Trazer esta conversa hoje para discussão pública não deve ser considerado alarmismo ou um assunto desligado da realidade. Muito pelo contrário. Este é um tema urgente e que precisa de ser debatido pela sociedade, a todos os níveis, tendo em conta tudo aquilo que se observa pelo mundo, em termos de fenómenos extremos.
Algumas das piores consequências das alterações climáticas, de que ouvimos falar nas últimas duas décadas, já não são apenas cenários para um futuro mais ou menos distante. Em qualquer estação do ano, acumulam-se já sinais que deveriam obrigar-nos a uma mudança de atitude em matéria de prevenção, mas também de adaptação ao “novo normal” para o qual temos de estar vigilantes e preparados.
No entanto, apesar desta aceleração brutal da realidade, a nossa postura coletiva e individual continua perigosamente ancorada numa letargia burocrática, que não acompanha as mudanças na atmosfera, mas também as que têm ocorrido no território e na demografia. E, ainda por cima, começa a disseminar-se a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Como se o alerta lançado pela Proteção Civil ou o aviso emitido por um smartphone fossem as armas suficientes para que uma população fique alerta e em segurança. Um aviso sonoro emitido por um algoritmo no ecrã do nosso telemóvel é útil, mas não constitui uma apólice de seguro contra a catástrofe. O aviso apenas anuncia a iminência da tragédia, não nos ensina a sobreviver a ela.
O trágico incêndio florestal ocorrido recentemente na zona de Los Gallardos, em Almería, no sul de Espanha, deve servir-nos como aviso. Não só as imagens nos fazem lembrar a catástrofe de Pedrógão, mas também a forma explosiva como o fogo se propagou nos remete para a memória desse fatídico ano de 2017. Em Los Gallardos como em Pedrógão, a terrível visão de veículos calcinados nas estradas deixou uma mesma lição: o pânico gera a autoevacuação desordenada, que é o pior inimigo da sobrevivência. Sem saber o que fazer, as pessoas fogem ao acaso e entram diretamente na boca do lobo. Quando o fogo se descontrola, não há fuga possível através da improvisação.
Da mesma forma, o recente duplo sismo que abalou a Venezuela recorda-nos que a fúria da Terra não avisa por SMS com minutos de antecedência. Num terramoto, a janela de oportunidade para tomar decisões que separam a vida da morte mede-se em escassos segundos. O reflexo de procurar abrigo sob uma estrutura resistente, o conhecimento exato das saídas de emergência e a manutenção da calma coletiva dentro de edifícios altos não surgem por intuição divina. Como o Japão, um país altamente ameaçado por sismos, já demonstrou, são o resultado direto de anos de exercícios repetidos à exaustão, integrados no currículo escolar, nas empresas e nas rotinas familiares. Quando a terra treme ou o fogo avança, a mente humana bloqueia a capacidade de raciocínio lógico complexo; o que nos salva é o automatismo do treino prévio.
Ninguém sabe quando será a próxima catástrofe, mas sabemos que a probabilidade de ela ocorrer está a aumentar. É preciso, por isso, transformar a proteção civil numa disciplina viva e comunitária. Os simulacros de sismo e de incêndio não podem ser eventos festivos ou meras formalidades de calendário para cumprir legislação laboral. Têm de ser exigentes, rotineiros e realistas. Só quando o comportamento seguro face ao perigo for um reflexo automatizado pelo treino, e não uma recomendação lida à pressa num ecrã, estaremos verdadeiramente preparados para sobreviver a esta nova era de extremos. E, de uma vez por todas, convinha que em Portugal se começasse a falar mais sobre prevenção, antes das catástrofes, ao invés de se passar depois dias a discutir sobre o que correu mal – e tudo continuar na mesma.

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