sábado, 16 de agosto de 2025
Os pascácios se divertem
O mundo enlouquece de quando em quando. O Brasil não fica atrás. Também tem seus acessos de loucura, mais ou menos sincrônicos com os problemas que afetam o grande vizinho do norte. Os norte-americanos viveram o desastre da queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, o que aqui correspondeu à Revolução de Trinta, depois que os mecanismos oficiais fracassaram em remediar os problemas daquela época difícil. Nos momentos anteriores à Segunda Guerra Mundial, surgiu no país o movimento integralista, que reuniu milhares de correligionários, vestidos de camisa verde, com o sygma, desenhado na manga da camisa. Eles desfilavam por grandes cidades do país, anunciando a vitória, em breve, do nazismo na Europa e das novas forças políticas no Brasil.
Falar em integralismo hoje é pesquisar na história. Ninguém gosta de lembrar que o padre Helder Câmara foi integralista, entre outros muitos conhecidos. E até Vinicius de Moraes, que se transformaria em poeta e seresteiro, teve seu chamego com a doutrina autoritária estimulada por nazistas, fascistas e empresários poderosos da época. O integralismo prosperou sob o comando de Plínio Salgado, paulista de São Bento do Sapucaí, cujo prestígio não se combinava com sua figura. Ele era baixinho, olhos tristes, orelhudo e bigode estilo escova de dentes. No palanque, contudo, era o arrebatador das massas, o líder, o grande orador. “Se a geração velha não soube acreditar em coisa alguma e sucumbiu no pântano dos imediatismos, a nova geração saberá crer! E, se isto é loucura, bendita a loucura sagrada que salva as pátrias do bom senso que as destrói, enxovalha e avilta!”
Por ação natural da política, surgiu a Aliança Nacional Libertadora, em 1935, uma espécie de frente ampla que se contrapunha à ascensão do nazismo. A ANL era composta por socialistas, comunistas, tenentistas, sindicalistas, liberais, reformistas, sociais democratas, marxistas teóricos e antifascistas, além de políticos rompidos com o caudilhismo de Getúlio Vargas. Seus adeptos conseguiram fazer o movimento crescer muito em todo o país. Em uma de suas grandes assembleias, o estudante Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 21 anos, lançou o nome de Luiz Carlos Prestes para comandar o movimento. Prestes estava exilado em Moscou desde 1931. Não poderia estar presente no movimento. Mas seu nome foi aclamado. Seria a garantia de que a ANL atuava em todo o território nacional e era conhecida dentro e fora do país.
Getúlio Vargas extinguiu, por decreto, os dois movimentos. Implantou uma ditadura feroz que iria perdurar até 1945, quando terminou a Segunda Guerra. Ao longo desse período ainda ocorreu o levante dentro das Forças Armadas que ganhou do poderoso homem de imprensa, Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados, a designação de Intentona Comunista. Seus principais líderes foram presos, inclusive Prestes, que estava escondido numa casa no Méier, rua Honório 279, no dia 6 de março de 1936. Ele foi levado para a Polícia Central, na rua da Relação, onde iniciaria um longo período de prisão. Sua companheira, Olga Benário, foi para a Casa da Detenção, no Estácio. Nunca mais se viram. Ela morreu em campo de concentração na Alemanha.
O bolsonarismo representa a repetição da história, sem qualquer grandeza. Nele não há sequer o brilho dos grandes discursos, das citações surpreendentes ou da gesticulação teatral. Tudo é muito raso. É a iniciativa dos pascácios, dos idiotas que se levantam de tempos em tempos ao sul do Equador em nome de alguma narrativa razoável. Nos anos trinta, contudo, ninguém teve a audácia de tramar contra o país no exterior. Havia espiões nazistas no Brasil, ou políticos favoráveis às ações de Berlim, mas não há registros de pessoa que se passou para o adversário com objetivo de prejudicar seu país. Essa é a novidade. Os meninos Bolsonaro trabalham contra o país na suposta defesa de seu papai, que, como está largamente comprovado, conspirou contra as instituições nacionais.
O tempo vai solucionar essas questões, embora o governo brasileiro, em especial o ministro Fernando Haddad, relute em reconhecer a tensão entre Brasília e Washington e ainda tente negociar o inegociável, neste momento. Buscar alternativas nos mercados dos países com os quais o Brasil mantém boa relação é a melhor solução para a emergência do momento. Não há como dialogar com um presidente dos Estados Unidos que entende ser o Brasil um país comunista, onde se exerce uma feroz ditadura. Muito diferente da Coreia do Norte e de El Salvador, dois países democráticos, segundo o Departamento de Estado. A sabedoria é deixar o tempo passar. Ele se encarrega de recolocar os temas nos seus devidos lugares. Os extremismos perdem sempre.
Quem quiser saber mais sobre o Brasil dos anos trinta e quarenta, precisa ler o delicioso Trincheira tropical, a Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro.
Falar em integralismo hoje é pesquisar na história. Ninguém gosta de lembrar que o padre Helder Câmara foi integralista, entre outros muitos conhecidos. E até Vinicius de Moraes, que se transformaria em poeta e seresteiro, teve seu chamego com a doutrina autoritária estimulada por nazistas, fascistas e empresários poderosos da época. O integralismo prosperou sob o comando de Plínio Salgado, paulista de São Bento do Sapucaí, cujo prestígio não se combinava com sua figura. Ele era baixinho, olhos tristes, orelhudo e bigode estilo escova de dentes. No palanque, contudo, era o arrebatador das massas, o líder, o grande orador. “Se a geração velha não soube acreditar em coisa alguma e sucumbiu no pântano dos imediatismos, a nova geração saberá crer! E, se isto é loucura, bendita a loucura sagrada que salva as pátrias do bom senso que as destrói, enxovalha e avilta!”
Por ação natural da política, surgiu a Aliança Nacional Libertadora, em 1935, uma espécie de frente ampla que se contrapunha à ascensão do nazismo. A ANL era composta por socialistas, comunistas, tenentistas, sindicalistas, liberais, reformistas, sociais democratas, marxistas teóricos e antifascistas, além de políticos rompidos com o caudilhismo de Getúlio Vargas. Seus adeptos conseguiram fazer o movimento crescer muito em todo o país. Em uma de suas grandes assembleias, o estudante Carlos Frederico Werneck de Lacerda, 21 anos, lançou o nome de Luiz Carlos Prestes para comandar o movimento. Prestes estava exilado em Moscou desde 1931. Não poderia estar presente no movimento. Mas seu nome foi aclamado. Seria a garantia de que a ANL atuava em todo o território nacional e era conhecida dentro e fora do país.
Getúlio Vargas extinguiu, por decreto, os dois movimentos. Implantou uma ditadura feroz que iria perdurar até 1945, quando terminou a Segunda Guerra. Ao longo desse período ainda ocorreu o levante dentro das Forças Armadas que ganhou do poderoso homem de imprensa, Assis Chateaubriand, criador dos Diários Associados, a designação de Intentona Comunista. Seus principais líderes foram presos, inclusive Prestes, que estava escondido numa casa no Méier, rua Honório 279, no dia 6 de março de 1936. Ele foi levado para a Polícia Central, na rua da Relação, onde iniciaria um longo período de prisão. Sua companheira, Olga Benário, foi para a Casa da Detenção, no Estácio. Nunca mais se viram. Ela morreu em campo de concentração na Alemanha.
O bolsonarismo representa a repetição da história, sem qualquer grandeza. Nele não há sequer o brilho dos grandes discursos, das citações surpreendentes ou da gesticulação teatral. Tudo é muito raso. É a iniciativa dos pascácios, dos idiotas que se levantam de tempos em tempos ao sul do Equador em nome de alguma narrativa razoável. Nos anos trinta, contudo, ninguém teve a audácia de tramar contra o país no exterior. Havia espiões nazistas no Brasil, ou políticos favoráveis às ações de Berlim, mas não há registros de pessoa que se passou para o adversário com objetivo de prejudicar seu país. Essa é a novidade. Os meninos Bolsonaro trabalham contra o país na suposta defesa de seu papai, que, como está largamente comprovado, conspirou contra as instituições nacionais.
O tempo vai solucionar essas questões, embora o governo brasileiro, em especial o ministro Fernando Haddad, relute em reconhecer a tensão entre Brasília e Washington e ainda tente negociar o inegociável, neste momento. Buscar alternativas nos mercados dos países com os quais o Brasil mantém boa relação é a melhor solução para a emergência do momento. Não há como dialogar com um presidente dos Estados Unidos que entende ser o Brasil um país comunista, onde se exerce uma feroz ditadura. Muito diferente da Coreia do Norte e de El Salvador, dois países democráticos, segundo o Departamento de Estado. A sabedoria é deixar o tempo passar. Ele se encarrega de recolocar os temas nos seus devidos lugares. Os extremismos perdem sempre.
Quem quiser saber mais sobre o Brasil dos anos trinta e quarenta, precisa ler o delicioso Trincheira tropical, a Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro.
A continuidade do golpe
Todo o cenário do processo político indica que o golpe continua. O atrevido envolvimento direto de Trump e da diplomacia americana na soberania brasileira indica que a direita quinta-coluna bolsonarista não está a fim de abrir mão do retorno ao poder para ficar.
Fica claro que está em andamento um novo desenho da geopolítica de hegemonia americana. A de uma América debilitada pelo declínio do capitalismo americano numa circunstância de transformação no capitalismo internacional.
O capital não tem pátria e menos ainda com o notável fortalecimento da economia chinesa e, de vários modos, a unidade e diversidade do capitalismo europeu.
Transformações econômicas e políticas impensáveis na época de Marx e mais recentemente na Guerra Fria fragilizam os EUA e propõem perigosos dilemas para um país como o Brasil.
Não teria passado pela cabeça de ninguém que um poderoso Partido Comunista, como o chinês, se transformasse no patrono de capitalismo que desafiasse a maior potência econômica e militar do mundo.
No entanto, o lugar do capitalismo na construção do socialismo está muito claro na obra de Marx e de Engels. O socialismo não é o antagônico do capitalismo. Como radical oposição de confronto ele é insuficiente.
Ele só é viável como realização do capitalismo e superação de suas contradições e irracionalidades. As que indicam a carência histórica de um sistema político que corresponda a essa carência do capital.
Aparentemente, a China montou um sistema de gestão socialista das irracionalidades sociais do capitalismo. A China não se mete nas particularidades políticas e históricas dos outros. Durante a ditadura militar neonazista de Pinochet, os chineses mantiveram relações diplomáticas com o governo chileno.
Eles gostam de observar os efeitos corrosivos das contradições econômicas e suas decorrências políticas. Eles não padecem da impaciência pelos ganhos ilimitados do capital.
O que fascinou Marx no capitalismo foi que nele se gestava um modo de produção que ampliava significativamente a produção de bens, a modernização da economia que tornaria possível a modernização da política e a modernização social. A superação das diferenças sociais geradas pelo desenvolvimento desigual do capital.
Até porque sua obra ficou inconclusa, Marx não avaliou na devida abrangência a diversidade das contradições próprias do capitalismo. Não avaliou seus herdeiros reducionistas e materialistas da interpretação marxista vulgar e até mesmo antidialética. O obscurecimento da reprodução ampliada do capital como reprodução ampliada das contradições sociais. E as decorrentes técnicas sociais de bloqueio da produção das inovações sociais e políticas.
O “boom” das ciências sociais e das técnicas científicas de desvendamento das condições da práxis de transformação social e política e da práxis repetitiva. Esta já agora desdobrada na descoberta de Henri Lefebvre, o sociólogo francês que incluiu na tridimensionalidade da práxis a práxis mimética. A falsa práxis que mimetiza até mesmo a práxis revolucionária para bloquear a possibilidade da revolução social. O que dá direção à práxis repetitiva, a necessária à reprodução do capital e da sociedade capitalista tais como se dão a ver e como as veem e vivenciam os que das anomalias da reprodução se beneficiam e as personificam.
Portanto, a contenção do campo do possível e da nova sociedade que o capitalismo cria e possibilita. Nisso, sua potencial salvação está cada vez mais reduzida.
A alienação social tornou-se o grande inimigo da condição humana. O acobertamento ideológico do substrato econômico de reprodução dos diferentes níveis e formas de miséria que aparecem como miséria social. Os mecanismos sociais de exclusão sob a forma de inclusão social perversa. Os que brutalizam a condição humana como forma de impedir que todos os seres humanos desenvolvam uma consciência crítica de sua situação adversa. Que se traduza numa práxis poiética, criativa e transformadora, libertadora.
O capitalismo se transformou apenas em um modo de produção e reprodução da desumanização do homem. O chamado neoliberalismo econômico de Milton Friedman e outros é a proposta ideológica, não científica, de um minimalismo econômico excludente. É uma doença política que reduz a condição humana à mera possibilidade de ascensão social a limites mínimos de realização pessoal. Essa é a grande pobreza própria do neocapitalismo da exclusão social. A pobreza de esperança.
Nossa versão desse declínio é o bolsonarismo, a ideologia de esterilização da consciência social por um falso evangelismo da prosperidade, consumista. O de um novo deus, subornável, produzido pelo afã de poder e dinheiro.
José de Souza Martins
Fica claro que está em andamento um novo desenho da geopolítica de hegemonia americana. A de uma América debilitada pelo declínio do capitalismo americano numa circunstância de transformação no capitalismo internacional.
O capital não tem pátria e menos ainda com o notável fortalecimento da economia chinesa e, de vários modos, a unidade e diversidade do capitalismo europeu.
Transformações econômicas e políticas impensáveis na época de Marx e mais recentemente na Guerra Fria fragilizam os EUA e propõem perigosos dilemas para um país como o Brasil.
Não teria passado pela cabeça de ninguém que um poderoso Partido Comunista, como o chinês, se transformasse no patrono de capitalismo que desafiasse a maior potência econômica e militar do mundo.
No entanto, o lugar do capitalismo na construção do socialismo está muito claro na obra de Marx e de Engels. O socialismo não é o antagônico do capitalismo. Como radical oposição de confronto ele é insuficiente.
Ele só é viável como realização do capitalismo e superação de suas contradições e irracionalidades. As que indicam a carência histórica de um sistema político que corresponda a essa carência do capital.
Aparentemente, a China montou um sistema de gestão socialista das irracionalidades sociais do capitalismo. A China não se mete nas particularidades políticas e históricas dos outros. Durante a ditadura militar neonazista de Pinochet, os chineses mantiveram relações diplomáticas com o governo chileno.
Eles gostam de observar os efeitos corrosivos das contradições econômicas e suas decorrências políticas. Eles não padecem da impaciência pelos ganhos ilimitados do capital.
O que fascinou Marx no capitalismo foi que nele se gestava um modo de produção que ampliava significativamente a produção de bens, a modernização da economia que tornaria possível a modernização da política e a modernização social. A superação das diferenças sociais geradas pelo desenvolvimento desigual do capital.
Até porque sua obra ficou inconclusa, Marx não avaliou na devida abrangência a diversidade das contradições próprias do capitalismo. Não avaliou seus herdeiros reducionistas e materialistas da interpretação marxista vulgar e até mesmo antidialética. O obscurecimento da reprodução ampliada do capital como reprodução ampliada das contradições sociais. E as decorrentes técnicas sociais de bloqueio da produção das inovações sociais e políticas.
O “boom” das ciências sociais e das técnicas científicas de desvendamento das condições da práxis de transformação social e política e da práxis repetitiva. Esta já agora desdobrada na descoberta de Henri Lefebvre, o sociólogo francês que incluiu na tridimensionalidade da práxis a práxis mimética. A falsa práxis que mimetiza até mesmo a práxis revolucionária para bloquear a possibilidade da revolução social. O que dá direção à práxis repetitiva, a necessária à reprodução do capital e da sociedade capitalista tais como se dão a ver e como as veem e vivenciam os que das anomalias da reprodução se beneficiam e as personificam.
Portanto, a contenção do campo do possível e da nova sociedade que o capitalismo cria e possibilita. Nisso, sua potencial salvação está cada vez mais reduzida.
A alienação social tornou-se o grande inimigo da condição humana. O acobertamento ideológico do substrato econômico de reprodução dos diferentes níveis e formas de miséria que aparecem como miséria social. Os mecanismos sociais de exclusão sob a forma de inclusão social perversa. Os que brutalizam a condição humana como forma de impedir que todos os seres humanos desenvolvam uma consciência crítica de sua situação adversa. Que se traduza numa práxis poiética, criativa e transformadora, libertadora.
O capitalismo se transformou apenas em um modo de produção e reprodução da desumanização do homem. O chamado neoliberalismo econômico de Milton Friedman e outros é a proposta ideológica, não científica, de um minimalismo econômico excludente. É uma doença política que reduz a condição humana à mera possibilidade de ascensão social a limites mínimos de realização pessoal. Essa é a grande pobreza própria do neocapitalismo da exclusão social. A pobreza de esperança.
Nossa versão desse declínio é o bolsonarismo, a ideologia de esterilização da consciência social por um falso evangelismo da prosperidade, consumista. O de um novo deus, subornável, produzido pelo afã de poder e dinheiro.
José de Souza Martins
Tolerância e democracia
O Congresso é a casa da democracia. Numa República, há o compartilhamento do poder e a segmentação das funções. Os Poderes Executivo e o Judiciário dividem o palco. Isto faz parte do sistema de freios e contrapesos, eficiente vacina contra tentações autoritárias. Mas é no parlamento onde encontramos a expressão política da pluralidade e diversidade presentes na sociedade.
Nos últimos dias, assistimos cenas de intolerância, sectarismo e negação do diálogo como ferramenta em nosso parlamento. Cenas desalentadoras e pouco edificantes.
As sociedades contemporâneas são cada vez mais fragmentadas. São múltiplos, os interesses. Isso se reflete no mundo das ideias. E as ideias buscam representação política. É natural certo nível de polarização, polêmica e divergência. Formam-se correntes ideológicas. Partidos políticos se organizam. Lideranças emergem e sintetizam bandeiras e causas. Em cada momento formam-se maioria e minoria. A correlação de forças nunca é definitiva e imutável. A grande qualidade do processo democrático é seu caráter dinâmico, um aprendizado coletivo constante com permanente correção de rumos. A alternância no poder é a expressão máxima do livre jogo político. Às vezes, ganha a esquerda. Em outras, é a vez da direita governar. Em outro momento, posições centristas dominam. Isso aconteceu, no Brasil, nestes 40 anos de redemocratização. O que não dá é a minoria eventual querer ganhar o jogo no grito e na força.
A democracia não pode ser disfuncional, tem que produzir soluções. As legítimas divergências sobre os temas centrais da vida do país não podem ter efeito paralisante. É preciso produzir consensos progressivos a partir do dissenso natural. Para que a democracia avance, é fundamental a observação de alguns princípios: respeito às regras permanentes do jogo, reconhecimento da legitimidade dos adversários, contenção no uso do poder para não afetar as condições da competição, aceitação da alternância no poder, primazia para o interesse nacional e social, acima das correntes políticas. Não adianta só produzir barulho para as bolhas. Redes sociais podem até derrubar governos, mas não garantem o apoio para governar.
A democracia moderna nasceu para dar vazão à liberdade individual, ao livre mercado e à livre iniciativa, às luzes na cultura, à participação cidadã em eleições livres, substituindo o poder absoluto da monarquia e a excludência radical das sociedades feudais. Com a pulverização partidária, a formação de maioria parlamentar e a governabilidade ficaram mais complexas. Não só no Brasil. Aqui a capacidade de diálogo e de construção de convergências são ainda mais importantes.
Em tempos confusos, onde patriotas se enrolam na bandeira americana contra os interesses nacionais, autoritários gritam contra uma ditadura inexistente, democratas evitam falar sobre excessos e desvios e progressistas adotam ideias retrógradas, seria bom ouvir o líder da nossa redemocratização. Tancredo Neves daria alguns conselhos: “eu sou pragmático e conciliador na ação, mas inflexível em matéria de princípios”, “ninguém consegue governar bem com arrogância”, “na vida política, quem guarda ressentimentos morre envenenado” e “não se pode fazer política sem emoção, mas as decisões em política devem ser cerebrais”.
Saudades de Tancredo e Ulysses!
Nos últimos dias, assistimos cenas de intolerância, sectarismo e negação do diálogo como ferramenta em nosso parlamento. Cenas desalentadoras e pouco edificantes.
A democracia não pode ser disfuncional, tem que produzir soluções. As legítimas divergências sobre os temas centrais da vida do país não podem ter efeito paralisante. É preciso produzir consensos progressivos a partir do dissenso natural. Para que a democracia avance, é fundamental a observação de alguns princípios: respeito às regras permanentes do jogo, reconhecimento da legitimidade dos adversários, contenção no uso do poder para não afetar as condições da competição, aceitação da alternância no poder, primazia para o interesse nacional e social, acima das correntes políticas. Não adianta só produzir barulho para as bolhas. Redes sociais podem até derrubar governos, mas não garantem o apoio para governar.
A democracia moderna nasceu para dar vazão à liberdade individual, ao livre mercado e à livre iniciativa, às luzes na cultura, à participação cidadã em eleições livres, substituindo o poder absoluto da monarquia e a excludência radical das sociedades feudais. Com a pulverização partidária, a formação de maioria parlamentar e a governabilidade ficaram mais complexas. Não só no Brasil. Aqui a capacidade de diálogo e de construção de convergências são ainda mais importantes.
Em tempos confusos, onde patriotas se enrolam na bandeira americana contra os interesses nacionais, autoritários gritam contra uma ditadura inexistente, democratas evitam falar sobre excessos e desvios e progressistas adotam ideias retrógradas, seria bom ouvir o líder da nossa redemocratização. Tancredo Neves daria alguns conselhos: “eu sou pragmático e conciliador na ação, mas inflexível em matéria de princípios”, “ninguém consegue governar bem com arrogância”, “na vida política, quem guarda ressentimentos morre envenenado” e “não se pode fazer política sem emoção, mas as decisões em política devem ser cerebrais”.
Saudades de Tancredo e Ulysses!
Trumpismo seria o Brasil de amanhã?
O que pode ocorrer de pior do que o embargo econômico americano sobre o Brasil, causado pela aliança entre o presidente Trump e o bolsonarismo? Quase nenhuma notícia dos últimos 40 anos foi tão ruim como essa, com exceção da pandemia de covid-19, sobretudo pela forma desastrosa como o presidente Bolsonaro lidou com essa crise.
Mas há algo ainda mais grave que pode acontecer: a vitória de um grupo político em 2026 que defenda as mesmas ideias do trumpismo. Entender o que seria esse efeito Orloff é um bom exercício para compreender os riscos presentes na eleição geral de 2026.
Para quem não lembra, o efeito Orloff relacionava-se com uma propaganda de bebida da década de 1980. Nela, o protagonista acordava com uma baita ressaca, gerando a célebre frase: “Eu sou você amanhã”. Essa ideia comparou Brasil e Argentina, principalmente nos anos 1990, pensando sempre que o que estava ruim num lugar se repetiria depois no outro.
Eram dois países classificados como não desenvolvidos, competindo para ver quem errava menos - ou torcendo para que o outro repetisse os erros do primeiro. Numa reversão impressionante da história, o perigo da cópia do desastre vem hoje do hemisfério Norte desenvolvido, mais especificamente do país mais rico do mundo.
Agora os Estados Unidos de Trump podem ser o novo efeito Orloff do Brasil. No espelho do que eles têm feito hoje pode-se pensar no que poderemos ser amanhã, caso copiemos a fórmula trumpista, hoje defendida fortemente pelos bolsonaristas e envergonhadamente por governadores que querem os votos dos eleitores de Bolsonaro, embora tentem não ficar com a marca do radicalismo.
O trumpismo está produzindo uma série de males para os EUA, país cuja democracia sempre inspirou o mundo e com alavancas de desenvolvimento que eram invejadas por todos. O desastre trumpista passa especialmente pelas suas ações destinadas a enfraquecer as instituições americanas. Há muita coisa calamitosa sendo feita aqui, todas feitas em prol do aumento do poder autocrático de Trump.
Entre essas tragédias, três poderiam ser destacadas porque podem dialogar com o caso brasileiro: a tentativa de o governo federal comandar os estados e as grandes cidades, a redução drástica de importância do Congresso Nacional no processo decisório e a destruição da administração pública federal.
Antes de analisar esses três desmantelamentos institucionais, vale lembrar que a briga com as instituições já havia ocorrido no primeiro governo de Trump. Foi uma guerra que deixou sequelas na democracia americana, mas ao final o trumpismo perdeu duas vezes, na eleição presidencial (vencida por Biden, em 2020) e na tentativa fracassada de golpe de Estado, no fatídico 6 de janeiro.
O segundo governo se dá num novo cenário: Trump está mais forte, montou um modelo em que não há nenhum contrapeso a ele e os defensores da democracia estão zonzos, com dificuldades de segurar o arcabouço institucional montado a muito custo por quase 250 anos. Assim, sua capacidade de alterar o governo americano e o papel dos EUA no mundo é quase de um poder revolucionário, pronto para redesenhar bruscamente as regras e práticas do jogo interno e externo.
O enfraquecimento do federalismo é um dos principais objetivos do segundo governo Trump. Ele precisa enfraquecer, deslegitimar e até humilhar em praça pública governantes subnacionais que sejam do Partido Democrata - claro que se algum mandatário republicano não seguir os passos do chefe federal, também será punido.
No modelo federativo americano pensado por James Madison, os estados e, mais recentemente, as grandes cidades são contrapesos à concentração indevida de poder na União. Foi esse equilíbrio federativo que evitou o pior na pandemia da covid-19, quando Trump adotou uma política equivocada.
Transformar os governos estaduais e das grandes cidades em correias de transmissão do governo federal é um tiro no coração da democracia americana. Em sua proposta de autocracia centralizadora, é isso que está ocorrendo sob Trump: um governo central capaz de intervir cotidianamente no poder dos governadores e prefeitos mais importantes. Imagine se isso se repetir no Brasil.
É preciso que os governadores brasileiros e os candidatos a tal posto se manifestem se querem o modelo trumpista por aqui, dizendo aos seus eleitores que o orgulho estadual do gaúcho, do paulista, do mineiro e do cearense são menos importantes que a obediência ao presidente todo-poderoso de Brasília. Não adianta dizer que isso não se repetirá em nossa Federação. Quem apoiar e for apoiado por Trump, tenderá a seguir os mesmos métodos.
Trump enfraqueceu também o Congresso de uma forma inédita na história americana. Ao obter maioria em ambas as casas, mesmo que tênue, conseguiu transformar os congressistas republicanos em meros seguidores do presidente, como aqueles robôs das redes sociais. As grandes decisões nacionais estão passando ao largo do Legislativo.
Seria inimaginável antes desse segundo governo trumpista acontecer uma revolução nas tarifas aplicadas aos outros países sem que isso fosse minimamente discutido e votado pelos deputados e senadores. Dito de outra forma: a maior revolução de política externa das últimas décadas está sendo decidida solitária e autocraticamente por Trump.
Se o modelo trumpista de tornar o Congresso pouco ou quase nada relevante nas políticas públicas repetir-se num Brasil comandado pelo satélite bolsonarista, duas consequências negativas são esperadas. A primeira e óbvia é o reforço do poder do Executivo federal, que sem contrapesos parlamentares poderia deixar a boiada das medidas autocráticas passar. No bojo desse processo, o grupo político que mais perderia poder de barganha no processo decisório seria o Centrão.
Muito se pode criticar o grupo que congrega a maioria dos congressistas brasileiros, mas ele tem sido, muitas vezes, um poder moderador de qualquer tentativa de concentração de poder. O Centrão precisa acordar para o risco de se repetir o modelo Trump em terras tropicais, que, se vier com mais força num bolsonarismo turbinado, será pouco relevante saber quem serão os futuros presidentes da Câmara e do Senado.
O trágico nesta história é que lideranças de partidos de centro-direita e direita continuam alimentando os corvos que poderão comer seu poder no próximo quadriênio.
A destruição da administração pública federal é outro desastre provocado pelo trumpismo. Demissões em massa, destruição de áreas estratégicas da burocracia, a enorme redução dos recursos federais voltados aos mais pobres, a destituição da secretária de Estatísticas Trabalhistas (Erika McEntarfer), responsável pela mensuração do desemprego e a ameaça de processo contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Desmantelar a estrutura burocrática tem um objetivo básico: governar sem contrapesos técnicos, como os reis e autocratas podem fazer.
A reprodução desse modelo no Brasil é bem provável se houver uma volta dos bolsonaristas ao poder. A burocracia federal foi fundamental para resistir a muitas das decisões equivocadas e autocráticas de Bolsonaro. Mas num segundo governo esse vetor tende a vir mais forte, até como vingança em relação àqueles que seguraram o SUS e evitaram uma mudança drástica na política externa, por exemplo. Daí que o eleitorado e o funcionalismo público de todo o país precisam ser avisados de mais um efeito deletério de se copiar o trumpismo.
A política trumpista tem muitos outros equívocos cuja reprodução no Brasil seria uma catástrofe. Por exemplo, se ficarmos alinhados de forma carnal com o governo Trump, haverá uma pressão para se escolher entre os EUA e a China, e o enfraquecimento das relações com a potência asiática significará a perda de milhões de empregos no Brasil e a bancarrota de grande parte do agronegócio brasileiro.
Sabotar as universidades e a educação pública, como está ocorrendo tragicamente nos Estados Unidos, seria ainda pior no caso brasileiro, porque ainda estamos muito atrasados no campo educacional, com efeitos enormes na desigualdade e no padrão de desenvolvimento.
Ainda haverá muitos com dúvida se isso pode se repetir no Brasil. Afinal, quando foi presidente, Bolsonaro tentou várias dessas medidas, mas não conseguiu se tornar um autocrata. Porém, os estragos foram grandes: desmatamento recorde, destruição do MEC, um enorme absurdo de mortos por covid-19, emparedamento diário dos governadores, ameaças constantes a todos os Poderes da República e, como corolário, a tentativa de um golpe do Estado, cujas consequências continuam envenenando o ambiente político, dificultando que o país se concentre nas questões relevantes para seu futuro.
Uma nova vitória do bolsonarismo ou de alguém apoiado pelo bolsonarismo selará uma aliança de subordinação com o trumpismo, num grau de subserviência não só entre os países, mas entre os dois grupos governantes, com um domínio incontrastável de Trump sobre os seus parceiros da extrema direita brasileira.
Eduardo Bolsonaro está anunciando essa possibilidade, e ela é crível. Por isso, a reprodução subordinada do modelo trumpista no Brasil, com todas as suas vicissitudes, deveria ser um dos temas principais da campanha eleitoral de 2026.
Mas há algo ainda mais grave que pode acontecer: a vitória de um grupo político em 2026 que defenda as mesmas ideias do trumpismo. Entender o que seria esse efeito Orloff é um bom exercício para compreender os riscos presentes na eleição geral de 2026.
Para quem não lembra, o efeito Orloff relacionava-se com uma propaganda de bebida da década de 1980. Nela, o protagonista acordava com uma baita ressaca, gerando a célebre frase: “Eu sou você amanhã”. Essa ideia comparou Brasil e Argentina, principalmente nos anos 1990, pensando sempre que o que estava ruim num lugar se repetiria depois no outro.
Eram dois países classificados como não desenvolvidos, competindo para ver quem errava menos - ou torcendo para que o outro repetisse os erros do primeiro. Numa reversão impressionante da história, o perigo da cópia do desastre vem hoje do hemisfério Norte desenvolvido, mais especificamente do país mais rico do mundo.
Agora os Estados Unidos de Trump podem ser o novo efeito Orloff do Brasil. No espelho do que eles têm feito hoje pode-se pensar no que poderemos ser amanhã, caso copiemos a fórmula trumpista, hoje defendida fortemente pelos bolsonaristas e envergonhadamente por governadores que querem os votos dos eleitores de Bolsonaro, embora tentem não ficar com a marca do radicalismo.
O trumpismo está produzindo uma série de males para os EUA, país cuja democracia sempre inspirou o mundo e com alavancas de desenvolvimento que eram invejadas por todos. O desastre trumpista passa especialmente pelas suas ações destinadas a enfraquecer as instituições americanas. Há muita coisa calamitosa sendo feita aqui, todas feitas em prol do aumento do poder autocrático de Trump.
Entre essas tragédias, três poderiam ser destacadas porque podem dialogar com o caso brasileiro: a tentativa de o governo federal comandar os estados e as grandes cidades, a redução drástica de importância do Congresso Nacional no processo decisório e a destruição da administração pública federal.
Antes de analisar esses três desmantelamentos institucionais, vale lembrar que a briga com as instituições já havia ocorrido no primeiro governo de Trump. Foi uma guerra que deixou sequelas na democracia americana, mas ao final o trumpismo perdeu duas vezes, na eleição presidencial (vencida por Biden, em 2020) e na tentativa fracassada de golpe de Estado, no fatídico 6 de janeiro.
O segundo governo se dá num novo cenário: Trump está mais forte, montou um modelo em que não há nenhum contrapeso a ele e os defensores da democracia estão zonzos, com dificuldades de segurar o arcabouço institucional montado a muito custo por quase 250 anos. Assim, sua capacidade de alterar o governo americano e o papel dos EUA no mundo é quase de um poder revolucionário, pronto para redesenhar bruscamente as regras e práticas do jogo interno e externo.
O enfraquecimento do federalismo é um dos principais objetivos do segundo governo Trump. Ele precisa enfraquecer, deslegitimar e até humilhar em praça pública governantes subnacionais que sejam do Partido Democrata - claro que se algum mandatário republicano não seguir os passos do chefe federal, também será punido.
No modelo federativo americano pensado por James Madison, os estados e, mais recentemente, as grandes cidades são contrapesos à concentração indevida de poder na União. Foi esse equilíbrio federativo que evitou o pior na pandemia da covid-19, quando Trump adotou uma política equivocada.
Transformar os governos estaduais e das grandes cidades em correias de transmissão do governo federal é um tiro no coração da democracia americana. Em sua proposta de autocracia centralizadora, é isso que está ocorrendo sob Trump: um governo central capaz de intervir cotidianamente no poder dos governadores e prefeitos mais importantes. Imagine se isso se repetir no Brasil.
É preciso que os governadores brasileiros e os candidatos a tal posto se manifestem se querem o modelo trumpista por aqui, dizendo aos seus eleitores que o orgulho estadual do gaúcho, do paulista, do mineiro e do cearense são menos importantes que a obediência ao presidente todo-poderoso de Brasília. Não adianta dizer que isso não se repetirá em nossa Federação. Quem apoiar e for apoiado por Trump, tenderá a seguir os mesmos métodos.
Trump enfraqueceu também o Congresso de uma forma inédita na história americana. Ao obter maioria em ambas as casas, mesmo que tênue, conseguiu transformar os congressistas republicanos em meros seguidores do presidente, como aqueles robôs das redes sociais. As grandes decisões nacionais estão passando ao largo do Legislativo.
Seria inimaginável antes desse segundo governo trumpista acontecer uma revolução nas tarifas aplicadas aos outros países sem que isso fosse minimamente discutido e votado pelos deputados e senadores. Dito de outra forma: a maior revolução de política externa das últimas décadas está sendo decidida solitária e autocraticamente por Trump.
Se o modelo trumpista de tornar o Congresso pouco ou quase nada relevante nas políticas públicas repetir-se num Brasil comandado pelo satélite bolsonarista, duas consequências negativas são esperadas. A primeira e óbvia é o reforço do poder do Executivo federal, que sem contrapesos parlamentares poderia deixar a boiada das medidas autocráticas passar. No bojo desse processo, o grupo político que mais perderia poder de barganha no processo decisório seria o Centrão.
Muito se pode criticar o grupo que congrega a maioria dos congressistas brasileiros, mas ele tem sido, muitas vezes, um poder moderador de qualquer tentativa de concentração de poder. O Centrão precisa acordar para o risco de se repetir o modelo Trump em terras tropicais, que, se vier com mais força num bolsonarismo turbinado, será pouco relevante saber quem serão os futuros presidentes da Câmara e do Senado.
O trágico nesta história é que lideranças de partidos de centro-direita e direita continuam alimentando os corvos que poderão comer seu poder no próximo quadriênio.
A destruição da administração pública federal é outro desastre provocado pelo trumpismo. Demissões em massa, destruição de áreas estratégicas da burocracia, a enorme redução dos recursos federais voltados aos mais pobres, a destituição da secretária de Estatísticas Trabalhistas (Erika McEntarfer), responsável pela mensuração do desemprego e a ameaça de processo contra o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell. Desmantelar a estrutura burocrática tem um objetivo básico: governar sem contrapesos técnicos, como os reis e autocratas podem fazer.
A reprodução desse modelo no Brasil é bem provável se houver uma volta dos bolsonaristas ao poder. A burocracia federal foi fundamental para resistir a muitas das decisões equivocadas e autocráticas de Bolsonaro. Mas num segundo governo esse vetor tende a vir mais forte, até como vingança em relação àqueles que seguraram o SUS e evitaram uma mudança drástica na política externa, por exemplo. Daí que o eleitorado e o funcionalismo público de todo o país precisam ser avisados de mais um efeito deletério de se copiar o trumpismo.
A política trumpista tem muitos outros equívocos cuja reprodução no Brasil seria uma catástrofe. Por exemplo, se ficarmos alinhados de forma carnal com o governo Trump, haverá uma pressão para se escolher entre os EUA e a China, e o enfraquecimento das relações com a potência asiática significará a perda de milhões de empregos no Brasil e a bancarrota de grande parte do agronegócio brasileiro.
Sabotar as universidades e a educação pública, como está ocorrendo tragicamente nos Estados Unidos, seria ainda pior no caso brasileiro, porque ainda estamos muito atrasados no campo educacional, com efeitos enormes na desigualdade e no padrão de desenvolvimento.
Ainda haverá muitos com dúvida se isso pode se repetir no Brasil. Afinal, quando foi presidente, Bolsonaro tentou várias dessas medidas, mas não conseguiu se tornar um autocrata. Porém, os estragos foram grandes: desmatamento recorde, destruição do MEC, um enorme absurdo de mortos por covid-19, emparedamento diário dos governadores, ameaças constantes a todos os Poderes da República e, como corolário, a tentativa de um golpe do Estado, cujas consequências continuam envenenando o ambiente político, dificultando que o país se concentre nas questões relevantes para seu futuro.
Uma nova vitória do bolsonarismo ou de alguém apoiado pelo bolsonarismo selará uma aliança de subordinação com o trumpismo, num grau de subserviência não só entre os países, mas entre os dois grupos governantes, com um domínio incontrastável de Trump sobre os seus parceiros da extrema direita brasileira.
Eduardo Bolsonaro está anunciando essa possibilidade, e ela é crível. Por isso, a reprodução subordinada do modelo trumpista no Brasil, com todas as suas vicissitudes, deveria ser um dos temas principais da campanha eleitoral de 2026.
O declínio da popularidade de Trump
Trump foi eleito por 49,9% contra 48,5% de Kamala Harris no voto popular em 2024. Na pesquisa Gallup, o maior instituto de pesquisa do mundo, Trump, após sua posse em 20 de janeiro, apresentou popularidade de 47% nos Estados Unidos, na pesquisa de 21 a 27 de janeiro, caindo para 37% na última pesquisa deste 7 a 21 de julho.
Esta é a mais baixa popularidade de um Presidente dos Estados Unidos aferida após 200 dias de governo na história do Instituto Gallup, fundado em 1935. Para o mesmo período de 200 dias de governo, a popularidade de Biden ficou em 50%, Trump no primeiro mandato em 38%, Obama 57%, W. Bush 55%, Clinton 43%, H.W. Bush 66%, Reagan 59%, Carter 65%, Nixon 61%, Kennedy 75%, Eisenhower 71%.
Outras pesquisas de renomados institutos e organizações americanas são compatíveis com os resultados do Gallup em relação à aprovação de Trump: YouGov 39%, Reuters/Ipsos 40%, Massachussets University 38%.
Trump erra em suas medidas políticas e econômicas. Em verdade, agrada a seu núcleo mais próximo, mas não ao eleitorado em geral. A ocupação de Los Angeles pela Guarda Nacional, e o recente anúncio de ocupação de Washington e New York não são do agrado geral. E as tarifas de Trump, para o protecionismo à indústria americana, não vão resolver o problema econômico do país, com a geração de inflação. Trump erra ao ir contra os fundamentos da nação, o da liberdade que gera o consenso para a ação política, e o do mercado que gera a competição com a eficiência na economia.
Nas tarifas contra o Brasil, é clara a discordância da imprensa americana em relação às medidas tomadas por Trump. As tarifas são consideradas mais como políticas do que econômicas. Certamente que os danos para o Brasil serão muitos, mas os americanos, de certa forma, também sentirão. O New York Times lamenta que os americanos “vão sentir a dor da ausência do café (brasileiro)”. E o Texas Roadhouse, uma das mais representativas redes de barbecue dos Estados Unidos, com cerca de 800 restaurantes em 49 estados, subiu os preços dos steaks em 1,4% no final deste primeiro semestre, projetando 4% para até o final do ano, devido aos “custos da carne bovina e potenciais impactos tarifários”. O aumento em 4% nos steaks, a comida predileta dos americanos aos fins-de-semana, em uma economia estável, é altamente significativa para o consumidor, que têm seus proventos, em geral, já bem ajustados a um padrão definido de consumo de bens e serviços.
Trump acerta em suas medidas para o seu núcleo mais próximo, proporcionando a ira e a má educação, mas erra para o total da população, já que, como no dito popular, o ódio “não põe mesa”. Como diz Fernando Blanco em recente artigo, o “sofrimento do americano” será o nosso “maior aliado” para que haja uma maior negociação à frente.
Esta é a mais baixa popularidade de um Presidente dos Estados Unidos aferida após 200 dias de governo na história do Instituto Gallup, fundado em 1935. Para o mesmo período de 200 dias de governo, a popularidade de Biden ficou em 50%, Trump no primeiro mandato em 38%, Obama 57%, W. Bush 55%, Clinton 43%, H.W. Bush 66%, Reagan 59%, Carter 65%, Nixon 61%, Kennedy 75%, Eisenhower 71%.
Outras pesquisas de renomados institutos e organizações americanas são compatíveis com os resultados do Gallup em relação à aprovação de Trump: YouGov 39%, Reuters/Ipsos 40%, Massachussets University 38%.
Trump erra em suas medidas políticas e econômicas. Em verdade, agrada a seu núcleo mais próximo, mas não ao eleitorado em geral. A ocupação de Los Angeles pela Guarda Nacional, e o recente anúncio de ocupação de Washington e New York não são do agrado geral. E as tarifas de Trump, para o protecionismo à indústria americana, não vão resolver o problema econômico do país, com a geração de inflação. Trump erra ao ir contra os fundamentos da nação, o da liberdade que gera o consenso para a ação política, e o do mercado que gera a competição com a eficiência na economia.
Nas tarifas contra o Brasil, é clara a discordância da imprensa americana em relação às medidas tomadas por Trump. As tarifas são consideradas mais como políticas do que econômicas. Certamente que os danos para o Brasil serão muitos, mas os americanos, de certa forma, também sentirão. O New York Times lamenta que os americanos “vão sentir a dor da ausência do café (brasileiro)”. E o Texas Roadhouse, uma das mais representativas redes de barbecue dos Estados Unidos, com cerca de 800 restaurantes em 49 estados, subiu os preços dos steaks em 1,4% no final deste primeiro semestre, projetando 4% para até o final do ano, devido aos “custos da carne bovina e potenciais impactos tarifários”. O aumento em 4% nos steaks, a comida predileta dos americanos aos fins-de-semana, em uma economia estável, é altamente significativa para o consumidor, que têm seus proventos, em geral, já bem ajustados a um padrão definido de consumo de bens e serviços.
Trump acerta em suas medidas para o seu núcleo mais próximo, proporcionando a ira e a má educação, mas erra para o total da população, já que, como no dito popular, o ódio “não põe mesa”. Como diz Fernando Blanco em recente artigo, o “sofrimento do americano” será o nosso “maior aliado” para que haja uma maior negociação à frente.
Ainda estamos aqui, apesar de vivermos tempos que nos lembram a Alemanha de 1930
“Reductio ad hitlerum”: é esta a resposta contra-ataque que se ouve quando se destacam as muitas semelhanças entre o ar dos tempos de hoje e a Europa, e em especial a Alemanha, dos anos 1930, que potenciou a ascensão do nazismo. Dizem os críticos mais sofisticados a este tipo de análise que apontar semelhanças históricas se trata de uma falácia lógica que consiste em tentar invalidar uma ideia simplesmente por associá-la a Adolf Hitler ou aos nazis. A esses, eu respondo dizendo que estão a entrar em modo espantalho, também uma falácia, mas a que cria uma versão distorcida do argumento do oponente para facilitar a refutação.
Espantam, mas não convencem.
Porque é mesmo preciso conhecer a História e aprender com ela. E as semelhanças são gritantes – só não as vê quem não quer:
Vivemos tempos de deceção e frustração com os problemas de um sistema que não consegue atender a todos, tal como na Alemanha dos anos 30.
Há líderes populistas e carismáticos de direita radical que sabem tirar partido do ressentimento, oferecendo respostas simplistas para problemas complexos, tal como na Alemanha dos anos 30.
Atribuem-se culpas coletivas e escolhem-se bodes expiatórios para apontar o dedo, tal como na Alemanha dos anos 30.
Procura-se voltar atrás no tempo e recuar a um passado imaginário, tal como na Alemanha dos anos 30.
Temos novas tecnologias disruptivas que catapultam a propaganda, tal como na Alemanha dos anos 30.
E tenta-se descredibilizar os média tradicionais que denunciam as mentiras, os engodos e os perigos destes, tal como na Alemanha dos anos 30.
Quero hoje, excecionalmente de volta às páginas da VISÃO nestes dias cruciais de resistência e luta, focar-me neste último ponto.
Também na Alemanha nazi, houve casos paradigmáticos. O Münchener Post, por exemplo, foi um pequeno jornal de ideologia social-democrata na Baviera que desde cedo identificou, ainda nos anos 1920, um “certo senhor chamado Hitler” e se lançou numa cruzada contra ele. Hitler rapidamente fez dele mais um alvo a abater, pois claro: passou a referir-se ao jornal e aos seus jornalistas como a “peste de Munique” e dizia que cozinham os seus textos “com veneno”. (A jornalista Silvia Bittencourt tem um bom livro sobre o tema, chama-se Cozinha Venenosa – Um Jornal contra Hitler).
Os repórteres e colunistas heróis foram perseguidos, vítimas de intimidação e violência, e o jornal foi encerrado em 1933, assim que Hitler chegou ao poder. Mas alguns conseguiram resistir: Edmund Goldschagg, ex-editor de política, veio a fundar, anos mais tarde, o prestigiado Süddeutsche Zeitung.
Uma das primeiras vítimas mais notáveis desta perseguição aos média foi Carl von Ossestzky, diretor do Weltbühne, que logo em 1933 foi preso e levado para um campo de concentração. Ruth Andreas-Friedrich foi outra jornalista alemã notável, que viveu uma vida dupla. Trabalhava sob o jugo da censura, mas protegia e abrigava perseguidos políticos e judeus, ajudando-os a fugir.
A imprensa livre morreu muito antes de Hitler ser o genocida que conhecemos. Em poucos meses, todos os órgãos de comunicação social passaram a ser controlados pelo Ministério da Propaganda, debaixo da batuta implacável de Joseph Goebbels, que decidia tudo o que era publicado e punia severamente todos os que ousassem sair da linha definida, da mesma forma que queimava livros e cortava o acesso a rádios estrangeiras, afastando “espíritos não alemães” de todo o espaço público.
O ataque sistemático aos órgãos de comunicação social fez sempre parte das cartilhas dos regimes autoritários, dos dois lados do espectro político. Salazar, Mussolini, Estaline fizeram o mesmo, tal como aconteceu na China, em Cuba, na Coreia do Norte, no Irão, em Mianmar, etc. A lista é longa, e a vida de jornalista livre e crítico uma profissão de risco em todas as geografias, e tanto pior dependendo do tipo de regime que está no poder.
Nos dias de hoje, Donald Trump inaugurou um novo estilo de atacar a imprensa livre. Com os seus “engenheiros do caos”, lançou-se numa concertada estratégia de descredibilizar os jornalistas e os órgãos de comunicação social mainstream, que logo apelidou de lamestream (lame significa “aleijado” ou “coxo”) e fake news. Uma moda copiada por todo o globo. Em português nasceu a expressão “jornalixo”, para atacar todos os jornalistas e órgãos de comunicação social tradicionais e, sobretudo, os não abertamente alinhados com o discurso da nova direita radical.
O que é que tudo isto tem a ver com a VISÃO?, perguntarão. Pois tem tudo.
Há duas semanas, André Ventura foi um dos primeiros a congratular-se com a possibilidade de fecho da VISÃO, e depois logo seguido por vários obedientes deputados. “Parece que a Visão vai à falência. É normal, quem fez da sua vida atacar o Chega e atacar-me a mim, é normal que as pessoas tenham dito chega. É para aprenderem: quando atacam aqueles que defendem o povo, o povo é que acaba por olhar para o lado e dizer ‘vocês é que têm de acabar’”, publicou num vídeo nas redes sociais, repetindo a ideia em vários posts.
São várias mentiras em tão poucas palavras, como é costume: 1. A VISÃO foi fundada em 1993 e tem uma vida de jornalismo de qualidade muito antes de aparecer o Chega; 2. A VISÃO não fez vida a atacar o Chega, e sim a denunciar violações aos valores fundamentais em que foi fundada: a democracia, a liberdade, o humanismo (valores que, infelizmente, o Chega detesta e ataca); 3. Não foi a VISÃO que foi à falência, mas o grupo Trust in News que detém outras 15 revistas e que foi vítima de dívidas acumuladas pelo acionista, sendo que a VISÃO foi sempre o motor que deu margem de contribuição positiva para o grupo e que, ainda agora, no meio deste caos, vende cerca de 9 000 exemplares, tem à volta de 6 000 assinantes e fatura perto de muitos milhares de euros por mês. Se a VISÃO fechar, não será certamente por falta de leitores ou de mercado: será sim por causa de uma gestão gravemente danosa e incompetente – esta é a minha opinião e assumo-a (e foi ela que me levou a pedir a demissão no final de 2023).
A liberdade de imprensa incomoda. Esta semana, o ex-jornalista e comentador incisivo Filipe Santos Costa foi atacado em direto na CNN Portugal, num momento de entrevista a Ventura por um painel, com acusações de “representante do Partido Socialista”.
A alegria seria idêntica se uma iminência de falência batesse às portas do Expresso, do Público ou do Polígrafo. Centenas de jornalistas empurrados para o desemprego, prejuízos avultados para credores? Pouco importa. É claro que para André Ventura e “sus muchachos” a vida ficaria muito mais fácil se só existisse a sua Folha Nacional, o jornal do Chega que publica sondagens imaginárias e alucinações de seita.
Deixem-me fazer um ponto de honra. O jornalismo, nacional e internacional, cometeu e comete muitos erros. Tem falhas, engana-se, facilita, vai por caminhos ínvios, dá tiros nos pés, tem dificuldade em lidar com os novos tempos digitais. Eu também terei cometido muitos, certamente, no tempo em que fui diretora da VISÃO. Mas a esmagadora maioria do jornalismo que os média tradicionais de referência fazem em Portugal procura ser isento, honesto e comprometido com a busca da verdade.
A palavra “jornalixo” é todo um tratado de ataque não apenas aos média, mas à democracia e à liberdade. Quem a usa fica irremediavelmente apresentado. Porque não há democracia sem imprensa livre e de denúncia. Porque não há liberdade sem jornalistas incómodos e opinadores críticos.
Na música do genérico do belíssimo filme Ainda Estou Aqui, lê-se: “Estou envergonhado / Com as coisas que eu vi / Mas não vou ficar calado / No conforto, acomodado / Como tantos por aí.” Sim, ainda estamos aqui. E, como jornalistas incómodos, havemos de continuar por aí a denunciar, a criticar e a opinar. Gostem os poderes instalados e os líderes autoritários ou não.
Espantam, mas não convencem.
Porque é mesmo preciso conhecer a História e aprender com ela. E as semelhanças são gritantes – só não as vê quem não quer:
Vivemos tempos de deceção e frustração com os problemas de um sistema que não consegue atender a todos, tal como na Alemanha dos anos 30.
Há líderes populistas e carismáticos de direita radical que sabem tirar partido do ressentimento, oferecendo respostas simplistas para problemas complexos, tal como na Alemanha dos anos 30.
Atribuem-se culpas coletivas e escolhem-se bodes expiatórios para apontar o dedo, tal como na Alemanha dos anos 30.
Procura-se voltar atrás no tempo e recuar a um passado imaginário, tal como na Alemanha dos anos 30.
Temos novas tecnologias disruptivas que catapultam a propaganda, tal como na Alemanha dos anos 30.
E tenta-se descredibilizar os média tradicionais que denunciam as mentiras, os engodos e os perigos destes, tal como na Alemanha dos anos 30.
Quero hoje, excecionalmente de volta às páginas da VISÃO nestes dias cruciais de resistência e luta, focar-me neste último ponto.
Também na Alemanha nazi, houve casos paradigmáticos. O Münchener Post, por exemplo, foi um pequeno jornal de ideologia social-democrata na Baviera que desde cedo identificou, ainda nos anos 1920, um “certo senhor chamado Hitler” e se lançou numa cruzada contra ele. Hitler rapidamente fez dele mais um alvo a abater, pois claro: passou a referir-se ao jornal e aos seus jornalistas como a “peste de Munique” e dizia que cozinham os seus textos “com veneno”. (A jornalista Silvia Bittencourt tem um bom livro sobre o tema, chama-se Cozinha Venenosa – Um Jornal contra Hitler).
Os repórteres e colunistas heróis foram perseguidos, vítimas de intimidação e violência, e o jornal foi encerrado em 1933, assim que Hitler chegou ao poder. Mas alguns conseguiram resistir: Edmund Goldschagg, ex-editor de política, veio a fundar, anos mais tarde, o prestigiado Süddeutsche Zeitung.
Uma das primeiras vítimas mais notáveis desta perseguição aos média foi Carl von Ossestzky, diretor do Weltbühne, que logo em 1933 foi preso e levado para um campo de concentração. Ruth Andreas-Friedrich foi outra jornalista alemã notável, que viveu uma vida dupla. Trabalhava sob o jugo da censura, mas protegia e abrigava perseguidos políticos e judeus, ajudando-os a fugir.
A imprensa livre morreu muito antes de Hitler ser o genocida que conhecemos. Em poucos meses, todos os órgãos de comunicação social passaram a ser controlados pelo Ministério da Propaganda, debaixo da batuta implacável de Joseph Goebbels, que decidia tudo o que era publicado e punia severamente todos os que ousassem sair da linha definida, da mesma forma que queimava livros e cortava o acesso a rádios estrangeiras, afastando “espíritos não alemães” de todo o espaço público.
O ataque sistemático aos órgãos de comunicação social fez sempre parte das cartilhas dos regimes autoritários, dos dois lados do espectro político. Salazar, Mussolini, Estaline fizeram o mesmo, tal como aconteceu na China, em Cuba, na Coreia do Norte, no Irão, em Mianmar, etc. A lista é longa, e a vida de jornalista livre e crítico uma profissão de risco em todas as geografias, e tanto pior dependendo do tipo de regime que está no poder.
Nos dias de hoje, Donald Trump inaugurou um novo estilo de atacar a imprensa livre. Com os seus “engenheiros do caos”, lançou-se numa concertada estratégia de descredibilizar os jornalistas e os órgãos de comunicação social mainstream, que logo apelidou de lamestream (lame significa “aleijado” ou “coxo”) e fake news. Uma moda copiada por todo o globo. Em português nasceu a expressão “jornalixo”, para atacar todos os jornalistas e órgãos de comunicação social tradicionais e, sobretudo, os não abertamente alinhados com o discurso da nova direita radical.
O que é que tudo isto tem a ver com a VISÃO?, perguntarão. Pois tem tudo.
Há duas semanas, André Ventura foi um dos primeiros a congratular-se com a possibilidade de fecho da VISÃO, e depois logo seguido por vários obedientes deputados. “Parece que a Visão vai à falência. É normal, quem fez da sua vida atacar o Chega e atacar-me a mim, é normal que as pessoas tenham dito chega. É para aprenderem: quando atacam aqueles que defendem o povo, o povo é que acaba por olhar para o lado e dizer ‘vocês é que têm de acabar’”, publicou num vídeo nas redes sociais, repetindo a ideia em vários posts.
São várias mentiras em tão poucas palavras, como é costume: 1. A VISÃO foi fundada em 1993 e tem uma vida de jornalismo de qualidade muito antes de aparecer o Chega; 2. A VISÃO não fez vida a atacar o Chega, e sim a denunciar violações aos valores fundamentais em que foi fundada: a democracia, a liberdade, o humanismo (valores que, infelizmente, o Chega detesta e ataca); 3. Não foi a VISÃO que foi à falência, mas o grupo Trust in News que detém outras 15 revistas e que foi vítima de dívidas acumuladas pelo acionista, sendo que a VISÃO foi sempre o motor que deu margem de contribuição positiva para o grupo e que, ainda agora, no meio deste caos, vende cerca de 9 000 exemplares, tem à volta de 6 000 assinantes e fatura perto de muitos milhares de euros por mês. Se a VISÃO fechar, não será certamente por falta de leitores ou de mercado: será sim por causa de uma gestão gravemente danosa e incompetente – esta é a minha opinião e assumo-a (e foi ela que me levou a pedir a demissão no final de 2023).
A liberdade de imprensa incomoda. Esta semana, o ex-jornalista e comentador incisivo Filipe Santos Costa foi atacado em direto na CNN Portugal, num momento de entrevista a Ventura por um painel, com acusações de “representante do Partido Socialista”.
A alegria seria idêntica se uma iminência de falência batesse às portas do Expresso, do Público ou do Polígrafo. Centenas de jornalistas empurrados para o desemprego, prejuízos avultados para credores? Pouco importa. É claro que para André Ventura e “sus muchachos” a vida ficaria muito mais fácil se só existisse a sua Folha Nacional, o jornal do Chega que publica sondagens imaginárias e alucinações de seita.
Deixem-me fazer um ponto de honra. O jornalismo, nacional e internacional, cometeu e comete muitos erros. Tem falhas, engana-se, facilita, vai por caminhos ínvios, dá tiros nos pés, tem dificuldade em lidar com os novos tempos digitais. Eu também terei cometido muitos, certamente, no tempo em que fui diretora da VISÃO. Mas a esmagadora maioria do jornalismo que os média tradicionais de referência fazem em Portugal procura ser isento, honesto e comprometido com a busca da verdade.
A palavra “jornalixo” é todo um tratado de ataque não apenas aos média, mas à democracia e à liberdade. Quem a usa fica irremediavelmente apresentado. Porque não há democracia sem imprensa livre e de denúncia. Porque não há liberdade sem jornalistas incómodos e opinadores críticos.
Na música do genérico do belíssimo filme Ainda Estou Aqui, lê-se: “Estou envergonhado / Com as coisas que eu vi / Mas não vou ficar calado / No conforto, acomodado / Como tantos por aí.” Sim, ainda estamos aqui. E, como jornalistas incómodos, havemos de continuar por aí a denunciar, a criticar e a opinar. Gostem os poderes instalados e os líderes autoritários ou não.
Nada mais antigo do que o passado recente
Notório autor de frases de efeito, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que “não há nada mais antigo do que o passado recente”. Relembrado por ocasião dos 100 anos do jornal “O Globo”, do qual foi colunista, o autor de “Vestido de Noiva” afirmou em uma crônica de 1968 que “a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente”.
Atualmente, brasileiros assistem, perplexos, à vida injetando o passado de ações intervencionistas dos Estados Unidos no Brasil. Em 201 anos de relações diplomáticas, prevaleceram a amizade e alianças políticas e comerciais entre os dois países, com respeito mútuo pela soberania, mas com incidentes pontuais.
Lembre-se que em 1952, quando o presidente Harry Truman pressionou Getúlio Vargas a enviar soldados para lutarem ao lado dos americanos na Guerra da Coreia, o mandatário brasileiro recusou-se. Para não se indispor com o aliado, Getúlio propôs um acordo militar, envolvendo a exploração em solo nacional de matérias estratégicos, como urânio e terras raras. Tal qual se deu no passado, atualmente, o interesse americano pelas mesmas terras raras, abundantes no Brasil, pode ajudar a reconstruir a relação entre os dois países.
No pós-Segunda Guerra, Getúlio costurou com o presidente Franklin Roosevelt, em 1945, a retirada das bases americanas do Brasil. Essas instalações deram apoio logístico à aviação americana, e reforçaram a segurança da região, num cenário em que submarinos alemães haviam abatido embarcações brasileiras.
No início de 1946, o então ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, foi cobrado pela permanência de algumas dessas bases no país. Ele ponderou que o processo de desocupação estava em curso, e exaltou a soberania nacional: “O Brasil cultiva o espírito de cooperação panamericana no mais alto grau, mas dentro de seu território só pode flutuar uma bandeira - a nossa”.
Em 1952, coube ao mesmo João Neves - desta vez, como chanceler de Getúlio - costurar com sua contraparte americana o acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. A negativa de Getúlio ao envio das tropas para a Coreia era ousada pela sensibilidade da conjuntura internacional, e, igualmente, pela dependência econômica do Brasil do vizinho americano. Em plena guerra fria, o conflito na Coreia tinha um viés ideológico, porque o apoio dos EUA à Coreia do Sul simbolizava o combate à expansão do comunismo, já que do lado oposto lutavam Coreia do Norte e União Soviética.
Mais de 70 anos depois, o passado invade o presente nas relações entre EUA e Brasil, quando o presidente Donald Trump adiciona o viés ideológico às relações comerciais entre ambos. Ele o faz ao condicionar o fim do “tarifaço” à intervenção do governo brasileiro no Supremo Tribunal Federal (STF), na ação penal sobre a tentativa de golpe, que tem como um dos réus o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos anos 50, os termos do acordo militar do governo Getúlio foram considerados excessivamente favoráveis aos americanos. Os minerais estratégicos que eram objeto do acordo, como as areias monazíticas, ricas em urânio e terras raras, não poderiam ser negociados pelo Brasil com outro país, sem o consentimento prévio de Washington. Em paralelo, a contrapartida americana foi considerada genérica, ao prever assistência ao Brasil em equipamentos, materiais ou serviços. Em 1977, o presidente Ernesto Geisel encerrou o acordo, gerando novo foco de tensão entre os dois países.
Em outro capítulo, somente muitos anos depois veio à luz o envolvimento dos Estados Unidos no golpe militar de 1964. O historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que se tropas legalistas resistissem, os EUA posicionariam um porta-aviões, petroleiros e contratorpedeiros na costa brasileira para reforçar o contingente empregado na deposição de João Goulart.
Nessa quinta-feira (14), Donald Trump voltou a atacar o Brasil, que chamou de "péssimo parceiro comercial", além de qualificar o julgamento de Bolsonaro de “execução política”. As premissas são falsas, porque os EUA são superavitários nos negócios com os brasileiros, enquanto o ex-presidente teve direito ao devido processo legal, com ampla defesa e contraditório.
Lula rebateu Trump, alertando que o Brasil “não vai ficar de joelhos”. A tensão está literalmente no ar, num momento em que Trump despachou tropas das forças aéreas e navais americanas para o sul do Mar do Caribe. No passado, na Segunda Guerra, as bases americanas no Brasil foram devidamente acordadas entre Getúlio e Roosevelt.
A dependência do Brasil das exportações para os EUA já foi maior. Em 1989, representava 23,94%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), e esse volume caiu para 12%, no acumulado até junho. Mas Trump já mostrou que a briga é política, e não comercial.
Um diplomata lamentou que seja a “maior crise em 201 anos de relação”, e disse à coluna que só muito trabalho de bastidor para revertê-la, e cientes de que a pressão vai continuar até o julgamento de Bolsonaro, com a perspectiva de se agravar. A vida injeta o passado no presente, mas é o futuro que nos aflige.
Andrea Jubé
Atualmente, brasileiros assistem, perplexos, à vida injetando o passado de ações intervencionistas dos Estados Unidos no Brasil. Em 201 anos de relações diplomáticas, prevaleceram a amizade e alianças políticas e comerciais entre os dois países, com respeito mútuo pela soberania, mas com incidentes pontuais.
Lembre-se que em 1952, quando o presidente Harry Truman pressionou Getúlio Vargas a enviar soldados para lutarem ao lado dos americanos na Guerra da Coreia, o mandatário brasileiro recusou-se. Para não se indispor com o aliado, Getúlio propôs um acordo militar, envolvendo a exploração em solo nacional de matérias estratégicos, como urânio e terras raras. Tal qual se deu no passado, atualmente, o interesse americano pelas mesmas terras raras, abundantes no Brasil, pode ajudar a reconstruir a relação entre os dois países.
No pós-Segunda Guerra, Getúlio costurou com o presidente Franklin Roosevelt, em 1945, a retirada das bases americanas do Brasil. Essas instalações deram apoio logístico à aviação americana, e reforçaram a segurança da região, num cenário em que submarinos alemães haviam abatido embarcações brasileiras.
No início de 1946, o então ministro das Relações Exteriores, João Neves da Fontoura, foi cobrado pela permanência de algumas dessas bases no país. Ele ponderou que o processo de desocupação estava em curso, e exaltou a soberania nacional: “O Brasil cultiva o espírito de cooperação panamericana no mais alto grau, mas dentro de seu território só pode flutuar uma bandeira - a nossa”.
Em 1952, coube ao mesmo João Neves - desta vez, como chanceler de Getúlio - costurar com sua contraparte americana o acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. A negativa de Getúlio ao envio das tropas para a Coreia era ousada pela sensibilidade da conjuntura internacional, e, igualmente, pela dependência econômica do Brasil do vizinho americano. Em plena guerra fria, o conflito na Coreia tinha um viés ideológico, porque o apoio dos EUA à Coreia do Sul simbolizava o combate à expansão do comunismo, já que do lado oposto lutavam Coreia do Norte e União Soviética.
Mais de 70 anos depois, o passado invade o presente nas relações entre EUA e Brasil, quando o presidente Donald Trump adiciona o viés ideológico às relações comerciais entre ambos. Ele o faz ao condicionar o fim do “tarifaço” à intervenção do governo brasileiro no Supremo Tribunal Federal (STF), na ação penal sobre a tentativa de golpe, que tem como um dos réus o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nos anos 50, os termos do acordo militar do governo Getúlio foram considerados excessivamente favoráveis aos americanos. Os minerais estratégicos que eram objeto do acordo, como as areias monazíticas, ricas em urânio e terras raras, não poderiam ser negociados pelo Brasil com outro país, sem o consentimento prévio de Washington. Em paralelo, a contrapartida americana foi considerada genérica, ao prever assistência ao Brasil em equipamentos, materiais ou serviços. Em 1977, o presidente Ernesto Geisel encerrou o acordo, gerando novo foco de tensão entre os dois países.
Em outro capítulo, somente muitos anos depois veio à luz o envolvimento dos Estados Unidos no golpe militar de 1964. O historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que se tropas legalistas resistissem, os EUA posicionariam um porta-aviões, petroleiros e contratorpedeiros na costa brasileira para reforçar o contingente empregado na deposição de João Goulart.
Nessa quinta-feira (14), Donald Trump voltou a atacar o Brasil, que chamou de "péssimo parceiro comercial", além de qualificar o julgamento de Bolsonaro de “execução política”. As premissas são falsas, porque os EUA são superavitários nos negócios com os brasileiros, enquanto o ex-presidente teve direito ao devido processo legal, com ampla defesa e contraditório.
Lula rebateu Trump, alertando que o Brasil “não vai ficar de joelhos”. A tensão está literalmente no ar, num momento em que Trump despachou tropas das forças aéreas e navais americanas para o sul do Mar do Caribe. No passado, na Segunda Guerra, as bases americanas no Brasil foram devidamente acordadas entre Getúlio e Roosevelt.
A dependência do Brasil das exportações para os EUA já foi maior. Em 1989, representava 23,94%, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), e esse volume caiu para 12%, no acumulado até junho. Mas Trump já mostrou que a briga é política, e não comercial.
Um diplomata lamentou que seja a “maior crise em 201 anos de relação”, e disse à coluna que só muito trabalho de bastidor para revertê-la, e cientes de que a pressão vai continuar até o julgamento de Bolsonaro, com a perspectiva de se agravar. A vida injeta o passado no presente, mas é o futuro que nos aflige.
Andrea Jubé
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Muitas crises e alguma oportunidade
O Brasil não vive uma crise. Vive muitas ao mesmo tempo. Algumas são universais, como a climática e a do comércio internacional, completamente revirado pelas iniciativas de Donald Trump.
É pretensioso supor que uma só pessoa consiga abordar esse punhado de crises, em busca de caminhos para o País. No passado, escrevíamos teses bastante gerais que eram uma espécie de roteiro de discussão ou mesmo um estímulo à pesquisa.
A ordem internacional do comércio foi subvertida por Trump. Isso é irreversível pelo menos durante seu mandato.
Que papel o Brasil pode encontrar neste novo arranjo em que todos se movem em busca de novos mercados? Há consenso de que devemos buscar também novos compradores para nossos produtos. O multilateralismo fortalecido pode ser uma resposta mundial a Trump.
É consensual, também, que devemos ter uma posição serena na defesa da soberania, buscando pacientemente restaurar os vínculos diplomáticos com os EUA.
Não é consensual tanto como a diversidade na exportação, a possibilidade de o Brasil se abrir mais, simplificando sua estrutura tarifária, reduzindo barreiras não tarifárias. Naturalmente, isso deve ser feito com os devidos cuidados, mas não podemos mimetizar a visão primária de Trump segundo a qual quem vende é sempre um explorador e que o déficit comercial significa perdas. Ele considera que um déficit de, suponhamos, US$ 1 bilhão é um dinheiro jogado fora, abstraindo a mercadoria comprada que poderia ser mais cara se produzida internamente.
Outro aspecto da crise comercial que acaba convergindo para a crise ambiental é o dos recursos brasileiros vitais para a transição energética: sol, vento, água, florestas, minerais estratégicos, tudo isso deve ser levado em conta numa reavaliação geopolítica do Brasil.
Já produzimos lítio no Vale do Jequitinhonha, começamos a explorar terras raras com a Serra Mining em Goiás, temos uma reserva de nióbio que pode abastecer todo o planeta – enfim, o Brasil tem um papel central na superação do modelo poluidor e suicida.
No campo digital, a ideia de soberania tem sido sintetizada no poder do Brasil de impor suas leis às big techs que aqui funcionam. Mas ela precisa ser estendida à própria infraestrutura – já escrevi artigos mostrando, por exemplo, a dependência que um setor da economia tem do WhatsApp.
O Brasil é um importante espaço para data centers, pois dispõe de energia e água, fatores consumidos em larga escala. Pode oferecer isso às big techs, mas pode também construir os seus. próprios.
Já escrevi artigos mais amplos sobre os passos para um nível de autossuficiência, já alcançado pela China, por exemplo. Satélites, redes de alta velocidade, plataformas de cloud, tecnologias de inteligência artificial e algoritmos – um caminho que permite não apenas aplicar a lei às big techs, mas sobreviver a um possível boicote.
Toda essa temática precisa repercutir nas eleições de 2026 e funcionar como estímulo para a escolha de pelo menos um pequeno núcleo de parlamentares que aborde as necessidades do País.
A tendência à escalada da tensão com os EUA é muito forte no campo político. Além das pressões de Trump no caso Bolsonaro, ele assinou um decreto autorizando ações militares na América Latina para o combate ao tráfico de drogas. Essas ações independem da autorização dos governos. Provavelmente, começarão pelo México e virão para a Venezuela, onde o governo de Nicolás Maduro foi considerado envolvido com o tráfico. Os EUA acusam Maduro de participar de um cartel e de ter relações com outros dois: Tren de Aragua e Sinaloa.
Essa disposição de combater o tráfico de drogas em alguns casos, como o da Venezuela, converge com a vontade de derrubar o governo. Um exemplo histórico é o de Manuel Noriega, no Panamá.
Qualquer operação na Venezuela terá repercussão no Brasil, que, por sua vez, já foi instado por Trump a considerar o PCC e outros grupos de crime organizado como terroristas.
O Brasil recusou, mas, de qualquer forma, o decreto é o anúncio de problemas, pois a volta da guerra às drogas com tropas americanas é um filme antigo, que saiu de cartaz por falta de eficácia.
A melhor forma de navegar neste mar tão revolto é ter objetivos claros neste mundo em mudança.
O governo tem possibilidade de prosseguir até 2030. Tanto a serenidade como a definição de objetivos são fatores essenciais nessa transição.
No momento, a polarização domina o cenário político. Tem sido assim nos últimos anos. O dado novo é a entrada de um ator muito mais forte que a extrema direita brasileira. Em outras palavras, um dos decisivos temas é a relação Brasil-EUA.
A soberania é um tema inescapável. Mas ela não pode ser apenas um discurso empolgado. Demanda serenidade, passos concretos e uma visão de mais longo prazo. Isso tudo é artigo raro num processo eleitoral. Mas, infelizmente, não temos mais tempo. É hora de nos reposicionarmos no mundo.
Apesar de todos os obstáculos, é mais uma oportunidade de o Brasil alcançar a grandeza sempre postergada em nossa história.
Fernando Gabeira
É pretensioso supor que uma só pessoa consiga abordar esse punhado de crises, em busca de caminhos para o País. No passado, escrevíamos teses bastante gerais que eram uma espécie de roteiro de discussão ou mesmo um estímulo à pesquisa.
A ordem internacional do comércio foi subvertida por Trump. Isso é irreversível pelo menos durante seu mandato.
Que papel o Brasil pode encontrar neste novo arranjo em que todos se movem em busca de novos mercados? Há consenso de que devemos buscar também novos compradores para nossos produtos. O multilateralismo fortalecido pode ser uma resposta mundial a Trump.
É consensual, também, que devemos ter uma posição serena na defesa da soberania, buscando pacientemente restaurar os vínculos diplomáticos com os EUA.
Não é consensual tanto como a diversidade na exportação, a possibilidade de o Brasil se abrir mais, simplificando sua estrutura tarifária, reduzindo barreiras não tarifárias. Naturalmente, isso deve ser feito com os devidos cuidados, mas não podemos mimetizar a visão primária de Trump segundo a qual quem vende é sempre um explorador e que o déficit comercial significa perdas. Ele considera que um déficit de, suponhamos, US$ 1 bilhão é um dinheiro jogado fora, abstraindo a mercadoria comprada que poderia ser mais cara se produzida internamente.
Outro aspecto da crise comercial que acaba convergindo para a crise ambiental é o dos recursos brasileiros vitais para a transição energética: sol, vento, água, florestas, minerais estratégicos, tudo isso deve ser levado em conta numa reavaliação geopolítica do Brasil.
Já produzimos lítio no Vale do Jequitinhonha, começamos a explorar terras raras com a Serra Mining em Goiás, temos uma reserva de nióbio que pode abastecer todo o planeta – enfim, o Brasil tem um papel central na superação do modelo poluidor e suicida.
No campo digital, a ideia de soberania tem sido sintetizada no poder do Brasil de impor suas leis às big techs que aqui funcionam. Mas ela precisa ser estendida à própria infraestrutura – já escrevi artigos mostrando, por exemplo, a dependência que um setor da economia tem do WhatsApp.
O Brasil é um importante espaço para data centers, pois dispõe de energia e água, fatores consumidos em larga escala. Pode oferecer isso às big techs, mas pode também construir os seus. próprios.
Já escrevi artigos mais amplos sobre os passos para um nível de autossuficiência, já alcançado pela China, por exemplo. Satélites, redes de alta velocidade, plataformas de cloud, tecnologias de inteligência artificial e algoritmos – um caminho que permite não apenas aplicar a lei às big techs, mas sobreviver a um possível boicote.
Toda essa temática precisa repercutir nas eleições de 2026 e funcionar como estímulo para a escolha de pelo menos um pequeno núcleo de parlamentares que aborde as necessidades do País.
A tendência à escalada da tensão com os EUA é muito forte no campo político. Além das pressões de Trump no caso Bolsonaro, ele assinou um decreto autorizando ações militares na América Latina para o combate ao tráfico de drogas. Essas ações independem da autorização dos governos. Provavelmente, começarão pelo México e virão para a Venezuela, onde o governo de Nicolás Maduro foi considerado envolvido com o tráfico. Os EUA acusam Maduro de participar de um cartel e de ter relações com outros dois: Tren de Aragua e Sinaloa.
Essa disposição de combater o tráfico de drogas em alguns casos, como o da Venezuela, converge com a vontade de derrubar o governo. Um exemplo histórico é o de Manuel Noriega, no Panamá.
Qualquer operação na Venezuela terá repercussão no Brasil, que, por sua vez, já foi instado por Trump a considerar o PCC e outros grupos de crime organizado como terroristas.
O Brasil recusou, mas, de qualquer forma, o decreto é o anúncio de problemas, pois a volta da guerra às drogas com tropas americanas é um filme antigo, que saiu de cartaz por falta de eficácia.
A melhor forma de navegar neste mar tão revolto é ter objetivos claros neste mundo em mudança.
O governo tem possibilidade de prosseguir até 2030. Tanto a serenidade como a definição de objetivos são fatores essenciais nessa transição.
No momento, a polarização domina o cenário político. Tem sido assim nos últimos anos. O dado novo é a entrada de um ator muito mais forte que a extrema direita brasileira. Em outras palavras, um dos decisivos temas é a relação Brasil-EUA.
A soberania é um tema inescapável. Mas ela não pode ser apenas um discurso empolgado. Demanda serenidade, passos concretos e uma visão de mais longo prazo. Isso tudo é artigo raro num processo eleitoral. Mas, infelizmente, não temos mais tempo. É hora de nos reposicionarmos no mundo.
Apesar de todos os obstáculos, é mais uma oportunidade de o Brasil alcançar a grandeza sempre postergada em nossa história.
Fernando Gabeira
INRI
Senhor, não voltes,
pois serás crucificado
novamente,
não pelos descrentes
e ateus,
mas pelos
supostamente teus.
Elilson José Batista, "Sal da Palavra"
pois serás crucificado
novamente,
não pelos descrentes
e ateus,
mas pelos
supostamente teus.
Elilson José Batista, "Sal da Palavra"
A manifestação dos ressentidos
O ressentimento é um sentimento perigoso. O filósofo Nietzsche, no século XIX, dedicou-se a analisá-lo, designando-o como uma característica dos impotentes: um ódio internalizado por se sentirem fracos e moralmente inferiores. Em sua obra, Genealogia da Moral, Nietzsche afirma: “O homem do ressentimento — e precisamente nisso está seu feito, sua criação: ele concebeu ‘o inimigo mau’, ‘o mau’, e isto como conceito básico, a partir do qual também elabora, como imagem equivalente, um ‘bom’ — ele mesmo!”. Fico pensando nas expressões de Nietzsche lendo sobre os discursos dos manifestantes. Com certeza gritaria: medíocres!
Os homens do ressentimento se escondem atrás da moral e da religião, realizam uma inversão dos valores para se colocarem como “bons”. As manifestações do último dia 03 de agosto se mostraram um exemplo disso: manifestações de ressentidos. Como diria Nietzsche, foi uma manifestação de ódio da impotência contra a potência e a competência. Lembremo-nos que, na filosofia aristotélica, a potência é movimento, mudança e transformação, enquanto a impotência é mesmice, conformação e estagnação.
Os discursos dos que protagonizaram os atos provam isso. Um diz, em relação a Alexandre de Morais: “Eu posso usar cartão de crédito, posso usar rede social e também posso usar pente de cabelo”. No mínimo um comentário tosco e medíocre. Outra diz, em relação ao presidente Lula: “Cachaceiro sem vergonha”. Eu perguntaria: E daí? No mais, foram palavras de ordem a favor da anistia, da prisão de Moraes, do impeachment de Lula, mais ameaças a Moraes, aos presidentes da câmara e do senado, ou seja, discursos de ressentimento. Nesse ínterim, o ministro Alexandre de Moraes é o principal alvo de ódio, no entanto, a psicanálise nos ensina que o excesso de ódio sempre revela também um desejo.
Segundo Maria Rita Kehl, em seu livro Ressentimento, o indivíduo que sofre deste sentimento estabelece uma relação de dependência infantil com o outro. O que se revela em uma dependência que foi a tônica dos discursos, manifestando-se em elogios a figuras como Trump e Musk, ou a tudo que é externo. Esse elogio ao grande ‘Outro’ acaba por apequenar o “Eu”. Ademais, a fixação em figuras como Lula e Alexandre de Moraes, revelam quase como um ódio edipiano: odeia-se aqueles dignos de admiração, o que revela minha incapacidade de ser como eles.
Essas manifestações não revelaram força, não representaram o povo e nem defenderam o país. Ao contrário, mostraram o medo dos ressentidos e a fraqueza dos impotentes. Revelaram também uma vontade de potência que busca alienar com palavras de ordem e um clamor vazio por liberdade, esquecendo que a liberdade implica sempre em responsabilidade. No entanto, as manifestações ilustram o espírito da política dos novos tempos, em que temos menos estadistas e mais caricaturas ressentidas na arena pública, sem nenhum compromisso legítimo com o país.
Aldineto Miranda Santos
Os homens do ressentimento se escondem atrás da moral e da religião, realizam uma inversão dos valores para se colocarem como “bons”. As manifestações do último dia 03 de agosto se mostraram um exemplo disso: manifestações de ressentidos. Como diria Nietzsche, foi uma manifestação de ódio da impotência contra a potência e a competência. Lembremo-nos que, na filosofia aristotélica, a potência é movimento, mudança e transformação, enquanto a impotência é mesmice, conformação e estagnação.
Os discursos dos que protagonizaram os atos provam isso. Um diz, em relação a Alexandre de Morais: “Eu posso usar cartão de crédito, posso usar rede social e também posso usar pente de cabelo”. No mínimo um comentário tosco e medíocre. Outra diz, em relação ao presidente Lula: “Cachaceiro sem vergonha”. Eu perguntaria: E daí? No mais, foram palavras de ordem a favor da anistia, da prisão de Moraes, do impeachment de Lula, mais ameaças a Moraes, aos presidentes da câmara e do senado, ou seja, discursos de ressentimento. Nesse ínterim, o ministro Alexandre de Moraes é o principal alvo de ódio, no entanto, a psicanálise nos ensina que o excesso de ódio sempre revela também um desejo.
Segundo Maria Rita Kehl, em seu livro Ressentimento, o indivíduo que sofre deste sentimento estabelece uma relação de dependência infantil com o outro. O que se revela em uma dependência que foi a tônica dos discursos, manifestando-se em elogios a figuras como Trump e Musk, ou a tudo que é externo. Esse elogio ao grande ‘Outro’ acaba por apequenar o “Eu”. Ademais, a fixação em figuras como Lula e Alexandre de Moraes, revelam quase como um ódio edipiano: odeia-se aqueles dignos de admiração, o que revela minha incapacidade de ser como eles.
Essas manifestações não revelaram força, não representaram o povo e nem defenderam o país. Ao contrário, mostraram o medo dos ressentidos e a fraqueza dos impotentes. Revelaram também uma vontade de potência que busca alienar com palavras de ordem e um clamor vazio por liberdade, esquecendo que a liberdade implica sempre em responsabilidade. No entanto, as manifestações ilustram o espírito da política dos novos tempos, em que temos menos estadistas e mais caricaturas ressentidas na arena pública, sem nenhum compromisso legítimo com o país.
Aldineto Miranda Santos
Interesse americano por Itaipu revela que extração energética é a nova face da colonização tecnológica
A Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada entre o Brasil e o Paraguai e inaugurada em 1984, é uma das maiores produtoras de energia limpa do mundo e símbolo histórico da cooperação Sul-Sul. Erguida às margens do Rio Paraná, a partir de um tratado bilateral assinado em 1973, Itaipu representou não apenas um feito de engenharia, mas um marco diplomático de solidariedade energética e integração regional.
Durante décadas, sua produção abasteceu ambos os países com eletricidade renovável, garantindo ao Paraguai um excedente energético que era majoritariamente vendido ao Brasil. No entanto, com o vencimento dos dispositivos normativos do tratado em 2023 que previam a venda destes excedentes exclusivamente ao Brasil, abriu-se uma brecha explorável por atores externos. Numa declaração recente no Senado americano, o secretário de Estado Marco Rubio deu uma indicação do interesse em reconfigurar o uso desse recurso estratégico sob lógicas que favorecem cadeias digitais globais.
Rubio afirmou que o Paraguai seria uma escolha inteligente para a instalação de data-centers, dada a abundância energética que não pode ser simplesmente armazenada e exportada. O objetivo parece claro: usar o Paraguai como base energética para a infraestrutura de Inteligência Artificial da potência norte-americana, transformando seu excedente energético em insumo para um modelo de dependência tecnológica.
Na prática, Rubio é coerente com a agenda do Meta-Trumpismo da Casa Branca: inserir o Sul Global, e a América Latina, na cadeia produtiva como subordinados ao Norte, impondo autoridade sobre o que nossos vizinhos consideram seu quintal.
Para manter servidores operando 24 horas por dia de forma estável, datacenters demandam quantidade colossal de energia. Com seu avanço exponencial, especialmente no uso de modelos de linguagem e sistemas de visão computacional, a Inteligência Artificial tem transformado os datacenters em verdadeiros complexos industriais e, com isso, a demanda energética dessas estruturas tem se tornado ainda mais crítica.
Empresas como Google, Amazon e Microsoft já reportaram que seus maiores gargalos operacionais para expansão de IA estão justamente na escassez de energia disponível para manter suas operações. Mais do que isso, datacenters também consomem enormes volumes de água para resfriamento, um recurso frequentemente invisibilizado nos cálculos de custo e de impacto ambiental.
Nos Estados Unidos, já há registros de cidades pequenas sendo afetadas por esse modelo: em The Dalles, no estado do Oregon, o Google consumiu em um único ano o equivalente a um quarto do abastecimento total da cidade. No Arizona e em partes da Virgínia, comunidades locais já enfrentam riscos concretos de escassez hídrica, agravados pelo consumo massivo de água necessário para resfriar esses centros. A instalação acelerada dessas infraestruturas, sem transparência ou regulação adequada, tem pressionado aquíferos, comprometido o abastecimento municipal e despertado reações legislativas em defesa da soberania sobre os recursos hídricos.
O excedente limpo e barato da Itaipu, assim, tornou-se alvo natural para uma nova forma de exploração: não apenas energética, mas também hídrica e territorial. Em vez de impulsionar a industrialização local ou atender às necessidades sociais da população, essa energia passaria a sustentar infraestruturas digitais controladas por corporações estrangeiras.
É isso o que já tem acontecido com o Brasil, que optou pelo clientelismo e gastou cerca de R$ 23 bilhões com soluções de TI, como indicado no estudo que realizamos em parceria com a USP e a UnB, ao invés de desenvolver sua própria infraestrutura tecnológica soberana. Com este valor, por exemplo, poderíamos ter construído pelo menos 86 datacenters brasileiros de tier 3.
Datacenters importados não serviriam aos interesses do Brasil, do Paraguai, da América Latina, muito menos do Sul Global como um todo. Tratam-se de corporações sediadas no Norte Global, que operam sob lógicas de extração e acumulação que garantem que tanto os lucros quanto o controle sobre os dados migrem para fora. Fica claro que o atual governo americano visa apropriar-se de nossos recursos para dar continuidade ao seu projeto de domínio digital, sustentado por infraestrutura alheia, energia barata e soberanias enfraquecidas.
E enquanto isso, a infraestrutura permanece aqui: consome nossa energia, ocupa nosso território e impõe custos ambientais, sem garantir sequer o acesso equitativo aos produtos que ajudamos a construir.
Esse é um dos perigos do Plano Redata, do ministro da Fazenda Fernando Haddad. Embora apresente-se como um esforço para reindustrializar o país por meio da digitalização e da economia verde, o programa carece de salvaguardas robustas contra a captura da infraestrutura pública por interesses do governo Trump e seus aliados.
A retórica de sustentabilidade, centrada na linguagem ESG e na valorização da energia limpa como vantagem comparativa, acaba servindo de justificativa para atrair datacenters estrangeiros que exploram essa energia renovável sem contrapartidas reais em soberania digital ou desenvolvimento local.
Ao priorizar a atração de datacenters e megainvestimentos tecnológicos com base na disponibilidade de energia verde, mas sem condicionar sua instalação à soberania sobre os dados, à propriedade do conhecimento gerado e ao controle dos recursos energéticos utilizados, o plano em verdade institucionaliza a subordinação do Brasil dentro da cadeia global da Inteligência Artificial.
Na prática, isso significa reforçar o tripé da colonização contemporânea: fornecemos o território para instalação da infraestrutura, a energia, limpa e barata, e os dados produzidos por nossa população, enquanto o Norte Global detém os algoritmos, os lucros e a governança. Nesse meio tempo, os esforços por regulamentação seguem presentes, mas com pouco retorno.
Nesse marco, é importante destacar que a própria governança da internet brasileira vem sendo alvo de ataques recorrentes: a FrenCyber (Frente Parlamentar de Apoio à Cibersegurança e à Defesa Cibernética), criada sob influência direta de setores militarizados e think tanks alinhados a Washington, atua como ponta de lança para reverter os princípios democráticos que estruturam a arquitetura digital brasileira.
Ao mesmo tempo, o Projeto de Lei 4557/2023, que visa transferir a supervisão do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) para a Anatel representa um claro movimento de desmonte institucional. O CGI.br, referência internacional em governança multissetorial e civil da internet, passaria a ser subordinado a uma agência reguladora tradicional, tecnocrática e vulnerável a pressões políticas das Big Techs. Isso abriria espaço para o avanço de interesses corporativos transnacionais e enfraqueceria drasticamente a capacidade da sociedade civil de influenciar os rumos da política digital nacional.
Se implementado com sucesso, o plano de Washington marcará uma ruptura profunda na história de Itaipu e no próprio sentido da integração regional sul-americana. O que antes foi símbolo de solidariedade energética e cooperação soberana entre Brasil e Paraguai corre o risco de ser ressignificado como ativo estratégico a ser instrumentalizado por potências externas.
Em vez de aprofundar a cooperação Sul-Sul em torno da transição energética, da soberania tecnológica e do desenvolvimento compartilhado, essa nova etapa no plano civilizatório do Meta-Trumpismo expõe os países da região, para além do Brasil, a pressões que reeditam formas clássicas de subordinação, agora revestidas pela linguagem da inovação e da sustentabilidade.
A usina que nasceu de um tratado entre vizinhos será apropriada como ferramenta para a consolidação de infraestruturas tecnológicas coloniais, nas quais o Sul Global cumpre a função de fornecedor passivo de insumos estratégicos: sem decidir, sem comandar, sem se beneficiar.
Defender Itaipu hoje é defender o direito do Sul Global de existir como sujeito político diante de uma nova ordem digital que o quer, novamente, como periferia. E o predadorismo do Meta-Trumpismo se revela justamente na capacidade de articular política externa, capital privado e retórica tecnológica para reconfigurar a região como uma extensão funcional da infraestrutura digital norte-americana. Trata-se de uma forma de intervenção sem tanques nem tropas, mas com cabos, servidores e algoritmos. Uma reconversão da dependência, onde o domínio se faz pelo controle da base material da computação.
Se não enfrentarmos essa reconfiguração com coragem política, lucidez estratégica e compromisso regional, aceitaremos, sem resistência, sermos redesenhados como colônia digital da era da Inteligência Artificial, com nosso território, nossa energia e nossa cognição postos a serviço de infraestruturas que não controlamos, para fins que não decidimos.
Defender a soberania tecnológica hoje é disputar nosso destino político: é recusar ser o backend de um império em decadência enquanto nos vendem a fantasia da inovação. É exigir que a Inteligência, antes de Artificial, seja nossa.
Durante décadas, sua produção abasteceu ambos os países com eletricidade renovável, garantindo ao Paraguai um excedente energético que era majoritariamente vendido ao Brasil. No entanto, com o vencimento dos dispositivos normativos do tratado em 2023 que previam a venda destes excedentes exclusivamente ao Brasil, abriu-se uma brecha explorável por atores externos. Numa declaração recente no Senado americano, o secretário de Estado Marco Rubio deu uma indicação do interesse em reconfigurar o uso desse recurso estratégico sob lógicas que favorecem cadeias digitais globais.
Rubio afirmou que o Paraguai seria uma escolha inteligente para a instalação de data-centers, dada a abundância energética que não pode ser simplesmente armazenada e exportada. O objetivo parece claro: usar o Paraguai como base energética para a infraestrutura de Inteligência Artificial da potência norte-americana, transformando seu excedente energético em insumo para um modelo de dependência tecnológica.
Na prática, Rubio é coerente com a agenda do Meta-Trumpismo da Casa Branca: inserir o Sul Global, e a América Latina, na cadeia produtiva como subordinados ao Norte, impondo autoridade sobre o que nossos vizinhos consideram seu quintal.
Para manter servidores operando 24 horas por dia de forma estável, datacenters demandam quantidade colossal de energia. Com seu avanço exponencial, especialmente no uso de modelos de linguagem e sistemas de visão computacional, a Inteligência Artificial tem transformado os datacenters em verdadeiros complexos industriais e, com isso, a demanda energética dessas estruturas tem se tornado ainda mais crítica.
Empresas como Google, Amazon e Microsoft já reportaram que seus maiores gargalos operacionais para expansão de IA estão justamente na escassez de energia disponível para manter suas operações. Mais do que isso, datacenters também consomem enormes volumes de água para resfriamento, um recurso frequentemente invisibilizado nos cálculos de custo e de impacto ambiental.
Nos Estados Unidos, já há registros de cidades pequenas sendo afetadas por esse modelo: em The Dalles, no estado do Oregon, o Google consumiu em um único ano o equivalente a um quarto do abastecimento total da cidade. No Arizona e em partes da Virgínia, comunidades locais já enfrentam riscos concretos de escassez hídrica, agravados pelo consumo massivo de água necessário para resfriar esses centros. A instalação acelerada dessas infraestruturas, sem transparência ou regulação adequada, tem pressionado aquíferos, comprometido o abastecimento municipal e despertado reações legislativas em defesa da soberania sobre os recursos hídricos.
O excedente limpo e barato da Itaipu, assim, tornou-se alvo natural para uma nova forma de exploração: não apenas energética, mas também hídrica e territorial. Em vez de impulsionar a industrialização local ou atender às necessidades sociais da população, essa energia passaria a sustentar infraestruturas digitais controladas por corporações estrangeiras.
É isso o que já tem acontecido com o Brasil, que optou pelo clientelismo e gastou cerca de R$ 23 bilhões com soluções de TI, como indicado no estudo que realizamos em parceria com a USP e a UnB, ao invés de desenvolver sua própria infraestrutura tecnológica soberana. Com este valor, por exemplo, poderíamos ter construído pelo menos 86 datacenters brasileiros de tier 3.
Datacenters importados não serviriam aos interesses do Brasil, do Paraguai, da América Latina, muito menos do Sul Global como um todo. Tratam-se de corporações sediadas no Norte Global, que operam sob lógicas de extração e acumulação que garantem que tanto os lucros quanto o controle sobre os dados migrem para fora. Fica claro que o atual governo americano visa apropriar-se de nossos recursos para dar continuidade ao seu projeto de domínio digital, sustentado por infraestrutura alheia, energia barata e soberanias enfraquecidas.
E enquanto isso, a infraestrutura permanece aqui: consome nossa energia, ocupa nosso território e impõe custos ambientais, sem garantir sequer o acesso equitativo aos produtos que ajudamos a construir.
Esse é um dos perigos do Plano Redata, do ministro da Fazenda Fernando Haddad. Embora apresente-se como um esforço para reindustrializar o país por meio da digitalização e da economia verde, o programa carece de salvaguardas robustas contra a captura da infraestrutura pública por interesses do governo Trump e seus aliados.
A retórica de sustentabilidade, centrada na linguagem ESG e na valorização da energia limpa como vantagem comparativa, acaba servindo de justificativa para atrair datacenters estrangeiros que exploram essa energia renovável sem contrapartidas reais em soberania digital ou desenvolvimento local.
Ao priorizar a atração de datacenters e megainvestimentos tecnológicos com base na disponibilidade de energia verde, mas sem condicionar sua instalação à soberania sobre os dados, à propriedade do conhecimento gerado e ao controle dos recursos energéticos utilizados, o plano em verdade institucionaliza a subordinação do Brasil dentro da cadeia global da Inteligência Artificial.
Na prática, isso significa reforçar o tripé da colonização contemporânea: fornecemos o território para instalação da infraestrutura, a energia, limpa e barata, e os dados produzidos por nossa população, enquanto o Norte Global detém os algoritmos, os lucros e a governança. Nesse meio tempo, os esforços por regulamentação seguem presentes, mas com pouco retorno.
Nesse marco, é importante destacar que a própria governança da internet brasileira vem sendo alvo de ataques recorrentes: a FrenCyber (Frente Parlamentar de Apoio à Cibersegurança e à Defesa Cibernética), criada sob influência direta de setores militarizados e think tanks alinhados a Washington, atua como ponta de lança para reverter os princípios democráticos que estruturam a arquitetura digital brasileira.
Ao mesmo tempo, o Projeto de Lei 4557/2023, que visa transferir a supervisão do Comitê Gestor da Internet (CGI.br) para a Anatel representa um claro movimento de desmonte institucional. O CGI.br, referência internacional em governança multissetorial e civil da internet, passaria a ser subordinado a uma agência reguladora tradicional, tecnocrática e vulnerável a pressões políticas das Big Techs. Isso abriria espaço para o avanço de interesses corporativos transnacionais e enfraqueceria drasticamente a capacidade da sociedade civil de influenciar os rumos da política digital nacional.
Se implementado com sucesso, o plano de Washington marcará uma ruptura profunda na história de Itaipu e no próprio sentido da integração regional sul-americana. O que antes foi símbolo de solidariedade energética e cooperação soberana entre Brasil e Paraguai corre o risco de ser ressignificado como ativo estratégico a ser instrumentalizado por potências externas.
Em vez de aprofundar a cooperação Sul-Sul em torno da transição energética, da soberania tecnológica e do desenvolvimento compartilhado, essa nova etapa no plano civilizatório do Meta-Trumpismo expõe os países da região, para além do Brasil, a pressões que reeditam formas clássicas de subordinação, agora revestidas pela linguagem da inovação e da sustentabilidade.
A usina que nasceu de um tratado entre vizinhos será apropriada como ferramenta para a consolidação de infraestruturas tecnológicas coloniais, nas quais o Sul Global cumpre a função de fornecedor passivo de insumos estratégicos: sem decidir, sem comandar, sem se beneficiar.
Defender Itaipu hoje é defender o direito do Sul Global de existir como sujeito político diante de uma nova ordem digital que o quer, novamente, como periferia. E o predadorismo do Meta-Trumpismo se revela justamente na capacidade de articular política externa, capital privado e retórica tecnológica para reconfigurar a região como uma extensão funcional da infraestrutura digital norte-americana. Trata-se de uma forma de intervenção sem tanques nem tropas, mas com cabos, servidores e algoritmos. Uma reconversão da dependência, onde o domínio se faz pelo controle da base material da computação.
Se não enfrentarmos essa reconfiguração com coragem política, lucidez estratégica e compromisso regional, aceitaremos, sem resistência, sermos redesenhados como colônia digital da era da Inteligência Artificial, com nosso território, nossa energia e nossa cognição postos a serviço de infraestruturas que não controlamos, para fins que não decidimos.
Defender a soberania tecnológica hoje é disputar nosso destino político: é recusar ser o backend de um império em decadência enquanto nos vendem a fantasia da inovação. É exigir que a Inteligência, antes de Artificial, seja nossa.
A direita torce por Trump para que possa voltar ao poder
O meteoro já bateu por aqui e ainda não nos demos conta? Ou ele ainda não chegou, mas está próximo? Só quem sabe é Donald Trump, o agente que disparou o meteoro em nossa direção.
Dudu Bolsonaro, o embaixador do Brasil para efeitos de destruição, a serviço do seu pai, talvez saiba também, mas não conta. No seu caso, confessadamente ele torce pelo pior.
Não somente ele. Por mais que seus negócios possam ser prejudicados, a direita torce sem disfarce para que o meteoro trumpista atinja o Brasil em cheio e enfraqueça o governo Lula.
Em todos os seus tons de cinza, a direita compartilha o mesmo propósito de Trump: promover o realinhamento ideológico do Brasil aos Estados Unidos. Daí seu apoio ao ataque americano.
O apoio manifesta-se de várias formas. Pelo silêncio, por exemplo. Nomes destacados da direita (alô, alô, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Junior) não esperneiam contra o tarifaço.
Manifesta-se pela cumplicidade com os Bolsonaro. Não os culpam pelo que Trump faz com o Brasil. Não é sobre taxação. É sobre a tentativa de intervenção estrangeira em nossos assuntos internos.
É sobre Trump vincular o tarifaço ao julgamento de Bolsonaro e dos demais golpistas de 2022 e de 2023. Vinculação infame que, se aceita, poria um fim à soberania do Brasil.
A direita alia-se a Trump quando responsabiliza o governo pelo que acontece, quando acusa o governo de não negociar, quando sugere que Lula bata às portas da Casa Branca e peça arrego.
Certamente para Lula ser humilhado como já foram os chefes de Estado da Ucrânia, do Canadá e da África do Sul. Outro dia, a Europa rendeu-se a Trump enquanto ele jogava golfe na Irlanda.
Bolsonaro diz sentir-se humilhado por usar tornozeleira e estar preso em casa. A humilhação maior foi suplicar o apoio do então presidente Joe Biden para derrotar Lula, mas isso ele não diz.
Que venha o meteoro, se é que não veio. Que venham as próximas sanções de Trump. O Brasil é grande demais, é rico demais para ser abatido. E não tem vocação para protetorado.
Dudu Bolsonaro, o embaixador do Brasil para efeitos de destruição, a serviço do seu pai, talvez saiba também, mas não conta. No seu caso, confessadamente ele torce pelo pior.
Não somente ele. Por mais que seus negócios possam ser prejudicados, a direita torce sem disfarce para que o meteoro trumpista atinja o Brasil em cheio e enfraqueça o governo Lula.
Em todos os seus tons de cinza, a direita compartilha o mesmo propósito de Trump: promover o realinhamento ideológico do Brasil aos Estados Unidos. Daí seu apoio ao ataque americano.
O apoio manifesta-se de várias formas. Pelo silêncio, por exemplo. Nomes destacados da direita (alô, alô, Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Junior) não esperneiam contra o tarifaço.
Manifesta-se pela cumplicidade com os Bolsonaro. Não os culpam pelo que Trump faz com o Brasil. Não é sobre taxação. É sobre a tentativa de intervenção estrangeira em nossos assuntos internos.
É sobre Trump vincular o tarifaço ao julgamento de Bolsonaro e dos demais golpistas de 2022 e de 2023. Vinculação infame que, se aceita, poria um fim à soberania do Brasil.
A direita alia-se a Trump quando responsabiliza o governo pelo que acontece, quando acusa o governo de não negociar, quando sugere que Lula bata às portas da Casa Branca e peça arrego.
Certamente para Lula ser humilhado como já foram os chefes de Estado da Ucrânia, do Canadá e da África do Sul. Outro dia, a Europa rendeu-se a Trump enquanto ele jogava golfe na Irlanda.
Bolsonaro diz sentir-se humilhado por usar tornozeleira e estar preso em casa. A humilhação maior foi suplicar o apoio do então presidente Joe Biden para derrotar Lula, mas isso ele não diz.
Que venha o meteoro, se é que não veio. Que venham as próximas sanções de Trump. O Brasil é grande demais, é rico demais para ser abatido. E não tem vocação para protetorado.
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
'Sim, ele é um f.d.p., mas é o nosso f.d.p.'
Uma frase atribuída ao presidente americano Franklin Roosevelt nos anos 1940 sobre o ditador nicaraguense Anastasio Somoza tornou-se um clássico da realpolitik: "Claro, ele é um f.d.p. Mas é o nosso f.d.p.". Ela resume o apoio dos EUA a ditadores estrangeiros, no poder à custa de fraudar eleições, calar a Justiça, prender, torturar e matar opositores e violar direitos humanos em nome da "liberdade". Sim, a ex-URSS e seus satélites também praticavam esses crimes, de que eram com justiça acusados pelo bloco democrático. Mas este fazia vista grossa à legião de iguais fs.d.p. acobertados pelos presidentes americanos. Exemplos.
Idi Amin Dada, de Uganda. Hugo Banzer, da Bolívia. Ngo Dihn Diem, do Vietnã. François Duvalier, do Haiti. Ferdinand Marcos, das Filipinas. Mobutu, do Zaire. General Manuel Noriega, do Panamá. O xá Reza Pahlevi, do Irã. George Papadopoulos, da Grécia. General Pinochet, do Chile. Pol Pot, do Camboja. Halie Selassié, da Etiópia. Oliveira Salazar, de Portugal. Generalíssimo Franco, da Espanha. Somoza Jr., da Nicarágua. Ian Smith, da Rodésia. Alfredo Stroessner, do Paraguai. General Suharto, da Indonésia. Rafael Trujillo, da República Dominicana. General Jorge Rafael Videla, da Argentina. Todos sanguinários. Nenhum deles levou uma Lei Magnitsky.
Muitos tomaram o poder na esteira de ações da CIA à base de espionagem, desestabilização do poder constituído, fomento de greves e passeatas e farta verba para propaganda. No Brasil, em 1964, isso se deu por meio do infame Ipês, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, financiado pelos americanos. Naturalmente, todos os generais que se seguiram em Brasília tiveram as bênçãos dos EUA.
Donald Trump deve se lembrar da frase de Roosevelt quando lhe falam de Bolsonaro. Para salvar Bolsonaro da cana e tê-lo de volta, tenta desestabilizar o Brasil, dando ordens a nossas autoridades como se fosse um bedel e abalando a economia do país.
O engraçado é que Bolsonaro também deve se lembrar da frase de Roosevelt quando pensa em Trump.
Idi Amin Dada, de Uganda. Hugo Banzer, da Bolívia. Ngo Dihn Diem, do Vietnã. François Duvalier, do Haiti. Ferdinand Marcos, das Filipinas. Mobutu, do Zaire. General Manuel Noriega, do Panamá. O xá Reza Pahlevi, do Irã. George Papadopoulos, da Grécia. General Pinochet, do Chile. Pol Pot, do Camboja. Halie Selassié, da Etiópia. Oliveira Salazar, de Portugal. Generalíssimo Franco, da Espanha. Somoza Jr., da Nicarágua. Ian Smith, da Rodésia. Alfredo Stroessner, do Paraguai. General Suharto, da Indonésia. Rafael Trujillo, da República Dominicana. General Jorge Rafael Videla, da Argentina. Todos sanguinários. Nenhum deles levou uma Lei Magnitsky.
Muitos tomaram o poder na esteira de ações da CIA à base de espionagem, desestabilização do poder constituído, fomento de greves e passeatas e farta verba para propaganda. No Brasil, em 1964, isso se deu por meio do infame Ipês, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, financiado pelos americanos. Naturalmente, todos os generais que se seguiram em Brasília tiveram as bênçãos dos EUA.
Donald Trump deve se lembrar da frase de Roosevelt quando lhe falam de Bolsonaro. Para salvar Bolsonaro da cana e tê-lo de volta, tenta desestabilizar o Brasil, dando ordens a nossas autoridades como se fosse um bedel e abalando a economia do país.
O engraçado é que Bolsonaro também deve se lembrar da frase de Roosevelt quando pensa em Trump.
Como a linguagem está escondendo a verdadeira internet de você
A maior parte da atividade na internet concentra-se em um pequeno número de grandes plataformas e, a partir de nossas perspectivas linguisticamente isoladas, é fácil presumir que todos as utilizam de maneiras semelhantes. Mas por que isso seria verdade? Afinal, esperamos que a música, a literatura e a culinária variem entre as culturas, então por que não a internet?
Em um artigo a ser publicado, nossa equipe da Iniciativa para Infraestrutura Pública Digital da Universidade de Massachusetts Amherst revelou diferenças gritantes na forma como diferentes culturas utilizam a internet. Com mais pesquisas, isso pode remodelar a forma como pensamos sobre os serviços que dominam a web. Estamos apenas começando a entender as implicações.
Podemos estar presenciando um tipo diferente de economia da atenção, menos voltada para o alcance em massa e mais para um engajamento pequeno e significativo. Pode ser um sinal de algo mais íntimo e talvez até mais humano.
A história da internet oferece alguns exemplos. Veja a plataforma russa de mídia social/blog LiveJournal . Quando era popular, em meados dos anos 2000, os usuários de língua inglesa a conheciam como um espaço para jovens compartilharem seus sentimentos ou se aprofundarem em Harry Potter. Mas, se você fala russo, provavelmente conhece o LiveJournal de uma forma muito diferente – como um importante site de intelectualismo público e discurso político , desempenhando um papel raro em acolher vozes da oposição.
Com as maiores empresas de tecnologia sediadas nos EUA, surgiu um ponto cego cultural em que frequentemente presumimos que a internet em inglês representa o resto do mundo. Pesquisas sobre o YouTube, em particular, têm um viés significativo para o inglês – geralmente escritas em inglês, publicadas em países de língua inglesa e focadas em vídeos em inglês.
As principais plataformas da internet são mais difíceis de estudar do que você imagina. Computadores podem processar texto rapidamente, mas vídeos são mais difíceis de analisar em larga escala. Plataformas como o YouTube, o serviço de vídeo mais popular do mundo, não oferecem ferramentas para criar as grandes amostras representativas necessárias para entender a plataforma como um todo, ou grandes áreas dela, como comunidades linguísticas.
Como resultado, o YouTube é frequentemente compreendido pela ponta do iceberg, facilmente acessível: seus vídeos mais populares. Entre o viés da linguagem e esse viés da popularidade, quando usuários, criadores, acadêmicos, educadores, pais, professores e até mesmo formuladores de políticas falam sobre plataformas como o YouTube, normalmente estamos falando apenas da parte que nos é mais visível – uma pequena parte não representativa dela. (Para mais informações, leia a história de Thomas Germain sobre o mundo oculto sob as sombras do algoritmo do YouTube .)
Então, como você estuda o que está por baixo da superfície? Há alguns anos, descobrimos uma maneira de fazer o que as ferramentas do YouTube não conseguiam: adivinhamos aleatoriamente as URLs dos vídeos – mais de 18 trilhões de vezes – até termos vídeos suficientes para pintar um quadro do que realmente está acontecendo no YouTube .
O que reunimos foi uma primeira olhada no funcionamento interno de um dos sites mais influentes do planeta. Com uma amostra representativa suficientemente grande, pudemos começar a fazer comparações mais amplas. Como os vídeos publicados em 2019 se comparam aos vídeos publicados em 2021? Vídeos de animais recebem mais comentários do que vídeos de esportes? Que tipo de coisas podemos ver quando comparamos vídeos populares com aqueles com apenas algumas visualizações ?
Acima de tudo, queríamos explorar as diferenças linguísticas: como a língua e a cultura moldam a participação online em escala global.
Assim, em 2024, examinamos amostras específicas de idiomas do YouTube em inglês, hindi, russo e espanhol, trabalhando com falantes nativos para validar nossas ferramentas de detecção de idiomas. Nosso objetivo era ter uma visão geral do YouTube em cada idioma para buscar padrões gerais. Tivemos que reconhecer que o YouTube pode ser tão simples quanto muitas pessoas supõem: mais ou menos o mesmo em todos os idiomas. Mas não foi isso que descobrimos.
Cada idioma varia em múltiplas dimensões, mas um aspecto da plataforma se destacou. Em suma, o YouTube em hindi é radicalmente diferente de seus similares.
Parece que os usuários de hindi estão se relacionando uns com os outros com ritmos e dinâmicas que não vimos em nenhum outro bloco e, enterrados nos números, podemos ver a história de um grande conflito geopolítico.
Vamos começar com o crescimento. O gráfico abaixo mostra quanto de cada idioma foi carregado por ano entre 2014 e 2023. Todos os quatro estão crescendo rapidamente, mas mais da metade de todos os vídeos em hindi do YouTube foram carregados somente em 2023.
E tem a duração. Os vídeos em espanhol são um pouco mais longos que os demais, com uma média de cerca de dois minutos e meio. O inglês não fica muito atrás, com quase dois minutos, e o russo, com um minuto e 38 segundos. Mas a média dos vídeos em hindi no YouTube tem apenas 29 segundos de duração.
Esses detalhes podem parecer peculiaridades interessantes, mas, na verdade, refletem a história da internet na Índia. O TikTok era incrivelmente popular na Índia, muito antes de o aplicativo explodir nos EUA e na Europa, mas tudo mudou depois que a Índia baniu o aplicativo em meio a conflitos na fronteira com a China em 2020. Da noite para o dia, centenas de milhões de usuários ficaram sem acesso a seus vídeos, comentários, negócios e autoexpressão.
O YouTube correu para preencher a lacuna, tornando a Índia o primeiro mercado para o YouTube Shorts , um recurso que a empresa criou para destacar o formato de vídeo vertical curto que tornou o TikTok famoso. Parece ter sido um sucesso. Mais da metade do YouTube em hindi – 58% – é composto por Shorts, em comparação com apenas 25% a 31% nos outros idiomas. Em muitos países, o Shorts é apenas um clone do TikTok, mas se tornou um ecossistema muito maior na Índia.
A influência do TikTok e dos Shorts também se manifesta de outras maneiras. O próximo gráfico se concentra em vídeos com 30 segundos ou menos, mostrando qual parte dos vídeos em cada idioma tem duração de um segundo, dois segundos, etc. Há um pico em todos os idiomas (embora particularmente extremo em hindi) com 15 segundos, duração padrão do TikTok, adotada posteriormente como padrão para os Shorts.
Termos como "duração média por idioma" podem parecer secos, mas aqui eles sugerem uma mudança radical na maneira como as pessoas usam vídeos em muitas partes do mundo.
Em seguida, encontramos uma diferença significativa na forma como as pessoas descrevem seus próprios vídeos. O YouTube pede que as pessoas categorizem seus vídeos. A maioria dos usuários não se preocupa em alterar o padrão, Pessoas e Blogs. Mas quando excluímos isso, as diferenças entre os idiomas ficaram ainda mais nítidas.
Em russo, os vídeos de jogos dominam. É a categoria mais popular também em inglês e espanhol. Mas em hindi, Entretenimento e Educação estão no topo. E, apesar de toda a atenção que o conteúdo político em inglês recebe no discurso popular, o inglês tem o menor número de vídeos na categoria "Notícias e Política".
Esses rótulos de categoria são mais do que metadados. Eles representam uma análise de como diferentes culturas usam a plataforma para diferentes propósitos. O que estamos vendo são internets paralelas moldadas por necessidades, expectativas e normas locais. Mas esses dados sugerem algo diferente: pessoas em diferentes comunidades linguísticas não estão apenas criando vídeos diferentes e interagindo com eles de forma diferente; elas podem estar usando o YouTube por motivos completamente diferentes.
Por fim, analisamos as métricas de popularidade – visualizações, curtidas e comentários – e, mais uma vez, o YouTube em hindi se destacou. Demonstrou extrema desigualdade. Apenas 0,1% dos vídeos em hindi representaram 79% das visualizações (os outros idiomas variaram de 54% a 59%). Mas há uma reviravolta interessante. Esses vídeos menos populares tiveram uma probabilidade muito maior de receber curtidas.
Isso sugere algo mais profundo. No YouTube em hindi, até mesmo os vídeos que não estão sendo vistos estão sendo apreciados e reconhecidos. Nossa nova pesquisa sugere que o YouTube na Índia pode ser frequentemente usado como um serviço de mensagens de vídeo para conversar com amigos e familiares, com vídeos públicos frequentemente destinados a um público privado.
Acreditamos que algumas dessas diferenças podem ser explicadas pela forma como a internet foi adotada na Índia e pela herança do TikTok no país. Isso pode ser um tipo diferente de economia da atenção, menos voltada para o alcance em massa e mais para um engajamento pequeno e significativo. Pode ser um sinal de algo mais íntimo e talvez até mais humano.
Ainda temos muito trabalho a fazer e muitos vídeos para assistir antes de podermos fazer essas afirmações de forma definitiva. Mas o que já está claro é que a linguagem não molda apenas a sua visão da vida digital – ela pode obscurecer as maneiras diversas e culturalmente específicas como as pessoas usam essas plataformas. Estamos construindo negócios, jornalismo e regulamentação com base em uma visão artificialmente limitada da internet, muitas vezes filtrada pelo inglês, popularidade e conveniência.
É hora de olharmos mais profundamente.
Ryan McGrady
A fuga à realidade
The whole problema with the world is that fools and fanatics are so certain
of themselves and wiser people so full of doubts.
Bertrand Russell
O hábito de fugir à realidade torna-se particularmente perigoso em chefes políticos como Hitler, Estaline ou Putine, cuja alienação pode tornar-se a causa de grandes catástrofes. Nunca esqueço os oficiais alemães que chefiavam dantescos campos de extermínio, mas, à noite, eram carinhosos maridos e pais de família e ouviam, com deleite, a mais refinada música clássica. As cartas de Himmler à mulher são cartas de um marido modelarmente carinhoso. Estes homens encontravam, na noite doméstica, uma fuga à horrenda realidade do dia. Putine, ex-funcionário superior dessa fábrica de assassinatos sem julgamento que foi a KGB, deve ter tido, como o Mr. Kutz da novela de Conrad, Heart of Darkness - que Coppola transportou para o cinema, colocando-a no Vietnam – que refugiar-se fora da realidade, para sobreviver. Esse “fora da realidade” é onde ele continua a residir, para grande risco de ucranianos, de russos e de europeus em geral.
Viver com certezas fortes é, repito, um dos maiores perigos para a continuação da vida na terra. Deixo aqui, para terminar esta pérola de saúde mental: “Ensinar como viver sem certezas e, contudo, sem nos deixarmos paralisar por hesitações, é talvez o essencial que a filosofia da nossa época pode fazer pelos que a estudam. Bertrand Russell."
Eugénio Lisboa
Lítio, terras raras e cobre: o que os EUA querem do Brasil?
Na última semana de julho, uma nova movimentação reposicionou o Brasil no tabuleiro da geopolítica dos minerais estratégicos. Segundo reportagens publicadas pela imprensa brasileira, os Estados Unidos manifestaram oficialmente interesse em garantir acesso aos minerais estratégicos brasileiros, em especial lítio, terras raras e cobre.
No dia 24 de julho, foi divulgado que o encarregado de negócios e embaixador interino dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, reuniu-se com representantes do setor mineral (IBRAM) e sinalizou esse interesse. A movimentação ganhou ainda mais peso com declarações recentes do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao indicar que os minerais estratégicos poderão ser incluídos nas negociações com os Estados Unidos, em contraste com a fala do presidente Lula dias antes ao afirmar que “ninguém põe a mão” nos recursos minerais estratégicos do Brasil.
Quase simultaneamente, a Agência Nacional de Mineração (ANM) instituiu uma divisão específica para minerais críticos e estratégicos, sinalizando uma tentativa de reposicionamento institucional do Brasil frente à crescente pressão geopolítica.
Nada disso surpreende quem acompanha a geopolítica da transição energética. Em 2024 já se discutia um possível acordo para que o Brasil atuasse como fornecedor de minerais críticos para os EUA. Já havia alertado, em textos anteriores, que a volta de Trump ao poder implicaria a retomada da política de reindustrialização e da aposta em combustíveis fósseis, reeditada pelo plano Drill, baby, Drill abraçado pelas grandes petrolíferas. A reversão de iniciativas para energia limpa e mobilidade elétrica provocou oscilações nos mercados de commodities, mas não freou o crescimento da demanda por minerais estratégicos. Lítio, cobre, níquel e terras raras seguem no centro das tecnologias e da transição energética.
No caso brasileiro, o interesse norte-americano encontra um terreno já ocupado. A maior parte dos projetos das mineradoras atuantes no setor de lítio, terras raras e cobre no Brasil, seja em fase de prospecção ou de exploração, está sob controle de empresas estrangeiras. Embora o país detenha recursos expressivos, a cadeia de decisão sobre como e para onde esses recursos são direcionados muitas vezes escapa ao controle nacional. O movimento dos Estados Unidos busca justamente reordenar essa equação: disputar influência direta sobre fluxos que hoje favorecem, sobretudo, a China.
A presença de grandes mineradoras norte-americanas na América do Sul não é nova, tampouco sua influência direta. Como destaquei em artigo anterior sobre a história do lítio no Brasil, a pressão exercida pelos Estados Unidos já se fazia presente na década de 1990 sobre a Companhia Brasileira de Lítio, que conseguiu contornar barreiras intervencionistas graças ao Decreto nº 2.413, de 1997 (revogado em 2022). Ou seja, foi uma política de Estado que garantiu avanços nacionais na indústria de sais de lítio. Não há, portanto, grande novidade nesse interesse estratégico norte-americano por nossos recursos.
A América do Sul concentra cerca de 38% das reservas globais de cobre e aproximadamente 58% das de lítio. O Brasil aparece em segundo lugar mundial em recursos de terras raras, com 21 milhões de toneladas em equivalente de óxidos, segundo o relatório Mineral Commodity Summaries 2025, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, ficando atrás apenas da China. Parte desses recursos ainda não está em condições de exploração imediata, mas seu potencial é reconhecido por governos e investidores.
Para dimensionar o interesse nos recursos sul americanos, basta olhar para empresas como Newmont, Freeport-McMoRan, Albemarle e Alcoa. Elas mantêm investimentos estratégicos na região, especialmente no Chile. A Freeport‑McMoRan, por exemplo, anunciou em 2024 um plano de US$ 7,5 bilhões para expandir a mina El Abra, que fornece cobre para o mercado global.
Em 22 de julho, a Bloomberg noticiou que a Aclara Resources, mineradora negociada na bolsa de Toronto, está em tratativas com agências do governo dos EUA para buscar financiamento de um plano de 1,5 bilhão de dólares. O projeto prevê a extração de terras raras na América Latina, incluindo o Brasil, com o objetivo de refinar e processar os materiais em território norte-americano.
A ofensiva recente dos EUA sobre o Brasil está longe de ser pontual. Em maio deste ano, o governo norte-americano firmou um acordo com a Ucrânia para garantir acesso às suas terras raras. O movimento se intensificou com Trump, mas já estava presente no governo Biden. Para Washington, os recursos minerais da região (que eles veem como quintal) passam a integrar uma estratégia geopolítica mais ampla, sobretudo em países com acordos de livre comércio vigentes, caso do México, por exemplo.
Enquanto os Estados Unidos impõem tarifas e fazem pressão, a China continua a ocupar a dianteira industrial. Refina 40% do cobre, 59% do lítio e 73% do cobalto mundial, além de dominar a produção de cátodos, peça central das células de bateria. Outros países têm buscado caminhos distintos. O Zimbábue, maior produtor de lítio da África, pretende proibir a partir de 2027 a exportação de minério bruto e passou a exigir que as empresas invistam no processamento local do mineral.
Portanto, o que está em jogo não é apenas a titularidade das jazidas, mas o controle sobre cadeias produtivas e rotas comerciais que definirão os rumos da economia nas próximas décadas. A corrida por minerais estratégicos já estava em andamento. O que os últimos movimentos revelam é a escalada de pressões diplomáticas e financeiras para garantir acesso preferencial aos recursos, em especial em territórios onde os marcos regulatórios ainda estão em definição. O caso brasileiro é emblemático. O governo federal se prepara para divulgar sua política para os minerais estratégicos, enquanto o setor privado já negocia diretamente com potências interessadas.
Diante desse momento decisivo que exige posicionamento, é preciso lembrar que a soberania mineral envolve controle sobre o processamento, o destino das exportações e a capacidade de decidir prioridades nacionais. Neste sentido, o que os EUA querem do Brasil talvez seja menos importante do que o que o Brasil quer, e pode, construir para si.
Elaine Santos
No dia 24 de julho, foi divulgado que o encarregado de negócios e embaixador interino dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, reuniu-se com representantes do setor mineral (IBRAM) e sinalizou esse interesse. A movimentação ganhou ainda mais peso com declarações recentes do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao indicar que os minerais estratégicos poderão ser incluídos nas negociações com os Estados Unidos, em contraste com a fala do presidente Lula dias antes ao afirmar que “ninguém põe a mão” nos recursos minerais estratégicos do Brasil.
Quase simultaneamente, a Agência Nacional de Mineração (ANM) instituiu uma divisão específica para minerais críticos e estratégicos, sinalizando uma tentativa de reposicionamento institucional do Brasil frente à crescente pressão geopolítica.
Nada disso surpreende quem acompanha a geopolítica da transição energética. Em 2024 já se discutia um possível acordo para que o Brasil atuasse como fornecedor de minerais críticos para os EUA. Já havia alertado, em textos anteriores, que a volta de Trump ao poder implicaria a retomada da política de reindustrialização e da aposta em combustíveis fósseis, reeditada pelo plano Drill, baby, Drill abraçado pelas grandes petrolíferas. A reversão de iniciativas para energia limpa e mobilidade elétrica provocou oscilações nos mercados de commodities, mas não freou o crescimento da demanda por minerais estratégicos. Lítio, cobre, níquel e terras raras seguem no centro das tecnologias e da transição energética.
No caso brasileiro, o interesse norte-americano encontra um terreno já ocupado. A maior parte dos projetos das mineradoras atuantes no setor de lítio, terras raras e cobre no Brasil, seja em fase de prospecção ou de exploração, está sob controle de empresas estrangeiras. Embora o país detenha recursos expressivos, a cadeia de decisão sobre como e para onde esses recursos são direcionados muitas vezes escapa ao controle nacional. O movimento dos Estados Unidos busca justamente reordenar essa equação: disputar influência direta sobre fluxos que hoje favorecem, sobretudo, a China.
A presença de grandes mineradoras norte-americanas na América do Sul não é nova, tampouco sua influência direta. Como destaquei em artigo anterior sobre a história do lítio no Brasil, a pressão exercida pelos Estados Unidos já se fazia presente na década de 1990 sobre a Companhia Brasileira de Lítio, que conseguiu contornar barreiras intervencionistas graças ao Decreto nº 2.413, de 1997 (revogado em 2022). Ou seja, foi uma política de Estado que garantiu avanços nacionais na indústria de sais de lítio. Não há, portanto, grande novidade nesse interesse estratégico norte-americano por nossos recursos.
A América do Sul concentra cerca de 38% das reservas globais de cobre e aproximadamente 58% das de lítio. O Brasil aparece em segundo lugar mundial em recursos de terras raras, com 21 milhões de toneladas em equivalente de óxidos, segundo o relatório Mineral Commodity Summaries 2025, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, ficando atrás apenas da China. Parte desses recursos ainda não está em condições de exploração imediata, mas seu potencial é reconhecido por governos e investidores.
Para dimensionar o interesse nos recursos sul americanos, basta olhar para empresas como Newmont, Freeport-McMoRan, Albemarle e Alcoa. Elas mantêm investimentos estratégicos na região, especialmente no Chile. A Freeport‑McMoRan, por exemplo, anunciou em 2024 um plano de US$ 7,5 bilhões para expandir a mina El Abra, que fornece cobre para o mercado global.
Em 22 de julho, a Bloomberg noticiou que a Aclara Resources, mineradora negociada na bolsa de Toronto, está em tratativas com agências do governo dos EUA para buscar financiamento de um plano de 1,5 bilhão de dólares. O projeto prevê a extração de terras raras na América Latina, incluindo o Brasil, com o objetivo de refinar e processar os materiais em território norte-americano.
A ofensiva recente dos EUA sobre o Brasil está longe de ser pontual. Em maio deste ano, o governo norte-americano firmou um acordo com a Ucrânia para garantir acesso às suas terras raras. O movimento se intensificou com Trump, mas já estava presente no governo Biden. Para Washington, os recursos minerais da região (que eles veem como quintal) passam a integrar uma estratégia geopolítica mais ampla, sobretudo em países com acordos de livre comércio vigentes, caso do México, por exemplo.
Enquanto os Estados Unidos impõem tarifas e fazem pressão, a China continua a ocupar a dianteira industrial. Refina 40% do cobre, 59% do lítio e 73% do cobalto mundial, além de dominar a produção de cátodos, peça central das células de bateria. Outros países têm buscado caminhos distintos. O Zimbábue, maior produtor de lítio da África, pretende proibir a partir de 2027 a exportação de minério bruto e passou a exigir que as empresas invistam no processamento local do mineral.
Portanto, o que está em jogo não é apenas a titularidade das jazidas, mas o controle sobre cadeias produtivas e rotas comerciais que definirão os rumos da economia nas próximas décadas. A corrida por minerais estratégicos já estava em andamento. O que os últimos movimentos revelam é a escalada de pressões diplomáticas e financeiras para garantir acesso preferencial aos recursos, em especial em territórios onde os marcos regulatórios ainda estão em definição. O caso brasileiro é emblemático. O governo federal se prepara para divulgar sua política para os minerais estratégicos, enquanto o setor privado já negocia diretamente com potências interessadas.
Diante desse momento decisivo que exige posicionamento, é preciso lembrar que a soberania mineral envolve controle sobre o processamento, o destino das exportações e a capacidade de decidir prioridades nacionais. Neste sentido, o que os EUA querem do Brasil talvez seja menos importante do que o que o Brasil quer, e pode, construir para si.
Elaine Santos
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