sábado, 19 de abril de 2025

O ‘trumpismo’ e a crise global de liderança: TOD, autoritarismo e educação para a democracia

Você se sente mais inseguro, irritado ou desanimado em relação à política e à convivência social nos últimos anos? Se sim, você não está só. Segundo dados do Edelman Trust Barometer 2024, mais de 70% da população mundial acredita que as instituições democráticas estão em risco e que o mundo está mais dividido do que nunca, segundo levantamento realizado em mais de 28 países com mais de 32 mil entrevistados. O sentimento de desconfiança generalizada, a desinformação e o medo coletivo têm impactado não apenas as eleições e as políticas públicas, mas também as relações familiares, as decisões pessoais e a saúde mental da sociedade, segundo o relatório, 76% da população mundial acredita que a desinformação está em níveis alarmantes e 53% considera que a divisão social é tão intensa que não poderá ser superada.

Em 2025, o mundo testemunha o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e, com ele, a intensificação de um estilo de liderança que desestabiliza alianças históricas, desafia acordos internacionais, ignora instâncias técnicas e fragiliza instituições democráticas. Mas o Trumpismo – mais do que um projeto de governo – expressa um padrão comportamental global que reflete e alimenta uma crise “neurogeossociopolítica”.

Essa crise se manifesta em quatro dimensões interdependentes:

· Neurocognitiva, pela crescente incapacidade coletiva de regular emoções em ambientes polarizados;

· Geopolítica, com o avanço de lideranças autoritárias e a fragmentação das alianças multilaterais;

· Social, através da erosão da confiança nas instituições e no pacto democrático;

· Cultural, marcada pela desvalorização da escuta, da linguagem construtiva e da ciência.


Neste contexto, torna-se essencial compreender os vínculos entre os comportamentos individuais e o colapso institucional, buscando ferramentas conceituais que revelem o que está por trás da liderança desafiadora e suas repercussões coletivas. É aqui que o conceito de Transtorno Opositor Desafiador (TOD), originalmente restrito à psicologia do desenvolvimento, ganha relevância como chave interpretativa transdisciplinar. Ele nos permite observar como padrões desafiadores, quando alçados ao poder, ameaçam o funcionamento saudável das democracias, como veremos a seguir.

O TOD é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por um padrão persistente de comportamento desafiador, desobediente e hostil em relação às figuras de autoridade: pais, chefes, autoridades da esfera jurídica, administrativa e instituições. Embora mais comum em crianças e adolescentes, o TOD não surge repentinamente na vida adulta. Trata-se de um padrão comportamental que, quando não reconhecido e trabalhado desde a infância, pode evoluir e se cristalizar ao longo do tempo, influenciado pelo tipo de parentalidade exercida, pelo ambiente social e pelas experiências de vida. Quando se manifesta em adultos, sobretudo em contextos de liderança, poder ou influência midiática, revela frequentemente lacunas formativas e carências emocionais não elaboradas.

Os principais sinais incluem: discussões frequentes com figuras de autoridade; recusa em obedecer às regras; tendência a culpar os outros por seus erros, a “terceirização da responsabilidade”; provocação deliberada, comportamento rancoroso e hostilidade constante; baixa tolerância à frustração e explosões de raiva.

No jargão clínico, costuma-se dizer que o TOD é o “valentão em grupo”, aquele que provoca, ameaça, coage e se impõe com agressividade, especialmente quando respaldado por apoio social ou simbólico. No entanto, quando está sozinho, o mesmo indivíduo frequentemente revela um lado mais vulnerável, marcado por medo, sofrimento psíquico e paralisia emocional. Essa ambivalência comportamental revela que, por trás da hostilidade, pode haver experiências internas de insegurança, abandono ou baixa autoestima.
Nos adultos, o TOD pode se expressar como padrões crônicos de oposição institucional, deslegitimação do contraditório e recusa de normas sociais amplamente aceitas. Quando associado a lideranças políticas, o TOD ganha dimensão coletiva e institucional, com impactos profundos sobre a estabilidade democrática e a cultura pública.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o TOD diferencia-se de transtornos de conduta mais graves, como os de personalidade antissocial, narcisista ou hedonista, por não envolver, necessariamente, violações sistemáticas de direitos alheios, comportamento manipulador persistente ou ausência de remorso. Enquanto o TOD tende a expressar oposição reativa e hostilidade situacional diante de figuras de autoridade, os transtornos de conduta mais graves configuram padrões comportamentais persistentes, invasivos e menos responsivos a contextos, com maior risco de transgressão social, sofrimento coletivo e danos éticos. A menção a esses quadros mais graves não implica diagnóstico direto de lideranças específicas, mas convida à reflexão ética e cidadã sobre os impactos reais que estilos de liderança hostis, autorreferentes e punitivos podem causar na vida de milhões de pessoas, especialmente quando ocupam posições de poder. Para o psicólogo clínico, Russell A. Barkley, referência clássica nos estudos sobre TOD na infância, o transtorno envolve não apenas oposição comportamental, mas uma profunda dificuldade na regulação emocional diante da frustração, principalmente em contextos de autoridade. Estudos mais recentes, como os de Daniel J. Siegel e Bessel van der Kolk, destacam também a influência de traumas não elaborados no desenvolvimento de padrões desafiadores persistentes.

Entre as figuras públicas que encarnam padrões comportamentais compatíveis com o TOD, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, se destaca como caso emblemático. Durante seu primeiro mandato presidencial, adotou um estilo confrontativo marcado por:

1. Ataques à imprensa e ao judiciário: descreditou a mídia e o sistema judiciário quando contrário a suas ações.

2. Rejeição à ciência: ignorou especialistas durante a pandemia de covid-19.

3. Desafios às normas institucionais: questionou a legitimidade das eleições de 2020 sem provas.

4. Polarização social: incentivou a divisão e a lealdade incondicional a seu governo.

No seu segundo mandato, iniciado em 2025, esse padrão se intensificou. Diversas medidas e posicionamentos recentes reforçam o caráter desafiador de sua liderança:

5. Política econômica e tarifaço: imposição de tarifas sobre importações, especialmente da China, exacerbando disputas comerciais e contribuindo para uma crise geopolítica.

6. Relações internacionais: pressionou aliados da OTAN, enfraqueceu laços com a União Europeia, fechou a USAID e sugeriu sair da OMS.

7. Saúde e educação: cortou programas de saúde e perseguiu universidades críticas ao governo.

8. Imigração e segurança: endureceu políticas migratórias e estigmatizou minorias.

9. Conflito Rússia-Ucrânia: tentou se aproximar da Rússia, enfraquecendo a soberania ucraniana.

Essas ações revelam uma liderança polarizadora, com graves repercussões internas e no cenário global. Esse estilo, caracterizado pela negação do contraditório e pela disrupção contínua, não permaneceu restrito aos Estados Unidos. Seus ecos podem ser observados em outras lideranças contemporâneas, que, com variações culturais e táticas, também manifestam traços de oposição sistemática às regras democráticas.

Esses casos, observados em diferentes partes do mundo, refletem a contaminação global de uma lógica de poder baseada no confronto, na desinformação e na rejeição do pluralismo institucional.

Esse fenômeno, embora tenha em Donald Trump sua expressão mais conhecida nos últimos anos, não é exclusivo. O estilo de liderança confrontativo, autorreferente e desafiador de instituições também se manifesta em diversas regiões do mundo, com variações culturais e políticas. Essas lideranças compartilham um padrão de oposição sistemática às regras democráticas, à escuta e ao contraditório, explorando o medo como instrumento de poder. Esse padrão pode ser identificado em diferentes regiões do mundo, ilustrado por exemplos de lideranças que expressam traços semelhantes:

Américas – Trump (EUA), Bolsonaro (Brasil), Maduro (Venezuela), Ortega (Nicarágua), Bukele (El Salvador);

Europa e Eurásia – Putin (Rússia), Orbán (Hungria), Duda (Polônia), Lukashenko (Bielorrússia);

Ásia e Oriente Médio – Duterte (Filipinas), Erdogan (Turquia), Xi Jinping (China), Modi (Índia), al-Assad (Síria), Kim Jong-un (Coreia do Norte);

África – Mugabe (Zimbábue), el-Sisi (Egito), Kagame (Ruanda), Museveni (Uganda).

Alguns desses líderes chegaram ao poder antes de Trump, outros depois, mas todos ajudam a consolidar o arquétipo do “valentão político contemporâneo”: figuras que deslegitimam instituições de controle, atacam a imprensa livre e centralizam o poder em torno da própria vontade. Cada um, à sua maneira, contribui para o avanço de uma lógica autoritária que transforma o Estado em reflexo de si mesmo, em detrimento do pluralismo, da escuta e do pacto democrático.

Os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em sua obra Como as Democracias Morrem (2018), explicam como democracias não morrem apenas por golpes militares, mas pela erosão gradual das instituições desde dentro, liderada por figuras eleitas que deslegitimam o contraditório, toleram a violência e atacam liberdades civis. Essa análise ajuda a compreender os riscos reais de estilos de liderança que fragilizam os pilares democráticos sob aparência legal e eleitoral.

Esse comportamento de liderança atua como modelo para segmentos sociais que internalizam o discurso opositor como identidade. A contaminação é amplificada pelas redes sociais e pela mídia digital, promovendo: normalização da desinformação; rejeição a especialistas e à escuta dialógica e escalada da polarização afetiva e política. Esse “efeito espelho” contribui para a fragilização do pacto civilizacional, pois desloca a convivência para o campo do conflito perene e da hostilidade ao contraditório.

A prevenção de padrões opositores destrutivos começa na infância, através da parentalidade positiva, da educação afetiva e da promoção de referências e exemplos de adultos que exercem a educação empática, compassiva e ética com coerência.

Por isto, a resposta mais urgente, porém ainda negligenciada, está na educação de adultos, campo da andragogia social. Inspirada em autores como Malcolm Knowles, Paulo Freire e Hannah Arendt, essa abordagem busca não apenas transmitir conhecimento, mas formar consciência cidadã. Como destacou Knowles: “adultos aprendem melhor quando sentem que o conteúdo tem aplicação imediata em suas vidas e quando são tratados com respeito e autonomia” (The Adult Learner, 1980). Freire, por sua vez, afirmou: “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo” (Pedagogia da Autonomia, 1996). E Arendt nos lembra que: “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos responsabilidade por ele” (Entre o Passado e o Futuro, 1961).

Essa perspectiva é essencial para ampliar a capacidade de convivência democrática e reeducação social em tempos de polarização, fragmentação e intolerância: estimular o pensamento crítico e a autorreflexão; fortalecer a consciência cidadã e o engajamento coletivo e promover o diálogo intergeracional e a cultura de paz.

Diante da expressão do TOD adulto em cargos de poder, o Estado Democrático de Direito precisa agir como contenção estrutural:

· Legislação que limite abusos e garanta separação de poderes;

· Justiça independente e mecanismos de responsabilização;

· Imprensa livre como fiscalizadora do discurso público;

· Educação política como horizonte preventivo e restaurador;

· Saúde inclusiva e universal como norteadora do bem-estar civilizatório.

A democracia não pode depender da moderação espontânea das lideranças, mas sim da força de suas instituições e da consciência ativa da sociedade civil.

A analogia entre o TOD e certos estilos de liderança política não busca patologizar a política, mas oferecer uma lente interdisciplinar para compreender como comportamentos individuais se transformam em padrões coletivos de ruptura democrática.

A face pública do TOD, confrontadora, provocadora, autoritária e bélica, frequentemente oculta dimensão individual de insegurança, incoerência e desorganização interna. Essa ambivalência, quando não reconhecida e tratada, tende a se manifestar de forma cada vez mais destrutiva no espaço social e institucional.

Por isso, resistir ao autoritarismo exige mais do que respostas jurídicas e institucionais: exige uma pedagogia da consciência democrática, sustentada por uma educação transformadora de adultos, pela regeneração da cultura pública e pela escuta ativa das emoções políticas do nosso tempo e cultura de paz que promova a saúde mental coletiva.

Entender o TOD como chave analítica do presente é também reconhecer que, por trás da violência simbólica e da recusa ao diálogo, há sempre um apelo humano por reconhecimento, pertencimento e sentido. E é nesse ponto que a política reencontra sua vocação: não como espetáculo do poder, mas como espaço de reconstrução do comum.

Seremos capazes de construir uma política que escute antes de reagir, que acolha antes de coagir, e que reeduque sem humilhar? Que tipo de educação — institucional, emocional e cidadã — estamos dispostos a oferecer às próximas gerações para que a democracia volte a ser um projeto comum?
Rubens Bollos 

21 de abril

Na noite do dia 21 de abril de 1960, estava com um amigo na Praça dos Três Poderes. Assisti, maravilhado, às festas da inauguração da nova capital do Brasil. Meu pai foi convidado para o baile de gala, que foi realizado no Palácio do Planalto. Eu e um amigo carioca ficamos passeando pela imensa praça ouvindo o magnífico coral de não sei quantas centenas de vozes, os gritos entusiasmados dos candangos. Vi os fogos. Senti a alegria. A festa atingiu seu ápice quando o presidente Juscelino Kubitschek desceu a rampa, atravessou a rua e se jogou no meio da multidão. Foi um suceder de abraços, parabéns, cumprimento, apertos de mão. Uma senhora beijou-lhe os pés.

Essa imagem foi a minha introdução à ciência política. Brasileiro gosta de empreender, gosta de trabalhar, gosta de emprego. O presidente JK percebeu que o país vivia de costas para seu interior. E tratou de impulsionar a integração nacional. Os brasileiros descobriram o Centro-Oeste e o Norte do país. Até então, viajar a Belém do Pará só era possível por navio ou avião. O Brasil dos anos sessenta era muito diferente do atual. Tínhamos Vinicius de Moraes, Tom Jobim, bossa nova, campeonato mundial de futebol, Garrincha e Pelé. O país era alegre e trabalhava para reduzir suas chagas. Era mais ingênuo também.

Revi o presidente JK na redação da Veja em 1975. Ele fez uma agradável visita à nossa redação em Brasília, dirigida pelo inesquecível Pompeu de Sousa. Conversou com cada um dos presentes chamando pelo nome e, no fim, posou para fotografia com a turma. Ganhou o grupo com base na boa conversa. Político de excepcional qualidade. Fenômeno raro na história do país. Só voltei a revê-lo no enterro que saiu da Catedral e foi até o cemitério cercado por populares e admiradores. Entre eles, meu pai, que na época tinha 60 anos. Ajudou a carregar o caixão por todo o percurso.

Os cinco anos em cinco, slogan daquele governo, é a síntese de uma obra de gigante focado e determinado. É preciso lembrar que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o governo norte-americano eram contra a realização das metas de JK. Ele não deu bola para a oposição, nem para militares mal-humorados e foi em frente. Seu nome entrou na história do Brasil pela coragem de mudar o país. Desde então, os políticos se acovardaram. Um presidente renunciou, tentando o golpe de Estado. Outro foi deposto por militares, que ficaram mais de duas décadas no poder e devolveram o governo aos civis com imensa dívida externa. Foi difícil sair daquela situação falimentar.

Dois presidentes sofreram impeachment e nada foi feito de substancial para o Brasil avançar. A Constituinte foi uma obra bonita e sofrida, culminância do trabalho de Tancredo Neves e seu grupo (no próximo dia 21 de abril, completa-se 40 anos da morte de Tancredo). O presidente José Sarney tem participação expressiva nesse processo. A partir daí, o país passou a ser administrado pela ótica populista de um governo que lança programa atrás de programa para conceder vantagens ao trabalhador, mas não cria as condições necessárias para a indústria prosperar. O brasileiro deixou de ser profissão-esperança. Ele agora espera a benesse do governo. Há uma acomodação com a chamada renda média, que dispensa sonhos de futuro melhor. O país está estagnado nos discursos dos líderes trabalhistas.

Em tempos recentes, surgiu no país e no mundo esta extrema-direita que é contra tudo o que se chama moderno. Ex-presidente, que está hospitalizado, não deu a menor atenção aos vitimados pela covid, não visitou hospitais nem parentes enlutados e, agora, faz pose de sofredor em hospital. Pleiteia a anistia, esquecido que tramou contra as instituições e chegou a planejar assassinato de ministro do Supremo e dos presidente e vice-presidente da República. O equivalente a ele nos Estados Unidos subverte as relações econômico-financeiras do mundo. Leva o planeta a um confronto muito perto de uma guerra real. Provoca os europeus. Ataca as melhores universidades norte-americanas e expulsa do país quem ele quer. É um autocrata explícito. Espanta que a democracia norte-americana não seja capaz de resistir a esses furiosos ataques aos seus conceitos fundamentais. E à própria economia.

É difícil comparar o Brasil de hoje com o de ontem. Há virtudes e defeitos. Perdemos a ingenuidade. Não temos mais boa música nem futebol de categoria. Os poetas desapareceram. Os sonhadores, também. Os políticos profissionais sumiram. Hoje os parlamentares têm valor porque pertencem à bancada da bala, dos evangélicos, dos agricultores ou de outro grupo qualquer. Alguns pretendem utilizar o mandato apenas para se proteger de eventual processo judicial. A política como exercício de poder para promover o bem público perdeu-se em algum momento no Brasil. O país está órfão de grandes líderes. Situação, aliás, que aflige o mundo neste momento.
André Gustavo Stumpf

O choque necessário

É atávico. Todos os anos, os brasileiros se surpreendem com os baixos índices na qualidade e na equidade como a educação é oferecida. Apesar de avanços, três brechas estão aumentando. Uma brecha social: mesmo com a evolução no número de matrículas na escola para os pobres, a qualidade cresce mais para a parcela rica. A brecha internacional: outros países avançam mais rapidamente, nos deixando para trás. E aumenta a brecha pedagógica: entre o que é ensinado e o que deveria ser ensinado para preparar um jovem para as necessidades de conhecimento que o mundo contemporâneo exige.


Além de observar os possíveis avanços do passado ao presente, a educação deve ser avaliada para medir a que distância ainda estamos de garantir a alfabetização para a contemporaneidade a todos os brasileiros. Falar, ler e escrever bem o idioma português, sendo capaz de entender os textos, fazer análises linguísticas e críticas literárias. Ser fluente em pelo menos um dos idiomas usados internacionalmente, especialmente em inglês. Sem isso, o jovem não estará integrado ao mundo. É crucial entender os fundamentos das ciências, geografia, história, matemática, sem o que ninguém é capaz de dispor do mapa necessário para caminhar na busca de sua felicidade nem das ferramentas para participar da construção de um mundo melhor e mais belo.

Como aprender a deslumbrar-se com as artes, ter competência e gosto para o debate sobre os temas de filosofia, política, antropologia e sociologia, sem educação? E como indignar-se diante da permanência da pobreza, da desigualdade social, do autoritarismo, da corrupção e dos preconceitos contra as minorias? Os caminhos são nítidos, e ficamos para trás. É fundamental saber usar com competência as ferramentas digitais necessárias para usufruir e trabalhar a partir delas. Formar-se em pelo menos um ofício que permita emprego e renda, independente de curso superior. Adquirir noções e gosto pela prática de solidariedade com vizinhos, compatriotas e toda a humanidade: respeito aos patrimônios cultural e natural e sua diversidade. Ter consciência para querer participar da construção de sociedades pacíficas, com zelo pelo desenvolvimento sustentável, democrático e justo. Ser capaz de obter educação continuada ao longo da vida, mesmo depois da escola, nestes tempos de limites, incertezas, revoluções tecnológicas e conceituais, transformações geopolíticas e metamorfoses. Garantir a todos que desejarem, com vocação e talento, a base necessária para concorrer a vagas nas melhores universidades e nos mais disputados cursos do ensino superior.

Raras escolas brasileiras são capazes de dar essa formação e assegurar a alfabetização plena. Sem um choque necessário, dos 2,5 milhões de brasileiros e brasileiras nascidos em 2024, no máximo 500 000 chegarão a 2042 com uma razoável educação para dispor do conhecimento necessário. O Brasil precisa criar um ministério dedicado aos assuntos da educação de base. Está mais do que na hora de definir e implantar uma estratégia que, ao longo de duas ou três décadas, crie um robusto sistema nacional para todos, independente da renda e do endereço das famílias.

A Revolução Cultural de Mao Tse-Tung e a de Trump

Algumas pessoas têm apontado algumas similaridades entre a Revolução Cultural de Mao Tse-Tung e a Revolução Cultural de Trump. E elas têm razão, existem alguns pontos que são significativamente comuns, no que passo aqui a apontar.

Há um consenso entre os economistas, do mundo, de que as decisões de Trump são equivocadas, e que não levarão ao desenvolvimento econômico e social dos Estados Unidos. O que fez a América “Great Before” foi o mercado, e não as tarifas alfandegárias; a liberdade política e de expressão, e não as tentativas de quebra das leis e abuso do poder. O Departamento de Economia da Universidade de Chicago deve estar, hoje, se corroendo de dor! Ou seja, Trump não vai resolver o problema da economia americana, mas somente liderar o sentimento de frustração que o americano hoje sente devido à diminuição de sua força econômica e importância política no cenário mundial.


A China é uma civilização milenar, forjada na guerra e na disciplina, sob os princípios Confucionistas da aceitação coletiva, em uma sociedade politicamente centralizada. Em 1949, Mao Tse-Tung vence com a Revolução Chinesa. Mao Tse-Tung, entretanto, antes de entrar em uma cidade ou província, negociava a continuidade da propriedade privada na economia por até 3 (três) gerações, em troca de não haver combates, preservando, assim, significativa parcela da capacidade empresarial da China, ao contrário do que ocorreu na Rússia. Após a Grande Fome de 1959 a 1961, devido à coletivização forçada da agricultura, em 1966 Mao Tse-Tung liderou a Revolução Cultural, no escopo da ideologia socialista, levando o país a seus piores tempos. Em 1981, o Partido Comunista Chinês chegou a classificar a Revolução Cultural como o “retrocesso mais severo” da China desde 1949.

De 1976 a 1989, Deng Xioping, o “Arquiteto da Nação”, liderou a China introduzindo reformas voltadas para o mercado e o desenvolvimento, com fortes investimentos em infraestrutura, energia, indústria, urbanização, educação, tecnologia e negócios. Seguem-se Jiang Zemin (1989-2002), Hu Jintao (2002-2012), e Xi Jinping (2012 até o presente), em um país que, hoje, de Comunista, somente tem o nome do Partido que a lidera. O PIB da China em 1960 era de US$ 0,06 trilhão; US$ 0,19 trilhão em 1980; US$ 1,2 trilhão em 2000; US$ 14,7 trilhões em 2020; estimados US$ 16,3 trilhões em 2024.

Trump vai contra os princípios da nação, da liberdade econômica, da liberdade política, e intelectual. Em 1960, o PIB dos Estados Unidos era de US$ 0,54 trilhão; US$ 2,9 trilhões em 1980; US$ 10,3 trilhões em 2000; US$ 21,4 trilhões em 2020; estimados US$ 28,5 trilhões em 2024. Em toda a série, somente por duas vezes o PIB americano caiu: 2% de 2008 a 2009 devido à crise do subprime; e 0,9% de 2020 a 2021 devido ao COVID.

Na China, o inimigo interno de Mao Tse-Tung eram os empresários, e o externo o “imperialismo”. Nos Estados Unidos de Trump, o inimigo interno são os imigrantes, e o externo todos os países do mundo, incluindo os politicamente aliados. Dados da OCDE indicam possível queda do PIB Americano em mais de 1% para 2025 devido ao tarifaço. Por outro lado, a China obteve surpreendentes 5,4% de crescimento neste primeiro trimestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior, já nestes tempos da Guerra Comercial.

Os resultados econômicos de Trump serão o reverso do pretendido. Trump, então, se baseará na “liderança do ressentimento”, como base de suas ações. Ao final dos danos que Trump irá causar ao seu país, e à maior parte do mundo, os americanos deverão reavaliar o ocorrido e tomar novo rumo, mais simples e mais eficiente, voltando aos princípios básicos da nação.

Lembrando que o “ódio” não “põe mesa”.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Pensamento do Dia


 

Em cerco a Dom Angélico Bernardino, ditadura investigou até gibi do Zé Marmita

Em novembro de 1978, a ditadura resolveu investigar um gibi. A repressão queria saber quem financiava “As Aventuras de Zé Marmita”. Distribuída na periferia de São Paulo, a revistinha narrava a rotina nas fábricas e incentivava os trabalhadores a lutarem por melhores condições de vida. Só podia ser coisa de dom Angélico, bispo tachado de subversivo e adversário do regime.

Na juventude, Angélico Sândalo Bernardino não sabia se queria ser padre ou jornalista. Resolveu o dilema ao unir as duas vocações, ajudando a Igreja a se comunicar com os fiéis. Antes de ser ordenado, ele já escrevia no Diário de Notícias, da diocese de Ribeirão Preto. Mais tarde comandaria as “rádios-cornetas”, com alto-falantes pendurados nos postes de favelas e ocupações.

Em 1969, o religioso foi alvo da primeira perseguição. A polícia quis prendê-lo por suposta ligação com a luta armada. A Igreja saiu em defesa do padre, e a Justiça Militar arquivou o caso por falta de provas. Dois anos depois, dom Angélico foi fichado como “elemento reconhecidamente esquerdista”, envolvido em “atividades subversivas”. “O epigrafado vem transformando o Diário de Notícias num autêntico órgão de contestação revolucionária, semeando intrigas e mentiras contra as autoridades”, esbravejaram os arapongas.

Além de ler os artigos de jornal, os militares se infiltravam nas missas para ouvir os sermões. Em 1974, um informe do II Exército relatou que ele “fez severas críticas ao governo, a quem acusou de culpado pela falta de gêneros, pelo aumento do custo de vida e pelas longas filas do INPS”. “Cristo foi considerado subversivo e por isso foi crucificado”, acrescentou o religioso, para a ira dos espiões disfarçados entre os fiéis.

Em 1976, ele foi vigiado num encontro católico em Barueri, onde acusou a repressão de usar “métodos bárbaros” para “arrancar confissões”. Destemido, repetiria a denúncia numa igreja lotada após o assassinato do operário Manoel Fiel Filho. “Quem não está vendo Deus a falar da morte triste do metalúrgico? Como tantos outros, ele foi torturado”, pregou, antes de se referir ao DOI-Codi como “casa de horrores”.

Incansável na defesa dos direitos humanos, o cardeal Paulo Evaristo Arns escalou dom Angélico como bispo auxiliar na Zona Leste. Ele passou a conviver com os órfãos do milagre brasileiro, que batalhavam pela sobrevivência em ruas sem asfalto e saneamento básico. O religioso abriu a igreja para os pobres, incentivou movimentos por creches e por moradia, usou sua voz para pressionar os poderosos.

Em 1977, quando um trem se chocou com um ônibus e matou 22 pessoas, ele ameaçou suspender a missa de domingo e se sentar nos trilhos para exigir cancelas de segurança. A RFFSA, que fazia corpo mole, teve que correr para instalar as barreiras.

Ao apoiar as greves do ABC, o bispo ficou amigo de um sindicalista que, muito tempo depois, subiria a rampa do Planalto. Em 2022, ele me disse que não se importava com patrulhas ideológicas. “A Igreja nunca teve partido político. Nós saíamos com o povo reivindicando creche, escola e hospital. Essa era a nossa subversão”, ironizou. “Nos chamavam de comunistas, mas só estávamos ao lado dos trabalhadores.”

Após cinco meses de investigações, a ditadura arquivou o caso do Zé Marmita. A Polícia Federal concluiu que não havia financiadores ocultos. O gibi da pastoral de dom Angélico era rodado “mediante doações em papel, impressão a preços menores e desenhos feitos por estudantes”. O bispo morreu na terça, aos 92 anos.
 Bernardo Mello Franco

E se a distopia estivesse mais para '3%' do que para '1984'?

Acabei de ler "O Vazamento", de Natalia Viana, livro que deveria ser obrigatório para todo estudante de jornalismo. Em novembro de 2010, Natalia trabalhou com o Wikileaks e Julian Assange para publicar a fatia brasileira de mais de 200 mil telegramas diplomáticos do governo dos Estados Unidos. Cerca de 100 mil eram considerados confidenciais, trazendo segredos e indiscrições reportadas pelas embaixadas norte-americanas de diversos países. Antes de divulgá-los, coube à Natalia e a jornalistas parceiros selecionarem os assuntos conforme o interesse público e preservar as fontes que corriam riscos.

A publicação fez a política mundial tremer e produziu crises em todos os cantos do planeta. Os primeiros levantes populares na era das redes sociais ocorreram ainda em 2010, em países com governos autoritários, na chamada Primavera Árabe. Alcançariam as ruas do Brasil em 2013, nas manifestações de junho.


Apesar de terem se passado apenas 15 anos, a leitura do mundo e as expectativas sobre o futuro eram bem diferentes naquela época. As redes sociais e as big techs ainda não tinham o poder que alcançariam na década seguinte. Havia um imenso otimismo em relação à capacidade da tecnologia em aprofundar a transparência e a democracia. Com as redes, as verdades sobre os fatos emergiriam sem o filtro dos donos dos meios de comunicação. A vigilância sobre os abusos dos poderosos poderia se ampliar em benefício dos indivíduos.

O Estado, a burocracia e seus líderes eram vistos como representantes dos interesses de um capitalismo excludente, enquanto a internet e as redes sociais eram celebradas porque amplificavam as vozes que não podiam ser ouvidas. Havia um clamor por liberdade, que também se refletia na popularidade de livros como 1984, clássico de George Orwell. O romance distópico, publicado em 1949, depois da Segunda Guerra mundial, imaginava um futuro totalitário, hipervigiado por um Estado que observava a todos e manipulava a população por meio de mentiras e por um revisionismo histórico que seria a marca do stalinismo. Tanto Wikileaks como Orwell dialogavam com o espírito de seu tempo.

Neste mês de abril, na primeira semana, o livro voltou a causar comoção nas redes depois que o empresário e influenciador Felipe Neto promoveu uma campanha publicitária para lançar o audiobook de 1984, interpretado por atores consagrados. Na publicidade, Neto citava trechos do romance e simulava o lançamento de sua candidatura a presidente, revelando apenas no dia seguinte os reais objetivos de seu vídeo.

O livro segue relevante porque o Big Brother parece mais ativo do que nunca. As mentiras e os mantras ilusórios, capazes de manipular multidões, parecem mais influentes do que nunca, assim como a “novafala” ou “novilíngua”, que inverte o sentido das palavras para confundir a realidade, como nos famosos bordões “guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força”, que funcionavam como slogan do partido que tiranizava a população.

Se o mal-estar e a sensação de vigilância permanecem, porém, os vilões mudaram. O Estado, em vez de caminhar para o totalitarismo, se fragilizou. Não parece ter forças e apoio para reduzir as desigualdades e limitar a concentração de renda e poder em um contexto democrático. Já as big techs e as redes sociais se transformaram nas principais responsáveis pela vigilância e pela manipulação das vontades individuais, com o objetivo de ampliar seus lucos e acumular poder.

Com o descrédito da política, restou o mercado como a instituição garantidora da vida e da sobrevivência dos que sabem ganhar dinheiro. As novas tecnologias, contudo, aceleraram a diminuição dos empregos e esvaziaram as identidades modernas, criando imensas crises existenciais, em que a função social do trabalho deixou de ter relevância. O reconhecimento passou a estar relacionado com a capacidade de lucrar em um sistema concentrador de renda. Para sobreviver nessa nova realidade e conquistar respeito, mais do que qualquer coisa, é preciso saber ganhar dinheiro e participar ativamente da ciranda financeira.

A desregulamentação crescente do mercado favoreceu o faturamento de máfias de todos os tipos, que passaram a negociar em ambientes virtuais protegidos, com criptomoedas que podem circular pelo mundo sem serem rastreadas. As crenças no empreendedorismo se propagaram pelos profetas da autoajuda e da prosperidade, definindo o comportamento de um número crescente de pessoas que assumiram postos de destaque na elite econômica e política nacional.

Como escreve Natalia no último capítulo de seu livro, quinze anos depois do vazamento do Wikileaks, “o que era praça pública virou um shopping center regido por um algoritmo dinheirista”. Ela cita alguns dados: o valor do Google saltou de 28 bilhões de dólares em 2010 para 237 bilhões em 2023. Nesse ano, o Google e o Facebook mordiam quase 60% do total de receita com anúncios digitais no mundo. Cinco conglomerados passaram a controlar a internet no mundo e os Estados se mostravam impotentes diante da tentativa de regulamentar o novo mundo virtual.

Dito isso, é inegável que existem pitadas de 1984 na distopia que parecemos seguir, incapazes de nos libertar da jaula sufocante do mercado, que parece hipnotizar a todos na competição pelo consumo e pela ostentação, em detrimento de um projeto coletivo. Ocorre que cada vez menos serão capazes de alcançar essa riqueza, reservada aos mais dispostos a vencer, talvez 3% ou menos da população. Assim como na série brasileira da Netflix, cujo título é "3%", caberá aos que conseguirem fazer parte desse grupo se isolar e se proteger dos 97% que ficarem de fora. O Estado, nessa distopia, levantará muros, fortalecerá fronteiras e armará exércitos para proteger os super-ricos da massa empobrecida. Enquanto houver mundo.

Os jornais e os dentes de uma atriz britânica

Como a notícia estava no “meu” jornal, segui caminho – não me cabe a mim comentar as opções dos meus colegas. Ao ver que o New York Times publicou uma notícia sobre o mesmo assunto, percebi que a história teve repercussão à escala, senão planetária, pelo menos ocidental.

Por outras palavras: o problema é geral.

O New York Times diz que “Wood, estrela da série The White Lotus, da HBO, criticou o Saturday Night Live por causa de um sketch que gozou com o seu sorriso”, tendo a actriz escrito no Instagram que o sketch “é mau e não tem piada”. Wood diz que não é uma “flor de estufa” e até “adora ser alvo de piadas”, mas só quando as piadas “são inteligentes” e “têm sentido de humor”, qualidades que não detectou na piada sobre os seus dentes.

Wood explica: “A piada do Saturday Night Live era sobre flúor. Eu tenho dentes grandes, não tenho dentes com problemas.” A atriz britânica quer rigor nas piadas e só acha graça quando a piada é fiel à realidade. Se tivesse dentes a precisar de flúor, ter-se-ia rido. Como não precisa de flúor, não se riu.


Wood, que tem 31 anos, ficou famosa com o seu papel na série de televisão Sex Education, criada para a Netflix, descrita na Wikipédia como “a British teen sex comedy drama” – só conheço miúdos que acham a série maçadora, mas a intenção é que faça rir e daí a palavra “comédia” no auto-retrato.

A questão é que, noutra vida, não seria preciso explicar o que é humor a uma actriz que faz uma série definida como humorística.

Já nesta vida, dominada pelo politicamente correcto, a queixa de Wood foi notícia nos jornais de referência.

O Guardian foi mais longe e, além da notícia, publicou um artigo de opinião no qual uma humorista britânica, Athena Kugblenu, explica as razões pelas quais a piada dos humoristas americanos sobre Wood não tem graça: 1) “O flúor é um mineral natural que é adicionado à pasta de dentes e à água porque ajuda a manter os dentes saudáveis”, pelo que “a premissa da piada é que os dentes de Wood não são saudáveis, o que não é de todo o caso” e, por isso, a piada “é desonesta”; e 2) “Se os britânicos têm dentes ‘maus’, não é por falta de flúor. É por causa de um Serviço Nacional de Saúde que fornece medicina dentária através de contratos complicados e inadequados. É mais fácil encontrar alguém que nos faça um check-up gratuito à nossa saúde intestinal do que encontrar alguém que nos examine a boca.”

Kugblenu repete a bizarra tese de que o humor só tem graça quando descreve a realidade de forma literal e acrescenta outro argumento sem sentido, ignorando que Wood tem dois milhões de dólares, pelo que, se quisesse, teria acesso ao melhor dentista do Reino Unido.

Como dizer isto? Os dentes de Wood são invulgarmente virados para fora. São o tipo de dentes que as pessoas tendem a corrigir. Não é de agora. É de sempre. No Egipto Antigo, na Roma Antiga e na Grécia Antiga as pessoas usavam fios de ouro ou de intestino de ovelha para endireitar os dentes. Hoje pomos aparelhos nos dentes num misto de preocupação estética e tentativa de tornar a mordedura mais eficaz – é difícil cortar um alimento duro se os dentes de cima não encaixam nos de baixo.

Não sei se antes de Cristo os motivos eram iguais. Sei que Wood gosta de ter os dentes saídos e que essa é uma marca da sua persona, entre o sexy rebelde, o cool não convencional e o “sou como sou, rejeito artifícios”. Tudo óptimo.

O “problema” jornalístico é outro: os jornais de referência não encontraram solução para publicar os fait-divers na era digital.

No site, no fim do texto do New York Times, o jornal informa que “uma versão deste artigo apareceu na edição impressa de 15 de Abril, Secção C, página 4, com o título Actress Criticizes Sketch”. Talvez na edição em papel a “notícia” assuma visualmente o que há uns anos se “arrumava” na secção “Pessoas”, um espaço que era um misto de fait-divers da vida das celebridades, com notas mais ou menos relevantes, curiosidades picantes, casamentos, divórcios e quem-vestiu-o-quê-em-que-festa, mais mexericos e alfinetadas.

Com isso, os jornais “sérios” piscavam o olho ao leitor, tentando mostrar que não eram elitistas ao ponto de ignorar o sétimo casamento de Elizabeth Taylor. A lógica era evidente: as pessoas vão querer saber estas coisas, porque não lê-las no “seu” jornal? Lia-se sobre a guerra, o parlamento, a greve, o novo livro, o obituário e, algures a seguir a tudo isso, muitas vezes ao pé dos jogos e palavras cruzadas, havia pequenas histórias de famosos.

Não digo que os fait-divers devem desaparecer dos jornais de referência. Não são tão antigos como os correctores de dentes, mas são tão velhos como os jornais e continuam a ter o seu lugar. O problema é que hoje a distinção tornou-se invisível na leitura online, na qual tudo parece ter a mesma importância e, na ausência de uma hierarquia clara, essencial e acessório diluem-se.

Esta é a hipótese benigna de olhar para isto.

A outra hipótese é pior: é possível que a história da reação a piada do Saturday Night Live não seja vista como um fait-divers, mas como uma notícia importante. Nesse caso, a conversa é outra. Se assim for, o problema não é só geral. É geral e sério.

Anistia como farsa

A anistia aos golpistas de variadas espécies é o tipo do assunto a respeito do qual é mais fácil falar do que realizar. Ainda assim, seus adeptos já foram além do aceitável: conseguiram pôr o tema em pauta e paralisar o Congresso em torno dele.

Brutalizados em 8 de janeiro de 2023, os três Poderes da República são agora instados a lidar com uma proposta de perdão dos crimes aos que propugnaram pelo fim do Estado de Direito em vigor no país há parcas quatro décadas.

Fala-se na produção de um acordo entre Executivo, Legislativo e Judiciário para se chegar a meios-termos entre condenações e impunidade.


Como se fossem admissíveis as seguintes situações: o Supremo Tribunal Federal fazer acertos sobre matéria que poderá julgar, o presidente aceitar a inocência de quem pretendeu impedi-lo de governar planejando até sua morte e o Congresso avalizar negociata dessa natureza.

Por mais desatinado que soe, chegamos a esse ponto em que agressores postulam perdão e os agredidos —a maioria residente no Parlamento— consideram a discussão de razoável a imprescindível.

A alegação-mestra é a de que a anistia promoveria a pacificação do Brasil. Nada mais falso. O que se pretende não é paz, e sim a reconstrução do relato histórico a fim de amenizar os fatos e fazer valer como farsa a versão de que o que houve não foi tão grave, mas apenas fruto de equívocos e pontuais excessos. Nada mais falso.

Caso o presidente da Câmara cometa a irresponsabilidade institucional de pautar o projeto, e com urgência, daí em diante nada será pacífico, a começar pela tramitação da proposta. Os defensores sinalizando oposição ao governo e este na resistência atraindo ao campo de batalha o Supremo.

No meio disso, a contrariedade da população —registrada em pesquisas—, cujas prioridades estão longe dessa anistia e muito perto da carestia, da insegurança e dos maus serviços públicos.

Uma coisa é certa: para os brasileiros a sorte dos golpistas vale menos que suas sobrevivências e o destino do país.

O medo é o método

Bob Woodward, jornalista do Washington Post, ficou famoso pelas reportagens investigativas sobre os abusos de poder cometidos pelo Presidente Richard Nixon. No inicio dos anos setenta, junto com Carl Bernstein outro jornalista do Post, fizeram um trabalho jornalístico decisivo para que o escândalo de Watergate fosse descoberto e investigado até seu desfecho com a renuncia de Nixon em 1974. A crônica deste episódio vergonhoso da politica norte americana foi registrada no livro Todos os Homens do Presidente que virou um filme espetacular com Robert Redford e Dustin Hoffman nos papeis principais.

Em setembro de 2018, Bob Woodward publicou um livro sobre Donald Trump chamado Fear: Trump in the White House (Medo: Trump na Casa Branca) baseado em centenas de horas de entrevistas com fontes primárias, diários pessoais de colaboradores, notas de reuniões, arquivos e documentos. O livro cobre sua ascensão no Partido Republicano e a vitória nas eleições primárias, as eleições presidenciais contra Hillary Clinton e seu mandato na Casa Branca.


O livro retrata uma presidência caótica e disfuncional, com um processo decisório impulsivo e desinformado, resistente a orientações e também o papel exercido por pessoas chave do seu staff que trabalharam nos bastidores para conter danos e administrar as consequências dos impulsos presidenciais. O título do livro “Fear” remete a uma declaração do próprio Trump: “O verdadeiro poder – não quero nem usar a palavra- é o medo.”

Em excelente artigo no Estadão nesta semana, Pedro Malan diz que o futuro tornou-se mais incerto e perigoso com Donald Trump no poder. É assustador, diz Malan. Ele cita Amos Tversky: “mais assustador do que não saber algo é ser governado por quem acredita saber exatamente o que está acontecendo e o que fazer.”

Ao erradicar a confiança e plantar o medo, o governo Trump redefiniu a geopolítica mundial desmoralizando o sistema comercial, político e econômico institucionalizado no pós guerra. O sistema monetário de Bretton Woods adotou o dólar como principal moeda de referencia mundial lastreando seu valor em ouro, fixado em US$ 35 por onça. O sistema caiu em agosto de 1971 quando o governo Nixon anunciou a suspensão unilateral da conversão ouro/dólar. O mundo entrou então no sistema do câmbio flutuante onde as moedas são fiduciárias , isto é, são lastreadas apenas na confiança dos governos responsáveis por sua emissão.

Sem a amarra do padrão ouro/dólar a expansão da liquidez na economia mundial até os dias de hoje foi extraordinária permitindo um crescimento recorde da riqueza global. A base monetária global de meio trilhão de dólares em 1971 chega a US$ 129,3 trilhões em 2024. Os Estados Unidos ficaram com a parte do leão da riqueza mundial gerada para custear seu elevadíssimo padrão de consumo. Em 2024 o déficit comercial norte americano foi de US$ 918,4 bilhões e a divida pública US$ 35,8 trilhões equivalente a 124% do PIB do país. O mundo produz e financia o que os Estados Unidos consome graças ao tamanho e a força de sua economia, a credibilidade de suas instituições e a confiança em sua moeda. Os três atributos foram seriamente ameaçados pelas ações de Trump. E agora?

Agora, sem regras multilaterais respeitadas, tudo deve ser negociado em bases bilaterais entre os países, as grandes empresas globais e o governo norte americano. A funcionalidade do sistema de preços internacionais e o principio do fair trade foram feridos de morte pela nova política tarifária, declaradamente destinada a reverter na marra o déficit comercial dos Estados Unidos. Tudo que é sólido se desmancha no ar, poderia afirmar orgulhoso o revolucionário neo-marxista Donald Trump.

Certamente a desconfiança do resto do mundo no governo norte americano trará consequências nos preços relativos de mercadorias, ativos financeiros e moedas fazendo com que os fluxos internacionais de bens e de capital se alterem. Os mercados continuarão globais e a riqueza mundial a ser produzida será menor e é garantido que os Estados Unidos não vão mais ficar com a parte do leão.

Neste tsunami econômico e político é curioso ver o declaratório de líderes do Lulopetismo a favor da globalização, do livre mercado e até do famigerado “consenso de Washington”. Menos frequente, mas também se pode observar o contorcionismo intelectual de alguns poucos dedicados à defesa de Trump, quase sempre brandindo a bandeira dos ideais de liberdade do ocidente e os perigos do comunismo chinês.

Assustar-se e ter medo não é vergonha. Vergonha é se deixar enganar pela mitologia rasa e vulgar do autoritarismo e aceitar o desmonte dos avanços institucionais construídos globalmente a duras penas. A humanidade ainda terá que trabalhar muito para restaurar a confiança perdida em relações internacionais civilizadas e em um futuro de paz com uma verdadeira governança global.

Resistir ao retrocesso é o ponto de partida.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Trump recicla a própria ignorância

Não se pode exigir que os presidentes dos Estados Unidos conheçam a América do Sul. Franklin D. Roosevelt (1933-1945) chamou Getúlio Vargas de general, e George W. Bush (2001-2009) perguntou a Fernando Henrique Cardoso se havia negros no Brasil. A ignorância pontual é uma condição do gênero humano. Afinal, ninguém é obrigado a saber tudo, mas o problema se agrava quando o sujeito recicla a própria ignorância e acredita ter conseguido sabedoria. Esse é o caso de Donald Trump e de sua turma.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, disse que “o governo Obama (...) permitiu que a China se infiltrasse em toda a América do Sul e Central com sua influência econômica e cultural”, e acrescentou:

— Estamos retomando o nosso quintal.

O doutor falava do Canal do Panamá, onde empresas chinesas se estabeleceram no vácuo deixado pelos interesses comerciais dos Estados Unidos.


A China investe em matérias-primas e na infraestrutura na Ásia, África e América Latina de acordo com seus interesses. Não há um só caso de iniciativa chinesa contra a vontade de um país. (O Canal do Panamá foi arrancado da Colômbia no início do século XX.)

A miopia de Trump e sua turma está em querer fazer uma política a um só tempo isolacionista e expansionista, avançando sobre o Panamá, a Groenlândia, o Canadá e “retomando o nosso quintal”. Querem curar ressaca tomando mais um gole.

Deixando de lado considerações genéricas, pode-se ir ao mundo dos fatos. Enquanto os Estados Unidos estrangulam centros de estudo como o Wilson Center, de Washington, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) se reunirá em maio. Onde? Pequim.

O Império do Meio é paciente, metódico e discreto. Em 1996, enquanto Donald Trump cuidava de imóveis a cassinos, a China mandou uma missão comercial a Fortaleza. Nela, mais magro e com cara de garoto, estava o vice-governador da Província de Fujian, Xi Jinping. Voltou em 2014, para uma reunião do Brics. Xi já esteve com três presidentes brasileiros e voltará a se encontrar com Lula no evento da Celac.

O governo americano teve, mas não tem mais, uma diplomacia atuante na América Latina. Roosevelt achou que Getúlio Vargas era um general, mas mandou Adolf Berle, um de seus principais assessores, para a embaixada no Rio. Hoje, os laços culturais dos Estados Unidos com seu “quintal” continuam fortes, mas o trumpismo hostiliza estudantes estrangeiros e avacalha suas universidades. Tudo bem. Foi-se o tempo em que Ralph Della Cava corria pelo Ceará estudando a vida do Padre Cícero e Alfred Stepan estava no Rio pesquisando a política dos militares. Veio o novo tempo, com a intimidação das universidades americanas e o objetivo de silenciar um pensamento radical. Vá lá, mas o problema está em outro lugar.

O agronegócio brasileiro deve parte de sua prosperidade às vendas que faz para a China (perto de US$ 50 bilhões em 2024). Quando Della Cava e Stepan eram jovens pesquisadores, um dos grandes frigoríficos que operavam no Brasil era o Armour, com o nome do magnata que ajudou a revolucionar a indústria de alimentos dos Estados Unidos no século XIX, para onde Trump quer levar seu país e, junto, o “quintal”.

A prisão de Bukele funciona como um buraco negro

Nos Estados Unidos , a deportação paira sobre os migrantes irregulares como uma espada de Dâmocles. Mas agora essa ameaça ganhou uma nova dimensão: a possibilidade de ser enviado para uma prisão de segurança máxima em El Salvador.

Desde março de 2025, o governo Donald Trump expulsou 271 migrantes salvadorenhos e venezuelanos dos Estados Unidos para serem mantidos na megaprisão CECOT, em El Salvador. Washington alega que eles são membros de organizações criminosas, como o Tren de Aragua ou as Maras, mas não apresentou provas.


Enquanto isso, familiares e organizações de direitos humanos alertam que entre os deportados há pessoas inocentes e sem antecedentes criminais. O caso mais emblemático é o do salvadorenho Kilmar Ábrego García , expulso por "um erro administrativo".

Até o momento, o presidente dos EUA e seu colega salvadorenho, Nayib Bukele, se recusaram a libertá-lo e devolvê-lo aos Estados Unidos, ignorando a respectiva ordem da Suprema Corte daquele país. Donald Trump está até considerando enviar criminosos americanos para o CECOT.

Atualmente, não se sabe a identidade nem o paradeiro dos deportados, ou seja, se eles estão realmente detidos no CECOT ou em outra prisão salvadorenha, destaca Ana María Méndez Dardón, diretora para a América Central da organização norte-americana de direitos humanos WOLA.

"Sem as identidades, é difícil verificar se eles realmente têm antecedentes criminais. Por isso, em meio a esta grave crise de direitos humanos, oito congressistas americanos enviaram uma carta ao Secretário de Estado solicitando que ele informasse o Congresso sobre os detalhes das negociações".

O acordo nasceu após uma reunião privada entre o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o presidente Nayib Bukele, em fevereiro passado.

Irene Cuéllar, pesquisadora regional do Escritório das Américas da Anistia Internacional, fala até em "desaparecimentos forçados", já que "a comunicação entre os deportados e suas famílias e o acesso à assistência jurídica não foram garantidos".

"O acordo não foi tornado público, o que constitui uma grave violação dos princípios de transparência e responsabilização. No entanto, relatos da imprensa indicam que os Estados Unidos estão transferindo seis milhões de dólares ao governo salvadorenho para a prisão de um ano desses indivíduos", disse Cuéllar.

Em sua opinião, o pacto "abre a porta para a normalização da violência institucional como ferramenta de gestão migratória, política externa e controle social transnacional".

Além disso, continua o pesquisador de IA, "ele ataca diretamente pilares fundamentais de qualquer democracia: a presunção de inocência, o devido processo legal e a proibição absoluta de detenção arbitrária".

A expulsão de pessoas do território norte-americano para encarcerá-las em uma prisão centro-americana "é completamente ilegal e sem precedentes", observa a advogada salvadorenha Leonor Arteaga Rubio, diretora de programa da Fundação Devido Processo Legal (DPLF).

"Em uma democracia, o Tribunal deveria ordenar a libertação imediata desses indivíduos, mas em El Salvador não há separação de poderes; o Tribunal faz o que Bukele quer", enfatiza, acrescentando que "nenhuma democracia pode ou deve apoiar, muito menos imitar, tal modelo".

Arteaga Rubio prevê que o "acordo durará muito tempo". Tanto Trump quanto Bukele "querem enviar e sustentar a mensagem de que qualquer pessoa considerada inimiga de Trump pode ser enviada para a prisão de Bukele, que funciona como um buraco negro, uma nova Guantánamo, da qual não há escapatória. Nenhum juiz pode impedir isso; a lei naquela prisão é a de Bukele, com total apoio de Trump", afirma.

Roberto López Salazar, coordenador do Observatório Universitário de Direitos Humanos (OUDH) da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas, também enfatiza que o acordo carece de uma "explicação formal e pública" e destaca a complexidade do caso dos migrantes venezuelanos detidos no CECOT.

Na ausência de uma política correspondente, seu destino depende da "vontade política" das autoridades envolvidas, ele acredita. Por isso, López Salazar insiste na necessidade de exercer “pressão internacional para que o caso não fique numa espécie de limbo jurídico e termine na impunidade”.

"Enquanto não houver consequências políticas ou jurídicas reais, o risco de esse modelo se consolidar e ser exportado como uma política de controle migratório é cada vez maior", acrescenta Irene Cuéllar, da AI.

Embora Ana María Méndez Dardón, da WOLA, também peça "pressão internacional e diplomática" para "tornar as informações públicas e uma revisão caso a caso", ela duvida que o modelo do pacto entre Washington e San Salvador possa ser replicado em outros países com forte presença do crime organizado, como Honduras ou México.

"Seria impossível enfrentar esses grandes grupos de poder sob uma lógica de encarceramento em massa", observa ele, explicando que "o acesso a armas, o nível de penetração e infiltração dentro dos estados é muito maior do que o das Maras ou gangues".

Quem defende a democracia?

Estados Unidos e Brasil lidam neste momento com um dilema comum: como responder a diferentes graus de ameaça à democracia que aconteceram nos últimos anos e, por lá, se intensificam a cada dia no novo mandato de Donald Trump?

Enquanto aqui uma corrente política tenta convencer a sociedade de que o Judiciário exagera e persegue ao punir com rigor aquilo que a sua Corte mais alta, o Supremo Tribunal Federal, decidiu por ampla maioria ter sido uma tentativa de golpe de Estado, nos Estados Unidos as diferentes instituições começam a dar sinais de que perceberam quanto subestimaram a capacidade de destruição de todo o arcabouço democrático erigido nos últimos séculos por parte de uma oligarquia disposta a fazê-lo.

Vale a pena olhar para o que se passa em ritmo acelerado na maior potência do mundo para analisar com a frieza e a responsabilidade devidas as atuais tentativas de minimizar episódios como o 8 de Janeiro e a trama golpista urdida ainda na vigência do governo de Jair Bolsonaro.


Muito da sem-cerimônia com que Trump nomeou pessoas movidas por interesses particulares — muitas das quais notoriamente avessas às premissas básicas das áreas que foram designadas para comandar — e passou a investir simultaneamente contra os vários pilares sobre os quais a história democrática americana foi assentada se deve ao fato de que ele já tinha tentado fazer isso antes e não foi punido. Não só isso: foi ungido de volta, como se a maioria do eleitorado não só respaldasse ações impensáveis como a invasão ao Capitólio e a tentativa de não reconhecer o resultado das eleições de 2020, como pedisse mais.

Trump entendeu assim e está oferecendo muito mais. Se isso, por si só, já foi espantoso tratando-se de um país que sempre cantou em prosa e verso a solidez de sua democracia, a facilidade com que o presidente eleito novamente conseguiu amedrontar o Congresso, atemorizar as universidades a ponto de fazê-las sucumbir a censura e pressão financeira e desmontar agências, coalizões e departamentos, inclusive ligados à soberania nacional, faz qualquer filme distópico parecer fichinha.

Levou quase quatro meses para que personagens como Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez ou instituições como Harvard começassem a erguer a voz, dizer “não” ao arbítrio e arregaçar as mangas. E precisou que os ditames de Trump começassem a bater no bolso daqueles que o reconduziram à Casa Branca para que a população começasse a ir às ruas e a dizer que não aceitaria mais avanços autoritários.

E também nesse aspecto há paralelos a ser construídos com o Brasil. O STF e, mais específica e sistematicamente, o ministro Alexandre de Moraes foram aqueles que pararam Bolsonaro quando se tentava passar a boiada na legislação de proteção ambiental, negar vacina e tratamento a populações específicas na pandemia, colocar em xeque o sistema eleitoral consagrado havia décadas e até impedir eleitores de votar, numa última tentativa desesperada de influir na vontade popular.

Nada disso, nem a invasão à sede dos três Poderes, foi brincadeira. Punir os responsáveis por essa sucessão de atos e decisões não é perseguir donas de casa indefesas, mas proteger a democracia, um bem tão frágil que basta dar poder a um autocrata para que venha a ser rapidamente reprimido.

Em 2022 e 2023 o Brasil se mostrou mais maduro e equipado que os Estados Unidos em 2020 e 2021 para lidar com as turbas, as eleitas e as alistadas, que tentaram conspurcar a ordem constitucional. Mas os ventos de lá sopram aqui quando tributários do trumpismo enxergam em sua volta ao poder a deixa para tocar o terror da pressão para que os Poderes sucumbam e passem a relativizar as tentativas de golpe em vários atos que vivenciamos.

Que a reação tardia e insuficiente da sociedade americana seja também um sacode nos que estão aos poucos sendo levados na conversa mole de que tudo que vimos ao vivo e em cores não passou de delírio do Xandão.

Crise climática vai destruir o capitalismo

Além das milhões de vidas que já foram e serão destruídas pela crescente crise climática, também o capitalismo terá fim. O alerta não veio de um ecologista radical, mas de Gunther Thallinger, membro do conselho de uma das maiores seguradoras do mundo, a Allianz, e ex-CEO do seu braço de investimentos. A razão, segundo ele, é que o mundo se aproxima de níveis de temperatura tão elevados que as seguradoras não mais poderão oferecer coberturas para muitos riscos climáticos, o que tornará o setor financeiro incapaz de operar. A 3°C acima dos níveis pré-industriais, os danos serão tão grandes que nem os governos poderão fornecer resgates financeiros. Interessante lembrar que na ideologia econômica dominante há ampla condenação a intervenções governamentais, exceto quando os resgates são “necessários” para salvar empresas “grandes demais para quebrar”!


A gestão de riscos é o negócio central das seguradoras, e há anos elas levam a sério os perigos das mudanças climáticas. Os prejuízos decorrentes de extremos climáticos, nos últimos dez anos, somaram centenas de bilhões de dólares, e a tendência é aumentar! Uma grande seguradora britânica já estima em dois trilhões de dólares os prejuízos na última década!

Comentando a fala do Sr. Thallinger, um ex-secretário geral assistente da ONU para mudanças climáticas disse que o setor de seguros é o “canário na mina de carvão quando o assunto é mudanças climáticas”. A questão não é mais previsão: já é história, como exemplificado por muitas empresas que já não aceitam mais fazer seguros para casas na Califórnia, devido aos devastadores incêndios! A ausência de seguros afeta, além do setor imobiliário, a indústria, a agricultura, a infraestrutura, os transportes… Ou seja, uma crise de crédito que trava todos esses setores e leva a uma profunda crise civilizacional!

Sintetizando, ele diz: “A 3°C de aquecimento, danos climáticos não poderão ser segurados, ou cobertos pelos governos, ou passíveis de adaptação; isso significa não haverá mais hipotecas, empreendimentos imobiliários, nem investimentos de longo prazo nem estabilidade financeira. O setor financeiro como conhecemos deixará de existir e, com ele, o capitalismo como conhecemos cessará de ser viável”!

Não obstante avisos tão claros e incisivos, a maioria dos governos, parlamentares e empresários continua postergando ações mais firmes para acabar com a queima de combustíveis fósseis, razão primeira do desarranjo climático que vivemos e legaremos aos nossos filhos e netos.

Como disse Jared Diamond, que analisou colapsos de diversas civilizações, membros da elite, como se fosse grande vantagem, apostam que serão os últimos a morrer de fome!

Nessa crença banal, condenam a todos e a si próprios.

Nunca tive tanto medo pelo futuro do meu país

Tanta loucura acontece com o governo Trump todos os dias que algumas coisas absolutamente estranhas, mas incrivelmente reveladoras, se perdem no meio do barulho. Um exemplo recente foi a cena de 8 de abril na Casa Branca, onde, em meio à sua acirrada guerra comercial, nosso presidente decidiu que era o momento perfeito para assinar um decreto para impulsionar a mineração de carvão.

“Estamos trazendo de volta uma indústria que foi abandonada”, disse o presidente Trump, cercado por mineiros de carvão usando capacetes, membros de uma força de trabalho que caiu de 70.000 para cerca de 40.000 na última década, segundo a Reuters. “Vamos colocar os mineiros de volta ao trabalho.” Para completar, Trump acrescentou sobre esses mineiros : “Você poderia dar a eles uma cobertura na Quinta Avenida e um tipo diferente de emprego, e eles ficariam infelizes. Eles querem minerar carvão; é isso que eles amam fazer.”

É louvável que o presidente homenageie homens e mulheres que trabalham com as mãos. Mas quando ele destaca os mineiros de carvão para elogiar enquanto tenta zerar o desenvolvimento de empregos em tecnologias limpas de seu orçamento — em 2023, a indústria de energia eólica dos EUA empregava aproximadamente 130.000 trabalhadores, enquanto a indústria solar empregava 280.000 — isso sugere que Trump está preso a uma ideologia de direita que não reconhece empregos na indústria verde como empregos "reais". Como isso nos tornará mais fortes?

Todo esse governo Trump II é uma farsa cruel. Trump concorreu a outro mandato não porque tivesse a mínima ideia de como transformar os Estados Unidos para o século XXI. Ele concorreu para ficar longe da prisão e se vingar daqueles que, com provas concretas, tentaram responsabilizá-lo perante a lei. Duvido que ele já tenha dedicado cinco minutos a estudar a força de trabalho do futuro.

Ele então retornou à Casa Branca, com a cabeça ainda repleta de ideias dos anos 1970. Lá, lançou uma guerra comercial sem aliados e sem preparação séria — razão pela qual altera suas tarifas quase todos os dias — e sem compreender o quanto a economia global é hoje um ecossistema complexo no qual produtos são montados a partir de componentes de vários países. E então ele tem essa guerra travada por um secretário de comércio que acha que milhões de americanos estão morrendo de vontade de substituir trabalhadores chineses " aparafusando pequenos parafusos para fabricar iPhones ".

Mas essa farsa está prestes a atingir todos os americanos. Ao atacar nossos aliados mais próximos — Canadá, México, Japão, Coreia do Sul e União Europeia — e nossa maior rival, a China, ao mesmo tempo em que deixa claro que favorece a Rússia em detrimento da Ucrânia e prefere indústrias energéticas destruidoras do clima a indústrias voltadas para o futuro, que se dane o planeta, Trump está provocando uma grave perda de confiança global nos Estados Unidos.
Thomas L. Friedman 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Sonhos nos escombros

Enquanto bombas destroem escolas e futuros em Gaza, uma geração se apega determinadamente à tábua de salvação da educação em meio ao genocídio.

Uma geração inteira em Gaza foi roubada do seu direito a uma educação adequada pela guerra genocida que Israel trava contra a população civil há quase 17 meses consecutivos.

Bombardeios implacáveis ​​e ataques direcionados levaram à destruição total ou parcial de quase 500 instituições de ensino em toda a Faixa de Gaza. Escolas e universidades — antes refúgios seguros para o aprendizado — agora estão em ruínas, deixando os alunos sem onde estudar e sem uma normalidade para onde retornar.

Nessa realidade angustiante, o e-learning tornou-se o único caminho disponível para aqueles determinados a prosseguir seus estudos. Mas mesmo essa frágil linha de vida traz consigo desafios quase intransponíveis — os principais deles: deslocamento, instabilidade e a falta de acesso confiável à internet.


Sabreen, uma estudante de Literatura Inglesa de 22 anos da Universidade Al-Azhar, conseguiu concluir dois semestres on-line durante a guerra — uma experiência que ela descreve como "a pior de todas".

Somente neste semestre, Sabreen e sua família — sua mãe, cinco irmãs e dois irmãos — foram deslocados diversas vezes.

“Nos mudamos de Khan Yunis para Rafah e depois para Al-Nuseirat”, ela conta. “Como estudante, a parte mais difícil foi encontrar uma conexão de internet estável.”

Para acompanhar seus estudos, Sabreen caminhava longas distâncias a cada poucos dias, procurando desesperadamente por um sinal forte o suficiente para baixar suas palestras.

“Eu costumava salvar os vídeos para assisti-los mais tarde quando voltasse ao nosso abrigo”, disse ela.

Um momento permanece especialmente vívido em sua memória:

Lembro-me de ficar sentado na rua até as 20h, sob o rugido dos aviões de guerra israelenses, só para fazer um exame. Não tive escolha.

Quando tinha exames consecutivos, Sabreen deixava sua família para trás e ia para o abrigo de sua tia em Deir al-Balah na esperança de encontrar uma conexão um pouco mais estável.

“Foi um pouco mais fácil me inscrever para os exames lá”, disse ela.

Para Sabreen, a educação nunca foi apenas uma questão de notas ou diplomas, sempre foi uma paixão.

"Ao contrário de muitos estudantes, eu adorava ir à universidade. Adorava assistir às aulas e nunca perdia uma palestra", disse ela com um sorriso nostálgico.



É por isso que a adaptação ao e-learning foi especialmente difícil.

“No começo, recusei-me a me inscrever para as aulas online”, admitiu ela. “Eu dizia a mim mesma: vou esperar até a vida voltar ao normal. Depois, voltarei e receberei uma educação de verdade.”

Mas a guerra se arrastou. Os bombardeios não pararam. Os campi permaneceram fechados. E a realidade bateu à porta.

“Depois de muita pressão da minha mãe e da minha irmã mais velha, que me avisaram que as universidades poderiam ficar fechadas por anos, finalmente concordei em me registrar e continuar meus estudos.”

Apesar dos esforços heroicos de professores e alunos, a aprendizagem significativa continua sendo um sonho distante. O acesso à internet é escasso, as aulas são incompletas ou atrasadas, e os professores, muitos dos quais também estão deslocados ou em luto, lutam para ensinar nessas condições impossíveis.

"Estudantes e professores estão sofrendo o mesmo genocídio. Estamos todos juntos nessa, apenas tentando resistir."

Este ano deveria marcar a formatura de Sabreen. Ela sonhava em comemorar no pátio florido da Universidade Al-Azhar, usando sua tradicional túnica de formatura, cercada de amigos, posando para fotos e dançando de alegria.

Mas a realidade foi mais cruel.

Em novembro de 2023, a Universidade Al-Azhar, localizada no coração de Gaza, foi completamente destruída.

As bolsas de formatura estão destruídas. As fotos estão desbotadas. Amigos estão mortos, feridos ou desaparecidos. E Sabreen agora está em um abrigo, sem saber se o mundo algum dia lhe permitirá sonhar novamente.

Ela é uma entre milhares — mentes brilhantes enterradas sob os escombros, cujos futuros foram interrompidos indefinidamente pela guerra.


Infância Perdida das Crianças

Em violação a todas as leis internacionais e humanitárias, as crianças de Gaza estão enfrentando as infâncias mais duras e brutais imagináveis ​​— forçadas a carregar fardos muito mais pesados ​​do que deveriam suportar.

Já se foram os dias em que as famílias comparavam as conquistas dos filhos perguntando:

“Quem tirou as notas mais altas?”

“Quem foi o melhor da turma?”

“Quem nos trouxe orgulho?”

Agora, as únicas perguntas que importam são:

“Quem pode trazer água?”

“Quem pode coletar lenha?”

“Quem pode acender um fogo para cozinhar?”

Desde outubro de 2023, escolas foram reduzidas a escombros ou transformadas em abrigos superlotados para os deslocados. Crianças foram forçadas a trocar suas mochilas para sobreviver.

Em vez de aprender, brincar e sonhar, suas prioridades diárias agora giram em torno de encontrar comida, água e segurança.



“Sinto-me triste pela minha filha, Zaina, pelas tarefas que lhe foram impostas por causa da guerra”, disse sua mãe.

Quando a guerra começou, Zaina tinha quase seis anos e estava apenas começando sua jornada educacional.

"Ela estava tão animada para ir à escola. Sentia que tinha crescido", lembra a mãe. "Mas sua alegria não durou muito."

Agora, Zaina tem oito anos. Ela ainda não vivenciou um dia de escola de verdade. Seus sonhos de educação foram engolidos pela guerra e pelo deslocamento.

“Ela se acostumou a uma realidade sem escolas, sem professores e sem estrutura”, disse sua mãe. “Isso afetou sua disposição para aprender.”

Suas novas rotinas refletem essa normalização sombria. Quando solicitada a fazer trabalhos escolares ou participar de uma aula online, ela se recusa. Mas quando solicitada a buscar água, ela concorda entusiasticamente.

"Ela aproveita a oportunidade para sair e ver os amigos", disse a mãe. "As crianças perderam o senso de compromisso. A vida delas é um caos, e elas se adaptaram a isso."

Embora lamente a promessa perdida dos primeiros anos da filha, a mãe de Zaina ainda a considera sortuda.

"Ela não precisou enfrentar longas filas para assar pão ou enfrentar multidões para encher o tanque de água. O pai dela cuida disso, enquanto outras pessoas não têm pai", disse ela.

A guerra não destruiu apenas prédios. Ela destruiu mentes, futuros e o direito de uma geração de aprender, crescer e sonhar. Sejam estudantes universitários como Sabreen ou meninas como Zaina, as crianças e os jovens de Gaza estão sendo privados dos direitos mais básicos que definem uma infância e um futuro.

O que resta é um silêncio aterrorizante — de sonhos adiados, vozes silenciadas e futuros mantidos reféns.

Mas mesmo nos escombros, um lampejo de resistência persiste.

O desejo de aprender.

Crescer.

Estudo refuta ideia de que 'renda grátis' induza à preguiça

Uma renda básica universal – ou "dinheiro grátis" para todos, sem a necessidade de trabalhar – pode parecer um sonho irreal. Mas economistas têm refletido seriamente sobre as vantagens dessa ideia e desenvolvido modelos de como ela poderia funcionar. Figuras públicas que se declararam a favor do conceito vão de pensadores marxistas ao papa e ao bilionário Elon Musk.

Isso é algo que a Alemanha vem discutindo desde a década de 70. De certa forma, o país já oferece uma forma de renda básica para quem está desempregado.


Mas, diferentemente dos sistemas atuais de seguro-desemprego, a renda básica universal é concebida como um subsídio mensal pago sem quaisquer condições, independentemente da renda de outras fontes. Em outras palavras, as pessoas podem continuar trabalhando e ganhar mais dinheiro se quiserem.
Mas será que alguém continuaria trabalhando?

Essa é uma das grandes questões que pesquisadores alemães buscavam responder por meio de um estudo de longo prazo chamado Projeto-Piloto de Renda Básica – um dos estudos mais abrangentes do mundo para testar empiricamente o impacto da renda básica incondicional.

Os resultados foram agora divulgados, junto com uma série de documentários que acompanha alguns dos participantes do estudo, Der grosse Traum: Geld für alle (O grande sonho: dinheiro para todos), dirigido por Alexander Kleider.

Mais de 2 milhões de pessoas se inscreveram para participar do estudo, iniciado pela organização sem fins lucrativos alemã Mein Grundeinkommen (Minha renda básica) e conduzido por diferentes grupos de pesquisa, incluindo o Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW Berlin).

Entre os candidatos, 122 indivíduos foram selecionados aleatoriamente para receber 1,2 mil euros (R$ 7,9 mil) por mês durante três anos, a partir de junho de 2021. Um grupo de controle de 1.580 pessoas respondeu às mesmas perguntas da pesquisa ao longo do estudo, a fim de comparar como a renda afeta a vida dessas pessoas.

Para criar conjuntos de dados comparáveis, todas as pessoas no estudo tinham entre 21 e 40 anos, moravam sozinhas e tinham uma renda líquida mensal entre 1,1 mil euros e 2,6 mil euros.

A série documental acompanha cinco desses sortudos participantes, os pesquisadores que conduzem os estudos qualitativos e quantitativos, assim como os ativistas da associação Mein Grundeinkommen. A organização luta pela renda básica há mais de uma década, arrecadando doações por meio de financiamento coletivo e redistribuindo o dinheiro por meio de diferentes experimentos.

O primeiro episódio da série abre com Michael Bohmeyer, que fundou o Mein Grundeinkommen em 2014.

O diretor do documentário, Alexander Kleider, sentiu que o trabalho de Bohmeyer e o estudo de três anos eram material inspirador para um projeto de filme. "Sempre quis fazer um documentário sobre renda básica incondicional porque sou fascinado pelo tema e porque parecia que poderia ser uma resposta, uma espécie de terceira via entre o capitalismo e, digamos, o socialismo – uma abordagem completamente nova", disse Kleider. "Eu não queria fazer um filme de propaganda; eu buscava uma história pessoal. Em algum momento, conheci Michael Bohmeyer e descobri sobre o projeto-piloto, e então ficou evidente, é claro, que o que eles estavam fazendo é algo excepcional."

Até 2014, Bohmeyer foi diretor-geral de uma startup de sucesso. Ao deixar o cargo, permaneceu como um dos coproprietários passivos, por meio da qual recebia uma distribuição mensal de lucros de mil euros. Bohmeyer via isso como sua "renda básica pessoal" e acreditava firmemente que todos também deveriam ter acesso a uma mesada, o que o levou a se envolver profundamente nessa causa.

Enquanto isso, os cinco participantes retratados na série foram selecionados para representar diferentes tipos de personalidades e estilos de vida, sendo que dois deles moravam em Berlim e três em cidades alemãs menores.

Embora esse não fosse o objetivo principal do documentário, a série destaca o contraste entre o idealismo que motiva ativistas como Bohmeyer e as prioridades consumistas de alguns dos participantes. Afinal, eles de repente tinham 1,2 mil euros adicionais por mês à disposição, e alguns deles rapidamente gastaram esse dinheiro como se fossem os vencedores de um concurso de televisão.

Bohmeyer admite no documentário que "ficaria irritado" se o único resultado do experimento fosse que os participantes aumentam seu "consumo bruto, o que é irrefletido e, de alguma forma, serve como uma distração de outras questões".

Uma das principais descobertas do experimento de três anos é que as pessoas que recebiam a renda básica continuaram trabalhando em média 40 horas por semana, desfazendo o mito de que a renda básica tornaria as pessoas preguiçosas.

No entanto, um percentual significativamente maior de participantes do grupo de renda básica mudou de emprego em comparação com o grupo de controle. Saber que tinham um plano de reserva financeira provavelmente os ajudou a fazer a mudança.

Também foi constatado que mais pessoas no grupo de renda básica começaram a estudar, às vezes paralelamente ao trabalho.

As mudanças de emprego ocorreram principalmente nos primeiros 18 meses do período do estudo. Após o tempo em que receberam a renda básica, os beneficiários se descreveram como significativamente mais satisfeitos com sua situação de trabalho – independentemente de terem ou não mudado de ocupação.

Os participantes que receberam a renda básica sentiram que seu nível de satisfação com a vida aumentou, um dos aspectos que a psicóloga Susann Fiedler, chefe do Instituto de Cognição e Comportamento, considerou particularmente revelador.

Em 1º de maio, o Mein Grundeinkommen selecionará aleatoriamente outro grupo de pessoas que receberão renda básica por um ano. A organização está investindo mais de 500 mil euros, arrecadados de diferentes contribuintes que acreditam na ideia.

Mas como a renda básica incondicional poderia ser financiada na vida real?

A proposta é vista como uma redistribuição de riqueza por meio de impostos. Nos cálculos dos ativistas, os que mais ganham na Alemanha – 10% da população – acabariam contribuindo com parte de sua renda para todos os outros. Eles estimam que 83% da população teria, assim, acesso a mais dinheiro. Os 7% restantes, de renda média, não seriam afetados pelo esquema de redistribuição.

Em época de populismo crescente, os ativistas da renda básica acreditam que esta é uma forma de combater a insatisfação da população devido à desigualdade de renda.

Como eles apontam, o estudo demonstra claramente que a renda básica não leva as pessoas a pararem de trabalhar. "O que vemos é que a renda básica não é um retiro, mas um trampolim social. A renda básica empodera as pessoas", disse Klara Simon, atual líder da associação Mein Grundeinkommen, na coletiva de imprensa que apresentou os resultados. "E aqueles que conhecem esses resultados e ainda não estão fazendo nada estão se opondo ao potencial desta sociedade; contra o poder inovador que se encontra adormecido dentro dela; contra a igualdade de oportunidades e contra uma democracia mais forte."

Anistia a golpistas é salto no precipício

Minha simpatia por teorias do direito penal mínimo faz com que eu não seja o maior fã de penas de prisão. Sou, contudo, um defensor ardoroso de condenações. Autores de crimes graves precisam ser condenados especificamente pelos delitos que cometeram (o tipo e o tamanho da sanção são uma outra discussão), ou os efeitos dissuasórios do direito penal não se materializam.

Gosto de citar uma frase do cardeal de Richelieu que captura a essência do problema: "Fazer uma lei e não a mandar executar é autorizar a coisa que se quer proibir". Se parlamentares tiverem sucesso em aprovar uma anistia para os golpistas de 2022-23, estarão convidando futuros usurpadores a agir sempre que desgostarem dos resultados das urnas. Caberá à Justiça Eleitoral só organizar a fila das intentonas, a fim de que não ocorram duas ao mesmo tempo.


E a desmoralização da recente Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito (que entrou em vigor em 2021 para substituir a famigerada Lei de Segurança Nacional e foi ironicamente sancionada com as assinaturas de Jair Bolsonaro e dois de seus corréus) não seria o único efeito adverso da anistia.

O perdão seria contestado na Justiça e é enorme a probabilidade de o STF considerá-lo inconstitucional, o que colocaria o país à beira de uma crise entre Poderes, com Legislativo e Judiciário disputando para ver quem tem a última palavra.

Crises institucionais não são piores do que golpes, mas são bem ruins. O novo presidente da Câmara, Hugo Motta, fará bem se, valendo-se de suas prerrogativas legais de controle sobre a pauta, conseguir evitar que o Congresso pule nesse precipício.

Não duvido de que os deputados bolsonaristas estejam sendo pressionados por suas bases para aprovar a anistia, mas o quadro nacional é inteiramente outro. Como mostrou o Datafolha, 56% dos brasileiros são contra o perdão; os favoráveis são mais modestos 37%. Em relação especificamente a Bolsonaro, 52% acham que ele deveria ser preso.

Motta tem respaldo se quiser defender a democracia.

El Salvador é o 'gulag' de Donald Trump

George Sylvester Vierek era um imigrante alemão, cidadão dos EUA e agente nazi. A sua missão era clara: impedir que os EUA entrassem na Segunda Guerra Mundial e explorar o que os alemães designavam por “grãos de perturbação”. Viereck foi devidamente pago pela Alemanha nazi para espalhar a sua propaganda antissemita e isolacionista, segundo o mantra hitleriano: “A América para os americanos.”

O agente subornou para a sua causa congressistas e senadores, que faziam eco desta propaganda e a distribuíam usando os serviços postais do Congresso. Ao mesmo tempo, uma rede de agentes procurava as fissuras da sociedade norte-americana, para fazer com que os cidadãos desconfiassem uns dos outros e se odiassem, com base no princípio de que um país polarizado não seria capaz de “montar um esforço de guerra bem-sucedido na Europa”.


Rachel Maddow, em “América contra o Fascismo”, conta como, enquanto os nazis tentavam conquistar a Europa, agentes alemães operavam nos EUA, o governo de Hitler apoiava grupos de fascistas americanos que se armavam, membros do congresso facilitavam a propaganda das ideias nazis a uma escala nacional e como o Departamento de Justiça foi travado na sua tentativa de condenar os membros de uma conspiração que pretendia substituir a democracia por um regime autoritário baseado em Hitler.

Da conspiração faziam parte organizações com nomes como Camisas Prateadas, os Cruzados das Camisas Brancas, a comissão América Primeiro e entidades geridas por Vierek, como a comissão Fazer a Europa Pagar as Dívidas de Guerra.

Em comum tinham um discurso anticomunista e antissemita, a intenção de abolir os partidos e impor um sistema de partido único, abolir a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião ou a “proibição da prisão sem causa”. A interferência do presidente Truman, em defesa de congressistas amigos, fez abortar o julgamento.

Oitenta anos depois da libertação de Auschwitz, os EUA confrontam-se com esse pesadelo, mas instalado dentro do próprio estado. Num dos seus últimos artigos de opinião no The New York Times, o ensaísta Thomas L. Friedman, judeu americano, recorda que o presidente continua a ser o mesmo “homem que, em 2017, defendeu os nacionalistas brancos e neonazista que protestaram em Charlottesville, Vírginia, como se fossem ‘algumas pessoas muito boas’ e que o vice-presidente “também apoiou o partido alemão AfD, simpatizante do nazismo e banalizador do Holocausto, cujos líderes pediram aos alemães que parassem de expiar os crimes nazis”.

Vierek gostaria de saber que, 80 depois da derrota nazi, a Academia Naval dos EUA retirou da sua biblioteca livros sobre antirracismo, mas deixou na estante o Mein Kampf.

Friedman faz o paralelo entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu para concluir que ambos são aspirantes a autocratas, que cada um deles trabalha para minar o Estado de Direito e se afastam dos seus aliados democráticos tradicionais. “Cada um afirma a expansão territorial como um direito divino — ‘Do Golfo da América à Groelândia’ e ‘Da Cisjordânia a Gaza?’.” Ambos estão a abandonar a sua identidade enquanto regimes democráticos, em nome de um autoritarismo que exige fidelidade acéfala.

Trump e Netanyahu sentem-se impunes e sem obstáculos éticos ou judiciais, cuja independência recusam, como se constata pelas deportações de inocentes para El Salvador ou pelo assassinato de 15 paramédicos e socorristas no sul de Gaza.

Trump tem utilizado o antissemitismo como pretexto para expulsar imigrantes, por delitos de opinião, justificar um regime mais repressivo, atacar a independência das universidades e a liberdade de expressão. Na diabolização dos imigrantes, o presidente dos EUA acrescentou os hispânicos aos ativistas da causa palestiniana. Kilmar Abrego Garcia foi detido e enviado para uma prisão de alta segurança em El Salvador, apesar de não ter sido acusado ou condenado por qualquer crime, pela simples razão de que é de origem hispânica.

Embora o Supremo Tribunal tenha ordenado o seu regresso, a Administração Trump recusa-se a corrigir o erro. Garcia não será caso único: cerca de 90% dos deportados (imigrante salvadorenho mostra que, nos EUA de hoje, é possível prender seja quem for numa prisão num outro país e alegar que nenhum tribunal federal tem autoridade para corrigir esses erros. Trump já tem o seu “gulag”. Quem se segue: palestinos para a Somália e afro-americanos para a Libéria?

Escreve Rachel Madow “um grande fator de atração do fascismo, se mais não houvesse, era a sua apologia descomplexada da crueldade. Crueldade para com os outros, associada à hipersensibilidade a qualquer desfeita a eles próprios”.
Amílcar Correia