domingo, 20 de novembro de 2022

A desrazão

Ser liderado por um covarde significa ser controlado por tudo o que o covarde teme. E ser liderado por um tolo é ser liderado pelos oportunistas que controlam o tolo
Octavia Butler

De que é feito um grande líder? Quase 200 anos atrás, a americana Margaret Fuller, autora do clássico “A mulher no século XIX”, primeira obra feminista registrada nos Estados Unidos, elencou quatro atributos essenciais: 1) ser idealista sem ser raso, ser realista sem demolir o outro; 2) abrigar empatias universais; 3) ser seguro de si; 4) entender que o poder é mais que mero espetáculo — o jogo da vida é solene, tem consequências. Primeira mulher correspondente de guerra de seu país, a pioneira Fuller foi uma jornalista engajada. Tinha horror à desrazão.

Em tempos mais recentes, quem também se ocupou do tema foi outra pioneira das letras, a colossal Octavia Butler. Autora de livros de ficção científica, Butler havia arrombado essa fatia do universo literário dominada por homens — e quase sempre homens brancos. Fora marcada pelo racismo e pelo segregacionismo dos EUA. Tampouco tinha paciência com a desrazão. Deixou ensinamentos sábios sobre a escolha de líderes. “Ser liderado por um covarde significa ser controlado por tudo o que o covarde teme. E ser liderado por um tolo é ser liderado pelos oportunistas que controlam o tolo”, escreveu em “Parábola dos talentos”. A obra também contempla líderes corruptos, mentirosos e chegados a uma tirania.


Bingo. Como não pensar no ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e no quase (ou de facto) ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? Ambos disputam primazia em covardia pessoal, bufonaria, criminalidade institucional, irresponsabilidade social. O que varia é a gradação. Trump, apesar da surra sofrida por seus candidatos nas eleições da semana retrasada, e contrariando os conselhos unânimes de seu QG político, anunciou sua intenção de tentar uma nova eleição em 2024. O evento, contudo, em nada lembrou a oficialização hollywoodiana de sua candidatura em 2015, quando desceu a monumental escadaria de sua torre nova-iorquina como um semideus que vai ter com o povo. Aquilo, sim, foi um triunfo. Seduziu a mídia de forma tão irreparável que, quando o jornalismo se deu conta, estava viciado e dependente dos absurdos produzidos por Trump.

Desta vez, o anúncio oficial, feito no salão nobre de Mar-a-Lago, sua propriedade na Flórida, foi mais para o patético. A mansão não lhe serve apenas de residência. Desde a derrota para Joe Biden em 2020, não aceita até hoje e que tentou anular por meio da invasão do Capitólio, Trump tenta imprimir a Mar-a-Lago uma aura de “sede de governo”— ele e seus seguidores mais doidos ainda o consideram o 45º presidente dos Estados Unidos em exercício. Só que, desta vez, a desrazão fabricada trombou com a realidade. Seu discurso de “reestreia” foi longo e tedioso, sem o habitual domínio de cena, desprovido de sacadas verbais. A plateia que ele deveria incandescer estava murcha. Vídeos indiscretos mostraram grupos de convidados tentando sair à francesa do salão, mas as portas permaneceram fechadas, impedindo a escapadela.

Ninguém gosta de perder eleição — seja para síndico ou presidente da Republica. Entre os ocupantes da Casa Branca, é de George H.W. Bush (pai) a descrição mais honesta e pungente de quanto lhe foi dolorido perder lisamente para Bill Clinton em 1992. Sem falar no inferno mental que tomou conta de Richard Nixon nos dias que antecederam seu impeachment, em 1974 — ele não conseguia sair da posição fetal e chorava no chão da Casa Branca.

Do lado de cá, a negação da derrota eleitoral por Bolsonaro tem tonalidade lúgubre. Imaginá-lo zanzando há três semanas no Palácio da Alvorada, infectado física e psicologicamente pelo medo, é esquisito. É medo de ser quem é, sem amparo? Medo das consequências de ter sido o presidente que foi? Sumiram ele e os filhos encrencados com a Justiça, assim como sumiram os também encrencados filhos de Donald Trump do evento em Mar-a-Lago.

— Perdeu, mané. Não amola — disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso ao bolsonarista que o abordou em Nova York.

A frase soou ótima, deixou meio Brasil de excelente humor. Dado o contexto, porém, o magistrado foi desdenhoso, arrogante. Ele participava do que o professor de Direito Constitucional Conrado Hübner Mendes, em coluna na Folha de S.Paulo, batizou de “micareta cinco estrelas de Nova York”, com conotação de promiscuidade judicial com evento empresarial.

A hora é particularmente imprópria para desdéns e minimizações. A histórica vitória eleitoral de Lula para liderar o país pela terceira vez é recente. Ainda está em construção e, para ser segura, será obra de longo prazo. O que não muda é o papel da imprensa: noticiar. Com uma diferença: ela espera das futuras lideranças o que nunca recebeu do governo atual — respeito e transparência. Um jatinho Gulfstream que acaba de rodar mundo com um presidente e um empresário encrencado com a Justiça desviou dessa rota.

O reencontro com o Brasil

A recepção do mundo ao retorno de Lula tem a anormalidade dos fenômenos. As publicações importantes, muitos chefes de governo, e manifestações dos conscientes das urgências naturais, sociais e políticas do planeta celebram a volta do Brasil pelas mãos de Lula. Nas palavras do escritor Jon Lee Anderson: "As pessoas ao redor mundo estão esperando de você, Lula, não que salve a Amazônia, mas que salve o mundo".

Há pouco a se comparar com essa expressão universalizada de inquietude e vontade, feita com espontaneidade que subjuga a era do invasivo marketing. O nome Lula ecoa no mundo como o de Mandela soou em nossos dias, por admiração ao homem e à obra de sua vida comovente. Lula —ideia, histórico, palavra, pessoa— é a causa e a confiança.


Vê-se, por contraste, quanto o Brasil fugiu do mundo real. Quanto o mundo o queria. Quanto pode dar à humanidade. Quanto estão atrasados, caquéticos, os que criaram e sustentaram os quatro anos do domínio de mentalidades fardadas, estreladas, condecoradas e desprovidas de pensamento. Está bem claro: o mundo mudou e a visão dos militares ficou fora, completamente fora da realidade. Caserna e caverna.

Não é só o golpismo enraizado, nem a presunção de direito à impunidade, ou a prepotência dada pela arma. É a visão. A estratégia de uma Amazônia toda ocupada por atividades econômicas, e para isso devastada, como forma de esvaziar ambições invasoras, é o extremo oposto ao que a racionalidade, a ciência e a nova consciência mundial anseiam. O desatino da ocupação virou exploração ilegal lá e negócio sujo no governo Bolsonaro, mas a estratégia é anterior. É militar. E amparou, por óbvia concordância, a política anti-amazônica, anti-indígena e negocista adotada pelo governo.

Salvo pela exploração política e comercial de religiões, o bolsonarismo é a prática revivida da mentalidade atrasada, aquela que já na ditadura do general Médici consumiu fortunas e vidas na Transamazônica que seria a espinha dorsal da ocupação econômica da floresta. Tal permanência, já de meio século no exemplo dado, denuncia a falta absoluta de reflexão e o domínio absoluto do atraso. Com o acréscimo do golpismo pago por empresários não menos atrasados, vislumbra-se o que espera por Lula do outro lado do Ano Bom.

O 'bispo vermelho' da ditadura de 64 está a um passo de virar beato

“Prova de amor maior não há, do que dar a vida pelo irmão”, cantavam emocionadas centenas de pessoas que lotavam na noite do dia 27 de maio de 1969 a Matriz do Espinheiro, no Recife. No altar, 40 padres celebravam missa liderados por dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife e Olinda. Um pouco abaixo do altar, dentro de um modesto caixão, jazia o corpo do padre Antonio Henrique Pereira Neto, 28 anos.

Na véspera, depois de sair por volta da meia-noite de reuniões em casas de duas famílias no bairro de Parnamirim, Henrique, assessor de dom Hélder e responsável pela Pastoral da Juventude da arquidiocese, foi sequestrado por quatro ou cinco homens que o levaram numa Rural Willis para uma área deserta a 30 quilômetros do centro da cidade. Ali, foi torturado e morto.

A perícia do corpo concluiu que Henrique, padre há três anos, fora amarrado com uma corda e arrastado. Uma faca ou algo parecido feriu seu rosto várias vezes. A violência sofrida por ele concentrou-se na cabeça. Ela foi chutada. A corda enlaçada em seu pescoço acabou por asfixiá-lo. Por último, deram-lhe três tiros na cabeça. Tamanha demonstração de ódio tinha um sujeito oculto.

O alvo indireto do crime, um dos mais bárbaros da ditadura militar de 1964, era dom Hélder, amigo pessoal do então Papa Paulo VI, e apontado pelos generais como um perigoso comunista. Eles o chamavam de “bispo vermelho” e seguiam todos os seus passos.

O Palácio dos Manguinhos, onde ele despachava, havia sido pichado com mensagens assinadas pelo Comando de Caça aos Comunistas. Ocorrera o mesmo com a parte dos fundos da Igreja das Fronteiras onde ele morava. Assim como com o Juvenato Dom Vital, local onde ele se reunia com seus pares nordestinos. Um homem arrependido já confessara a dom Hélder que fora contratado para matá-lo.

“Querem que eu me proteja”, pregou o arcebispo na missa que antecedeu a saída do cortejo que levaria a pé o corpo de Henrique para ser enterrado no cemitério da Várzea. “Querem que eu não ande só à noite, e que não durma só. Mas quem disse que eu ando só? Andam e dormem comigo o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Entre oito mil e 10 mil pessoas seguiram o caixão. De vez em quando, policiais irrompiam no meio delas para fazer prisões. Vi prendere o ex-ministro da Agricultura do governo João Goulart, o deputado Oswaldo Lima Filho. E estudantes que carregavam uma faixa onde se lia: “Os militares mataram padre Henrique”.

O cemitério estava cercado por policiais. Depois do enterro, temendo o pior, dom Hélder pediu à multidão que fosse embora sem se manifestar. E se pôs, sozinho, diante da tropa, a acenar para as pessoas com um lenço branco. Foram longos minutos de silêncio e de medo até que todos se dispersaram. Censurada, a imprensa nada publicou sobre a morte e o enterro de Henrique. Por 9 anos, ela foi proibida de citar o nome de dom Hélder.

Em junho de 2012, a Comissão da Verdade, seção de Pernambuco, concluiu que a morte de Henrique foi um crime político. Participaram dele estudantes de direita e investigadores da polícia civil sob o comando de Bartolomeu Gibson, na época Chefe de Investigações da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Dos criminosos, dois ainda viviam. Mas a Lei da Anistia impedia que fossem punidos.

A Arquidiocese de Olinda e Recife informou na semana passada que o processo de beatificação de dom Hélder avançou mais uma etapa em Roma. A documentação enviada ao Vaticano foi aceita pelo Dicastério para a Causa dos Santos. Falta só mais uma etapa para que dom Hélder seja elevado à condição de beato pela Igreja Católica.

Pensamento do Dia

 


Alimentar o ódio é minar a nação

A construção de nações foi uma das tarefas mais complexas da história da humanidade. O primeiro passo é estabelecer os limites territoriais dos países, algo ainda inacabado em parte do mundo, tendo muitas vezes a guerra como solução. Mas o aspecto mais complicado está na produção da identidade nacional. Constituir um povo que conviva com suas diferenças não é nada trivial. Mesmo sendo escandalosamente desigual, o Brasil conseguiu edificar uma sociedade razoavelmente tolerante, com espaços de convívio e respeito mútuo. Só que o ódio entre brasileiros tem sido alimentado cotidianamente. Isso pode afetar o destino de curto e longo prazo da nação.

O ódio social nunca foi uma bússola para construir civilizações. Nos casos mais extremos, produziu-se a barbárie. Assim foi na Alemanha nazista, com a perseguição de vários grupos sociais, especialmente os judeus, com 6 milhões de mortos. O Brasil atual está longe disso, mas o crescimento do neonazismo nas redes sociais e manifestações declaradamente nazistas em universidades e até em escolas particulares de educação básica revelam que há sementes totalitárias sendo plantadas em nossa nação.

Mas o ódio pode ter uma forma mais branda e duradoura, com divisões sociais marcadas pelo rechaço completo entre as forças políticas, transformando a atividade da política em um jogo de mágoas perpétuas. A Argentina tem trilhado essa história desde a Segunda Guerra Mundial, com períodos autoritários muito violentos e com momentos democráticos em que o diálogo tem pouco espaço entre os diferentes. O fato é que o desenvolvimento econômico e social argentino foi barrado por um grau de polarização que dificulta qualquer decisão que resulte da negociação e do respeito mútuo. Esse é o efeito Orloff que o Brasil mais deveria temer.


Nos últimos 15 anos, um novo ciclo internacional de ódio político foi constituído. Ele é a combinação do avanço de redes sociais propositadamente polarizadoras com o discurso da nova extrema direita, caracterizada pela defesa de valores tradicionais, pelo nacionalismo excludente (nem todos os integrantes da nação são legítimos) e pela crítica às instituições impulsionadas a partir do Iluminismo ocidental. Por meio desses dois elementos, construiu-se um movimento baseado na busca da destruição dos inimigos, como a mídia tradicional, os liberais globalistas, a esquerda em seus vários matizes, a ciência e os intelectuais, além de grupos sociais politicamente minoritários (mulheres, negros, LGBTQIA+ etc.), para citar os principais alvos, realizando uma hiperpolitização de todos os espaços da vida humana.

A hiperpolitização significa que nenhum espaço da vida humana pode estar alheio às ideias políticas que norteiam o grupo que se pretende dominante, ou melhor, que pretende eliminar todos os que não concordam com ele. É uma noção similar ao conceito de ideologia usado por Hannah Arendt para descrever os totalitarismos do século XX. Os filmes de Goebbels muitas vezes falavam da vida cotidiana, da higiene que a raça ariana deveria cultivar para se tornar superior. Hoje, a hiperpolitização não define apenas o que se deve fazer na seara política, mas como se comportar na esfera privada.

A política é a atividade mais nobre entre os seres humanos, como já pensavam os clássicos como Aristóteles e Maquiavel, porém, quando tudo vira política, há grandes chances de se criar uma sociedade incapaz de conversar na padaria, de tomar o mesmo ônibus, de se sentar numa mesma sala de aula, de entender que o direito de um termina quando afeta a liberdade do outro - evitar que uma pessoa doente atravesse uma estrada é matar o sentido de uma nação. Será que a Copa do Mundo nos trará a ideia de brasileiros, iguais na sua diferença, de volta?

É muito assustador quando uma sociedade começa a funcionar segundo uma divisão baseada no ódio ao outro, a quem pensa diferentemente ou tem uma origem social distinta. O clima social geral e em todas as organizações fica extremamente pesado. Haverá mais conflitos desnecessários, em algumas situações se chegará à violência, com a possibilidade da morte de um irmão ou irmã não de sangue, mas de identidade nacional. As escolas se tornarão menos suscetíveis ao aprendizado como resultado do diálogo e do compartilhamento de experiências diferentes. As empresas também sofrerão com esse processo de disseminação do ódio, provavelmente reduzindo sua produtividade, porque o sucesso organizacional depende bastante da combinação de talentos e visões de mundo diferentes.

Para exemplificar a que ponto se chegou o ódio alimentado pelo bolsonarismo, basta lembrar que o Brasil precisa do Nordeste para a construção de seu imaginário cultural e de seu sucesso econômico - experimente segregar os estados, e barreiras econômicas nascerão a seguir, perdendo-se mercado consumidor e capital humano. Os meninos da escola privada que trataram seus colegas de forma preconceituosa terão enormes dificuldades de conseguir empregos no futuro, pois as empresas estão demandando diversidade, e quem for contra isso terá menos espaço na economia do século XXI. Voltando à Copa do Mundo, tema que vai ser dominante nas próximas semanas, seria impossível ganhar qualquer um dos cinco títulos que temos se o atual modelo de ódio definisse as convocações.

Aqui vale diferenciar o conceito de pátria do sentido da palavra nação. Ficou na moda em certos círculos sociais se definir como patriota. Gostar da bandeira e do hino nacional unifica as pessoas de um país. Só que a palavra pátria tem a ver mais com o lado oficial do Estado nacional, e relaciona-se menos com o que profundamente liga as pessoas em uma determinada sociedade. A pátria pode ser evocada por ditadores, por gente que mata seus semelhantes em nome de objetivos políticos - muitos dos autoproclamados patriotas que estão nas ruas querem destruir seus inimigos, mesmo que sejam seus vizinhos que um dia os levaram ao hospital ou cuidaram de seus filhos quando estavam fora de casa.

A nacionalidade, ao contrário, vai além da estrutura institucional do poder. Ela está lá também, entretanto, sua principal característica é ser um sentimento profundo e de longo prazo de pertencimento a uma coletividade. A nação unifica sem que se produza a homogeneidade social. Em vez disso, deve garantir a unidade na diversidade, alimentando consensos e gerindo dissensos. O pertencimento a uma nação é a possibilidade de discordar e conviver, como quem torce para times diferentes, discute quem é a melhor equipe, xinga o juiz do jogo, mas ao final aceita as regras e acredita que o futebol só tem graça porque há adversários. O que seria do Corinthians sem o Palmeiras, e vice-versa?

O ódio político está minando os vínculos básicos da nação brasileira. Em termos coletivos e intertemporais, ninguém ganha com isso, a não ser grupos organizados para conquistar o poder por meio da violência política e social. O problema é que esse tipo de extremismo convenceu uma parcela relevante da sociedade brasileira que, inebriada pela hiperpolitização que parece dar respostas a todas as angústias da vida social, mobiliza-se cegamente para a destruição das bases mais amplas da coletividade, colocando em risco o seu presente e, sobretudo, o futuro de seus filhos e netos.

No curto prazo, é preciso construir espaços públicos de diálogo entre os diferentes, mostrando como é possível conviver com a divergência, negociar posições e até mudar de opinião. Claro que aqueles que cometeram crimes contra a democracia, segundo define a lei, podem ser punidos. Todavia, a maioria que está descontente com o resultado eleitoral e acredita nas teorias conspiratórias que são alimentadas pela hiperpolitização pode ser trazida de volta ao debate democrático com suas diferenças em relação ao presidente eleito.

Para isso, é preciso que as principais instituições sociais, como a mídia e a universidade, e o novo governo se guiem pela maior abertura possível para conversar e incorporar demandas de diferentes setores sociais. No caso da terceira gestão presidencial de Lula, ele terá que se vigiar constantemente para evitar o hegemonismo que por muitas vezes acomete o PT. A frente ampla é a única forma de salvar a nação da doença do ódio que cresce no país, e ela será feita de grandes decisões e de pequenos atos, como o relativo à discussão da presidência do BID, quando o petismo se esqueceu das lições recentes e atuou como no passado hegemonista.

A solução estrutural para evitar o crescimento do ódio político e social está na educação. É preciso fazer da diversidade a peça central do ensino, da creche à universidade. Há quase 30 anos formo alunos com ideias diferentes, e sempre estimulei o convívio e o aprendizado entre os divergentes. Já falhei na minha jornada pedagógica, como num episódio recente em que fui desrespeitoso com quem pensava diferentemente de mim. Talvez todos estejamos envoltos em muito ódio, quando precisamos de paciência e de empatia. Por essa razão, dedico este artigo a Danielle Klintowitz, falecida precocemente há algumas semanas. Ela foi minha orientanda e seu doutorado mostrava que uma política pública bem-sucedida depende de negociação e acordos entre os diferentes. E o que vale para ações governamentais, vale para a convivência de todas as pessoas da nossa nação.

A República brasileira deve aprender com a fome

Um dos grandes desafios que tive como professora do ensino básico era fazer com que meus estudantes traçassem paralelos entre a História Antiga que lhes ensinava e o Brasil que eles viviam. Para além de um certo fascínio criado por Júlio César, Cleópatra e pelos gladiadores, o Império Romano parecia (e era) extremamente distante.

Lembro-me, com grande decepção, de que esses mesmos estudantes ficavam alarmados (revoltados, muitas vezes) quando descobriam que a imensa maioria dos escravizados desse império não era formada por africanos e seus descendentes, e sim homens e mulheres brancos, reafirmando que somos ensinados desde muito cedo que existe uma falaciosa relação entre a cor negra e escravidão.

Mas havia um ponto alto no bimestre: quando os estudantes faziam a conexão entre a construção da República romana e a República brasileira. Investíamos um bom tempo para compreender quais foram as transformações políticas construídas por parte da elite romana que fizeram da defesa da "coisa pública" um ponto fulcral na consolidação dessa forma de governo.


Essa "coisa pública", tomando o significado da palavra latina "República" ao pé da letra, representava a construção de uma forma de governo que buscava atender aos interesses dos cidadãos romanos, por meio da escolha de representantes com funções e poderes distintos por tempo determinado. A existência do sistema bicameral também foi pensada para que o exercício do poder legislativo tivesse como finalidade máxima o "bem público", e não o interesse de grupos específicos.

Não há dúvida de que o nepotismo fez parte da história da República romana, haja vista as intensas disputas políticas que marcaram seus mais de 500 anos de existência. Uma ideia de exercício do bem público que conviveu muito bem com um sistema escravista em expansão. E ainda que haja um gérmen em comum, é também fundamental lembrar que existem inúmeras diferenças entre a república construída pelos irmãos Graco e a brasileira. Mesmo porque são milênios que as separam.

No entanto, me parece fundamental resgatar o sentido etimológico da palavra, para rememorar os 133 anos da República do Brasil neste 15 de novembro. Sobretudo neste momento em que ainda temos grupos que insistem em não reconhecer sua derrota em meio ao jogo democrático, exigindo que seus interesses privados e particulares estejam à frente do bem maior, ou da maioria da população.

A República brasileira está longe de ser inclusiva. Se recuperarmos os anos iniciais da experiência republicana, veremos com muita clareza o que o historiador Marcos Napolitano chamou de "arquitetura da exclusão". Veremos que, por muito tempo, o bem público era muito delimitado e usufruído por poucos, os mesmos de sempre. E que tal limitação caminhava de mãos dadas com o racismo, fazendo da população negra, mestiça e indígena cidadãos de segunda classe, quando muito.

No entanto, também veremos que esses 133 anos foram marcados pela luta constante por garantia e ampliação de direitos desses mesmos "cidadãos de segunda classe". Uma luta que pode ser traduzida pelo alargamento do sentido e da extensão do "bem público". Uma luta tamanha que afronta a percepção que alguns grupos ainda têm sobre quem e o que deve ser contemplado no exercício da cidadania.

O horror que o choro do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva causou em alguns setores da elite política, econômica e intelectual do Brasil é um exemplo disso. Segundo eles, um presidente não deve se emocionar ao falar sobre fome. Sobretudo se esse choro e emoção não forem bem vistos pelo "mercado", que prefere ver milhares de famintos a ter um teto de gasto questionado.
E aí me pergunto: onde fica a coisa pública?

Há mais de 80 anos, o historiador Sérgio Buarque de Holanda chamou a atenção para o fato de que o brasileiro, em geral, e a elite brasileira, em particular, têm grande dificuldade em determinar o que é público e o que é privado. Essa dificuldade atravessou a experiência republicana brasileira desde o fatídico 15 de novembro de 1889, demonstrando sua cara mais feia nos momentos de ditadura militar, ou de tentativas de instauração da mesma.

No entanto, mesmo em momentos em que a política brasileira aparenta ser progressista, há uma disputa sobre o que é o "bem público", e a quem ele deve atender em primeiro lugar. E num país no qual 33 milhões de cidadãos passam fome, fico com a máxima da escritora Carolina Maria de Jesus: "O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora."

No Brasil, o bem público também tem que ser o bem de quem passa fome.

Desempobrecer e enriquecer

Desde que o pensamento econômico passou a dominar a lógica do processo social, desempobrecer e enriquecer significam o mesmo: aumentar a renda. Mudam os valores, mas o mesmo conceito serve para quem sai da pobreza, um pouco mais de renda, e quem sobe na riqueza, muito mais renda.

Perdeu-se a perspectiva de que sair da pobreza é menos aumentar um pouco a renda do que dispor de acesso aos bens e serviços essenciais: segurança alimentar, escola com qualidade, moradia com água potável, esgoto e coleta de lixo, atendimento médico, transporte coletivo de qualidade e um nível básico de renda. Há quase 100 anos, os economistas prometem que tudo isto chegará com o crescimento econômico, emprego e renda, e nunca chega, porque o acesso no mercado aos itens essenciais só é possível por pessoas de renda alta, para a maior parte das pessoas com renda baixa, este acesso só é possível se disponíveis publicamente.


Os economistas afirmam também que o enriquecimento se define pelo aumento da renda dos que já são ricos, esquecendo que a riqueza deve significar também: andar nas ruas sem medo de violência, viver sem necessidade da prisão em condomínios, ir a um restaurante sem constrangimento de pedintes na porta, ou da lembrança dos milhões de famintos ao redor, viajar ao exterior sem ser visto como beneficiado da concentração de renda em seu país, saber que seus filhos não precisarão emigrar para sobreviverem em paz e com emprego. Sobretudo, enriquecer é viver em um país onde todos desempobreceram.

O presidente Lula parece ter consciência desta visão não economicista de riqueza e pobreza. Mas consciente de que é preciso uma economia eficiente, para oferecer serviços públicos a todos. Sabe também que a inflação empobrece aos pobres e barra o enriquecimento da economia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Infiltrações autoritárias na democracia brasileira

O curto regime bolsonarista fez e continua fazendo muitas revelações do que é o Brasil político. Mostrou-nos que o que imaginávamos ser o país utopicamente democrático da Constituição de 1988 é, na verdade, um país de democracia híbrida infiltrada por estruturas autoritárias e por uma cultura acentuadamente intolerante.

O descuido pós-ditatorial, dos que lutaram pela democracia contra a ditadura de 1964, em relação a essa infiltração, permitiu que o autoritarismo crescesse e se multiplicasse nutrido pelos direitos do regime democrático. E criasse as bases sociais do que Theodor Adorno, em famoso estudo por ele coordenado nos EUA, chamou de personalidade autoritária. Bolsonaro a expressa e aglutina os dela dotados.

A mudança de governo não mudará essa realidade, a menos que leve em conta que é preciso identificar e neutralizar os focos dessa vulnerabilidade.


Os indícios já conhecidos das preocupações do novo governo, que assumirá na primeira hora de 2023, sugerem uma reiteração dos temas sociais e econômicos do período dos anos do petismo no poder. Os produtores de conhecimento crítico sobre a realidade social e histórica e das condições de superação de suas contradições não nos legaram os instrumentos para compreender e vencer o autoritarismo.

Aparentemente, estamos desatualizados em relação ao possível e necessário nesta hora escura de incertezas e fragilidades.

Ainda não conseguimos repensar a democracia deste novo momento, sua arquitetura, seus alicerces sociais e políticos. Estamos pensando em transição de maneira abstrata e, de certo modo, messiânica, fortemente dependente do carisma de uma só pessoa. Democracia, na verdade, é um empreendimento social e comunitário no campo da política e não apenas no dos políticos.

A lentidão e a demora na releitura de um projeto democrático para o Brasil faz com que, de vários modos, Bolsonaro e os militares que o cercam adulam e usam saiam politicamente vitoriosos, apesar de derrotados nas urnas. Eles conseguiram dar visibilidade política e ideológica ao crônico autoritarismo brasileiro, conseguiram dar-lhe um nome e uma identidade antidemocrática - direita - como disse o próprio Bolsonaro no curto e contrariado discurso em que reconheceu que perdera.

Tudo indica, no entanto, que os que ele representa não foram derrotados. Com essa identidade, eles conseguiram disseminar-se pelo país inteiro, por todas as classes sociais, até mesmo entre os pobres, pelas igrejas fundamentalistas ideologicamente aprisionadas no interior das muralhas indevassáveis da falsa consciência, com grande força de reprodução ampliada e de crescimento. Elas se tornaram a fábrica principal da alienação que veta e inibe no cotidiano a consciência crítica essencial à democracia. O autoritarismo bolsonarista, agora enraizado, e seus beneficiários dependem desse mecanismo de gestação e reprodução da consciência antidemocrática.

As oposições ao autoritarismo organizado só tardiamente se agruparam em torno de Lula, simplesmente porque as pesquisas de opinião apontavam que ele era o único candidato potencial que poderia vencer Bolsonaro. Uma pessoa e não um programa de governo, que só agora está sendo montado. Nem é, ainda, um projeto democrático de nação.

A estrutura organizada de um governo democrático e pluralista poderá não ser suficiente para vencer ou ao menos neutralizar a força autorreprodutiva da intolerância e do preconceito, valores de orientação e fundamentos da situação política antidemocrática que, apesar dos resultados da eleição, continuarão ativos.

Os diferentes grupos organizados de referência na reprodução da intolerância com o outro, política ou religiosa, e reprodução ampliada da direita, desenvolveram uma sociabilidade autoimune, que aprisiona as pessoas em formas fechadas de vida social e de compartilhamento de ideias socialmente redutivas. As que podem ser definidas como próprias do que Goffman define como instituições totais. Nesse sentido, marcadas pela difusão de uma cultura autoritária no subterrâneo da democracia. Pela ressocialização de seus membros é ela formadora de personalidades autoritárias. Isto é, potencialmente ou mesmo ativamente fascistas.

Isso se tornou notório no governo que acaba. Bolsonaro deu a esses grupos não só um nome, na definição como direita, mas uma identidade baseada na usurpação de símbolos da unidade nacional, fornecendo-lhes até mesmo uma motivação religiosa, como “Deus, pátria e família” e “Deus acima de todos, Brasil acima de tudo”. Concepções totalizantes e totalitárias, nesse sentido, ele não protagoniza uma ideologia, mas uma crença. Ele transformou o fascismo numa religião.

Pensamento do Dia

 


Lula não é um herói a ser punido; é só um eleito contra a herança maldita

Fosse a Presidência da República uma distinção apenas pessoal, Lula poderia estar a flanar de felicidade, não é? A forma como foi recebido na COP27, o seu discurso impecável, a reação do mundo à sua fala... "Exuberante", "rockstar", "herói".

Herói? Pois é. A resposta "Duzmercáduz", como se percebe, não é boa. E já que se empregou aqui a palavra "herói", a imprensa antevê o pior e decide atuar como o coro a comentar o desfecho trágico daquele que há de ser punido por sua "húbris", que é a soberba de afrontar os deuses olímpicos. Ocorre que Lula só está confrontando a herança maldita de Jair Bolsonaro e um Orçamento de mentira.

Como sabem os especialistas da área, ninguém consegue parar o sistema punitivo do drama trágico. O subgênero tem um propósito didático. A catarse existe para restaurar a ordem. E convenham: esse tal Lula está aí há muito tempo a arrostar com a máquina do mundo. Seu último feito foi ficar 580 dias preso em razão de uma condenação sem prova e saltar da cela para a Presidência.


É evidente, por essa abordagem inicial e por coisas que tenho escrito e dito em outros sítios, que considero histérica e precoce a gritaria que se promove em nome da responsabilidade fiscal. E é certo que não a desprezo. Reconheço, como se pudesse ser diferente, que a gastança irresponsável é o caminho do desastre. O que pergunto é se Lula fez essa escolha. E me parece que não.

Já sugeri aqui que os críticos da PEC de Transição imponham a si mesmos a exigência que se faz aos estudantes na prova de redação do Enem: apresentem o problema e também uma solução. A peça orçamentária de 2023 é uma mentira inventada por Paulo Guedes em conluio tácito com "Uzmercáduz".

O Bolsonaro das PECs ilegais do ICMS e dos benefícios enviou ao Congresso um Orçamento que prevê, a partir de janeiro, R$ 405 para o Bolsa Família, não os R$ 600 que passaram a ser pagos a menos de três meses da eleição, embora anunciasse em campanha que não haveria a redução do valor. Custo anual da diferença: R$ 52 bilhões. Existe esse dinheiro? Não. O coro ficou mudo.

Não se prevê aumento real do mínimo, mais uma vez, ainda que, no debate da Globo, o presidente tenha prometido R$ 1.400. A três dias da eleição, Guedes deu uma dica ao chefe. Deveria dizer ao petista: "Se você paga um salário mínimo de R$ 1.200, eu pago R$ 1.400; se você paga R$ 1.400, eu pago R$ 1.500". Segundo o ministro, isso seria possível porque eles roubam menos. Eis a qualidade do debate.

Tentar impor a Lula que governe o país com o Orçamento de 2023 corresponde a exigir que faça o que nem Bolsonaro faria. E isso expõe uma das faces do presidente: a do farsante. Há a do perverso. O "Casa Verde Amarela", que é a demolição do Minha Casa Minha Vida, sofreu um corte de 95%. Reserva-se ao programa a soma de R$ 34,1 milhões.

O Orçamento do Farmácia Popular despencou de R$ 2,04 bilhões para R$ 842 milhões. Os 21 milhões que dependem de remédios para hipertensão, diabetes e asma têm de entender que "todo mundo morreu um dia". É o governo do coveiro. Reserva-se para o ano que vem um investimento correspondente a 0,22% do PIB: R$ 22 bilhões. São alguns exemplos do descalabro.

A dupla Bolsonaro-Guedes pode ser acusada de quase tudo, menos de ser fiscalmente responsável. Ocorre que, à diferença de Lula, o atual ministro da Economia fala tudo o que "Uzmercáduz" querem ouvir, ainda que não pratique quase nada, exceto a irresponsabilidade social. Ele é, assim, como os idealistas criticados por Marx e Engels em "A Ideologia Alemã": está mais interessado em colonizar espíritos e em provar a superioridade de sua filosofia, com suas respostas simples e erradas para problemas difíceis, do que em ser eficaz.

Como inexiste governo, a não ser para dar amparo a golpistas, Lula vive a insólita circunstância de já ser presidente estando na oposição. E se cobra dele uma resposta para a herança maldita de Bolsonaro, mas reverenciando a doxa guediana, que prevê o apagão social contra o qual o petista se elegeu. Lula não é um herói a desafiar os deuses. Está negociando um Orçamento realista para governar o Brasil. Que não seja punido por isso.

Agrogolpismo ameaça democracia e financia vivandeiras de quartel

Quando os bolsonaristas começaram a fechar rodovias, o procurador Mário Sarrubbo avisou que havia uma organização criminosa por trás dos protestos contra o resultado das urnas. Investigações da Polícia Federal mostram que o chefe do Ministério Público paulista tinha razão.

Em ofício enviado ao Supremo, a PF identificou dezenas de suspeitos de financiar os atos golpistas. Com base no relatório, o ministro Alexandre de Moraes mandou bloquear as contas bancárias de 43 pessoas físicas e jurídicas.

A lista é dominada por empresários e empresas agrícolas e de transporte de cargas. Uma delas tem nome sugestivo: Berrante de Ouro Transportes Ltda. Sua sede fica em Sorriso (MT), que reivindica o título de capital nacional do agronegócio.


Jair Bolsonaro se aliou aos setores mais atrasados do ruralismo, que se recusam a adotar práticas sustentáveis e respeitar a legislação ambiental. Em sintonia com a turma, desmantelou o Ibama, cancelou multas e encarregou um ministro de “passar a boiada”.

A derrota do capitão criou um problema para esses empresários. Em vez de modernizar seus negócios, eles querem empastelar a democracia e impedir a posse do presidente eleito.

O dinheiro do agrogolpismo abastece as vivandeiras de quartel. Em Brasília, elas acampam diante do QG do Exército, conhecido como Forte Apache. No Rio, aboletam-se em frente ao Palácio Duque de Caxias, antiga sede do Ministério do Guerra. As aglomerações se arrastam há três semanas sem que os militares se mexam para dispersá-las.

Na terça-feira, o general Villas Bôas criticou a imprensa e saiu em defesa dos radicais. Classificou-os como pessoas “identificadas com o verde e amarelo” que estariam preocupadas com “ameaças à liberdade”. De ameaças o general entende bem. Em 2018, ele pressionou o Supremo a manter o candidato do PT na cadeia, facilitando a vitória da extrema direita.

As cenas de bolsonaristas em transe, escalando caminhões ou cantando o Hino Nacional para um pneu, podem passar a ideia de que os atos golpistas são inofensivos. É um erro encará-los assim. Desrespeitar o resultado das urnas e pregar o rompimento da ordem constitucional é crime, lembra o ministro Moraes. As instituições precisam se defender de quem quer destruí-las.

Inflação está na raiz da crise no mundo da tecnologia

Os sinais vindos do Vale do Silício não são bons e apontam para a pior crise do mundo da tecnologia desde o estouro da bolha das ponto-com em 2000. A esta altura, já fizeram grandes demissões Snpachat, Netflix, Twitter e Meta (Facebook). A elas se juntaram a Stripe, de pagamentos, a Salesforce e a Lyft, concorrente da Uber. Nesta semana, foi a vez da Amazon. Todas demitiram mais de 10% da tropa. No início do ano, já havia entrado em colapso a WeWork. Agora foi a FTX, terceira maior corretora de criptomoedas — que, aliás, no fim agia menos como corretora e mais como esquema de pirâmide. Não é só. Mesmo empresas que não sinalizaram demissões, como Apple e Google, pararam de contratar.

A comparação com a bolha de 2000 não é referência gratuita. Quem estava no Vale naquele tempo e lá continua repete com frequência: a sensação é a mesma.


O assunto é importante e mexe com a vida de todos. Não porque faltarão novidades nos apps que usamos — embora isso também seja verdade. É porque, das dez maiores empresas americanas em valor de mercado, cinco são de tecnologia. Se o setor vai mal, é porque a economia americana vai mal, e, se a economia americana pega um resfriado, a brasileira não para na tosse.

Os lucros trimestrais de quase todas essas companhias estão menores. Seu crescimento diminuiu. A Amazon espera vender menos entre a Black Friday e o Natal. Facebook e Google foram atingidas por uma queda no setor de publicidade. A Apple, cujas vendas dependem de um tipo específico de consumidor que paga mais caro por seus gadgets em todo o mundo, é um raro caso de empresa que não foi atingida pela desaceleração da economia. Ao menos, não ainda.

Há, também, o problema do investimento. O Vale do Silício vive de investimento — de gastar dinheiro hoje em produtos que existirão no futuro, e alguns deles não farão sucesso. Só que dinheiro para investir tem custo. Nos últimos mais de dez anos, com os juros básicos do Fed no chão, esse dinheiro era barato. Não havia muito mais em que colocar o capital em busca de retorno. Mas, à medida que a inflação americana começou a subir, e o Banco Central começou também a puxar o juro para cima, o capital de investimento encareceu. Outras maneiras de conseguir retorno apareceram.

Nos EUA, não tem quem faça o discurso de que o juro sobe para os especuladores fazerem dinheiro. Não: lá, o desenho é compreendido como ele é. Se tem inflação, é preciso combatê-la. Isso é feito pelo Fed, puxando os juros para cima. A ação já está tendo efeito na economia. A inflação está em queda. Mas não sem outro resultado. O dinheiro que se usa para investir ficou mais caro. Evidente. Um título do Tesouro americano pode render menos que a grande novidade da tecnologia, mas o título dá retorno sempre. A grande novidade pode fracassar inteiramente.

O resultado é este a que estamos assistindo. Com menos dinheiro nas mãos, a Amazon olhou para sua assistente Alexa e escolheu diminuir a equipe. O Facebook cortou na moderação e na área de combate à desinformação, porque sua prioridade é botar o que tem no metaverso. O Twitter pôs todas as fichas na esperança de que ter um selo azul valha US$ 8 por mês. A Netflix lançou uma nova assinatura mais barata, que vem com propaganda. Mesmo a Apple, se não diminuiu a tropa, reduziu o número de produtos que está criando para o futuro.

Inflação. Esse é o problema — puro e simples. E, sim, pessoas perdem seus empregos, a economia se contrai, uma recessão está com toda a cara de que vem por aí. Quem conseguir equilibrar suas contas é quem sobreviverá.

Imaginação sociológica

Lula não deveria está sendo criticado pelo que diz, o Mercado é que deveria estar preocupado com o que pensa. Lula, como presidente, é Pessoa, necessidade e ansiedade. O Mercado, como atividade, é bolsa, dólar e juro. Há na ética da discussão uma questão da verdade.

Não é uma briga de família onde um não aceita o fato de que o outro tenha opiniões infalíveis. É a necessária ecologia da sobrevivência de uma comunidade que não anda sendo motivada pela racionalidade. O Mercado é impessoal, opera moeda estrangeira, muda de opinião sem culpa. A Pessoa tem um coração, usa a moeda nacional, muda de opinião para não se arrepender.


O Mercado não é uma família fraterna. Surgiu da tradição especulativa da economia, joga jogos rivais. Não gosta de admitir que sua realidade é feita de duas perspectivas diferentes, mas complementares e igualmente importantes na vida de uma nação. Mesmo assim gosta de considerar que só “ele”, somente ele pode se reconhecer como fonte última e mais importante das suas opiniões falíveis.

A escola do Mercado não ensina o que está ocorrendo na luta geral pelo poder. Seu praticalismo é frio e não estabelece relação afetiva com o dinamismo da sociedade. A escola da Pessoa é o calor da vida, sua insurgência e as relações mutuas estabelecidas fora dos altos círculos econômicos. Separadamente elas não conseguirão construir uma engenharia social de mudança.

O Mercado é sectário, focado nos seus problemas internos, não é abrangente, nem comunicativo. Mas pensa ter um padrão institucional moralmente antisséptico, um baluarte do formalismo, fornecendo regras para a ação prática do governante, visto como seu cliente. A Pessoa é perplexa, tem vida de artesão, professa isenções às vezes vagas e diluídas, inclusive sobre o Mercado que, ingrato, não quer sua intimidade.

Mercado e Pessoa precisam se encontrar para melhor expressar as características presentes na vida brasileira, especialmente as tradições não proveitosas e inexatas, que distanciaram nossa sociedade um do outro. Esse abandono do diálogo entre economia e sociedade na nossa história torna impossível compreender e enfrentar a inflexibilidade de status que nos domina e a rigidez de nossa estrutura de classes.

A falta de mobilidade social crônica e a necessidade permanente de políticas sociais complementares é uma decadência. Têm sua origem na falta de comunicação e combinação entre os diversos componentes e as diversas funções executadas pelas instituições diante da variedade humana. O certo é que o Mercado encontrou seu lugar na “estrutura” que tanto critica, enquanto a Pessoa continua a procura do “ambiente” que a reconheça e valorize.

Opor princípios a ideias, realidade a interesses está cada vez mais difícil no Brasil. Quanto de realidade o Mercado e a Pessoa suportam? A imprevisibilidade social, econômica e fiscal é um problema dos membros da mesma família da moeda. Até que alguém seja capaz de propor um acordo que defina soluções aceitáveis para todos os envolvidos é inútil um tentar sufocar o outro.

É hora de imaginação sociológica. Mercado e Pessoa devem estabelecer vínculos em busca de melhor argumento para enfrentar as dificuldades de conviverem.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Uma voz nova no planeta

Dois Brasis fazem parte da numerosa delegação que foi a Sharm El-Sheikh, no Egito, para a COP27 (27ª Conferência das Partes). Patrocinado pela ONU, o encontro reúne lideranças dos quatro cantos do mundo para discutir o desafio comum das mudanças climáticas. O Brasil do presidente vencido nas urnas, nos estertores de seu desgoverno, foi cumprir tabela, encerrando, com um murmúrio, quatro anos de desmantelamento da imagem da nação.

O outro Brasil, representado por governadores e demais autoridades subnacionais; personalidades ligadas à defesa do meio ambiente; organizações da sociedade civil; empresários e — sobretudo — pelo presidente eleito, compareceu para mostrar o quanto se avançou na percepção dos inúmeros riscos ambientais aqui presentes e nas propostas para enfrentá-los. Desde 2019, amadureceu a consciência da importância da defesa do patrimônio ambiental para o desenvolvimento e a projeção externa do país.


No último ano, multiplicaram-se estudos e propostas para lidar do ponto de vista brasileiro com o que a ONU considerou serem as dimensões da tríplice crise planetária: mudança climática, poluição e perda da biodiversidade. A peça mais abrangente e ambiciosa se intitula "Clima e estratégia internacional — novos rumos para o Brasil". O documento, prefaciado pelo ex-chanceler Celso Amorim, de autoria da socióloga Adriana Abdenur, da ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, do ex-governador da Bahia, hoje senador Jacques Wagner, e do advogado Pedro Abramovay, foi levado por seus redatores para a COP27.

Proposta inovadora, instala o meio ambiente no centro da política externa brasileira, entrelaçada à busca de formas sustentáveis de desenvolvimento interno. E tem como premissa que a distribuição dos custos e responsabilidades da defesa do planeta há de estar baseada na chamada "justiça climática’’: o imperativo de garantir os direitos de pessoas, populações e países mais vulneráveis.

Com os seus limitados recursos econômicos e militares, o Brasil possui poucos trunfos no jogo duro da política internacional. Não é assim na esfera climática. Nela o país é crucial para o destino da vida na Terra. Eis por que é impossível subestimar a importância da proposta que reestrutura as prioridades da ação externa em torno às saídas para a crise do clima e as lastreia em uma variedade de políticas domésticas. Já a proximidade dos autores com o PT é auspiciosa pela mudança que poderá acarretar à agenda partidária. Que o poderoso discurso do presidente eleito Lula tenha ido no mesmo diapasão mostra que o país volta ao mundo com nova voz.

Mercadinho Brasil

 


O lábaro estiolado

No feriado de 15 de novembro, data da Proclamação da República, subiu um pouco o número de pedestres que se concentram em frente a quartéis de algumas cidades brasileiras para requisitar um golpe de Estado. Tem sido assim desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou o resultado das urnas, dando a vitória a Luiz Inácio Lula da Silva. A turma que não se conforma exige que as baionetas anulem a eleição. Uma das faixas desfraldadas em São Paulo, diante da sede do Comando Militar do Sudeste, ao lado da Assembleia Legislativa, anteontem, resumiu bem o espírito do pessoal: “Nação brasileira implora por socorro – SOS Forças Armadas”.


Como nomear esse tipo de coisa? Com acerto, a imprensa vem se valendo de adjetivos precisos: “atos golpistas”, “manifestações antidemocráticas” ou “inconstitucionais”. É o que são, de fato. Na linguagem do jornalismo, o emprego de qualificativos criteriosos dá mais objetividade, e não menos, ao que se descreve. Um ato público que solicita uma ruptura violenta da ordem democrática só pode ser definido como golpista, assim como um cidadão que tem nacionalidade brasileira e dispõe de passaporte brasileiro só pode ser definido como um cidadão brasileiro. As aglomerações às portas dos quartéis trazem uma pauta de reivindicações inconstitucionais e ilegais. Logo, são golpistas. Dar o devido nome aos fatos, com substantivos e adjetivos, é um dos deveres mais valiosos da imprensa – e é exatamente esse dever que a imprensa está cumprindo quando chama de golpistas as manifestações golpistas.

Não adianta dizer que são apenas reuniões “pacíficas” e “ordeiras”. Não são, não senhor. Do mesmo modo que uns minguados caminhoneiros bloquearam estradas pelo País afora, num levante criminoso e até agora muito mal explicado, esta turma quer estrangular as vias do Estado Democrático de Direito. Mais do que os caminhoneiros sabotadores, querem inviabilizar o País. O seu propósito não tem nada de “pacífico”, não tem nada de “ordeiro”. Quanto aos quartéis, em vez de se esgueirar na ambiguidade melíflua, deveriam se considerar ofendidos com o assédio da barbárie que se amontoa ao redor de seus muros.

O que mais chama a atenção, contudo, é o mau gosto infantiloide que há nisso tudo. As imagens mostram adultos em trajes auriverdes perfilados sobre o asfalto para brincar de “marcha-soldado”. O golpismo da temporada tem uma nota pueril, por mais que seja perverso. Uns batem continência. Outros marcam passo, desengonçados e balofos, como escoteiros da terceira idade. Sempre aparece alguém tocando corneta (e mal). Como crianças amedrontadas, pedem “socorro” à força bruta para dar cabo de assombrações que não existem. Um lá fez discurso e disse que os apartamentos de mais de 60 metros quadrados serão ocupados e repartidos pelo novo governo. Delírios imobiliários. O atual presidente (agora empenhado no abandono de emprego) se reuniu com Geraldo Alckmin e pediu a ele que ajudasse a livrar o Brasil do “comunismo”. Delírios reacionários. Um fantasma ronda a imaginação devastada dos crianções envelhecidos: o fantasma do fantasma do fantasma do comunismo.

A vestimenta dos circunstantes também merece registro. O pendão nacional virou um adereço prêt-à-porter que as senhoras mais ricas usam como um lenço, uma écharpe tropical. Os homens tendem a vestir a mesma peça como se fosse uma capa de super-herói, e há os que improvisam um capuz quando chuvisca. O lábaro emoldura o bárbaro estrilado.

Que espetáculo desconcertante. Quando vemos as vagas em verde-amarelo pela televisão, a cena parece saída de um daqueles filmes de zumbis. Os tipos que se movem na tela, implorando a intercessão da brutalidade, lembram mortos-vivos políticos adornados pelo estandarte pátrio e armados de telefones celulares. Deserdados pela ditadura militar extinta, transitam num limbo entre a tirania defunta e a ordem democrática em formação. Eles não souberam se desprender do que a História já cuidou de sepultar e não se sensibilizam com o que a Nação presente tenta construir.

Com ares de comédia, o que vem se desenrolando é uma tragédia. Seria um erro zombar da situação. Dia destes, em Nova York, ao ser importunado por alguém que o perseguia na calçada com um celular dizendo frases de morto-vivo político, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso virou o rosto para trás, sem diminuir o passo, e disparou: “Perdeu, mané. Não amola”. A tirada do magistrado soa sardônica, mas o impasse é grave. As forças que procuram fazer regredir a roda da História nacional não estão aí a passeio. Por um triz, não ganharam as eleições. Suas performances são cafonas, sua estética é jeca e seu discurso, infantil, mas nunca, desde a redemocratização, estiveram tão organizadas e tão determinadas como agora.

As pequenas multidões de camisa amarela que agora acampam nas cercanias da soldadesca têm lá o seu quê de ridículo, mas o que elas expressam é mais profundo e ameaçador. Os golpistas que sequestraram e estiolaram as cores 
nacionais ainda vão dar muito trabalho. As instituições que se preparem.

O novo Brasil de Lula e sem Bolsonaro

O turbulento Brasil de Bolsonaro com suas conotações fascistas desapareceu? O Brasil luminoso de Lula voltou com suas conquistas sociais? Existe hoje um Brasil novo, sem precedentes, cujo objetivo final ainda é desconhecido? Essas são algumas das perguntas feitas por brasileiros que tremiam diante de um possível golpe militar.

Ainda não é fácil responder com certeza a essas perguntas, já que a situação no Brasil se desenvolve sob as areias movediças da incerteza. Bolsonaro perdeu as eleições, mas seus anfitriões continuam ferozes e não se contentam com a derrota. Isso é demonstrado pelas manifestações das centenas de caminhoneiros acampados em Brasília em frente ao reduto militar exigindo o golpe.


É verdade que os militares, dos quais mais de 6.000 foram colocados no governo por Bolsonaro, aceitaram a derrota do ex-capitão de extrema-direita, mas continuam mantendo uma atitude um tanto ambígua.

Os seguidores do líder de direita estavam confiantes de que a vigilância que o Exército mantinha antes das eleições, mesmo contra a Constituição, poderia levar à anulação do plebiscito que conferia a derrota do mito.

A reação dos militares era a última esperança de Bolsonaro e seus seguidores. Esperavam ter encontrado algum meio para contestar o resultado da derrota eleitoral. Isso não aconteceu, pois o documento de 70 páginas elaborado pelas Forças Armadas revelou que não foram encontradas falhas importantes para anular o resultado das urnas. Os seguidores de Bolsonaro não se conformaram e exigiram um novo posicionamento dos militares, mobilizando centenas de caminhoneiros em Brasília.

Em um segundo documento, o Exército quis presentear os bolsonaristas revoltados e declarou que, embora não tenham sido detectadas falhas nas urnas, isso não significava que não pudessem ser vulneráveis. Foi uma resposta diplomática, que não disse nada.

Tudo isso deu à equipe vitoriosa de Lula, amparada por dez partidos que vão da extrema esquerda à direita liberal não golpista, uma nova força para se mostrar eufórica e com mãos livres para realizar as reformas, especialmente as sociais. Assim, as verdadeiras lágrimas de Lula foram vistas com bons olhos quando ele afirmou que seu sonho é que ao final de seu mandato não haja um único brasileiro que não consiga comer três refeições por dia.

Não há dúvidas de que o novo governo Lula será fortemente marcado por seu caráter social e não ideológico. Onde a polêmica ainda pode irromper é na formação de seu novo governo, que pode não ser fundamentalmente de seu partido, o PT, mas de uma gama de partidos que vão da esquerda ao centro e à direita liberal.

Daí as dificuldades que Lula está tendo para escolher alguns de seus principais ministros, da Economia ao Meio Ambiente e ao Itamaraty, já que pretende restabelecer as relações do Brasil com o resto do mundo após o isolamento a que Bolsonaro o condenou.

Daí a importância da recepção que Lula começou a ter na Cúpula do Meio Ambiente, no Egito. Será seu primeiro teste internacional, já que nessas cúpulas Bolsonaro foi bastante evitado pelos demais chefes de Estado para não se comprometer com suas alucinações do golpe e da extrema-direita fascista.

Tudo isso é importante neste momento para Lula, que não pode se enganar nem esquecer que não foi eleito apenas pela força de seu partido, mas porque criou um bloco de forças, todas elas democráticas, capazes de enfrentar o bolsonarismo em suas raízes.

Como destacou Catarina Rochamonte em sua coluna no jornal O Globo: “Não há carta branca para o novo governo. Se a maioria dos brasileiros fez uma varredura dos enormes erros cometidos pelos governos petistas, não foi por amor a Lula, mas por horror a Bolsonaro”.

De fato, é uma verdade que começa a se mostrar importante na formação do novo governo Lula. O que talvez menos importe agora é que o PT aproveite a ocasião para colocar na nova administração o maior número possível dos seus quadros, mas sim que contribua na montagem de uma frente forte contra o bolsonarismo, que é a grande ameaça à democracia.

São aqueles momentos da história em que surgem verdadeiros estadistas, capazes de afugentar os monstros da desintegração política e das tentações autoritárias. A verdade é que para Lula, que jura que esta será sua última aventura política, pode ser o momento em que se firme como um verdadeiro estadista capaz de tirar o Brasil do inferno.

Os novos subversivos

É tocante: homens, mulheres e crianças fantasiados de verde-amarelo e enrolados em bandeiras, ajoelhados e de mãos postas diante dos quartéis, implorando que os militares salvem o Brasil. Esta salvação consiste em impedir, a sabre e cavalo, a posse do presidente eleito e manter no poder o derrotado, parece que ainda em exercício. Como a alternância do poder pelo voto direto é uma condição da democracia e, segundo a Constituição, o Brasil é um estado democrático de direito, é acintoso que se pregue aberta e impunemente um golpe de Estado. Mas o que espanta é que os quartéis ouçam toda essa subversão e fiquem em silêncio.


A palavra subversão já foi mais bem cotada na tropa. No dia 13 de março de 1964, uma multidão diante do antigo Ministério da Guerra, na avenida Presidente Vargas, no Rio, exigia que o presidente da República, João Goulart, desse um golpe preventivo contra as forças que, todos sabiam, se aglutinavam para derrubá-lo. Os generais de então viram naquele apelo uma "subversão da ordem" e derrubaram Goulart.

Hoje, os subversivos usam o sinal trocado, mas a soma é igual: a subversão da ordem democrática, pregada diante de prédios militares. A diferença é que, para as atuais Forças Armadas, isso não é mais subversão, mas "liberdade de expressão".

Para os fardados de 1964, os subversivos eram financiados por Moscou. Em 2022, Moscou tem mais o que fazer do que financiar subversões no Brasil. E nem os atuais subversivos precisam de apoio externo — são bancados por brasileiros mesmo, como empresários do agro e do tiro, pastores, políticos e policiais, que lhes fornecem segurança, transporte, comida, água, abrigo, bandeiras e as frases, inclusive em inglês, para as faixas que eles desfraldam em praças e estradas.

E, quem sabe, uma diária para fazê-los expressar com mais fervor essa liberdade que soa como música para os militares.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Brasil bolsonarista

 


O general e a gênese do golpismo castrense

Desde de 1964, nunca houve tanta agitação a favor de um golpe militar como a que estamos assistindo desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ontem, Dia da Proclamação da República, seria apenas mais um dia em que gente muito fanática, defensora de uma intervenção militar, protestasse à porta dos principais comandos militares do país, entre os quais os do Planalto, em Brasília — onde reside a maioria dos generais de quatro estrelas —, e no Rio de Janeiro, que abriga o maior contingente militar do país. Seria apenas mais um dia de vigília bolsonarista, não fosse o Twitter do general Eduardo Villas Boas, uma indiscutível liderança militar, endossando as manifestações golpistas e pondo mais lenha na fogueira.

O ex-comandante do Exército poderia ter ficado na dele, mas não: decidiu surfar os protestos para reafirmar sua liderança junto aos descontentes com a derrota do presidente Jair Bolsonaro e, talvez, na tropa que está na ativa. “A população segue aglomerada junto às portas dos quarteis pedindo socorro às Forças Armadas. Com incrível persistência, mas com ânimo absolutamente pacífico, pessoas de todas as idades, identificadas com o verde e o amarelo que orgulhosamente ostentam, protestam contra os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”, afirma.


Com isso, o velho general alimentou ainda mais as infundadas críticas e maliciosas suspeitas ao resultado das urnas, com a mesma ambiguidade com que Bolsonaro silencia diante do resultado oficial da eleição, e não reconhece publicamente a inequívoca vitória de Lula. Pelo custo e envergadura da mobilização, que ontem completou duas semanas, é evidente a existência de um forte movimento de extrema-direita, organizado com o propósito de melar a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Villas Boas critica a imprensa por não dar aos manifestantes a importância que gostaria: “Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão. Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações podem estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada nos países na Cortina de Ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A História ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas”, afirma.

Com fina ironia, inverteu o significado histórico de um velho bordão das esquerdas contra as ditaduras: “O povo unido jamais será vencido!”. No dia 29 de outubro, véspera da eleição, Villas Boas havia publicado um tuíter no qual traçou um cenário catastrófico em caso da vitória de Lula, o quem tudo a ver com a sua manifestação de ontem.

Não poderia haver data mais simbólica para a manifestação e a posicionamento de Villas Boas. A Proclamação da República foi um golpe militar, que se apropriou do movimento republicano com o propósito de implantar uma ditadura, como acabou ocorrendo por duas vezes, na Revolução de 1930 e no golpe militar de 1964. O Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), principal chefe do Exército brasileiro, foi praticamente arrancado da cama, em 15 de novembro de 1889, para destituir a Monarquia.

Fora escolhido para liderar o levante militar pelos jovens oficiais liderados por Benjamin Constant (1836-1891), professor da Escola Militar da Praia Vermelha e expoente do Positivismo no Brasil, a doutrina que impregnou de tal forma a política brasileira que sua síntese até está bordada na bandeira nacional: “Ordem e Progresso”.

Democracia não é um valor universal no ideário positivista. O golpe foi rocambolesco. Reunidas as tropas no Campo de Santana, onde hoje está localizada a Praça da República e o Quartel General do Comando do Leste, Deodoro derrubou o gabinete do Visconde Ouro Preto e voltou para casa. Somante mais tarde, o velho e adoentado marechal foi convencido a assinar o documento que extinguiu a monarquia, que durava já 70 anos.

O imperador Dom Pedro II foi banido do Brasil com a família, e embarcou rumo à Europa na madrugada do dia 17 de novembro, sem entender direito as razões de sua queda. A população somente soube mais tarde desses acontecimentos. Para evitar uma guerra civil, dom Pedro II não quis resistir, após 49 anos de reinado. Sabia que elite brasileira estava insatisfeita desde o fim da escravidão, em 1888.

Entretanto, não acreditava que os militares (irritados com os salários e desprestígio desde a Guerra do Paraguai) e os cafeicultores (que exigiam indenizações pela abolição da escravatura) o destituíssem. Muito menos a Igreja Católica, apesar de insatisfeita com o padroado (sua prerrogativa de preencher os cargos eclesiásticos mais importantes) e o seu beneplácito (aprovação das ordens e bulas papais para que fossem cumpridas, ou não, em território nacional), que já haviam provocado uma crise com o Vaticano, de 1872 a 1875. É que os sacerdotes eram tratados como funcionários públicos, recebendo salários da Coroa — teoricamente não apoiaram um Estado laico, republicano.