terça-feira, 24 de junho de 2025
A morte virou lugar-comum
Só se fala em morte, hoje em dia. Quantos morreram hoje na Síria? Só 130? Ontem foram 200. E na periferia de São Paulo, quantas chacinas? Só duas, com alguns feridos? Quando Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, ela não imaginava como a morte se tornou um fato corriqueiro no mundo atual, sem os trágicos acordes do Holocausto. Talvez haja nas matanças banais um desejo de desvendar o mistério da morte, bem lá no fundo do inconsciente.
Para além de vinganças, busca de poder ou dinheiro, ódio puro, prazer, há a vontade de ‘naturalizar’ a morte, de modo que ela deixe de ser a implacável ceifadora.
Tenho certeza de que os assassinos que passam de moto e metralham inocentes não têm consciência da gravidade de seus feitos – apenas mais um dia divertido de violências. Os filmes americanos buscam o tempo todo essa banalidade: tiros súbitos sem piedade, jorros de sangue ornamentais, a beleza fálica das superarmas automáticas. Nos brutos filmes de ação, nos videogames, nas notícias bombásticas de tragédias há um claro desejo de esquecer a morte, mostrando-a sem parar. Um desejo de matar a morte. Um desejo de entendê-la pela repetição compulsiva. Mas, nunca conseguiremos exorcizá-la, porque quando ela chega não estamos mais aqui. Gilberto Gil fez uma música genial sobre a morte, onde ele canta, numa toada fúnebre:
“A morte já é depois/ já não haverá ninguém/ como eu aqui agora/ pensando sobre o além. / Já não haverá o além/ o além já será então/ não terei pé nem cabeça/ nem fígado, nem pulmão/ como poderei ter medo/ se não terei coração?” É isso. Só se pode falar da morte pela ausência. Nós apenas saímos do ar. Desaparecemos.
Ela é tão banal que inventamos solenes rituais para dar-lhe consistência, religiões ou crenças materialistas para nos consolar: “O universo é a eternidade. Deus é o universo, a substância. Ele está nas galáxias e no orgasmo, nos buracos negros e no coração batendo…” “Grandes merdas” – penso hoje -, pois quando ela chega acaba a literatura. Aliás, falar sobre a morte também é um lugar-comum – mas agora, é tarde demais para mim -, tenho de ir em frente. Até o grande Guimarães Rosa caiu nessa: “Morremos para provar que vivemos”. O Nelson Rodrigues me perguntava sempre: “Pelo amor de Deus, me explica essa frase! E qual a profundidade de “Viver é muito perigoso?”
A morte só tem “antes”, não tem “depois” – no Ivan Ilitch, do Tolstoi, quando ela chega, acaba o conto. Ele diz no instante final: “A morte acabou”. Dizem que o Muhammad Atta, o terrorista que comandou o ataque às torres de NY, era ateu, mas queria conhecer aquele instante que separava o avião da torre erguida. A morte não está nem aí para nós; ela tem “vida própria”. A gente vai para um lado, o corpo para o outro. Ela nos ignora, nossos méritos, nossas obras. Mais um lugarzinho comum: “Só nos resta viver da melhor maneira possível até o fim. Tem mais é que curtir, gente boa…” Pois é; há muitos anos, pegou fogo no edifício Joelma em São Paulo, torrando dezenas de infelizes. Do prédio em frente, as teleobjetivas fotografaram todas as agonias. Até hoje, lembro-me da foto em cores de um homem de terno, pastinha 007, agachado numa janela do 20.º andar, com o fogo às costas. Seu rosto mostrava a dúvida: “O que é melhor para mim? Morrer queimado ou me jogar?” Ele curtiu até o fim – e se jogou.
O que me chateia é ficar desatualizado. As notícias vão rolar e eu nada saberei. Haverá crises mundiais, filmes que estreiam, músicas novas, e eu ficarei lá embaixo, sem saber das novidades. É insuportável a desinformação dos falecidos.
Meu avô me disse uma vez: “Acho triste morrer, seu Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Av. Rio Branco…” Isso me emocionou, pois ele ia diariamente ao centro da cidade, onde tomava um refresco de coco na Casa Simpatia. Por isso, quando me penso morto, eu, que não irei ao meu enterro, de que terei saudades? Ou melhor, que saudades teria se as pudesse ter?
Não terei saudades de grandes amores, de megashows da vida de hoje, excessiva e incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudades de irrelevâncias essenciais, terei saudades de algumas tardes nubladas de domingo que só o carioca percebe, tudo parado, com os urubus dormindo na perna do vento, como dizia o sempre presente Tom, do radinho do porteiro ouvindo o jogo, terei saudades do cafezinho nas beiras dos botequins, de certos tons de roxo e rosa em Ipanema antes da noite cair, saudades do cafajestismo poético dos cariocas, saudades dos raros instantes sem medo ou culpa, de alguns momentos de felicidade profunda, sem motivo, apenas pela gratidão de respirar. Não terei saudades dos fatos e notícias, nada do mundo febril; só a quietude, o silêncio entre amigos na paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários e camaradagem de subúrbio, do samba que nos envolve nas rodas pobres com a alegre sabedoria da desesperança, da Lapa, da Av. Paulista de noite, do jazz, pernas cruzadas de mulheres inatingíveis, terrenos baldios de minha infância, saudades da literatura, do prazer da arte, Fellini, Shakespeare, de Cantando na Chuva – o maior hino da alegria americana, saudades de Fred Astaire dançando Begin the Beguine com Eleanor Powell, felizes para sempre dentro do universo estrelado.
Há várias mortes. Há brutas tragédias, fomes e bombas, horrendos desastres, mas, na morte óbvia, comum, caseira, só temos duas escolhas: súbita ou lenta.
Você, frágil leitor, qual delas prefere? O rápido apagar do “abajur lilás” de um ataque cardíaco ou o lento esvair da vida, sumindo com morfina? Se eu pudesse escolher, queria morrer como o velho Zorba, o grego, em pé, na janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de despedida.
Para além de vinganças, busca de poder ou dinheiro, ódio puro, prazer, há a vontade de ‘naturalizar’ a morte, de modo que ela deixe de ser a implacável ceifadora.
Tenho certeza de que os assassinos que passam de moto e metralham inocentes não têm consciência da gravidade de seus feitos – apenas mais um dia divertido de violências. Os filmes americanos buscam o tempo todo essa banalidade: tiros súbitos sem piedade, jorros de sangue ornamentais, a beleza fálica das superarmas automáticas. Nos brutos filmes de ação, nos videogames, nas notícias bombásticas de tragédias há um claro desejo de esquecer a morte, mostrando-a sem parar. Um desejo de matar a morte. Um desejo de entendê-la pela repetição compulsiva. Mas, nunca conseguiremos exorcizá-la, porque quando ela chega não estamos mais aqui. Gilberto Gil fez uma música genial sobre a morte, onde ele canta, numa toada fúnebre:
“A morte já é depois/ já não haverá ninguém/ como eu aqui agora/ pensando sobre o além. / Já não haverá o além/ o além já será então/ não terei pé nem cabeça/ nem fígado, nem pulmão/ como poderei ter medo/ se não terei coração?” É isso. Só se pode falar da morte pela ausência. Nós apenas saímos do ar. Desaparecemos.
Ela é tão banal que inventamos solenes rituais para dar-lhe consistência, religiões ou crenças materialistas para nos consolar: “O universo é a eternidade. Deus é o universo, a substância. Ele está nas galáxias e no orgasmo, nos buracos negros e no coração batendo…” “Grandes merdas” – penso hoje -, pois quando ela chega acaba a literatura. Aliás, falar sobre a morte também é um lugar-comum – mas agora, é tarde demais para mim -, tenho de ir em frente. Até o grande Guimarães Rosa caiu nessa: “Morremos para provar que vivemos”. O Nelson Rodrigues me perguntava sempre: “Pelo amor de Deus, me explica essa frase! E qual a profundidade de “Viver é muito perigoso?”
A morte só tem “antes”, não tem “depois” – no Ivan Ilitch, do Tolstoi, quando ela chega, acaba o conto. Ele diz no instante final: “A morte acabou”. Dizem que o Muhammad Atta, o terrorista que comandou o ataque às torres de NY, era ateu, mas queria conhecer aquele instante que separava o avião da torre erguida. A morte não está nem aí para nós; ela tem “vida própria”. A gente vai para um lado, o corpo para o outro. Ela nos ignora, nossos méritos, nossas obras. Mais um lugarzinho comum: “Só nos resta viver da melhor maneira possível até o fim. Tem mais é que curtir, gente boa…” Pois é; há muitos anos, pegou fogo no edifício Joelma em São Paulo, torrando dezenas de infelizes. Do prédio em frente, as teleobjetivas fotografaram todas as agonias. Até hoje, lembro-me da foto em cores de um homem de terno, pastinha 007, agachado numa janela do 20.º andar, com o fogo às costas. Seu rosto mostrava a dúvida: “O que é melhor para mim? Morrer queimado ou me jogar?” Ele curtiu até o fim – e se jogou.
O que me chateia é ficar desatualizado. As notícias vão rolar e eu nada saberei. Haverá crises mundiais, filmes que estreiam, músicas novas, e eu ficarei lá embaixo, sem saber das novidades. É insuportável a desinformação dos falecidos.
Meu avô me disse uma vez: “Acho triste morrer, seu Arnaldinho, porque nunca mais vou ver a Av. Rio Branco…” Isso me emocionou, pois ele ia diariamente ao centro da cidade, onde tomava um refresco de coco na Casa Simpatia. Por isso, quando me penso morto, eu, que não irei ao meu enterro, de que terei saudades? Ou melhor, que saudades teria se as pudesse ter?
Não terei saudades de grandes amores, de megashows da vida de hoje, excessiva e incessante. Não. Debaixo da terra, terei saudades de irrelevâncias essenciais, terei saudades de algumas tardes nubladas de domingo que só o carioca percebe, tudo parado, com os urubus dormindo na perna do vento, como dizia o sempre presente Tom, do radinho do porteiro ouvindo o jogo, terei saudades do cafezinho nas beiras dos botequins, de certos tons de roxo e rosa em Ipanema antes da noite cair, saudades do cafajestismo poético dos cariocas, saudades dos raros instantes sem medo ou culpa, de alguns momentos de felicidade profunda, sem motivo, apenas pela gratidão de respirar. Não terei saudades dos fatos e notícias, nada do mundo febril; só a quietude, o silêncio entre amigos na paz de um bar, papos de cinéfilo, risos proletários e camaradagem de subúrbio, do samba que nos envolve nas rodas pobres com a alegre sabedoria da desesperança, da Lapa, da Av. Paulista de noite, do jazz, pernas cruzadas de mulheres inatingíveis, terrenos baldios de minha infância, saudades da literatura, do prazer da arte, Fellini, Shakespeare, de Cantando na Chuva – o maior hino da alegria americana, saudades de Fred Astaire dançando Begin the Beguine com Eleanor Powell, felizes para sempre dentro do universo estrelado.
Há várias mortes. Há brutas tragédias, fomes e bombas, horrendos desastres, mas, na morte óbvia, comum, caseira, só temos duas escolhas: súbita ou lenta.
Você, frágil leitor, qual delas prefere? O rápido apagar do “abajur lilás” de um ataque cardíaco ou o lento esvair da vida, sumindo com morfina? Se eu pudesse escolher, queria morrer como o velho Zorba, o grego, em pé, na janela, olhando a paisagem iluminada pelo sol da manhã. E, como ele, dando um berro de despedida.
Arnaldo Jabor
A fachada 'humanitária' de Gaza: uma manobra enganosa se desfaz
A decisão repercutiu como um choque para todos os lados. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, cuja estratégia de guerra gira em torno da fome dos palestinos em Gaza, decidiu unilateralmente , em 19 de maio, permitir a entrada "imediata" de alimentos na Faixa de Gaza, devastada pela fome.
É claro que Netanyahu ainda manobrou. Em vez de permitir a entrada de pelo menos 1.000 caminhões de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, completamente destruída e devastada, por dia, ele inicialmente permitiu apenas nove caminhões, número que aumentou nominalmente nos dias seguintes.
Até mesmo os fervorosos apoiadores de Netanyahu, que criticaram ferozmente a decisão, ficaram perplexos com ela. O entendimento prévio entre os parceiros de coalizão de Netanyahu em relação ao seu plano final para Gaza era inequivocamente claro : a ocupação total da Faixa e o deslocamento forçado de sua população.
Esta última foi articulada como uma questão de política explícita pelo Ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich. "Gaza será totalmente destruída, os civis serão enviados para... terceiros países", declarou ele em 6 de maio.
A entrada de alimentos em Gaza, por menor que seja sua quantidade, viola diretamente o entendimento estabelecido entre o governo e os militares, sob a liderança do aliado de Netanyahu, o Ministro da Defesa Israel Katz, e o Chefe do Gabinete Eyal Zamir.
Essas duas adições significativas ao gabinete de guerra de Netanyahu substituíram Yoav Gallant e Herzi Halevi. Com essas novas nomeações, Netanyahu se preparou para executar seu plano mestre.
Quando a guerra começou, em 7 de outubro de 2023, o líder israelense prometeu que assumiria o controle da Faixa de Gaza. Essa posição evoluiu, ou melhor, foi esclarecida, para significar ocupação permanente, embora sem os próprios palestinos.
Para atingir um objetivo tão elevado – elevado, dado o fracasso consistente de Israel em subjugar os palestinos ao longo de quase 600 dias – Netanyahu e seus homens elaboraram meticulosamente o plano "Carruagens de Gideão". A propaganda que acompanhou essa nova estratégia transcendeu toda a hasbara que acompanhava planos anteriores, incluindo o fracassado "Plano dos Generais" de outubro de 2024.
A lógica por trás dessa guerra psicológica é imprimir nos palestinos em Gaza a impressão indelével de que seu destino foi selado e que o futuro de Gaza só pode ser determinado pelo próprio Israel.
O plano, no entanto, uma releitura do que é historicamente conhecido como " Dedos de Sharon ", baseia-se fundamentalmente na seccionalização de Gaza em várias zonas distintas e na utilização de alimentos como uma ferramenta para deslocamento para esses campos e, finalmente, para fora de Gaza.
No entanto, por que Netanyahu concordaria em permitir o acesso a alimentos fora de seu plano sinistro? A razão por trás disso está profundamente relacionada à explosão de raiva global direcionada a Israel, particularmente de seus aliados mais fiéis: Grã-Bretanha, França, Canadá, Austrália, entre outros.
Ao contrário de Espanha, Noruega, Irlanda e outros países que criticaram duramente o genocídio israelense, algumas capitais ocidentais permaneceram comprometidas com Israel durante toda a guerra. Seu compromisso se manifestou em discursos políticos de apoio, culpando os palestinos e absolvendo Israel; em apoio militar irrestrito ; e em proteger Israel resolutamente da responsabilização legal e das consequências políticas no cenário global.
As coisas começaram a mudar quando o presidente dos EUA, Donald Trump, lentamente percebeu que a guerra de Netanyahu em Gaza estava destinada a se tornar uma guerra e ocupação permanentes, o que inevitavelmente se traduziria na desestabilização perpétua do Oriente Médio — dificilmente uma prioridade americana urgente no momento.
Relatórios vazados na grande mídia dos EUA, somados à notável falta de comunicação entre Trump e Netanyahu, entre outros indicadores, sugeriram fortemente que a divergência entre Washington e Tel Aviv não era uma mera manobra, mas uma genuína mudança de política.
Embora Washington tenha indicado que os "EUA não abandonaram Israel", a mensagem estava clara: a estratégia de longo prazo de Netanyahu e a estratégia atual dos EUA dificilmente convergem.
Apesar do formidável poder político do lobby pró-Israel nos EUA e de seu forte apoio em ambos os lados do Congresso, a posição de Trump foi fortalecida pelo fato de que alguns círculos pró-Israel , também de ambos os partidos políticos, estão totalmente cientes de que Netanyahu representa um perigo não apenas para os EUA, mas para o próprio Israel.
Uma série de ações decisivas tomadas por Trump acentuou ainda mais essa mudança, que recebeu surpreendentemente poucos protestos do elemento pró-Israel nos círculos de poder dos EUA: negociações contínuas com o Irã, a trégua com Ansarallah no Iêmen, negociações com o Hamas, etc.
Embora se abstendo de criticar abertamente Trump, Netanyahu intensificou seus assassinatos de palestinos, que morreram em números tragicamente grandes. Muitas das vítimas já estavam à beira da fome antes de serem impiedosamente explodidas por bombas israelenses.
Em 19 de maio, Grã-Bretanha, Canadá e França emitiram conjuntamente uma forte declaração ameaçando Israel com sanções. Essa linguagem pouco familiar foi rapidamente seguida por uma ação apenas um dia depois, quando a Grã-Bretanha suspendeu as negociações comerciais com Israel.
Netanyahu retaliou com linguagem furiosa, liberando sua raiva nas capitais ocidentais, que ele acusou de "oferecer um prêmio enorme pelo ataque genocida a Israel em 7 de outubro, ao mesmo tempo em que convidava a mais atrocidades semelhantes".
A decisão de permitir a entrada de alguns alimentos em Gaza, embora claramente insuficiente para evitar o agravamento da fome, foi concebida como uma distração, já que a máquina de guerra israelense continuava implacavelmente a ceifar as vidas de inúmeros palestinos diariamente.
Embora se comemorem as mudanças significativas na posição do Ocidente contra Israel, deve ficar bem claro que Netanyahu não tem interesse genuíno em abandonar seu plano de matar Gaza de fome e fazer limpeza étnica.
Embora qualquer ação agora não reverta totalmente o impacto do genocídio, ainda há dois milhões de vidas que podem ser salvas.
É claro que Netanyahu ainda manobrou. Em vez de permitir a entrada de pelo menos 1.000 caminhões de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, completamente destruída e devastada, por dia, ele inicialmente permitiu apenas nove caminhões, número que aumentou nominalmente nos dias seguintes.
Até mesmo os fervorosos apoiadores de Netanyahu, que criticaram ferozmente a decisão, ficaram perplexos com ela. O entendimento prévio entre os parceiros de coalizão de Netanyahu em relação ao seu plano final para Gaza era inequivocamente claro : a ocupação total da Faixa e o deslocamento forçado de sua população.
Esta última foi articulada como uma questão de política explícita pelo Ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich. "Gaza será totalmente destruída, os civis serão enviados para... terceiros países", declarou ele em 6 de maio.
A entrada de alimentos em Gaza, por menor que seja sua quantidade, viola diretamente o entendimento estabelecido entre o governo e os militares, sob a liderança do aliado de Netanyahu, o Ministro da Defesa Israel Katz, e o Chefe do Gabinete Eyal Zamir.
Essas duas adições significativas ao gabinete de guerra de Netanyahu substituíram Yoav Gallant e Herzi Halevi. Com essas novas nomeações, Netanyahu se preparou para executar seu plano mestre.
Quando a guerra começou, em 7 de outubro de 2023, o líder israelense prometeu que assumiria o controle da Faixa de Gaza. Essa posição evoluiu, ou melhor, foi esclarecida, para significar ocupação permanente, embora sem os próprios palestinos.
Para atingir um objetivo tão elevado – elevado, dado o fracasso consistente de Israel em subjugar os palestinos ao longo de quase 600 dias – Netanyahu e seus homens elaboraram meticulosamente o plano "Carruagens de Gideão". A propaganda que acompanhou essa nova estratégia transcendeu toda a hasbara que acompanhava planos anteriores, incluindo o fracassado "Plano dos Generais" de outubro de 2024.
A lógica por trás dessa guerra psicológica é imprimir nos palestinos em Gaza a impressão indelével de que seu destino foi selado e que o futuro de Gaza só pode ser determinado pelo próprio Israel.
O plano, no entanto, uma releitura do que é historicamente conhecido como " Dedos de Sharon ", baseia-se fundamentalmente na seccionalização de Gaza em várias zonas distintas e na utilização de alimentos como uma ferramenta para deslocamento para esses campos e, finalmente, para fora de Gaza.
No entanto, por que Netanyahu concordaria em permitir o acesso a alimentos fora de seu plano sinistro? A razão por trás disso está profundamente relacionada à explosão de raiva global direcionada a Israel, particularmente de seus aliados mais fiéis: Grã-Bretanha, França, Canadá, Austrália, entre outros.
Ao contrário de Espanha, Noruega, Irlanda e outros países que criticaram duramente o genocídio israelense, algumas capitais ocidentais permaneceram comprometidas com Israel durante toda a guerra. Seu compromisso se manifestou em discursos políticos de apoio, culpando os palestinos e absolvendo Israel; em apoio militar irrestrito ; e em proteger Israel resolutamente da responsabilização legal e das consequências políticas no cenário global.
As coisas começaram a mudar quando o presidente dos EUA, Donald Trump, lentamente percebeu que a guerra de Netanyahu em Gaza estava destinada a se tornar uma guerra e ocupação permanentes, o que inevitavelmente se traduziria na desestabilização perpétua do Oriente Médio — dificilmente uma prioridade americana urgente no momento.
Relatórios vazados na grande mídia dos EUA, somados à notável falta de comunicação entre Trump e Netanyahu, entre outros indicadores, sugeriram fortemente que a divergência entre Washington e Tel Aviv não era uma mera manobra, mas uma genuína mudança de política.
Embora Washington tenha indicado que os "EUA não abandonaram Israel", a mensagem estava clara: a estratégia de longo prazo de Netanyahu e a estratégia atual dos EUA dificilmente convergem.
Apesar do formidável poder político do lobby pró-Israel nos EUA e de seu forte apoio em ambos os lados do Congresso, a posição de Trump foi fortalecida pelo fato de que alguns círculos pró-Israel , também de ambos os partidos políticos, estão totalmente cientes de que Netanyahu representa um perigo não apenas para os EUA, mas para o próprio Israel.
Uma série de ações decisivas tomadas por Trump acentuou ainda mais essa mudança, que recebeu surpreendentemente poucos protestos do elemento pró-Israel nos círculos de poder dos EUA: negociações contínuas com o Irã, a trégua com Ansarallah no Iêmen, negociações com o Hamas, etc.
Embora se abstendo de criticar abertamente Trump, Netanyahu intensificou seus assassinatos de palestinos, que morreram em números tragicamente grandes. Muitas das vítimas já estavam à beira da fome antes de serem impiedosamente explodidas por bombas israelenses.
Em 19 de maio, Grã-Bretanha, Canadá e França emitiram conjuntamente uma forte declaração ameaçando Israel com sanções. Essa linguagem pouco familiar foi rapidamente seguida por uma ação apenas um dia depois, quando a Grã-Bretanha suspendeu as negociações comerciais com Israel.
Netanyahu retaliou com linguagem furiosa, liberando sua raiva nas capitais ocidentais, que ele acusou de "oferecer um prêmio enorme pelo ataque genocida a Israel em 7 de outubro, ao mesmo tempo em que convidava a mais atrocidades semelhantes".
A decisão de permitir a entrada de alguns alimentos em Gaza, embora claramente insuficiente para evitar o agravamento da fome, foi concebida como uma distração, já que a máquina de guerra israelense continuava implacavelmente a ceifar as vidas de inúmeros palestinos diariamente.
Embora se comemorem as mudanças significativas na posição do Ocidente contra Israel, deve ficar bem claro que Netanyahu não tem interesse genuíno em abandonar seu plano de matar Gaza de fome e fazer limpeza étnica.
Embora qualquer ação agora não reverta totalmente o impacto do genocídio, ainda há dois milhões de vidas que podem ser salvas.
Irã bombardeado, mas não derrotado
A acreditar em Donald Trump, o bombardeio das instalações nucleares iranianas em Isfahan, Natanz e Fordow seria o fim da guerra. E, com Benjamin Netanyahu envolvido, o que se seguiria agora seria a paz (ou seja, a rendição de Ali Khamenei). É improvável que algo assim aconteça.
Enquanto se aguarda o resultado real dos ataques, o fato de a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ter confirmado a inexistência de radiação indicaria que nenhuma dessas instalações foi completamente destruída. E se isso se aplica às duas primeiras — anteriormente atingidas por Israel e agora por mísseis Tomahawk dos EUA —, dúvidas muito maiores são levantadas pelo que pode ter ocorrido na usina de enriquecimento de Fordow, enterrada a dezenas de metros de profundidade e equipada com as centrífugas mais avançadas do programa iraniano. Dado que a força aérea israelense carece de meios convencionais capazes de atingir esse alvo, tudo ficou pendente da decisão de Trump, utilizando bombardeiros estratégicos B-2 Spirit , ideais para penetrar nos sistemas antiaéreos severamente enfraquecidos do Irã, para lançar as bombas destruidoras de bunkers GBU-57.
Neste ponto, é possível especular se o ataque dos EUA é uma resposta a um cálculo maquiavélico de Netanyahu, forçando Trump a entrar em uma guerra que ele alegou não querer (e que poderia causar problemas internos com seu movimento MAGA ) ou, melhor, se ambos decidiram bancar o “policial bom/policial mau”. De qualquer forma, agora imersos neste turbilhão de guerra — cometendo mais uma violação do direito internacional — é compreensível que ambos continuem a unir forças para destruir completamente o programa iraniano — um objetivo absolutamente irrealista —, alcançar o colapso do regime — embora seja mais provável que provoque mais repressão e uma reação nacionalista — ou, pelo menos, forçá-lo a assinar um novo acordo nuclear que inclua a renúncia ao enriquecimento de urânio, algo inaceitável para Teerã. Ambos os líderes chamam isso de “paz pela força”.
Preso nessa dinâmica de ação e reação, é improvável que o Irã desista. É verdade que está bastante enfraquecido, tanto pelo impacto das sanções internacionais quanto pela punição que Israel infligiu aos seus principais peões regionais — Hamas, Hezbollah e Ansar Allah . Sem aeronaves e sistemas antiaéreos capazes de desafiar a superioridade aérea que Israel alcançou em apenas quatro dias, o único instrumento militar que resta para responder a Israel são seus mísseis balísticos (e drones). Mas mesmo nessa arena, já foi comprovado que, enquanto nos primeiros dias o Irã lançou ondas de cem mísseis, agora elas caíram para apenas uma dúzia.
Isso sugere que as principais opções de Teerã não são convencionais. Mesmo que continue a lançar todos os mísseis que puder e a realizar ataques cibernéticos, sabe que isso não será suficiente para deter a dupla Trump-Netanyahu. Isso aumenta a probabilidade de que explore outras vias muito mais impactantes, começando por atacar os interesses dos EUA na região e as instalações petrolíferas de seus vizinhos do Golfo, bem como interromper o tráfego no Estreito de Ormuz o máximo possível. Pior ainda, em vez de aceitar que o golpe recebido não lhe deixa outra escolha a não ser aceitar a rendição que Washington exige por meio da assinatura de um novo acordo nuclear, é mais provável que opte por se retirar definitivamente do Tratado de Não Proliferação Nuclear e seguir abertamente o caminho de ingressar no clube nuclear o mais rápido possível (com Ancara e Riad seguindo o exemplo). De fato, é inevitável pensar que não estaríamos nessa situação se Trump não tivesse rompido o acordo firmado em julho de 2015.
Isto não traz paz, mas guerra.
Enquanto se aguarda o resultado real dos ataques, o fato de a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) ter confirmado a inexistência de radiação indicaria que nenhuma dessas instalações foi completamente destruída. E se isso se aplica às duas primeiras — anteriormente atingidas por Israel e agora por mísseis Tomahawk dos EUA —, dúvidas muito maiores são levantadas pelo que pode ter ocorrido na usina de enriquecimento de Fordow, enterrada a dezenas de metros de profundidade e equipada com as centrífugas mais avançadas do programa iraniano. Dado que a força aérea israelense carece de meios convencionais capazes de atingir esse alvo, tudo ficou pendente da decisão de Trump, utilizando bombardeiros estratégicos B-2 Spirit , ideais para penetrar nos sistemas antiaéreos severamente enfraquecidos do Irã, para lançar as bombas destruidoras de bunkers GBU-57.
Vinte bombeiros morreram em incêndio de prédio em Teerã
Preso nessa dinâmica de ação e reação, é improvável que o Irã desista. É verdade que está bastante enfraquecido, tanto pelo impacto das sanções internacionais quanto pela punição que Israel infligiu aos seus principais peões regionais — Hamas, Hezbollah e Ansar Allah . Sem aeronaves e sistemas antiaéreos capazes de desafiar a superioridade aérea que Israel alcançou em apenas quatro dias, o único instrumento militar que resta para responder a Israel são seus mísseis balísticos (e drones). Mas mesmo nessa arena, já foi comprovado que, enquanto nos primeiros dias o Irã lançou ondas de cem mísseis, agora elas caíram para apenas uma dúzia.
Isso sugere que as principais opções de Teerã não são convencionais. Mesmo que continue a lançar todos os mísseis que puder e a realizar ataques cibernéticos, sabe que isso não será suficiente para deter a dupla Trump-Netanyahu. Isso aumenta a probabilidade de que explore outras vias muito mais impactantes, começando por atacar os interesses dos EUA na região e as instalações petrolíferas de seus vizinhos do Golfo, bem como interromper o tráfego no Estreito de Ormuz o máximo possível. Pior ainda, em vez de aceitar que o golpe recebido não lhe deixa outra escolha a não ser aceitar a rendição que Washington exige por meio da assinatura de um novo acordo nuclear, é mais provável que opte por se retirar definitivamente do Tratado de Não Proliferação Nuclear e seguir abertamente o caminho de ingressar no clube nuclear o mais rápido possível (com Ancara e Riad seguindo o exemplo). De fato, é inevitável pensar que não estaríamos nessa situação se Trump não tivesse rompido o acordo firmado em julho de 2015.
Isto não traz paz, mas guerra.
Empatia com quem sofre na guerra
Pensei em Teerã e Tel Aviv. Será que, com esses bombardeios, tudo está funcionando?
Escritores têm uma característica comum: o impulso irresistível de se colocar no lugar do outro. Logo, não importa onde estoura uma guerra, a tendência é estar mentalmente no teatro de operações. Sofri muito com o frio e a bruma sobre o oceano na Guerra das Malvinas. O desconforto voltou na madrugada em que Israel iniciou uma série de bombardeios em Teerã, e alguns mísseis foram disparados contra Tel Aviv. Fui ao banheiro e lembrei-me da guerra começando. Acendi a luz, abri a torneira e tive certo alívio: a água corria, havia eletricidade.
Pensei em Teerã e Tel Aviv. Será que, com esses bombardeios, tudo está funcionando? Tel Aviv dispõe de abrigos subterrâneos; logo, as pessoas têm para onde ir. E Teerã, uma cidade com 10 milhões de habitantes, sem nenhum abrigo? Não há saída, exceto deixar a capital.
Milhões se deslocando criam enormes engarrafamentos nas estradas. Os postos de gasolina fecham ou reduzem suas vendas a 10 litros. Lembrei-me de uma reportagem no Jornal do Brasil na década de 1960: Copacabana pode morrer de susto. Se todos saíssem de carro ao mesmo tempo, seria um desastre no bairro. Imaginei-me vizinho de um cientista nuclear. Minha garganta estaria em fogo, os olhos ardendo pela fumaça das explosões. E a fuga? Para onde ir de repente?
Leio o relato de um poeta iraniano. Ele foi para uma cidade do interior, onde moram parentes. Mas a pequena cidade já estava cheia; os mercados esgotados com tanta procura. Já que tinha perdido o sono, imaginei-me em Tel Aviv. Sirenes tocando, corrida para os abrigos. Passei a tarde lendo um livro sobre o Mossad, “Rise and kill first”, de Ronen Bergman. É sobre o serviço secreto israelense, cuja história se confunde, a partir de certo momento, com a própria História do país.
Leio que existia uma discussão interna sobre o que fazer com o programa nuclear iraniano. Bombardear ou matar seletivamente os cientistas? Matar era mais fácil. No princípio, seis cientistas foram mortos, e o método era relativamente simples: motociclistas armavam as bombas nos carros deles. Imaginar-se em Tel Aviv significa conviver com algo que nem todos os países têm: a sensação de perigo existencial.
Foi ela que determinou os passos do Mossad e o transformou, parcialmente, num órgão especializado em matar. No princípio, era preciso matar cientistas alemães, ex-nazistas que foram ao Egito ajudar a produzir mísseis. Depois, foi necessário matar alguns militares egípcios que ajudavam árabes a realizar atentados; em seguida, foi necessário matar alguns líderes palestinos; finalmente, os cientistas iranianos e alguns generais que comandam a Guarda Revolucionária.
Foi tanta necessidade de matar diante da ameaça existencial que, em certo momento, um líder político indagou: como pode uma nação tão idealista e sensível adotar tal política? Parece que as durezas do destino acabaram chegando à tese de um famoso agente do próprio Mossad, Natan Rotberg, que acabou formulando uma saída para conciliar idealismo e assassinato seletivo:
— Você precisa aprender a perdoar o inimigo. No entanto, não temos autoridade para perdoar gente como Bin Laden. Isso, apenas Deus pode fazer. Nosso trabalho é arranjar um encontro entre eles.
A ameaça existencial é um forte argumento, assim como a punição aos terroristas do Hamas que invadiram Israel. No entanto o sofrimento da população de Gaza mostra que essa longa luta arruinou a visão humanitária do jovem país. É um caminho de que não se sai incólume.
A ameaça existencial criou uma dívida de gratidão com o Marrocos. Segundo o livro de Bergman, o Mossad ajudou a matar o líder marroquino Ben Barka, em Paris, causando um grande trauma na França. O Mossad contribuiu com uma técnica que ajuda a dissolver o corpo da vítima, por meio de uma combinação química que o elimina com a chuva. O que restou de Ben Barka foi sepultado na área construída da Fundação Louis Vuitton.
Escritores têm uma característica comum: o impulso irresistível de se colocar no lugar do outro. Logo, não importa onde estoura uma guerra, a tendência é estar mentalmente no teatro de operações. Sofri muito com o frio e a bruma sobre o oceano na Guerra das Malvinas. O desconforto voltou na madrugada em que Israel iniciou uma série de bombardeios em Teerã, e alguns mísseis foram disparados contra Tel Aviv. Fui ao banheiro e lembrei-me da guerra começando. Acendi a luz, abri a torneira e tive certo alívio: a água corria, havia eletricidade.
Pensei em Teerã e Tel Aviv. Será que, com esses bombardeios, tudo está funcionando? Tel Aviv dispõe de abrigos subterrâneos; logo, as pessoas têm para onde ir. E Teerã, uma cidade com 10 milhões de habitantes, sem nenhum abrigo? Não há saída, exceto deixar a capital.
Milhões se deslocando criam enormes engarrafamentos nas estradas. Os postos de gasolina fecham ou reduzem suas vendas a 10 litros. Lembrei-me de uma reportagem no Jornal do Brasil na década de 1960: Copacabana pode morrer de susto. Se todos saíssem de carro ao mesmo tempo, seria um desastre no bairro. Imaginei-me vizinho de um cientista nuclear. Minha garganta estaria em fogo, os olhos ardendo pela fumaça das explosões. E a fuga? Para onde ir de repente?
Leio o relato de um poeta iraniano. Ele foi para uma cidade do interior, onde moram parentes. Mas a pequena cidade já estava cheia; os mercados esgotados com tanta procura. Já que tinha perdido o sono, imaginei-me em Tel Aviv. Sirenes tocando, corrida para os abrigos. Passei a tarde lendo um livro sobre o Mossad, “Rise and kill first”, de Ronen Bergman. É sobre o serviço secreto israelense, cuja história se confunde, a partir de certo momento, com a própria História do país.
Leio que existia uma discussão interna sobre o que fazer com o programa nuclear iraniano. Bombardear ou matar seletivamente os cientistas? Matar era mais fácil. No princípio, seis cientistas foram mortos, e o método era relativamente simples: motociclistas armavam as bombas nos carros deles. Imaginar-se em Tel Aviv significa conviver com algo que nem todos os países têm: a sensação de perigo existencial.
Foi ela que determinou os passos do Mossad e o transformou, parcialmente, num órgão especializado em matar. No princípio, era preciso matar cientistas alemães, ex-nazistas que foram ao Egito ajudar a produzir mísseis. Depois, foi necessário matar alguns militares egípcios que ajudavam árabes a realizar atentados; em seguida, foi necessário matar alguns líderes palestinos; finalmente, os cientistas iranianos e alguns generais que comandam a Guarda Revolucionária.
Foi tanta necessidade de matar diante da ameaça existencial que, em certo momento, um líder político indagou: como pode uma nação tão idealista e sensível adotar tal política? Parece que as durezas do destino acabaram chegando à tese de um famoso agente do próprio Mossad, Natan Rotberg, que acabou formulando uma saída para conciliar idealismo e assassinato seletivo:
— Você precisa aprender a perdoar o inimigo. No entanto, não temos autoridade para perdoar gente como Bin Laden. Isso, apenas Deus pode fazer. Nosso trabalho é arranjar um encontro entre eles.
A ameaça existencial é um forte argumento, assim como a punição aos terroristas do Hamas que invadiram Israel. No entanto o sofrimento da população de Gaza mostra que essa longa luta arruinou a visão humanitária do jovem país. É um caminho de que não se sai incólume.
A ameaça existencial criou uma dívida de gratidão com o Marrocos. Segundo o livro de Bergman, o Mossad ajudou a matar o líder marroquino Ben Barka, em Paris, causando um grande trauma na França. O Mossad contribuiu com uma técnica que ajuda a dissolver o corpo da vítima, por meio de uma combinação química que o elimina com a chuva. O que restou de Ben Barka foi sepultado na área construída da Fundação Louis Vuitton.
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Fim do começo
Mais do que um fim da guerra, desejamos um fim do começo de todas as guerras, sim, um fim deste método brutal, inumano e nada prático de resolver diferenças entre governos.
Franklin D. Roosevelt
Retrato da decadência
É mais fácil matar um elefante, do que retirar seus despojos da sala. O ditado é antigo, mas se aplica à confusão político-militar que o mundo está passando sob a batuta histriônica de um presidente dos Estados Unidos que se comporta como adolescente em busca de novas emoções. Os tempos atuais apresentam profundas modificações na política internacional e no cenário do comércio entre as nações. Chama atenção a vertiginosa queda do dólar e no sentido inverso a vertiginosa valorização do ouro, quase cem por cento em pouco mais de um ano. A moeda norte-americana está sendo colocada sob suspeição em todos os centros financeiros do mundo.
A decadência norte-americana assusta. A queda do dólar é o meio encontrado por governos de países menos desenvolvidos para aumentar exportações, encarecer importações e elevar o saldo comercial. É uma prática velha conhecida dos brasileiros. Volta e meia, um governo resolve fazer ajuste no câmbio e eleva o preço das moedas fortes. O brasileiro deixa de viajar para o exterior, reduz compras no estrangeiro e passa a privilegiar o produto nacional, embora mais caro. País rico não costuma cometer este tipo de plano. É política de pobre.
As tarifas extraordinárias, chamadas de compensatórias pelo presidente dos Estados Unidos, não resultaram em nada de positivo até o momento. Ele afirmou, com todas as letras, que havia uma fila de representantes de países querendo negociar com Washington. "Eles querem beijar a minha bunda"(sic). Mas até agora apresentou apenas um acordo discreto com o Reino Unido, que sempre foi sócio nas ações norte-americanas no mundo. A nação começou sua vida na qualidade de colônia britânica. Rompeu laços políticos, mas jamais se distanciou da pátria mãe. Além deste acordo, não houve mais nenhum outro conhecido e divulgado. Com a China, ocorreu um entendimento provisório de sessenta dias. Uma espécie de cessar-fogo temporário.
No exercício da política externa, Donald Trump é um homem de negócios. Só enxerga o dólar na frente dele. Criou um cartão de cinco milhões de dólares para quem deseja receber o green card, que dá direito a viver e trabalhar no país. O dinheiro será destinado a reduzir a dívida, que ultrapassa a casa de vários trilhões de dólares. Não vai resolver o problema, mas ele anuncia que já apareceram mais de setenta mil interessados. Ele faz negócios para si e sua família. Recentemente, na Arábia Saudita, seu filho negociou à vontade. O presidente recebeu de presente um avião Boeing 747, com todos os luxos possíveis e imagináveis. Este foi o agrado que recebeu pelos bons negócios feitos na sua rápida passagem pelos países árabes. Nos Estados Unidos acabou de lançar o Trump phone, aparelho dourado, que teria algumas vantagens sobre os concorrentes.
O presidente disse que terminaria a guerra da Ucrânia em poucos dias. Errou completamente. O conflito se tornou mais violento, as tropas da Ucrânia resistem há quatro anos. Recentemente, fizeram uma importante incursão em território inimigo e colocaram fora de ação mais de um terço da aviação russa. Os russos, por sua vez, atacam sem piedade a capital, Kiev. Em suma, a guerra escalou, em vez de caminhar para uma possível paz ou pelo menos para um cessar fogo. Tudo piorou. Trump e Putin são amigos. Mas os interesses foram maiores que as amizades.
No caso de Israel, foi mais longe. Deu apoio político e militar ao estado judeu. Prepara o lançamento da bomba capaz de perfurar o solo (a temida MOP GBU-57) para atingir as instalações nucleares que afirma existir. A CIA, órgão de espionagem do governo dos Estados Unidos, reafirma que o Irã não está construindo a bomba atômica. Na guerra do Iraque, ocorreu o mesmo fenômeno: o argumento foi de que Saddam Hussein estava construindo armas de destruição em massa. Mentira. As forças armadas dos Estados Unidos destruíram o país, saquearam suas preciosidades e assumiram o negócio do petróleo. Não produziram nada de positivo, nem encontraram a paz.
A agressão absurda e desmedida entre Israel e Irã é o capítulo final da Segunda Guerra Mundial. Judeus saíram da Europa e conseguiram um país para viver. Expulsaram os locais. Aprenderam as técnicas de genocídio e as aplicam em Gaza. Agora, enfrentam um inimigo mais poderoso. O Irã, antiga Pérsia, tem mais de dois mil anos de história e 90 milhões de habitantes. É um país de renda média, com governo autoritário de fundamento religioso. A solução diplomática tem menos custo financeiro e exige menor perda de vidas humanas. Mas, faltam estadistas. A decadência do Império está à vista de todos. É difícil remover o cadáver da sala.
A decadência norte-americana assusta. A queda do dólar é o meio encontrado por governos de países menos desenvolvidos para aumentar exportações, encarecer importações e elevar o saldo comercial. É uma prática velha conhecida dos brasileiros. Volta e meia, um governo resolve fazer ajuste no câmbio e eleva o preço das moedas fortes. O brasileiro deixa de viajar para o exterior, reduz compras no estrangeiro e passa a privilegiar o produto nacional, embora mais caro. País rico não costuma cometer este tipo de plano. É política de pobre.
As tarifas extraordinárias, chamadas de compensatórias pelo presidente dos Estados Unidos, não resultaram em nada de positivo até o momento. Ele afirmou, com todas as letras, que havia uma fila de representantes de países querendo negociar com Washington. "Eles querem beijar a minha bunda"(sic). Mas até agora apresentou apenas um acordo discreto com o Reino Unido, que sempre foi sócio nas ações norte-americanas no mundo. A nação começou sua vida na qualidade de colônia britânica. Rompeu laços políticos, mas jamais se distanciou da pátria mãe. Além deste acordo, não houve mais nenhum outro conhecido e divulgado. Com a China, ocorreu um entendimento provisório de sessenta dias. Uma espécie de cessar-fogo temporário.
No exercício da política externa, Donald Trump é um homem de negócios. Só enxerga o dólar na frente dele. Criou um cartão de cinco milhões de dólares para quem deseja receber o green card, que dá direito a viver e trabalhar no país. O dinheiro será destinado a reduzir a dívida, que ultrapassa a casa de vários trilhões de dólares. Não vai resolver o problema, mas ele anuncia que já apareceram mais de setenta mil interessados. Ele faz negócios para si e sua família. Recentemente, na Arábia Saudita, seu filho negociou à vontade. O presidente recebeu de presente um avião Boeing 747, com todos os luxos possíveis e imagináveis. Este foi o agrado que recebeu pelos bons negócios feitos na sua rápida passagem pelos países árabes. Nos Estados Unidos acabou de lançar o Trump phone, aparelho dourado, que teria algumas vantagens sobre os concorrentes.
O presidente disse que terminaria a guerra da Ucrânia em poucos dias. Errou completamente. O conflito se tornou mais violento, as tropas da Ucrânia resistem há quatro anos. Recentemente, fizeram uma importante incursão em território inimigo e colocaram fora de ação mais de um terço da aviação russa. Os russos, por sua vez, atacam sem piedade a capital, Kiev. Em suma, a guerra escalou, em vez de caminhar para uma possível paz ou pelo menos para um cessar fogo. Tudo piorou. Trump e Putin são amigos. Mas os interesses foram maiores que as amizades.
No caso de Israel, foi mais longe. Deu apoio político e militar ao estado judeu. Prepara o lançamento da bomba capaz de perfurar o solo (a temida MOP GBU-57) para atingir as instalações nucleares que afirma existir. A CIA, órgão de espionagem do governo dos Estados Unidos, reafirma que o Irã não está construindo a bomba atômica. Na guerra do Iraque, ocorreu o mesmo fenômeno: o argumento foi de que Saddam Hussein estava construindo armas de destruição em massa. Mentira. As forças armadas dos Estados Unidos destruíram o país, saquearam suas preciosidades e assumiram o negócio do petróleo. Não produziram nada de positivo, nem encontraram a paz.
A agressão absurda e desmedida entre Israel e Irã é o capítulo final da Segunda Guerra Mundial. Judeus saíram da Europa e conseguiram um país para viver. Expulsaram os locais. Aprenderam as técnicas de genocídio e as aplicam em Gaza. Agora, enfrentam um inimigo mais poderoso. O Irã, antiga Pérsia, tem mais de dois mil anos de história e 90 milhões de habitantes. É um país de renda média, com governo autoritário de fundamento religioso. A solução diplomática tem menos custo financeiro e exige menor perda de vidas humanas. Mas, faltam estadistas. A decadência do Império está à vista de todos. É difícil remover o cadáver da sala.
Os egos e o ódio
Este foi o resultado das eleições americanas. Ego aqui tomado na sua acepção coloquial e não psicanalítica para evitar as derrapadas do charlatanismo. Trata-se de um “EU” devidamente constituído que se revela na personalidade autocentrada, narcísica, que se basta a si próprio ao negar o Outro e praticar o culto de adoração a si mesmo associada a delírios de grandeza.
O ódio e o medo conduziram os eleitores estadunidenses às urnas para a eleger pela segunda vez Donald Trump, subscrevendo a terrível aliança entre o poder político e o poder econômico, um pacto oligárquico diabólico cujo objetivo é a apropriação da coisa pública.
Na verdade, os analistas, os cientistas políticos não se surpreenderam com a administração do presidente Republicano. Não imaginavam, porém, que ele não só acreditava nas próprias mentiras assim como usasse o que julgava ser a ardilosa e imbatível estratégia do empresário “bem-sucedido”: a negociação. E mirando o próprio umbigo, disparou, adoidado, os drones tarifários.
Cresceu, desmoralizou a “ficha limpa”, venceu o pleito e tomou posse com um prontuário recheado de delitos. Escalou um time da pesada para governar. Além da habilidade universal do puxa-saquismo, todos rezam pela cartilha do chefe que vai da política de imigração, afrontando direitos humanos, até a insanidade de desmantelar a excelência das universidades americanas, um esteio do progresso e da liderança global nos processos inovadores da economia do conhecimento.
Porém, cometeu um erro primário no exercício da política que o mais simplório militante brasileiro tem na sua velha cartilha: não se nomeia quem demitido pode causar danos irreparáveis, ou seja, um perigoso aliado: Elon Musk o homem mais rico do mundo e dono da gigantesca plataforma X (ex-Twitter) que sonha, antes de anexar Marte ao Planeta Terra, ocupar a cadeira do atual líder. E por se achar melhor, já anunciou a vontade de criar um terceiro partido para “arejar” a secular dicotomia Republicanos/Democratas.
Como dizia um velho amigo de meu pai: a inveja matou Abel. Ambos são invejosos. Somente a destruição do concorrente vale como triunfo. São capazes de tudo, exceto revogar o princípio fundamental da física segundo o qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A raiz do confronto é o conflito de interesses políticos e econômicos a partir das críticas veementes de Musk ao projeto de lei fiscal e orçamentária denominada “One Big Beautiful Bill”. A lei contraria diretamente os interesses empresariais e políticos de Musk com a retirada dos subsídios e incentivos para os carros elétricos da Tesla. O rompimento derivou para o campo das ofensas pessoais, a exemplo das ligações atribuídas a Trump com Jeffrey Epstein que cometeu suicídio após a segunda condenação pela prática crimes sexuais, inclusive, a pedofilia.
Em ambiente bafejado pelos bons ventos da vitória eleitoral e animado pela estética caricatural dos autocratas, Trump criou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês) e deu a Musk poderes para cortar gastos, cabeças de burocratas “fraudadores” e realizar uma “grande reforma governamental”.
Ora, Trump deu uma tarefa inexequível para os planos de Musk: ele não queria dotar o setor público de eficiência; a real pretensão do bilionário era deixar um “estado mínimo” para Trump governar e um “estado máximo” para alimentar a fortuna e a megalomania muskiana. E mais: ambos, como todo oligarca, são cleptocratas e não têm noção de limites. Musk conheceu, de perto, as entranhas e o funcionamento do poder e sabe muito sobre a vida pessoal de Trump. E vice-versa.
Como se não bastasse, Trump desrespeita a memória de “Os Pais Fundadores” da nação americana que conceberam o engenhoso Federalismo Político: um sólido pacto de poder que equilibra o Estado Americano entre forças centrífugas e centrípetas, após notável debate público. O presidente Trump mirou a Califórnia. Rico, democrata e vítima da violência politica.
No modesto bairro da Torre onde vivi grande parte da minha vida, uma encrenca desse tipo podia ter um desfecho complicado. A gente chamava de “barraco”. A antiga nobreza batia-se em duelo para lavar as honras agredidas. Hoje, briga de gente rica, envolvendo, inclusive, as duas pessoas mais poderosas do mundo, tem uma arma sensacional que é a tecnologia digital com uma plateia incrível: A plataforma X de Musk tem 220 milhões de seguidores e a Thruth Social de Trump, criada em 2022, 10 milhões.
Com efeito, estas lamentáveis ocorrências não são novidades. É uma propensão dos poderosos. Em todas as épocas, o poder é a fonte dos malefícios em larga escala. Guerras, genocídios, terrorismo, agressão à natureza, o deleite de Nero tocando harpa enquanto o incêndio de sua autoria, destruía a bela e imponente cidade e Roma. No nosso mundo, a guerra nuclear é uma ameaça atualizada do imperador piromaníaco.
De verdade, em Hollywood, a meca do soft power bem que podia servir de exemplo, quando nos filmes de faroeste, romanceando a sangrenta conquista do “destino manifesto”, os conflitos eram resolvidos, em duelos, utilizando a habilidade dos “caubóis” a exemplo de John Wayne versus Buffalo Bill. Uma numerosa plateia ia torcer para que os dois acertassem o alvo.
Gustavo Krause
O ódio e o medo conduziram os eleitores estadunidenses às urnas para a eleger pela segunda vez Donald Trump, subscrevendo a terrível aliança entre o poder político e o poder econômico, um pacto oligárquico diabólico cujo objetivo é a apropriação da coisa pública.
Na verdade, os analistas, os cientistas políticos não se surpreenderam com a administração do presidente Republicano. Não imaginavam, porém, que ele não só acreditava nas próprias mentiras assim como usasse o que julgava ser a ardilosa e imbatível estratégia do empresário “bem-sucedido”: a negociação. E mirando o próprio umbigo, disparou, adoidado, os drones tarifários.
Cresceu, desmoralizou a “ficha limpa”, venceu o pleito e tomou posse com um prontuário recheado de delitos. Escalou um time da pesada para governar. Além da habilidade universal do puxa-saquismo, todos rezam pela cartilha do chefe que vai da política de imigração, afrontando direitos humanos, até a insanidade de desmantelar a excelência das universidades americanas, um esteio do progresso e da liderança global nos processos inovadores da economia do conhecimento.
Porém, cometeu um erro primário no exercício da política que o mais simplório militante brasileiro tem na sua velha cartilha: não se nomeia quem demitido pode causar danos irreparáveis, ou seja, um perigoso aliado: Elon Musk o homem mais rico do mundo e dono da gigantesca plataforma X (ex-Twitter) que sonha, antes de anexar Marte ao Planeta Terra, ocupar a cadeira do atual líder. E por se achar melhor, já anunciou a vontade de criar um terceiro partido para “arejar” a secular dicotomia Republicanos/Democratas.
Como dizia um velho amigo de meu pai: a inveja matou Abel. Ambos são invejosos. Somente a destruição do concorrente vale como triunfo. São capazes de tudo, exceto revogar o princípio fundamental da física segundo o qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. A raiz do confronto é o conflito de interesses políticos e econômicos a partir das críticas veementes de Musk ao projeto de lei fiscal e orçamentária denominada “One Big Beautiful Bill”. A lei contraria diretamente os interesses empresariais e políticos de Musk com a retirada dos subsídios e incentivos para os carros elétricos da Tesla. O rompimento derivou para o campo das ofensas pessoais, a exemplo das ligações atribuídas a Trump com Jeffrey Epstein que cometeu suicídio após a segunda condenação pela prática crimes sexuais, inclusive, a pedofilia.
Em ambiente bafejado pelos bons ventos da vitória eleitoral e animado pela estética caricatural dos autocratas, Trump criou o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE, na sigla em inglês) e deu a Musk poderes para cortar gastos, cabeças de burocratas “fraudadores” e realizar uma “grande reforma governamental”.
Ora, Trump deu uma tarefa inexequível para os planos de Musk: ele não queria dotar o setor público de eficiência; a real pretensão do bilionário era deixar um “estado mínimo” para Trump governar e um “estado máximo” para alimentar a fortuna e a megalomania muskiana. E mais: ambos, como todo oligarca, são cleptocratas e não têm noção de limites. Musk conheceu, de perto, as entranhas e o funcionamento do poder e sabe muito sobre a vida pessoal de Trump. E vice-versa.
Como se não bastasse, Trump desrespeita a memória de “Os Pais Fundadores” da nação americana que conceberam o engenhoso Federalismo Político: um sólido pacto de poder que equilibra o Estado Americano entre forças centrífugas e centrípetas, após notável debate público. O presidente Trump mirou a Califórnia. Rico, democrata e vítima da violência politica.
No modesto bairro da Torre onde vivi grande parte da minha vida, uma encrenca desse tipo podia ter um desfecho complicado. A gente chamava de “barraco”. A antiga nobreza batia-se em duelo para lavar as honras agredidas. Hoje, briga de gente rica, envolvendo, inclusive, as duas pessoas mais poderosas do mundo, tem uma arma sensacional que é a tecnologia digital com uma plateia incrível: A plataforma X de Musk tem 220 milhões de seguidores e a Thruth Social de Trump, criada em 2022, 10 milhões.
Com efeito, estas lamentáveis ocorrências não são novidades. É uma propensão dos poderosos. Em todas as épocas, o poder é a fonte dos malefícios em larga escala. Guerras, genocídios, terrorismo, agressão à natureza, o deleite de Nero tocando harpa enquanto o incêndio de sua autoria, destruía a bela e imponente cidade e Roma. No nosso mundo, a guerra nuclear é uma ameaça atualizada do imperador piromaníaco.
De verdade, em Hollywood, a meca do soft power bem que podia servir de exemplo, quando nos filmes de faroeste, romanceando a sangrenta conquista do “destino manifesto”, os conflitos eram resolvidos, em duelos, utilizando a habilidade dos “caubóis” a exemplo de John Wayne versus Buffalo Bill. Uma numerosa plateia ia torcer para que os dois acertassem o alvo.
Gustavo Krause
Rumo ao abismo: Israel, Irã e o colapso moral do Ocidente
Há verdades que o poder se recusa a reconhecer — mesmo quando são gritantes. A guerra contra o Irã começou. Como sempre, os Estados Unidos estão envolvidos, direta ou indiretamente, permanecendo resolutamente ao lado de Israel e apoiando uma escalada cujas consequências são imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Nem o direito internacional, a prudência estratégica, nem a memória dos oprimidos parecem restringir esse compromisso.
Mas o Irã não é um mero ator regional. É uma civilização enraizada em milênios de história, portadora de um dos legados culturais mais antigos da humanidade. Pode-se atacar suas instalações, assassinar seus cientistas ou infiltrar-se em suas instituições — mas não se pode desarraigar uma nação que sobreviveu a impérios, nem fabricar um Estado cliente dissociado da alma de um povo consciente de sua identidade e história.
Qualquer ataque a essa consciência coletiva — já em curso — só fortalecerá a coesão nacional. Isso ficou evidente durante a guerra imposta pelo Iraque na década de 1980. A história ainda pode se repetir. Pois este novo conflito não visa apenas um regime; ele rompe a ordem geopolítica regional — do Estreito de Ormuz ao Mediterrâneo Oriental. Alianças mudam, equilíbrios vacilam e a lógica da guerra se reafirma — não por necessidade, mas por meio de cálculos imprudentes e ansiedade descontrolada.
Essa guinada em direção ao confronto, impulsionada tanto pelo pânico israelense quanto pela condescendência americana, expõe a fratura moral mais profunda do Ocidente. De um lado, estão as elites políticas reféns de lobbies pró-Israel; do outro, uma geração mais jovem — incluindo muitos judeus — cada vez mais indignada com a brutalidade em Gaza e a impunidade de um Estado que reivindica todos os direitos e não reconhece nenhuma responsabilidade.
A dissidência não se limita mais às franjas radicais. Ela transcende as linhas tradicionais, atraindo apoio de intelectuais, empreendedores e figuras públicas. Indivíduos como Jeffrey Sachs e o fundador da Ben & Jerry's ousaram romper o silêncio para denunciar o que é cada vez mais percebido como uma trajetória genocida, realizada à vista de todos, sob a proteção de uma ordem internacional complacente.
Ao se alinharem incondicionalmente a Israel — um Estado que trava uma guerra de destruição em Gaza enquanto provoca um conflito aberto com o Irã — os Estados Unidos não estão defendendo seus interesses estratégicos. Estão abandonando-os. Os estoques de munição estão esgotados, a credibilidade está em frangalhos e a coerência estratégica entrou em colapso — tudo isso enquanto a capacidade de Washington de responder a desafios críticos na Ásia, particularmente em relação à China, continua a se deteriorar.
Mas a crise não é apenas estratégica — é moral. Os Estados Unidos não agem mais por cálculo ou medo, mas por uma espécie de obediência reflexiva. Israel dita; Washington obedece.
Quem mencionou que o hospital iraniano foi atacado há dois dias? Ou as dezenas de hospitais em Gaza sistematicamente reduzidos a escombros em uma campanha marcada tanto por sadismo quanto por intenções genocidas? A mídia ocidental permanece em silêncio ou distorce os fatos, dependendo se o alvo é israelense ou não.
É importante lembrar que o Centro Médico de Soroka, alvo do Irã, não é uma mera instalação civil. Ele também funciona como um centro médico para o exército israelense — um centro de comando médico de fato, inserido em um complexo militar mais amplo. Ele atende pessoal envolvido em operações, incluindo aquelas em Gaza.
Essas informações, anteriormente referenciadas em fontes públicas como a Wikipédia, foram removidas, embora versões arquivadas permaneçam acessíveis.
Essa duplicidade moral se reflete ainda mais na crescente instrumentalização de instituições internacionais por potências ocidentais. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), outrora símbolo de supervisão neutra e baseada em regras, agora opera cada vez mais como um veículo para o avanço de objetivos políticos e de inteligência. Sua credibilidade já foi minada durante o caso do Iraque. Hoje, sua condução do caso nuclear iraniano levanta dúvidas semelhantes.
Por trás da linguagem técnica e das formalidades processuais, escondem-se os interesses dos Estados Unidos, de Israel e de seus aliados europeus — interesses que moldam as inspeções, influenciam os relatórios e corroem os próprios alicerces da confiança institucional. Com essa erosão silenciosa, o próprio princípio da neutralidade está sendo desmantelado.
Cumplicidade, dois pesos e duas medidas, cegueira estratégica — ficamos horrorizados com um ataque com mísseis a uma instalação ligada a um exército de ocupação genocida, mas permanecemos impassíveis diante dos ataques sistemáticos a hospitais palestinos, onde bebês prematuros morrem por falta de energia. O que antes era preconceito se consolidou em doutrina.
Os Estados Unidos retornaram ao que já foram ocasionalmente em sua própria história: uma força sem bússola, manipulada por forças além do seu alcance. Um gigante, subjugado e redirecionado, conduzido a mais uma arena do Oriente Médio como um animal treinado, desprovido de autonomia. Não é mais servidão — o termo implica um grau de dignidade. É domesticação.
Washington não é mais um centro de tomada de decisões soberanas. É um palco. E o outrora orgulhoso gigante anglo-saxão a circunda indefinidamente, amordaçado e obediente, solto ao capricho de um mestre que ninguém ousa nomear — um mestre que não busca paz nem segurança, mas sim domínio, mesmo ao custo de uma desordem apocalíptica.
Mohamed El Mokhtar Sidi Haiba
Mas o Irã não é um mero ator regional. É uma civilização enraizada em milênios de história, portadora de um dos legados culturais mais antigos da humanidade. Pode-se atacar suas instalações, assassinar seus cientistas ou infiltrar-se em suas instituições — mas não se pode desarraigar uma nação que sobreviveu a impérios, nem fabricar um Estado cliente dissociado da alma de um povo consciente de sua identidade e história.
Qualquer ataque a essa consciência coletiva — já em curso — só fortalecerá a coesão nacional. Isso ficou evidente durante a guerra imposta pelo Iraque na década de 1980. A história ainda pode se repetir. Pois este novo conflito não visa apenas um regime; ele rompe a ordem geopolítica regional — do Estreito de Ormuz ao Mediterrâneo Oriental. Alianças mudam, equilíbrios vacilam e a lógica da guerra se reafirma — não por necessidade, mas por meio de cálculos imprudentes e ansiedade descontrolada.
Essa guinada em direção ao confronto, impulsionada tanto pelo pânico israelense quanto pela condescendência americana, expõe a fratura moral mais profunda do Ocidente. De um lado, estão as elites políticas reféns de lobbies pró-Israel; do outro, uma geração mais jovem — incluindo muitos judeus — cada vez mais indignada com a brutalidade em Gaza e a impunidade de um Estado que reivindica todos os direitos e não reconhece nenhuma responsabilidade.
A dissidência não se limita mais às franjas radicais. Ela transcende as linhas tradicionais, atraindo apoio de intelectuais, empreendedores e figuras públicas. Indivíduos como Jeffrey Sachs e o fundador da Ben & Jerry's ousaram romper o silêncio para denunciar o que é cada vez mais percebido como uma trajetória genocida, realizada à vista de todos, sob a proteção de uma ordem internacional complacente.
Ao se alinharem incondicionalmente a Israel — um Estado que trava uma guerra de destruição em Gaza enquanto provoca um conflito aberto com o Irã — os Estados Unidos não estão defendendo seus interesses estratégicos. Estão abandonando-os. Os estoques de munição estão esgotados, a credibilidade está em frangalhos e a coerência estratégica entrou em colapso — tudo isso enquanto a capacidade de Washington de responder a desafios críticos na Ásia, particularmente em relação à China, continua a se deteriorar.
Mas a crise não é apenas estratégica — é moral. Os Estados Unidos não agem mais por cálculo ou medo, mas por uma espécie de obediência reflexiva. Israel dita; Washington obedece.
Quem mencionou que o hospital iraniano foi atacado há dois dias? Ou as dezenas de hospitais em Gaza sistematicamente reduzidos a escombros em uma campanha marcada tanto por sadismo quanto por intenções genocidas? A mídia ocidental permanece em silêncio ou distorce os fatos, dependendo se o alvo é israelense ou não.
É importante lembrar que o Centro Médico de Soroka, alvo do Irã, não é uma mera instalação civil. Ele também funciona como um centro médico para o exército israelense — um centro de comando médico de fato, inserido em um complexo militar mais amplo. Ele atende pessoal envolvido em operações, incluindo aquelas em Gaza.
Essas informações, anteriormente referenciadas em fontes públicas como a Wikipédia, foram removidas, embora versões arquivadas permaneçam acessíveis.
Essa duplicidade moral se reflete ainda mais na crescente instrumentalização de instituições internacionais por potências ocidentais. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), outrora símbolo de supervisão neutra e baseada em regras, agora opera cada vez mais como um veículo para o avanço de objetivos políticos e de inteligência. Sua credibilidade já foi minada durante o caso do Iraque. Hoje, sua condução do caso nuclear iraniano levanta dúvidas semelhantes.
Por trás da linguagem técnica e das formalidades processuais, escondem-se os interesses dos Estados Unidos, de Israel e de seus aliados europeus — interesses que moldam as inspeções, influenciam os relatórios e corroem os próprios alicerces da confiança institucional. Com essa erosão silenciosa, o próprio princípio da neutralidade está sendo desmantelado.
Cumplicidade, dois pesos e duas medidas, cegueira estratégica — ficamos horrorizados com um ataque com mísseis a uma instalação ligada a um exército de ocupação genocida, mas permanecemos impassíveis diante dos ataques sistemáticos a hospitais palestinos, onde bebês prematuros morrem por falta de energia. O que antes era preconceito se consolidou em doutrina.
Os Estados Unidos retornaram ao que já foram ocasionalmente em sua própria história: uma força sem bússola, manipulada por forças além do seu alcance. Um gigante, subjugado e redirecionado, conduzido a mais uma arena do Oriente Médio como um animal treinado, desprovido de autonomia. Não é mais servidão — o termo implica um grau de dignidade. É domesticação.
Washington não é mais um centro de tomada de decisões soberanas. É um palco. E o outrora orgulhoso gigante anglo-saxão a circunda indefinidamente, amordaçado e obediente, solto ao capricho de um mestre que ninguém ousa nomear — um mestre que não busca paz nem segurança, mas sim domínio, mesmo ao custo de uma desordem apocalíptica.
Mohamed El Mokhtar Sidi Haiba
A primeira linha de 'combate'
Pertencendo à geração que nasceu na época da II Guerra Mundial, ou na sua imediata sequência, após a vitória do “mundo livre” sobre o nazi-fascismo, confesso nunca ter pensado viver um tempo em que se verificasse tamanha regressão em termos de humanismo, valores, democracia. Em termos de Direitos Humanos. Ou, por outras palavras, desrespeito pelos direitos e pela dignidade de pessoas e povos, violência e crueldade levadas ao limite, até contra inocentes indefesos, violação grave e constante de princípios básicos de honestidade intelectual, boa-fé, compreensão, tolerância.
Logo depois daquela vitória, em 1945, a criação da ONU, juntando todos os países do mundo para garantir a paz, tomar medidas sobre as grandes questões universais e ajudar ao desenvolvimento, foi uma grande conquista e representou uma grande esperança. Mas o cumprimento do Direito Internacional constituía pressuposto essencial para a prossecução do seu primeiro objetivo. E o desprezo pelas normas desse Direito foi sendo cada vez maior e mais grave, sem a ONU ter meios para o impedir ou sancionar.
E assim chegamos aonde chegamos. Não por acaso sendo Israel o país que na ONU ao longo dos anos mais decisões violou e recomendações incumpriu. Agora, o genocídio em Gaza e a proibição da ajuda humanitária aos que aí vão morrendo de fome, mormente crianças, são a mais trágica e expressiva imagem do que hoje se passa no mundo. Mas não a única, há outras, entre as quais a da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Entretanto, a outro nível, só político, sem “extermínio” ou conflito armado, a imagem mais expressiva deste dramático tempo é Donald Trump: um misto explosivo de sede/ostentação de poder, ausência de formação cívica/cultural e de espírito democrático. De par com outras características, tudo fazendo dele, à frente da maior potência planetária, uma ameaça para o mundo.
E também Trump não é único. Recorde-se, por exemplo, Jair Bolsonaro, que está a ser julgado por tentativa de golpe de Estado – depondo, com um ar cordato, quase de “cordeiro manso”, jurando, contra as evidências, que sempre jogou dentro das “quatro linhas” da Constituição.
Longe e perto, há muitos a apoiar aqueles e outros crimes, numa lamentável passividade ou num indesculpável silêncio a seu respeito. Longe e perto, há quem tenha em Trump um farol: e alguns, se chegados ao poder, poderiam ser ainda piores. O que por um lado é consequência e por outro potencia o clima de ódio, violência, intolerância, mentira, que se vive em várias latitudes. Reduzidos a zero ou à expressão mínima, como estão no Ocidente, regimes criminosos e totalitarismos de sinal oposto, tudo isto se traduz em ressurgimento e ação de grupos nazi-fascistas, e/ou crescimento exponencial de uma extrema-direita que às vezes deles se aproxima e sempre lhes constitui fator propício.
Vêm estas obviedades, que não resisti a trazer à colação, para “enquadrar” os recentes atos de violência e as ameaças de cariz fascista, racista, que ocorreram também entre nós. Enquanto nos EUA, além do resto, uma senadora democrata e o marido são assassinados por um desses “produtos” extremos do terrível momento que atravessamos. E a que se impõe resistir, cujas causas é imperioso combater.
De facto, não é tolerável mais a complacência, a passividade, a inação. As diferenças entre direita e esquerda continuam a existir, embora não as mesmas do passado. Mas na atual situação a primeira clara clivagem, e a primeira linha do combate, em todas as frentes, deve ser, tem de ser, entre os que defendem a democracia e os que querem destruí-la; entre os que advogam a tolerância, o respeito pelos outros, e os semeadores de ódio; entre o humanismo e a lei da selva; entre a decência e a indecência.
E quando se praticam crimes como os referidos, que líderes políticos e mentores ideológicos daqueles setores extremistas se veem obrigados a condenar, não podem alijar a sua responsabilidade na criação da situação e do clima de ódio em que se inserem, ou que poderão estar mesmo na sua base.
Começar a “agir”
No quadro do combate a que se refere o texto, uma das primeiras medidas indispensáveis é aprovar uma legislação que permita evitar, quanto possível, a ação criminosa dos grupos que ali se referem, bem como a impunidade de que atualmente gozam os que mentem, insultam, difamam, através das redes sociais. Não sou frequentador, mas pelo que leio é verificação/opinião unânime ser assim – e não poder continuar assim.
No Brasil o Supremo Tribunal Federal acaba de tomar, quase por unanimidade, uma importante decisão nesse domínio, para a qual remeto os governantes e legisladores portugueses. Também concordo com o que Pedro Marques Lopes diz no seu magnífico texto da nossa última edição.
Tem-se falado muito da “reflexão” necessária após os resultados das legislativas. Os responsáveis pelas televisões são dos que mais precisam de “refletir”, e mudar. Mas há muito mais.
Logo depois daquela vitória, em 1945, a criação da ONU, juntando todos os países do mundo para garantir a paz, tomar medidas sobre as grandes questões universais e ajudar ao desenvolvimento, foi uma grande conquista e representou uma grande esperança. Mas o cumprimento do Direito Internacional constituía pressuposto essencial para a prossecução do seu primeiro objetivo. E o desprezo pelas normas desse Direito foi sendo cada vez maior e mais grave, sem a ONU ter meios para o impedir ou sancionar.
E assim chegamos aonde chegamos. Não por acaso sendo Israel o país que na ONU ao longo dos anos mais decisões violou e recomendações incumpriu. Agora, o genocídio em Gaza e a proibição da ajuda humanitária aos que aí vão morrendo de fome, mormente crianças, são a mais trágica e expressiva imagem do que hoje se passa no mundo. Mas não a única, há outras, entre as quais a da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Entretanto, a outro nível, só político, sem “extermínio” ou conflito armado, a imagem mais expressiva deste dramático tempo é Donald Trump: um misto explosivo de sede/ostentação de poder, ausência de formação cívica/cultural e de espírito democrático. De par com outras características, tudo fazendo dele, à frente da maior potência planetária, uma ameaça para o mundo.
E também Trump não é único. Recorde-se, por exemplo, Jair Bolsonaro, que está a ser julgado por tentativa de golpe de Estado – depondo, com um ar cordato, quase de “cordeiro manso”, jurando, contra as evidências, que sempre jogou dentro das “quatro linhas” da Constituição.
Longe e perto, há muitos a apoiar aqueles e outros crimes, numa lamentável passividade ou num indesculpável silêncio a seu respeito. Longe e perto, há quem tenha em Trump um farol: e alguns, se chegados ao poder, poderiam ser ainda piores. O que por um lado é consequência e por outro potencia o clima de ódio, violência, intolerância, mentira, que se vive em várias latitudes. Reduzidos a zero ou à expressão mínima, como estão no Ocidente, regimes criminosos e totalitarismos de sinal oposto, tudo isto se traduz em ressurgimento e ação de grupos nazi-fascistas, e/ou crescimento exponencial de uma extrema-direita que às vezes deles se aproxima e sempre lhes constitui fator propício.
Vêm estas obviedades, que não resisti a trazer à colação, para “enquadrar” os recentes atos de violência e as ameaças de cariz fascista, racista, que ocorreram também entre nós. Enquanto nos EUA, além do resto, uma senadora democrata e o marido são assassinados por um desses “produtos” extremos do terrível momento que atravessamos. E a que se impõe resistir, cujas causas é imperioso combater.
De facto, não é tolerável mais a complacência, a passividade, a inação. As diferenças entre direita e esquerda continuam a existir, embora não as mesmas do passado. Mas na atual situação a primeira clara clivagem, e a primeira linha do combate, em todas as frentes, deve ser, tem de ser, entre os que defendem a democracia e os que querem destruí-la; entre os que advogam a tolerância, o respeito pelos outros, e os semeadores de ódio; entre o humanismo e a lei da selva; entre a decência e a indecência.
E quando se praticam crimes como os referidos, que líderes políticos e mentores ideológicos daqueles setores extremistas se veem obrigados a condenar, não podem alijar a sua responsabilidade na criação da situação e do clima de ódio em que se inserem, ou que poderão estar mesmo na sua base.
Começar a “agir”
No quadro do combate a que se refere o texto, uma das primeiras medidas indispensáveis é aprovar uma legislação que permita evitar, quanto possível, a ação criminosa dos grupos que ali se referem, bem como a impunidade de que atualmente gozam os que mentem, insultam, difamam, através das redes sociais. Não sou frequentador, mas pelo que leio é verificação/opinião unânime ser assim – e não poder continuar assim.
No Brasil o Supremo Tribunal Federal acaba de tomar, quase por unanimidade, uma importante decisão nesse domínio, para a qual remeto os governantes e legisladores portugueses. Também concordo com o que Pedro Marques Lopes diz no seu magnífico texto da nossa última edição.
Tem-se falado muito da “reflexão” necessária após os resultados das legislativas. Os responsáveis pelas televisões são dos que mais precisam de “refletir”, e mudar. Mas há muito mais.
Israel deixa de acreditar na capacidade de se consertar
Dias atrás, com Israel espremido entre a glorificação de sua soberania militar e a angústia de viver em nova frente de guerra, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tentou uma abordagem churchilliana para falar à nação. O pronunciamento se pretendeu solene. Teve como pano de fundo o hospital Soroka de Beersheva, atingido pouco antes por um míssil iraniano que causou ferimentos e danos.
— Isso evoca o povo britânico durante a blitz — proclamou “Bibi”, referindo-se à chuva de bombas nazistas sobre o Reino Unido na Segunda Guerra.
Pediu sacrifícios. Para não variar, isso resulta em desastre. Desde o 13 de maio de 1940, todo líder de guerra que fala em sacrifícios se sente rugindo como o leão Winston Churchill na Câmara dos Comuns:
— Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor...
O que ofereceu Netanyahu ao país que governa há 17 anos? Um sacrifício familiar que julgou à altura do momento histórico:
— Cada um de nós carrega um custo pessoal, e nossa família não é exceção. Esta é a segunda vez que o casamento de meu filho Avner foi cancelado por ameaças de mísseis. O custo pessoal para sua noiva também é grande.
Para piorar o que já era péssimo, ele ainda ressaltou o heroísmo da noiva, Ruth, por carregar o fardo do adiamento nupcial.
Tamanha insensibilidade deixou em choque os familiares dos reféns ainda em mãos do Hamas. Inutilmente indignados também ficaram os ruidosos opositores do governo. Tudo em vão. Enquanto o país for liderado por um narcisista sem freios como Netanyahu, Israel continuará sua insana marcha de afirmação pela força.
A marcha é insana porque, como escreveu o historiador israelense Amit Varshizky em ensaio de 2024, “uma sociedade tão indiferente à morte e à destruição já perdeu a guerra”. O acadêmico, que pesquisa nazismo e antissemitismo na universidade alemã de Iena, analisa a perda de compasso moral da sociedade israelense. Uma parcela dessa erosão Israel traz do nascedouro. O país fundado sobre o trauma histórico do Holocausto, que se viu compelido a lutar pela existência desde o primeiro dia, se transformou numa entidade espartana que santifica a força, argumenta Varshizky. A política sempre girou em torno de um único princípio central: a segurança. Seus sucessivos governos foram eleitos e derrubados com base no sentimento de segurança que conseguiam incutir à população. O compasso moral foi se perdendo quando a força por instinto de sobrevivência passou a princípio definidor da sociedade.
— A catástrofe já aconteceu — sustenta Varshizky, apontando especificamente para a desumanização de Gaza. — A questão agora é saber como Israel se erguerá das cinzas.
Ultimamente as cinzas parecem se acumular. Foi pelas telas do extremista Canal 14, cuja notoriedade cresceu a partir do ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que o radialista Elad Barashi postou incendiária arenga nas redes sociais, semanas atrás:
— Gaza merece morrer. Merecem a morte. Homens, mulheres e crianças, de todas as formas possíveis. Devemos simplesmente executar um Holocausto neles. Sim, podem ler de novo, H-O-L-O-C-A-U-S-T-O. Se depender de mim, câmaras de gás. Trens da morte. E quaisquer outras formas de morte cruel. Sem medo nem hesitação. Sem problemas de consciência nem misericórdia.
Pois é de misericórdia e problemas de consciência que Israel mais necessita no momento — armas, inclusive nucleares, e resiliência o país já tem de sobra. Coube ao jornalista Etan Nechin, correspondente em Nova York do diário israelense Haaretz, fazer um relato contundente de recente viagem com o filho ao país natal. Observou uma sociedade que vive uma fantasia:
— Donald Trump trará os reféns de volta, o Irã entrará em colapso, os palestinos de Gaza sumirão, despachados para Somália ou Finlândia. Alguma coisa acontecerá. Qualquer coisa, exceto olharmos para dentro de nós mesmos.
Pelo seu relato, os israelenses vivem em estado de gangorra maníaco-depressiva: ora estão como que afundados nos túneis que aprisionam os reféns ainda vivos, ora tagarelam, eufóricos, com a mais recente salva de mísseis certeiros no Irã.
— Os dias se arrastam — escreve Nechin. — Vão de uma passeata à próxima, de um refém a outro, um soldado israelense morto, mais quatro, um cessar-fogo começa e acaba, delegações de negociadores chegam e partem de Doha, mísseis são disparados. Nada muda. Talvez sejamos salvos de novo pelo Domo de Ferro.
Mas será uma vitória que terá gosto de colapso. Colapso de uma sociedade que deixou de acreditar em sua capacidade de se consertar por dentro.
— Isso evoca o povo britânico durante a blitz — proclamou “Bibi”, referindo-se à chuva de bombas nazistas sobre o Reino Unido na Segunda Guerra.
Pediu sacrifícios. Para não variar, isso resulta em desastre. Desde o 13 de maio de 1940, todo líder de guerra que fala em sacrifícios se sente rugindo como o leão Winston Churchill na Câmara dos Comuns:
— Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor...
O que ofereceu Netanyahu ao país que governa há 17 anos? Um sacrifício familiar que julgou à altura do momento histórico:
— Cada um de nós carrega um custo pessoal, e nossa família não é exceção. Esta é a segunda vez que o casamento de meu filho Avner foi cancelado por ameaças de mísseis. O custo pessoal para sua noiva também é grande.
Para piorar o que já era péssimo, ele ainda ressaltou o heroísmo da noiva, Ruth, por carregar o fardo do adiamento nupcial.
Tamanha insensibilidade deixou em choque os familiares dos reféns ainda em mãos do Hamas. Inutilmente indignados também ficaram os ruidosos opositores do governo. Tudo em vão. Enquanto o país for liderado por um narcisista sem freios como Netanyahu, Israel continuará sua insana marcha de afirmação pela força.
A marcha é insana porque, como escreveu o historiador israelense Amit Varshizky em ensaio de 2024, “uma sociedade tão indiferente à morte e à destruição já perdeu a guerra”. O acadêmico, que pesquisa nazismo e antissemitismo na universidade alemã de Iena, analisa a perda de compasso moral da sociedade israelense. Uma parcela dessa erosão Israel traz do nascedouro. O país fundado sobre o trauma histórico do Holocausto, que se viu compelido a lutar pela existência desde o primeiro dia, se transformou numa entidade espartana que santifica a força, argumenta Varshizky. A política sempre girou em torno de um único princípio central: a segurança. Seus sucessivos governos foram eleitos e derrubados com base no sentimento de segurança que conseguiam incutir à população. O compasso moral foi se perdendo quando a força por instinto de sobrevivência passou a princípio definidor da sociedade.
— A catástrofe já aconteceu — sustenta Varshizky, apontando especificamente para a desumanização de Gaza. — A questão agora é saber como Israel se erguerá das cinzas.
Ultimamente as cinzas parecem se acumular. Foi pelas telas do extremista Canal 14, cuja notoriedade cresceu a partir do ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que o radialista Elad Barashi postou incendiária arenga nas redes sociais, semanas atrás:
— Gaza merece morrer. Merecem a morte. Homens, mulheres e crianças, de todas as formas possíveis. Devemos simplesmente executar um Holocausto neles. Sim, podem ler de novo, H-O-L-O-C-A-U-S-T-O. Se depender de mim, câmaras de gás. Trens da morte. E quaisquer outras formas de morte cruel. Sem medo nem hesitação. Sem problemas de consciência nem misericórdia.
Pois é de misericórdia e problemas de consciência que Israel mais necessita no momento — armas, inclusive nucleares, e resiliência o país já tem de sobra. Coube ao jornalista Etan Nechin, correspondente em Nova York do diário israelense Haaretz, fazer um relato contundente de recente viagem com o filho ao país natal. Observou uma sociedade que vive uma fantasia:
— Donald Trump trará os reféns de volta, o Irã entrará em colapso, os palestinos de Gaza sumirão, despachados para Somália ou Finlândia. Alguma coisa acontecerá. Qualquer coisa, exceto olharmos para dentro de nós mesmos.
Pelo seu relato, os israelenses vivem em estado de gangorra maníaco-depressiva: ora estão como que afundados nos túneis que aprisionam os reféns ainda vivos, ora tagarelam, eufóricos, com a mais recente salva de mísseis certeiros no Irã.
— Os dias se arrastam — escreve Nechin. — Vão de uma passeata à próxima, de um refém a outro, um soldado israelense morto, mais quatro, um cessar-fogo começa e acaba, delegações de negociadores chegam e partem de Doha, mísseis são disparados. Nada muda. Talvez sejamos salvos de novo pelo Domo de Ferro.
Mas será uma vitória que terá gosto de colapso. Colapso de uma sociedade que deixou de acreditar em sua capacidade de se consertar por dentro.
sábado, 21 de junho de 2025
Atrás da cortina
Em média, um cidadão europeu consome, em cada ano, 30 000 kW de energia. Um americano, mais do dobro. O número per se é difícil de alcançar ‒ não é tangível. Numa tentativa de materializar o valor, fazem-se cálculos. Um dos mais expressivos é calcular em força humana o que tal significa. O que representaria ter as mesmas comodidades, sem energia barata, mas apenas com força braçal. Cada europeu teria, no mínimo, ao seu serviço 500 homens, 10 horas por dia… segundo estimativas conservadoras.
Multiplique-se esse valor por milhões de pessoas e não admira que estejamos a viver uma catástrofe climática (ora que os termos “aquecimento global” ou “alterações climáticas” nos parecem eufemismos, quando diariamente nos chega mais uma notícia de uma inundação de proporções bíblicas ou de um glaciar que colapsou sobre uma aldeia nos Alpes).
Este consumo de energia está agora à beira de aumentar exponencialmente em resultado da Inteligência Artificial e, de acordo com a informação mais recente, não será com energia limpa. Estima-se que alimentar os data centers ‒ onde são treinados os modelos de LLM (Large Language Models) e processados os pedidos dos utilizadores – implicará, até 2028, um aumento de 20% do consumo de energia, só nos Estados Unidos da América. Embora as Big Tech anunciem o seu compromisso com a neutralidade carbónica nas próximas décadas, tal não é coerente com os projetos de construção de centrais de gás natural em marcha, para garantir uma utilização 24 horas, 7 dias por semana. E sendo certo que em média tais centrais têm uma vida útil de 30 anos, irão certamente manter-se em funcionamento, mesmo que no entretanto as centrais nucleares planeadas sejam efetivamente construídas. Curiosamente, a energia nuclear é agora apresentada como “limpa” e “segura”, não obstante os problemas conhecidos com o tratamento dos resíduos em Fukushima e Chernobyl serem acontecimentos relativamente recentes, cujas regiões continuarão, para sempre, como zonas interditas, dado os níveis de radiação.
Mas é inevitável que assim seja? Na verdade, não. É um tema de planeamento de fontes de produção e regras de utilização. A produção elétrica encontra-se dimensionada para os picos de utilização e, em média, apenas 53% da energia produzida é efetivamente utilizada. Igualmente os picos de grande intensidade de utilização não representam mais de 80 a 90 horas ao longo do ano (dados do Electric Power Research Institute – um centro de investigação norte-americano).
Um estudo recente, da Duke University, demonstra que uma utilização mais flexível da energia pelos data centers permitiria absorver o aumento do consumo, sem aumentar significativamente a capacidade de produção. Mas para tal será necessário os reguladores intervirem, pois as Big Tech insistem em poder oferecer os seus serviços 24 horas, 7 dias por semana, sem flutuações, interrupções ou limitações. Mas sendo a segurança energética e a sustentabilidade climática um problema de todos, é razoável que as políticas de produção energética sejam determinadas por um número restrito de empresas, apostadas apenas em maximizar o lucro?
A Europa prepara-se para investir na sua própria infraestrutura de data centers, de forma a treinar os seus modelos LLM (assegurando autonomia estratégica), e as Big Tech norte-americanas já anunciaram investimentos nos seus data centers localizados na Europa. É, por isso, fundamental assegurar que tal não implicará um aumento do consumo de energia fóssil que ponha em causa os compromissos de descarbonização. Igualmente importa compreender como será determinada a tarifa aplicável às Big Tech. Nos EUA, as Big Tech estão a celebrar contratos privados de forma a garantir tarifas especiais, na prática, transferindo para o retalho o custo das novas estruturas. Importa exigir transparência na efetiva energia consumida (a treinar modelos, a responder a questões, a gerar fotos e vídeos) e regular as fontes de energia, de forma a planear adequadamente; agora que a utilização da Inteligência Artificial se torna cada vez mais presente e o seu uso impossível de evitar.
Multiplique-se esse valor por milhões de pessoas e não admira que estejamos a viver uma catástrofe climática (ora que os termos “aquecimento global” ou “alterações climáticas” nos parecem eufemismos, quando diariamente nos chega mais uma notícia de uma inundação de proporções bíblicas ou de um glaciar que colapsou sobre uma aldeia nos Alpes).
Este consumo de energia está agora à beira de aumentar exponencialmente em resultado da Inteligência Artificial e, de acordo com a informação mais recente, não será com energia limpa. Estima-se que alimentar os data centers ‒ onde são treinados os modelos de LLM (Large Language Models) e processados os pedidos dos utilizadores – implicará, até 2028, um aumento de 20% do consumo de energia, só nos Estados Unidos da América. Embora as Big Tech anunciem o seu compromisso com a neutralidade carbónica nas próximas décadas, tal não é coerente com os projetos de construção de centrais de gás natural em marcha, para garantir uma utilização 24 horas, 7 dias por semana. E sendo certo que em média tais centrais têm uma vida útil de 30 anos, irão certamente manter-se em funcionamento, mesmo que no entretanto as centrais nucleares planeadas sejam efetivamente construídas. Curiosamente, a energia nuclear é agora apresentada como “limpa” e “segura”, não obstante os problemas conhecidos com o tratamento dos resíduos em Fukushima e Chernobyl serem acontecimentos relativamente recentes, cujas regiões continuarão, para sempre, como zonas interditas, dado os níveis de radiação.
Mas é inevitável que assim seja? Na verdade, não. É um tema de planeamento de fontes de produção e regras de utilização. A produção elétrica encontra-se dimensionada para os picos de utilização e, em média, apenas 53% da energia produzida é efetivamente utilizada. Igualmente os picos de grande intensidade de utilização não representam mais de 80 a 90 horas ao longo do ano (dados do Electric Power Research Institute – um centro de investigação norte-americano).
Um estudo recente, da Duke University, demonstra que uma utilização mais flexível da energia pelos data centers permitiria absorver o aumento do consumo, sem aumentar significativamente a capacidade de produção. Mas para tal será necessário os reguladores intervirem, pois as Big Tech insistem em poder oferecer os seus serviços 24 horas, 7 dias por semana, sem flutuações, interrupções ou limitações. Mas sendo a segurança energética e a sustentabilidade climática um problema de todos, é razoável que as políticas de produção energética sejam determinadas por um número restrito de empresas, apostadas apenas em maximizar o lucro?
A Europa prepara-se para investir na sua própria infraestrutura de data centers, de forma a treinar os seus modelos LLM (assegurando autonomia estratégica), e as Big Tech norte-americanas já anunciaram investimentos nos seus data centers localizados na Europa. É, por isso, fundamental assegurar que tal não implicará um aumento do consumo de energia fóssil que ponha em causa os compromissos de descarbonização. Igualmente importa compreender como será determinada a tarifa aplicável às Big Tech. Nos EUA, as Big Tech estão a celebrar contratos privados de forma a garantir tarifas especiais, na prática, transferindo para o retalho o custo das novas estruturas. Importa exigir transparência na efetiva energia consumida (a treinar modelos, a responder a questões, a gerar fotos e vídeos) e regular as fontes de energia, de forma a planear adequadamente; agora que a utilização da Inteligência Artificial se torna cada vez mais presente e o seu uso impossível de evitar.
A vingança dos barões
Em artigo recente, Robert Reich, ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton, desvelou a reiterada ocupação do Estado norte-americano pela oligarquia dos ricaços. Entre perplexo e indignado, Reich escreveu: “Trump escolheu 13 bilionários para seu regime. É o mais rico da história, incluindo a pessoa mais rica do mundo. Eles e Trump fazem parte da oligarquia norte-americana.”
Reich identifica o predomínio econômico-político dos mais ricos desde a fundação da República. “Muitos dos homens que fundaram os Estados Unidos eram oligarcas brancos escravistas. A maioria dos brancos era composta de agricultores, servos contratados, trabalhadores rurais, comerciantes, diaristas e artesãos. Um quinto da população norte-americana era negra, quase toda escravizada.”
O democrata prossegue. Entre o fim do século XIX e o início do XX, escreve, “emergiu a nova oligarquia norte-americana, composta de ricaços que acumularam fortunas por meio de seus impérios ferroviário, siderúrgico, petrolífero e financeiro – homens como John Pierpont Morgan, John D. Rockefeller, Andrew Carnegie, Cornelius Vanderbilt e Andrew Mellon. Foi chamada de Era Dourada”.
Os ricaços corromperam o governo, suprimiram brutalmente os salários, geraram níveis sem precedentes de desigualdade e pobreza urbana, saquearam rivais, eliminaram concorrentes e se comportaram como bandidos, por isso ganharam o apelido de “barões ladrões”. A Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão da década de 1930 corroeram a maior parte da riqueza dos barões ladrões e grande parte de seu poder foi eliminado com as reeleições de Franklin Delano Roosevelt.
Roosevelt enfrentou com coragem e sabedoria a Grande Depressão. Em seu discurso de 1936, proferido na campanha para a primeira reeleição, desferiu ataques aos poderes da oligarquia, poderes que precipitaram a crise de 1929. “Mais da metade da riqueza corporativa do país estava sob o controle de menos de 200 grandes corporações”, afirmou. “Isso não é tudo. Essas grandes corporações, em alguns casos, nem tentaram competir entre si. Eles próprios estavam conectados por diretores, banqueiros e advogados interligados. Essa concentração de riqueza e poder foi construída sobre o dinheiro de outras pessoas, os negócios de outras pessoas, o trabalho de outras pessoas. Sob essa concentração, os negócios independentes só podiam existir por sofrimento. Tem sido uma ameaça ao sistema social, bem como ao sistema econômico que chamamos de democracia norte-americana.”
Roosevelt dizia que a moderna civilização, depois de demolir as velhas dinastias, erigiu outras. “Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital – nada disso foi sonhado pelos fundadores da pátria –, a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema norte-americano de livre-iniciativa e busca do lucro.”
Ficou exposta a fratura entre a “classe financeira” de Wall Street, as carências da indústria e os interesses da grande maioria da população, barbaramente maltratada pelo desemprego.
No New Deal, o poder e o prestígio de Wall Street chegaram ao fundo do poço, como atestam as seguidas manifestações iradas contra a ganância dos banqueiros. Roosevelt atacou os “príncipes privilegiados” das novas dinastias econômicas. “Sedentas de poder, elas se lançaram ao controle do governo. Criaram um novo despotismo envolvido nas roupagens da legalidade. Mercenários a seu serviço trataram de submeter o povo, seu trabalho e sua propriedade.”
A política econômica de Roosevelt significou a vitória do indivíduo-cidadão sobre o individualismo selvagem dos que se enriqueceram à farta nos ciclos anteriores de prosperidade. O cidadão-trabalhador não deveria mais ficar à mercê das idiossincrasias do mercado, dos caprichos do processo de concorrência. A sindicalização incentivada por Roosevelt impulsionou a elevação dos salários reais e, ao mesmo tempo, o Social Security Act de 1935 passou a proteger os mais débeis “dos sérios problemas criados pela insegurança econômica na sociedade industrial”. A elevação da carga tributária e o caráter progressivo dos impostos surrupiaram a renda dos mais ricos.
Donald Trump dedica-se à reconstrução dos poderes da oligarquia econômico-financeira. Esse propósito está se afirmando na destruição das instituições ocupadas em garantir os direitos sociais e econômicos dos menos favorecidos.
Reich identifica o predomínio econômico-político dos mais ricos desde a fundação da República. “Muitos dos homens que fundaram os Estados Unidos eram oligarcas brancos escravistas. A maioria dos brancos era composta de agricultores, servos contratados, trabalhadores rurais, comerciantes, diaristas e artesãos. Um quinto da população norte-americana era negra, quase toda escravizada.”
O democrata prossegue. Entre o fim do século XIX e o início do XX, escreve, “emergiu a nova oligarquia norte-americana, composta de ricaços que acumularam fortunas por meio de seus impérios ferroviário, siderúrgico, petrolífero e financeiro – homens como John Pierpont Morgan, John D. Rockefeller, Andrew Carnegie, Cornelius Vanderbilt e Andrew Mellon. Foi chamada de Era Dourada”.
Os ricaços corromperam o governo, suprimiram brutalmente os salários, geraram níveis sem precedentes de desigualdade e pobreza urbana, saquearam rivais, eliminaram concorrentes e se comportaram como bandidos, por isso ganharam o apelido de “barões ladrões”. A Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão da década de 1930 corroeram a maior parte da riqueza dos barões ladrões e grande parte de seu poder foi eliminado com as reeleições de Franklin Delano Roosevelt.
Roosevelt enfrentou com coragem e sabedoria a Grande Depressão. Em seu discurso de 1936, proferido na campanha para a primeira reeleição, desferiu ataques aos poderes da oligarquia, poderes que precipitaram a crise de 1929. “Mais da metade da riqueza corporativa do país estava sob o controle de menos de 200 grandes corporações”, afirmou. “Isso não é tudo. Essas grandes corporações, em alguns casos, nem tentaram competir entre si. Eles próprios estavam conectados por diretores, banqueiros e advogados interligados. Essa concentração de riqueza e poder foi construída sobre o dinheiro de outras pessoas, os negócios de outras pessoas, o trabalho de outras pessoas. Sob essa concentração, os negócios independentes só podiam existir por sofrimento. Tem sido uma ameaça ao sistema social, bem como ao sistema econômico que chamamos de democracia norte-americana.”
Roosevelt dizia que a moderna civilização, depois de demolir as velhas dinastias, erigiu outras. “Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital – nada disso foi sonhado pelos fundadores da pátria –, a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema norte-americano de livre-iniciativa e busca do lucro.”
Ficou exposta a fratura entre a “classe financeira” de Wall Street, as carências da indústria e os interesses da grande maioria da população, barbaramente maltratada pelo desemprego.
No New Deal, o poder e o prestígio de Wall Street chegaram ao fundo do poço, como atestam as seguidas manifestações iradas contra a ganância dos banqueiros. Roosevelt atacou os “príncipes privilegiados” das novas dinastias econômicas. “Sedentas de poder, elas se lançaram ao controle do governo. Criaram um novo despotismo envolvido nas roupagens da legalidade. Mercenários a seu serviço trataram de submeter o povo, seu trabalho e sua propriedade.”
A política econômica de Roosevelt significou a vitória do indivíduo-cidadão sobre o individualismo selvagem dos que se enriqueceram à farta nos ciclos anteriores de prosperidade. O cidadão-trabalhador não deveria mais ficar à mercê das idiossincrasias do mercado, dos caprichos do processo de concorrência. A sindicalização incentivada por Roosevelt impulsionou a elevação dos salários reais e, ao mesmo tempo, o Social Security Act de 1935 passou a proteger os mais débeis “dos sérios problemas criados pela insegurança econômica na sociedade industrial”. A elevação da carga tributária e o caráter progressivo dos impostos surrupiaram a renda dos mais ricos.
Donald Trump dedica-se à reconstrução dos poderes da oligarquia econômico-financeira. Esse propósito está se afirmando na destruição das instituições ocupadas em garantir os direitos sociais e econômicos dos menos favorecidos.
sexta-feira, 20 de junho de 2025
Esta é a história de como se começa a perder a democracia: eu vi, ninguém me contou
São quase oito da noite, na Place de la République, no centro de Paris. É um final de tarde quente e as esplanadas em torno da estátua da Marianne, borbulham de vida e animação. Quando me aproximo da imagem da República Francesa, saltam-me à vista as pichagens que lhe mancham a pedra. Só então reparo que a placa central da praça tem um cordão de polícias de choque, parados à sua volta. Por entre eles vão passando jovens com lenços palestinianos ou bandeiras da Palestina. Cumprimentam-se à medida que se dirigem para a rua que fica mesmo em frente do local cercado pelos polícias. Uma das raparigas, que traz ao pescoço uma máscara antigás pimenta amarela, cumprimenta efusivamente um rapaz que, como ela, se aproxima de um grupo de manifestantes que não chegará aos 60. Juntos dizem vivas à Palestina e pedem a sua libertação, em Francês, Inglês e Espanhol. E aí ficam. Gritando e saltando ao ritmo das palavras de ordem.
Começa, então, a sentir-se a tensão subir. Os jovens continuam nos seus cânticos animados. Mas os polícias começam a convergir das bordas da praça para o centro. Chegam mais polícias. São todos muito jovens, mas ainda assim mais velhos do que os manifestantes. Reparo num rapaz de barbas ruivas, cuidadosamente aparadas, que comenta a cena com outro polícia moreno, enquanto se aproximam devagar, mas decididamente, para a pequena manifestação pacífica que decorre a poucos metros.
Há sensação de que está a alguma coisa para acontecer. Os polícias medem nas mãos os cassetetes e avançam. É como se estivesse prestes a começar uma caçada. Estão cada vez mais tensos. E começam a surgir mais polícias, vindos de todos os cantos da praça.
Quando são já mais de uma centena, os que estavam no centro da praça disparam a correr. À sua frente, o punhado de manifestantes para os cânticos e começa a fugir. A sua corrida instiga os polícias, que passam por mim num galope desenfreado. Os cassetetes em riste, que alguns metros à frente caem sobre as costas desprotegidas dos jovens. Vejo-os fugir em várias direções, perseguidos por agentes a pé, ao mesmo tempo que umas duas dezenas de motas, cada uma das quais com dois polícias em cima, se aproxima da praça.
Fujo também, evitando correr, com medo de ser confundida com um dos manifestantes e acabar como eles, espancada pelos polícias que agora já têm capacetes e, em alguns casos, máscaras negras a cobrir-lhes a face. Ando devagar, mas firmemente. Tão firmemente quanto me é possível, agora que as pernas me tremem e o coração se acelera.
À minha volta, nas esplanadas a vida segue. Bebem-se copos de final da tarde, petisca-se qualquer coisa nas brasseries. Não tenho sequer a coragem de olhar para trás. Não quero ver ao vivo as cenas de violência e repressão policial que quase todos os dias me aparecem nos vídeos do Instagram, mas que só agora presencio ao vivo, vendo do princípio ao fim toda a cena. Vendo o suficiente para afirmar, com a certeza de quem viu e ninguém lhe contou, que não houve provocações nem violência dos manifestantes.
À medida que me afasto da praça, com as pernas bambas, há uma ideia que não me sai da cabeça. Não havia um único jornalista presente. Não havia uma câmara, um microfone, nada, a não ser um videografo que estava claramente com os manifestantes, certamente para fazer um daqueles vídeos com que me deparo uma e outra vez nas redes sociais e em relação aos quais há sempre alguém que diz que a cena está descontextualizada, que a violência policial é justificada com as provocações de quem se manifesta.
Não há um único jornalista a registar a cena. E isso não me sai da cabeça enquanto me afasto.
No dia seguinte, um taxista reage com indiferença à pergunta sobre o incidente. “É assim todos os sábados”, responde com um encolher de ombros. E a resposta encaixa bem no ar coreografado da cena que vi. Os caçadores e os caçados, cientes desde o início dos papéis que lhes cabem, prontos para encenar uma e outra vez o momento em que uns atacam e os outros fogem, em que uns protestam e os outros batem.
E a violência policial? Era um punhado de gente pacífica, não fizeram nada de mal. “Oh, isto é a França”, reage o taxista. “Isto não é o Brasil. Vocês são do Brasil, não são?”. Não, não somos. “Bem, então, isto não é Portugal”. Calo-me. Por quanto mais tempo isto não será assim em Portugal?
Penso na vez em que, ao atravessar a Alameda com os meus filhos, passámos pelo meio de uma manifestação pela paz na Palestina. O relvado estava cheio de famílias, algumas com carrinhos de bebés, outras com crianças que brincavam entre os cartazes, enquanto os pais conversavam descontraidamente. Expliquei aos miúdos os cartazes e as bandeiras e passámos por dois polícias, que assistiam à cena de braços cruzados, junto a um carro-patrulha, que entusiasmou muito mais as crianças do que a manifestação. “Podemos tirar uma fotografia?”, perguntaram. A resposta foi um sorriso do agente, que se pôs em pose para o retrato.
“Bem, então, isto não é Portugal”, dizia o taxista. E a questão é também essa. É que a cena que eu vi não é na China nem na Rússia. É num dos berços das democracias representativas ocidentais. É em França. Não é na Coreia do Norte. É em França. É em França, repito para mim mesma.
Podemos encontrar todas as explicações que quisermos. Mas não podemos negar que aquela demonstração de força policial não serve para controlar o punhado de miúdos que gritava pela Palestina. Não seriam precisos tantos meios para o fazer. Menos de metade dos polícias serviria bem esse propósito. Não. O que ali está em jogo é uma ação de comunicação. Fica bem evidente o preço a pagar por divergir do que o Estado entende ser uma posição aceitável.
Aqueles jovens sabem bem ao que vão. E os que estão nas esplanadas estão a ser instruídos a ignorar o que se passa. Acontece todos os sábados. E não há nenhum jornalista presente. É claro que o que se passa em Gaza deve ser silenciado e é claro o preço que se paga por defender o contrário.
Um dos pilares da democracia ocidental é a liberdade de expressão e de manifestação. E é isso que está em erosão. As sucessivas crises, a ideia de estado de exceção, abriram caminho para que a força musculada do Estado seja usada para reprimir direitos que achávamos adquiridos. Está tudo a acontecer à nossa frente. Mas, claro, escolhemos não olhar. Talvez até ao dia que nos bata à porta. Talvez até ao dia em que não seja preciso ter a coragem daqueles miúdos para levar com cassetetes nos lombos.
A Marianne continua lá. Tem, sob os pés inscritas na pedra a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Mas a divisa parece, cada vez mais, uma letra morta. Um refrão que já quer dizer pouco.
Começa, então, a sentir-se a tensão subir. Os jovens continuam nos seus cânticos animados. Mas os polícias começam a convergir das bordas da praça para o centro. Chegam mais polícias. São todos muito jovens, mas ainda assim mais velhos do que os manifestantes. Reparo num rapaz de barbas ruivas, cuidadosamente aparadas, que comenta a cena com outro polícia moreno, enquanto se aproximam devagar, mas decididamente, para a pequena manifestação pacífica que decorre a poucos metros.
Há sensação de que está a alguma coisa para acontecer. Os polícias medem nas mãos os cassetetes e avançam. É como se estivesse prestes a começar uma caçada. Estão cada vez mais tensos. E começam a surgir mais polícias, vindos de todos os cantos da praça.
Quando são já mais de uma centena, os que estavam no centro da praça disparam a correr. À sua frente, o punhado de manifestantes para os cânticos e começa a fugir. A sua corrida instiga os polícias, que passam por mim num galope desenfreado. Os cassetetes em riste, que alguns metros à frente caem sobre as costas desprotegidas dos jovens. Vejo-os fugir em várias direções, perseguidos por agentes a pé, ao mesmo tempo que umas duas dezenas de motas, cada uma das quais com dois polícias em cima, se aproxima da praça.
Fujo também, evitando correr, com medo de ser confundida com um dos manifestantes e acabar como eles, espancada pelos polícias que agora já têm capacetes e, em alguns casos, máscaras negras a cobrir-lhes a face. Ando devagar, mas firmemente. Tão firmemente quanto me é possível, agora que as pernas me tremem e o coração se acelera.
À minha volta, nas esplanadas a vida segue. Bebem-se copos de final da tarde, petisca-se qualquer coisa nas brasseries. Não tenho sequer a coragem de olhar para trás. Não quero ver ao vivo as cenas de violência e repressão policial que quase todos os dias me aparecem nos vídeos do Instagram, mas que só agora presencio ao vivo, vendo do princípio ao fim toda a cena. Vendo o suficiente para afirmar, com a certeza de quem viu e ninguém lhe contou, que não houve provocações nem violência dos manifestantes.
À medida que me afasto da praça, com as pernas bambas, há uma ideia que não me sai da cabeça. Não havia um único jornalista presente. Não havia uma câmara, um microfone, nada, a não ser um videografo que estava claramente com os manifestantes, certamente para fazer um daqueles vídeos com que me deparo uma e outra vez nas redes sociais e em relação aos quais há sempre alguém que diz que a cena está descontextualizada, que a violência policial é justificada com as provocações de quem se manifesta.
Não há um único jornalista a registar a cena. E isso não me sai da cabeça enquanto me afasto.
No dia seguinte, um taxista reage com indiferença à pergunta sobre o incidente. “É assim todos os sábados”, responde com um encolher de ombros. E a resposta encaixa bem no ar coreografado da cena que vi. Os caçadores e os caçados, cientes desde o início dos papéis que lhes cabem, prontos para encenar uma e outra vez o momento em que uns atacam e os outros fogem, em que uns protestam e os outros batem.
E a violência policial? Era um punhado de gente pacífica, não fizeram nada de mal. “Oh, isto é a França”, reage o taxista. “Isto não é o Brasil. Vocês são do Brasil, não são?”. Não, não somos. “Bem, então, isto não é Portugal”. Calo-me. Por quanto mais tempo isto não será assim em Portugal?
Penso na vez em que, ao atravessar a Alameda com os meus filhos, passámos pelo meio de uma manifestação pela paz na Palestina. O relvado estava cheio de famílias, algumas com carrinhos de bebés, outras com crianças que brincavam entre os cartazes, enquanto os pais conversavam descontraidamente. Expliquei aos miúdos os cartazes e as bandeiras e passámos por dois polícias, que assistiam à cena de braços cruzados, junto a um carro-patrulha, que entusiasmou muito mais as crianças do que a manifestação. “Podemos tirar uma fotografia?”, perguntaram. A resposta foi um sorriso do agente, que se pôs em pose para o retrato.
“Bem, então, isto não é Portugal”, dizia o taxista. E a questão é também essa. É que a cena que eu vi não é na China nem na Rússia. É num dos berços das democracias representativas ocidentais. É em França. Não é na Coreia do Norte. É em França. É em França, repito para mim mesma.
Podemos encontrar todas as explicações que quisermos. Mas não podemos negar que aquela demonstração de força policial não serve para controlar o punhado de miúdos que gritava pela Palestina. Não seriam precisos tantos meios para o fazer. Menos de metade dos polícias serviria bem esse propósito. Não. O que ali está em jogo é uma ação de comunicação. Fica bem evidente o preço a pagar por divergir do que o Estado entende ser uma posição aceitável.
Aqueles jovens sabem bem ao que vão. E os que estão nas esplanadas estão a ser instruídos a ignorar o que se passa. Acontece todos os sábados. E não há nenhum jornalista presente. É claro que o que se passa em Gaza deve ser silenciado e é claro o preço que se paga por defender o contrário.
Um dos pilares da democracia ocidental é a liberdade de expressão e de manifestação. E é isso que está em erosão. As sucessivas crises, a ideia de estado de exceção, abriram caminho para que a força musculada do Estado seja usada para reprimir direitos que achávamos adquiridos. Está tudo a acontecer à nossa frente. Mas, claro, escolhemos não olhar. Talvez até ao dia que nos bata à porta. Talvez até ao dia em que não seja preciso ter a coragem daqueles miúdos para levar com cassetetes nos lombos.
A Marianne continua lá. Tem, sob os pés inscritas na pedra a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Mas a divisa parece, cada vez mais, uma letra morta. Um refrão que já quer dizer pouco.
Quer perguntar? Primeiro, peça licença
Nas democracias, os jornalistas gritam em conferências de imprensa. Querem que a sua pergunta seja ouvida – e respondida – e gritam.
É um pouco selvagem, mas é prática comum.
Vemos isso no Reino Unido, em França ou nos EUA, às vezes também em Portugal, mas pouco, e em todos os países com tradição e hábitos democráticos. Por contraste, nas ditaduras, das duas uma: não há perguntas ou, se há, são ordeiras, simpáticas e obedientes.
Esta semana, Chris Sommerfeldt, que “faz” Câmara Municipal de Nova Iorque para o tablóide Daily News – ou seja, cobre todas as reuniões de câmara e conferências de imprensa, tem fontes que vão do porteiro ao chefe de gabinete do mayor e procura notícias sobre a câmara todos os dias – tentou fazer uma pergunta a Eric Adams, presidente da câmara de Nova Iorque, e gritou:
– Se só pode escolher uma…
Conseguiu meia frase ou nem isso. O jornalista interrompeu o mayor e, em resposta, o mayor interrompeu o jornalista.
Adams tinha acabado de dizer que vai recandidatar-se como independente – e não como democrata – concorrendo com duas entradas no boletim de voto: End Anti Semitism e Safe & Affordable.
Tendo já sido debatido nos media nova-iorquinos o facto de a lei eleitoral do estado de Nova Iorque exigir que os candidatos tenham uma única linha no boletim de voto, o jornalista interrompeu e tentou fazer a tal pergunta.
Ao que o mayor respondeu:
– Estás a gritar muito, Chris – disse “com uma voz provocadora e cantada”, na descrição do New York Times. – Pára de gritar. Deves ter feito isso na escola.
Diz ainda o New York Times: “O Sr. Sommerfeldt tentou fazer a sua pergunta novamente. O Sr. Adams cortou-lhe a palavra. ‘Se ele voltar a fazer isso, não pode vir às nossas conferências’, disse o presidente da Câmara à sua equipa, acrescentando: ‘Não vai entrar nesta conferência, o meu off-topics, e ser desrespeitoso, e gritar, e pensar que faz o que quer. Se voltar a fazer isso, não passará por aquela porta.’ O Sr. Sommerfeldt tentou mais uma vez fazer a pergunta. ‘Ele fê-lo outra vez’, disse o Sr. Adams. ‘Certifiquem-se de que a segurança sabe que ele não pode voltar a entrar nesta sala.'”
Os off-topics são as conferências de imprensa de rotina sem tema fixo ou pré-anunciado, não servindo para comunicar políticas públicas ou comentar um acontecimento. É na rotina dos off-topics que os jornalistas podem perguntar aos políticos o que querem, sem serem cortados com um “não foi isso que nos trouxe aqui hoje”.
No fim da conferência de imprensa, Kayla Mamelak Altus, porta-voz de Adams, confirmou que Sommerfeldt está a partir de agora impedido de cobrir as conferências de imprensa de Adams. Disse que a proibição não afectava o Daily News em geral, mas Sommerfeldt em particular, que o jornalista fora banido por estar a “calling out”, a gritar perguntas, e a “falar por cima dos outros repórteres”, tendo sido “desrespeitoso”. Altus disse também que o seu objectivo é assegurar que todos os media têm igual acesso ao presidente da Câmara.
Pequeno problema: há três meses que Sommerfeldt levanta o braço para indicar que tem uma pergunta a fazer e há três meses que não lhe dão voz. As conferências off-topics de Adams são semanais – é fazer as contas. A fonte é o jornal, mas repórteres que cobrem a câmara e assistem às repetidas tentativas de Sommerfeldt fazer perguntas confirmaram.
Segundo problema: a porta-voz de Adams disse ao New York Times que não sabia que Sommerfeldt não tinha conseguido fazer nenhuma pergunta há três meses, mas a 5 de Maio houve uma pergunta numa off-topics na qual, justamente, isso lhe foi perguntado: porque é que a câmara não deixa Sommerfeldt fazer perguntas?
“Os nossos repórteres têm o direito a fazer perguntas e os contribuintes não estão a financiar a polícia para manter os repórteres fora das conferências de imprensa da Câmara Municipal”, disse Andrew Julien, director do Daily News. Numa carta dirigida ao presidente da Câmara, o Daily News Union, unidade do News Guild de Nova Iorque, pediu que Adams anule a proibição, disse que Sommerfeldt “estava a fazer o seu trabalho”, que o seu trabalho “não é ficar à espera que lhe dêem autorização para fazer perguntas” e que “a única pessoa que foi desrespeitosa” naquele dia foi Adams.
Um caso grave, mas isolado?
Terceiro problema: não é bem assim.
Em fevereiro, o Presidente Donald Trump abriu um novo capítulo na relação do políticos com os media quando baniu a Associated Press (AP), agência de notícias norte-americana, das conferências de imprensa na Sala Oval.
O bloqueio começou quando a AP continuou a escrever “golfo do México”, ignorando a ordem executiva de Trump que o mudou para “golfo da América”.
Em abril, num tribunal, a AP ganhou – com um juiz nomeado por Trump –, mas logo a seguir, e tendo sido derrotado, Trump mudou a política de acesso dos media à Casa Branca.
Agora, nenhuma das três agências de notícias tem lugar permanente na Sala Oval. A AP, a Reuters e a Bloomberg News passaram a fazer parte da pool de 30 media, incluindo jornais, podcasts, rádios e televisões, cujos lugares rodam.
Em teoria, poder-se-ia dizer que a mudança de Trump acolhe os novos media, mais digitais, alguns chamados “independentes”, e que isso é bom para a democracia.
O problema é que os supostos “independentes” têm-se revelado, sem surpresa, de uma simpatia extrema em relação a Trump. Não é só o facto de elogiarem o Presidente enquanto fazem perguntas nas conferências de imprensa. Grave é que não escrutinam, não verificam, não incomodam.
É um pouco selvagem, mas é prática comum.
Vemos isso no Reino Unido, em França ou nos EUA, às vezes também em Portugal, mas pouco, e em todos os países com tradição e hábitos democráticos. Por contraste, nas ditaduras, das duas uma: não há perguntas ou, se há, são ordeiras, simpáticas e obedientes.
Esta semana, Chris Sommerfeldt, que “faz” Câmara Municipal de Nova Iorque para o tablóide Daily News – ou seja, cobre todas as reuniões de câmara e conferências de imprensa, tem fontes que vão do porteiro ao chefe de gabinete do mayor e procura notícias sobre a câmara todos os dias – tentou fazer uma pergunta a Eric Adams, presidente da câmara de Nova Iorque, e gritou:
– Se só pode escolher uma…
Conseguiu meia frase ou nem isso. O jornalista interrompeu o mayor e, em resposta, o mayor interrompeu o jornalista.
Adams tinha acabado de dizer que vai recandidatar-se como independente – e não como democrata – concorrendo com duas entradas no boletim de voto: End Anti Semitism e Safe & Affordable.
Tendo já sido debatido nos media nova-iorquinos o facto de a lei eleitoral do estado de Nova Iorque exigir que os candidatos tenham uma única linha no boletim de voto, o jornalista interrompeu e tentou fazer a tal pergunta.
Ao que o mayor respondeu:
– Estás a gritar muito, Chris – disse “com uma voz provocadora e cantada”, na descrição do New York Times. – Pára de gritar. Deves ter feito isso na escola.
Diz ainda o New York Times: “O Sr. Sommerfeldt tentou fazer a sua pergunta novamente. O Sr. Adams cortou-lhe a palavra. ‘Se ele voltar a fazer isso, não pode vir às nossas conferências’, disse o presidente da Câmara à sua equipa, acrescentando: ‘Não vai entrar nesta conferência, o meu off-topics, e ser desrespeitoso, e gritar, e pensar que faz o que quer. Se voltar a fazer isso, não passará por aquela porta.’ O Sr. Sommerfeldt tentou mais uma vez fazer a pergunta. ‘Ele fê-lo outra vez’, disse o Sr. Adams. ‘Certifiquem-se de que a segurança sabe que ele não pode voltar a entrar nesta sala.'”
Os off-topics são as conferências de imprensa de rotina sem tema fixo ou pré-anunciado, não servindo para comunicar políticas públicas ou comentar um acontecimento. É na rotina dos off-topics que os jornalistas podem perguntar aos políticos o que querem, sem serem cortados com um “não foi isso que nos trouxe aqui hoje”.
No fim da conferência de imprensa, Kayla Mamelak Altus, porta-voz de Adams, confirmou que Sommerfeldt está a partir de agora impedido de cobrir as conferências de imprensa de Adams. Disse que a proibição não afectava o Daily News em geral, mas Sommerfeldt em particular, que o jornalista fora banido por estar a “calling out”, a gritar perguntas, e a “falar por cima dos outros repórteres”, tendo sido “desrespeitoso”. Altus disse também que o seu objectivo é assegurar que todos os media têm igual acesso ao presidente da Câmara.
Pequeno problema: há três meses que Sommerfeldt levanta o braço para indicar que tem uma pergunta a fazer e há três meses que não lhe dão voz. As conferências off-topics de Adams são semanais – é fazer as contas. A fonte é o jornal, mas repórteres que cobrem a câmara e assistem às repetidas tentativas de Sommerfeldt fazer perguntas confirmaram.
Segundo problema: a porta-voz de Adams disse ao New York Times que não sabia que Sommerfeldt não tinha conseguido fazer nenhuma pergunta há três meses, mas a 5 de Maio houve uma pergunta numa off-topics na qual, justamente, isso lhe foi perguntado: porque é que a câmara não deixa Sommerfeldt fazer perguntas?
“Os nossos repórteres têm o direito a fazer perguntas e os contribuintes não estão a financiar a polícia para manter os repórteres fora das conferências de imprensa da Câmara Municipal”, disse Andrew Julien, director do Daily News. Numa carta dirigida ao presidente da Câmara, o Daily News Union, unidade do News Guild de Nova Iorque, pediu que Adams anule a proibição, disse que Sommerfeldt “estava a fazer o seu trabalho”, que o seu trabalho “não é ficar à espera que lhe dêem autorização para fazer perguntas” e que “a única pessoa que foi desrespeitosa” naquele dia foi Adams.
Um caso grave, mas isolado?
Terceiro problema: não é bem assim.
Em fevereiro, o Presidente Donald Trump abriu um novo capítulo na relação do políticos com os media quando baniu a Associated Press (AP), agência de notícias norte-americana, das conferências de imprensa na Sala Oval.
O bloqueio começou quando a AP continuou a escrever “golfo do México”, ignorando a ordem executiva de Trump que o mudou para “golfo da América”.
Em abril, num tribunal, a AP ganhou – com um juiz nomeado por Trump –, mas logo a seguir, e tendo sido derrotado, Trump mudou a política de acesso dos media à Casa Branca.
Agora, nenhuma das três agências de notícias tem lugar permanente na Sala Oval. A AP, a Reuters e a Bloomberg News passaram a fazer parte da pool de 30 media, incluindo jornais, podcasts, rádios e televisões, cujos lugares rodam.
Em teoria, poder-se-ia dizer que a mudança de Trump acolhe os novos media, mais digitais, alguns chamados “independentes”, e que isso é bom para a democracia.
O problema é que os supostos “independentes” têm-se revelado, sem surpresa, de uma simpatia extrema em relação a Trump. Não é só o facto de elogiarem o Presidente enquanto fazem perguntas nas conferências de imprensa. Grave é que não escrutinam, não verificam, não incomodam.
Um mundo com mais guerras e Trump
Guerra no Oriente Médio suscita discussões estereotipadas a respeito do preço do petróleo, além de especulações sobre a "escalada do conflito", hipótese debatida, no entanto, sob a perspectiva do impacto econômico. É fácil perceber que uma carestia grande e persistente de combustíveis causa dano econômico imediato.
É mais difícil discutir esta situação mundial em que há muito menos meios de contenção do risco de novas guerras muito perigosas —e logo. Torna-se frequente a menção ao uso de armamento nuclear, como voltou a fazer a Rússia, a respeito das consequências de um ataque americano contra o Irã. Trump agrava um estado de coisas degradado faz década e meia.
Pelo menos no núcleo ideológico ou na propaganda, o trumpismo e o MAGA seriam "isolacionistas". Isto é, a favor do corte do financiamento militar de aliados, enxugamento de bases militares no exterior e indiferença a guerras que não envolvam o interesse direto dos EUA.
O "isolacionismo", porém, não é empecilho para novos tipos de intervenções americanas (a anexação da Groenlândia apenas parece piada).
Isto posto, em menos de uma semana de guerra, Trump passou a insinuar que poderia atacar o Irã e matar o dito "líder supremo", Ali Khamenei. Nesta quinta, disse que pensaria melhor no assunto.
Boa parte do trumpismo continua a se opor a um ataque. Segundo pesquisa YouGov/Economist, 60% dos americanos e 53% dos republicanos também.
Um conflito descontrolado pode colocar (mais) areia na economia americana e na popularidade presidencial. São esses os riscos ponderados por Trump? De fora, vemos apenas o "reality show" a serviço do projeto de tirania e nenhuma estratégia de estabilização política do mundo —ao contrário.
O que sabemos faz mais tempo é que os limites do jogo de poder internacional se esfarelaram. Trump espalha essa farofa de maneira mais assustadora.
O conflito sino-americano intensificou o uso de armas econômicas na política: nacionalismo e política industrial nos EUA, restrições a exportações e a investimentos na China e outras sanções, o que não é novo, mas foi escancarado sob Trump. A China ataca e contra-ataca nos mesmos termos. Mais: nos comunicados em que relata negociações comerciais com os EUA, manda que não se metam em Taiwan.
A epidemia havia suscitado reações autárquicas (segurança de abastecimento e produção de bens ditos essenciais ou estratégicos). O ataque da Rússia contra Ucrânia reforçou a preocupação com segurança energética, mas não só (vide o medo brasileiro com o risco de ficar sem fertilizantes).
A Europa começa a se rearmar. O confisco das reservas russas pelo dito Ocidente (entre outras sanções) colocou mais barbas de molho. Para dar um exemplo rápido, a China passou a diminuir as reservas que mantém nos EUA.
Trump arruinou o sistema de regulação comercial mundial, que já vinha sendo detonado desde Barack Obama. Ameaça países recalcitrantes de boicotes econômicos e militares.
O salve-se quem puder na economia tem sido radicalizado (nunca deixou de ser assim). A ideia de ter mais autonomia militar ou de se juntar a um bloco bem armado é assunto forte outra vez. O rearmamento agrava problemas fiscais e, pois, prejudica crescimento e políticas sociais.
Dizer que as instituições multilaterais foram à breca é pouco. Não há concerto de países poderosos, acordo para colocar ordem no mundo, nem segundo os interesses deles.
É mais difícil discutir esta situação mundial em que há muito menos meios de contenção do risco de novas guerras muito perigosas —e logo. Torna-se frequente a menção ao uso de armamento nuclear, como voltou a fazer a Rússia, a respeito das consequências de um ataque americano contra o Irã. Trump agrava um estado de coisas degradado faz década e meia.
Pelo menos no núcleo ideológico ou na propaganda, o trumpismo e o MAGA seriam "isolacionistas". Isto é, a favor do corte do financiamento militar de aliados, enxugamento de bases militares no exterior e indiferença a guerras que não envolvam o interesse direto dos EUA.
O "isolacionismo", porém, não é empecilho para novos tipos de intervenções americanas (a anexação da Groenlândia apenas parece piada).
Isto posto, em menos de uma semana de guerra, Trump passou a insinuar que poderia atacar o Irã e matar o dito "líder supremo", Ali Khamenei. Nesta quinta, disse que pensaria melhor no assunto.
Boa parte do trumpismo continua a se opor a um ataque. Segundo pesquisa YouGov/Economist, 60% dos americanos e 53% dos republicanos também.
Um conflito descontrolado pode colocar (mais) areia na economia americana e na popularidade presidencial. São esses os riscos ponderados por Trump? De fora, vemos apenas o "reality show" a serviço do projeto de tirania e nenhuma estratégia de estabilização política do mundo —ao contrário.
O que sabemos faz mais tempo é que os limites do jogo de poder internacional se esfarelaram. Trump espalha essa farofa de maneira mais assustadora.
O conflito sino-americano intensificou o uso de armas econômicas na política: nacionalismo e política industrial nos EUA, restrições a exportações e a investimentos na China e outras sanções, o que não é novo, mas foi escancarado sob Trump. A China ataca e contra-ataca nos mesmos termos. Mais: nos comunicados em que relata negociações comerciais com os EUA, manda que não se metam em Taiwan.
A epidemia havia suscitado reações autárquicas (segurança de abastecimento e produção de bens ditos essenciais ou estratégicos). O ataque da Rússia contra Ucrânia reforçou a preocupação com segurança energética, mas não só (vide o medo brasileiro com o risco de ficar sem fertilizantes).
A Europa começa a se rearmar. O confisco das reservas russas pelo dito Ocidente (entre outras sanções) colocou mais barbas de molho. Para dar um exemplo rápido, a China passou a diminuir as reservas que mantém nos EUA.
Trump arruinou o sistema de regulação comercial mundial, que já vinha sendo detonado desde Barack Obama. Ameaça países recalcitrantes de boicotes econômicos e militares.
O salve-se quem puder na economia tem sido radicalizado (nunca deixou de ser assim). A ideia de ter mais autonomia militar ou de se juntar a um bloco bem armado é assunto forte outra vez. O rearmamento agrava problemas fiscais e, pois, prejudica crescimento e políticas sociais.
Dizer que as instituições multilaterais foram à breca é pouco. Não há concerto de países poderosos, acordo para colocar ordem no mundo, nem segundo os interesses deles.
Mundo das emoções
Primeiro, as pessoas não funcionam racionalmente e sim a partir de emoções. As pesquisas mostram isso. As pessoas não veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. A segunda razão para esse comportamento é que vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela em geral, mais particularmente no Brasil, está em muito mau estado.
Manuel Castells
Manuel Castells
Este foi o pior ano da história
Ouvimos frequentemente que tudo vai de mal a pior, especialmente quando falamos sobre o estado atual do mundo. Não é surpresa, então, que muitos considerem os piores momentos da humanidade como recentes, como 2020, com a pandemia da COVID-19. Ou, para quem para para pensar um pouco mais, anos devastadores antes, como 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial; ou 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Ou, se você conhece mais história, quando a Peste Negra começou a devastar a Europa em 1347.
No entanto, o fascinante é que entre vários historiadores há um consenso sobre qual foi realmente o pior ano para se estar vivo: 536 d.C.
"Foi o início de um dos piores períodos para se viver, senão o pior ano", disse o historiador medieval Michael McCormick, da Universidade Harvard, à revista Science em 2018. E ele não está exagerando. Aquele ano marcou o início de uma catástrofe global que mergulharia o mundo na escuridão — literalmente —, no frio e no desespero por mais de um século.
Em um estudo publicado na revista Antiquity em 2018, McCormick e o glaciologista Paul Mayewski revelaram a causa desse desastre: durante a primavera daquele ano, uma erupção vulcânica colossal no Hemisfério Norte ejetou tanta cinza na atmosfera que o sol praticamente desapareceu. Por mais de um ano, uma densa neblina acinzentada bloqueou a luz solar, envolvendo a Europa, o Oriente Médio e grande parte da Ásia em uma penumbra constante.
Os pesquisadores chegaram a essas conclusões após analisar núcleos de gelo de geleiras suíças que continham partículas microscópicas de vidro vulcânico, que correspondiam quimicamente às rochas vulcânicas da Islândia.
O historiador bizantino Procópio, testemunha da época, descreveu o fenômeno de forma arrepiante: "Durante este ano, ocorreu o sinal mais terrível. Pois o Sol emitia sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo o ano, e assemelhava-se completamente ao Sol eclipsado, pois seus raios não eram tão claros como de costume. E a partir do momento em que isso aconteceu, os homens não ficaram livres da guerra, nem da peste, nem de qualquer coisa que não levasse à morte. E isso aconteceu na época em que Justiniano estava no décimo ano de seu reinado."
Por sua vez, o senador romano Cassiodoro escreveu em uma carta de 538 d.C.: "O sol parece ter perdido sua luz habitual e tem uma cor azulada. Ficamos maravilhados por não vermos as sombras de nossos corpos ao meio-dia e por sentirmos como o poderoso vigor de seu calor se transforma em fraqueza."
As consequências foram devastadoras. As temperaturas despencaram — chegando a 2,5°C na Europa e na Ásia, como documentou o historiador de Oxford Miles Pattenden em The Conversation —, causando perdas totais nas colheitas e desencadeando uma fome implacável que se espalhou da Irlanda para a China, onde houve até registro de queda de neve em pleno verão.
Esta catástrofe não foi temporária: análises de anéis de árvores e camadas de gelo revelam que o que tornou 536 um ano particularmente terrível foi a cadeia de calamidades que se seguiu. Duas erupções vulcânicas adicionais, em 540 e 547, prolongaram esse período gélido, dando origem ao que os cientistas chamam de Pequena Era Glacial da Antiguidade Tardia, um fenômeno climático que durou mais de um século.
E como se um inverno vulcânico não bastasse, a situação piorou drasticamente cinco anos depois. Em 541, a peste bubônica chegou ao Egito, espalhando-se rapidamente por todo o Mediterrâneo, no que os historiadores hoje chamam de "Peste de Justiniano".
Segundo a IFL Science , essa pandemia devastou particularmente Constantinopla, o coração do Império Romano do Oriente, dizimando entre um terço e metade da população do império. Milhões de pessoas pereceram nas décadas seguintes, contribuindo significativamente para o declínio do outrora poderoso império.
Os efeitos desse desastre climático se estenderam muito além do Mediterrâneo. Segundo a IFL Science, nas condições mais frias e secas da Ásia Central, a diminuição das pastagens forçou diversas tribos nômades a migrarem para o leste, em direção à China. Esses movimentos migratórios levaram a conflitos e alianças que, surpreendentemente, contribuíram para a queda do Império Sassânida da Pérsia.
No entanto, nem todas as regiões foram negativas. Enquanto a Europa e partes da Ásia sofreram, a Península Arábica experimentou um aumento nas chuvas, tornando-se mais verde. Com os antigos impérios enfraquecidos e a península agora mais verde, as condições estavam maduras para a ascensão de uma nova potência. Assim, entre outros fatores, o Império Árabe emergiu no século VII, tornando-se uma das forças mais influentes da história.
Da mesma forma, pesquisas recentes revelam que as comunidades ancestrais Anasazi do sudoeste americano não apenas sobreviveram a esse período, mas emergiram mais fortes do que nunca.
Diante das duras condições climáticas, essas comunidades desenvolveram laços sociais e práticas cooperativas mais complexas que lhes permitiram não apenas sobreviver, mas também prosperar. Por exemplo, a prática de criação de perus domesticados, inicialmente limitada a Cedar Mesa e Grand Gulch, espalhou-se pela região por volta de 550 d.C., demonstrando como o conhecimento era compartilhado para diversificar as fontes de alimento.
O fascinante sobre o nosso conhecimento sobre o ano 536 é que a maior parte das informações não provém de fontes escritas tradicionais, mas sim de técnicas científicas modernas. A dendroclimatologia (o estudo dos anéis das árvores) e a análise de núcleos de gelo permitiram aos historiadores reconstruir este período com uma precisão impressionante.
Esta nova "ciência da história climática" está revolucionando nossa compreensão do passado, especialmente de períodos para os quais não existem registros escritos abundantes. Como aponta o dendroclimatologista Ulf Büntgen, os padrões de crescimento dos anéis das árvores revelam claramente as erupções vulcânicas de 536, 540 e 547.
Embora os habitantes de 536 provavelmente não soubessem que estavam vivendo "o pior ano da história", as consequências foram sentidas por gerações. Como Pattenden cita Thomas Hobbes em seu Leviatã, a vida muitas vezes foi "desagradável, brutal e curta", mas o ano de 536 se destaca mesmo nesta longa história de sofrimento humano.
No fim das contas, o ano 536 nos lembra que a humanidade enfrentou e superou catástrofes inimagináveis. À medida que navegamos pelos nossos próprios desafios modernos, podemos encontrar algum consolo no fato de que, pelo menos, nossos céus não foram escurecidos por uma enorme erupção vulcânica que mergulhou o mundo em 18 meses de escuridão. E se essas sociedades conseguiram encontrar maneiras de perseverar e, eventualmente, prosperar, talvez nós também consigamos.
Felipe Espinosa Wang
No entanto, o fascinante é que entre vários historiadores há um consenso sobre qual foi realmente o pior ano para se estar vivo: 536 d.C.
"Foi o início de um dos piores períodos para se viver, senão o pior ano", disse o historiador medieval Michael McCormick, da Universidade Harvard, à revista Science em 2018. E ele não está exagerando. Aquele ano marcou o início de uma catástrofe global que mergulharia o mundo na escuridão — literalmente —, no frio e no desespero por mais de um século.
Pieter Bruegel, o Velho pinta "O Triunfo da Morte" (1562)
Em um estudo publicado na revista Antiquity em 2018, McCormick e o glaciologista Paul Mayewski revelaram a causa desse desastre: durante a primavera daquele ano, uma erupção vulcânica colossal no Hemisfério Norte ejetou tanta cinza na atmosfera que o sol praticamente desapareceu. Por mais de um ano, uma densa neblina acinzentada bloqueou a luz solar, envolvendo a Europa, o Oriente Médio e grande parte da Ásia em uma penumbra constante.
Os pesquisadores chegaram a essas conclusões após analisar núcleos de gelo de geleiras suíças que continham partículas microscópicas de vidro vulcânico, que correspondiam quimicamente às rochas vulcânicas da Islândia.
O historiador bizantino Procópio, testemunha da época, descreveu o fenômeno de forma arrepiante: "Durante este ano, ocorreu o sinal mais terrível. Pois o Sol emitia sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo o ano, e assemelhava-se completamente ao Sol eclipsado, pois seus raios não eram tão claros como de costume. E a partir do momento em que isso aconteceu, os homens não ficaram livres da guerra, nem da peste, nem de qualquer coisa que não levasse à morte. E isso aconteceu na época em que Justiniano estava no décimo ano de seu reinado."
Por sua vez, o senador romano Cassiodoro escreveu em uma carta de 538 d.C.: "O sol parece ter perdido sua luz habitual e tem uma cor azulada. Ficamos maravilhados por não vermos as sombras de nossos corpos ao meio-dia e por sentirmos como o poderoso vigor de seu calor se transforma em fraqueza."
As consequências foram devastadoras. As temperaturas despencaram — chegando a 2,5°C na Europa e na Ásia, como documentou o historiador de Oxford Miles Pattenden em The Conversation —, causando perdas totais nas colheitas e desencadeando uma fome implacável que se espalhou da Irlanda para a China, onde houve até registro de queda de neve em pleno verão.
Esta catástrofe não foi temporária: análises de anéis de árvores e camadas de gelo revelam que o que tornou 536 um ano particularmente terrível foi a cadeia de calamidades que se seguiu. Duas erupções vulcânicas adicionais, em 540 e 547, prolongaram esse período gélido, dando origem ao que os cientistas chamam de Pequena Era Glacial da Antiguidade Tardia, um fenômeno climático que durou mais de um século.
E como se um inverno vulcânico não bastasse, a situação piorou drasticamente cinco anos depois. Em 541, a peste bubônica chegou ao Egito, espalhando-se rapidamente por todo o Mediterrâneo, no que os historiadores hoje chamam de "Peste de Justiniano".
Segundo a IFL Science , essa pandemia devastou particularmente Constantinopla, o coração do Império Romano do Oriente, dizimando entre um terço e metade da população do império. Milhões de pessoas pereceram nas décadas seguintes, contribuindo significativamente para o declínio do outrora poderoso império.
Os efeitos desse desastre climático se estenderam muito além do Mediterrâneo. Segundo a IFL Science, nas condições mais frias e secas da Ásia Central, a diminuição das pastagens forçou diversas tribos nômades a migrarem para o leste, em direção à China. Esses movimentos migratórios levaram a conflitos e alianças que, surpreendentemente, contribuíram para a queda do Império Sassânida da Pérsia.
No entanto, nem todas as regiões foram negativas. Enquanto a Europa e partes da Ásia sofreram, a Península Arábica experimentou um aumento nas chuvas, tornando-se mais verde. Com os antigos impérios enfraquecidos e a península agora mais verde, as condições estavam maduras para a ascensão de uma nova potência. Assim, entre outros fatores, o Império Árabe emergiu no século VII, tornando-se uma das forças mais influentes da história.
Da mesma forma, pesquisas recentes revelam que as comunidades ancestrais Anasazi do sudoeste americano não apenas sobreviveram a esse período, mas emergiram mais fortes do que nunca.
Diante das duras condições climáticas, essas comunidades desenvolveram laços sociais e práticas cooperativas mais complexas que lhes permitiram não apenas sobreviver, mas também prosperar. Por exemplo, a prática de criação de perus domesticados, inicialmente limitada a Cedar Mesa e Grand Gulch, espalhou-se pela região por volta de 550 d.C., demonstrando como o conhecimento era compartilhado para diversificar as fontes de alimento.
O fascinante sobre o nosso conhecimento sobre o ano 536 é que a maior parte das informações não provém de fontes escritas tradicionais, mas sim de técnicas científicas modernas. A dendroclimatologia (o estudo dos anéis das árvores) e a análise de núcleos de gelo permitiram aos historiadores reconstruir este período com uma precisão impressionante.
Esta nova "ciência da história climática" está revolucionando nossa compreensão do passado, especialmente de períodos para os quais não existem registros escritos abundantes. Como aponta o dendroclimatologista Ulf Büntgen, os padrões de crescimento dos anéis das árvores revelam claramente as erupções vulcânicas de 536, 540 e 547.
Embora os habitantes de 536 provavelmente não soubessem que estavam vivendo "o pior ano da história", as consequências foram sentidas por gerações. Como Pattenden cita Thomas Hobbes em seu Leviatã, a vida muitas vezes foi "desagradável, brutal e curta", mas o ano de 536 se destaca mesmo nesta longa história de sofrimento humano.
No fim das contas, o ano 536 nos lembra que a humanidade enfrentou e superou catástrofes inimagináveis. À medida que navegamos pelos nossos próprios desafios modernos, podemos encontrar algum consolo no fato de que, pelo menos, nossos céus não foram escurecidos por uma enorme erupção vulcânica que mergulhou o mundo em 18 meses de escuridão. E se essas sociedades conseguiram encontrar maneiras de perseverar e, eventualmente, prosperar, talvez nós também consigamos.
Felipe Espinosa Wang
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