedade sobre que tipo de tecnologia queremos e que tipo de infraestrutura nos beneficia no nível da comunidade", conclui o pesquisador de Oxford, que defende abordar a IA de uma "perspectiva crítica" e estudar seu impacto ambiental.
Deutsche Welle
Tio Sam, o senhor das armas
Meio milhão de pessoas são assassinadas por ano no mundo, segundo o UNODC (departamento da ONU que trata de drogas e crimes). E a América Latina e Caribe é a região mais violenta do planeta, concentrando quase um terço desses homicídios, apesar de ter apenas 8% da população mundial. Mas, até aí os números já são razoavelmente conhecidos da imprensa e dos especialistas.
A novidade nesse tema das armas foi revelada pelos pesquisadores do Instituto Igarapé, Robert Muggah e Katherine Aguirre, em artigo publicado recentemente na plataforma de notícias colombiana El Tiempo: Mais de 70% das armas de fogo utilizadas em homicídios na América Latina e Caribe são provenientes dos Estados Unidos, incluídos “pistolas e fuzis militares, e também carabinas de franco atirador e metralhadoras”.
Eles lembram que a violência histórica no continente latino-americano é potencializada pela enxurrada de armamento vendido pelos fabricantes ianques, fazendo com que as armas de fogo tenham papel central até na violência doméstica (onde as mulheres são as maiores vítimas). Para se ter uma ideia, entre 2018 e 2023 cerca de 75% das armas apreendidas no Caribe vinham dos EUA, especialmente da Flórida, Nova York e Virgínia. Foi possível constatar que em alguns países latino-americanos até 90% dos homicídios foram praticados com armas norte-americanas.
Armas servem para isso, enriquecer poucos matando muitos. Nesse caso, não seria exagero concordarmos com o General Dwight Eisenhower quando, em seus últimos dias como Presidente dos EUA, alertava que o maior perigo para a democracia ocidental poderia não ser a União Soviética (em plena Guerra Fria), mas sim a indústria de armamentos americana.
Apenas para comparar, no Japão quase ninguém tem arma e quase não se mata (0,25 mortes por 100 mil hab./ano). Significa que, se a taxa brasileira de homicídios fosse igual a essa do Japão, teríamos na Terra da Santa Cruz apenas 500 assassinatos por ano. Porém, nosso número é quase 100 vezes maior! Talvez porque aqui circulem mais de quatro milhões de armas nas mãos de particulares.
O artigo dos pesquisadores do Instituto Igarapé chama a atenção também para a cadeia de comercialização de todo esse armamento, que começa com a compra legal nos Estados Unidos em feiras e lojas de armas, seja por empresas laranja, seja por colecionadores, ou mesmo por pessoas físicas. Mais adiante essas armas são desencaminhadas do fluxo legal e contrabandeadas para México, Caribe, América Central e América do Sul, “[…] escondidas em carregamentos desde Miami […] transportando armas ocultas e barris, automóveis, containers e aviões”.
A situação é agravada pelos roubos durante o transporte e armazenamento, ou mesmo pelo desvio em arsenais policiais e militares por agentes públicos corruptos. Robert Muggah e Katherine Aguirre concluem que, em uma região assolada por corrupção e má governança, o tráfico de armas continuará enquanto não houver cooperação internacional e pressão sobre os Estados Unidos para conter o fluxo de armas.
A novidade nesse tema das armas foi revelada pelos pesquisadores do Instituto Igarapé, Robert Muggah e Katherine Aguirre, em artigo publicado recentemente na plataforma de notícias colombiana El Tiempo: Mais de 70% das armas de fogo utilizadas em homicídios na América Latina e Caribe são provenientes dos Estados Unidos, incluídos “pistolas e fuzis militares, e também carabinas de franco atirador e metralhadoras”.
O UNODC acrescenta que mais da metade dos assassinatos na região estão vinculados a facções e cartéis do tráfico de drogas e milícias paramilitares, que dominam grande parte das maiores cidades em países como Haiti, Colômbia, Bolívia, Brasil, México, entre outros. O fruto desse casamento entre o crime organizado e a indústria de armas do Tio Sam na América Latina e Caribe é um mercado da morte onde 67% dos assassinatos são cometidos com armas de fogo, enquanto a média mundial é de 40%, segundo Muggah e Aguirre.
Eles lembram que a violência histórica no continente latino-americano é potencializada pela enxurrada de armamento vendido pelos fabricantes ianques, fazendo com que as armas de fogo tenham papel central até na violência doméstica (onde as mulheres são as maiores vítimas). Para se ter uma ideia, entre 2018 e 2023 cerca de 75% das armas apreendidas no Caribe vinham dos EUA, especialmente da Flórida, Nova York e Virgínia. Foi possível constatar que em alguns países latino-americanos até 90% dos homicídios foram praticados com armas norte-americanas.
Armas servem para isso, enriquecer poucos matando muitos. Nesse caso, não seria exagero concordarmos com o General Dwight Eisenhower quando, em seus últimos dias como Presidente dos EUA, alertava que o maior perigo para a democracia ocidental poderia não ser a União Soviética (em plena Guerra Fria), mas sim a indústria de armamentos americana.
Apenas para comparar, no Japão quase ninguém tem arma e quase não se mata (0,25 mortes por 100 mil hab./ano). Significa que, se a taxa brasileira de homicídios fosse igual a essa do Japão, teríamos na Terra da Santa Cruz apenas 500 assassinatos por ano. Porém, nosso número é quase 100 vezes maior! Talvez porque aqui circulem mais de quatro milhões de armas nas mãos de particulares.
O artigo dos pesquisadores do Instituto Igarapé chama a atenção também para a cadeia de comercialização de todo esse armamento, que começa com a compra legal nos Estados Unidos em feiras e lojas de armas, seja por empresas laranja, seja por colecionadores, ou mesmo por pessoas físicas. Mais adiante essas armas são desencaminhadas do fluxo legal e contrabandeadas para México, Caribe, América Central e América do Sul, “[…] escondidas em carregamentos desde Miami […] transportando armas ocultas e barris, automóveis, containers e aviões”.
A situação é agravada pelos roubos durante o transporte e armazenamento, ou mesmo pelo desvio em arsenais policiais e militares por agentes públicos corruptos. Robert Muggah e Katherine Aguirre concluem que, em uma região assolada por corrupção e má governança, o tráfico de armas continuará enquanto não houver cooperação internacional e pressão sobre os Estados Unidos para conter o fluxo de armas.
O desmanche da Cracolândia contado por quem o iniciou
O centro de São Paulo está a caminho de virar uma vitrine eleitoral em 2026 seja para a reeleição do governador Tarcísio de Freitas seja para sua postulação presidencial. O primeiro resultado mais concreto nesse sentido apareceu nesta terça-feira quando a rua dos Protestantes, reduto da Cracolândia, amanheceu vazia.
Na véspera, Tarcísio, em entrevista a uma rádio, tinha cravado: “A Cracolândia vai acabar. Contamos todos os dias. Quando iniciamos o governo eram 2 mil. Hoje pela manhã havia 53”. Explicou as etapas da revitalização que se seguirão até que a sede do governo volte a se instalar no Centro: “É o nosso grande legado”.
No dia em que a rua dos Protestantes amanheceu vazia, a Secretaria de Segurança Pública soltou uma longa nota sobre as ações do governo na região. Nem ao longo dos cinco minutos em que Tarcísio discorreu sobre o tema nem entre as mais de mil palavras da nota da SSP-SP, houve qualquer menção à origem da operação que pôs em pé o desmanche da Cracolândia.
Foi em julho de 2023 que o Ministério Público do Estado de São Paulo deu início às investigações que resultariam na operação “Salut e Dignitas” (saúde e dignidade) um ano depois. Prestava-se a desmontar a rede de atividades ilícitas gerida pelo PCC em torno da Cracolândia no centro da capital.
O MPSP mapeou o comércio ilegal de celulares, motocicletas e peças de veículos roubados, ferros velhos e casas de prostituição que lavavam dinheiro do tráfico e se valiam do fornecimento, barateado pelo vício, dos frequentadores da Cracolândia.
Esta rede, ou “ecossistema de atividades ilícitas”, como prefere o MPSP, contava com a proteção de agentes públicos tanto da Polícia Militar quanto da Guarda Civil Metropolitana, cuja sede é vizinha ao fluxo. Foi a atuação dessas milícias que garantiram o domínio daquele território e, por décadas, deu sobrevida à ferida aberta no centro da maior e mais rica cidade do continente.
Quando a operação foi deflagrada, chefiava o MPSP o ex-procurador geral de Justiça, Mario Sarrubbo. Hoje secretário de Segurança Nacional do Ministério da Justiça, Sarrubbo é um dos idealizadores da PEC da Segurança, que chegou ao Congresso no mesmo dia em que a Polícia Federal eclodiu a operação do INSS e lá parou.
O prefeito da capital, Ricardo Nunes, se disse surpreendido pela rua dos Protestantes vazia, mas não Lincoln Gakiya. Na cola do PCC há mais de duas décadas, o promotor do MPSP liderou as investigações que resultariam na operação de 2024 e acompanha seus desdobramentos até hoje.
Gakiya tampouco se surpreende com a perspectiva de politização do tema, mas começa por apontar as instâncias acionadas pelo MPSP. Cita pelo menos nove: PM, Guarda Civil Metropolitana, Corpo de Bombeiros, Cetesb, PF, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, COAF, Ministério Público do Trabalho.
Na medida em que os mandados de prisão, busca e apreensão, arresto, bloqueio e sequestro de bens, além da interdição de imóveis foram cumpridos, esperava que a rede que abastecia o fluxo começasse a secar. Presente à deflagração da operação, seu testemunho é de que nenhum tiro de bala de borracha foi disparado numa situação que define como “complexa e sensível”.
Tampouco vê como a desidratação da Cracolândia seria possível sem a remoção da favela do Moinho. A última favela do centro de São Paulo é alvo de grande embate da oposição com os governos estadual e municipal pelas condições dramáticas - e violentas - nas quais 1,2 mil famílias estão sendo obrigadas a deixar suas casas, o que levou a União a suspender a cessão da área ao governo do Estado.
O desmanche da favela começou com a identificação, pelo MPSP, de duas lideranças do PCC que comandavam, do Moinho, o abastecimento de drogas da Cracolândia. Quando os usuários desobedeciam regras que impediam roubos, agressões e estupros, eram levados à favela para justiçamento. Era lá também que funcionava o aparato de vigilância e monitoramento, pela captação de sinais de rádios transmissores, das forças policiais.
Gakiya não ignora o drama de saúde pública de usuários transformados em escravos-zumbis do crime. Espera que as denúncias de maus tratos sejam apuradas e que a prefeitura e o governo acolham tanto os usuários quanto as famílias removidas.
Não vê, porém, no espraiamento de usuários, um sinal de que o problema apenas foi exportado para os bairros porque é a concentração que garante sua sobrevida. Para que uma cracolândia se enraize, é preciso escala para sustentar a rede de negócios que vive em torno dela. Na medida em que a operação seja capaz de evitar novas concentrações, os usuários, sem meios de garantir o acesso à droga, ficariam menos resistentes ao tratamento.
Gakiya não se queixa da colaboração da prefeitura e do governo do Estado na adoção das medidas preconizadas. Até porque não vê solução para o país, como preconiza a PEC da Segurança Pública, que não passe pela colaboração federativa e a cooperação entre dezenas de órgãos de segurança e controle em todo o território nacional.
Pelo andar da carruagem, porém, há uma crescente intersecção entre as forças que colaboram em São Paulo e aquelas que, no Congresso, criam obstáculos ao enfrentamento nacional ao crime organizado. Nesse ritmo, se vitrine houver, será apenas bandeirante.
Na véspera, Tarcísio, em entrevista a uma rádio, tinha cravado: “A Cracolândia vai acabar. Contamos todos os dias. Quando iniciamos o governo eram 2 mil. Hoje pela manhã havia 53”. Explicou as etapas da revitalização que se seguirão até que a sede do governo volte a se instalar no Centro: “É o nosso grande legado”.
No dia em que a rua dos Protestantes amanheceu vazia, a Secretaria de Segurança Pública soltou uma longa nota sobre as ações do governo na região. Nem ao longo dos cinco minutos em que Tarcísio discorreu sobre o tema nem entre as mais de mil palavras da nota da SSP-SP, houve qualquer menção à origem da operação que pôs em pé o desmanche da Cracolândia.
Foi em julho de 2023 que o Ministério Público do Estado de São Paulo deu início às investigações que resultariam na operação “Salut e Dignitas” (saúde e dignidade) um ano depois. Prestava-se a desmontar a rede de atividades ilícitas gerida pelo PCC em torno da Cracolândia no centro da capital.
O MPSP mapeou o comércio ilegal de celulares, motocicletas e peças de veículos roubados, ferros velhos e casas de prostituição que lavavam dinheiro do tráfico e se valiam do fornecimento, barateado pelo vício, dos frequentadores da Cracolândia.
Esta rede, ou “ecossistema de atividades ilícitas”, como prefere o MPSP, contava com a proteção de agentes públicos tanto da Polícia Militar quanto da Guarda Civil Metropolitana, cuja sede é vizinha ao fluxo. Foi a atuação dessas milícias que garantiram o domínio daquele território e, por décadas, deu sobrevida à ferida aberta no centro da maior e mais rica cidade do continente.
Quando a operação foi deflagrada, chefiava o MPSP o ex-procurador geral de Justiça, Mario Sarrubbo. Hoje secretário de Segurança Nacional do Ministério da Justiça, Sarrubbo é um dos idealizadores da PEC da Segurança, que chegou ao Congresso no mesmo dia em que a Polícia Federal eclodiu a operação do INSS e lá parou.
O prefeito da capital, Ricardo Nunes, se disse surpreendido pela rua dos Protestantes vazia, mas não Lincoln Gakiya. Na cola do PCC há mais de duas décadas, o promotor do MPSP liderou as investigações que resultariam na operação de 2024 e acompanha seus desdobramentos até hoje.
Gakiya tampouco se surpreende com a perspectiva de politização do tema, mas começa por apontar as instâncias acionadas pelo MPSP. Cita pelo menos nove: PM, Guarda Civil Metropolitana, Corpo de Bombeiros, Cetesb, PF, Polícia Rodoviária Federal, Receita Federal, COAF, Ministério Público do Trabalho.
Na medida em que os mandados de prisão, busca e apreensão, arresto, bloqueio e sequestro de bens, além da interdição de imóveis foram cumpridos, esperava que a rede que abastecia o fluxo começasse a secar. Presente à deflagração da operação, seu testemunho é de que nenhum tiro de bala de borracha foi disparado numa situação que define como “complexa e sensível”.
Tampouco vê como a desidratação da Cracolândia seria possível sem a remoção da favela do Moinho. A última favela do centro de São Paulo é alvo de grande embate da oposição com os governos estadual e municipal pelas condições dramáticas - e violentas - nas quais 1,2 mil famílias estão sendo obrigadas a deixar suas casas, o que levou a União a suspender a cessão da área ao governo do Estado.
O desmanche da favela começou com a identificação, pelo MPSP, de duas lideranças do PCC que comandavam, do Moinho, o abastecimento de drogas da Cracolândia. Quando os usuários desobedeciam regras que impediam roubos, agressões e estupros, eram levados à favela para justiçamento. Era lá também que funcionava o aparato de vigilância e monitoramento, pela captação de sinais de rádios transmissores, das forças policiais.
Gakiya não ignora o drama de saúde pública de usuários transformados em escravos-zumbis do crime. Espera que as denúncias de maus tratos sejam apuradas e que a prefeitura e o governo acolham tanto os usuários quanto as famílias removidas.
Não vê, porém, no espraiamento de usuários, um sinal de que o problema apenas foi exportado para os bairros porque é a concentração que garante sua sobrevida. Para que uma cracolândia se enraize, é preciso escala para sustentar a rede de negócios que vive em torno dela. Na medida em que a operação seja capaz de evitar novas concentrações, os usuários, sem meios de garantir o acesso à droga, ficariam menos resistentes ao tratamento.
Gakiya não se queixa da colaboração da prefeitura e do governo do Estado na adoção das medidas preconizadas. Até porque não vê solução para o país, como preconiza a PEC da Segurança Pública, que não passe pela colaboração federativa e a cooperação entre dezenas de órgãos de segurança e controle em todo o território nacional.
Pelo andar da carruagem, porém, há uma crescente intersecção entre as forças que colaboram em São Paulo e aquelas que, no Congresso, criam obstáculos ao enfrentamento nacional ao crime organizado. Nesse ritmo, se vitrine houver, será apenas bandeirante.
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Dois apitos de cachorro do Brasil Colônia
Há frequências sonoras que só animais ouvem. Não temos aparelho auditivo tão potente quanto cachorros, por exemplo. Adestradores criaram apitos para treiná-los.
A comunicação política sacou essa boa metáfora para nomear técnica ilusionista: "apitos de cachorro" são códigos verbais, gestuais ou gráficos só entendidos por iniciados. Uma espécie de piscadela marota para a sua turma. Movimentos racistas e nazistas têm todo um repertório de apitos. Durante o governo de Jair Bolsonaro, aprendemos um pouco como funcionam.
Quando Roberto Alvim gravou vídeo que imitava a estética nazista, Filipe Martins mexeu na gravata por meio de sinal racista, Allan Santos e Jorge Seif beberam copo de leite diante da câmera, ou quando Bolsonaro falava em "urna auditável" e "viver sem oxigênio, mas jamais sem liberdade", havia mais no subtexto do que um cidadão qualquer podia captar. Só foi impossível decifrar os tuítes de Carlos Bolsonaro. Não se sabe se eram apitos de cachorro para a própria cabeça. Um autoapito.
Mas isso não foi invenção do extremismo político. O vocabulário das forças mais retrógradas da política brasileira possui duas palavras sedutoras que funcionam como apitos de cachorro. A sensibilidade colonial adora invocar "modernização" e "pacificação" para ventilar suas ideias regressivas.
Quando político ou ministro de corte superior diz almejar "modernizar" ou "pacificar" qualquer coisa, os novos coronéis, senhores de escravo e líderes do crime organizado sabem do que falam. Somos do país em que golpe militar se apresentou como "pacificação" e abolição da escravidão, sem programa de inclusão da população negra, como "modernização".
Há três grandes iniciativas de "modernização" e três fantásticos movimentos de "pacificação" em curso.
As "modernizações" costumam enfeitar o discurso de reforma. Mas boa reforma não é reforma qualquer. A primeira se vê em algumas propostas de "reforma administrativa". Lutam contra a burocracia moderna, técnica e independente, em favor de uma burocracia servil, burra, sem expertise e responsabilidade. A segunda está na "reforma trabalhista" que elimina o direito do trabalho e explode a "relação de emprego". A terceira na "reforma do Código Civil", um trator não debatido publicamente e vigiado por cães de guarda ciosos por sua autoria e lucratividade.
No roteiro da "pacificação", temos a anistia a torturadores militares por crimes contra a humanidade. Sancionar seria "revanchismo" (ADPF 320 dormita no STF há 10 anos). Temos a luta por anistia do plano de golpe de 8 de janeiro. "Vamos pacificar, zerar o jogo daqui pra frente", diz Jair. E a conciliação a fórceps dos direitos indígenas no STF, onde indígenas foram intimados a negociar. "Oportunidade de pacificação histórica", diz Gilmar.
Qual o placar do jogo entre Brasil Colônia e Brasil constitucional? Qual pacificação protege o mais fraco? Qual modernização contraria poder econômico?
Nada contra os valores modernos. Nada contra a tentativa de promover, honestamente, a paz. Pelo contrário. É que a empulhação jurídica carrega o seu contrário: um convite ao pré-moderno e pré-constitucional, onde se suprimem direitos e liberdades; um chamado à violência, a "paz" de cima para baixo.
Nosso pior passado ainda se mete no nosso futuro.
A comunicação política sacou essa boa metáfora para nomear técnica ilusionista: "apitos de cachorro" são códigos verbais, gestuais ou gráficos só entendidos por iniciados. Uma espécie de piscadela marota para a sua turma. Movimentos racistas e nazistas têm todo um repertório de apitos. Durante o governo de Jair Bolsonaro, aprendemos um pouco como funcionam.
Quando Roberto Alvim gravou vídeo que imitava a estética nazista, Filipe Martins mexeu na gravata por meio de sinal racista, Allan Santos e Jorge Seif beberam copo de leite diante da câmera, ou quando Bolsonaro falava em "urna auditável" e "viver sem oxigênio, mas jamais sem liberdade", havia mais no subtexto do que um cidadão qualquer podia captar. Só foi impossível decifrar os tuítes de Carlos Bolsonaro. Não se sabe se eram apitos de cachorro para a própria cabeça. Um autoapito.
Mas isso não foi invenção do extremismo político. O vocabulário das forças mais retrógradas da política brasileira possui duas palavras sedutoras que funcionam como apitos de cachorro. A sensibilidade colonial adora invocar "modernização" e "pacificação" para ventilar suas ideias regressivas.
Quando político ou ministro de corte superior diz almejar "modernizar" ou "pacificar" qualquer coisa, os novos coronéis, senhores de escravo e líderes do crime organizado sabem do que falam. Somos do país em que golpe militar se apresentou como "pacificação" e abolição da escravidão, sem programa de inclusão da população negra, como "modernização".
Há três grandes iniciativas de "modernização" e três fantásticos movimentos de "pacificação" em curso.
As "modernizações" costumam enfeitar o discurso de reforma. Mas boa reforma não é reforma qualquer. A primeira se vê em algumas propostas de "reforma administrativa". Lutam contra a burocracia moderna, técnica e independente, em favor de uma burocracia servil, burra, sem expertise e responsabilidade. A segunda está na "reforma trabalhista" que elimina o direito do trabalho e explode a "relação de emprego". A terceira na "reforma do Código Civil", um trator não debatido publicamente e vigiado por cães de guarda ciosos por sua autoria e lucratividade.
No roteiro da "pacificação", temos a anistia a torturadores militares por crimes contra a humanidade. Sancionar seria "revanchismo" (ADPF 320 dormita no STF há 10 anos). Temos a luta por anistia do plano de golpe de 8 de janeiro. "Vamos pacificar, zerar o jogo daqui pra frente", diz Jair. E a conciliação a fórceps dos direitos indígenas no STF, onde indígenas foram intimados a negociar. "Oportunidade de pacificação histórica", diz Gilmar.
Qual o placar do jogo entre Brasil Colônia e Brasil constitucional? Qual pacificação protege o mais fraco? Qual modernização contraria poder econômico?
Nada contra os valores modernos. Nada contra a tentativa de promover, honestamente, a paz. Pelo contrário. É que a empulhação jurídica carrega o seu contrário: um convite ao pré-moderno e pré-constitucional, onde se suprimem direitos e liberdades; um chamado à violência, a "paz" de cima para baixo.
Nosso pior passado ainda se mete no nosso futuro.
José Mujica, uma inspiração que nunca morre
Como já foi dito tantas vezes sobre vários líderes latino-americanos, José Mujica viveu como se fosse imortal. E todos nós, de alguma forma, passamos a acreditar nisso. Sua compreensão da vida em seus últimos anos era tão forte, alimentada acima de tudo por sua interação diária com a natureza, que esse sentimento de vazio não pode surpreender aqueles que realmente o conheceram. Hoje sentimos falta de alguém e sentimos isso na pele.
Entre amargura — às vezes ódio — e deificação, a figura de Mujica não deixa ninguém indiferente. Como era de se esperar, ainda hoje sua figura não gera unanimidade nem apoio de massa inconteste, embora a grande maioria, mesmo aqueles que eram seus inimigos, não consigam esconder o choque.
Em relação à sua liderança, sempre soubemos que Mujica não gostava de comandar, muito menos de gerenciar. Esse certamente não era seu ponto forte. Ele tinha dificuldade em controlar suas emoções, odiava cálculos e sua verbosidade diária muitas vezes o fazia esquecer aquele sábio ditado que diz que um governante também governa quando fala. No entanto, ele era muito pragmático, sabia negociar e “tinha a capacidade de recuar”, como ele mesmo tantas vezes reiterou. Com uma ligação ímpar com os setores populares e a coragem de suas convicções, “gênio e personalidade até a morte”, ele foi capaz de apoiar e até mesmo liderar propostas que inicialmente não só não compartilhava como nem sequer estavam em seu roteiro. Um exemplo disso é a agenda de novos direitos (regulamentação da maconha, descriminalização do aborto, igualdade no casamento, etc.), cuja liderança intelectual e ideológica lhe é erroneamente atribuída de fora de suas fronteiras. Ele geralmente era descuidado na condução dos assuntos e quase nunca seguia um plano. Contudo, ele às vezes sabia descobrir opções e atores capazes de sustentar empreendimentos históricos. Sua principal convicção tinha a ver com a sabedoria suprema do povo, a necessidade imperativa do trabalho coletivo, a autoria plural e os processos longos.
Ele frequentemente explicava sua compreensão de governo da seguinte maneira: “governar é criar as condições para o governo”. Ele fez isso? Em certos aspectos essenciais, sim: ele tinha um diálogo muito bom com empresários e trabalhadores; Mesmo com altos e baixos, ele tinha um bom relacionamento com seus adversários; Obteve amplo apoio popular para medidas ousadas (como o combate frontal ao narcotráfico ou a continuidade e até aprofundamento de políticas sociais inclusivas); Ele quebrou muitos esquemas estabelecidos na esquerda mais dogmática; Tornou-se um símbolo de uma visão alternativa de desenvolvimento e consumismo em nível global, com sua estranha capacidade de comunicação. Ele odiava o protocolo e adorava minar aquelas solenidades nada republicanas que cercam os presidentes e que muitos confundem com a força das instituições.
Mas a história continua, e Mujica já disse que não vai embora, mas sim “está chegando”. Durante vários anos, especialmente após sua presidência (2010-2015), sem nunca deixar de ser uma figura de liderança e ativa na política nacional, Mujica tem se concentrado cada vez mais em questões regionais e internacionais. Essa era uma das suas principais preocupações desde a juventude. Mas sua proeminência na guerrilha, sua longa e terrível prisão e a construção de sua liderança nacional — tudo isso fez com que suas ideias sobre assuntos internacionais fossem de certa forma ofuscadas e marginalizadas. Desde sua presidência, sua imagem adquiriu popularidade viral inesperadamente nas redes sociais ao redor do mundo, algo que nunca deixa de surpreender alguém como ele, que nunca teve um endereço de e-mail.
Um “Quixote disfarçado de Sancho Pança”, como o definiu o antropólogo uruguaio Daniel Vidart, era um homem muito culto, como se percebe pela intensidade de suas leituras. Seus carcereiros sabiam disso muito bem, pois entre as torturas que escolheram estava impedi-lo de ler, o que o levou à beira da loucura. Mas é preciso dizer que muitas de suas principais ideias surgiram de seu envolvimento direto e diário com a natureza como “agricultor”, algo que ele sempre manteve com especial orgulho. Ambas as dimensões lhe permitiram ser um observador altamente habilidoso e único, que falava com razão sobre os principais problemas do mundo em sua humilde fazenda nos arredores de Montevidéu, encontrando sinais e metáforas extraordinárias sobre o que estava acontecendo globalmente em sua leitura cuidadosa dos clássicos e em seu ponto de vista no topo de seu trator. De uma perspectiva popular, sua longa vida fez dele, em muitos aspectos, um homem sábio que também sabia falar; ele tinha o dom da palavra. “Um torrão de terra com pernas”, a partir daí ele pôde descobrir mais plenamente o que chamou de “o maravilhoso mistério da vida”. Assim, ele foi capaz de entender e explicar os perigos ambientais globais por meio de sua observação cuidadosa de como as éguas davam à luz, como os pássaros variavam em seus hábitos e o que acontecia com as árvores e plantas ao redor de seu rancho.
O outrora forte guerrilheiro finalmente encontrou o significado de lutar contra visões dogmáticas e confrontacionais por caminhos que ele desprezava antes de suas quatro penas de prisão, das quais escapou duas vezes. Ao contrário da opinião de muitos colegas, ele sempre dizia que havia se tornado presidente “não por ser um Tupamaro, mas apesar de ser um”. Foi assim que ele procurou compreender aqueles que pensavam de modo diferente, dos quais ele sabia aprender; Ele perdeu o medo de dizer o que pensava, mesmo que isso o tornasse um “inimigo do povo” ou um transgressor de todas as regras do politicamente correto. Tudo isso o fez se tornar “viral” naquele mundo digital que ele sabia que não era o seu. Quando perguntado sobre sua popularidade internacional, ele sempre afirmou que isso devia ser consequência de “quão ruim era a média global”. Talvez essa mesma franqueza tenha sido o que o tornou tão único e influente.
Mujica, mesmo não gostando, foi um exemplo de vida e superação. Mesmo apesar de si mesmo. É difícil encontrar alguém que amasse a vida mais do que ele. Ele insistia que não acreditava em Deus, mas quando falava da Natureza e dos seres que povoavam os campos de sua fazenda, não havia dúvida de que um forte senso de transcendência residia dentro dele. Ele costumava dizer que gostaria de morrer como um dos pequenos “touros” que viviam no campo, sem barulho ou cerimônia. Ele escolheu o local onde queria que suas cinzas fossem enterradas: em uma araucária perto de sua fazenda, ao lado do terreno onde enterrou Manuela, sua lendária cadela de três patas. Lá, ele certamente também será acompanhado pelos restos mortais de Lucía, sua companheira em uma viagem que se assemelha muito a uma viagem excepcional, quase homérica.
Ele sabia muito bem que estava levando uma vida difícil. Ele era filho de sua história e teimosamente não apagou seus rastros, mesmo que muitas lembranças pesassem sobre ele. Acredito que o Uruguai, sem dúvida, perderá muito com sua morte. Mas ele sempre disse que seu principal objetivo era que os jovens pegassem o bastão e continuassem lutando por causas diferentes das suas, principalmente sem cometer os seus erros, mas unidos pelo compromisso com os outros, com a obsessão de que “ninguém fica para trás”. Claro que há um futuro sem Mujica. É por isso que ele sempre lutou.
Geraldo Caetano
Entre amargura — às vezes ódio — e deificação, a figura de Mujica não deixa ninguém indiferente. Como era de se esperar, ainda hoje sua figura não gera unanimidade nem apoio de massa inconteste, embora a grande maioria, mesmo aqueles que eram seus inimigos, não consigam esconder o choque.
Em relação à sua liderança, sempre soubemos que Mujica não gostava de comandar, muito menos de gerenciar. Esse certamente não era seu ponto forte. Ele tinha dificuldade em controlar suas emoções, odiava cálculos e sua verbosidade diária muitas vezes o fazia esquecer aquele sábio ditado que diz que um governante também governa quando fala. No entanto, ele era muito pragmático, sabia negociar e “tinha a capacidade de recuar”, como ele mesmo tantas vezes reiterou. Com uma ligação ímpar com os setores populares e a coragem de suas convicções, “gênio e personalidade até a morte”, ele foi capaz de apoiar e até mesmo liderar propostas que inicialmente não só não compartilhava como nem sequer estavam em seu roteiro. Um exemplo disso é a agenda de novos direitos (regulamentação da maconha, descriminalização do aborto, igualdade no casamento, etc.), cuja liderança intelectual e ideológica lhe é erroneamente atribuída de fora de suas fronteiras. Ele geralmente era descuidado na condução dos assuntos e quase nunca seguia um plano. Contudo, ele às vezes sabia descobrir opções e atores capazes de sustentar empreendimentos históricos. Sua principal convicção tinha a ver com a sabedoria suprema do povo, a necessidade imperativa do trabalho coletivo, a autoria plural e os processos longos.
Ele frequentemente explicava sua compreensão de governo da seguinte maneira: “governar é criar as condições para o governo”. Ele fez isso? Em certos aspectos essenciais, sim: ele tinha um diálogo muito bom com empresários e trabalhadores; Mesmo com altos e baixos, ele tinha um bom relacionamento com seus adversários; Obteve amplo apoio popular para medidas ousadas (como o combate frontal ao narcotráfico ou a continuidade e até aprofundamento de políticas sociais inclusivas); Ele quebrou muitos esquemas estabelecidos na esquerda mais dogmática; Tornou-se um símbolo de uma visão alternativa de desenvolvimento e consumismo em nível global, com sua estranha capacidade de comunicação. Ele odiava o protocolo e adorava minar aquelas solenidades nada republicanas que cercam os presidentes e que muitos confundem com a força das instituições.
Com seu modo de viver, coerente com o que dizia e fazia, mesmo com opções particularmente polêmicas, ele revitalizou a legitimidade da política, não só no Uruguai, mas também por meio de seu inesperado impacto internacional. Ele provou amplamente que é muito saudável para um presidente não se considerar um “monarca eleito” e viver como a maioria do seu povo. Ele foi capaz de personalizar uma visão republicana que combinava realismo com propostas simples, mas profundas, como sua condenação ao consumismo ou sua defesa de um uso mais sensato da liberdade e do tempo. Com sua história inusitada e estilo inimitável, ele provou uma das máximas mais exigentes com as quais o Uruguai gosta de se identificar: “ninguém é mais que ninguém”. Ele soube manter a convicção de ser ele mesmo, no erro ou no acerto, em circunstâncias e cenários completamente diferentes, desde longas conversas em sua fazenda ou nas praças, até suas aparições nas Nações Unidas ou na Rio+20. Seus índices de popularidade sempre foram maiores do que seus índices de aprovação da gestão, mais no exterior do que em casa. Talvez aí esteja a chave do seu legado: o de um político com luzes e sombras que soube priorizar como ninguém a sua ligação com os setores populares, vivendo como eles por livre escolha, não por imposição religiosa ou ideológica, sem precisar fingir nada.
Mas a história continua, e Mujica já disse que não vai embora, mas sim “está chegando”. Durante vários anos, especialmente após sua presidência (2010-2015), sem nunca deixar de ser uma figura de liderança e ativa na política nacional, Mujica tem se concentrado cada vez mais em questões regionais e internacionais. Essa era uma das suas principais preocupações desde a juventude. Mas sua proeminência na guerrilha, sua longa e terrível prisão e a construção de sua liderança nacional — tudo isso fez com que suas ideias sobre assuntos internacionais fossem de certa forma ofuscadas e marginalizadas. Desde sua presidência, sua imagem adquiriu popularidade viral inesperadamente nas redes sociais ao redor do mundo, algo que nunca deixa de surpreender alguém como ele, que nunca teve um endereço de e-mail.
Um “Quixote disfarçado de Sancho Pança”, como o definiu o antropólogo uruguaio Daniel Vidart, era um homem muito culto, como se percebe pela intensidade de suas leituras. Seus carcereiros sabiam disso muito bem, pois entre as torturas que escolheram estava impedi-lo de ler, o que o levou à beira da loucura. Mas é preciso dizer que muitas de suas principais ideias surgiram de seu envolvimento direto e diário com a natureza como “agricultor”, algo que ele sempre manteve com especial orgulho. Ambas as dimensões lhe permitiram ser um observador altamente habilidoso e único, que falava com razão sobre os principais problemas do mundo em sua humilde fazenda nos arredores de Montevidéu, encontrando sinais e metáforas extraordinárias sobre o que estava acontecendo globalmente em sua leitura cuidadosa dos clássicos e em seu ponto de vista no topo de seu trator. De uma perspectiva popular, sua longa vida fez dele, em muitos aspectos, um homem sábio que também sabia falar; ele tinha o dom da palavra. “Um torrão de terra com pernas”, a partir daí ele pôde descobrir mais plenamente o que chamou de “o maravilhoso mistério da vida”. Assim, ele foi capaz de entender e explicar os perigos ambientais globais por meio de sua observação cuidadosa de como as éguas davam à luz, como os pássaros variavam em seus hábitos e o que acontecia com as árvores e plantas ao redor de seu rancho.
O outrora forte guerrilheiro finalmente encontrou o significado de lutar contra visões dogmáticas e confrontacionais por caminhos que ele desprezava antes de suas quatro penas de prisão, das quais escapou duas vezes. Ao contrário da opinião de muitos colegas, ele sempre dizia que havia se tornado presidente “não por ser um Tupamaro, mas apesar de ser um”. Foi assim que ele procurou compreender aqueles que pensavam de modo diferente, dos quais ele sabia aprender; Ele perdeu o medo de dizer o que pensava, mesmo que isso o tornasse um “inimigo do povo” ou um transgressor de todas as regras do politicamente correto. Tudo isso o fez se tornar “viral” naquele mundo digital que ele sabia que não era o seu. Quando perguntado sobre sua popularidade internacional, ele sempre afirmou que isso devia ser consequência de “quão ruim era a média global”. Talvez essa mesma franqueza tenha sido o que o tornou tão único e influente.
Mujica, mesmo não gostando, foi um exemplo de vida e superação. Mesmo apesar de si mesmo. É difícil encontrar alguém que amasse a vida mais do que ele. Ele insistia que não acreditava em Deus, mas quando falava da Natureza e dos seres que povoavam os campos de sua fazenda, não havia dúvida de que um forte senso de transcendência residia dentro dele. Ele costumava dizer que gostaria de morrer como um dos pequenos “touros” que viviam no campo, sem barulho ou cerimônia. Ele escolheu o local onde queria que suas cinzas fossem enterradas: em uma araucária perto de sua fazenda, ao lado do terreno onde enterrou Manuela, sua lendária cadela de três patas. Lá, ele certamente também será acompanhado pelos restos mortais de Lucía, sua companheira em uma viagem que se assemelha muito a uma viagem excepcional, quase homérica.
Ele sabia muito bem que estava levando uma vida difícil. Ele era filho de sua história e teimosamente não apagou seus rastros, mesmo que muitas lembranças pesassem sobre ele. Acredito que o Uruguai, sem dúvida, perderá muito com sua morte. Mas ele sempre disse que seu principal objetivo era que os jovens pegassem o bastão e continuassem lutando por causas diferentes das suas, principalmente sem cometer os seus erros, mas unidos pelo compromisso com os outros, com a obsessão de que “ninguém fica para trás”. Claro que há um futuro sem Mujica. É por isso que ele sempre lutou.
Geraldo Caetano
Guerras. Guerras, Guerras
Either man will abolish war, or war will abolish man
Bertrand Russell
A primeira guerra mundial (1914 – 1918) foi uma medonha carnificina, com a qual todos perderam, vinte milhões morreram, entre militares e civis, imensos ficaram mutilados, física e mentalmente, e alguns de boa vontade acharam que este açougue iria servir de vacina contra futuros holocaustos, porventura mais mortíferos. Outros, até, que tinham experimentado o odor fétido da podridão dos cadáveres, nesses esgotos, que eram as trincheiras, infectadas por ratos e piolhos (Barbusse, Vercel, Dorgelès, Remarque, Duhamel, este, como médico), escreveram assinaláveis e inesquecíveis livros, com o objectivo de imprimirem, com vigor, nos imaginários atormentados dos sobreviventes, a recordação do horror que convinha, para todo o sempre, evitar. Jean Giono, grande romancista francês, enorme prosador e destemido ser humano incapaz de matar, andou, contra toda a probabilidade, quatro anos daquela guerra, persistentemente vivo e de espingarda ao ombro, recusando-se a disparar um tiro fosse contra quem fosse. Da sua companhia, sobreviveu ele e o capitão da mesma. Dos seus admiráveis Écrits Pacifistes, extraio esta curta e impressiva passagem: “Eu não consigo esquecer a guerra. Gostaria de a esquecer. Passo, por vezes, dois dias ou três sem pensar nisso e, bruscamente, revejo-a, sinto-a, oiço-a, sofro-a mais uma vez. E tenho medo. Esta noite é o fim de um belo dia de Julho. A planície, lá em baixo, tornou-se completamente arruivada. Vamos cortar o trigo. O ar, o céu, a terra estão imóveis e calmos. Passaram-se vinte anos. E, vinte anos depois, apesar da vida, das dores e dos momentos de felicidade, não me sinto lavado da guerra. O horror desses quatro anos está sempre comigo. Trago comigo a marca deles. Todos os sobreviventes carregam essa marca.” A marca foi de tal fundura, que Giono jurou nunca mais participar em guerra nenhuma e cumpriu-o. E pagaria a factura pesada por ter recusado fazê-lo, por ocasião da segunda guerra mundial, não tendo esquecido os horrores da primeira: Refus dóbéissance!
Roger Martin du Gard que acabara de ter um respeitável mas modesto triunfo com a publicação do seu romance Jean Barois, no ano anterior, e viria a celebrizar-se com a sua admirável saga familiar, Les Thibault, fez a guerra no serviço de ambulâncias, isto é, recolhendo os feridos, estropiados e moribundos, sinistro corolário do pior que a aventura humana tem a oferecer: a guerra, como pífia e mortífera forma de solucionar conflitos de interesses. O contacto quotidiano com essa paisagem de um absurdo goyesco e sangrento, fá-lo-ia, como a Giono, considerar que a guerra era o mal absoluto, não a aceitando, em situação nenhuma, como solução de desentendimentos. E manteve esta resolução, mesmo durante os primeiros tempos da guerra contra Hitler. E só, quando informações fidedignas lhe chegaram ao conhecimento, sobre o que o nazismo significava, decidiu que este talvez viesse a provar ser um mal ainda superior à guerra.
Duhamel, médico e escritor e amigo de Martin du Gard, de asa também ferida, ao contacto com os mutilados e moribundos do conflito, escreveria páginas alucinantes sobre aquele horrível sorvedouro de sangue. A Europa terá, ali, perdido milhares de promissores talentos, pondo fim à sua supremacia no mundo. E terá perdido, até, alguns homens de génio, ainda em embrião. É que a guerra tem só uma virtude: é democrática, mata, por igual, imbecis e homens de valor. A guerra não é EXCLUSIVA, pelo contrário, é assombrosamente INCLUSIVA.
Seja como for, um punhado de homens, um pouco por toda a parte, tentaram dar ardente testemunho de todos aqueles horrores, para tentar que aquela guerra fosse a última das guerras. Porém, vinte anos depois, a humanidade estava envolvida noutra ainda mais mortífera. Será que o inferno não ensina a evitá-lo? Vivemos actualmente, com um sinistro magarefe aqui à porta, que a pretexto de históricos sonhos imperialistas e saudoso do tempo de um império assassino e cheio de boa consciência, encetou uma violação do direito internacional, invadindo um vizinho que o incomodava e dava jeito incorporar no seu seio ansioso por maior volume. Há quem, no Ocidente, use de uma filologia enviesada e assaz masoquista, para justificar todas as agressões, violações e genocídios de um agressor que é alegadamente “pessoa de bem”. Talvez valesse a pena reeditar e mantê-las no mercado, bem à vista, as obras de autores que souberam dar veemente notícia dos horrores da guerra.
Eugénio Lisboa
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