domingo, 11 de agosto de 2024

Lições de sobrevivência

A julgar pela quantidade sempre renovada de filmes e livros sobre ETs de todos os tipos, fica óbvio que temos um fascínio inesgotável por essas criaturas imaginárias. Seres alienígenas habitam as profundezas do nosso inconsciente coletivo, espelhos do bem e do mal que somos capazes de fazer. Basta uma breve incursão na história do colonialismo, e, em particular, do embate entre os europeus e os nativos das Américas, da África e do Pacífico, para entender que, quando duas culturas colidem, a mais ingênua e desarmada perde feio. Somos nós os alienígenas. No decorrer da história, as representações ficcionais de seres extraterrestres refletem o que sabemos do mundo, o que sabemos de nós, os nossos medos e expectativas, as nossas esperanças e os nossos medos.
Existe, porém, algo que raramente consideramos em nossas reflexões sobre alienígenas. Não me refiro, aqui, aos tipos ficcionais que vivem nas páginas de nossos livros ou nas telas de cinema, mas aos que possivelmente existem em algum canto da nossa galáxia, ou de uma galáxia bem longe da nossa. Basta lembrar que nossa galáxia é uma dentre centenas de bilhões de outras espalhadas pela vastidão do espaço, cada qual contendo de dezenas de milhões a centenas de bilhões de estrelas. Portanto, a probabilidade de que inteligências extraterrestres existam é razoável, mesmo se nunca tivemos contato direto.

Se existem, e este é o ponto que nos interessa, como sobrevivem aos seus desafios sociais, políticos e econômicos? Mesmo especulando sobre a existência de civilizações extraterrestres, podemos aprender lições essenciais sobre alguns de nossos dilemas atuais mais desafiadores, incluindo a sobrevivência de nossa própria espécie. Ou seja, podemos aprender lições de sobrevivência planetária com os ETs, o que é cada vez mais essencial nos dias de hoje.


Antes disso, é bom rever algumas informações importantes, de modo a contextualizar nosso argumento. Como é o caso conosco aqui na Terra, os alienígenas vivem ou se originaram em algum planeta (ou lua) em órbita em torno de uma estrela. Para simplificar, vamos considerar apenas ETs com características gerais relativamente semelhantes às nossas: por exemplo, vida baseada em compostos de carbono e dependente de água. É possível que tenham evoluído muito além desses vínculos químicos, sendo mais máquinas do que carbono.

De qualquer forma, certamente tiveram uma origem bioquímica, mesmo que tenha ocorrido milhões de anos no passado. Sua sobrevivência, tal como a nossa aqui, depende crucialmente da quantidade de energia emitida pelo seu sol em forma de radiação, e de como essa radiação interage com a atmosfera do planeta (ou lua) onde habitam. No nosso caso, a Terra absorve cerca de 71% da energia total do Sol que chega aqui: em torno de 23% dessa energia é absorvida na atmosfera por vapor d'água, poeira e ozônio, e cerca de 48% na superfície.

São aproximadamente 160 watts por metro quadrado no solo. Imagine cobrir a superfície da Terra com lâmpadas de 160 watts a cada metro quadrado e tê-las iluminadas durante o Natal. Não seria um uso muito inteligente de energia, mas certamente uma imagem belíssima, se observada de altas altitudes. Para que um planeta possa acolher formas de vida por um tempo relativamente longo (no mínimo, milhões de anos), é essencial que seja relativamente estável: sua órbita em torno da estrela não pode ser errática; sua composição atmosférica não pode mudar radicalmente em períodos geológicos curtos (de milhões de anos); seu clima deve ser estável, com flutuações de temperatura dentro do que é permissível metabolicamente, ou seja, não muito mais do que 100 graus em torno de zero Celsius. (Ou seja, de -50ºC a 50ºC. Existem exceções, como os seres que vivem perto de ventas vulcânicas submarinas onde as temperaturas podem ser mais altas. Mesmo assim, existem limites para que a vida seja viável.)

O planeta precisa, também, receber enormes quantidades de energia, redistribuindo-a pela superfície através de processos climáticos e geológicos. Qualquer espécie alienígena que exista na nossa galáxia, principalmente se for inteligente, que é o que nos interessa aqui, precisará habitar um mundo que tenha propriedades gerais semelhantes a essas. Por que as formas de vida inteligente precisam de maior estabilidade? Porque, para que a vida possa evoluir a partir de formas rudimentares, os seres unicelulares, até seres multicelulares complexos e, destes, até seres inteligentes, são necessários muitos milhões de anos, se não bilhões. (Aqui na Terra, foram pelo menos 3,5 bilhões de anos.)

Da mesma forma que não dá para assistir à última cena de uma peça teatral com três horas de duração num teatro que pega fogo após uma hora, o palco em que ocorre a transformação da química inanimada em vida complexa, o planeta, tem que permitir que esse drama bioquímico evolua a passos lentos. E não há a menor garantia de que haverá um final feliz. (Se entendermos por felicidade a emergência de criaturas inteligentes.)

Nossa espécie existe há aproximadamente 200 mil anos, um tempo irrelevante quando comparado aos 4,5 bilhões de anos do nosso planeta. Num contexto cósmico, em que mesmo milhões de anos são um período efêmero, somos uma espécie ainda bebê, com muitos desafios a enfrentar pela frente, especialmente no que tange à nossa sobrevivência em longo prazo. É aqui que os ETs podem ser úteis. A primeira coisa que devemos notar, ao menos baseados na nossa história, é que duas ou mais espécies inteligentes não podem coexistir no mesmo planeta. (Note que existem vários modos de definir e quantificar inteligência. Estou interessado aqui em espécies com inteligência criativa capaz de desenvolver tecnologias avançadas.)

Dada a natureza combativa dos seres vivos, centrados, acima de tudo, na sobrevivência, outra espécie inteligente seria vista como uma ameaça, ao menos no início da corrida evolucionária. Aqui na Terra, os neandertais, que mostraram sinais de inteligência superior a outras espécies que os antecederam, foram parcialmente assimilados e, na maioria, aniquilados pelos nossos ancestrais.

A coexistência pacífica entre duas espécies que podem competir em pé de igualdade por recursos necessários para a sobrevivência é implausível, a menos que ambas tenham atingido um patamar moral extremamente elevado. Porém, até que isso ocorra, a partir do desenvolvimento de uma estrutura social estável e democrática onde a vida é respeitada acima de tudo, seria provavelmente tarde demais. (Mesmo numa mesma espécie, especialmente uma espécie inteligente com padrão moral inferior, valores culturais distintos e diferenças étnicas podem levar a conflitos sérios, do racismo a perseguições ideológicas, como vemos aqui todos os dias. Mas esse é um assunto para outro ensaio.)

Dada a dificuldade de coexistência entre duas espécies inteligentes, vamos, portanto, considerar seres alienígenas de uma mesma espécie, que, de alguma forma, encontraram os meios físicos e morais para sobreviver por milhões de anos. Quais os seus segredos? Antes de tudo, entenderam que uma relação predatória com o seu planeta e com outras formas de vida levaria, mais cedo ou mais tarde, à sua própria destruição. Entenderam, também, que o seu planeta, mesmo que muito grande e fértil, tem recursos limitados, e que uma exploração irracional dele iria transformá-lo num deserto. O exemplo doloroso da Ilha de Páscoa ilustra perfeitamente o que poderia ocorrer numa escala global com uma espécie que tem uma relação parasítica com a terra da qual depende.

Os alienígenas teriam aprendido a viver com – e não contra – o seu planeta, respeitando seus recursos e planejando cuidadosamente como explorá-los de forma sustentável. Teriam aprendido a otimizar e maximizar o uso da energia vinda de sua estrela, como estamos começando a fazer aqui com a energia solar e eólica. Se a estrela não emitisse energia necessária para suas necessidades, os alienígenas teriam desenvolvido espelhos e outras tecnologias capazes de focar e aumentar a quantidade de energia atingindo a superfície do planeta.

Os alienígenas teriam entendido a interconectividade de todas as criaturas vivas; saberiam que ocupar o topo da cadeia alimentar significa ter a responsabilidade de preservar a biosfera, de modo a estender o uso de seus recursos por período ilimitado. Teriam aprendido que, para viver, precisariam encontrar meios de respeitar a diversidade da vida. Isso só poderia ocorrer se houvessem redefinido sua relação com outras criaturas vivas, indo de predadores a protetores.

Os alienígenas teriam entendido que a disparidade financeira (se tivessem uma economia) e a manipulação cultural levam à pobreza e à instabilidade social, ambas as causas dominantes da predação planetária; e que, para garantir sua sobrevivência em longo prazo, precisariam erradicar a desigualdade social. Teriam, portanto, criado valores morais que garantissem a igualdade social, dividindo recursos naturais e econômicos de forma justa e equilibrada.

Por outro lado, não teriam erradicado a competição, por entenderem ser essencial para a inovação e a felicidade individual e coletiva; teriam, sim, criado mecanismos para assegurar que todos tivessem as mesmas oportunidades de atingir o sucesso. Saberiam que uma sociedade justa não precisa, ou não deve, ser estéril. Teriam entendido que essas metas socioeconômicas pedem o sacrifício dos que detêm mais recursos, mas saberiam, também, que esses sacrifícios seriam temporários, garantindo a sobrevivência de todos. Teriam criado, em longo prazo, uma sociedade com certo nível de disparidade – pois seus intelectuais já teriam entendido que a igualdade total leva a uma distopia – baseada na dignidade, no respeito e na justiça.

O resultado desse projeto alienígena de proteção de recursos naturais e justiça social em escala planetária seria revolucionário. Podemos chamá-lo de “socialismo natural”. Uma vez iniciado, produziria uma transição nos valores morais da espécie, apagando os últimos vestígios da brutalidade intrínseca oriunda das disparidades e impulsos evolucionários. Levaria a uma nova era, baseada numa relação moral superior com o planeta, os animais, e entre todos os membros da sociedade. Essa nova era celebraria, ao mesmo tempo, a diferença individual e a unidade que conecta os habitantes de uma mesma espécie, todos dividindo o planeta e seus recursos naturais. Esses alienígenas teriam sobrevivido por milhões de anos, criando uma sociedade que mal podemos imaginar.

Temos, aqui na Terra, nesse conturbado século XXI, muito trabalho pela frente.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Os homens do subúrbio

Os que moram nos subúrbios trabalham no centro da cidade e recebem o pagamento no fim do dia. Pela manhã, quando chegam na praça, vêem sobre as bancas de madeira os peixes frescos e grandes que os caminhões trouxeram pela madrugada. Mas pela manhã ainda não trabalharam e não têm dinheiro. E eles passam o dia pensando nos peixes frescos e grandes estendidos sobre as bancas de madeira. À tarde, voltam com dinheiro e, quando se aproximam das bancas, sentem o mau cheiro: os peixes ficaram todo o dia ao sol e estragaram-se. Os homens dos subúrbios, então, levam para suas famílias outras coisas em vez de peixe fresco.

Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"

ESG: o mercado salvará o mundo quando o G cuidar do S

Nesses tempos de mudança climática, nunca é demais falarmos sobre o ESG (Ambiental, Social, Governança), que representa as novas diretrizes estratégicas para os negócios. Em outras palavras, se o Ambiental e o Social não forem dirigidos por uma Governança consciente, corremos o risco de, em breve não restar empresas, nem acionistas, nem consumidores, e tampouco lucro, para contar a história.

Sobre o “E” do meio ambiente, já se fala bastante, especialmente a partir da cúpula climática Rio 92, que deu visibilidade ao problema. A descarbonização, a transição energética e a bioeconomia estão no centro das conferências e das tratativas multilaterais desde então.

Nesse contexto, o “G” tem demonstrado sensibilidade crescente para com o “E”, refletida na medida em que a governança superior das empresas e o setor financeiro têm alavancado o valor das ações de companhias ambientalmente responsáveis, como demonstram os resultados dos fundos baseados em ESG e os painéis das bolsas de valores dedicados a esse universo emergente.

Acontece que não bastará correr atrás do prejuízo ambiental enquanto os mercados e o Estado não pararem para cuidar igualmente do verdadeiro “pecado original” da humanidade, a desigualdade socioeconômica (o “S” da questão), que é o combustível de todos os desequilíbrios e descaminhos enfrentados pelo ser humano desde sempre (um custo jamais levado em conta na contabilidade empresarial).

Dito de outra forma, não será suficiente nos contentarmos com eufemismos já naturalizados na nossa linguagem, por exemplo, quando nos referimos às nações pobres como países em desenvolvimento (onde a desigualdade só aumenta), ou ao disfarçamos de empreendedorismo a “uberização” do trabalho, ou, ainda, quando classificamos a pobreza e a violência como vulnerabilidades.

Falando claramente, o ponto essencial sobre o futuro do mundo é a desigualdade social (a mesma questão política que tem definido a humanidade no passado e no presente). É aí que está o “S” e é aí que entra o potencial disruptivo do ESG. Trata-se de uma visão de mercado com capacidade de elevar ao andar das Diretorias Executivas e dos Conselhos de acionistas o reconhecimento de que o “S” significa Social, mas pode ser compreendido como Vida, em sentido amplo.

Não quer dizer que o Ambiental deva ficar em segundo plano. Muito pelo contrário, quer dizer que a devastação ambiental se dá em decorrência de uma distorção no ritmo dos mercados que leva a um acúmulo de riqueza por alguns em prejuízo do bem-estar da maioria. Ou seja, em meio a esse processo concentrador é que ocorre a degradação do meio ambiente de maneira geral.

O legado histórico do ESG (mais precisamente, da alta Governança dos mercados) no novo normal climático seria justamente reequilibrar essa balança social. Caso contrário, os vários setores de atividades – seja financeiro, agropecuário, mineral, energético industrial, tecnológico, serviços, transportes etc. etc. – poderão ser inviabilizados, cedo ou tarde, pelos extremos climáticos e ou pela convulsão social em larga escala. Levariam junto a soberania, a democracia e a segurança, em uma desarrumação caótica do que entendemos como Estado e sociedade, com final desconhecido.
Felipe Sampaio

Muito além da Venezuela

A crise em curso na Venezuela traz um grande desafio para o Brasil —maior até do que possa fazer por uma solução civilizada do conflito no país fronteiriço. Afinal, trata-se de definir o lugar que a defesa da democracia e da proteção aos direitos humanos ocupa na agenda externa nacional. A questão é a um só tempo antiga e enroscada.

Brasília de há muito se pauta pela não ingerência nos assuntos internos de outras nações ­­—atitude que deriva da aceitação da soberania como princípio ordenador das relações internacionais. Em consequência, como cada país se organiza politicamente e como os respectivos governos tratam seus cidadãos são realidades irrelevantes para orientar as ações do Itamaraty; relevante, mesmo crucial, é identificar aliados e os competidores, de quais deles se aproximar ou tomar distância.


Em um sistema internacional formado por Estados soberanos, mas desigualmente poderosos, apegar-se àquele princípio ­—de resto universalmente imperante— foi para o Brasil uma forma de proteger-se da ambição —e da interferência— das potências mundiais, em especial dos Estados Unidos.

Mas, já nas últimas décadas do século passado, direitos humanos e democracia foram deixando de ser assuntos apenas domésticos e ganharam relevância na agenda internacional. A criação de tribunais para julgar países e indivíduos responsáveis por genocídio e outros crimes contra a humanidade são parte dessa mudança.

O estabelecimento de cláusula democrática para ingresso na União Europeia; para pertencer à OEA (Organização dos Estados Americanos) ou ao Mercosul vão no mesmo rumo.

Sua existência implica reconhecer a legitimidade de pressões externas pelo advento de um regime que assegure liberdades básicas a seus cidadãos, garanta eleições livres e limpas e reconheça seus resultados.

O compromisso com a defesa da democracia e dos direitos humanos, inscrito na Constituição de 1988 no capítulo sobre política externa, não é, nem pode ser, o único valor a guiar a atuação internacional do Brasil, assim como não é em nenhuma das nações do Ocidente democrático. Mas tem crescente importância também porque fortalece o sistema de liberdades no país, que teria muito a perder com a ascensão de regimes autocráticos na vizinhança e no mundo.

A diplomacia profissional brasileira tem tudo para transformar esses valores em ações que contribuam para a dificílima transição do autoritarismo para a democracia na Venezuela. O que fará melhor se o presidente Lula abdicar dos improvisos e se o PT deixar de viver nos tempos da Guerra Fria —e finalmente desembarcar no século 21.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

É preciso mudar a política. Mas como?

Se um orador em qualquer auditório perguntar à plateia se acha necessário mudar a política, quase todos os braços se levantarão. De esquerda, centro e direita. Os dois ou três reticentes serão certamente de cientistas políticos “nefelibatas”, como diria Fernando Henrique Cardoso, que, de pronto, arguirão o óbvio — essa insatisfação é generalizada no mundo. O que não deveria, contudo, fazê-los desconhecer o diferencial de intensidade dos problemas daqui e ignorar os sinais do abismo à frente.

As disfunções do nosso sistema político são variadas. Por ora, foquemos de um lado no “presidencialismo esgotado”; de outro, na “representação sem fidúcia”, para os quais há diversos indicadores, mas por economia de espaço abordo apenas dois.


Abstraindo-se qualquer etiologia, examinemos o que denomino “taxa de sinistralidade” dos presidentes eleitos na 4ª e na 6ª Repúblicas — a do Pós-Guerra e a atual —, deixando-se de lado as demais por terem escassa ou nenhuma conformação democrática. E apenas dos titulares, valendo para a análise o período dos mandatos e eventuais ocorrências dele derivadas. Na primeira fase, dos quatro presidentes, dois exercícios foram encerrados dramaticamente: Getúlio Vargas (1954) suicidou-se, e Jânio Quadros (1961) renunciou. Cinquenta por cento de sinistralidade. Na Nova República, independentemente das reeleições, foram até agora cinco personagens, dos quais quatro amargaram problemas graves. Fernando Collor sofreu impeachment (1992); Dilma Rousseff também (2016); Lula foi preso (2018) e declarado inelegível (o que seria depois revertido); e Jair Bolsonaro foi tornado inelegível (2023) sem ainda ter sido preso. Quatro em cinco. A taxa sobe para 80%. A que montante queremos chegar?

Quanto à representação sem fidúcia, para prová-la basta um número. Axiomaticamente, confiança supõe conhecimento, mínimo que seja. Inexiste, se eu não me lembro sequer do representante que escolhi. Em setembro de 2023, menos de um ano depois da eleição dos atuais deputados federais, questionados pelo Ipec se lembravam o nome daquele/a em quem haviam votado, apenas 29% disseram que sim. E é legítimo supor que esse baixíssimo registro ainda diminuiria caso fosse indagado e conferido o candidato sufragam

Sendo inequívoco o impacto da governança que um sistema político propicia sobre a performance da sociedade, os dados que O GLOBO trouxe em editorial de 23/6/2024 são um veredito condenatório. Calculou quanto cresceu ao ano a renda per capita entre 2010 e 2023 — período interessante porque por ele passaram governos de todo o espectro ideológico —, chegando à cifra de 0,2%. E projetou o momento em que dobraríamos o padrão de vida, imprescindível para arrancar o país da pobreza que aflige grande parte da população. A conclusão, estarrecedora, é que isso se daria no distante ano de 2368.

Alguém lembrará que até aqui o Judiciário não foi citado. É verdade e é deliberado, independentemente da obviedade de que esse Poder também precisa mudar. Presidentes escolhem os juízes da Suprema Corte, que são confirmados ou não pelo Senado. Não é mudando o Judiciário que se muda o padrão de governação e de representação. O roteiro é o inverso.

E quais as mudanças possíveis? Quanto ao regime, um sem-número de vozes já diagnosticou a inevitabilidade de avançarmos na direção de um sistema misto. Mais francês ou mais português, o que seja. Entre nós, na ausência de um monarca, é enraizada a ideia da legitimação do poder pela escolha direta. Lá atrás, isso justificou as duas primeiras eleições nacionais — para a Regência Una (1835 e 1838). No século passado, essa preferência seria confirmada nos plebiscitos de 1963 e 1993. Não retrocedendo à captura do Orçamento pelo Parlamento, caberá adotar a convivência entre um presidente chefe de Estado e um chefe de governo escolhido pelo Congresso. Se é expressivo o agregado de líderes políticos e de intelectuais que apostam nisso, diminui bastante o daqueles que se ocupam do esforço de superação da representação sem fidúcia, que exige mudança no sistema eleitoral. Mas não será possível termos o primeiro-ministro e o gabinete parlamentar toleráveis aos olhos da sociedade com os partidos “hidropônicos” que temos hoje.

Não é bonito alguém na universidade ter medo de ler

"Transforma em um tuite ou não irei responder”

Foi isso que ouvi do presidente de uma organização da qual participei enquanto embaixador há alguns anos. Na época, precisei falar com ele sobre uma demanda séria e que simplesmente não poderia ser transformada em um texto com até 280 caracteres. Esta coluna mesmo, neste trecho, já possui mais caracteres.

Atualmente lidero o maior programa social de educação do Brasil. Tenho contato direto com milhares de jovens da rede pública de mais de 1.557 cidades do país e com estudantes e graduados de todas as universidades públicas do país.

Minha maior dor no trabalho hoje em dia é o fato de que, salvo exceções, as pessoas não estão lendo mais. Não me refiro a ler Machado de Assis ou obras literárias, mas sim a recados e instruções simples e diretas.

Anos atrás, isso era muito comum entre os jovens secundaristas com quem tenho contato. Eu entendia todo o contexto e a questão da idade, mas no pós-pandemia, houve um crescimento assustadoramente notável. E isso se tornou comum também entre nosso time voluntário e com membros das melhores instituições de ensino superior do país.

Já havia escrito uma coluna sobre este tema, já citei a problemática em outras oportunidades e agora estou aqui novamente, pois nada muda minha ideia de que o problema é grave.


Sei que hoje em dia as pessoas precisam lidar com inúmeras demandas diárias. Sei que muitas pessoas não têm quase nenhum tempo livre, para além do dedicado às obrigações básicas. Sei que o mundo é muito mais dinâmico e rápido. Sei que estamos nos acostumando com outros formatos de comunicação, com a predominância de vídeos curtos.

Sei de tudo isso, mas sejamos honestos: não é bonito alguém que está na universidade ou que se graduou em uma ter medo ou preguiça de ler instruções ou comunicados básicos.

Recortei o público entre os estudantes universitários e graduados por uma razão. Sou natural de um bairro da periferia e o primeiro da família que entrou na universidade. Minhas irmãs não tiveram o mesmo privilégio e nem meus pais. Minha mãe, vira e mexe, compartilha uma fake news acerca da morte de algum famoso nas redes sociais e há alguns dias atrás caiu em um golpe. Tudo isso por pura falta de atenção.

O ponto é que entendo que ela é de outra época e que não teve os mesmos privilégios que eu. Não só ela, mas milhões de outros brasileiros. Alguns textos e linguagens, sobretudo as mais formais, são de fato muito difíceis para que eles interpretem.

Agora, para uma pessoa privilegiada o bastante para estar no ensino superior ou ter concluído a graduação, sobretudo em universidade pública, é um grande problema ter medo de ler, ter preguiça e não dispor da atenção necessária para interpretar um comunicado.

Precisamos parar de romantizar, de banalizar ou de maquiar a problemática com argumentos pautados na correria dos dias de hoje.

Há alguns dias um amigo me contou uma história. Ele tem uma amiga médica que admitiu não saber fazer regra de três. Antes que alguém questione a relevância dessa informação, eu digo: ela é pediatra. É extremamente relevante que ela domine essa técnica para conseguir calcular as dosagens dos remédios. Segundo meu amigo, a médica se confortava com o fato de que havia uma tabela e que isso, inclusive, a desestimulou a tentar aprender. E, se um dia a tabela não estiver à mão, como ela vai se virar? Preocupante.

Há alguns dias, assisti a uma palestra online de 2018 do professor Miguel Nicolelis. um médico e cientista brasileiro de reconhecimento internacional e que atualmente integra o time de docentes da universidade de Duke, em Durham, nos EUA.

"Porque o cérebro é o camaleão que ele é, a nossa imersão no mundo digital, e a recompensa que isso traz, porque o cérebro está sempre calculando uma relação de custo benefício. Na verdade, estamos moldando nosso cérebro e muito provavelmente aparando os processos analógicos dele, para que ele se aproxime de uma máquina biológica digital, ou seja, a nossa imersão contínua em lógica digital está induzindo o cérebro a achar que esse é o caminho que deve ser seguido para receber as recompensas da vida cotidiana de todos nós”

Ele continua: "O efeito da hiperconectividade digital foi produzir milhões de tribos, ou seja: nós regredimos para os comportamentos sociais da origem da nossa espécie, mas todos os comportamentos sociais como empatia, interatividade, vocabulário parecem estar sendo contraídos. A dicotomia é muito interessante e o que vemos hoje em dia é que porque o cérebro é tão plástico e porque a função de recompensa mudou drasticamente. A sua transformação em um zumbi digital biológico é quase que uma necessidade de sobrevivência, mas estamos esquecendo que isso está afetando o cérebro e pode estar afetando de uma forma que não queremos”

Quando ingressamos em uma nova instituição, é comum nos sentirmos perdidos e nos depararmos com um cenário repleto de informações que demandam leitura. Isso é natural e faz parte da vida real e adulta. O que fazer nesses casos? Não ler? Desistir? Fazer um monte de perguntas aleatórias? Não é muito mais maduro e eficiente ler as informações com calma, quantas vezes for necessário, e depois tirar as dúvidas?

Sinto que estamos diante de um grande problema, mas a sociedade não apenas não está dando a devida importância, como também está banalizando e romantizando o tamanho do problema. Espero não ser tarde demais para que algo seja feito.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Efeito borboleta

"A gente se move facilmente no que é grande e distante / difícil é apreender o que é próximo e singular", ironiza um epigrama do austríaco Franz Grillparzer. É outra luz de compreensão para o momento político norte-americano, em que a candidatura de Kamala Harris parece avivar chamas da democracia em meio ao seu declínio incipiente na maior potência mundial. Para o escritor angolano João Melo, a eventual vitória de Harris será boa para a sociedade americana e para o mundo, não por qualquer razão geopolítica, mas pelo "efeito borboleta" nos demais países.


O raciocínio é vizinho ao do epigrama, pois se atém a uma singularidade, deixando na sombra o "grande e distante", isto é, a geopolítica imperial. Essa é a dimensão em que circula o slogan trumpista "Maga" ("torne a América novamente grande"), que só parece algo de novo quando se esquece que o mote de Reagan era"America is back again", ou seja, "a América está de volta". Mero delírio cinematográfico de conforto à nação fragilizada pela derrota no Vietnã, acompanhada à distância televisiva por um povo cujos filhos precisavam se drogar na cena de guerra para aceitar que estivessem morrendo por nada.

Mas um delírio autopublicitário, que obtém confiança paradoxal, "aquela que se dá a alguém em função de seu fracasso ou de sua ausência de qualidades" (Jean Baudrillard, em "América"). Nada de credibilidade real, e sim crença sectária nas profecias de um chefe qualquer. Desde Reagan, a América estaria atravessando o que Baudrillard chamou de "histeresia de potência", isto é, um efeito que continua depois que a causa desapareceu e se desenvolve por inércia. Trump, puro efeito de tevê, é imagem dessa potência mítica e publicitária, agora impulsionada por redes protofascistas.

Por trás dessa grande ilusão, está a realidade da aliança do complexo militar com o capitalismo financeiro. Se eleita, Harris nada poderá fazer para alterar o capitalismo bélico, assim como nada puderam Obama ou Biden. Pelo contrário, estimularam a simulação imperial, incrementando guerras e matando inimigos mundo afora. Foram, porém, operadores do "efeito borboleta", que é o percebido como próximo nos países às voltas com instabilidades democráticas.

Neles, o discurso democrata de Kamala Harris, por mais ambíguo que seja, ainda oferece o melhor da América, a sugestão de liberdade política, que faz a diferença entre o horror do grande e a normalidade do singular. Para quem vive em espírito público de qualidade negativa, movido a ódio e baixarias, é uma oferta confortável. Trump, claro, é a obscenidade da cena primitiva americana. Se eleito, não será apocalipse nenhum, mas um "flatus" desagradável da impotência moral da potência.
Muniz Sodré

Venezuela é um caso perdido para Lula

Quem quiser que se iluda: a não ser que haja uma grande rebelião popular, Nícolás Maduro se consolidará como ditador da Venezuela. Usará de todos os recursos institucionais de que dispõe para sua permanência no poder por mais seis anos, reprimirá duramente a oposição e contará com apoio internacional suficiente para sustentar essa posição. Ainda que enfrente grande reação no Ocidente democrático, liderada pelos Estados Unidos. Os esforços do Brasil, do México e da Colômbia para que o resultado das urnas seja respeitado fracassaram.

A Venezuela conta com forte apoio dos seus militares e do eixo euroasiático formado por Rússia, China, Coréia do Norte e Irã, além do apoio de Bolívia, Cuba, Honduras e Nicarágua. Esse sistema de alianças garantirá a sobrevivência do regime venezuelano, mesmo diante do bloqueio econômico que certamente sofrerá dos Estados Unidos e da União Europeia, além de Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá, Peru, República Dominicana e Uruguai, países com os quais rompeu relações diplomáticas. Os esforços do Brasil e da Colômbia, que ainda tentam uma saída negociada para a crise venezuelana, estão fracassando.

É uma situação delicada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sofre grande desgaste interno em razão de suas relações históricas com o chavismo e uma posição que muitos consideram dúbia, por causa de declarações que contemporizam com Maduro e, de certa forma, teceram o roteiro que o venezuelano pretende seguir para se legitimar perante o Brasil. Lula havia dito que a oposição deve contestar os resultados oficiais na Justiça, como se houvesse independência do Legislativo e do Judiciário na Venezuela. Maduro agarrou a proposta com as duas mãos.


É uma espécie de feitiço contra o feiticeiro. O ativismo diplomático de natureza ideológica de Lula na América Latina, desde a posse, coleciona fracassos, porque não dá conta das contradições e diversidade política da região, ao contrário da nossa tradição de política externa pragmática e independente, que poderia ser mais bem sucedida sem esse viés esquerdista. Todos os setores democráticos que apoiaram Lula contra Jair Bolsonaro, em 2022, para interromper a deriva autoritária em que o país estava, agora cobram seu posicionamento contra a permanência de Maduro no poder. Não foi por falta de aviso.

A possibilidade de o Brasil, a Colômbia e o México serem fiadores de uma solução negociada do impasse subiu no telhado: Maduro precisaria reconhecer a derrota ou convocar novas eleições, sob supervisão internacional. Isso dependeria de uma escalada de endurecimento da posição dos Estados Unidos e de uma fissura interna nas Forças Armadas. Não parece ser o que vai acontecer.

A América Latina passa por uma curva da história, moldada pela presença crescente da China, com investimentos em infraestrutura e recursos vitais, que desafiam a influência dos Estados Unidos na região. A China é um parceiro valioso, principalmente para o Brasil, apesar dos riscos de dependência econômica.

Essa disputa com os Estados Unidos, porém, no caso da Venezuela, tem um ingrediente muito perigoso: o pacto militar com a Rússia, que fornece equipamentos bélicos às Forças Armadas venezuelanas. Os militares ganham mais força e poder durante o governo de Hugo Chávez, entre 1999 e 2013. Sua fidelidade ao governo sustenta-se no poder (ocupam cargos importantes), no dinheiro (controlam petróleo e minérios) e no medo (a dissidência não é tolerada).

A tensão entre Venezuela e Guiana sobre o território do Essequibo, por causa do petróleo, exacerba essa influência militar. A presença dos Estados Unidos na América Latina continua hegemônica, mas precisa oferecer alternativas aos investimentos chineses, manter o equilíbrio geopolítico e respeitar a soberania dos países da região. Diplomacia e cooperação precisam caminhar de mãos dadas com a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento sustentável.

Um ambiente de paz e equilíbrio na região depende muito do posicionamento do Brasil, que tem 1.987.000 militares na ativa, além de 84 milhões de reservistas. O Brasil possui 723 aviões, 255 helicópteros, 1.707 veículos terrestres, 180 lançadores de foguetes, 110 embarcações e cinco submarinos de combate. Em contraste, a Venezuela conta com 280 aviões, 104 helicópteros, 700 veículos terrestres, 52 lançadores de foguetes, 50 embarcações e dois submarinos.

Entretanto, por causa da Venezuela, crescem a instabilidade e o risco de confrontos na região. No caso da Guiana, a presença de ExxonMobil e as ameaças de anexação de Essequibo pela Venezuela farão com que os americanos queiram implantar uma base militar no país vizinho, uma ex-colônia britânica. O foco dos Estados Unidos na América Latina é a garantia dos seus interesses comerciais, políticos e geoestratégicos, e a consolidação de sua posição como liderança em todo o continente americano.

O Brasil precisa ser claro em relação à sua parceria com os Estados Unidos, um aliado estratégico regional para questões de segurança, como na Segunda Guerra Mundial, quando o país se juntou aos aliados no combate ao nazifascismo na Europa. Mas também como um parceiro comercial, pois é o principal destino de nossas exportações industriais, afora o potencial de parcerias nos campos do pré-sal.
Luiz Carlos Azedo

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda

O governo da Venezuela é uma ditadura. Não importa que Lula, seu assessor Celso Amorim e o PT afirmem o contrário. O regime de Nicolás Maduro não preenche nenhum dos requisitos de uma democracia, a começar pelas eleições farsescas, como a realizada no domingo (28).

Além de se recusar a divulgar as atas do pleito, o governo interferiu na disputa ao impedir candidaturas da oposição e coagir eleitores.

Como em toda ditadura, o aparato policial do Estado persegue jornalistas e dissidentes. No Índice de Liberdade de Imprensa da ONG Repórteres sem Fronteiras, a Venezuela é a 159ª colocada entre 180 nações.


Estima-se que 125 pessoas foram mortas nos protestos de 2017. O Tribunal Penal Internacional levantou mais de 1.500 denúncias de abusos das forças de segurança, enquanto a ONU computou 122 casos de tortura e violência sexual.

O governo da Venezuela é de esquerda. Não importa que militantes e até parte da imprensa digam que não é —no caso dos jornalistas, solapar dados históricos e princípios básicos da economia e da ciência política desse modo é vergonhoso.

Maduro é cria do chavismo, uma ideologia populista passadista que se apoia no anticolonialismo de Simón Bolívar e no discurso socialista dos anos 1960, como a crítica ao livre mercado e ao imperialismo dos EUA. No Índice de Liberdade Econômica de 2023, a Venezuela está na posição 174 —à frente apenas de outras duas ditaduras de esquerda, Cuba e Coreia do Norte.

Diz-se que seria de direita pois é militarista, tem apoio de evangélicos, não legaliza o aborto, nem respeita homossexuais. Mas tal argumento é um disparate, já que o esquerdismo de Maduro é datado, relativo ao período da Guerra Fria, não o em voga identitário, focado nos costumes.

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda. Os cerca de 8 milhões de refugiados do país, que escaparam da fome e da violência estatal, a sentiram na pele. Não importa o malabarismo conceitual do PT, da militância e de parte da imprensa.

A mentira voa, a verdade coxeia

Os episódios de violência baseados na difusão de falsidades não começaram agora. Há uma história longa de notícias falsas potenciarem movimentos de violência coletiva ou condenações judiciais infundadas, invariavelmente com o racismo e a xenofobia como panos de fundo. Os Protocolos dos Sábios de Sião, o caso Dreyfus ou o julgamento de George Edlji no Reino Unido são casos exemplares do início do século XX, todos sobejamente retratados, que vale a pena recordar por demonstrarem que as notícias falsas não nasceram hoje e têm consequências.

Sintomaticamente, Jonathan Swift, no século XVIII, alertava já que “uma mentira voa, enquanto a verdade vem a coxear atrás dela”. Mas, do mesmo modo que é errado olhar para a forma como a difusão de falsidades se traduz em violência como uma novidade histórica, é também equívoco desvalorizar a originalidade como isso acontece nos nossos dias.


Recordo isto depois de esta semana, no Reino Unido, um jovem de 17 anos ter assassinado três crianças — e ferido outras oito com gravidade — e ainda dois adultos, num ataque com uma faca durante uma aula de dança dedicada a Taylor Swift. A polícia britânica divulgou pouca informação sobre o ataque bárbaro, até porque o acusado é ele próprio menor. Entretanto, sempre foi assegurando que o crime não estava a ser investigado como ataque terrorista, e o The Guardian escreveu que terá sido motivado por perturbações mentais, enquanto a BBC avançou que o suspeito não tinha ligações a movimentos islâmicos radicais.

De pouco valeu esta informação de duas fontes credíveis ou os apelos dos familiares das vítimas para que o luto fosse respeitado. Nas redes sociais, em particular no X, figuras proeminentes da extrema-direita britânica logo se apressaram a sugerir que o atacante tinha chegado de barco ao Reino Unido e que aguardava resposta a um pedido de asilo. As palavras tiveram consequências: primeiro em Southport, depois por todo o Reino Unido um conjunto de motins levou à detenção de mais de cem pessoas, com 50 polícias feridos.

É natural que uma tragédia como a de Southport gere revolta, mas como é que se passa da justa indignação com a barbárie para motins de pendor racista? A resposta está num ecossistema sociopolítico disponível para acreditar em falsidades e na existência de mecanismos rápidos para a sua propagação.

São complexos os motivos pelos quais a ansiedade económica se transformou também em ódio face ao outro e, em particular, num poderoso movimento de islamofobia. A ambição securitária de regresso a sociedades culturalmente homogéneas (um passado mitificado que nunca existiu) é, hoje, uma alavanca política poderosa. Dir-me-ão, sempre foi: o racismo e a xenofobia estiveram na génese da maior barbaridade do século XX, o Holocausto. É um facto. Mas não secundarizemos o que é novo.

Ao contrário do passado, a inexistência de um movimento social organizado não impede a mobilização política. Pelo contrário, a fragmentação política até se revela vantajosa, pois acaba por se transformar em convergência na ação. Acima de tudo, as redes sociais transformaram a validade da centenária asserção de Jonathan Swift. Em particular o X, agora detido pelo entusiasta do trumpismo Elon Musk, funciona com cada vez menos regulação e promove um ciclo imparável: primeiro, contas anónimas difundem uma falsidade, que logo é amplificada por figuras proeminentes da extrema-direita, para depois ser transformada em ação política nas ruas.

As mentiras hoje voam à velocidade da luz, enquanto a verdade fica paralisada a assistir. Também aí radica o deslaçar político das nossas sociedades.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


A insurgência verde

Antes mesmo de se difundir o que vem sendo chamado de consciência ambiental, começavam a ter visibilidade, entre nós, manifestações populares espontâneas de outra variante dessa consciência. A que pode ser definida como consciência prática da relação homem-natureza, a consciência do vivido.

Migrantes vindos da roça, em recantos de favelas, na beira de riachos, nas sobras de terra urbana, semearam hortas e pomares, na tradição dos tempos coloniais das terras comunitárias. Acompanhei em São Paulo e no subúrbio a proliferação, nessa perspectiva, de versões populares do que Ernst Götsch, na Bahia, em seu notável experimento de regeneração produtiva do solo, chama de agrofloresta.



O antagônico da destruição decorrente da expansão da economia neoliberal, do capitalismo rentista, lucrativo no curto prazo e anticapitalista no tempo histórico. A desvalorização de tudo que não é imediatamente lucrativo, como tradições e pessoas.

Um senso comum de amadores da economia foi ocupando o lugar do que o pensador italiano Antonio Gramsci definiu como bom senso. A satanização de Gramsci pelos porta-vozes dessa modalidade de pobreza mental é bem expressão da visão redutiva de mundo dos patronos do lucro sem moral. Ou o que Thompson, em estudo célebre, define como economia moral, a que motivou a derrubada da Bastilha em 1789.

Coisa de gente tosca que se autodefine “de direita”, não porque saiba o que quer e o que pode, mas justamente porque não o sabe. Os que definem como de esquerda, supondo estigmatizá-los, quem e o que lhes revela as irracionalidades e a mentalidade do caos. Gente daquela melancólica reunião de governo de 22 de abril de 2020, quando o ministro da área ambiental sugeriu a possibilidade legal de, através de normas infralegais, contornar e violar as regras ambientais passando por baixo do arame farpado da lei.

Direita, como a brasileira, que não tem propriamente medo do comunismo, pois não sabe o que ele é. Tem, sim, medo do conhecimento cientificamente fundamentado que explica a realidade e suas tensões inovadoras. Tem medo do humanismo da tradição popular. Afirma-se conservadora, quando é apenas reacionária. Agarra-se ao presente de contradições e irracionalidades lucrativas porque tem medo das transformações sociais que emancipam e libertam as vítimas da injustiça econômica e da opressão social.

Basicamente, seus agentes sabem que não têm competência para construir o país do futuro nem para nele viver. Cospem no amanhã da pátria e no seu futuro histórico. É o escarro da sociedade do absurdo.

É justamente a concepção popular da questão ambiental, em países como o nosso, um dos refúgios da tradição conservadora, como expressão de um modo de vida excluído das relações econômicas dominantes. Último reduto dos grandes legados da história social e cultural, das pequenas maravilhas do saber dos simples.

Âmbito em que o ser humano se reconhece como ser totalizador e de totalidade em movimento. Isto é, como ser conectado com todos os domínios da vida na relação entre o homem e a natureza, o todo que propõe desafios e dá sentido à vida. Nessa perspectiva, as lutas sociais são lutas contra a vida sem sentido. Essa é a visão de mundo de esquerda. O resto é resto.

Quem é o protagonista desse mundo da liberdade, da superação, da humanização do homem e da transformação social? Teve momento em que os pensadores sociais demonstravam que o protagonista era a classe operária. Mas a sociedade capitalista sujeitou e fragilizou a classe trabalhadora ao minimizar o trabalho e transformar o próprio desemprego em fator de lucro e de lucratividade.

O sujeito da nova realidade possível é o homem simples, sujeito da contradição representada pelas vítimas incapturadas do desenvolvimento econômico socialmente excludente.

É nessa perspectiva que a questão ambiental não é apenas a questão do meio ambiente, mas a questão social da relação homem-natureza, a relação mediadora da necessidade de transformação social. A que propõe o homem de necessidades como autor das mudanças sociais. O homem não como produtor de coisas, de porcas e parafusos.

O homem dessa realidade é produtor do seu destino possível. Seu modo residual de ser, de viver e sobreviver e de pensar é fundamento da crítica de um modo capitalista de lucrar que já não coincide com um modo capitalista de participar nem mesmo na produção. Milhões de desempregados são disso o documento vivo.

No mundo inteiro, são muitíssimas as formas de insurgência contra a devastação da natureza e o negócio da destruição ambiental. O que com Lefebvre defino como insurgência da vida residual e insubmissa de resistência à alucinada economia da destruição lucrativa.
José de Souza Martins

Isolacionismo velho de guerra

Famílias sinti alemãs em frente a barracão
para isolá-las de r
Ravensburg,, em 1937

O radicalismo de direita está em ascensão na Europa. Temos que nos defender contra ele. Temos de educar os jovens!
Christian Pfeil,  sobrevivente sinti dos campos nazistas

A próxima guerra total

A cada dia cresce meu temor de estarmos caminhando para uma guerra total. Não mais “conflitos locais”; guerra sem limites, com múltiplas Hiroshimas e Nagasakis em todos os continentes.

Isso porque vejo escalarem os confrontos entre Ocidente x outras potências, assim como falas cada vez mais abertas de agentes da guerra afirmando a inevitabilidade de um confronto total. Chamo “agentes da guerra” àqueles ligados ao complexo industrial-militar-consumista, inclusive autoridades da OTAN e dos “inimigos” desta. Há, ainda, movimentos geopolíticos explicáveis como preparação da guerra total.

Analisando as próximas eleições nos EUA a revista The Economist afirmou recentemente (25/07/24): “O senhor Trump tem uma visão [equivocada] de magnata do ramo imobiliário, de que a força é simplesmente músculo; a força é ampliada quando enraizada em princípios”. Todos os agentes da guerra sabem muito bem que a força e a segurança nacional não se baseiam apenas em mais músculos, isto é, armas; é fundamental manter coerência com certos princípios. No entanto, insistem em fechar os olhos à frequência com que nações ocidentais quebram aquele que é, talvez, o mais fundamental de seus princípios fundadores e legitimadores: os direitos humanos! Assim procedendo, enfraquecem suas nações.


Interessante notar que a visão de mundo dos chineses se fundamenta na noção, que remonta à Confúcio, de “poder nacional abrangente”. Nesta, o “abrangente” explicita a necessidade de equilíbrio entre os vários pilares da força nacional, entre eles a educação, a ciência, a satisfação popular com sua vida etc. Neste último sustentáculo, as mais ricas nações ocidentais estão patinando ou regredindo desde os anos 1980, ao contrário da China!

Como ainda reivindicar o monopólio da defesa dos direitos humanos e continuar a enviar armas para Netanyahu tentar se manter no poder aniquilando palestinos e ampliando a guerra para outras frentes?

Quanto às falas, o último ministro da defesa do Reino Unido, ainda no cargo, disse ser inevitável a guerra total. Neste corrente julho de 24, um ex-secretário geral da OTAN, Lord George Robertson, recém nomeado para rever a política de defesa da Inglaterra, disse que “a Inglaterra e seus aliados enfrentam um quarteto mortal, composto por Rússia, China, Iran e Coréia do Norte, que agem em conjunto contra o Oeste, compartilhando armas, componentes e inteligência”. E não é verdade que a Inglaterra e seus aliados agem em conjunto contra aqueles quatro, também compartilhando armas, componentes e inteligência? Assim agindo, negando o princípio da coerência e da realidade, como a semelhança entre ações dos dois campos, não estão os “agentes da guerra” tentando nos preparar para o confronto total, desejado apenas por eles e seus sócios?

E não aprenderam ainda, esses agentes da guerra, após milhares de conflitos, que não existe vitória total e permanente baseada na força? No mundo pós-Hiroshima e Nagasaki, não é tempo de mentes menos obtusas assumirem o comando?

A banalização do mal e o fim da política

Enquanto peço o café, o olhar desvia-se para a televisão. Páro. Estremeço ao ver a notícia que ocupa o ecrã. Um homem, um avô, violou o neto de três anos. Sento-me e continuo a olhar, enojada. Em estúdio, o apresentador lança a discussão. “Este homem merecia o quê?”. Ouve-se, ainda fora do plano, alguém a responder “castração”. Os minutos seguintes são para uma psicóloga discorrer sobre como a castração química, por não impedir o desejo, pode tornar os abusos ainda mais perversos.


No dia a seguir, deixo as crianças na escola e, junto ao portão, tropeço no fim de uma conversa. Comenta-se a forma como algumas pessoas se recusam a dar prioridade a grávidas e bebés. Um pai, de ar plácido, reage perante um desses relatos, com uma voz que não denuncia sequer irritação. “Esse homem merecia a pena de morte”. Nenhuma reação.

Ponho os auscultadores e sigo pela rua, ouvindo um podcast. A reportagem do The New York Times é sobre o que será um Trump 2.0 e fala sobre a forma como o agora candidato à Casa Branca tem um plano para remover os obstáculos que refrearam o seu primeiro mandato.

O microfone vai para Ed Young, de Brick, New Jersey, que está num comício de Donald Trump. É 78.º comício de Trump a que vai. “Espero que quando for reeleito se acabe o Mr. Nice Guy. Espero que haja um acerto de contas”. E como? “Bem, sabe, esta é a minha fantasia, aquilo de que este país precisa mesmo. Quer dizer, não vai acontecer. Na minha fantasia aquilo de que precisamos é de um julgamento ao estilo de Nuremberga para este país. E que todos os eleitos democratas sejam julgados por traição. E, se forem condenados, que sejam castigados, tal e qual como os nazis em Nuremberga. Espero por Deus ver criminosos malvados e traidores como os democratas serem presos e condenados”.

A castração, a pena de morte, a prisão política. O desejo de aniquilação do outro, motivado por um suposto sentido de justiça. A forma como a racionalidade desapareceu de um discurso público inflamado por uma indignação contínua e estéril, está a ter efeitos profundos.

Pode dizer-se que são efeitos de linguagem. Talvez a comentadora que, em estúdio, fala na castração estivesse a agir sob o efeito da repulsa óbvia que o crime provoca. Talvez o apresentador não se tenha sequer questionado sobre os efeitos que a pergunta que lançou tem sobre quem acaba de ser confrontado com um ato tão abjeto. Certamente que o pai que conversava à porta da escola não pretendia matar quem recusa dar a vez a uma grávida. E o apoiante de Trump usa mesmo a expressão “fantasia” e tem o cuidado de afirmar que aquilo que deseja “não vai acontecer”. E, no entanto, esta forma de agir sobre o mundo com a vontade de aniquilar o outro é cada vez mais frequente, ao ponto de se tornar banal. É com a banalização do mal que estou preocupada.

Estamos perante o fim da política. Aniquilar aquele com quem não se concorda, de forma real ou simbólica, é renunciar à política. Quem nos instiga a indignação excitada, quem promove o ódio sobre o outro, quer verdadeiramente que renunciemos à política, deixando o campo aberto para que sejamos conduzidos sem reação para um mundo que promete lei e ordem, mas que se alimenta do caos necessário para que uma pequena elite reine incontestada sobre a turba oprimida e alienada.

Do que precisamos não é de indignação. É de pensamento crítico. Aquele que obriga a tudo o que está fora de moda. Ouvir, ler, refletir, atrasando a reação, aceitar o erro, mudar de ideias, abdicar de certezas. Seremos ainda capaz disso?

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


O que o Fed está fazendo com nossa eleição, nosso clima e nossa economia

Enquanto todos os olhos estão em Donald Trump e Kamala Harris, um dos maiores fatores que influenciam o humor dos eleitores americanos está acontecendo em outro lugar. A forma como o Federal Reserve lida com a inflação está azedando o público em relação à nossa economia, prejudicando os americanos vulneráveis, desacelerando nossa luta contra as mudanças climáticas — e dificultando a luta contra a inflação em si.

Nos últimos meses, o Fed tem resistido a reduzir as taxas de juros em um ambiente que claramente exige taxas mais baixas. Veja sua medida de inflação favorita, o índice de preços de Despesas de Consumo Pessoal. O Fed declarou repetidamente que não reduziria as taxas até ter confiança de que o PCE estava voltando para 2%. No entanto, já estamos lá: enquanto o PCE anualizado está em 2,5%, o PCE anualizado de três meses é de apenas 1,5%.

Enquanto o Fed continua esperando, a dor continua se acumulando. Ao aumentar as taxas a uma velocidade não vista em mais de quatro décadas e, em seguida, mantê-las em ou perto das máximas de 25 anos, o Fed praticamente congelou o mercado imobiliário e manteve uma geração de potenciais compradores de imóveis pela primeira vez presos no mercado de aluguel, onde os picos de preços têm sido especialmente acentuados. Essa tendência tem sido devastadora para muitas pessoas — a propriedade de imóveis é onde muitos americanos de classe média armazenam a maior parte de sua riqueza, e o proprietário médio ganhou cerca de US$ 210.000 em patrimônio líquido na última década.


Há também o dano que taxas de juros desnecessariamente altas estão causando em nossa batalha contra as mudanças climáticas. Projetos de energia limpa normalmente envolvem custos de financiamento iniciais mais pesados ​​que se tornam mais caros com taxas mais altas. Um relatório de 2020 estimou que aumentar as taxas de 3% para 7% poderia aumentar o custo de um projeto de energias renováveis ​​em cerca de um terço para projetos nos Estados Unidos. E, claro, taxas de juros mais altas prejudicaram os consumidores mais pobres que dependem de taxas variáveis ​​de cartão de crédito e empréstimos para automóveis.

Enquanto isso, alguns economistas acreditam que os riscos de recessão estão aumentando: o desemprego está agora em 4,1%, em comparação com 3,7% em janeiro.

Além de tudo isso, há uma razão ainda mais fundamental para que o Fed reverta o curso mais cedo. Não está claro se as taxas de juros são a melhor ferramenta para reduzir o tipo de inflação que os Estados Unidos vêm vivenciando.

A inflação que tem atormentado os Estados Unidos e a Europa desde 2021 veio substancialmente dos chamados fatores do lado da oferta , ou choques que dificultam a capacidade da economia de produzir bens: uma pandemia que fechou fábricas, guerras que aumentaram os preços dos grãos, quebras de safra induzidas pelas mudanças climáticas que fizeram o mesmo, rebeldes Houthi lançando ataques de drones em um dos pontos de estrangulamento marítimo mais movimentados do mundo e assim por diante. Para muitos desses problemas do lado da oferta, taxas mais altas estão piorando as coisas. "A principal ferramenta do Fed para reduzir a inflação", como o economista Mark Zandi disse ao The Atlantic, "está na verdade fazendo o oposto".

Considere a habitação. Moradias para aluguel foram recentemente responsáveis ​​por dois terços estimados da inflação acima da meta de 2% do Fed. A solução para aluguéis muito altos é construir mais moradias. No entanto, taxas de juros que empurram hipotecas para altas históricas são extremamente contraproducentes para novos começos de moradias, porque tornam mais difícil e caro para construtoras e incorporadoras financiar novas construções.

O mesmo vale para a energia, outra grande fonte de inflação recente. Como qualquer commodity essencial, até mesmo pequenos déficits de fornecimento — do tipo frequentemente causado por gargalos de refino ou membros da OPEP brincando de geopolítica com cotas de produção — podem causar picos massivos de preços. Mudar as redes de energia dos EUA para funcionar com energias renováveis ​​ajudaria a imunizar a economia das altas que são tão comuns com petróleo e gás. Mas as altas taxas atuais estão se mostrando um verdadeiro obstáculo para esses investimentos, que os Estados Unidos acabaram de aprovar uma legislação para acelerar.

É por isso que, por décadas, os formuladores de políticas rotineiramente distinguiam entre diferentes tipos de inflação e personalizavam suas respostas de acordo. Onde a inflação decorria mais desses drivers do lado da oferta, as taxas de juros eram vistas como uma ferramenta atenuada e excessivamente contundente; a melhor resposta era simplesmente encontrar e remediar esses bloqueios ou escassez, ou preveni-los em primeiro lugar.

Mas na década de 1970, o economista Milton Friedman começou a recrutar seguidores para sua visão da inflação como "sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário", significando que a inflação ocorria sempre que a oferta de moeda ultrapassava os bens ou serviços sendo produzidos. As políticas monetárias restritivas do Sr. Friedman surgiram como parte da revolução mais ampla que ele inaugurou na economia.

Décadas depois, há dúvidas reais e crescentes sobre se o Sr. Friedman estava certo. Além de exacerbar alguns motores da inflação, os últimos aumentos de taxas não fizeram muito para esfriar o consumo, e há muita confusão , mesmo entre alguns dos principais economistas, sobre como eles funcionam.

Precisamos voltar a entender os diferentes sabores da inflação, pois o mundo provavelmente passará por muito mais dessas dores de cabeça de inflação do lado da oferta — mais agitação geopolítica, mais seca, possivelmente mais pandemias, uma força de trabalho envelhecida . Aumentos nas taxas de juros — que, na melhor das hipóteses, são irrelevantes e, em muitos casos, são ativamente inúteis para desfazer esses problemas de oferta — não são uma solução particularmente boa para nenhum deles.

Para abordar a raiz do problema, os Estados Unidos precisam de um uso mais criativo de reservas estratégicas e estoques de proteção, especialmente para certas indústrias que abrangem inúmeras cadeias de suprimentos. Assim como o governo Biden expandiu o uso da Reserva Estratégica de Petróleo para amortecer picos de preços, devemos desenvolver reservas semelhantes para minerais críticos, como lítio e grafite, que são essenciais para a fabricação de baterias e são incomodados por grandes oscilações de preços. A especulação financeira em commodities agrícolas — desencadeada quando os Estados Unidos desregulamentaram os mercados de commodities há mais de 20 anos — frequentemente cria aumentos de preços desconectados das realidades físicas de fornecimento. Estoques de proteção mais bem coordenados poderiam acabar com esse jogo financeiro.

O Fed ou o Congresso também devem seguir o exemplo de outros bancos centrais (o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão vêm à mente) que têm programas destinados a aliviar as condições financeiras para certos bolsos da economia. Fazer isso para projetos de habitação e energia limpa nos Estados Unidos — mesmo temporariamente, digamos, nos próximos 24 a 36 meses — ajudaria a transformar o Fed de antagonista em aliado no alívio de pelo menos dois grandes culpados por trás da inflação recente. Na verdade, no caso da energia limpa, ele estaria usando a política monetária para ajudar a cortar as pressões inflacionárias de picos frequentes de preços em petróleo e gás.

Por fim, o Fed deveria começar a cortar as taxas agora, em vez de esperar até setembro ou mais tarde, como tem sinalizado até agora.

Depois de anos vivendo na névoa da Covid e suas consequências inflacionárias, é importante que os americanos, que estão tentando entender a economia antes da eleição, se beneficiem dos fatos mais claros possíveis. A inflação é uma batalha de ontem. Já passou da hora de nosso governo parar de confiar reflexivamente em uma ferramenta que distribui consequências previsivelmente duras e benefícios não confiáveis ​​quando um bisturi mais preciso e eficaz poderia muito bem ser suficiente.

Onde podemos fazer melhor, devemos fazê-lo.

A partir de hoje estaremos a viver acima das nossas possibilidades

O Dia da Sobrecarga da Terra assinala-se este ano mais cedo e o planeta habitado pelo Homem já está a consumir recursos referentes a 2025.

Todos os anos, esta data é assinalada num dia diferente e cada vez mais cedo no calendário – um cálculo da Global Footprint Network, organização internacional de sustentabilidade, pioneira na pesquisa e medição da pegada ecológica.

Se todos os resíduos eletrónicos fossem reciclados ou reutilizados seria possível atrasar a efeméride em aproximadamente quatro dias.

Na verdade, não é apenas com as entidades bancárias que as pessoas contraem dívidas. Neste momento, os mais de 8,2 mil milhões de habitantes do planeta Terra estão a viver a crédito dos recursos naturais, ou seja, consome-se mais do que a capacidade do planeta para regenerar esses recursos.


Ainda não reduzimos o consumo o suficiente, nem reciclamos, reutilizamos e recondicionamos que chegue para equilibrar a balança natural e ambiental.

“As consequências dos gastos ecológicos excessivos são evidentes na desflorestação, na erosão do solo, na perda de biodiversidade e na acumulação de dióxido de carbono na atmosfera, o que leva a fenómenos meteorológicos extremos [secas, inundações e incêndios florestais] mais frequentes e à redução da produção de alimentos”, lê-se no site da Global Footprint Network. E ainda, segundo a Associação Zero, o colapso dos stocks de peixes, a escassez e a poluição da água.

A empresa independente com sede nos EUA, Bélgica e Suíça aconselha a população mundial a progredir através do foco para ter sucesso e acabar com o excesso intencional.

“Em 1968, Dick Fosbury revolucionou o salto em altura nas Olimpíadas do México, numa época em que a humanidade usava apenas 0,9 Terras. Em 1988, quando o velejador olímpico Lawrence Lemieux parou no meio da corrida para resgatar dois competidores que se viraram, a procura da humanidade pela natureza cresceu para 1,3 Terras. Em 2008, quando Usain Bolt bateu os seus primeiros recordes olímpicos, o número cresceu para 1,6 Terras. Poderemos invocar a mesma determinação para reverter o nosso excesso ecológico?”, questiona a Global Footprint Network.

Mas existem soluções práticas para amortizar o crédito e sermos menos devedores? Sim. Vamos a alguns exemplos: reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) dos combustíveis fósseis em 50% significaria um recuo de três meses no Dia da Sobrecarga da Terra.

Segundo as Nações Unidas, a produção mundial de resíduos eletrónicos atingiu 62 milhões de toneladas em 2022, o suficiente para encher 24 800 piscinas olímpicas, mais 82% do que em 2010. Destas, 4,6 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos provêm da categoria de pequenos equipamentos tecnológicos e de telecomunicações, como computadores portáteis ou telemóveis e apenas 22,3% foram reciclados de forma adequada.

Um estudo da refurbed, mercado online de produtos recondicionados, fundada em 2017, em Viena, na Áustria, contabilizou que em média, cada pessoa, guarda 2,72 smartphones sem uso. O recondicionamento desses e outros aparelhos eletrónicos, em comparação com os novos, pouparia em média 83% de CO2, 89% de água e 77% de resíduos.

Com os computadores recondicionados a poupança pode chegar a 872,9 kg de CO2 por unidade.

Se cinco em cada dez smartphones vendidos em Portugal fossem recondicionados poupar-se-ia o equivalente a um dia de emissões de CO2 no País, de acordo com dados da refurbed e da Fraunhofer.

Portugal esgotou os seus recursos a 28 de maio (o ano passado aconteceu 21 dias antes), enquanto a totalidade da União Europeia (UE), com 27 Estados-Membros, já tinha consumido o plafond a 3 de maio. “Apesar de a UE representar apenas 7% da população mundial, seriam necessários três planetas Terra para satisfazer a procura se toda a gente na Terra vivesse como os europeus”, alerta a Associação Zero.

“A Europa está a caminhar para sofrer aumentos de temperatura duas vezes superiores aos de outros continentes devido às alterações climáticas. E os riscos ligados à exploração dos recursos, como a violência, a pobreza e a má governação, põem em risco a paz e a segurança mundiais”, sublinha a organização não governamental.

É preciso recuar mais de 50 anos, até 1973, para encontrar um Dia da Sobrecarga da Terra atingido só no final do ano (3 de dezembro).

Se cada pessoa no planeta vivesse como uma pessoa portuguesa, a humanidade precisaria de 2,9 planetas para sustentar a sua utilização de recursos. O consumo de alimentos (30% da pegada global do país) e a mobilidade (18%) estão, assinala a Zero, entre as atividades que mais contribuem para a pegada ecológica de Portugal.

Eleição é rito de passagem

Toda mudança de papéis e de espaço social é uma “passagem”, e tal movimento requer uma ritualização confirmadora. Arnold van Gennep, que estudou e cunhou essa dinâmica ritual num livro clássico (“Os ritos de passagem”, publicado em 1909 e introduzido no Brasil em 2013, com minha apresentação), dizia que todas as passagens implicam separação, marginalidade e integração.

Dessas três fases, a mais perigosa é a intermediária. Fase na qual o grupo ou a pessoa não está onde estava, mas ainda não se encontra onde deveria estar. Rituais de sucessão como eleições periódicas — essa exigência da democracia liberal — expõem a ambiguidade dos limbos, purgatórios e viagens. Na campanha eleitoral, a dramaticidade dessa etapa intermediária da sucessão exibe o seu momento crítico.

Não é por acaso que a consagração de reis e papas é repleta de vestes, adornos e gestos de sujeição e autoridade transcendentes. Nos tempos pós-modernos, porém, coroas e espadas foram substituídas por códigos digitais, como profetizou Stanley Kubrick no filme “Dr. Fantástico”. Um automatismo que autoriza iniciar ou terminar uma guerra nuclear capaz de destruir o planeta. Essa capacidade digital é, sem dúvida, o aterrorizante símbolo que acompanha o cargo de presidente ou ditador das potências mundiais.

A eleição presidencial americana traz de volta a simbologia dos ritos de sucessão na sua fase mais delicada: o momento em que um presidente conduz uma eleição na qual ele tem partido, e o seu adversário é um ex-presidente marcado por uma selvagem agressividade verbal e um comportamento incompatível com o papel, mas que foi vítima de uma tentativa de assassinato. Culmina esse tumulto numa disputa eleitoral com uma candidata negra que desempenhou o papel de vice-presidente do atual chefe da nação, que preside essa passagem eleitoral com um alto teor de ambivalência e polarização. É um bom exemplo de evaporação das racionalidades que, afinal, são os guias de nosso modo de vida.

Os iluministas delinearam a República com poderes interdependentes e um sistema sucessório destituído da parafernália sacrossanta. Mas não se pode deixar de assinalar que, nos ritos de posse presidencial dos Estados Unidos, o eleito levanta sua mão direita para os céus e pousa a outra mão numa Bíblia (o livro sagrado dos puritanos). Ao compromisso transcendental realizado com a mão direita (a mão das preces e contratos voltada para o alto), segue a promessa de cumprir um outro livro equivalente à Bíblia — um código que é o espírito dos Estados nacionais modernos: a Constituição que governa governos.

Um antropólogo abusado perguntaria: qual é o livro mais sagrado, mais idealizado e mais removido do mundo diário e das espertezas políticas, focadas no apetite de vencer?

Tais gestos rituais reafirmam o credo liberal americano e, com ele, o conceito rousseauniano de “religião civil”. Crença ameaçada por Donald Trump.

Nos Estados Unidos existe uma arrepiadora tradição de assassinar presidentes. Na América Central e na do Sul, ainda se corre o risco dos “golpes” que dissolvem a tripartição dos Poderes e instauram furiosa repressão e um Executivo centralizado. Ao lado disso, há a competição pelo extremismo de ideologias que deteriam o segredo da felicidade. Valores transcendentes são relativizados pela força bruta do poder ou do poder como força bruta.

Em matéria de vida coletiva, precisamos de instituições perenes e de gestos praticados em nome de uma terra que foi feita por certos ideais e estilo de vida que estão inscritos nos nossos corações. É mais do que terra: é pátria.

Foi o que vi e admirei em Joe Biden. Há quem diga que o altruísmo é um mero gesto político. Sem dúvida. Mas lembro que, num estudo sobre o suicídio de 1897, Émile Durkheim chamou a atenção para os “suicídios altruístas”, realizados em nome de valores coletivos. Então, o egoísmo que caracterizaria a renúncia não seria somente uma forma de esperteza. O egoísmo do altruísmo é o cerne de nossa maravilhosa contradição humana. É ela que distingue “heróis” e “salvadores do mundo”. Esses “egoístas” que se sacrificam em nome da democracia.
Roberto DaMatta

Mortos de Gaza


Não tenho vergonha de ficar na frente da câmera e dizer que estou com fome. Muitas crianças me pedem algo para comer sem saber que, como elas, fico acordado à noite com fome
Ismail Al-Ghoul, o mais recente dos 164 jornalistas mortos por Israel em Gaza

Construir a paz, sim, mas sem sectarismos

Um grupo de trinta laureados com o prémio Nobel encetaram uma iniciativa muito louvável ao pedirem diretamente a ajuda a líderes religiosos, através de carta, no sentido de desenvolverem iniciativas de paz neste mundo turbulento. Segundo o jornal digital 7 Margens: “enviaram uma carta aberta ao Papa Francisco, ao Patriarca Ortodoxo Bartolomeu, ao Dalai Lama e a vários representantes do Islão e do Judaísmo, pedindo-lhes que façam um apelo global a todos os governos para que, no espírito dos Jogos Olímpicos, seja alcançado um cessar-fogo à escala mundial.”

A ideia está muito para lá de sugerir uma trégua olímpica, sabendo-se que há um grupo de refugiados de dezenas de países do mundo que vai competir sem bandeira nacional, e sob a égide do próprio Comité Olímpico Internacional, sendo a segunda delegação a desfilar na cerimónia de abertura dos Jogos, logo após a Grécia, berço histórico do olimpismo.

O que se pretende é ir além da circunstância de Paris e pedir a libertação de quaisquer reféns, a devolução dos corpos dos que caíram em combate e o início efetivo de negociações para acabar com os mais de cinquenta e cinco conflitos em curso no planeta. Mas claro que há uma referência especial para a agressão da Rússia sobre a Ucrânia, pois “as consequências deste conflito prolongado, que entrou no seu terceiro ano, se repercutiram em vários países, provocando o aumento da fome nas nações africanas, uma crise migratória na Europa e a libertação de substâncias nocivas de cada bombardeamento para reservas de água, alimentos e leite que chegarão às pessoas dos seis continentes. Até ao final deste ano, o número de mortos e feridos na Europa Central deverá ultrapassar um milhão, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial”.


A carta, que é assinada por vários prémios Nobel da Medicina, da Literatura, da Química, da Física e da Paz, faz uma reflexão sobre o aumento dos orçamentos de defesa no mundo, e apresenta uma exortação frontal: “Em vez de sustentar a vida, desperdiçam-se recursos na propagação da morte”. Os signatários da missiva enviada às lideranças religiosas assumem que não representam Estados, mas fazem-no por força das circunstâncias: “(…) se os esforços dos Estados para restaurar a paz forem insuficientes, devemos agir. E imploramos que façam isso também! Pedimos-vos que apelem a um cessar-fogo e às ações necessárias para o alcançar. Devemos parar o fogo. Parar a perda de vidas humanas. Evitar uma catástrofe nuclear”.

Se a ideia era ter uma representação alargada das religiões abraâmicas, então por que razão ficou de fora um segmento religioso que engloba mais de 600 milhões de fiéis, como é o caso da World Evangelical Alliance (Aliança Evangélica Mundial)? De resto, em termos de números, a WEA tem muito mais peso do que alguns convocados do campo judaico ou budista. De igual modo se excluiu o World Council of Churches (Conselho Mundial de Igrejas), que congrega mais de 340 igrejas e denominações cristãs que representam para cima de 550 milhões de fiéis, presentes em mais de 120 países, em especial vastos sectores do protestantismo.

Uma coisa é certa. Não se pode esperar que investigadores de diversas áreas científicas tenham conhecimento da realidade religiosa do mundo, mas já seria razoável pensar que se poderiam ter tentado informar minimamente. Por outro lado, os líderes religiosos contactados sabem que não representam grande parte do espectro religioso global, pelo que poderiam ter tido a iniciativa de aconselhar os promotores a não manter os seus contactos tão limitados.

Todos são importantes nas tarefas de promoção da paz. E no mundo cristão todos conhecem o importante princípio ditado por Jesus Cristo no Sermão do Monte: “Bem-aventurados os pacificadores (felizes os construtores da paz), porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

Construir a paz é um processo de inclusão do que é diferente e passa desde logo por não deixar ninguém de fora.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Filhos de Chávez

A esquerda na região está dividida, não sabe o que fazer com esta criatura indecifrável que é o chavismo.

Existe uma esquerda nostálgica que acredita que a Venezuela dá continuidade à etapa de Hugo Chávez e que age como isso fosse acertado. Essa é uma esquerda mais emocional, que poderia ser descrita como irreflexiva 
José Natanson, cientista político argentino, autor de "Venezuela. Ensayo sobre la descomposición"

Para Maduro, Lula relativiza defesa da democracia

Parecia que Lula adotaria uma postura ligeiramente mais prudente em relação às eleições eivadas de evidências de fraude na Venezuela, mas o temor de que, uma vez encorajado a falar, o presidente brasileiro não conseguiria esconder o viés pró-Maduro se confirmou com as declarações dadas por ele em entrevista ontem.

Seria cômico, se não fosse lamentável e gravíssimo, que Lula decida culpar a imprensa brasileira (!) por, segundo ele, transformar na “Segunda Guerra Mundial” o que seria um processo “normal”.

Fica explícito que, quando não está em ambiente controlado, o presidente não tem nenhuma divergência em relação a seu partido, o PT, que prontamente reconheceu a vitória autoproclamada de Maduro, sem a apresentação dos boletins de urna ou de qualquer comprovação de que os números anunciados pelo cooptado Conselho Nacional Eleitoral (CNE) correspondem à realidade da população que compareceu em massa para votar.


Depois de sua vitória suada contra Jair Bolsonaro, e de denunciar, acertadamente, o 8 de Janeiro como uma tentativa de golpe no Brasil, Lula volta todas as casas no tabuleiro ao demonstrar absoluta falta de compromisso real com a defesa da democracia. Em outras palavras, essa pregação só vale quando o autoritário da vez é identificado pelo presidente e por seu partido com a direita ou a extrema direita, como é o caso de Bolsonaro ou de Donald Trump.

Ao derrapar feio mesmo no script de cautela ensaiada e tardia que o governo montou diante da pantomima chavista, Lula atrela seu mandato e, pior, o Brasil a uma ditadura sanguinária que deixa um rastro de mortes, violações de direitos e miséria na sua luta desesperada por manter o poder pelo poder, sem nenhum projeto visível para resgatar a Venezuela da crise em que ele próprio a mergulhou na sua escalada de terror.

O alinhamento incondicional a um regime que deixou de ter sequer uma plataforma social típica de governos socialistas, como Hugo Chávez e Maduro definem seu bolivarianismo militaresco, mostra quanto a ideologia turva a capacidade de discernimento de Lula e do PT, que preferem colher imenso desgaste doméstico e no front internacional a se dissociar de um tirano.

Assim, por obra e graça apenas do presidente e de sua sigla, sem que a oposição bolsonarista tenha precisado mover uma palha, Lula internaliza uma crise que de forma alguma deveria ser sua, menos ainda do Brasil diante de suas muitas carências urgentes nos campos social, econômico e ambiental.

Faz isso no momento em que sua popularidade vinha melhorando, o que mostra que mesmo o louvado tirocínio político de Lula, que o fez sobreviver a crises políticas e econômicas nos seus mandatos anteriores e, inclusive, renascer nas urnas depois de preso em 2018, está comprometido por uma certa teimosia em reafirmar posições antigas que não encontram mais qualquer respaldo na realidade.

Lula deu a declaração de que está tudo ormal na Venezuela mesmo depois da notícia de que há pelo menos 11 mortos em protestos no país, além da denúncia de perseguição a opositores e a ameaça explícita de Maduro de aprovar novas leis de exceções para se juntar ao seu extenso corolário de medidas ditatoriais.

Foi de improviso? Estava desinformado? Mas não enviou Celso Amorim ao cenário já conflagrado, mesmo com insistentes alertas de que isso seria uma fria? São perguntas simples, que deveriam ser triviais para fazer a um chefe de Estado diante de um cenário tão crítico.

Mas o Itamaraty virou um mero reprodutor de notas burocráticas, o chanceler Mauro Vieira é uma testemunha silente do que Amorim diz a um Lula bastante disposto a ouvir só que foi tudo bem, e o companheiro Maduro está reeleito. Com essa arquitetura, qualquer discurso empolado do brasileiro daqui para a frente louvando a democracia e cobrando déspotas já nasce sem credibilidade.

Lula, o da democracia relativa, passa a mão na cabeça de Maduro

Há pouco mais de um ano, em entrevista à Rádio Gaúcha, ao ser perguntado sobre o motivo de setores da esquerda defenderem o regime de Nicolás Maduro, Lula respondeu que o conceito de democracia “é relativo”. E se explicou:

“A Venezuela tem mais eleições do que o Brasil. O conceito de democracia é relativo para você e para mim. Eu gosto de democracia, porque foi a democracia que me fez chegar à Presidência da República pela terceira vez”.

Ontem, em entrevista à TV Centro América, afiliada da TV Globo no Mato Grosso, Lula comentou pela primeira vez a eleição presidencial da Venezuela realizada no último domingo:

“É normal que tenha uma briga. Como resolvê-la? Apresenta a ata. Se a ata tiver dúvida entre a oposição e a situação, a oposição entra com um recurso e vai esperar na Justiça o processo. E vai ter uma decisão, que a gente tem que acatar. Eu estou convencido que é um processo normal, tranquilo”.



Atas são boletins que registram os votos depositados em cada urna. O governo da Venezuela ainda não as apresentou, alegando ter havido uma falha no sistema. A oposição diz que as atas que acessou provam que Maduro foi derrotado.


Com 80% das urnas apuradas, o Comitê Nacional Eleitoral da Venezuela, sob o comando de um aliado de Maduro, anunciou que ele venceu com 51,2% dos votos contra 44% do candidato da oposição, o diplomata Edmundo Gonzalez.

“Na hora que tiver apresentado as atas, e for consagrado que a ata é verdadeira, todos nós temos a obrigação de reconhecer o resultado eleitoral da Venezuela”, acrescentou Lula. Em nota, o PT adiantou-se e já reconheceu a suposta vitória de Maduro.

Lula ainda não o fez, mas defendeu a nota do PT. De domingo para cá, a polícia de Maduro matou 11 pessoas e prendeu mais de 700 que saíram às ruas de Caracas para denunciar fraudes na eleição. Um líder da oposição foi preso na sua casa.

Em uma democracia, a última palavra é da Justiça. Acontece que na Venezuela a Justiça, as Forças Armadas, a mídia e o Congresso, que por lá atende pelo nome de Assembleia Nacional, obedecem às ordens de Maduro. Lula sabe disso.

Então, como sugerir à oposição venezuelana que entre com um recurso na Justiça para anular a decisão do Comitê Nacional Eleitoral que deu a vitória a Maduro? Talvez porque, para Lula, democracia é de fato uma coisa relativa.

Se é, o Estado de Direito também seria. E com base em tal raciocínio, os golpistas do 8 de janeiro de 2023 no Brasil poderiam justificar o que fizeram para derrubar o governo recém-instalado de Lula. Democracia não é uma coisa relativa.

A Venezuela não é uma democracia porque promove “mais eleições do que o Brasil”. Fatos e conceitos não são meras opiniões. Numa democracia, os Poderes são autônomos, as eleições são livres e fiscalizadas e há liberdade de expressão.

Na ausência de tais condições e de outras mais, o que há é um regime autoritário como o de Maduro, e como foi aqui, durante 21 anos, a Revolução de 1964, uma reles ditadura igual a tantas que existiram e ainda existem.