quinta-feira, 28 de maio de 2020

No pais dos adélios

O mundo anda escasso de boas notícias, mas a semana começou bem: os principais grupos de mídia do país decidiram suspender temporariamente a cobertura do convescote de malucos do Palácio da Alvorada. Já não era sem tempo. Não faz o menor sentido submeter repórteres às humilhações constantes do presidente e da sua claque de imbecis amestrados, numa situação cada vez mais perigosa para os jornalistas.

Escrevo “imbecis amestrados” na falta do termo clínico correto para descrever os cidadãos que frequentam o chiqueirinho do ódio. Olhando de longe parecem fãs, mas quando se fecha o foco sobre o grupo o que se vê, salvo raríssimas exceções, são pessoas fora de si, altamente descompensadas. É um bando de adélios em potencial, instigado por um psicopata.


Para a notícia ser ótima de verdade, porém, a suspensão não devia ser temporária, mas permanente. E me pergunto se não seria melhor ainda estendê-la a todos os locais frequentados pelo senhor Messias. Afinal, é perfeitamente possível cobrir os fatos sem ter de suportar a sua belicosa presença.

Tenho uma fantasia de quarentena. Acho que a imprensa deveria pura e simplesmente boicotá-lo. Uma presidência sem qualquer cobertura jornalística. Ia ser estranho? Ia. Nunca se fez? Nunca. Mas ia ser uma forma eloquente e didática de protesto.

Ia ser interessante observar a reação de Bolsonaro à ausência de qualquer veículo de mídia sério, zero jornalistas de respeito à sua volta — a qualquer hora, em qualquer dia e lugar, e não só na saidinha do palácio.

Viajou? Dane-se, vá sozinho, ninguém cobre.

Inaugurou ponte? Leve a sua meia dúzia de deputados de bolso e solte no Twitter.

Quer assinar documentos, receber ministros, fazer visitinhas inconvenientes a autoridades? Peça ao anspeçada para gravar com o celular e ponha no Facebook.

Sim, eu sei — um dos papéis relevantes que a imprensa presta ao país é mostrá-lo continuamente, expondo a sua falta de educação e de sentimentos, a sua ignorância, o seu despreparo, a sua arrogante boçalidade.

Mas sonho: um noticiário sem a sua imagem e sem a sua voz. 

Ele não seria eliminado das notícias, é claro — ainda é, infelizmente, o presidente do país. Apenas perderia o palanque oficial que a mídia, ainda que a contragosto, proporciona. A sua história seria contada por terceiros. Ele não teria mais o prazer de se ver refletido nas telas das emissoras, ou estampando as páginas dos jornais.

O nível da quarentena ia melhorar muito.
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“Conversa com Bial” vai ao ar tarde, quando muita gente já está dormindo; mas esse tem sido um dos programas essenciais da temporada. Isolado em casa, Bial conversa com gente igualmente isolada — e, de repente, o que era um programa de entrevistas vira uma conversa entre amigos. Deixamos de ser espectadores e passamos a ser confidentes. Sem o aparato intimidador do estúdio, sem maquiagem, sem plateia, celebridades mostram-se pessoas. O episódio com William Bonner, que foi ao ar na terça-feira (mas que está disponível, como os demais, no Globoplay) é tão perturbador quanto histórico: ali está o narrador da história recente do Brasil, tão desalentado e abatido quanto qualquer um de nós, constatando que nos tornamos, definitivamente, um país bruto e canalha.

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