domingo, 19 de abril de 2020

Os 'dinossauros'

Ninguém sabe como os dinossauros foram extintos. Entre 208 e 144 milhões de anos atrás, esses animais dominavam os ambientes de terra firme: eram herbívoros, em sua maioria, mas havia algumas espécies carnívoras que se alimentavam de anfíbios, insetos e até mesmo de outros dinossauros. No final do período Cretáceo, foram extintos juntos com diversas outras espécies de animais e plantas. Uma das teorias sobre essa extinção é a de que certos movimentos sofridos pelos continentes provocaram mudanças nas correntes marítimas e também no clima do planeta. Isso teria feito a temperatura baixar, o que causou invernos mais rigorosos. Outra, de que um asteroide colidiu com a Terra e provocou uma catástrofe, com terremotos, tsunamis e incêndios gigantes, que liquidaram a cadeia alimentar. Não existe nenhuma teoria de que tenham sido extintos por uma superbactéria ou um vírus mortal.

Já foram identificadas aproximadamente 3,6 mil espécies de vírus, que podem infectar bactérias, plantas e animais, bem como se instalar e causar doenças ao homem. Gripe, catapora ou varicela, caxumba, dengue, febre amarela, hepatite, rubéola, sarampo, varíola, herpes simples e raiva são as doenças viróticas mais conhecidas. Nenhuma delas se equipara, por exemplo, ao ebola, cuja letalidade é de 90%, ou ao HIV, que já foi de 100% e hoje está sob controle. Ambas não têm vacina reconhecida.

Uma epidemia acontece quando um determinado número de pessoas fica doente e o vírus se propaga exponencialmente. Para os epidemiologistas, o número mágico é 400 para cada 100 mil indivíduos. Esse é o rubicão natural de propagação de um vírus, a partir do qual, na linguagem dos sanitaristas, a epidemia “decola”. As gripes são as epidemias mais comuns, porque seus vírus sofrem permanentes mutações, exigindo campanhas anuais de vacinação. Os antibióticos são utilizados para combater infecções causadas por bactérias, que muitas vezes se propagam em simbiose com os vírus, mas não eliminam os vírus. Por isso, deveriam ter outro nome, talvez antibacterianos, o que facilitaria a vida dos médicos com seus pacientes, que não entendem a diferença entre uma coisa e outra e ficam querendo a medicação.

Os vírus são difíceis de combater. Como os tratamentos quimioterápicos para a infecções virais são limitados, descanso, hidratação e analgésicos são as alternativas mais comuns para reduzir os incômodos das doenças virais, exceto nas infecções respiratórias graves. A cura ocorre, entretanto, porque o sistema de defesa do organismo parasitado passa a produzir anticorpos específicos que combatem o vírus invasor das células. Os vírus são formados por proteínas diferentes daquelas no organismo parasitado, que acabam neutralizadas pelos anticorpos. Assim, caso o vírus invada o organismo novamente, a memória imunológica desencadeará rapidamente uma resposta imune específica contra o vírus, e a doença não se instalará novamente. Quando isso não ocorre, aí, sim, temos um grande problema pela frente.

Vários membros da família Coronaviridae infectam humanos e causam uma infecção respiratória discreta. Alguns membros desta família que infectam animais silvestres, quando transmitidos aos humanos, causam uma Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars), como é o caso do Sars-cov-1, da MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e do Sars-cov-2, responsável pela atual pandemia denominada Covid-19. O vírus pulou dos morcegos para animais silvestres que, ao chegarem ao mercado de Wuhan, na China, infectaram os homens. As teorias de que os chineses comeram morcegos ou fabricaram o vírus para dominar o mundo são mentirosas e racistas, disseminadas com o propósito de promover uma nova “Guerra Fria” entre o Ocidente e a China.

O mundo já teve outras pandemias, como a gripe espanhola, que matou 50 milhões de pessoas, mas que nem de longe se propagou com a velocidade no novo coronavírus, devido à globalizaçao. No Brasil, estamos vivendo um momento dramático por causa disso, com o sistema de saúde pública em estresse, devido ao aumento rápido do número de casos, com mais de 200 mortes por dia. A situação é delicada: o presidente Jair Bolsonaro é contra a política de isolamento social adotada por governadores e prefeitos para reduzir a velocidade de propagação da doença e preparar o sistema de saúde para receber seu impacto. Substituiu o ministro Luiz Henrique Mandetta pelo oncologista Nelson Teich, no Ministério da Saúde, com o claro propósito de flexibilizar o regime de quarentena e retomar as atividades econômicas paralisadas em razão da epidemia. Acha que 70% da população terão a doença de forma branda, porém, poré,m devem voltar logo ao trabalho para não perderem os empregos. Diz o samba: “quem acha vive se perdendo.”

O risco de colapso do Sistema Único de Saúde (SUS) é real. Mesmo que ocorra a tragédia anunciada, de fato, não devemos temer o fim da espécie. A maioria das pessoas está desenvolvendo seu sistema imunológico para se defender do vírus e com ele conviver, como acontece com outras doenças. O problema é que essas pessoas transmitem o vírus para as demais, inclusive os nossos “dinossauros”, ou seja, os mais idosos, que adquirem lesão pulmonar grave devido à produção de moléculas inflamatórias (citocinas) pelo sistema imune inato e têm também problemas de coagulação, devido à reação inflamatória sistêmica (coagulação intravascular disseminada) ou à produção de anticorpos contra fosfolipídeos (síndrome antifosfolipide).

Enquanto não se tem uma vacina, esses sintomas estão sendo tratados com drogas utilizadas para combater outras doenças, como a cloroquina, usada contra a malária, e drogas anticoagulantes, em especial a heparina. Muitos, porém, não resistem. Ou seja, é melhor os “dinossauros” ficarem bem espertos, em casa.

sábado, 18 de abril de 2020

A distribuição da dor

Em artigo sobre a atual pandemia, Nick Paumgarten narrou a história de um capitalista que joga na Bolsa de Valores. O homem é esperto e descreveu sua última proeza. Ao perceber o ritmo de expansão do vírus na China, suspendeu as férias numa estação suíça de esqui, investiu firme em ações de uma fábrica de equipamentos médicos nos Estados Unidos, botou dinheiro em empresas cujas ações subiriam com a disseminação universal da doença, e se mandou para sua casa de campo, bem longe da cidade onde mora. No caminho para o autoconfinamento, comprou o que pôde de máscaras cirúrgicas e luvas para si mesmo e para a família — mulher e três filhos — dois bujões de oxigênio e uma sacola de cloroquina. A salvo, comentou que ficaria feliz e em segurança até o próximo mês de outubro, acompanhando pelo computador a valorização dos investimentos. Até o momento, seu lucro era de 2.000%. Tudo na perfeita paz, dentro da ordem, respeitando a lei.

Ainda há quem ouse dizer que estamos no mesmo barco. Como se sabe, há metáforas que iluminam, outras obscurecem. A do barco pertence ao segundo tipo. Flávia Oliveira colocou o dedo na ferida.

Se a tempestade é a mesma, as condições de seu enfrentamento são diversas, havendo barcos de diferentes tipos: dos poderosos navios de casco de ferro aos barquinhos de papel que podem afundar a qualquer momento. Sem contar os que nem barcos têm e boiam no mar revolto, agarrados a pedaços de madeira encontrados ao léu.

Este é o mundo que nos foi concedido viver.


Há um pouco mais de dez anos, aconteceu a crise econômica de 2008, suscitada pela especulação de títulos imobiliários no mercado estadunidense. Os governos e os bancos centrais intervieram com presteza e salvaram centenas de indústrias e financeiras à deriva, pela própria incúria e irresponsabilidade.

Argumentou-se então que tudo se justificava para salvar a sociedade do caos e defender os empregos das gentes. Aqui e ali ouviram-se vozes favoráveis a processar os principais especuladores. Para servir de exemplo. Era preciso colocar uma folha de parreira para cobrir aquelas vergonhas. Em vão. Não se tem notícia, salvo umas poucas falências, de punições aos responsáveis, cujo nomes e sobrenomes eram conhecidos. Quem pagou a conta, como de hábito, foi a sociedade, em particular os que vivem de salários, no chamado “processo de socialização das perdas”.

Ficou por isso mesmo. E tudo voltou ao que era dantes no quartel de Abrantes. A jogatina retomou os freios nos dentes. No controle, o espectro do mercado e os gênios das finanças, com seus inacreditáveis bônus e rendimentos, ditando os rumos. Estranhos gênios que, a cada dez anos, fazem fila, de pires nas mãos, implorando a ajuda do Estado. As desigualdades voltaram a ganhar ritmo, como demonstrou Thomas Piketty, baseado em evidências estatísticas.

A pandemia neste momento afunda de novo o mundo em crise aguda, com consequências ainda imprevisíveis. Alguém poderia objetar: quem é que poderia prever uma doença? Não só era possível prever, com base em antecedentes conhecidos, como previsões foram de fato formuladas por lideranças políticas e cientistas, mas desconsideradas. Seria viável, sim, lidar melhor com a tragédia, construindo e equipando hospitais, constituindo reservas, dotando as sociedades de indústrias capazes de produzir artigos indispensáveis, formando pessoal qualificado para segurar eventuais trancos que certamente viriam, pois foram anunciados, e vieram.

Estão aí agora, atormentando as gentes, exigindo novos trilhões para que os sobreviventes da pandemia possam continuar a viver.

Quem pagará a conta desta vez? Paumgarten fez uma melancólica e amarga reflexão: “Quando a Covid-19 recuar, deixará uma severa crise econômica. Mas, como no passado, algumas pessoas lucrarão”. Quanto à dor, será distribuída de forma desigual e injusta.

Estaremos condenados ao triunfo da injustiça e da esperteza? E se pudermos imaginar, como um antigo já disse, que as pessoas nem sempre aceitarão morrer calmamente?

Pensamento do Dia


Isso é Bolsonaro

É traço comum das análises sobre o Brasil atual buscar entender o que melhor caracterizaria Jair Bolsonaro e seu governo. Bolsonaro é efetivamente um personagem singular, minimamente letrado, um tanto tosco, que numa circunstância especialíssima chegou à Presidência da República. Não estaria errada essa descrição, mesmo reconhecendo sua insuficiência.

Dizer que ele representa os militares seria uma generalização absurda e um desprestígio da categoria. Os militares compõem uma camada intelectual de relevância incontestável para o Estado brasileiro. Como se sabe, Bolsonaro foi afastado do Exército por indisciplina. Tornou-se político profissional com votos da corporação militar por longos 28 anos. Como parlamentar e agora como presidente permanece um defensor das demandas dos militares – vide a reforma da Previdência. É certo que recheou o Ministério com muitos deles, o que não garantiu identidade absoluta entre o presidente e os militares convidados.

Não há novidade também na caracterização de Bolsonaro como representante da extrema direita. Não apenas ele, mas seus filhos – igualmente políticos profissionais, vale ressaltar – não escondem isso de ninguém, até mesmo as ligações internacionais com essa corrente política. Tal posição, distinta de outras correntes e personalidades desse campo, acabou por definir mais precisamente Bolsonaro como expressão de uma facção da direita que tem cultivado um comportamento fascistizante.


O presidente não abre mão de concentrar em si a narrativa e a estratégia de seu governo. Embora em ambas não haja um programa determinado, coerente e sistêmico, que ele faça questão de explicitar. Mas há uma ênfase digna de menção: a persona (o “mito”) sobrepõe-se ao governo e por isso a dimensão pessoal está sempre à frente da institucional, no limite do decoro. A pessoalização existe, porém, sem nenhum afeto, nem o maneirismo típico da nossa tradição ibero-americana. A Bolsonaro não interessa o savoir-faire da política, as gentilezas com outros atores, mesmo com possíveis aliados.

Ele modula seu comportamento pelo que entende ser o jogo duro do poder. E para isso adota o método do confronto permanente, pondo sempre em relevo as discrepâncias ideológicas no lugar das soluções para os problemas da Nação. A confrontação é essencial para sua estratégia de manter o apoio de parcela significativa do eleitorado, rumo à reeleição de 2022.

Tudo isso lhe garantiu a iniciativa política até aqui. Mas 2020 começou mal para ele e para todos nós. A divulgação do “pibinho” (1,1%) de 2019, a disparada do dólar, a fuga de investimentos e, por fim, o ingresso do Brasil na pandemia do covid-19 alteraram o cenário. A pandemia jogou Bolsonaro nas cordas, fazendo-o perder a iniciativa política. Em poucos dias deu mostras de faltar-lhe o chão e de que sua estratégia maior poderia estar comprometida.

Desde então as ações do presidente visam à recuperação da iniciativa perdida. Com parte da sua equipe contaminada pelo vírus, Bolsonaro lançou-se numa escalada desesperada: não hesitou em cumprimentar os poucos manifestantes que pediam o fechamento do Congresso e do STF. Em seguida, com declarações estapafúrdias, atacou os governadores que determinaram o isolamento social para conter o avanço da epidemia. Essa atitude produziu uma fratura na estrutura federativa do País, criando embate institucional, desorientação política, além de complicar o combate à pandemia.

Mesmo na defensiva, Bolsonaro tenta manter a opção por uma “guerra de movimento” definida desde a campanha e a posse, cujo objetivo é destruir a democracia da Carta Constitucional de 1988 e implantar um regime iliberal no Brasil. Essa espécie de “revolução reacionária” levada em fogo brando (sem violência aguda, até o momento) não pode parar até as eleições de 2022. É nela que Bolsonaro imagina consolidar sua legitimidade e impor ao País uma “nova hegemonia”, não mais com os valores e ideias da “esquerda”. Para ele 2022 é o turning point.

Mas até lá haverá muita turbulência. O certo é que, para confrontar o frágil reformismo liberal-democrático que marcou a trajetória do País desde o fim da ditadura, Bolsonaro não cederá à “guerra de posições”. Em sua avaliação, esse é um ambiente hostil. No limite, poderia fazê-lo, mas imagina que estaria compactuando com um modelo que, segundo ele, marcou os governos dos presidentes que o antecederam, com custos e problemas que não saberia gerenciar.

Diante da pandemia, Bolsonaro age com mão pesada: escanteia governadores e prefeitos, desafia orientações epidemiológicas, desestrutura a federação e tensiona ao limite a relação com o Congresso. Mas não ganha nenhuma posição. Busca resgatar sua “guerra de movimento” e colocar nas ruas os que o apoiam incondicionalmente, pouco se importando em ver o País à beira da conflagração.

Com a recessão às portas, o que pode comprometer sua reeleição, Bolsonaro visa a combater as lideranças que ameaçam seu caminho rumo a 2022. Isso é Bolsonaro.

Governança irônica



Tudo sob controle. Não sabemos de quem
Hamilton Mourão, vice-presidente

A ironia dos trilhões gastos em armas incapazes de matar um vírus e de nos fazer felizes

São quase dois trilhões de dólares (R$ 10 trilhões) o que as nações gastam a cada ano em armamento de guerra cada vez mais mortífero e sofisticado. Para que, se depois chega um vírus invisível contra o qual nem mesmo a bomba atômica adianta? Para que se esses arsenais não construirão um mundo mais feliz e mais justo?

O drama que a sociedade está vivendo, desconcertada, assustada e impotente diante desse vírus, é uma boa lição de humildade às nações mais poderosas. Pensemos somente nos Estados Unidos da América com um Presidente guerreiro como Donald Trump incapaz de parar o vírus. A honradez de um povo e sua segurança não passam pelas armas de guerra. E personagens arrogantes como Trump que são exemplos de discórdia e que entram em guerra até com a OMS em um momento tão doloroso à humanidade vão na contramão do sentir da comunidade mundial.

Na América que se sente poderosa e invulnerável por ter as armas mais sofisticadas da terra, um simples vírus acaba de deixar sem trabalho e comida 22 milhões de pessoas.

Se somente uma parte dessa barbaridade gasta a cada ano em fabricar novas armas fosse empregada em melhorar a saúde e pesquisa médico-científica, e em engendrar uma melhor justiça social, hoje as maiores potências armamentistas não se sentiriam tão impotentes e desnorteadas com o novo vírus.

Desfile fúnebre dos caminhões militares levando
mortos do coronavírus em Bergamo (Itália) 
Do papa Francisco rezando tristemente sozinho na Basílica de São Pedro vazia, aos filósofos e sociólogos de todos os credos políticos e religiosos estão se mobilizando para que essa tragédia que está castigando a arrogância e a cobiça humana sirva como alerta a uma civilização que se sentia até ontem tão forte e segura com suas armas de guerra.

Se não fosse trágico, porque cria dor e morte, seria até cômico que um vírus seja capaz de se vingar da suposta onipotência do Homo sapiens.

A pergunta que hoje se fazem os pensadores em todo o mundo é se essa lição de humildade a que o coronavírus está nos submetendo servirá pelo menos para nos fazer repensar nosso modo de vida até hoje enlouquecido pelo consumismo e o deus do lucro a qualquer custo. Se servirá para repensar nossas estruturas atuais de poder injustas e classistas que condenam milhões de pessoas à pobreza e até à fome e à insegurança.

Ou se, pelo contrário, sairemos desse inferno ainda mais orgulhosos deixando no esquecimento o grito dos sem voz porque foi sequestrada pelos novos poderosos. Esses poderosos que poderiam sair com mais vontade de dominar o planeta voltando a apostar mais na força das armas e do dinheiro do que na regeneração de uma nova esperança universal.

Nunca é tarde, entretanto. E esse teste inédito para nossa geração pelo global e o imponderável também pode fazer o milagre de despertar uma nova consciência social de nossa fragilidade e onipotência. Pode servir para recriar juntos uma nova civilização menos baseada no poder e na cobiça de um punhado de pessoas que tiranizam a maioria.

E para tomar consciência de que todos, sem distinções classistas, somos vulneráveis. Que precisamos nos armar de maior compreensão com a dor alheia. Que as melhores e mais eficazes armas são as das mãos e corações abertos à solidariedade, à compaixão e à procura da paz a todos.

Melhor um mundo com mais medo das armas invisíveis e imponderáveis da natureza, a que estamos maltratando e humilhando, do que a arrogância de nos sentir donos das lojas de armas fabricadas com o sangue dos que sempre pagam a conta da dor.

Que essa tragédia se transforme na humildade de nos saber todos tão insignificantes que um simples vírus desarticula o mundo.

Nada pode ser pior para nossa civilização do que não saber entender a lição que a natureza tão mortificada e depredada está nos impondo.

Seria uma piada se os que até hoje dominaram o mundo com um capitalismo assassino despertassem do susto da pandemia como se nada houvesse ocorrido.

O que a humanidade está vivendo nesse momento não é um “sono ruim em uma pousada ruim”, na expressão de Cervantes em Dom Quixote, e sim uma chamada de atenção para nos despertar de nosso sonho imoral de que os pobres seguirão aceitando continuar sendo carne fácil de resignação.

A dor e a raiva dos sempre humilhados e desprezado pelos que sentem-se amos de todos porque são os donos das armas de morte, podem se transformar em um novo vírus que derrubará seus sonhos de onipotência.

Ou os poderosos pensam que os pobres não acabarão um dia se cansando de se conformar pacificamente com as migalhas que caem de suas mesas?

A tragédia do coronavírus pode servir, como última lição, aos que decidiram que eles são os donos da vida dos outros, entendam que querer perpetuar essa distância entre saciados e famintos pode também acabar sepultando a eles.

Ainda temos tempo. Que esse retiro forçado de todos nos sirva para refletir que, ou aceitamos no futuro viver com mais simplicidade, sem consumismos desenfreados, sem nos importar de que existam pessoas deixadas à sua própria sorte, ou todos podemos acabar vítimas dos imponderáveis da natureza que possui um código de comportamento que não é o nosso.

Se não entendermos a gravidade simbólica dessa pandemia teremos saído dela todos mortos física, social e até espiritualmente.

O vírus nos fez ver que estamos em um fim de época, de revisão do conceito de sociedade, algo como foi o fim da escravidão.

Esse teste nos obriga a repensar conceitos que acreditávamos imutáveis e intocáveis como a divisão de classes, o sentido da globalidade e das fronteiras, o injusto sistema financeiro. E até da moeda e do dinheiro. Também nos obrigará a uma revisão da cultura e da religião.

Se nada mudar depois dessa convulsão teremos perdido a oportunidade de começar a ensaiar juntos um modo diferente de ver e organizar um mundo em que exista um lugar digno para todos.

Mas há uma estrela que brilha no céu ofuscado desse momento. Cresce o número de pessoas que se comovem com a dor alheia e oferecem exemplos de generosidade inédita em nossa sociedade egoísta.

Duas pequenas histórias me emocionaram e me doeram ao mesmo tempo: a primeira na Itália, onde um padre no hospital recusou o respirador para oferecê-lo a alguém mais jovem. A segunda, a mãe brasileira doente junto com o filho de 24 anos. Ela deixou ir antes ao hospital lotado o filho que acabou morrendo e a mãe que por fim se salvou sequer teve o consolo de poder se despedir de seu filho. São fatos reais e sentimentos de empatia que estão despertando o melhor que temos dentro de nós e que o turbilhão da vida havia escondido.

É o rosto luminoso e regenerador do ser humano que a tragédia está resgatando e nos diz que a esperança de um mundo mais humano e compassivo ainda não morreu.

Ou será utopia? Talvez, mas a verdade é que sem uma adição de esperança e nas mãos somente dos profetas do pessimismo, o abismo de dor que nos espera será muito maior.

Responsabilidade intransferível

O governo de São Paulo anunciou ontem a prorrogação da quarentena no Estado. O fechamento do comércio e de serviços não essenciais, que poderia ser suspenso no próximo dia 22 de abril, agora se estenderá até o dia 10 de maio. Segundo o governador João Doria, a medida é necessária em razão do iminente colapso do sistema hospitalar público ante a pandemia de covid-19. Em outros Estados, esse colapso já ocorreu.

Ou seja, o País começa a entrar na fase aguda da crise, com perspectivas funestas, o que demanda a ação rápida, decisiva e inteligente das autoridades no sentido de preservar vidas, mesmo que isso prejudique a economia – afinal, empresas podem superar prejuízos e trabalhadores podem recuperar empregos, mas, como é terrivelmente óbvio, mortos não ressuscitam.


Nenhum esforço regional, por mais competente que seja, é capaz de substituir a liderança federal no combate à pandemia. Por isso, a responsabilidade primária, irrenunciável e intransferível pela condução do País na crise é do presidente da República, Jair Bolsonaro, e ele terá de arcar com o peso de suas decisões sobre a vida de todos os cidadãos. O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, assumiu essa mesma responsabilidade quando aceitou o cargo, e por isso mesmo o País acompanhou, atento, suas primeiras palavras, na esperança de encontrar ali um compromisso cristalino com a ciência e o bom senso.

O que se viu até aqui, porém, foi um ministro ciente de que ocupa um cargo político, a ele designado por questões exclusivamente políticas. Tratou de equilibrar-se entre a demanda de seu chefe para determinar o fim do isolamento social e o fato incontornável de que esse isolamento é a única forma, hoje, de enfrentar a pandemia.

O ministro Teich se diz em “completo alinhamento” com o presidente Bolsonaro, que considera exageradas as medidas de isolamento social, mas dias antes de ser nomeado publicou um artigo em que defendeu o isolamento como “a melhor estratégia no momento”. Ou seja: enquanto era apenas um profissional de saúde, o doutor Teich reafirmava aquilo que todos os gestores de saúde sabem; quando se tornou ministro, assumiu o típico discurso político – que muito fala para nada dizer.

Para começar, o novo ministro declarou que é preciso “conhecer melhor” a doença a fim de criar estratégias para a volta à normalidade. Ora, é exatamente isso o que o mundo inteiro está tentando fazer há meses, ainda sem resultados. Segundo o ministro Teich, será necessário elaborar um amplo “programa de testes”, embora o Brasil esteja muito atrasado na aplicação desses exames, por variados motivos, e nada indica que essa situação mudará num futuro previsível.

Para piorar, Bolsonaro mandou suspender uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria com operadoras de celular, para monitorar o fluxo de pessoas pelo País e assim identificar o nível de adesão à quarentena. Alegando um risco à privacidade inexistente nesse caso, o presidente dificulta a produção de informações necessárias para preparar o sistema de saúde. Desse jeito fica difícil “conhecer melhor” a doença, como quer o ministro da Saúde.

Assim, justamente no momento em que o País mais precisa de determinação e rumo, ante a expansão exponencial da pandemia, o novo ministro da Saúde tem a oferecer apenas palavras ditas sob medida para satisfazer Bolsonaro, que só confia naqueles que o adulam e cultiva antagonistas como método de governança.

A missão do ministro Teich já não seria fácil de qualquer maneira, pois se está diante de um dos maiores desafios globais de saúde pública em um século. Mas essa missão será ainda mais árdua porque é preciso lidar também com um presidente que não acredita em resultados eleitorais chancelados pela Justiça Eleitoral, tampouco nos números da devastação na Amazônia, mas diz acreditar piamente na eficácia de um remédio contra a covid-19 que ainda está em testes; e esse presidente, ademais, encara o novo coronavírus não como uma emergência de saúde pública, mas como arma invisível usada por seus supostos inimigos – dos governadores de Estado ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia – para derrubá-lo.

Temos, no entanto, grandes esperanças de que o ministro Nelson Teich saberá ultrapassar todos os obstáculos que contra ele já se erguem no caminho da superação desta crise global.

A síndrome de Caim

A demissão do Ministro Mandetta ocorreu na segunda-feira. O ritual consumado confirma: a teocracia é o novo sistema de governo brasileiro, fundamentado na encarnação da divindade no governante. O Presidente se acha investido nesses poderes.

Primeiro sinal: o candidato se apresentou como Salvador/Messias, eleito por parcela do eleitorado que acreditou e outra que votou no “menos pior”.

Segundo sinal aconteceu quando o candidato sofreu grave atentado. Sobreviveu: milagre e predestinação.

Terceiro sinal veio de uma atitude de fé respeitável: utilizar o jejum e a oração como remédios para matar um vírus ainda não vencido pela ciência. Trata-se de gesto de solidariedade humana que deve ficar circunscrito à religiosidade individual.

Quarto sinal: o chefe de Estado, o líder tem o dever de, no exercício do poder, pacificar, conciliar e formar consensos, com vistas no futuro do País. Mas não é Profeta. Nem tem o dom da Graça para conduzir o povo à Terra Prometida.


No entanto, o Presidente revelou aos olhos de uma nação perplexa que, ao longo de quinze meses, gastou tempo, energia e confiança ao criar conflitos pessoais, nacionais, institucionais e internacionais. Sem contar com o clima permanente de beligerância contra inimigos diabólicos, imaginários, e agora, invisíveis.

Ressalte-se, ainda, que a narrativa de Mito não se confunde com os personagens simbólicos dos povos e sim, literalmente, com a mentira que se apropria dos seres humanos como enfermidade: a mitomania.

Mito, o poeta Fernando Pessoa define como “o nada que é tudo”.

O quinto sinal vem da Síndrome de Caim que, na narrativa bíblica, mata seu irmão Abel por inveja, levando às últimas consequências a frustração do desejo de ser reconhecido pelos atributos de sua própria vítima.

O destino de Mandetta, o herege, estava selado: arder nas fogueiras inquisitoriais pelas suas reconhecidas virtudes e não pelas suas possíveis falhas. A propósito, a mais grave falha de Mandetta foi conduzir com acertos, sensatez, racionalidade e fraternidade, a tarefa gigantesca de salvar o máximo de vidas, ameaçadas por uma calamidade mundial. Mal sabia o Ministro da Saúde que estaria cometendo um crime imperdoável, aos olhos da presidência: tornou-se admirado pela população. Para isso, não há perdão.

Ministros, o recado está dado. Cuidado com a avaliação das pesquisas de opinião: o teto é a mediocridade turbinada por uma personalidade a merecer devida atenção dos especialistas em patologias comportamentais.  

Brasil e seu messias


Solidariedade e apoio mútuo d. C.

O aspeto mais comovente desta crise é o florescer da sociedade solidária no canteiro de uma cultura contemporânea marcadamente individualista. Do dia para a noite, promove-se, como que por instinto coletivo, um espírito universal de apoio aos mais fracos, cuidado entre gerações, de atenção ao outro, ao doente, ao vizinho do lado. Sem hesitar, assumimos o sacrifício global em nome da proteção dos mais frágeis e dispomo-nos a arcar, todos, com as consequências.

A mudança de comportamentos leva geralmente tempo, mas o impulso solidário civil foi imediato: de prédios onde os vizinhos não se conheciam, brotaram movimentos para proteger os mais velhos das saídas para compras e farmácia. Nas famílias disfuncionais, telefonaram-se parentes que se organizam em tempo recorde para pôr os avós a salvo. Em Itália – logo que a catástrofe se impôs – ouviram-se vozes que cantavam à varanda, tentando fazer com que a esperança fosse a última a morrer. Nas redes sociais, surgem movimentos para proteger os mais pobres, assim como os direitos de quem não tem casa e os de quem está para ficar sem ela. Criam-se campanhas de donativos e crowdfunding. Reconhecendo o papel das artes na saúde mental coletiva,

músicos e agentes dispõem-se a transmitir concertos grátis, em livestream, apelando a que fiquemos em casa. Museus como o Louvre, o Hermitage, o Metropolitan Museum of Art ou a Galeria Uffizi, abrem portas online a quem queira espreitar coleções. Tudo isto num estalar de dedos. Aparentemente, o pânico da doença que se alastra pelo contacto com os outros faz com que passemos a pensar mais neles. Já são vários os filósofos, psicólogos e sociólogos a escrever sobre isto.


No plano político, será interessante ver como, da esquerda à direita, o apelo consensual é, em situação de emergência, a mais Estado Social (mais saúde pública, apoios, intervenção social, regulação da economia) e cuidado com o próximo. No plano europeu, a discussão em torno de como a UE vai gerir esta crise parece evidenciar, aos olhos do cidadão-comum, a importância de um bloco justo, humano e solidário, que honra os valores basilares. A indignação face às infelizes declarações do ministro das finanças holandês veio dar sinais de um novo tempo que conserva bem viva a memória da Europa austera, da troika obscura, ineficaz e castigadora dos mais pobres – como até Christine Lagarde (então presidente do FMI) acabou por admitir – e se recusa a repetir a dose. Não estamos, europeus, dispostos a tolerar as mesmas desumanidades. Num cenário em que Portugal bateu, ainda há meses, o recorde de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu –apenas 31 em cada 100 portugueses com direito a fazê-lo foram votar – será de acreditar que, se as eleições fossem este mês, mais pessoas quereriam saber? Poderá este momento resgatar o sentimento cívico, de cidadão europeu, nacional, mundial? Eric Klinenberg, diretor do Institute for Public Knowledge da Universidade de Nova Iorque, estima que a pandemia possa ser o fim do nosso romance com a sociedade de mercado híper-individualista, por expor a fragilidade de um sistema económico assente no pensamento individual. Ao mesmo tempo, situações como esta parecem ajudar a evidenciar o peso da política na vida de todos: aspiramos a uma sociedade mais culta e consciente perante as filas para a ponte 25 de Abril – aspirando, assim, a mais investimento em cultura e educação -, sonhamos com mais valorização da ciência e saúde enquanto aplaudimos, todos juntos, à varanda – sonhando, assim, com mais investimento na saúde e investigação científica – e pedimos mais humanismo e pensamento coletivo – pedindo, com isso, um sistema bem longe do “cada um por si” neoliberal global. Quando o medo toca às portas todas, compreendemos instantaneamente aqueles que fogem, aqueles que temem e aqueles que lutam, mostrando que, afinal, sabemos todos fazê-lo maravilhosamente. Seremos capazes de levar isto connosco para o futuro?

Não sabemos quanto tempo durará a crise, mas sabemos que será profundamente dura e difícil para todos. Resta-nos tentar garantir que aprendemos com ela.

Aviso internacional

Gostaria de agradecer ao ministro [Mandetta] pelo serviço dele ao povo. É essencial que não só o Brasil mas todos os governos tomem decisões baseadas em evidências. Todos temos o dever de proteger nossas populações mais vulneráveis
Michael Ryan, diretor-executivo da Organização Mundial de Saúde (OMS)

Não podemos deixar a periferia à própria sorte na crise do coronavírus

O coronavírus restaurou um senso de igualdade entre as pessoas ao salientar o que temos em comum: a fragilidade humana. De um ponto de vista abstrato, faz sentido. Materialmente, no entanto, o que se observa é que a covid-19 vem exacerbando desigualdades. Enquanto as vítimas de áreas abastadas surgem aos poucos e dispersas, por negligência à quarentena, nas periferias o povo se vê em uma guerra em que dois soldados de uma mesma equipe podem acabar morrendo dentro de um mesmo quarto.

Muitos já desistiram do presidente, mas nem mesmo os governadores e prefeitos mais dedicados a vencer essa guerra conseguiram oferecer soluções que deem conta da realidade desigual, complexa e bastante particular de nosso país.

O problema é evidente: enquanto observamos bairros nobres parados, com a quase totalidade de seus moradores confinados em casa, muitas das favelas do país notaram apenas uma pequena redução em suas atividades. Isso se dá, ao menos em parte, porque 47% dos trabalhadores destas comunidades são autônomos e outros 8% informais. Para eles, parar de trabalhar significa abdicar de sua renda, decisão que a imensa maioria não pode se dar ao luxo de tomar. De acordo com pesquisa do Data Favela, 72% dos residentes dessas comunidades não têm reservas de dinheiro o suficiente para manter seu já baixo padrão de vida por sequer uma semana.


Se a poupança dos moradores das favelas é insuficiente para sustentar seus custos de vida habituais, que dirá então para arcar com as despesas adicionais que estão sendo impostas em decorrência da pandemia. Além de maiores gastos com remédios e produtos de higiene, muitos estão tendo que financiar refeições extras para seus filhos, que antes se alimentavam nas escolas. Há casos, ainda, de pais que, sem poder parar de trabalhar para cuidar das crianças em casa, estão tendo que custear creches particulares, uma vez que as públicas foram paralisadas.

Colocar luz sobre essa realidade não visa concordar com o ideia que chegou a ser defendida por nosso desastroso presidente de que escolas e creches públicas deveriam seguir funcionando. Muito menos sustentar que não há nada a ser feito para a proteção da população a não ser deixar que aqueles que precisam de renda sigam trabalhando. Tais absurdos acarretariam na disseminação massiva da doença, potencializada pela limitação dos equipamentos de saúde, falta de saneamento básico, abastecimento de água intermitente e precariedade das condições de moradia que assolam as favelas.

Para se ter uma ideia, em São Paulo, bairros periféricos como Brasilândia e Capão Redondo possuem menos de 0,05 leitos hospitalares por mil habitantes, enquanto em bairros centrais como Bela Vista e Jardins esse número é maior do que 30 por mil habitantes. Adotar a lógica do laissez-faire nas comunidades periféricas seria homicida.

É necessário, portanto, pensar em soluções que conversem com a realidade das favelas. O projeto da Renda Básica Emergencial, que entrou em vigor esta semana, é, sem dúvida, um grande avanço na direção correta. Vale ressaltar, no entanto, que algumas dificuldades na obtenção do auxílio evidenciam que ainda há certo descompasso entre nossos governantes e a realidade das periferias. Um fato que chama atenção, por exemplo, é o de a forma preferencial de cadastro para o recebimento do benefício ser online, em um país no qual cerca de 20% da população não tem acesso à Internet em seus domicílios. De forma, geral, contudo, a Renda Básica Emergencial parece ser a solução mais eficiente de garantir que os moradores das periferias fiquem seguros em suas casas, protegendo a si e às suas comunidades.

Há, porém, ainda muito a ser feito. Além da garantia de renda, são necessárias respostas a outros problemas que vêm sendo enfrentados pelas favelas e que tendem a intensificar a crise. A garantia de acesso à água corrente, a distribuição de produtos de higiene e alimentos dentro da própria comunidade, evitando deslocamentos desnecessários, e a reserva de quartos de hotel para pessoas pertencentes a grupos de risco que não podem ficar isoladas em suas próprias casas são apenas algumas das soluções que precisam começar a avançar para garantir segurança às comunidades periféricas.

Colocar em prática todas elas, é claro, trará custos significativos ao Estado. Contudo, se o aumento de gastos, até ano passado, parecia imprudente, hoje ele é tido como única solução possível pela maioria da população e dos economistas. Mais absurdo que aumentar despesas, nesse momento, seria acreditar que as soluções, até agora propostas para o centro, servirão à periferia, largando as favelas à própria sorte e entregando as periferias das grandes cidades, de bandeja, para um doloroso destino.
Samuel Emílio, embaixador do Teach For All no Brasil e Fellow do Programa ProLíder, do Guerreiros Sem Armas e da Arymax

Vamos lá, Leitor, aperte o cinto e abrace a boia

Desculpe, Leitor, a nota é curta como curtíssima é minha paciência com esse governo sem eira nem beira: despreparado, desestruturado, sem cultura, sem educação. Um governo que vive exigindo que o levem a sério, que pede por respeito, que se diz ignorado.

Mas que tem uma qualidade: é sincero. Bolsonaro se declara despreparado para o cargo!


Ele está certo. Não tem nenhuma qualificação para o cargo. Assim como não teve para prosseguir na carreira militar e como não teve nenhum brilho na carreira parlamentar. Aos 65 anos, ainda está, tal qual um adolescente, em busca da rota que deve seguir. Talvez o motivo seja este: preocupado em orientar e cuidar dos filhos, esqueceu de cuidar de si e de sua vida.

No excelente artigo de Juan Arias, do El Pais, “Bolsonaro se isola obcecado por seu messianismo perigoso”, transcrito no Blog do Noblat, li que “o Brasil vive um daqueles momentos históricos em que um erro de cálculo pode arrastar o país para uma aventura da qual um dia terá de se arrepender”.



Temo que esse momento histórico acabe de acontecer. Trocar o Ministro da Saúde quando ainda estamos no início de uma pandemia que vem matando milhares de pessoas no mundo inteiro, foi um erro de cálculo que assustou-nos a todos. Luis Henrique Mandetta conseguiu, por obra e graça de seu modo firme, educado e culto de falar, convencer o Brasil, de norte a sul, da única arma poderosa que um país despreparado como o Brasil tem: o isolamento social.

Em que o ministro errou a ponto de levar o presidente da República a querer demití-lo? Ele só cometeu um erro. Foi tão correto, inteligente, preparado e dedicado ao posto que ocupava que despertou nos brasileiros uma admiração incomensurável. Foi o que bastou para despertar o ciúme e a inveja do inseguro presidente que sentiu ameaçada pelo dr. Mandetta sua ambicionada reeleição em 2022.

Coitado. É duro, muito duro, quando se é psicologicamente fraco como Bolsonaro, sofrer por ciúmes. Ainda mais quando a reeleição é sua única ambição, e sua segurança, pois nela ele apoia o continuado poder dos zeros, seus filhos que, sem o pai, não são nada.

Pobre Brasil. Acaba de trocar o piloto experiente por um co-piloto inexperiente, com o avião com o tanque quase vazio. O que será que vai nos acontecer?
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Irresponsabilidade criminosa

Espero que ele seja responsabilizado por todo mundo que vai morrer por causa da fala irresponsável dele. Porque na hora em que ele fala "olha, é só uma gripezinha", tem muita gente que vai ouvir, é o presidente da República. Essas pessoas não vão entender a gravidade da situação
Tabata Amaral (PDT)

(Im)postura presidencial

Acostumado a falar só para sua galera nas redes sociais, Jair Bolsonaro descobriu agora as maravilhas dos pronunciamentos em cadeia nacional obrigatória de rádio e TV, instrumento garantido em lei para o presidente da República, ministros e chefes de outros poderes, mas que, em última instância, é controlado pelo Executivo, a quem cabe requisitar os horários às emissoras. Desde que começou a pandemia, talvez por perceber que seu Ibope na Internet já não é o mesmo, já falou cinco vezes.

Mas o que é mesmo que um chefe de Estado diz quando ocupa os meios de comunicação para dar um recado à nação? Supostamente, alguma coisa importante. Temos visto pronunciamentos dos mais variados, no Brasil e em outros países: anúncio de medidas, discursos laudatórios elogiando a própria atuação, defesa diante de acusações, solidariedade ao povo em momento de tragédias, apelos políticos ao Congresso e outras instituições, comemoração de datas festivas, etc. Até a Rainha Elizabeth, da Inglaterra, fez uma raríssima aparição na TV inglesa – a quinta em 68 anos de reinado – conclamando o povo a manter o ânimo e se unir no combate à Covid-19.

Não chega a ser anormal que o governante aproveite politicamente a oportunidade desses pronunciamentos para reforçar sua imagem – a maioria faz isso, mundo afora. O que nunca vimos é um presidente da República se comportar como um chefe de torcida, um comentarista, um vendedor, ou mesmo um candidato que nunca venceu uma eleição numa ocasião solene dessas.


É o que tem feito Bolsonaro em seus discursos na TV, onde tem se despido da autoridade presidencial para defender pontos de vista controversos, como a suposta necessidade de suspensão do isolamento social que fechou comércio e escolas nos estados. "Devemos, sim, voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa", disse ele. Mas estava anunciando a “volta à normalidade”? Não. Tinha alguma ideia de quando isso irá acontecer? Também não. Até porque confessou candidamente que não fora consultado pelos governadores, em cima de quem, também em cadeia nacional de rádio e TV, jogou a responsabilidade pelo eventual impacto na economia.

Muito cidadão deve ter se perguntado por que cargas d’água o presidente da República terá ido à TV falar de uma medida que não tomou e, pelo que diz, não pode tomar? Não é postura de chefe de estado e de governo, que tem autoridade para anunciar, determinar, comandar. Qualquer um tem autoridade para chutar. Mas o chefe do Executivo sofre irremediável rebaixamento na hora em que faz um pronunciamento à nação “pedindo” alguma coisa aos chefes estaduais. Que presidencialismo é esse?

Da mesma forma, Bolsonaro tem feito altos elogios à hidrocloroxiquina em suas mensagens à nação. Mas não anunciou qualquer decisão sobre o uso do remédio ou alguma medida efetiva para facilitar sua adoção na rede de saúde do país. Isso, sim, seria papel do presidente da República – concordando-se ou não com o mérito da medida. Em vez disso, Bolsonaro usou o nome de um sério e renomado cardiologista recém-recuperado da Covid-19, o dr. Roberto Khalil, para fazer proselitismo sobre o tratamento.

Contrário a medidas tomadas por seu próprio governo e pelos estados no combate à pandemia, Bolsonaro não assume a postura de presidente da República. Parece mais um crítico, ou um candidato adversário, que vai à TV falar e jogar para a plateia. Falta-lhe coragem – e, claramente, capacidade – para exercer suas atribuições constitucionais, trabalhar e mudar as coisas. No reino das fakenews, é um fakepresidente. Só que o coronavírus, lamentavelmente, não é fake.

Não adianta rezar, Brasil


Estado bolsonarista decide sobre a vida e a morte

Não têm sido consideradas as causas e consequências desta epidemia, o seu antes e o seu depois, na desorganização de uma sociedade subdesenvolvida como esta. A preocupação tem sido com os aspectos médicos da doença, o que é urgente, e com os lucros cessantes da economia, o que não o é.

Epidemia é imprevisível. Economia que subestima as carências da sociedade, não. É inútil pensar no primado do lucro quando o país se desindustrializa e a diversidade produtiva e o emprego encolhem. A exclusão social decorrente, econômica e politicamente produzida, é a condição da difusão da pobreza e, com ela, de doenças que podem ser fatais.

A epidemia não se encaixa no modelo econômico adotado no mundo sob influência do neoliberalismo. Nem no presente nem no futuro. Antes do vírus começar a matar, as carências e imprevidências desse modelo já haviam começado a preparar-lhe o caminho.

O capitalismo que conhecemos terá que passar por ampla, urgente e criativa reforma e transformação para o que provavelmente será uma nova era histórica. A teoria econômica socialmente excludente que o conforma terá que ser substituída por outra, em que, sem o reconhecimento de que a sociedade é a protagonista e destinatária de suas conquistas e resultados, o capitalismo continuará a ser jogatina irresponsável.


Todos sabemos, e a maioria não diz, que no centro de tudo o que vem ocorrendo está a morte. Morte conformada por esse modelo de economia, que se baseia no pressuposto de que uma certa proporção de mortes, em ocorrências como a pandemia, é o preço a pagar pela opção econômica.

O país que mais expressa esse modelo, os Estados Unidos da América, é o mais atingido pela peste. Mortos sendo sepultados aos montes em vala comum. O sistema econômico falsamente lucrativo afunda porque socialmente imprevidente.

Nunca estivemos coletivamente tão perto da morte, nem ela tão perto de nós. É inevitável considerar que nós mesmos poderemos ser, ou os que amamos, um daqueles números da estatística sinistra dos contaminados e dos mortos, que um servidor do Ministério da Saúde lerá no boletim desta tarde.

O Brasil e o mundo são hoje uma fila de espera do dia e da hora de cada um. Dos sensatos, que se protegem em silêncio no isolamento para proteger a vida dos outros. E dos néscios, confinados no egoísmo em que foram educados, o da cultura individualista do neoliberalismo coisificante.

A epidemia expõe o que é de fato esta realidade social, tanto no silêncio que fala quanto na fala que esconde. O país se divide entre os que mencionam irresponsavelmente a morte e os que não lhe pronunciam o nome, recolhidos ao silêncio litúrgico com que a reconhecem como a força que inverte e revela o sentido do mundo.

A travessia socialmente proposta pela morte abre o mundo do avesso que nos revela que avesso é o mundo de carências criado pela obsessão autoritária do ganho sem limite e do ganhador sem consciência social. É no outro lado que está a chave do segredo do lado de cá.

As causas ocultas e distantes de um ontem que nos aflige hoje são explicáveis. As condições sociais para a disseminação do vírus mortal tem em cada país sua história. Infiltrou-se entre nós trazido pelos abonados de sociabilidade internacional intensa. Mas a saliva mortífera é cuspida na cara de todas as classes. E vem espalhando o vírus na escala inteira das desigualdades sociais.

Consequência do neoliberalismo que, desde 1964, tem sido aqui a opção doutrinária que preside a política econômica do Estado mínimo e da minimização dos custos do trabalho na reprodução ampliada do capital.

O apogeu dessa alucinação antissocial, pretensamente teórica e científica, é justamente este governo e sua política de supressão de direitos sociais, de sua incapacidade para definir uma política de economia que coloque a pátria antes do PIB, voltada também para o mercado interno e a multiplicação da renda e do emprego.

Eles não dizem, mas a lógica do sistema econômico diz, essa foi uma opção fácil e barata de enriquecimento porque a taxa de desemprego no país é muito alta e a oferta de trabalho é insuficiente. Até aqui, essa economia criou uma grande massa de mão de obra sobrante, à procura de trabalho e disposta a aceitar a redução de salários e de direitos que a catástrofe propicia.

Por ela, mortes são irrelevantes porque mortes dos descartáveis, no limite dos sem funeral, sem ritos de passagem para o além, o que fere as tradições religiosas do povo brasileiro.

Irresponsável, o Estado bolsonarista decide não só sobre a vida, mas também sobre a morte, reduto poderoso das crenças e dos liames de família. Não há dinheiro que cure os males desse desrespeito materialista e ateu à condição humana.
José de Souza Martins

A vida anormal

E agora? Esta é a pergunta que mais me tenho feito ultimamente. Agora, não sei. Eu não saber não seria grave, acontece-me quase sempre e em relação a quase tudo. Mas assusta-me pensar que ninguém sabe. E agora?

O dia amanheceu chuvoso e frio e assim se vai deixando ficar.

Vou à varanda da frente, a que dá para a avenida. Os donos das lojas correram um lençol metálico sobre as montras e os dos cafés fizeram pequenos montes com as cadeiras das esplanadas e prenderam-nos com correntes de ferro. Uns e outros puseram letreiros a dizer, Estimados clientes, devido à situação existente… A minha varanda é pequenina, uma laje de pedra e uma grade de ferro, uma varanda de procissão.


A colcha das procissões da avó Marquinhas era de cetim vermelho. Uma semana antes de cada festa religiosa íamos ao riacho lavá-la. Esfregávamos a colcha com sabão numa das fragas amaciadas pelas gerações de mulheres que nos haviam precedido e torcíamo-la fazendo uma corda que lembrava as de saltar. Ficava estendida em cima das ervas, à mercê do sol áspero de Trás-os-Montes, e recolhíamo–la depois da horta regada, quase ao fim do dia. Na procissão do domingo de Páscoa de 1976, ainda o Padre abençoava as casas lá para os lados do Cabeço e já nós nos afadigávamos a colocar a colcha na varanda. Fazia tanto vento que nem o expediente de prender as pontas com pedras conseguia sossegá-la no lugar devido. Parece que o diabo anda à solta, disse a avó Marquinhas aflita, filho de um cão e de sete mulas. Meio ano depois, a avó Marquinhas morreu.

Do quarto ao lado, o Pedro envia-me um email com mais um link de um tutorial de ioga para principiantes. Há semanas que não faço as minhas caminhadas, sei que devia exercitar-me para que o corpo não me castigue com dores. Levanto a cabeça para o céu engrossado de nuvens. Continuo a inventar pretextos para ir à rua e logo os deixo cair. É tão difícil fazer a coisa certa. Mesmo sabendo que o meu sacrifício de ficar em casa nada é comparado com o daqueles que não o podem fazer, a verdade é que sinto o meu sacrifício e apenas sei do sacrifício dos outros. Escrevo num post-it, Desconfiar de quem só leva a sério o que sente. Tenho o computador ainda aberto numa página que atualiza as notícias da Covid-19, oferecendo estatísticas, análises, comentários, previsões. Continuamos a falar como se não nos faltassem palavras, como se as metáforas nos pudessem valer, esta guerra, um tsunami, o inimigo.

O Paulo, o irmão que a vida teve a generosidade de me dar, telefona a dizer que o pai, o Fernando, está febril e com ligeira falta de ar. A Teresa, mulher do Fernando, mãe do Paulo, da Zi e da Joana morreu há cinco anos. Todos os dias faço chá no bule castanho que a Teresa e o Fernando me deram num Natal. Conhecemo-nos todos há mais de trinta anos e depressa nos tornámos uma família. Daí a pouco é a Zi que liga. Quer saber se tenho máscaras cirúrgicas que lhes possa dar, a Saúde 24 referenciou o Fernando para o Hospital Curry Cabral e têm de o levar lá. Sabemos o que poderá estar em causa, mas não falamos sobre isso.

Tiro as folhas secas das plantas da marquise. O vizinho do prédio ao lado assoma à sua varanda. Tem um pijama aos quadrados. Pouco depois, acende um cigarro, Voltaste a fumar?, pergunta uma voz feminina de dentro de casa. Ele dá um piparote no cigarro com o polegar e o indicador para o deitar fora, sigo a trajetória da beata até lá a baixo, uma altura de quatro andares, o vizinho diz, Um gajo já não sabe o que faz. Recebo por WhatsApp uma animação em que vários pinguins se salvam de um tubarão ao se manterem unidos. Não sei quantos dos meus contactos já ma mandaram nos últimos dias.

Da secretária em que trabalho, continuo a olhar para o céu pardacento, um girassol avariado. Há três anos mudei as janelas da casa toda. O barulho da rua desconcentra-me, explicava às empresas que vinham fazer o orçamento, Não consigo trabalhar. O Sr. Américo prometeu-me, Vai ficar sem ouvir nada. Era um homem baixo, de bigode farfalhudo, unhas maltratadas, uma imagem que destoava dos tempos modernos, mas que oferecia as garantias que até há pouco todos exigíamos. O Sr. Américo mudou as janelas num fim de semana e eu nunca mais ouvi o bulício da cidade. Não consigo perceber como é que agora ouço este silêncio todo lá fora.

O Paulo telefona novamente, o Fernando ficou internado. Fizeram o teste à Covid-19, mas o resultado vai demorar, É muita gente, sabes? Ligo de seguida à minha mãe, que me conta que o Tomás, o meu sobrinho-neto de quatro anos, ao ouvir na televisão a notícia de mais mortos, disse, Como é que cabem tantos mortos no céu? O Tomás gosta deste isolamento social porque não tem de ir à escola e brinca todo o dia com os pais e o irmão. Digo ao Pedro que hoje estou sem cabeça para aprender a fazer ioga. Culpo a chuva. E isto tudo, acrescento.

Levanto-me a meio da noite, insone. Passo pelas séries que estou a seguir, sem me deter em nenhuma. Fico a ver um programa de culinária até amanhecer.

O dia começa com sol.
Adormeço finalmente.
Tenho vários registos de chamadas quando acordo.
O meu pai morreu no dia 12 de dezembro de 2001. Dois dias depois, o corpo foi cremado no Alto de S. João na presença de todos os que o amavam. A seguir fomos almoçar ao café Império. Lembro-me de olhar para a mesa e pensar, Que bom estar acompanhada. No fim do almoço, levantei-me para pagar a despesa, copiando o gesto que o meu pai fazia em circunstâncias semelhantes. Aquele senhor já pagou, disse o empregado. O senhor era o Fernando. Se a família não serve para estes momentos, serve para quê?, disse-me quando lhe agradeci.

O Fernando não terá velório nem cerimónia de cremação

Recebo mais uma vez a animação dos pinguins e do tubarão.

Combino com o Paulo e com as irmãs que faremos uma festa que celebre o Fernando, quando isto acabar.

Quando isto acabar.

Para o meu querido Fernando
28 de outubro de 1934 – 2 de abril de 2020

Aposta no genocídio

Entre a saúde dos brasileiros e a política, o presidente Jair Bolsonaro preferiu a política. Que Deus nos ajude
Wilson Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro 

Bolsonaro, de mensageiro da morte à Rainha da Inglaterra

A demissão do ex-ministro Henrique Mandetta, da Saúde, veio no melhor momento para ele, às vésperas de uma torrente de mortes a serem provocadas pelo coronavírus. E, para o presidente Jair Bolsonaro que o despachou, no pior.

Embora frustrado, Mandetta vai para casa com o prêmio de consolação de ter tido seu comportamento aprovado por mais de 60% dos brasileiros, e a demissão rejeitada por mais de 80%. Bolsonaro fica com uma bomba prestes a explodir no seu colo.


Chega de intermediários, Bolsonaro para ministro da Saúde! O novo ministro escolhido por ele, e avalizado pelo filho Flávio, fará, ali, o que Bolsonaro mandar. Ou trabalhará alinhado com o presidente e suas ideias ou também será mandado embora.

Mandetta concluiu sua missão. A de Bolsonaro mal começa. A missão que Bolsonaro se deu nas últimas semanas foi a de destruir Mandetta politicamente para que em 2022 ele não ouse disputar as eleições, seja como candidato a presidente ou a vice. Vale tudo.

Orientados do alto, da tarefa se encarregarão os devotos do presidente. Missão dada, missão cumprida. Nas redes sociais, Mandetta é o alvo da vez dos bolsonaristas ensandecidos. Fora delas, também. Há dossiês sendo montados para emporcalhá-lo.

Bolsonaro, que em campanha prometeu que jamais seria candidato à reeleição, só pensa nisso. Todos os seus passos e ações têm como meta a obtenção de um segundo mandato. Pode não ter nascido para ser presidente, como diz. Uma vez que é, quer ser outra vez.

Nada de anormal haveria se as decisões que toma para se reeleger não prejudicassem o país, mas muitas prejudicam, sim. O que ganha o Brasil com a saída forçada de Mandetta do governo? Nada. Só perde. Bolsonaro ganha, ou pensa que ganhou.

Em plena epidemia que assola o mundo, o que ganha o país com os mais recentes ataques de Bolsonaro ao presidente da Câmara dos Deputados, a quem acusou de querer derrubá-lo? Os ataques são para desviar a atenção coletiva da demissão de Mandetta.

Bolsonaro está empenhado em enfraquecer no Senado o pacote de socorro financeiro aos Estados aprovado pela Câmara. Alega que o governo não dispõe de tanto dinheiro. Pode até ser verdade, mas o que ele de fato não pretende é ajudar certos governadores.

Assim como Mandetta, é preciso destruir também os governadores João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, do Rio de Janeiro. Doria aspira a suceder Bolsonaro. Witzel é tratado como inimigo por se recusar a salvar Flávio dos rolos em que se meteu.

Falta peito a Bolsonaro para confrontar o Supremo Tribunal Federal que reconheceu o direito de governadores e prefeitos baixarem medidas de isolamento. Mas ele continuará investindo contra elas para apressar a recuperação da Economia.

Por que procede assim? Por que alimenta o falso dilema entre Economia e Vidas? Porque apostou todas as suas fichas na Economia para reeleger-se. Ao mensageiro da morte, vidas pouco importam. Importam votos. Portanto, passe livre para o vírus.

Bolsonaro cava sua própria sepultura. Tanto ou mais que o coronavírus, ele virou uma grave ameaça sanitária ao país. Em breve, segundo ouvi, ontem, de um ministro do Supremo Tribunal Federal, poderá virar uma espécie de Rainha da Inglaterra.

Viva a globalização!

Caros brasileiros,

parece que a época da globalização acabou. Fronteiras fechadas, aviões e navios parados e muitas cadeias de produção interrompidas. Não faltam pessoas pregando que o mundo pós-coronavírus não será mais o mesmo, que o Estado nacional ganhará mais importância enquanto a cooperação internacional diminuirá.

Acredito que não vai ser bem assim e, por isso, quero compartilhar com vocês alguns pensamentos do grande historiador e autor israelense Yuval Noah Harari. Num artigo para a revista Time que foi reproduzido pela edição brasileira do El País, ele defendeu a tese, de que "o antídoto contra a epidemia não é a segregação, e sim a cooperação".

Não é mera coincidência que essa tese seja debatida justamente no momento em que o presidente americano, Donald Trump, acusa a Organização Mundial de Saúde (OMS) de ter agido em função dos interesses do regime chinês e de ter respondido tarde demais e mal à ameaça representada pelo novo coronavírus.

Na terça-feira, Trump anunciou o congelamento dos recursos dos EUA para a OMS. Segundo dados reunidos pela agência de notícias AP, a contribuição americana de 900 milhões de dólares representa um quinto do orçamento da agência da ONU de 2018-2019, que gira em torno de 4,4 bilhões de dólares.

Pois é. Foi justamente a Organização Mundial de Saúde que conseguiu derrotar o vírus da varíola com uma campanha mundial de vacinação na década de 1970. Enquanto em 1967, 15 milhões de pessoas foram contagiadas pela doença, das quais 2 milhões morreram, em 1979, a OMS declarou que a humanidade tinha erradicado a doença.

Dessa vitória pode-se tirar várias lições. Uma conclusão fundamental para Harari é que é impossível vencer uma pandemia sem cooperação internacional. Pois a erradicação da varíola foi possível porque todos países participaram da campanha de vacinação.

"Se um só país não tivesse vacinado a sua população, poderia ter posto em perigo a toda a humanidade", diz Harari. "Porque, enquanto o vírus da varíola existisse e evoluísse em algum lugar, sempre poderia se propagar por todo lado."

Outra lição é que a velocidade das descobertas científicas vem crescendo junto com a cooperação internacional. Enquanto na Idade Média nunca se descobriu o que causava a peste negra, os cientistas atuais não levaram mais de duas semanas para identificar o coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um exame confiável para identificar pessoas infectadas.

Em terceiro lugar, a globalização não serve como bode expiratório. Pois epidemias já matavam milhões de pessoas bem antes da integração econômica global. A peste negra se propagou do leste da Ásia até a Europa Ocidental no século 14. Naquele tempo, não havia aviões nem grandes navios.

Até na época da colonização havia pragas fora de controle. No México, em março de 1520, bastou um único portador da varíola, Francisco de Eguía, para infectar um continente inteiro. Apesar da ausência de meios de transporte, como trem o ônibus, a epidemia assolou toda a região e matou, segundo algumas estimativas, um terço de sua população.

Concordo com Harari: a globalização, o crescimento da população mundial e a facilidade de viajar, tudo isso cria condições favoráveis para pandemias. No mundo atual, um vírus pode viajar de Paris a Tóquio e ao México em menos de 24 horas. Sendo assim, existe o perigo de enfrentar uma praga mortal depois da outra.

Mesmo que o coronavírus sugira o contrário, isso não acontece. Harari chama atenção para o fato de que "tanto a incidência como as repercussões das epidemias diminuíram de forma espetacular". "Apesar de surtos horríveis, como o de aids e o de ebola, as epidemias matam muito menos gente que em qualquer outra etapa da história", observou.

A conclusão do historiador é: "A melhor defesa dos seres humanos frente a epidemias não é o isolamento, e sim a informação. A história indica que a autêntica proteção se obtém com o intercâmbio de informações científicas confiáveis e a solidariedade mundial."

É o sonho da globalização da solidariedade. O sonho que faz a humanidade andar. O sonho que, infelizmente, alguns governos atuais abandonaram, pois resolveram colocar os interesses do próprio país "acima de tudo". Se deram mal.
Astrid Prange de Oliveira

Paisagem brasileira

Enterros simultâneos, aglomeração e coveiro sem proteção em Manaus

Socorro, o piloto pirou

O rei Jorge III (1738-1820) foi um dos monarcas mais queridos da Inglaterra, fez muitas conquistas, embora tivesse perdido a sua maior colônia na América, os Estados Unidos, mas teve um problema na velhice: enlouqueceu.

Maluco beleza, saía pelos corredores do Castelo de Windsor enrolado em lençóis, uma vez falou 58 horas sem parar, num passeio pelo campo saiu cantando completamente nu, dizia coisas desconexas. Embora na época os médicos pouco soubessem sobre doenças mentais, era claro que o rei estava incapacitado para governar, e seu filho foi nomeado regente. Como no filme “A loucura do rei”.

Se já é difícil dizer que o rei está nu, muito mais é convencê-lo de que está louco. Como o presidente Delfim Moreira (1918-1919).

Como convencer um insano de que ele está doente? E se for o rei da Inglaterra?

E se for o presidente do Brasil?


Com todo o respeito e compaixão pela dor e o sofrimento dos doentes mentais, cada dia mais Bolsonaro diz e faz coisas que não podem ser só burrice, ignorância, maldade, narcisismo ou paranoia. Qualquer profissional de doenças mentais vê traços preocupantes no seu comportamento. Afinal, o cara não é normal, tem corpo fechado, desafia o vírus, o Congresso e o Supremo, se acha um mito invencível.

Demência não é vergonha, não é castigo divino nem culpa do doente. Mas se, para obter uma carteira de caminhoneiro o cara tem que fazer exames de sanidade mental, se grandes empresas o exigem antes de contratar, por que não o presidente da República?

Quem poderia obrigar o presidente a um exame de sanidade mental por uma junta médica, o Congresso? Os generais? Várias ações já correm na Justiça. O que diz a Constituição?

Na gíria das favelas, os malucos são chamados de “22”, artigo do antigo Código Penal sobre insanidade mental, como “Paulinho 22”, “Telma 22” e, por que não,“Jair 22”? O bom da insanidade é que ela apaga tudo de ruim que foi feito, até crimes, porque o cara é inimputável. É melhor que impeachment.

Só não podem nomear Carluxo como regente.
Nelson Motta

Estadista x líder de manada

Que nós nos unamos para cumprir nosso dever, e desta forma nos elevemos de tal forma que, se o Império Britânico e sua comunidade britânica durarem mil anos, as pessoas ainda digam: “Aquele foi seu melhor momento!"
Winston Churchill, primeiro ministro conclamando os ingleses na guerra contra Adolf Hitler

O socorro

Ele foi cavando, cavando, pois sua profissão – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais do mato. Só pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: “O que é que há?”

O coveiro então gritou desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!” – “Mas, coitado!” – condoeu-se o bêbado. – “Tem toda a razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem apela
Millôr Fernandes

Bolsonaro não é louco

Vamos chamar a coisa pelo nome. O presidente eleito por milhões de brasileiros não é louco. Psicóticos e neuróticos podem ser classificados assim. Eles sofrem e enxergam o sofrimento do outro. Eles não têm método. Bolsonaro é diferente. Pelos estudos da psiquiatria inglesa no século XIX, Bolsonaro se encaixaria em outra categoria: a dos psicopatas.

Conversei com o psicanalista Joel Birman para entender essas fronteiras entre transtornos mentais. “A psicopatia não é uma loucura no sentido clássico, mas uma insanidade moral, um desvio de caráter de quem não tem como se retificar porque não sente culpa ou remorso”. Os psicopatas são “autocentrados, agem com frieza e método”. “Não têm empatia em relação ao outro, o que lhes interessa é o que lhes convém”. A palavra psicopatia vem do grego psyché, alma, e pathos, enfermidade.


A pandemia só tornou esses traços de Bolsonaro mais gritantes. Desde os primeiros grandes gestos do presidente, ficou claro, disse Birman, que seus atos “são marcados por crueldade e violência”. Proposição de liberar fuzis para civis. Proposição de acabar com os radares nas estradas. Proposição de não multar a falta de cadeirinha para crianças. Proposição de acabar com os exames toxicológicos para motoristas de caminhão e ônibus. Proposição de legalizar o garimpo predatório nas florestas e terras indígenas. Tudo isso é um atentado à vida. 

Eu poderia lembrar o que muitos teimam em esquecer. Que Bolsonaro já era assim antes de ser eleito. Quem defende torturador e condena as vítimas, publicamente, no Congresso, não é uma pessoa que preza a vida. Não surpreende, portanto, que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, denuncie, sem meias palavras, a “política genocida” de Bolsonaro. O presidente trocou seu ministro da Saúde, era sua prerrogativa, mas será barrado pelo STF se insistir em condenar o isolamento social e ameaçar a saúde pública.

Ao criar uma realidade paralela, Bolsonaro desfruta sua liberdade de ir e vir sem se importar com as consequências de seu exemplo. Ele refuta a ciência, ignora as normas sanitárias nacionais e internacionais, receita remédios polêmicos sem autoridade para isso, ironiza quem se isola, chamando a mim e a você de “moleques”. Coloca em maior risco os pobres. O presidente é uma temeridade ambulante. Troca um ministro da Saúde competente e popular em plena batalha.

Ao se recusar a divulgar o resultado de seu exame, Bolsonaro despreza a população, se acovarda e age diferente dos homens públicos que honram seus cargos. Pode até ser que esteja imune após uma versão branda da Covid-19 e por isso se sinta apto a saracotear pelas ruas e padarias, mexendo em dinheiro e comida, enxugando o nariz e apertando as mãos do povo aglomerado. Bolsonaro não é burro nem louco. É perverso, ao estimular um comportamento de altíssimo risco.

A OMS classifica a psicopatia como um transtorno de personalidade caracterizado por um desprezo das obrigações sociais. A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro "Mentes perigosas", diz que a “psicopatia não é uma doença, é uma maneira de ser”. O psicopata, segundo ela, sempre vai buscar poder, status e diversão. Enxerga o outro apenas como um objeto útil para conseguir seus objetivos.

Mandetta tinha deixado de ser útil. Por brilhar demais, por ter trânsito com o Congresso e por não se curvar a suas teses temerárias. Um ministro como esse, generoso e articulado, enlouquece um presidente transtornado. A ciência é a luz. O resto é escuridão.

Bolsonaro em dia de múltiplos erros

O presidente Jair Bolsonaro dobrou ontem a aposta na estratégia de jogar a culpa da crise econômica e do desemprego nos governadores. Ele acredita que dores econômicas serão mais fortes que as da pandemia e derrubarão o apoio aos seus possíveis adversários em 2022. Bolsonaro não tem um minuto sequer de grandeza, um traço mínimo de estadista. Ele governa por picuinhas, joga sempre no conflito, e mesmo no doloroso ano de 2020 sua única obsessão é 2022. Ontem foi um dia emblemático da exibição dos muitos defeitos de Jair Bolsonaro.



Ele tirou Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde porque teve ciúmes do seu desempenho. Escolheu outro que fosse capaz de dizer que está completamente alinhado com ele. É espantoso, porque o presidente tem defendido ideias temerárias e sem qualquer apoio da comunidade científica. Bolsonaro acusou governadores e prefeitos de atacarem as liberdades democráticas. E lembrou que é o único que tem poderes de decretar estado de sítio e estado de defesa. No fim do dia, atacou fortemente o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O deputado reagiu dizendo que era um truque de Bolsonaro “para mudar a pauta negativa”. Na economia, fez as confusões de sempre.

– E agora tem esse problema aí do ICMS. Quem vai pagar a conta? O Jair Bolsonaro ou a população como um todo? Já está em mais de R$ 600 bilhões o custo até agora. Pode chegar a R$ 1 trilhão. O Brasil suporta? –disse.

Se ele fala de ICMS, o que a sua equipe econômica se recusa a aceitar é transferir R$ 80 bilhões aos estados. Sua visão econômica sempre foi tosca e displicente. Subitamente ele quer fazer crer que é um estrategista econômico. E o faz por isso. Para jogar antecipadamente a conta das inevitáveis amarguras sobre seus supostos adversários políticos.

– Em nenhum momento eu fui consultado sobre medidas adotadas por grande parte dos governadores e prefeitos. Eles sabiam o que estavam fazendo. O preço vai ser alto. Se porventura exageraram, não botem essa conta, não no governo federal, mais essa conta no sofrido povo brasileiro.

O tom populista apareceu em suas várias falas, a oficial em que pareceu acuado, a improvisada, na porta do Palácio, e na transmissão pela internet:

– As pessoas mais humildes sentiram primeiro o problema, essas não podem ficar em casa por muito tempo. O governo federal não abandonou em momento algum os mais necessitados.

A verdade é que o auxílio emergencial foi aceito com relutância pelo governo e foi elevado pelo Congresso. A implementação está sendo um desastre. Filas enormes se formam na Receita Federal ou na Caixa. São os pobres, sob o risco de se infectarem, se aglomerando para lutar para superar a burocracia e ineficiência do governo para receber o que têm direito.

O governo Bolsonaro tem tentado dividir Câmara e Senado, mas ontem os uniu. Os presidentes das duas Casas, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, assinaram uma nota conjunta em que chamam o ex-ministro Mandetta de “guerreiro” e dizem que esperam que ele não tenha sido demitido “com o intuito de insistir numa postura que prejudica a necessidade do distanciamento social e estimula um falso conflito entre saúde e economia”.

Bolsonaro falou ontem diversas vezes que é preciso encerrar o distanciamento social. Contou inclusive que desistiu do decreto porque haveria oposição, mas que prepara um projeto para definir o que são as profissões essenciais. É ele tentando contornar a decisão do STF de que os estados têm o direito de tomar as decisões que tomaram.

E o novo ministro? Ele teve uma primeira fala confusa. Defendeu uma coisa e o seu contrário, e depois coisa nenhuma. “Como a gente tem pouca informação, como é tudo muito confuso, a gente começa a tratar a ideia como se fosse fato e começa a trabalhar cada decisão como se fosse um tudo ou nada e não é nada disso.”

Essa confusão do novo ministro era para tentar conciliar a sua fala de que é preciso ser científico e técnico e ao mesmo tempo dizer-se em “alinhamento completo” com o presidente. O primeiro passo para esse alinhamento é o presidente aprender que ele se chama Nelson e não Rubens. Bolsonaro trocou o nome duas vezes. Esse foi o menor dos erros de Bolsonaro ontem.