quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


Velha ordem em agonia

Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social: a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudanças; a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

E, enfim, o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política.

Manuel Castells. "Ruptura – A crise da democracia liberal"

A direita dispensa Bolsonaro

A direita não precisa mais de Bolsonaro. Ela lhe deve o mérito de tê-la tirado do armário, mas seus surtos transformaram-no num encosto. O patrono da cloroquina, que dizia ter “o meu Exército”, tornou-se um mau espírito encostado no velho conservadorismo nacional.

Afinal, uma direita que teve Roberto Campos, Eugênio Gudin e Castelo Branco terá perdido muito em qualidade, mas com Bolsonaro ganhou em quantidade, elegendo um presidente e grandes bancadas parlamentares. Quem tem Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado governando São Paulo e Goiás produziu quadros qualificados para novos voos. Esse é o caminho da lógica, mas a direita brasileira padece de um oportunismo suicida.


Em 1959, na União Democrática Nacional, berço do conservadorismo, havia um candidato à Presidência. Era Juracy Magalhães, tenente de 1930, ex-governador da Bahia e primeiro presidente da Petrobras. O partido resolveu atrelar-se à candidatura de Jânio Quadros. Um demagogo de carreira fulgurante, sem qualquer vínculo partidário, capaz de levá-la ao poder.

Segundo a piada, Jânio era “a UDN de porre”. Deu no que deu.

Anos depois, já na ditadura, o conservadorismo emplacou o marechal Castelo Branco, um reformador austero. O oportunismo suicida levou a base conservadora do regime a aninhar-se na anarquia militar e na candidatura do ministro da Guerra, general Costa e Silva. Deu no que deu, o Ato Institucional nº 5 e a crise decorrente da isquemia cerebral que o incapacitou em agosto de 1969.

Essa direita que come com garfo e faca achou em Jair Bolsonaro sua oportunidade. A eleição de 2018 foi um arrastão conservador, e o ex-capitão acabou no Palácio do Planalto muito mais pelos erros do PT que pelas suas qualidades.

O último surto de Bolsonaro, contra uma tornozeleira, espantou até mesmo seus aliados. Espanto tardio diante de um personagem que duvidava das vacinas durante uma epidemia que matou 700 mil pessoas e acreditava nas pesquisas de uma empresa americana que tentava transmitir eletricidade sem o uso de fios. (Na cena em que um finório vendeu a Bolsonaro essa maravilhosa ideia, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, tomou distância.)

O ex-capitão que se lembra do que fez em 1987, desenhando um gráfico pueril de explosão de uma adutora e sendo exonerado de culpa pelo Superior Tribunal Militar, adquiriu incompreensão do que são as instituições em geral e o Poder Judiciário em particular. Chamou um ministro do Supremo de “canalha”. Anunciou que não cumpriria decisões de tribunais. Flertou com o golpismo da trama contra a posse de Lula.

Será árdua a tarefa de livrar-se do encosto sem ofendê-lo. Os filhos de Bolsonaro gastam mais tempo condenando Tarcísio do que Lula e seu governo. A UDN conseguiu se livrar do encosto de Jânio, e os comandantes militares da ditadura livraram-se do encosto de Costa e Silva com sua saída da cena, remetendo seu principal conselheiro militar, o general Jayme Portela, para um comando de segunda antes de mandá-lo para a reserva.

O que será grave para nos tirar da apatia coletiva?

Começo pelo Brasil, porque é impossível não começar por ele. No dia 28 de outubro, quando 121 pessoas foram mortas em uma ação policial malsucedida comandada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, entre elas, quatro policiais trabalhando a seu serviço, na mais letal operação policial da história do país, pensei que o Brasil fosse parar. Imaginei que haveria uma grande greve geral, que a desumanização profunda das vítimas e de suas famílias, em especial de suas mães, faria com que até o mais sem coração dos homens corasse — e agisse.

Não aconteceu. Em vez disso, uma parte expressiva da população celebrou a operação, o saldo negativo e violento foi rapidamente diluído por uma cobertura midiática que priorizou a narrativa oficial, a ponto de um desavisado poder se perguntar se, no Brasil, há pena de morte sem necessidade de julgamento prévio ou mesmo identificação das vítimas — para além da cor da pele ou do local de nascimento. A execução e a gestão da tragédia narrada como guerra interna se mostraram eficaz na estratégia de comunicação política de Cláudio Castro, que, com isso, acenou para a agenda da extrema-direita interna e internacional, ganhou visibilidade e redirecionou a pauta brasileira.


Não foi a primeira vez que o limite ético no Brasil foi muito ultrapassado pelas mãos do Estado nos últimos 525 anos. A bem da verdade, essa é a regra mais do que a exceção. E, ainda assim, seguimos naturalizando a violência estatal como se fosse um custo aceitável da vida pública. “Naturalizando”, digo, sem excluir os posts revoltados nas redes sociais ou as vozes ativistas relevantes, as manifestações importantes. Estou falando da massa. Em algum momento a população irá se revoltar por ter seus cidadãos assassinados pelo Estado que deveria protegê-los? Ou, antes disso, em algum momento irá reconhecer essas pessoas como seus concidadãos, seus iguais?

Em Portugal, no dia 10 de novembro, um menino brasileiro de 9 anos teve as pontas de dois dedos decepadas por outros alunos de idade semelhante na escola em que estudava, no Distrito de Viseu. Criança torturando criança. Onde será que aprenderam tamanha desumanização?

Nas redes sociais, essa notícia compartilha espaço com gatos, memes, filhos de amigos, a Tempestade Cláudia, a COP30 e as ações e consequências das guerras recentes e crônicas na Palestina e no Sudão. Levanto o pescoço do celular, olho para o vagão de metrô ao meu redor e vejo todos os outros rostos em outros celulares. O real parece perder densidade, achatado no virtual, enquanto este oferece a promessa de um mundo mais suportável — ou pelo menos, mais editável. Até a revolta aqui é fácil.

Esse movimento permanente entre horror e distração produz um verdadeiro cansaço moral, um estado de hiperconsumo de tragédia em que já não conseguimos distinguir o que exige ação do que apenas exige um scroll. A desumanização também é cognitiva.

Então, será que já não somos humanos? Ou que essa “humanidade” sempre foi tão pouco? Ou será que estamos apenas treinados para tolerar o intolerável? Fico me perguntando o que mais é preciso acontecer para que a gente pare. Para que a história chegue a um ponto em que nós digamos: não, aqui é o limite. Não trabalharemos mais para o mundo em ruínas.

Nós temos tanta criatividade para criar grandes feitos. Por que não temos para parar a barbárie? Talvez porque, antes de criá-la, precisaríamos primeiro reconhecê-la, senti-la e arcar com as consequências. Quanto do intolerável ainda estamos dispostos a aceitar?

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Pela dignidade comum

É inadmissível vivermos no século XXI, em países desenvolvidos, com excedente econômico, onde há pessoas a viver na rua. Hoje, educamos os nossos filhos para não olharem, mas, se a sociedade ainda reage quando vê uma criança na rua, também devia reagir de igual forma quando é um adulto. As pessoas convenceram-se de que é uma inevitabilidade e desistiram do lado humanista.

Não pode haver dignidade na nossa vida sem haver dignidade comum.

Américo Nave, cofundador da Crescer 

Água sacrificada para extrair matérias-primas essenciais

"Esta é a primeira vez que venho a esta conferência de uma região onde se encontram matérias-primas críticas. A ideia é bater às portas e dizer: ei, do que vocês estão falando? Por que falam de uma transição energética justa se o sacrifício é nosso? Nosso território fica na Puna, um lugar com pouquíssima água. E para extrair lítio, eles precisam de muita água. A contaminação dessa água será a nossa morte, tanto física quanto espiritual", disse Yber Sarapura, líder das comunidades da Bacia de Salinas Grandes em Jujuy, Argentina, durante a 12ª Semana das Matérias-Primas Críticas , realizada em Bruxelas entre 17 e 20 de novembro.

Yber Sarapura é um dos representantes de comunidades indígenas do sul global presente no encontro internacional, organizado pela Comissão Europeia , que reúne empresas, academia, sociedade civil, pesquisa e política em torno das matérias-primas críticas (MPC).

Níquel, cobre, manganês, cobalto, lítio e elementos de terras raras encabeçam a lista dessas matérias-primas, que são críticas devido à sua importância estratégica e econômica, bem como aos riscos em suas cadeias de suprimentos. Desde 2023, quando foi publicada a quinta versão da lista de matérias-primas críticas, Bruxelas firmou acordos com países ricos nesses materiais — Brasil, Chile, Argentina e Peru — para sua extração, visando garantir a transição energética. E agora, esses acordos também se estendem ao fornecimento para a indústria de defesa .

Vinte e três por cento dos elementos de terras raras (compostos por 17 minerais) estão no Brasil. Cinquenta e quatro por cento do lítio está na América do Sul. E as maiores reservas de cobre estão no Chile e no Peru, atualmente o primeiro e o segundo maiores exportadores mundiais.

Por outro lado, a UE precisará de 30% mais cobre e 60% mais lítio até 2050 (a partir de 2020). O interesse em parcerias é evidente. No entanto, é importante lembrar que o rio Trapiche secou em Catamarca; em Cajamarca, os rios apresentam cores diferentes devido aos resíduos minerais em seus leitos; e 1,3 quilômetros quadrados ao redor do Rio Blanco e da geleira Rinconada secaram.


Esses dados — provenientes de relatórios de organizações como a argentina FARN, a peruana CoperAcción e a Fundação Heinrich Böll — lançam uma luz diferente sobre essa cruzada europeia moderna pelas matérias-primas necessárias para supostamente alcançar um mundo mais verde.

No entanto, as comunidades locais e os ambientalistas estão se concentrando em um elemento que recebeu pouca atenção na conferência de Bruxelas: a água e o impacto de sua escassez na vida. Porque, entretanto, já é sabido: apesar de toda a inovação tecnológica em sua extração, a indústria de mineração requer água — muita água.

Vale ressaltar que representantes de instituições europeias afirmam o respeito aos direitos humanos, os mecanismos voluntários de diligência devida, o compromisso com a sustentabilidade e o progresso na indústria da reciclagem. Ao mesmo tempo, consideram essas matérias-primas essenciais, que em sua maioria se encontram fora da Europa, indispensáveis ​​para a independência energética e a competitividade europeia na atual corrida geopolítica.

"Para quem esses minerais são essenciais? Para a indústria de mobilidade pessoal?", questiona Laura Castillo, pesquisadora da FARN. "Para as populações nos territórios onde o lítio é encontrado, a situação crítica é a dos pântanos andinos, zonas áridas já sob pressão das mudanças climáticas. Chove muito pouco e a quantidade de água perdida por evaporação é maior do que a que entra no sistema", afirma.

Além de questionar o hiperconsumo das sociedades do "norte global", o especialista da FARN destaca a necessidade de aplicar ferramentas já existentes, como a avaliação ambiental estratégica, para planejar o território e isentar ecossistemas sensíveis da extração.

Nesse sentido, segundo fontes oficiais, o atual governo chileno tomou medidas para proteger 30% dos salares do país, onde não haverá extração de lítio. Além disso, no Chile, o lítio não é um mineral sujeito a concessão; o presidente concede o direito de extraí-lo por meio de licitação pública, após consulta às comunidades afetadas.

Representantes da Coligação Europeia de Matérias-Primas, uma plataforma de ONGs europeias que lidam com os impactos de projetos extrativistas, estão apresentando uma proposta semelhante a Bruxelas: que sejam determinadas "zonas proibidas", que seja realizada uma consulta prévia e que, em caso de consentimento, ou "licença social", seja acordada a partilha dos lucros.
Medo devido a experiências passadas

"O medo da escassez de água é o principal fator de oposição e de conflitos com a mineração", explica Johanna Sydow, chefe da divisão de política ambiental internacional da Fundação Heinrich Böll.

"Por um lado, são feitos estudos de impacto para cada projeto, sem levar em conta o valor cumulativo da escassez de água. Por outro lado, os governos continuam a baixar os padrões de proteção ambiental, deixando as pessoas desprotegidas. No Peru, na Sérvia e em Gana, mesmo recebendo água da mineradora, as pessoas têm que beber água contaminada", destaca Johanna Sydow.

Assim, em meio a painéis e debates sobre alta tecnologia para recuperação de lítio de baterias, mobilidade com emissão zero, tecnologia aeroespacial e visões de um futuro sustentável, Iber Sarapura apresenta o caso de Salinas Grandes e da Lagoa de Guayatayoc.

"É difícil dialogar com as mineradoras. Elas usam qualquer foto nossa como pré-consulta. Não usam nosso documento KachiYupi, 'as pegadas de sal', para nos consultar", aponta o líder comunitário. Ofereceram realocação ou outros benefícios? "Não queremos dinheiro, nem terras. Este território é nosso desde antes do Estado argentino, que busca qualquer forma de se livrar de nós. Nossa resposta é não", conclui.

Reflexões fáceis, problemas encardidos

Sabe o leitor que, na vida pública, existem indagações fáceis de responder, indagações difíceis e indagações rigorosamente irrespondíveis.

Hoje, eu gostaria de falar sobre uma que tem aparecido nas três categorias. Refiro-me à questão dos partidos políticos. Suponhamos que você vá a Brasília e pergunta a um indivíduo qualquer, escolhido a esmo: o que você entende por partido político? O mais provável é que ele nada responda ou então diga algo assim: partido é um grupo de pessoas que comungam certos valores e se reúnem para tentar realizálos, disputando eleições. Eu retrucaria: um grupo de pessoas que comungam certos valores? De onde você tirou isso? Aqui em Brasília é que não foi, não é?


Aí me dirijo a um segundo indivíduo, ali mesmo na Esplanada dos Ministérios. O que você entende por partido político? E ele: “Ora, só pode ser um grupo de sujeitos que fica à espreita, esperando a chance de destruir o País. Veja o caso da Argentina. Políticos, militares, trotskistas, anarquistas, achavam que o país era bom demais para o que os argentinos mereciam. Em vez de vários partidos, vamos trazer o Perón de volta da Espanha, ele vem com Isabelita, sua segunda mulher e a coloca como vice-presidente, por precaução, porque já está um pouco velho. Aí, o que aconteceu? Ora, na hora H, Perón morreu, ela foi posta em prisão domiciliar, todos quebraram o pau e pronto: não têm mais país, mas também não têm essa coisa abominável a que chamam partidos”.

A essa altura, resolvi dirigir-me a um senhor bem aparecido, com cara de cavalheiro, obviamente uma pessoa letrada. Fiz-lhe a pergunta e ele, com um sorriso de felicidade por ter sido inquirido, respondeu-me: “Ora, isso é comigo mesmo”.

E prosseguiu: “Partidos são a engrenagem fundamental da democracia representativa. Sem partidos, não há democracia. E a recíproca é verdadeira: sem democracia não há partidos, porque ditaduras não os toleram”.

Formidável, respondi a ele, mas o que, exatamente, é um partido?

Respondeu-me o cavalheiro que iríamos muito longe se fôssemos discorrer sobre outros países. Fiquemos no Brasil. Desde logo, o partido tem de ter caráter nacional, ou seja, não admitimos partidos regionais. Uma vez constituídos, têm direito a financiamento (recursos do Fundo Partidário) e a acesso gratuito ao rádio e à TV para divulgar seus programas, pois não é concebível que nosso imenso eleitorado compareça às urnas desprovido de informações idôneas sobre as alternativas entre as quais terá o direito e o dever de fazer sua escolha. E, naturalmente, a Constituição não estabelece restrições quantitativas quanto ao número de partidos.

Ótimo, ótimo, lhe respondi, mas continuo sem uma ideia exata sobre o que é, de fato, um partido. “Ora – respondeu-me – é muito simples. Primeiro, o grupo interessado em formar um partido precisa registrar sua intenção no Cartório de Pessoas Jurídicas do Distrito Federal. Observe que aí ele já começa a existir. Depois o referido grupo deve comparecer ao Tribunal Superior Eleitoral portando uma senhora maçaroca. Um catatau do qual haverá de constar os estatutos e o programa do partido, bem como algumas centenas de páginas com assinaturas de eleitores de vários Estados, sendo essa a prova do indispensável “caráter nacional” da recém-criada agremiação”.

E daí em diante, o que acontece? “Ora”, respondeu-me o interlocutor com a mesma distinção que demonstrara até esse ponto. “Daí em diante, desde que conquiste o desejado número de assentos parlamentares, o partido contribui para o bem do País na exata proporção da qualidade de seus membros. Tivemos em nossa história partidos que fizeram coisas admiráveis. É verdade que esses, nos dias de hoje, rarearam. Ocupam-se principalmente em inserir na legislação os chamados privilégios corporativistas, quero dizer, normas legais para a proteção e a progressão profissional de pequenos grupos, que os recompensam com apoio eleitoral; isso, naturalmente, nos níveis nacional, estadual e municipal. Dado que a vida política edulcora o coração das pessoas, muitos também se esforçam para arranjar empregos para amigos e parentes. E, sobretudo, trabalham com afinco para influenciar o Orçamento federal anual, pois, afinal de contas, nada há de mais execrável que a mania da chamada “área econômica” de querer equilibrar a arrecadação e o gasto.

A organização jurídica, como veem, é impecável. Nada escapou à atenção da Constituição de 1988 e à subsequente legislação ordinária. O único senão é que continuamos aprisionados na chamada “armadilha do baixo crescimento”. Incapaz de crescer pelo menos dois e meio por cento ao ano, levaremos uma geração inteira para dobrar nossa já pífia renda anual per capita. Com Lula na Presidência, pleiteando a reeleição e uma entidade chamada Centrão funcionando como a estufa que cedo ou tarde nos trará uma plêiade de estadistas, o distinto cavalheiro que tão bem me atendeu em Brasília terá de me explicar melhor como sobrevive um país desprovido de verdadeiros partidos políticos.

Aznar, o oráculo

Podemos dormir descansados, o aquecimento global não existe, é um invento malicioso dos ecologistas na linha estratégica da sua “ideologia em deriva totalitária”, consoante a definiu o implacável observador da política planetária e dos fenómenos do universo que é José María Aznar. Não saberíamos como viver sem este homem. Não importa que qualquer dia comecem a nascer flores no Árctico, não importa que os glaciares da Patagónia se reduzam de cada vez que alguém suspira fazendo aumentar a temperatura ambiente uma milionésima de grau, não importa que a Gronelândia tenha perdido uma parte importante do seu território, não importa a seca, não importam as inundações que tudo arrasam e tantas vidas levam consigo, não importa a igualização cada vez mais evidente das estações do ano, nada disto importa se o emérito sábio José María vem negar a existência do aquecimento global, baseando-se nas peregrinas páginas de um livro do presidente checo Vaclav Klaus que o próprio Aznar, em uma bonita atitude de solidariedade científica e institucional, apresentará em breve. Já o estamos a ouvir. No entanto, uma dúvida muito séria nos atormenta e que é altura de expender à consideração do leitor. Onde estará a origem, o manancial, a fonte desta sistemática atitude negacionista? Terá resultado de um ovo dialéctico deposto por Aznar no útero do Partido Popular quando foi seu amo e senhor? Quando Rajoy, com aquela composta seriedade que o caracteriza, nos informou de que um seu primo catedrático, parece que de física, lhe havia dito que isso do aquecimento climático era uma treta, tão ousada afirmação foi apenas o fruto de uma imaginação celta sobreaquecida que não havia sabido compreender o que lhe estava a ser explicado, ou, para tornar ao ovo dialéctico, é isso uma doutrina, uma regra, um princípio exarado em letra pequena na cartilha do Partido Popular, caso em que, se Rajoy teria sido somente o repetidor infeliz da palavra do primo catedrático, já o oráculo em que o seu ex-chefe se transformou não quis perder a oportunidade de marcar uma vez mais a pauta ao gentio ignaro?

Não me resta muito mais espaço, mas talvez ainda caiba nele um breve apelo ao senso comum. Sendo certo que o planeta em que vivemos já passou por seis ou sete eras glaciais, não estaremos nós no limiar de outra dessas eras? Não será que a coincidência entre tal possibilidade e as contínuas acções operadas pelo ser humano contra o meio ambiente se parece muito àqueles casos, tão comuns, em que uma doença esconde outra doença? Pensem nisto, por favor. Na próxima era glacial, ou nesta que já está principiando, o gelo cobrirá Paris. Tranquilizemo-nos, não será para amanhã. Mas temos, pelo menos, um dever para hoje: não ajudemos a era glacial que aí vem. E, recordem, Aznar é um mero episódio. Não se assustem.

José Saramago, "O caderno"

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Bolsonaro, o farsante de sempre

No início da madrugada do sábado, ao ser perguntado por uma agente da Justiça porque violara a tornozeleira que o prendia desde agosto último, Bolsonaro, em voz baixa, mas perfeitamente audível, respondeu que o fez por “curiosidade”.

Naquele mesmo dia, levado preso para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, o exame de corpo de delito ao qual se submeteu indicou que o estado de saúde de Bolsonaro era bom. Não havia crise de soluço, nem ele vomitava ou estava estressado.

Na tarde de ontem, em audiência de custódia, Bolsonaro, orientado por seus advogados de defesa, disse que a tentativa de avariar a tornozeleira teve a ver com “uma certa paranoia”, provavelmente relacionada com o uso de medicamentos.


Um surto de confusão mental provocado por remédios torna impossível que uma pessoa, carente de habilidade no ofício, use solda elétrica de modo eficaz para romper uma tornozeleira eletrônica sem causar danos à própria pele. Elementar.

Ninguém é obrigado a produzir provas contra si, diz a lei. Pode mentir à vontade, bem como seus advogados. Bolsonaro domina a arte de mentir como poucos, do contrário não teria chegado onde chegou. Cabe à Justiça provar que ele mentiu. Não será difícil.

Desconfio que nós, jornalistas, em breve, sentiremos falta de Bolsonaro. Adeus à likes fáceis a propósito de qualquer coisa que ele diga por mais absurdo que soe. O jornalismo político fast food não desaparecerá, mas perderá parte da atração que exerce.

As pessoas preferem escutar ou ler mentiras a se verem confrontadas com verdades. Principalmente mentiras que reforcem suas convicções. Mentiras estimulam a imaginação, dão ensejo a debates, desatam polêmicas e muitas vezes divertem.

Quanto custa ao Estado brasileiro manter Bolsonaro preso em sua casa e impedido de fugir? Logo ele que já planejou fugir no mínimo duas vezes. Sai mais barato transferi-lo para outro lugar onde a vigilância é permanente, coletiva, e não incomoda a vizinhança.

Se a lei é de fato para todos, isso seria mais justo, mais igualitário. Bolsonaro é um bandido como outro qualquer. Foi julgado, condenado e aguarda o início do cumprimento de sua pena. Quis destruir a democracia. Cometeu o mais infame dos crimes.

Que pague por isso, portanto. Merece pagar. Se outro tratamento lhe fosse reservado equivaleria a abrir as portas para a passagem de novas manadas de golpistas. A história do Brasil está marcada por uma sucessão de golpes seguidos de torturas e de mortes.

O mais bem-sucedido dos golpes resultou numa ditadura que durou 21 anos. Estima-se que cerca de 20 mil pessoas foram torturadas e 434 mortas ou cujos corpos desapareceram. Os criminosos nunca foram punidos, mas sim anistiados.

Ditadura nunca mais, tampouco anistia para os seus responsáveis. Prisão domiciliar só para os que correm risco de morte. Não é o caso de Bolsonaro, um comprovado farsante.
Ricardo Noblat

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O Pedro, o lobo e a Inteligência Artificial

A encomenda ao Copilot, ferramenta da Inteligência Artificial, era simples: quero um poema romântico sobre a liberdade e a IA nos próximos anos.

A resposta chegou de pronto:

“No sopro elétrico do tempo que avança, ergue-se a promessa, frágil esperança. Circuitos sonham, frios, mas tão profundos, tecendo destinos, moldando os mundos.

Democracia, flor de voz e escolha, dança ao vento que a tecnologia acolha. Mas quem guia o código, quem guarda a razão, quando a máquina sussurra ao coração?

Se o amor é humano, feito de imperfeição, pode a IA aprender a compaixão? Ou será que, no cálculo exato e preciso, perdemos o riso, o toque, o improviso?

Que os próximos cinquenta anos sejam luz, onde a ética, como estrela, nos conduz. Que a inteligência não roube, mas inspire, um mundo onde a liberdade nunca expire.”

Circuitos tecem destino? Perdemos “o riso, o toque, o improviso”?


Apesar do pobre versejar, segura de si, a IA não se esconde. O ChatGPT admite que em 50 anos “a tecnologia concentre o poder: Estados e megacorporações controlam dados, comunicação e decisões políticas” e a “opinião pública é gerida por sistemas de algoritmos de propaganda”.

Verdade que este é o cenário mais desfavorável que o ChatGPT admite, pois a “tendência provável” é que “as democracias formais continuem a existir, mas com forte influência tecnológica e económica”. Note-se o “forte”.

Se houvesse dúvidas sobre a ameaça que já por cá anda, estas confissões serviriam de sobreaviso.

Há dias, um apoiante de Noronha Lopes à presidência do Benfica contava a um defensor de Rui Costa que tinha estado certo da vitória, por só lhe terem chegado boas notícias, e muitas, sobre o seu apoiado. Riu-se o interlocutor: a ele só chegaram novas sobre o favoritismo de Rui Costa.

Já passaram anos suficientes para se saber que os algoritmos não mostram a verdade, exibem o que sabem que gostamos de ler. É experimentar perguntar ao Google se as facas de cerâmica são boas e ver como nos dias seguintes se multiplicam anúncios e propostas de desconto sobre estes utensílios.

Todas as novas tecnologias assustam. No Paleolítico, quando os nossos antepassados começaram a usar o fogo (a Wikipedia assegura que foi há 1,7 milhões de anos, mas não consegui confirmar nas velhas enciclopédias de papel e muitos volumes) que medo devem ter sentido daquelas chamas. A fissão nuclear, que aterrorizou o mundo em Hiroshima e Nagasaki, também é hoje essencial na medicina e na engenharia. Sabe-se: o que o conhecimento traz de novo pode ter bom ou mau uso.

O perigo acrescido da IA é que nos manipula, seleciona os dados e condiciona o pensamento. Nenhum dos anteriores avanços tecnológicos ambicionou ultrapassar a Humanidade. É este o perigo novo.

“E o mais preocupante é que, à medida que estes modelos se tornam mais fluentes, mais acessíveis e mais integrados nos nossos hábitos quotidianos, torna-se cada vez mais improvável desconfiar”, alerta Adolfo Mesquita Nunes, no seu Algoritmocracia.

E quanto mais se usam, mais dados obtêm, alimentando-se vorazmente. Como a mitológica Hidra, por cada cabeça cortada, crescem duas.

Pior do que estar mal informado é ser enganado. Acreditar na verdade única quase sempre leva à maior das mentiras.

“A mentira já não gera vergonha: gera cliques, partilhas, convites para programas. O que antes destruía reputações, agora rende dividendos políticos”, escreveu Mesquita Nunes. Como diz, a informação sempre teve viés. A diferença – grande – é que sabíamos de onde vinha o enviesamento e sabíamos onde procurar o contraponto. Sabíamos quem responsabilizar e podíamos fazê-lo. Agora desconhecemos o que está por detrás do ecrã juntando letras e criando ilusões.

Daniel Innerarity, em O Novo Espaço Público, já em 2010, dizia que “sem a adequada representação, isto é, sem o trabalho de mediação institucional [de jornalistas, entre outros] que concretiza e integra o diverso num espaço público, a sociedade encontra grandes dificuldades para se ver, para decifrar e tornar operativa a multiplicidade”.

O problema que os algoritmos trouxeram é que, “como em tantas coisas, também à política se aplica o aviso de que a profusão de dados não substitui a necessidade de formar uma ideia geral e de se organizar coerentemente”, reforça o mesmo autor. E o algoritmo dá-nos sempre mais do mesmo.

Daqui nascem bolhas, discute-se e lê-se sobre o que se concorda, estreita-se o conhecimento, conversa-se em pequenas comunidades que se autoalimentam. Como o apoiante de Noronha Lopes…

Mesquita Nunes propõe a regulação dos algoritmos. O problema da regulação é que, por norma, quando é aceite, já minou o terreno. Vejam-se os tratados para o desarmamento nuclear. Quando conseguiram fixar uma meta, já havia ogivas mais do que suficientes para destruir toda a vida humana.

Karen Hao, uma das pioneiras da IA e agora feroz adversária das grandes tecnológicas, em Empire of AI, veio alertar para que “a forma de dissolver o império [das grandes tecnológicas] exige uma redistribuição dos seus poderes”, através da criação de uma rede de investigadores independentes das corporações.

Agora, “qualquer gigante tecnológico está na corrida para deixar os adversários fora de prova, em prol de um novo desenvolvimento da IA”. Karen Hao quer dividir, para reinar.

Yuval Noah Harari, sem deixar de parte as questões políticas e cívicas, alerta em Nexus que “IA e automação serão um desafio ainda maior para os países em desenvolvimento”. Sem capacidade para entrarem na corrida, vão ver os produtos que tradicionalmente fabricavam passarem a ser produzidos por autómatos nos países em que são consumidos. A mão de obra barata daqueles países será mais cara do que os robots. “O que lhes acontecerá quando for mais barato produzir têxteis na Europa?”, interroga.

Mesquita Nunes não se fica pela necessidade de regular, como a Europa tem tibiamente tentado. Ele aborda a questão da educação e do ensino das novas gerações: “A primeira condição é simples: reconhecer que existe. Não como um detalhe técnico, não como uma curiosidade de especialistas, mas como um problema central para as democracias liberais.”

Voltemos às previsões do Copilot: daqui por 50 anos, “a IA não será apenas uma ferramenta tecnológica; será um fator estruturante da política global. Sem governança robusta e cooperação internacional, os riscos de erosão democrática são elevados. Por outro lado, se bem regulada, a IA pode ser um catalisador para sistemas mais transparentes, inclusivos e resilientes”. Fica o alerta. Alguém acredita que esta seja uma bandeira dos que influenciam a sociedade?

Harari, que não dá tréguas à IA, nas suas 21 Lições Para o Século XXI, defende a teoria dos quatro C, com origem em alguns pedagogos: pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. “As escolas devem dar menos atenção às aptidões técnicas e colocar a ênfase nas aptidões de vida polivalente. Acima de tudo estará a capacidade de lidar com a mudança.”

Eis-nos chegados ao que dificilmente se fará: perceber que, mais do que ensinar que um ácido e uma base dão um sal e água, ou mesmo quem era o pai de D. Sancho I, o núcleo do conhecimento terá de caminhar para o ensino das novas tecnologias, dos seus proveitos e dos seus perigos. A questão não é proibir telemóveis, é ensinar a usá-los, é explicar truques e técnicas que nos defendam das artimanhas. É fazer destas matérias verdadeiras e exigentes áreas de ensino.

Há coisas simples de explicar: numa fotografia gerada pela IA é usual que as sombras não batam certo, assim como a iluminação dos objetos. Ensinar a ser crítico, com a importância e o empenho com que se ensina a ler.

Ou corremos o risco de termos académicos a gritar que vem aí o lobo, quando já está no meio do rebanho e só não queremos vê-lo.

Chegamos sempre tarde.

Assassinos das palavras


O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem ou não sabemos o que dizem.
Eduardo Galeano

Cartografia do genocídio: As fronteiras da subjugação perpétua em Gaza

Mesmo aqueles que não estão totalmente familiarizados com a história profunda e dolorosa de Gaza devem perceber que manter a Linha Amarela de Gaza nada mais é do que uma ilusão perigosa e sangrenta.

O chamado cessar-fogo em Gaza não foi uma cessação genuína das hostilidades, mas sim uma mudança estratégica e cínica no genocídio israelense e na campanha contínua de destruição.

A partir de 10 de outubro, primeiro dia do cessar-fogo anunciado, Israel mudou de tática: passou de bombardeios aéreos indiscriminados para a demolição calculada e planejada de casas e infraestrutura vital. Imagens de satélite, corroboradas por relatos da mídia e do terreno quase que a cada hora, confirmaram essa mudança metódica.

Enquanto as forças de combate direto aparentemente se retiravam para a região adjacente ao "envoltório de Gaza", uma nova vanguarda de soldados israelenses avançou para a área a leste da chamada Linha Amarela, com o objetivo de desmantelar sistematicamente qualquer vestígio de vida, raízes e civilização que ainda restasse após o genocídio israelense. Entre 10 de outubro e 2 de novembro, Israel demoliu 1.500 edifícios, utilizando suas unidades especializadas de engenharia militar.


O acordo de cessar-fogo dividiu Gaza em duas metades: uma a oeste da Linha Amarela, onde os sobreviventes do genocídio israelense foram confinados, e uma maior, a leste da linha, onde o exército israelense manteve uma presença militar ativa e continuou a operar impunemente.

Se Israel realmente tivesse a intenção de evacuar a área após a segunda fase do cessar-fogo, não estaria empenhado na destruição sistemática e estrutural dessa região já devastada. Claramente, os motivos de Israel são muito mais insidiosos, centrados em tornar a região perpetuamente inabitável.

Além de destruir infraestruturas, Israel também realiza uma campanha contínua de ataques aéreos e navais, visando implacavelmente Rafah e Khan Yunis, no sul. Posteriormente, e com maior intensidade, Israel também começou a realizar ataques em áreas que, em teoria, deveriam estar sob o controle dos habitantes de Gaza.

Segundo o Ministério da Saúde palestino em Gaza, 260 palestinos foram mortos e 632 ficaram feridos desde o início do chamado cessar-fogo.

Na prática, esse cessar-fogo equivale a uma trégua unilateral, na qual Israel pode conduzir uma guerra implacável e de baixa intensidade contra Gaza, enquanto os palestinos são sistematicamente privados do direito de responder ou se defender. Gaza fica, portanto, condenada a reviver o mesmo ciclo trágico de violência histórica: uma região indefesa e empobrecida, presa sob o jugo dos cálculos militares de Israel, que operam consistentemente à margem do direito internacional.

Antes da criação do Estado de Israel sobre as ruínas da Palestina histórica em 1948, a demarcação das fronteiras de Gaza não era motivada por cálculos militares. A região de Gaza, um dos berços das civilizações mais antigas do mundo, sempre esteve perfeitamente integrada a um espaço geográfico e socioeconômico mais amplo.

Antes de os britânicos a denominarem Distrito de Gaza (1920-1948), os otomanos a consideravam um subdistrito (Kaza) dentro do Mutasarrifado de Jerusalém – o Distrito Independente de Jerusalém.

Mas nem mesmo a designação britânica de Gaza a isolou do resto da geografia palestina, já que as fronteiras do novo distrito alcançavam Al-Majdal (atual Ashkelon) ao norte, Bir al-Saba' (Beersheba) ao leste e a linha de Rafah na fronteira egípcia.

Após os Acordos de Armistício de 1949 , que codificaram as linhas pós-Nakba, o tormento coletivo de Gaza, ilustrado pela redução de suas fronteiras, começou de fato. O extenso Distrito de Gaza foi brutalmente reduzido à Faixa de Gaza, meros 1,3% da área total da Palestina histórica. Sua população, devido à Nakba, cresceu exponencialmente, com mais de 200.000 refugiados desesperados que, juntamente com várias gerações de seus descendentes, estão presos e confinados nesta pequena faixa de terra há mais de 77 anos.

Quando Israel ocupou Gaza permanentemente em junho de 1967, as linhas que a separavam do restante do território palestino e árabe tornaram-se parte integrante e permanente da própria Gaza. Logo após a ocupação da Faixa, Israel começou a restringir ainda mais a circulação dos palestinos, dividindo Gaza em várias regiões. O tamanho e a localização dessas linhas internas foram amplamente determinados por dois motivos principais: fragmentar a sociedade palestina para garantir sua subjugação e criar "zonas tampão" militares ao redor dos acampamentos militares israelenses e assentamentos ilegais.

Entre 1967 e a chamada "retirada" de Israel da Faixa de Gaza, Israel construiu 21 assentamentos ilegais e inúmeros corredores militares e postos de controle, dividindo efetivamente a Faixa ao meio e confiscando quase 40% de seu território.

Após a redistribuição de tropas, Israel manteve o controle absoluto e unilateral sobre as fronteiras de Gaza, o acesso ao mar, o espaço aéreo e até mesmo o registro populacional. Além disso, Israel criou outra fronteira interna dentro de Gaza, uma " zona tampão" fortemente fortificada que se estende pelas fronteiras norte e leste. Essa nova área testemunhou o assassinato a sangue frio de centenas de manifestantes desarmados e o ferimento de milhares que ousaram se aproximar do que muitas vezes era chamado de "zona da morte".

Até mesmo o mar de Gaza foi efetivamente proibido. Os pescadores eram confinados de forma desumana a espaços minúsculos, às vezes com menos de três milhas náuticas, enquanto simultaneamente estavam cercados pela marinha israelense, que rotineiramente atirava em pescadores, afundava barcos e detinha tripulações à vontade.

A nova Linha Amarela de Gaza é apenas a mais recente e mais flagrante demarcação militar em uma longa e cruel história de linhas destinadas a tornar a vida dos palestinos impossível. A linha atual, no entanto, é pior do que qualquer outra anterior, pois sufoca completamente a população deslocada em uma área totalmente destruída, sem hospitais em funcionamento e com apenas um fluxo mínimo de ajuda humanitária.

Para os palestinos, que lutam contra o confinamento e a fragmentação há gerações, esse novo acordo representa o culminar intolerável e inevitável de seu prolongado desapossamento multigeneracional.

Se Israel acredita que pode impor a nova demarcação de Gaza como um novo status quo, os próximos meses provarão que essa convicção está terrivelmente errada. Tel Aviv simplesmente recriou uma versão muito pior e inerentemente instável da realidade violenta que existia antes de 7 de outubro e do genocídio. Mesmo aqueles que não estão totalmente familiarizados com a história profunda e dolorosa de Gaza devem perceber que manter a Linha Amarela de Gaza nada mais é do que uma ilusão perigosa e sangrenta.

A luta contra o sistema que escolhe quem deve ou não deve morrer é universal

Nos últimos tempos, tenho recebido múltiplas mensagens e lido pelas redes sociais inúmeras críticas de gente que nada faz, mas adora apontar o dedo. Acusam de “hipocrisia” quem se indigna com o genocídio na Palestina e, num gesto de falsa moralidade, perguntam: “E a Nigéria? E o Sudão?” São sempre os mesmos, os que nunca se importaram verdadeiramente com as populações africanas. O objetivo deles não é defender os povos esquecidos. É deslegitimar as organizações que denunciam crimes de guerra e desmontar qualquer movimento solidário que confronte Israel ou os poderes instalados.

É enganador e intelectualmente desonesto sugerir que a ONU e a Anistia Internacional estão em “silêncio” sobre a Nigéria ou o Sudão. Essa perceção nasce da dependência acrítica das redes sociais. Embora a ONU demonstre muitas vezes uma fragilidade política, as suas agências, como o Programa Alimentar Mundial (PAM), denunciaram a falta de fundos que as obrigou a cortar ajuda a milhões de pessoas, e os seus relatórios não cessam de alertar para todas estas crises. A hipocrisia não está em quem luta pela Palestina; está em quem instrumentaliza o sofrimento humano para fins eleitorais ou ideológicos. Está, sobretudo, em quem fala de África apenas quando quer atacar quem defende a Palestina.

Comparar o ativismo em torno da Palestina à crise nigeriana ou sudanesa é, além de demagógico, moralmente reprovável. O envolvimento global com a Palestina tem raízes históricas profundas: décadas de ocupação, um conflito com impacto direto nas relações internacionais, e a existência de uma enorme e politicamente ativa diáspora palestiniana que se organiza e com o apoio da opinião pública expõe a causa e mantém o debate ativo lutando assim contra o esquecimento. Usar esse envolvimento para diminuir outras causas é apenas mais uma forma de manipulação.


A hipocrisia mais gritante reside na duplicidade moral que revela que o compromisso com os direitos humanos não é universal, dependendo da geografia, da conveniência política e da cor da pele dos afetados. A rapidez do apoio internacional à Ucrânia, por exemplo, contrasta brutalmente com a indiferença perante conflitos africanos ou asiáticos e escandalosamente com o genocídio palestiniano.

E há uma hipocrisia que nos toca a todos: o Mediterrâneo, hoje o maior cemitério marítimo do mundo, onde milhares de pessoas se afogam, todos os anos, fugindo da guerra, da seca extrema, da fome e da miséria.

A mesma lógica que permite a brutalidade contínua sobre o povo palestiniano e que ignora as crises africanas é a que transforma o Mediterrâneo num palco de disputa, onde vidas são ativamente tratadas como descartáveis para proteger a “Fortaleza Europeia”.

O que é preciso exigir, portanto, é coerência: defender todas as vidas, sem distinção, e exigir dos países ricos e grandes potências que cumpram as suas obrigações, coibindo-se de fabricar armas que abastecem conflitos os e que deixem de instrumentalizar a ajuda humanitária em função dos seus interesses geopolíticos

Não pode haver vidas descartáveis.

Para que não restem dúvidas, quando se fala da Palestina fala-se também de todas as lutas contra a opressão.

Fala-se do Sudão, onde milhões fogem de uma guerra pouco noticiada, apesar de o país estar no centro de disputas entre grandes potências. Fala-se da República Democrática do Congo, onde comunidades são destruídas para alimentar a indústria tecnológica com minerais extraídos à custa da violência e exploração infantil. Fala-se do Iémen, destruído por anos de bombardeamentos sauditas sustentados pelo apoio militar e político dos USA e aliados ocidentais. Fala-se da Síria, um país dilacerado por uma guerra civil transformada num palco de guerra por procuração, onde potências regionais e internacionais testaram as suas armas e condenaram uma geração ao deslocamento e à ruína, perante a passividade do mundo.Fala-se de Mianmar e do povo Rohingya, vítima de limpeza étnica e empurrado para o esquecimento por um silêncio global que protege os responsáveis. Fala-se também do Haiti, onde o povo resiste a décadas de ocupações, ingerências internacionais e governos moldados segundo interesses externos. Fala-se do Bangladesh, onde trabalhadores explorados pagam com a vida para sustentar a fast fashion que enche o Ocidente de roupa barata..Fala-se destes e de todos.

O padrão é o mesmo: vidas descartáveis, territórios transformados em zonas de conflito permanente e um sistema internacional que escolhe quem merece solidariedade e quem pode ser abandonado. A mesma lógica que permite a brutalidade contínua sobre o povo palestiniano é a que mantém estas crises fora do debate público. Fala-se destes e de todos os que são oprimidos.

Fala-se da crise climática, que obriga populações inteiras a fugirem de territórios destruídos, inaugurando uma era de refugiados climáticos que o mundo ainda finge não ver. Fala-se das queimadas que expulsam comunidades indígenas na Amazónia e de todos os que fogem da seca extrema no Corno de África e das inundações no Paquistão.

Estas lutas não são paralelas nem concorrentes: são a mesma batalha contra uma estrutura global de interesses, indústria de armas e neocolonialismo económico que determina quem vive e quem morre.

E há muitas outras situações e geografias preocupantes que permanecem fora do debate público. A lista de vidas em risco é longa, mas o compromisso com a justiça não pode ser seletivo.

A luta pelos direitos humanos é universal. E só seremos livres quando todos, todos, sem exceção formos livres.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Pensamento do Dia

 


O mito da polarização

Direita e esquerda, da forma como se apresentam hoje, não caem nas graças da maioria. A dita polarização tampouco. Um passeio pela vida real dá a dimensão do que se passa longe da internet e do noticiário que reverbera as vozes engajadas.

Foi o que fizeram os pesquisadores Pablo Ortellado e Felipe Nunes ao elaborar um estudo com duas centenas de perguntas a 10 mil brasileiros. O resultado traduziu a realidade em números: os apaixonados extremos são 11%, e os levemente enamorados, 35% —enquanto 54% estão na pista, no aguardo de quem lhes desperte o interesse.

Pelo demonstrado, temos que a minoria barulhenta, embora insignificante em termos eleitorais, acaba conduzindo a eleição para a tal disputa de rejeições. Isso apesar de a quase totalidade do eleitorado ser permeável a escolhas diferentes das já oferecidas.

E é na ausência de gente capaz de encarnar uma nova bossa da conquista que a coisa enrosca e mantém o país preso a uma lógica em que a escolha do presidente se dá mais pelo medo de errar do que pela vontade de acertar.

Daí os índices de abstenção, votos nulos e brancos, diante da ausência de estímulo à maioria desinteressada em entrar numa guerra por ídolos de estimação, hoje simbolizados nas figuras de Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Ambos gastos pelo tempo e por outras circunstâncias.

A existência de vasto eleitorado à deriva esbarra na inexistência de postulantes fluentes no idioma das demandas por um Estado que proteja a população, mas não atrapalhe e ofereça serviços públicos decentes, com governantes atentos aos cidadãos, que não os vejam como massa de manobra eleitoral e os incluam em projetos de desenvolvimento do país.

Os estrategistas de campanha sabem disso. O problema é que na receita falta o ingrediente principal: matéria-prima de qualidade. Assim como eleitor silencioso, os bons pretendentes a eleitos certamente estão por aí. Na encolha, sem espaço nem disposição para enfrentar o barulho dos extremos.
Dora Kramer

O avesso


Às vezes, nada mais distante do conceito de política do que um político.

Carlos Drummond de Andrade, "O Avesso das Coisas"

O Brasil onde a dor virou rotina

O massacre nos Complexos da Penha e do Alemão, no final de outubro, e o projeto de lei que tenta impedir meninas estupradas com menos de 14 anos de interromper uma gravidez podem parecer assuntos distantes. Mas vêm da mesma raiz: a incapacidade do Estado brasileiro de garantir dignidade e proteção justamente para quem mais precisa. O resultado é um país onde o bem viver – entendido como segurança, cuidado e possibilidade real de futuro – se torna exceção.

Quando uma favela é tratada como território inimigo e uma criança violentada enfrenta barreiras para exercer um direito previsto em lei há mais de 80 anos, o país revela seu padrão mais cruel: vidas negras, pobres e femininas seguem sendo tratadas como descartáveis.

As investigações sobre operações policiais confirmam o que moradores já sabem: a letalidade do Estado atinge principalmente pessoas negras, jovens e crianças. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, ano após ano, a maioria das vítimas de intervenções policiais é composta por homens negros – e cada episódio deixa um rastro de trauma nas famílias e na comunidade.

Do outro lado, estudos médicos e psicológicos são unânimes: meninas e meninos vítimas de violência sexual têm risco significativamente maior de depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Esses efeitos variam conforme a intensidade da violência, o ambiente familiar e o apoio recebido, mas pioram drasticamente quando as instituições que deveriam acolher produzem nova violência. A literatura chama isso de “traição institucional”: quando o sistema trai quem deveria proteger. E nenhum bem viver é possível quando até o acolhimento machuca.

A ONU e a UNICEF registram, repetidas vezes, que crianças expostas à violência – doméstica ou comunitária – podem desenvolver o chamado “estresse tóxico”: um desgaste emocional tão profundo que compromete aprendizagem, autorregulação e saúde mental, afetando o desenvolvimento ao longo da vida. Em outras palavras, impede que vivam bem agora e destrói as bases do seu florescimento no presente e no futuro.

No fim das contas, estamos falando do mesmo ciclo: uma sequência de violações que derruba os pilares básicos do desenvolvimento humano – segurança, pertencimento e a chance real de construir um futuro. Sem isso, ninguém floresce. E, sem florescimento, nenhum país se sustenta.


Com o tempo, esse acúmulo de tragédias gera outro problema: um entorpecimento social. Quanto mais vemos chacinas, abandono institucional e violência contra meninas e contra comunidades periféricas, mais corremos o risco de encarar tudo como “normal”. A psicologia chama isso de dessensibilização. Não é falta de empatia; é cansaço. É a sensação de que nada muda, de que reagir não adianta. Esse torpor coletivo enfraquece a mobilização social – e fortalece o ciclo da violência. Sociedades cansadas sobrevivem; não vivem bem.

Falar de felicidade nesse cenário pode parecer deslocado. Mas “felicidade”, aqui, não é euforia: é política pública. É bem-estar entendido como infraestrutura de país – parte central do bem viver. Pesquisadores das universidades da Pensilvânia e da Califórnia, nos Estados Unidos, e da Universidade de Tsinghua, na China, defendem isso há anos: saúde mental, vínculos comunitários, sensação de segurança e oportunidades de desenvolvimento devem valer tanto quanto indicadores econômicos. A Psicologia Positiva – no campo científico, não no comercial – demonstra que intervenções de bem-estar podem ajudar comunidades vulneráveis a se reconstruírem emocionalmente, desde que acompanhadas de políticas de proteção social e de atendimento em saúde mental.

A Colômbia é um exemplo – e também um alerta. Logo após o Acordo de Paz de 2016, escolas e centros comunitários implementaram programas de bem-estar para reduzir tensões e reconstruir vínculos entre jovens e famílias afetadas pelo conflito. Nos primeiros anos (2017-2020), parte das iniciativas se inspirou no trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi, especialmente na noção de flow: atividades que ajudam populações traumatizadas a recuperar propósito, foco e a sensação de que podem agir e transformar sua própria realidade. Avaliações independentes registraram avanços modestos, porém consistentes, na convivência escolar e na percepção de segurança psicológica – resultados pequenos, mas estruturantes, capazes de sustentar processos de reparação e abrir brechas para o bem viver após décadas de violência.

Mas o caráter datado desse ciclo revela um limite: a partir dos anos seguintes, com mudanças de governo e prioridades orçamentárias, muitos desses programas perderam financiamento ou foram reduzidos, mesmo diante de evidências positivas. É um exemplo claro de como políticas eficazes podem ser interrompidas antes de amadurecer – e de como a falta de continuidade pública enfraquece justamente as soluções que exigem tempo, cuidado e persistência.

No cenário global, Butão e Nova Zelândia seguiram outro caminho. O Butão criou o índice de Felicidade Interna Bruta, que reúne dimensões como saúde, educação, cultura, governança, vitalidade comunitária e meio ambiente. A lógica é simples: uma política só é boa se melhora a vida das pessoas. Já a Nova Zelândia lançou, em 2019, o Wellbeing Budget, um orçamento nacional baseado em metas de bem-estar – com foco em saúde mental, enfrentamento da violência doméstica e redução das desigualdades. Não foi filosofia: foi evidência. Pesquisas mostram que investir em bem-estar reduz custos futuros em saúde, segurança e assistência social. São países que tratam o bem viver como política de Estado. Isso é felicidade no campo científico, com impacto social real.

O Brasil poderia estar nessa rota. Temos pesquisa, recomendações internacionais e uma Constituição que coloca a dignidade humana no centro. Falta transformar isso em prioridade. Porque comunidades continuam vivendo sob violência crônica; meninas violentadas continuam enfrentando violência institucional; e a anestesia coletiva continua crescendo – muitas vezes alimentada por parlamentares que defendem medidas na contramão das evidências científicas. É impossível falar em bem viver enquanto a sobrevivência ocupa todo o espaço. Fica difícil falar de esperança quando a realidade insiste em se acinzentar.

O país não precisa escolher entre combater a violência e promover bem-estar. Os dois caminhos andam juntos. Sociedades emocionalmente seguras são mais estáveis, mais criativas e mais prósperas. A pergunta que fica é direta: quando começamos a aceitar que bem-estar – saúde emocional, segurança, felicidade e dignidade – seria algo supérfluo?

Enquanto essa mudança não chega, seguimos tentando florescer em solo árido. Mas nenhum país floresce por acaso. Ele floresce quando decide que toda vida merece mais do que sobreviver. Merece bem viver – e ser feliz.

Sudão e Gaza: ecos de um mesmo império

As tragédias do nosso mundo não são separadas. Gaza, aqui, é chamada de “conflito”; o Sudão, ali, é reduzido a uma “guerra civil” que mal merece ser mencionada. Mas, se seguirmos o rastro do dinheiro, das armas e da propaganda, encontraremos as mesmas marcas ensanguentadas em ambos os crimes.

Os Emirados Árabes Unidos financiam as Forças de Apoio Rápido que massacram civis sudaneses, enquanto mantêm voos para Tel Aviv durante todo o genocídio. A Grã-Bretanha vende armas que acabam nas mãos da RSF, ao mesmo tempo em que abastece a campanha de extermínio de Israel. E os Estados Unidos, que declaram a crise do Sudão um genocídio, enviam mais 14,3 bilhões de dólares em ajuda militar a Israel – justamente no momento em que este conduz o seu próprio ataque genocida.

Em Gaza, pelo menos 63 mil palestinos foram assassinados e 1,9 milhão foram forçados a deixar suas casas. No Sudão, centenas de milhares de pessoas morreram, milhões estão deslocados e a insegurança alimentar já está em níveis de emergência ou fome extrema.


Em ambos os lugares, pais e mães veem os corpos de seus filhos se consumirem pela fome, enquanto aqueles que dizem combater a miséria continuam armando seus assassinos. A Dra. Tanya Haj-Hassan, que atuou como voluntária em Gaza e no Sudão, afirmou em entrevista ao Democracy Now: “As atrocidades na Palestina e no Sudão relacionadas à desnutrição e à fome são consequência de estruturas subjacentes que permitem que essas coisas aconteçam.”

As estruturas a que ela se refere têm nomes próprios: Charles George Gordon, Herbert Kitchener, Arthur James Balfour. O mesmo Império Britânico que dividiu o Sudão e a Palestina, que massacrou 12 mil sudaneses em Omdurman com metralhadoras contra lanças, e que prometeu a Palestina aos colonos sionistas enquanto silenciava a população indígena da terra.

Em 1898, Kitchener observou pelos binóculos os corpos sudaneses empilhados, comentou que haviam recebido uma “boa limpeza” e então se retirou para o dia. Essa brutalidade banal – essa convicção de que certas vidas não contam como perda – não morreu com o Império Britânico. Ela se transformou, espalhando-se nas estruturas de poder que hoje matam de fome Gaza e armam os senhores da guerra do Sudão.

Tanto a Grã-Bretanha quanto seu império sucessor, os Estados Unidos, mantiveram deliberadamente suas colônias em estado de dependência. No Sudão, negaram a formação de um Estado centralizado forte, limitaram a economia à produção agrícola marginal subordinada aos interesses britânicos e aplicaram táticas de divisão e dominação, sustentadas por doutrinas raciais. Na Palestina, entregaram a terra aos colonos europeus sob o pretexto de “autodeterminação” e, nos 77 anos seguintes, financiaram o regime de apartheid de Israel. O padrão é o mesmo: fragmentar, explorar, dominar – e, por fim, deixar que as populações se destruam enquanto se lucra com os escombros.

E onde está o mundo? O apelo da ONU para o Sudão foi financiado em apenas 12%. A USAID sofreu cortes drásticos, enquanto a ajuda militar a Israel segue ininterrupta. A Europa reduz a assistência humanitária ao Sudão, mas continua vendendo armas que acabam nas mãos da RSF. Os mesmos governos que vetaram todas as resoluções de cessar-fogo da ONU para Gaza ignoram completamente o Sudão, a não ser quando há ouro a extrair ou rotas comerciais a proteger.

Foi isso que a Dra. Tanya Haj-Hassan testemunhou ao atravessar os campos agrícolas do Sudão para tratar crianças desnutridas: “Você pensa: como, neste mundo moderno?”. Ela recordou ter visto a fome na Etiópia quando era criança, acreditando que fosse causada pelo clima, um ato de Deus. “E então você cresce, amadurece e percebe que essas coisas são causadas pelo homem.”

Causadas pelo homem, sim. Mas por quais homens? Por aqueles mesmos arquitetos imperiais que decidiram que algumas populações merecem um Estado, enquanto outras merecem passar fome. Pelos fabricantes de armas que lucram com ambas as máquinas de morte. Pelas potências ocidentais que instalam ditadores, armam milícias e depois lavam as mãos quando os corpos se acumulam. Pelos Emirados Árabes Unidos, que disseminam propaganda divisória em todo o mundo muçulmano para conter a luta anti-imperialista, ao mesmo tempo em que colaboram com Israel para desmantelar qualquer forma de resistência à ocupação.

Alguns dirão que Gaza e o Sudão são diferentes – um seria um caso de colonialismo de povoamento; o outro, uma guerra civil entre milícias. Mas, se deixarmos de lado os rótulos, veremos os mesmos métodos de violência: potências externas armando representantes locais, usando a fome como arma, atacando civis de forma sistemática, bloqueando a ajuda humanitária e, depois, culpando as próprias vítimas por sua tragédia. É a mesma “comunidade internacional” que poderia pôr fim a ambos os “conflitos” amanhã, se quisesse – mas que lucra demais com a matança para fazê-lo.

Não podemos permitir que a visibilidade de Gaza ofusque a invisibilidade do Sudão. O mesmo fantasma assombra ambos. O legado de extração e dominação do Império Britânico sobrevive em cada comboio de ajuda bloqueado, em cada carregamento de armas, em cada cessar-fogo violado por aqueles que jamais tiveram a intenção de cumpri-lo.

Não podemos escolher quais demônios nomear. Os embargos de armas devem atingir não apenas Israel, mas também todos os governos que sustentam os senhores da guerra do Sudão. Devemos exigir sanções até que haja a retirada completa das forças de ocupação na Palestina e o julgamento dos criminosos de guerra do Sudão em Haia.

Mais do que isso, precisamos rejeitar a mentira de que se trata de crises isoladas, que pedem lutas e movimentos separados. Cada piquete que bloqueia o envio de armas a Israel deve também bloquear o fluxo de armas para a RSF. Cada sindicato que entra em greve pela Palestina deve fazê-lo também pelo Sudão. Cada apelo por responsabilização em Gaza deve incluir a responsabilização por Darfur. A solidariedade não pode ser seletiva, porque o sistema que mata ambas as populações tampouco é seletivo em quem devora.

Infelizmente, a revolta é abundante; a solidariedade, porém, é infinita. As conexões entre essas lutas não são exercícios teóricos: são fatos materiais escritos em remessas de armas, nas transações financeiras e nos despachos diplomáticos.

Enquanto não desmantelar por completo esse sistema, enquanto não rompermos as cadeias de abastecimento da morte que conectam Tel Aviv a Cartum, Londres e Washington, o padrão continuará se repetindo: novas populações, os mesmos fantasmas, os mesmos túmulos.
Rima Awada Zahra

Há hoje um palestiniano na liderança global dos evangélicos

No dia 30 de outubro, em Seul, teve lugar uma nomeação verdadeiramente histórica, quando a Assembleia Geral da WEA (World Evangelical Aliance) empossou o Rev. Botrus Mansour como novo secretário-geral da instituição que representa 650 milhões de cristãos em todo o mundo, confiando-lhe assim a liderança de uma comunhão global de alianças nacionais. Juntamente com ele, foi nomeado um novo Conselho Internacional.

Sendo uma das maiores comunidades de fé do mundo, a Aliança Evangélica Mundial inclui 161 alianças nacionais de 161 nações em todo o mundo, procura defender a liberdade religiosa, promover a unidade entre os evangélicos e difundir a mensagem do Evangelho em todo o mundo. A Assembleia Geral juntou 850 delegados de 124 países e ainda 4.000 pastores coreanos.

Segundo a WEA, “a nomeação do Rev. Mansour marca a conclusão culminante da Assembleia Geral da WEA, que durou uma semana e transformou Seul num centro global de unidade evangélica. A liderança anunciou uma nova fase de fortalecimento da voz coletiva e da participação das alianças membros, com o objetivo final de moldar o testemunho evangélico global.”


Mansour dirige a Escola Baptista de Nazaré desde 2004, a única escola evangélica reconhecida pelo Ministério da Educação de Israel, que funciona desde o jardim de infância até ao ensino médio.

Decerto que no processo de eleição foi considerada a vasta experiência de liderança do Rev. Mansour naquela região do mundo, a qual incluiu a presidência tanto da Convenção das Igrejas Evangélicas em Israel como da Aliança das Convenções Evangélicas na Jordânia e na Terra Santa.

Esta nomeação ocorre numa fase muito crítica para os cristãos do Médio Oriente, tendo em vista a guerra de Israel em Gaza, os ataques recorrentes dos colonos judeus ao povo palestiniano na Cisjordânia e o bloqueio político israelita ao princípio dos dois estados, mas também reflecte, por outro lado, o compromisso da Aliança Evangélica Mundial com o seu propósito de fazer repercutir ao mais alto nível uma representação global.

No discurso de posse, o Rev. Mansour declarou: “É algo profundo que, neste momento, um cristão palestiniano de Israel tenha sido convidado a servir como Secretário-Geral. Especialmente neste momento, quando há um cessar-fogo que, espero, se mantenha na nossa região após mais de dois anos de guerra, presto homenagem ao meu povo e ao meu país.”

A visão da WEA, que o Rev. Mansour partilha, é ver “o mundo inteiro alcançado pelo Evangelho até 2033”, marcando dois mil anos desde a ressurreição de Jesus Cristo, mas na base da unidade e na prática do discipulado.

Os estudos indicam que o cristianismo evangélico é hoje essencialmente um movimento do Sul Global, dada a transumância da fé cristã do hemisfério norte para o sul, visto que, atualmente, 70% dos evangélicos do mundo – e que são centenas de milhões de pessoas – se localizam em África, na Ásia e na América Latina.

Para isso tem contribuído de forma decisiva o avanço do secularismo na Europa, em particular depois da segunda guerra mundial, mas também as mudanças sócio-religiosas verificadas na América do Norte durante as últimas décadas.

A transição de liderança na Aliança Evangélica Mundial também inclui a posse do Rev. Dr. Godfrey Yogarajah, CEO da Aliança Evangélica Cristã Nacional do Sri Lanka e Presidente da Aliança Evangélica da Ásia, como novo Presidente. O Dr. Yogarajah afirmou: “Somos administradores de um grande legado e de uma missão global”.

O movimento evangélico mexe-se e surpreende. A Aliança Evangélica Mundial acabou de eleger um palestiniano como secretário-geral, um asiático como presidente e promete trabalhar em força na evangelização, com os olhos postos em 2033, que é já ali.