terça-feira, 20 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


Velho, pobre, mal educado

O País jovem, tendo a porta aberta para um destino de prosperidade e bem-estar ao lado das grandes nações, parece ter-se perdido na história. O Brasil como que se conformou em ficar nas posições intermediárias na corrida mundial pelo progresso. E os brasileiros, em média, concordaram com isso. Muita coisa melhorou – e melhorou muito nas últimas décadas. Mas também em muitas coisas o Brasil patinou, quando não andou para trás. Não se trata de buscar responsáveis. Trata-se de entender como o Estado e a sociedade lidaram e lidam com as grandes questões que afetam a qualidade de vida de cada brasileiro.


O Brasil envelheceu, não ficou mais rico e continua lendo e escrevendo mal. É este o retrato que pesquisas recentes nos mostram. Há informações estimulantes e animadoras, o que nos permite alimentar sonhos. Mas há também a constatação de como nos acostumamos com a mediocridade, o que deveria levarnos a refletir sobre o que temos feito de nós mesmos.

Nascem cada vez menos brasileiros. As Estatísticas do Registro Civil divulgadas na sexta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2023, o País manteve a tendência de redução do número de nascimentos, observada por cinco anos consecutivos. Em 2023, foram registradas nos cartórios 2,523 milhões de crianças nascidas naquele ano. É o menor número desde o início da pesquisa, em 2015.

Demógrafos preveem que a queda do número de nascimentos se manterá até o fim do século. A taxa de fecundidade já está abaixo do nível de reposição da população (dois filhos por mulher). Por isso, talvez em menos de duas décadas a população total do Brasil começará a diminuir. E será uma população com idade média mais alta. O chamado bônus demográfico, período em que a proporção da população em idade ativa é maior do que a de idosos e crianças, começou há várias décadas, mas está se esvaindo e se esgotará em algum momento não muito distante.

É uma mudança do padrão demográfico que, nisso sim, iguala o Brasil aos países desenvolvidos. Mas o País chegou a essa condição sem ter alcançado indicadores fundamentais que as nações mais prósperas do planeta já tinham alcançado, como renda média alta, menos desigualdade de renda, escolaridade mais elevada, alto nível de produtividade da economia, bem-estar social como característica predominante de seu padrão de vida, horizonte para a vida dos jovens.

Dados de curto prazo podem instilar algum otimismo. A informalidade no mercado de trabalho baixou para seu menor nível desde a pandemia de covid-19, em 2020. Excetuado esse período, em que os indicadores sociais e econômicos tiveram fortes oscilações (para mais ou para menos, mas superadas nos anos seguintes), a taxa de informalidade aferida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua atingiu seu nível mais baixo desde o início da série da pesquisa. Também o chamado desperdício de mão de obra, medido pelo critério de taxa de subutilização da força de trabalho, ficou no segundo nível mais baixo de toda a série da Pnad Contínua.

Juntando outras informações recentes, como o aumento da população economicamente ativa (e ainda assim houve queda do índice de desemprego ou sua manutenção em níveis historicamente muito baixos), do número de trabalhadores empregados e da renda real média, vê-se um mercado de trabalho dinâmico.

A mesma Pnad Contínua examinou o padrão de rendimentos da população e constatou que, em 2024, pelo terceiro ano consecutivo cresceu o rendimento domiciliar. É mais dinheiro para as famílias. O aumento veio acompanhado de outro dado animador. O Índice de Gini voltou a cair no ano passado (tinha ficado estável no ano anterior), para 0,506. É o menor nível desde o início da pesquisa, em 2012. O Índice (ou coeficiente) de Gini é o indicador universalmente utilizado para aferir a distribuição de renda de um território, um grupo ou um país. Varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade na distribuição. Ou seja, o Brasil ficou menos desigual, ainda que de maneira muito discreta.

Mas esse mesmo país deixou o futuro escapar-lhe das mãos, pois não soube cuidar de outro aspecto essencial para o progresso e o bem-estar de sua sociedade. Tratou e continua a tratar mal o ensino da população. O dado mais impressionante que prova essa desídia social é o que mostra a persistência do analfabetismo. O Brasil tem 29% de analfabetos funcionais. É o mesmo índice de 2018. Não conseguiu melhorar nada. São mais de 60 milhões de pessoas que não conseguem ler palavras ou números ou, quando conseguem, têm dificuldades para entender o texto ou fazer contas com números maiores. O dado faz parte de uma pesquisa de uma instituição privada, com o apoio de empresas privadas. É um triste retrato de um país parado no tempo em matéria de educação, vital para o progresso.

Que o fracasso nos seja suave

"Suave fracasso" foi a expressão que ouvi muitos anos atrás da boca do embaixador Rubens Ricupero para qualificar o Brasil. Quanto mais o tempo passa, mais me convenço da precisão do diagnóstico.

Muita coisa aconteceu desde que saí em férias duas semanas atrás, mas nada mudou. Os três Poderes da República continuaram a dar sucessivas demonstrações de incúria. O Legislativo, cobrado pelo Judiciário a dar materialidade à norma que determina que as bancadas dos estados na Câmara obedeçam ao critério da proporcionalidade populacional — pilar da democracia representativa—, propõe uma regra que obviamente a viola.


Aumentar o número de deputados dos estados que ganharam habitantes sem reduzir o dos que perderam, além de ser medida perdulária, atropela a linguagem e a matemática. É o Legislativo atuando para burlar regra que ele próprio criou com o intuito de preservar conveniências antirrepublicanas.


Enquanto isso, o Judiciário, que, registre-se uma vez mais, foi importante para evitar o golpe de Estado tentado contra o país, não desperdiça oportunidades de vilipendiar a própria credibilidade.

Ministros do STF seguem no circuito Elizabeth Arden de convescotes no exterior, dão rédeas soltas aos apetites antiteto salarial de várias carreiras jurídicas e ignoram por completo os apelos para exercer a autocontenção e abandonar heterodoxias.

Já no Executivo, Lula, que foi eleito vendendo-se como contraponto democrático ao golpismo do antecessor, atravessa um oceano e um continente para sentar-se na primeira fila dos que foram aplaudir o belicismo de um dos mais nefastos autocratas da atualidade.

Também dá repetidos sinais de que não hesitará em sacrificar os interesses de longo prazo do país em favor da reeleição no ano que vem. No macro, a educação continua qualitativamente péssima e o bônus demográfico vai se fechando. O Brasil envelheceu sem ter enriquecido, e dificilmente conseguirá fazê-lo agora.

É claro, poderia ser pior. Daí a aplicação do adjetivo "suave".
 Hélio Schwartsman

Grande momento


Estamos num momento da História em que tanto podemos conseguir feitos notáveis como ir na direção de um grande desastre

Amin Maalouf

'Influenciadores do Tigrinho' e a cultura do escárnio

Nas redes sociais, Virginia Fonseca, a maior influenciadora do Brasil, com quase 53 milhões de seguidores, mostra sua vida em família e uma rotina de luxo, com direito a viagens de jatinho e exibição de bolsas e roupas de grife que chegam a custar R$ 1 milhão. É dela a frase: "me mimei", usada para mostrar que tinha comprado um presentinho para si mesma, uma bolsa da Hermés de R$ 500 mil.

Virginia é a representante do momento de uma categoria que abarca várias celebridades das redes sociais com milhares de seguidores: a dos " influenciadores do Tigrinho", aqueles que usam a fama para ganhar milhões anunciando de forma irresponsável jogos online com o Tigrinho ou as chamadas bets.

O vício nesse tipo de aposta é um problema de saúde pública seríssimo no Brasil. De acordo com pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cerca de 11 milhões de brasileiros fazem uso "arriscado" dos aplicativos de apostas. Outra pesquisa mostra que 22 milhões de brasileiros haviam apostado em bets em apenas um mês.


O problema é muito sério. Há quem gasta todo dinheiro que guardou na vida, quem rouba dos pais idosos, quem perde tudo e depois comete suicídio. E também quem deixa de comprar comida. Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), em parceria com a AGP Pesquisas, mostrou que 63% dos apostadores no país tiveram parte da renda comprometida com as bets. Outros 19% pararam de fazer compras no mercado e 11% não gastaram com saúde e medicamentos.

Mas os "influenciadores do Tigrinho" parecem não estar nem aí para nada disso. Na verdade, eles fingem nem saber que o Brasil vive uma epidemia de vício em apostas online e que eles, influenciadores anunciantes das apostas, têm, sim, participação nisso. Não adianta usar a desculpa de "só estou fazendo o meu trabalho" quando você está levando gente vulnerável a se endividar com a oferta tentadora de que há maneira fácil e rápida de ganhar dinheiro, o que é uma ilusão.

Semana passada, Virginia chocou parte do país ao comparecer à "CPI das Bets" no Senado em Brasília e se comportar como se não tivesse ideia do que estava fazendo. A CPI investiga os impactos das plataformas de apostas e jogos online no orçamento das famílias brasileiras, além de crimes como lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo apostas.

"A senhora não tem conhecimento de pessoas que tiraram suas vidas, de separações, de famílias indo à bancarrota de agiotas?", perguntou a senadora Soraya Thronicke. "Não", respondeu a influenciadora, como se vivesse em outro planeta. Ela também disse que não se arrepende de "absolutamente nada que já fez na sua vida".

A participação de Virginia na CPI gerou revolta e fez com que ela perdesse seguidores (o drama máximo para uma influenciadora). Mas, pelo jeito, ela não ligou. Neste sábado, ela foi filmada pulando e cantando com alegria um trecho de uma música composta por seu marido, Zé Felipe, em parceria com o trapper Oruam, que diz: "Tá doida com o dinheiro do Tigrim".

O vídeo foi filmado durante participação em reality produzido por outro mega "influenciador do Tigrinho", Carlinhos Maia. Ou seja, em outras palavras, Virginia e seus amigos influenciadores lucram e riem do sofrimento enquanto incentivam seus seguidores a ficarem doidos com o dinheiro do tigrinho.

Ela não é a única a divulgar esse tipo de coisa e ostentar riqueza nas redes. São muitos os influenciadores que fazem isso. Entre eles, há nomes bilionários como Neymar.

Essas pessoas vivem de influenciar as pessoas, diz o nome da profissão, mas o que fazem não é influência, mas exploração. E muitos dos seus seguidores ainda os defendem: "Cada um faz o que quer", "as pessoas têm inveja porque elas são ricas", muitos repetem, em coro. Onde foi parar a ética? Essa postura do "não estou nem aí" não devia ser "tendência".

Unidade partidária

— Sr. presidente, eu acho… — começou o orador, logo aparteado pelo líder:

— Perdão, vossa excelência não acha nada. É claro que o nobre deputado está de acordo com o pensamento do nosso partido.

— O nosso partido — tentou dizer o orador, e não prosseguiu, pois o líder e o primeiro vice-líder acudiram uníssonos:

— O nosso partido não está em discussão, aliás nunca pode estar em discussão. E vossa excelência sabe disso.


— Muito bem — confirmou o segundo vice-líder. — Não pronunciemos em vão o seu santo nome.

— É o que sempre digo aos nossos correligionários — interveio o terceiro vice-líder, chegando afobado ao recinto.

— Mas — tentou prosseguir o orador, que só tinha direito a este nome porque se inscrevera para falar, embora ainda não fizesse jus a ele.

— Não há mas nem porém nem todavia nem contudo no vocabulário de nossa pujante agremiação — sentenciou o líder. — O ilustre parlamentar que enobrece as nossas fileiras certamente não vai erigir o mas em bandeira partidária. Vai, pelo contrário, condenar esta anomalia, incompatível com a filosofia construtiva, otimista e desenvolvimentista do nosso valoroso partido, que apoia incondicionalmente a belíssima orientação do excelentíssimo doutor atual presidente da República.

O orador em perspectiva acenou com a cabeça que sim e sentou-se. Aprendera que toda palavra é escândalo, e que para evitá-lo todas as palavras são oportunas.
Carlos Drummond de Andrade, "Contos plausíveis"

Uma contrarrevolução moderna

Em uma enxurrada de decretos e declarações de emergência, o presidente Donald Trump deu um golpe no governo americano e na ordem global. Ele está destruindo o Estado administrativo, fechando agências e demitindo funcionários federais. Está deportando residentes permanentes por seus discursos protegidos pela Primeira Emenda, revogando vistos de estudantes internacionais e enviando imigrantes para Guantánamo e para uma megaprisão em El Salvador. Ele está tentando eliminar a cidadania por direito de nascimento e cortando o financiamento de pesquisa das Universidades. Todos os dias, Trump lança outra ofensiva sem precedentes — ou muda de rumo, deixando seus críticos na dúvida enquanto se protege.

Ele continua extremamente popular entre sua base, mesmo que sua popularidade geral tenha caído para níveis recordes. Seus críticos, porém, o atacam de todas as formas possíveis. Chamam-no de fascista, autoritário, tirano, ferramenta cleptocrática dos bilionários da tecnologia, aproveitador, impostor de reality show, encarnação da masculinidade tóxica, valentão. No entanto, nenhum desses rótulos captura totalmente o alcance ou a coerência do que está acontecendo nos EUA hoje. Esses diagnósticos se concentram demais no indivíduo, e este é um indivíduo que, como um ilusionista virtuoso, mantém seu público hipnotizado pelo espetáculo e distraído do que realmente está acontecendo. Os desenvolvimentos radicais em curso devem ser colocados em uma perspectiva mais profunda. Não apenas porque muitos deles foram prefigurados no projeto de 900 páginas chamado Project 2025, mas também porque forças muito maiores impulsionaram a ascensão de líderes de extrema direita em todo o mundo.

Na verdade, o governo Trump II representa – a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas. O ativista conservador Christopher Rufo admitiu isso em uma entrevista recente ao New York Times: “O que estamos fazendo é realmente uma contrarrevolução. É uma revolução contra a revolução”. Na verdade, as ações do presidente Trump durante os primeiros cem dias de seu segundo mandato é o episódio mais recente de uma vasta e coerente contrarrevolução com um arco histórico mais longo e um alcance global mais amplo. 

Nesse sentido, é essencial voltar ao argumento de Marx em seu O 18 Brumário, de que a ascensão de Luís Napoleão não foi simplesmente uma história de um grande homem. O objetivo de Marx era demonstrar, em suas palavras, “como a luta de classes na França criou circunstâncias e relações que tornaram possível que uma mediocridade grotesca desempenhasse o papel de herói”. Temos a tendência de enfatizar o humor nessa frase em detrimento do impulso teórico. Mas o ponto importante é que nosso diagnóstico deve se concentrar nos conflitos sociais mais amplos e nas forças econômicas que são o motor da história em nível global, e não na ascensão de qualquer indivíduo — mesmo quando ele se assemelha a uma mediocridade grotesca.

Não quero minimizar a extravagância ou a natureza radical dos espetáculos diários do presidente Trump — o que Marx chamou, ao falar de Luís Napoleão, de seus “golpes de Estado em miniatura todos os dias”. Mas, em vez de focar nos truques diários, é importante entender, em primeiro lugar, as estratégias mais amplas que os motivam.

Nos primeiros meses do seu segundo mandato, o presidente Trump implementou três estratégias principais:  Criar inimigos internos. Com um recorde de 143 decretos executivos até 6 de maio de 2025 — mais do que qualquer outro presidente dos EUA, incluindo FDR —,Trump colocou na mira um punhado de alvos e transformou-os em inimigos internos: candidatos D.E.I. [Diversity, equality and inclusion]: um proxy para afro-americanos, hispânicos, deficientes e transgêneros), “ideologia de gênero” (um proxy para pessoas LGBTQ+), defensores das mudanças climáticas globais (ou qualquer pessoa que supostamente contribua para a “ansiedade climática”), imigrantes e estudantes internacionais, Universidades de ponta, funcionários federais e qualquer pessoa que tenha investigado ou processado pelo presidente norte-americano anteriormente.

Um dos principais artifícios que ele usa para demonizar esses inimigos internos é rotulá-los como malfeitores e privá-los de proteções legais. O presidente Trump adicionou a organização de tráfico de drogas Tren de Aragua à lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) dos EUA e invoca isso para caracterizar qualquer imigrante venezuelano nos Estados Unidos como um terrorista. Ele também invocou a Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798 para afirmar que os imigrantes venezuelanos são inimigos estrangeiros. O presidente Trump afirma que o Tribunal Penal Internacional de Haia é “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”; como resultado, funcionários americanos agora estão potencialmente sujeitos a sanções do país. Ademais, o governo cita o fato de que o Hamas é considerado uma FTO para caracterizar as pessoas que protestam contra a guerra de Israel em Gaza como apoiadores do terrorismo, mesmo que seu discurso seja protegido pela Primeira Emenda. 

Outra forma de atacar os inimigos internos é declarar emergências menores — como a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, a Lei de Emergências Nacionais ou, mais uma vez, a Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798. O presidente Trump já anunciou uma dúzia dessas emergências. Há uma na fronteira sul dos EUA. Agora, as forças armadas dos Estados Unidos a policiam. Trump declarou uma emergência devido à “ameaça extraordinária representada por estrangeiros ilegais e drogas, incluindo o fentanil mortal” como base para impor tarifas ao Canadá, China e México. Ele também declarou uma emergência em relação à “insuficiente produção de energia, transporte, refino e geração dos Estados Unidos”.

O jurista nazista, Carl Schmitt, definiu um soberano como “aquele que decide sobre a exceção”. Algumas décadas depois, o filósofo Giorgio Agamben argumentou que as sociedades ocidentais haviam entrado em “um estado de exceção permanente”. Mas o presidente norte-americano utiliza as emergências apenas como um dispositivo técnico para exercer o poder executivo e demonizar inimigos internos; elas são apenas uma ferramenta entre outras e não constituem um estado de exceção global. Em vez disso, permitem-lhe reivindicar como suas as zonas cinzentas da lei e expandir as suas fronteiras (como com a deportação de residentes permanentes ou o corte geral do financiamento das Universidades ao abrigo do Título VI). Michel Foucault referiu-se a tais métodos como illégalismes (ilegalismos): criam um espaço entre o legal e o ilegal, onde é a contestação política que determina o que é permitido e o que não é.6 Eliminar esses inimigos internos. Em seguida, o presidente Trump erradica ou neutraliza esses inimigos produzidos. Ele está cortando programas de DEI, não apenas em todo o governo federal, mas também na indústria privada. O governo está tentando acabar com os cuidados de afirmação de gênero e banindo o reembolso pelo Medicaid para jovens menores de 19 anos. Revogou mais de 1.500 vistos de estudante em mais de 100 Faculdades e Universidades. Está eliminando empregos de dezenas de milhares de funcionários federais, deportando estudantes internacionais e residentes permanentes que protestaram contra a forma como Israel está conduzindo sua guerra em Gaza. Donald Trump prometeu enviar 30.000 imigrantes para Guantánamo. Operações de imigração estão ocorrendo em todo o país; em algumas, centenas de pessoas são presas ao mesmo tempo. Conquistar os corações e as mentes do povo americano. Todos os dias surge um novo segmento chocante do que parece ser um reality show. De acordo com um artigo do New York Times, Trump disse a seus assessores, antes de assumir o cargo em 2017, que eles deveriam “pensar em cada dia presidencial como um episódio de um programa de televisão em que ele derrota seus rivais”. Eles se superaram, em parte graças à revolução tecnológica. Musk, certa vez, descreveu o Twitter (antes de comprá-lo) como um ponto de acesso ao id gigante do povo americano. O Truth Social e o X agora estão dando a ele, ao presidente e a outros, o acesso constante e direto à libido nacional. Para sua base MAGA, isso tem sido uma fonte constante de entretenimento e justificação. No final do ataque verbal dele e do vice-presidente J.D. Vance ao presidente Volodymyr Zelensky no Salão Oval, em fevereiro, ele reconheceu: “Isso vai ser ótimo para a televisão”.

Essas três estratégias permeiam o segundo mandato do presidente Trump. Para compreendê-las, proponho dar um passo atrás — conceitualmente, historicamente e contextualmente.

Para explicar o que quero dizer com a fase de demolição de uma nova ofensiva numa contrarrevolução que já dura décadas, vou analisar cada termo separadamente.

Primeiro, uma “contrarrevolução” está em curso desde a invenção da guerra contra a insurgência, na década de 1950 e 1960, por comandantes franceses, britânicos e americanos durante as guerras de independência na Argélia, Indochina, Malásia, Vietnã e em outras ex-colônias. Essas campanhas deram origem à lógica e às estratégias da guerra de contrainsurgência — também conhecida como guerra não-convencional ou antiguerrilha ou, como diriam os franceses, “la guerre moderne”, guerra moderna. Depois, essa lógica e essas estratégias foram trazidas de volta e aplicadas em solo nacional.

A lógica da guerra de contrainsurgência baseava-se numa visão única, essencialmente moldada pela crença de Mao de que a sociedade é composta por três grupos: um pequeno grupo de insurgentes ativos, a grande massa de cidadãos passivos que podem ser influenciados de um lado ou de outro e uma pequena minoria de ‘contrainsurgente’. As estratégias da guerra de contrainsurgência foram desenvolvidas para, em primeiro lugar, reunir informações completas sobre a população a fim de identificar os inimigos internos; em segundo lugar, eliminá-los; e, em terceiro lugar, ganhar a lealdade das massas passivas.

Essas estratégias de contrainsurgência foram utilizadas pela primeira vez nas colônias europeias e americanas durante as guerras de independência. Após o 11 de setembro, os EUA voltaram a utilizá-las nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Sob a presidência de George W. Bush, houve execuções simuladas, afogamento simulado e detenções por tempo indeterminado em Guantánamo; com o presidente Barack Obama, houve assassinatos com drones, vigilância total e a execução sumária de um cidadão americano no exterior. Os métodos foram refinados pelos generais americanos em uma abordagem de contrainsurgência centrada na população, que foi então inculcada nos soldados americanos.

Trazer técnicas de contrainsurgência para casa e aplicá-las nos próprios cidadãos pode ser chamado de “uma contrarrevolução”. Herbert Marcuse já utilizava o termo em seu livro de 1972, Contrarrevolução e Revolta, para caracterizar a repressão aos protestos contra a Guerra do Vietnã na Kent State University e no Jackson State College.7 Na medida em que essa contrarrevoluçãofoi, e é, uma criação da guerra moderna — em contraste com as contrarrevoluções mais antigas, que buscavam restaurar monarcas —, eu a chamaria de “contrarrevolução moderna”.

Em segundo lugar, o governo Trump II representa uma “nova ofensiva”, pois não é único, mas sim mais um episódio da contrarrevolução conduzida em solo americano. Houve ofensivas anteriores ao 11 de setembro, com a revolução conservadora do presidente Ronald Reagan e a Guerra às Drogas na década de 1980; e, mesmo antes disso, com a repressão do presidente Richard Nixon aos negros e aos manifestantes contra a Guerra do Vietnã, o programa COINTELPRO, de J. Edgar Hoover e o Red Scare (medo vermelho) durante a era McCarthy.

Descrevi a última ofensiva em um livro intitulado The Counterrevolution: How Our Government Went to War Against Its Own Citizens (A Contrarrevolução: como o governo entrou em guerra contra os próprios cidadãos), publicado em fevereiro de 2018, durante o primeiro mandato do presidente Trump. Na época, argumentei que ele estava infundindo o paradigma da guerra de contrainsurgência com um populismo nacionalista branco que tinha como alvo muçulmanos americanos, imigrantes da América Latina e manifestantes do movimento Black Lives Matter. Tudo isso chegou ao auge durante as manifestações pelo assassinato de George Floyd no verão de 2020, quando o Trump enviou a 82ª Divisão Aérea para Washington/D.C., e mobilizou a polícia militar e um helicóptero Black Hawk do Exército dos EUA como se o local fosse, nas palavras do então secretário de Defesa Mark Esper, um campo de batalha que precisava ser “dominado”. A polícia militar lançou gás lacrimogêneo e disparou balas de borracha contra manifestantes pacíficos, abrindo caminho para o presidente Trump marchar com Esper e seu general de mais alta patente, Mark A. Milley (em uniforme de combate completo), para uma infame foto do presidente com uma Bíblia nas mãos.

Em terceiro lugar, digo que esta é a “fase de demolição” da última ofensiva porque o presidente está destruindo o governo federal como o conhecemos, ao mesmo tempo em que endurece as estratégias de contrainsurgência. Como um incorporador imobiliário que está embarcando numa reforma radical, o presidente Trump está demolindo o edifício federal, está cortando a força de trabalho federal, fechando agências federais (a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, o Departamento de Educação), demitindo inspetores gerais em 17 agências e assumindo o controle de agências independentes. Musk e o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) estão cortando o orçamento federal em US$ 150 bilhões (até o ano fiscal que termina em setembro de 2026) e demitindo milhares de outros funcionários federais. O presidente Trump está demolindo o estado administrativo em alta velocidade.

O presidente está, literalmente, sozinho — ao assinar um número recorde de decretos presidenciais — criando uma presidência imperial sem freios e contrapesos. Embora o Partido Republicano controle ambas as câmaras do Congresso e tenha jurado lealdade a ele, Trump está evitando usar o poder legislativo tanto quanto possível, ignorando efetivamente o Congresso. Tendo garantido uma supermaioria conservadora na Suprema Corte dos Estados Unidos, ele está cumprindo em grande parte as decisões dos tribunais federais de primeira instância — confiante de que a revisão judicial acabará por absolvê-lo (como já aconteceu).

Este projeto radical não visa a eliminar o governo federal ou delegar o poder de decisão aos estados. Não se trata de direitos dos estados: o presidente exercerá o poder federal no momento em que discordar de uma política estadual. Em vez disso, ele está transformando o governo federal em um instrumento mais enxuto e mais forte dos poderes policiais — reforçando as fronteiras, deportando brutalmente pessoas, proibindo a D.E.I. e a chamada ideologia de gênero, policiando banheiros, impondo tarifas e sanções econômicas, supervisionando universidades e escritórios de advocacia. Somente no contexto da imigração, o governo Trump pediu o que equivale, segundo o New York Times, a “mais do que um aumento de seis vezes nos gastos para deter imigrantes”. Sua visão do governo federal é altamente ativa e intervencionista.

Estamos testemunhando, portanto, uma contrarrevolução moderna, na medida que, em primeiro lugar, ela se baseia na lógica e nas estratégias brutais da guerra moderna; em segundo lugar, consolida o poder executivo nas mãos do equivalente funcional de um monarca absoluto moderno e tenta reverter os valores do universalismo que fizeram parte da Fundação em 1776 ou da Refundação em 1866; em terceiro lugar, representa uma reversão do Estado administrativo americano construído desde o New Deal, cujo objetivo era proteger a classe média e os desfavorecidos; e, quarto, constitui uma contrarrevolução preventiva e antecipada dentro do quadro que o historiador Arno Mayer desenvolveu para estudar a dinâmica das contrarrevoluções.

É certo que há uma discordância substancial sobre se houve algo como uma revolução completa contra a qual a contrarrevolução moderna estaria reagindo hoje. Para Rufo ou Steve Bannon, ex-assessor de Trump, fronteiras abertas e “imigração descontrolada”, a natureza mutável da família nuclear, a Teoria Crítica da Raça e os Estudos de Gênero representam uma tomada revolucionária pela “wokeness” (conscientização política). Para muitos outros, porém, tudo isso parece evolução, não revolução.

Em 1972, Marcuse disse uma frase famosa sobre a repressão policial aos protestos contra a Guerra do Vietnã: “A contrarrevolução é em grande parte preventiva e, no mundo ocidental, totalmente preventiva. Aqui, não há nenhuma revolução recente a ser desfeita, nem nenhuma à vista.” Da mesma forma, não vejo nenhuma revolução real, nem na história recente, nem em formação. Especialmente quando tantas mudanças seminais desde a década de 1960 foram tão facilmente desfeitas: Roe v. Wade revogada; programas de D.E.I. desmantelados; proteções aos transgêneros eliminadas. Mas, seja uma revolução ou mera evolução, em qualquer caso, o ataque do presidente Trump contra ela certamente faz parte da “contrarrevolução moderna”.

E essa é uma ofensiva vasta, impulsionada por forças geopolíticas, macroeconômicas, sociais, tecnológicas, demográficas e culturais mais amplas, que explicam a ascensão do presidente Trump e de líderes com ideias semelhantes em todo o mundo.

Em todo o mundo, mudanças geopolíticas e macroeconômicas — globalização, financeirização, os efeitos das mudanças climáticas e o surgimento de novas tecnologias digitais, mídias sociais e inteligência artificial — alimentaram ataques virulentos contra os imigrantes. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o discurso anti-imigração está no centro de uma plataforma populista nacionalista que clama pela proteção das fronteiras nacionais e pela melhoria da vida das pessoas dentro do país — America First, La France d’abord pour les Français, Zeit für Deutschland, Brexit e assim por diante.

O gráfico Lakner-Milanovic — também conhecido como elephant graph (gráfico do elefante) — representa a mudança global na concentração de renda entre 1988 e 2008. Muitos economistas, incluindo Paul Krugman, interpretam isso como evidência dos efeitos prejudiciais da globalização sobre as classes baixas e médias nos países ocidentais. Pesquisas apartidárias, por exemplo, do PEW Research Center, confirmam que “a diferença de riqueza entre as famílias mais ricas e mais pobres dos Estados Unidos mais que dobrou entre 1989 e 2016”. De acordo com a maioria dos indicadores, os americanos de classe média estão em pior situação hoje do que antes da Grande Recessão de 2008; apenas as camadas mais ricas da sociedade americana ganharam significativamente desde então.

E 12 dos últimos 16 anos foram sob governos democratas — o que significa que a desigualdade nos EUA cresceu principalmente sob a supervisão do Partido Democrata, que tem promovido o neoliberalismo desde a presidência de Bill Clinton e mantido à distância políticos mais progressistas, como Bernie Sanders. A globalização também corroeu os sistemas bipartidários de muitos países, o que tornou muitos governos tímidos em relação às políticas redistributivas e, por sua vez, alimentou o populismo nacionalista.

Projeções do U.S. Census Bureau indicam que, até 2050, as pessoas não brancas serão mais numerosas do que as pessoas brancas não hispânicas nos EUA. Esse crescimento, ou pelo menos algumas de suas percepções, estão alimentando o movimento MAGA, cujos adeptos são pelo menos 60% brancos, cristãos e homens, e em sua maioria aposentados, com mais de 65 anos. A sensação entre os apoiadores do MAGA de que suas vidas estão estagnadas e de que estão sofrendo com a inflação está alimentando um conjunto de ideias odiosas. A teoria da “grande substituição”: os brancos serão substituídos por imigrantes e trabalhadores estrangeiros. A tese da “invasão criminosa”: os imigrantes são criminosos, estão inundando o país e precisam ser expulsos. E os movimentos “radicais de exclusão trans”: as pessoas transgênero, especialmente as mulheres transgênero, representam uma ameaça existencial à família, à reprodução social e à própria civilização.

As mudanças culturais também são importantes, como Stuart Hall demonstrou com suas análises dos thatcheristas na virada da década de 1980.10 A Fox News está moldando a maneira como os americanos pensam sua realidade política, assim como as redes sociais, especialmente o Truth Social e o X, que agora estão nas mãos da extrema direita. Isso também é verdade no exterior, com magnatas da mídia como Vincent Bolloré na França, Rupert Murdoch e outros. À medida que a propaganda política se globaliza, a informação tornou-se exponencialmente mais fácil de divulgar, quase incontrolável.

O populismo nacionalista está no centro da contrarrevolução americana moderna, tal como na França ou na Alemanha. É o principal dogma da maioria das pessoas do movimento MAGA, incluindo os seus líderes ideológicos, como Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca para a política, e o Sr. Bannon, com o seu Breitbart News. Bannon relembrou em uma entrevista no início deste ano como ele jogou todo o seu peso atrás de Donald Trump; e como o futuro presidente retribuiu com seu próprio tipo único de populismo nacionalista e patriotismo.

Mas enquanto Bannon frequentemente diz que quer “espremer os ricos”, que é a favor de impostos mais altos para os ricos e para as corporações e que acha que os bilionários da tecnologia são “tecno-feudalistas”, Trump formou uma aliança com os magnatas mais ricos. Entre eles estão tanto os bilionários da tecnologia presentes em sua segunda posse quanto também outro grupo de doadores e benfeitores, como Timothy Mellon, Miriam Adelson e Linda McMahon, bem como elites republicanas mais antigas que resistiram a ele no início, mas que desde então se alinharam. Essas pessoas extremamente ricas — referindo-nos à Rússia, nós as chamaríamos de “oligarcas” — entendem muito bem que é do seu interesse financeiro desmantelar o estado regulador federal.

O presidente também consegue atrair o apoio das populações rurais que se consideram a antítese das elites urbanas e dos moradores das cidades, como protetores dos valores familiares. Ele também inspira evangélicos, eleitores da maioria moral e nacionalistas brancos (comício Unite the Right em Charlottesville em 2017). E agora, também, segmentos crescentes de homens negros e latinos, que foram afastados do Partido Democrata.

O resultado é uma coalizão inesperada de aliados aparentemente improváveis. Hoje, tanto os bilionários quanto a base do MAGA querem desmantelar o estado regulador federal como o conhecemos e substituí-lo por um estado policial enxuto, focado em gastos militares e policiais, na imposição da família tradicional, nas crenças conservadoras, nas fronteiras e tarifas.

Engels observou certa vez que uma revolução requer audácia: “nas palavras de Danton, o maior mestre da política revolucionária até hoje conhecido, de l’audace, de l’audace, encore de l’audace!”. Isso se aplica também às contrarrevoluções modernas. A “audácia da esperança” do Sr. Obama empalidece em comparação com o que o presidente Trump fez nos últimos 100 dias. 

Será que Trump conseguirá reestruturar tão profundamente o governo dos EUA durante os próximos quatro anos e que este momento político constituirá um ponto de inflexão a longo prazo, como o New Deal? Se assim for, precisamos nos preparar para um país fundamentalmente diferente — e um planeta diferente. Este novo modo de governar anda de mãos dadas com a negação das alterações climáticas, e é difícil imaginar o resto do mundo a lidar com sucesso com o aquecimento global sem a participação ativa dos EUA. No seu livro  Slow Down: The Degrowth Manifesto (Devagar: manifesto sobre o decrescimento), Kohei Saito alerta para o “fascismo climático” (desigualdade extrema e poder estatal forte) ou a “barbárie climática” (desigualdade extrema e poder estatal fraco).

Mas pode haver uma reação e um movimento pendular em direção ao Estado administrativo ou mesmo mais além, em direção a alguma forma de coletivismo igualitário ou cooperação. Considerando a inevitabilidade das mudanças climáticas, Saito também descreve a possibilidade de um “maoísmo climático” (igualdade e poder estatal forte) e defende uma quarta opção, o “comunismo do decrescimento” (igualdade com acordos cooperativos e mutualistas). Mas ambos os futuros alternativos exigiriam um movimento social concertado.

Nos EUA, até agora, os democratas têm adotado principalmente uma estratégia de “rope-a-dope” de Muhammad Ali, para usar uma expressão do estrategista James Carville. Ou talvez até mesmo o que Carville chama de “rolar e fingir de morto”: “Deixar os republicanos desmoronarem sob seu próprio peso e fazer com que o povo americano sinta nossa falta”.

A única força contrária nos EUA neste momento parecem ser os tribunais federais de primeira instância, que proibiram provisoriamente mais de uma dúzia de decretos presidenciais. Eles têm sido eficazes em impedir ou atrasar a fase de demolição, pelo menos até agora. É incerto por quanto tempo o poder executivo irá cumprir ou fazer cumprir as ordens dos tribunais federais de primeira instância que o proíbem. A crise constitucional que muitos juristas temem ainda pode estar por vir. O governo Trump, por exemplo, está desafiando os tribunais federais em vários casos de deportação. E o vice-presidente Vance aconselhou o presidente Trump: “quando os tribunais o impedirem, fique diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente do Supremo Tribunal Federal tomou sua decisão. Agora deixe-o cumpri-la’”.

Por enquanto, o crescente número de litígios está alimentando uma resistência cada vez maior. Aplausos generalizados irromperam nos campi de todo o país quando a Universidade de Harvard se recusou a cumprir a carta do governo Trump exigindo auditorias nos departamentos acadêmicos e, em vez disso, entrou com uma ação judicial. Manifestações massivas estão sendo realizadas aos sábados em todo o país.

Usar a estrutura da contrarrevolução moderna deve abrir novos caminhos sobre como resistir e se revoltar. Afinal, há uma longa história de resistência às forças contrarrevolucionárias. Há muitas maneiras de se revoltar, como Marcuse nos lembra no próprio título de seu livro  Contrarrevolução e Revolta. E a história mostra que, quando as pessoas mantêm seus valores, as contrarrevoluções raramente têm sucesso.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


O que se passa com os rapazes?

“Boys will be boys” diz a famosa expressão condescendente em língua inglesa… e agora os rapazes preferem a extrema-direita.

No relatório "From Provider to Precarious: How Young Men’s Economic Decline Fuels the Antifeminist Backlash", publicado há dias pelo European Policy Center, vemos que, em Portugal, por cada rapariga (com menos de 25 anos) que vota num partido de extrema-direita, 4,9 rapazes fazem o mesmo. O número é tão alto que só a Croácia nos ultrapassa.

Outro estudo, de que um artigo no site do European Consortium for Political Research dá conta, mostra que, em 2024, 21% dos jovens rapazes europeus (com idades entre 18 e 29 anos) apoiavam partidos de extrema-direita, enquanto as raparigas se ficavam pelos 14%. O que se passa aqui?


Estávamos habituados a que o clássico voto de protesto antissistema, tão caro à juventude, se situasse na extrema-esquerda. Mais liberais do que os seus pais conservadores, radicais e revolucionários, os jovens pendiam para um extremo político antes de se “aburguesarem”, com a meia-idade, no colo do centrão. O voto antissistema foi capturado pela extrema-direita. Com uma grave distinção: se o sistema que a extrema-esquerda combate é o capitalismo, o sistema que a extrema-direita repudia é a democracia.

Para Đorđe Milosav, um dos autores do segundo estudo acima mencionado, a questão dos rapazes vai muito além do simples “boys will be boys”, no sentido em que o voto masculino jovem reflete a idade da exploração da identidade, do testar de limites, do correr riscos, atitudes mais acentuadas do que no sexo feminino. Se assim fosse, esclarece o investigador de Ciência Política, essa realidade estaria refletida em toda a juventude de décadas passadas. Mas não está. “Esta diferença de género do voto na extrema-direita por parte dos jovens é muito mais pronunciada agora, na Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), do que foi nas gerações passadas. Mas também vemos isso, embora em menor grau, nos Millennials (1981-1996)”, escreve.

“Muitos homens jovens veem o crescente sucesso das mulheres na educação e no trabalho como uma ameaça. Isto alimenta o ressentimento e o desejo de controlo”, acrescenta Đorđe Milosav, alertando para o facto de o voto na extrema-direita lhes dar um sentido de propósito e validação. Pior: “Os partidos de extrema-direita movem-se das franjas para o mainstream. Já não se trata só de um voto de provocação contra pais e professores – à medida que estes partidos se normalizam, a tendência é a de que o voto dos jovens neles não cesse à medida que vão envelhecendo.”

“Há uma crescente divisão ideológica entre os géneros”, diz, por seu lado, Javier Carbonell, autor do relatório do European Policy Center, “em que as mulheres são mais progressistas e os homens mais conservadores. Esta divisão mostra o poder eleitoral das forças antifeministas”. Mas a ascensão do feminismo não explica tudo.

“A deterioração das condições económicas tem levado a que os rapazes sejam menos escolarizados, ganhem menos e se debatam para estar à altura do que tradicionalmente é esperado do papel masculino: ser o sustento das suas famílias. A extrema-direita tem sabido explorar isto, oferecendo uma visão regressiva da masculinidade”, continua Javier Carbonell.

A ideia tradicional de masculinidade está ultrapassada e entrou em crise. O problema é quando são os próprios jovens a preferir olhar para trás em vez de seguir em frente.

Submissão

Um homem submisso atrai naturalmente um homem que se compraz em submeter, em mandar. Mais cedo ou mais tarde, um homem muito submisso vai atrair e até criar um déspota junto a si. Eles formarão um casal.
Henri Michaux, "Um bárbaro na Ásia"

Transformando macarrão em pão: a luta de Gaza pela sobrevivência

Os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança.

Em meio ao bloqueio imposto pela ocupação israelense e seu governo em Gaza, os moradores recorreram a meios não convencionais para sobreviver, incluindo transformar macarrão em pão depois que a farinha quase desapareceu dos mercados.

No norte da Faixa de Gaza, Fadwa Hussein compartilhou sua história com o The Palestine Chronicle: “Estamos vivendo em condições catastróficas. Desde que as passagens de fronteira foram fechadas, produtos e alimentos essenciais desapareceram dos mercados. Armazenei alguns suprimentos de comida, mas eles estão se esgotando rapidamente, pois não há alternativa para o que consumimos.”

Fadwa continuou: "Eu tinha dois sacos de farinha, mas com o fechamento das travessias, eles acabaram. Começamos a comprar farinha por quilo a preços altíssimos, mas a falta de dinheiro nos impossibilita de comprar mais a preços tão exorbitantes."

Ela explicou que pesquisou alternativas para fazer pão na internet e encontrou uma maneira de transformar macarrão em pão.

Comecei a experimentar com a minha filha e funcionou. Começamos deixando a massa de molho em água por 5 a 6 horas e depois a sovamos até ficar firme. Também reservei um pouco de farinha para misturar à massa, para ajudar a mantê-la unida.


À medida que a crise se agrava, Fadwa acrescentou: “Tentamos nos adaptar a todas as circunstâncias apenas para sobreviver. Apelamos a todas as consciências e nações vivas do mundo para que nos acompanhem, para que levantem nossas vozes e as vozes dos famintos para o mundo. Israel usa a fome como arma de punição contra nós, contra crianças, mulheres e bebês.”

Enquanto isso, em um centro de deslocados a oeste da Cidade de Gaza, Mona Salama, mãe de três filhos, agora vive com sua família depois de perder sua casa em um bombardeio.

"Depois de perdermos nossa casa, não temos mais dinheiro para comprar farinha por conta própria. Costumávamos contar com a ajuda da UNRWA, mas como a ajuda foi impedida de entrar, não temos condições de comprar nada", disse ela ao The Palestine Chronicle.

“Ouvi dizer que algumas famílias em Gaza começaram a usar lentilhas e macarrão para fazer pão, então perguntei e comecei a preparar pão para meus filhos com meu marido”, acrescentou.

Mona continua com tristeza: “Tenho filhos pequenos que não entendem o que significa fome. Eles choram constantemente, querendo comida. Fico impotente diante deles e, às vezes, choro porque não consigo lhes dar três refeições. Fazemos uma pequena quantidade de pão apenas para os nossos filhos, para aplacar a fome deles, enquanto meu marido e eu comemos o que mais encontramos.”

Mais de dois milhões de palestinos em Gaza estão enfrentando uma crise humanitária sem precedentes devido às restrições impostas por Israel à entrada de ajuda desde o início de março, após o colapso da primeira fase de um acordo de cessar-fogo mediado pelo Egito, Catar e Estados Unidos em janeiro.

O Gabinete de Imprensa do Governo em Gaza alertou recentemente que os moradores estão "à beira da morte em massa" devido à fome crescente e ao colapso completo de setores vitais, pedindo a criação imediata de um corredor humanitário para resgatar mais de 2,4 milhões de palestinos.

Em um comunicado, o gabinete confirmou que “a fome em Gaza se tornou uma realidade sombria, não apenas uma ameaça, depois que 52 mortes foram registradas devido à fome e à desnutrição, incluindo 50 crianças, em um dos cenários mais horríveis de matança lenta”.

A UNRWA disse que tem milhares de caminhões prontos para entrar em Gaza e que suas equipes estão preparadas para aumentar as entregas assim que forem permitidas.

Em uma publicação no Facebook, a UNRWA escreveu: “Já se passaram mais de nove semanas de bloqueio em Gaza, com Israel impedindo a entrada de toda ajuda humanitária, suprimentos médicos e produtos comerciais.”

A agência acrescentou: “Quanto mais tempo esse bloqueio durar, mais danos irreversíveis serão causados ​​a inúmeras vidas”.

Em meio a essa trágica realidade, os moradores de Gaza são forçados a inovar e se adaptar para sobreviver à fome, enquanto esperam que o mundo abra suas portas para eles, agarrando-se a um vislumbre de esperança para salvar as vidas de milhares de crianças, mulheres e idosos.

Mujica foi, antes de tudo, um homem inteiro

Sendo a vida um rio que precisa ser atravessado, cabe-nos construir uma ponte capaz de nos sustentar do primeiro engatinhar ao último arrastar de perna. Não é tarefa pouca. Tanto assim que boa parte dos bípedes acaba desperdiçando fortunas ou aflições erigindo passarelas impermanentes, ocas, que desabam ao primeiro infortúnio e acabam varridas da História. José “Pepe” Mujica, que completaria 90 anos nesta terça-feira, nunca confundiu o ser com o ter. Atravessou o tumultuoso rio de sua vida sem precisar escorar-se em vanglórias nem vitimizações. Sua ponte a tudo resistiu. Fora construída de material nobre e raro: a simples decência humana.

A julgar pelos registros nas mídias, elogiosos segundo a régua convencional de atributos, havia morrido um “símbolo da esquerda”, um “ícone da esquerda” ou, no máximo, um “herói da esquerda da América Latina”. Assim fazendo, apequenaram o morto. Isso porque Mujica foi, antes de tudo, um homem inteiro. Seus valores eram universais, e sua moral danada de límpida. “Dediquei a vida a mudar o mundo e não mudei nada, mas não importa — dei sentido à minha vida sonhando, lutando, pelejando. Parto daqui feliz”, explicou ao jornal El País no ano passado, já bastante doente.


A trajetória política do uruguaio José Alberto Mujica Cordano é conhecida: nascido em ambiente rural nos arredores de Montevidéu, aderiu cedo ao movimento guerrilheiro Tupamaro, foi preso quatro vezes, conseguiu fugir duas — uma das quais com lances cinematográficos —, mas acabou recapturado em 1972 para mofar ou enlouquecer no cárcere. O filme “Uma noite de 12 anos”, de 2018, dirigido por Álvaro Brechner, retrata bem o que foram seus 12 anos de cativeiro na ditadura militar uruguaia. Sete deles foram passados em solitária, numa cela-buraco de pouco mais de 1 metro quadrado, privado de leitura ou raio de sol. Espancado e torturado, chegou a comer sabão e alucinar.

Quando finalmente libertado, estava com 50 anos de idade. Não perdera a razão, nem a humanidade. Nem a companheira de militância Lucía Topolansky, com quem se casaria em 2005 e que o acompanhou até o final. Estava pronto para retomar a política redemocratizada e recebeu dos patrícios votos e aprovação — primeiro como membro do Congresso, depois como presidente da República. Ao contrário do que ocorreu na Argentina e no Chile pós-ditadura, decidiu não processar os militares responsáveis pela tortura, mortes e desaparecimentos ocorridos nos porões uruguaios. Tampouco se arrependeu das várias ações de guerrilha urbana de que participou. “Na vida há feridas que não têm cura, é preciso aprender a continuar a viver”, dizia. Assim fez.

Poucas horas depois do anúncio de sua morte, um vídeo caseiro de menos de três minutos mostrava uma bailarina anônima numa viela deserta de Montevidéu. É noite. À frente de um muro descascado com os dizeres “GRACIAS PEPE POR TANTA POESIA” e de uma dezena de velas acesas no chão, a bailarina dança um dos solos mais belos do “Lago dos cisnes”, de Tchaikovsky. Difícil imaginar outro líder mundial que gere manifestação de pesar tão significante. Vez por outra, poesia, política e humanidade conseguem conviver e frutificar. São raras essas vezes — somente quando o ser humano foi maior que sua obra estritamente política. Assim foi com o sul-africano Nelson Mandela, assim foi com o argentino Papa Francisco e assim foi com o americano Jimmy Carter.

No seminal livro de Primo Levi “É isto um homem?”, o sobrevivente de Auschwitz nos intima a refletir sobre os abismos e cumes do que é ser humano. Talvez lhe fizesse bem saber que, para Mujica, o significado da vida pode ser encontrado no que nos diferencia das demais espécies — graças a nosso desenvolvimento intelectual, e se exercitarmos nossa consciência, podemos dar à vida algum sentido, escolher uma causa, vivê-la. Mujica diz ter conseguido ser livre por ter escapado da lei da necessidade. Levi não teve essa oportunidade. Coube-lhe a missão desumana de narrar o que não suportamos ver. Ainda assim, também ele inicia seu livro máximo com um poema: “Se questo è un uomo”.

Ética, confiança e democracia

É generalizada a percepção de que, no momento atual da vida brasileira, a preocupação com a ética não tem predominado na conduta dos atores políticos, tanto da situação quanto da oposição.

Dessa carência de eticidade provém a redução da confiança nas instituições do País que alcança o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

Democracia requer confiança. Uma confiança que se vê comprometida pela presença de uma política “fértil em meios e manhas” (nas palavras de Rui Barbosa), voltada para o bem particular de alguns.

São requisitos de confiança nas regras da democracia, como esclarece Bobbio, tanto a confiança da cidadania nas instituições quanto a confiança recíproca entre os cidadãos que integram a comunidade política. Esta, por sua vez, se vê comprometida pela fragmentação polarizadora, permeada pela intolerância da sociedade brasileira.

Neste contexto, vale a pena lembrar que a palavra corrupção vem do latim, corrumpere, com o significado originário de estragar, decompor, perverter. Este significado na filosofia aristotélica é uma das espécies do movimento que leva à destruição da substância. A falta de ética é um movimento destruidor da substância do Estado Democrático de Direito, consagrado pela Constituição cidadã de 1988.

A perversão da corrupção, proveniente da falta de ética, vai além da transgressiva conduta de pessoas, empresas e associações em esferas da vida nacional. Transcende igualmente o elenco de crimes tipificados pelo Direito Penal. É um sério problema de profundo alcance político ao ensejar a corrupção do espírito público, como aponta Raymond Aron.

É o cupim da corrupção na imagem de Políbio, que transubstancia as formas boas de governo em formas más. No nosso caso, a democracia de governo de muitos, numa oclocracia de submissão e apequenamento. Esta, ao consolidar-se, dá espaço para as manhas e meios de demagogos inconsequentes, propicia as aspirações do cesarismo de falsas lideranças e promove os vínculos espúrios do dinheiro com o poder que leva à plutocracia. Isso acaba no que Michelangelo Bovero denomina de caquistocracia – o governo dos piores.

No Brasil, um ingrediente da caquistocracia da corrupção é um crescente hiato entre o preconizado pela Constituição de 1988 e os costumes constitucionais, que são a melhor garantia da Constituição. O costume tem a necessidade das instituições para desenvolver-se. As instituições têm a necessidade do costume para perdurarem. Uma das virtudes do Estado Democrático de Direito é o respeito às leis e, muito especialmente, à Constituição, e uma dimensão da falta de virtude ética é a complacência no afrouxamento de sua força obrigatória. Evoco nesse sentido os princípios do artigo 37 da Constituição.

Começo com o princípio da moralidade, que aponta para o fato de que o direito, como disciplina da convivência humana, sempre tem como piso um mínimo ético. Esse mínimo ético está em sintonia com os valores da sociedade, que na redemocratização presidiram a elaboração da Constituição. Dele emana a cobertura axiológica da boa-fé e da confiança, que deve nortear, na relação governante-governados, a aquisição e o exercício do poder. O princípio da moralidade adquire especificidade com os princípios da legalidade e da impessoalidade.

O princípio da legalidade afirma que as atividades dos atores políticos regem-se pelo atendimento das normas jurídicas, com base na lei, cuja finalidade é sempre a preservação do interesse público. O princípio está voltado a embargar os ilícitos da corrupção provenientes dos desmandos e dos favoritismos no exercício do poder.

O princípio da impessoalidade prescreve que todos devem ser tratados sem distinção, em obediência ao republicano princípio da igualdade. É o que se contrapõe ao clientelismo das nomeações, ao compadrio do favoritismo da família. Em síntese, as modalidades de corrupção provenientes da confusão entre o público e o privado, entre a casa e a rua, para lembrar a formulação de Roberto DaMatta.

Por último, mas de grande relevo para a eficácia dos demais, o princípio da publicidade. Este parte de um pressuposto essencial da democracia na passagem do dever do súdito para o direito do cidadão: o público, por ser comum a todos, deve ser do conhecimento de todos, e não ser guardado em sigilo por interesses privados.

A transparência, propiciada pela publicidade e fortalecida pelo respeito à veracidade, está voltada para embargar as modalidades de corrupção que se escondem para não passar pelo teste da moralidade oferecida pelo sol da publicidade. A cidadania deve poder saber quem é um ator político, o que faz e com quem anda. E, sobretudo, deve saber tudo em relação àqueles que têm o poder de decidir no âmbito dos poderes e detêm as consequentes competências jurídicas para fazer-se obedecer.

Machado de Assis observa que “a corrupção escondida vale tanto quanto a pública: a diferença é que não fede”. No momento atual, os costumes da falta de ética minam a confiança na democracia, enquanto o mau cheiro da fumaça está asfixiando a cidadania brasileira.
Celso Lafer

A cara do Brasil

De passagem pelo Brasil, anos atrás, perguntaram a Umberto Eco o que era afinal Silvio Berlusconi, então eleito primeiro-ministro. “Infelizmente ele é a cara da Itália de hoje”, respondeu. Não havia ali ironia, apenas cínico conformismo diante do personagem folclórico e corrupto. O Brasil de 2025 seriam os 315 deputados que votaram para aliviar o golpista Alexandre Ramagem e o chefe do bando? Ou seria o notório ex-ministro Carlos Lupi? Sem muito esforço: é Lula da Silva e sua Janja, ao lado de Nicolás Maduro, entusiasmado com o ditador Vladimir Putin?

Posso olhar para o lado, fugindo dos tipos eleitos pelo voto popular, e pensar em Alaíde Costa, que, aos 89 anos, lança um álbum avassalador: “Uma estrela para Dalva”, em homenagem a Dalva de Oliveira. É um Brasil com outro tipo de civilização, ainda educado e poético, que não precisa mostrar a bunda, como Anitta, em assanhada vulgaridade. Ao lado de Guinga, Antonio Adolfo e André Mehmari, entre outros, Alaíde oferece um repertório de canções — algumas de Herivelto Martins, com quem Dalva foi casada, como “Ave Maria no morro” — de quando o brasileiro acreditava no país do futuro. Mais certo se aferrar à definição de Oswald de Andrade, imbatível: “O Brasil é um monte de gente dando adeus”. Ou seria um “país de chegadas”?

Nos quarenta anos de democracia, a polarização nos coloca falsamente entre a cruz dos Adoradores do Golpe ou das genuflexões para o Populismo de Esquerda. O mundo delicado de Guimarães Rosa e Noel Rosa desapareceu sepultado pelas emendas secretas, pelo fundo eleitoral e pelas redes sociais. A política de coalizão substituiu a possibilidade de Drummond de Andrade pela realidade ralé de Valdemar Costa Neto e Sóstenes Cavalcante. Ou pelo ativismo reverso de Anielle Franco.

A culpa não é dos eleitores, mas de um sistema que nos prende às imagens de mundo do passado, capaz de afastar da política os melhores quadros. Não deve causar entusiasmo levantar da cama na segunda pela manhã sabendo de uma reunião com Arthur Lira. Ou discutir questões atuariais com Carlos Lupi. O desaforado filósofo Sócrates escolheu tomar cicuta para demonstrar na prática ao povo de Atenas sua descrença na democracia, como escrito por I.F. Stone em “O julgamento de Sócrates”. Passados alguns séculos, com algumas graves guerras pela História, e a ortografia de Bolsonaro, as instituições ganharam camadas de proteção. Mas sempre escapa uma Carla Zambelli por baixo da porta.

O historiador Robert Paxton, em sua “Anatomia do fascismo”, caminha pelo surgimento das representações políticas modernas. Ao buscar as raízes do nascimento dos extremismos de direita, mostra a reação das elites ao voto universal, ao surgimento do político profissional (o primeiro Parlamento a dar salário a deputados foi o francês, ainda no século XIX) e a manipulação do eleitorado. Colocado em prática na eleição de 1848, Luís Napoleão (sobrinho do Imperador) foi eleito com ampla maioria (74%) — depois deu um golpe. O velho Marx errou sua aposta ao imaginar a vitória do proletariado sobre a burguesia. Nem ele, tampouco Engels, imaginavam a possibilidade de os trabalhadores votarem num representante das elites (o patrão, na linguagem usual). Parece a surpresa dos democratas ao ser novamente derrotados por Donald Trump.

A extrema direita sempre mostrou habilidades na manipulação dos eleitores nos momentos de crise econômica ou de mudanças nos processos de produção (lá, a Revolução Industrial; agora, a Revolução Digital). Ninguém deve esquecer que tanto Mussolini como Hitler foram eleitos. E já pregavam várias de suas atrocidades.

Mesmo com a volta à democracia, o sistema eleitoral brasileiro sempre se mostrou imperfeito. Nunca houve modelo capaz de representar mais fielmente a vontade popular. Agravando as distorções, na véspera de cada eleição os políticos promovem mudanças em benefício próprio. Em poucos anos, o fundo eleitoral se transformou num maná, surgiram as emendas secretas (e bilionárias) somadas à manipulação das redes sociais.

Sem reforma eleitoral, com um novo sistema, a começar pelo voto distrital, o eleitor manipulado continuará a ser uma arma contra a democracia. A continuar assim, a política permanecerá na mão dos profissionais pagos pelo próprio povo. Como 315 deputados votam para inocentar alguém que quis dar um golpe? Seriam eles representantes da maioria ou instrumento de um grupo minoritário? A manobra de Hugo Motta para aumentar, e não diminuir, o número de deputados novamente deturpa a representação. Mas hoje ele é a face eleita do Brasil.
Miguel de Almeida

A única coisa de jeito que podemos aprender com Trump

Sim, Donald Trump é um perigo ambulante, um narcisista descontrolado com pouquíssimo amor às regras da democracia e sem qualquer respeito pelas suas instituições. Já sabemos tudo isto de cor e salteado. Mas há um aspecto da sua governação a que convém prestar atenção, porque podemos aprender alguma coisa com ele. Estima-se que desde o início deste seu segundo mandato Donald Trump já tenha emitido cerca de 140 ordens executivas, entre questões de imigração, educação ou ambiente. É um recorde absoluto. Por um lado, Trump toma essa opção para fugir a possíveis bloqueios do congresso, e fazer o que lhe dá na real gana. Mas, por outro lado – e é esse o lado que me interessa discutir hoje aqui –, há um claro desejo de reclamar mais força para o poder executivo. E esse desejo não me parece tão despropositado assim. Vale a pena explicar porquê.

Uma das coisas que sempre me impressionaram quando ocasionalmente conversei com pessoas que é suposto terem poder – ministros, presidentes de câmaras, diretores de grandes instituições ligadas ao Estado – foi a enorme quantidade de queixas acerca daquilo que “não se consegue fazer”. Não porque a oposição o impedisse ou lhes faltasse apoio político, mas porque o “sistema” não deixava: as leis eram complexas, a regulação uma tortura, os serviços insuficientes, a burocracia infrene. Queriam fazer, mas não conseguiam. Este sentimento de impotência existe mesmo, e é muito significativo por parte de políticos eleitos. Eles jamais o admitem em público, para não fazerem figura de fraca gente, mas queixam-se abundantemente disso em privado.

Nos Estados Unidos, passa-se o mesmo, ainda com maior intensidade. A oposição entre “Mainstreet” e “Wall Street”, de que tantas vezes ouvimos falar, deriva daqui: da existência de poderes fácticos que, segundo os mais descontentes, têm tornado praticamente inútil o voto – o poder está capturado pelo chamado “deep state”, e é este “Estado profundo”, obscuro e sem escrutínio, que a direita de Trump quer desmantelar (dizem eles). Sendo esse o objetivo, esta segunda vaga trumpista tem vindo a utilizar intensivamente uma táctica conhecida como “flood the zone” – “inundar a área” –, alegada criação do guru Steve Bannon, que consiste em avançar muito rapidamente contra aquilo que se quer derrubar, emitindo um vendaval de ordens executivas e de declarações altamente controversas. A ideia é que ninguém consiga acompanhar o ritmo: nem a oposição, nem os tribunais, nem a comunicação social, que são obrigados a escolher dez ou 20 lutas e indignações, e a deixar passar as outras 120 ou 130.

A estratégia é forte e é bruta, e, dada a falta de amor à democracia de Donald Trump, é também altamente perigosa. Mas ela corresponde a uma inquietação genuína. Quando Trump obtém 77 milhões de votos, nós achamos que há 77 milhões de americanos a concordar com as suas ideias. Pode não ser isso. Basta que concordem com ele numa única grande ideia: não querer que as coisas fiquem como estão. Não se trata, pois, de opor esquerda e direita, mas mudança e imobilidade. Muita gente não gosta de Trump, mas vê nele o político certo para que o poder executivo volte efetivamente a “executar”, sem ficar capturado numa rede de interesses subterrâneos com imenso poder, mas sem legitimidade democrática. Há aqui muita teoria de conspiração? Sim, há. Mas há também um fundo de verdade, que seria bom que os verdadeiros democratas começassem a levar a sério.
João Miguel Tavares

domingo, 18 de maio de 2025

Pensamento do Dia


 

Um grito de socorro abafado

Na adolescência, era bom dançar ao som de "Blue Gardenia", composta e cantada por Nat King Cole. Ele inscrevia esse nome no melhor do cancioneiro romântico, suavizando o mesmo título de um filme policial (1953), também na boa tradição do thriller americano. Mas a Gardênia Azul que batiza uma comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro reitera o alerta nacional para o descontrole territorial. Ali, o Comando Vermelho desbancou a milícia e passou a taxar o comércio, em alguns casos a R$ 10 mil por mês, além de obrigar restaurante a fornecer 70 quentinhas diárias para os traficantes. Na verdade, tráfico e milícia desbancam o Estado.


Cerca de 800 comunidades podem fazer relatos semelhantes. No mesmo dia em que a imprensa escrita noticiava a situação da Gardênia Azul, uma reportagem televisiva falava dos condôminos de um edifício em Madureira, zona norte, convocados a uma assembleia geral extraordinária para discutir o pagamento mensal de R$ 1.800 ao tráfico da região. Essa é a realidade das classes mais pobres no território carioca. Comunidade deveria ser o lugar onde se pode gritar por socorro e ser ouvido, mas aqui são as próprias comunidades que gritam. Milhões de pessoas vivem sem o direito elementar de ir e vir.

Os megaeventos, destinados a projetar uma imagem favorável da cidade para o mundo e reinjetar dinheiro na economia, tentam camuflar essa realidade opressiva. É a lógica que leva estado e município a gastarem juntos R$ 30 milhões do custo total de R$ 90 milhões com o show de Lady Gaga. O evento deixou memória positiva: impacto econômico de R$ 600 milhões, mínimas ocorrências policiais. Mas é forte a impressão de que tudo isso abafe o grito de socorro da parte da população que vive sob ditadura férrea de delinquentes, ao lado da outra imersa no negacionismo do não querer saber.

A ressonância internacional do vexame comprova-se na vinda de uma delegação dos EUA para discutir o combate ao Comando Vermelho, que já se espalha por várias cidades americanas. Quanto ao megaevento, vantajoso a empresários e políticos, é um plus anestésico num público que, em matéria de solidariedade social ou afetiva, beira a apatia. A quem assiste como coisa mais interessante de suas vidas o show bem policiado de Lady Gaga, pouco importa saber se outra parte da cidade com o mesmo anseio estará ausente por medo de deslocar-se de onde vive.

Embora a paisagem humana carioca pareça ser a mais afetada por essa calamidade cívica, o problema é de toda a nação. Inconcebível que o Estado nacional, mesmo regido por velhas elites predatórias, se mostre tão vulnerável aos sinais de sua derrocada. Divaga-se, certo, sobre retomada de territórios, mas com uma perspectiva apenas policial, enxuga-gelo, que mais prejudica a população dos espaços onde as quadrilhas se instalaram. Com frequência, as operações de "neutralização" de chefões do crime não são mais do que atos de vingança ou retaliação corporativa, com danos colaterais para moradores indefesos. É que, assim como já não se distingue narcotráfico de milícia, talvez não se saiba mais fazer a diferença entre lei e ilegalismo, Estado e banditismo.

Bolsonaro conduz a direita como gado

A direita brasileira saiu do armário e ganhou corpo graças à arrancada e à vitória de Jair Bolsonaro em 2018, mas, desde então, demonstra incapacidade de se livrar de sua tutela, mesmo depois da inédita derrota de um presidente no cargo e da debacle judicial enfrentada por ele desde que deixou (a contragosto) o poder.

Bolsonaro trata o eleitorado e os aliados que se convencionou chamar de bolsonaristas como gado. Que faça isso não surpreende ninguém, pois condiz com a maneira autoritária com que sempre se conduziu na vida pública. O constrangedor é que políticos que hoje detêm mandatos —conferidos, portanto, por voto popular— se submetam a esse jugo que nem faz sentido nem parece ser condição determinante para seu futuro eleitoral.

Bastou verificar que governadores de seu campo ideológico começaram a ensaiar conversas para uma candidatura única da direita no ano que vem para que Bolsonaro pulasse na frente para interditar o campo e dizer que o candidato tem de ser ele ou, no limite, alguém de sua família designado por ele.

O filhotismo é uma das principais características do bolsonarismo desde que Jair lançou o filho Carlos, então menor de idade, para enfrentar a própria mãe na disputa pela vereança no Rio, uma vez que ela, à época já divorciada do chefe do clã, tinha cometido a audácia de achar que o mandato lhe pertencia e pleiteava a possibilidade de se reeleger. É dessa forma desrespeitosa que Bolsonaro segue tratando aqueles que ajudou a impulsionar politicamente, como se, uma vez apoiados por ele, mantivessem a marca a ferro do capitão no couro para sempre.

Ainda que reservadamente esses mandatários reconheçam que existe boa chance para um candidato de centro-direita vencer Lula no ano que vem, na hora em que Bolsonaro estrila, ninguém ousa enfrentá-lo. Está óbvio que a prioridade do ex-presidente, hoje inelegível e réu no processo da trama golpista, não é a vitória de alguém de seu campo. Isso só interessaria se o ungido se comprometesse de papel passado com um indulto para Bolsonaro e os seus, como fez o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em plena Nova York nesta semana, expondo diante dos holofotes uma costura que antecipei neste espaço há mais de um mês.

Os que não são tão explícitos recebem de Bolsonaro o castigo das ameaças, como uma chapa pura do clã para travar a disputa e atrasar que a fila ande. Caciques que reverenciam Bolsonaro em público, mas adorariam ver essa página virada, andavam cabisbaixos na quarta-feira pelas avenidas nova-iorquinas depois do ultimato do capitão. Sem coragem para romper o jugo, faziam um complicado cálculo de que, a esta altura, seria melhor que Lula recuperasse parte de sua popularidade para que chegasse competitivo no ano que vem. Isso daria a Bolsonaro menos cacife para dar as cartas da direita, uma vez que uma nova vitória do petista enterraria toda a indecente costura por indulto, anistia ou qualquer forma de socorro a quem tramou contra a democracia.

A indigência da política brasileira numa das quadras mais desafiadoras da História global fica ainda mais evidente em episódios como esse, mas não é exclusividade da direita submissa a Bolsonaro. Basta ver que, enquanto o escândalo do INSS segue irresoluto, o presidente, a primeira-dama e seus principais ministros se dão ao desplante de protagonizar um vexatório incidente diplomático com direito a caça às bruxas de vazadores numa viagem de Estado à China.

A direita e a esquerda brasileiras, com um centro superlotado, mas acéfalo, seguem atreladas a líderes personalistas, em maior ou menor grau de declínio, mas sem coragem de romper a tutela. A última vez em que se viu um cenário assim não foi há muito tempo, basta voltar algumas páginas e rememorar a eleição dos Estados Unidos.
Vera Magalhães

O mundo de ponta-cabeça

Segunda-feira, dia 12, desembarcou em Washington o primeiro grupo de 59 sul-africanos bóeres, que Donald Trump decidiu acolher com estatuto de refugiados. Trump alega que os bóeres, no seu conjunto, estão sendo perseguidos na África do Sul por motivos raciais.

Na África do Sul, país com uma enorme riqueza étnica, e onde tal riqueza é valorizada e até mitificada, coexistem diversos grupos populacionais considerados brancos. Os bóeres são descendentes muito remotos dos primeiros colonos calvinistas de origem holandesa, francesa e escandinava que se estabeleceram no extremo sul da África, fugindo a perseguições religiosas.


Ao longo dos séculos, os bóeres misturaram-se com outros povos, africanos e malaios, criando a sua própria língua, o afrikaans, além de música, culinária e outras práticas culturais. Embora tenham combatido contra os colonos britânicos, os bóeres terminaram aliando-se a estes para fundar um regime de segregação racial, o apartheid, que se prolongou até 1994, e em larga medida os arrancou da pobreza. O apartheid dividiu as famílias bóeres, entre brancos e mestiços. Hoje, a comunidade considerada mestiça (“coloured”) fala afrikaans e partilha com os “bóeres brancos” os nomes de família. No fundo, à semelhança do que acontece com as famílias antigas brasileiras, não existe nenhum bóer que não possua alguma ancestralidade africana.

A comunidade considerada branca, que hoje representa apenas sete por cento da população total, mantém muitos dos privilégios — e toda a riqueza! — que possuía durante o apartheid. Concretamente, essa pequena minoria detém quase 80% das terras agrícolas privadas.

A decisão de Trump, expulsando ou cortando qualquer apoio a pessoas que realmente necessitam de refúgio, e acolhendo outras que não estão sendo hostilizadas, é um insulto exuberante aos direitos humanos, à inteligência e à sensatez, e a todos os generosos princípios cristãos. É o mundo de ponta-cabeça. O mundo de Trump.

Ebrahim Rasool, o embaixador sul-africano que Trump expulsou dos EUA, despertou a ira da direita selvagem americana, ao sugerir que o maior receio da mesma é que os brancos deixem de ser majoritários nos EUA. A atitude de Trump confirma esta ideia — brancos podem entrar, não-brancos têm de sair.

Na África do Sul, a notícia da chegada dos “refugiados sul-africanos” a Washington foi recebida ora com troça, ora com fúria. Alguns comentadores agradeceram a Trump por estar retirando do país os últimos racistas brancos.

A comunidade bóer divide-se entre a vergonha, a perplexidade e a consternação. Os bóeres ligados à extrema direita teriam preferido que Trump apoiasse a sua pretensão absurda de formar uma república independente. Os outros, aqueles que ainda acreditam no país do arco-íris sonhado por Nelson Mandela, mostram-se horrorizados. Sentem-se sul-africanos e não pensam em abandonar a sua pátria, a pátria dos seus ancestrais, embora, como todas as restantes comunidades, estejam desapontados com a forma como o ANC, partido que ocupa o poder desde 1994, vem liderando o país.

A grande fome de Gaza

Depois de, já esta semana, três responsáveis israelitas terem reconhecido que o território de Gaza está prestes a sofrer fome generalizada, o mundo acordou na quinta-feira com a notícia de um novo bombardeio na zona de Khan Yunis. Mais 79 mortos. Tinha havido outro ataque na noite anterior.

Enquanto tudo isto acontece, o Presidente americano, Donald Trump, passeia-se por outras zonas do Médio Oriente, inveja as riquezas da região e as suas “maravilhas brilhantes” e considera aceitar um avião opulento como presente.

O saldo da investida de Israel em Gaza, desde outubro de 2023, rondará as 64.260 vítimas mortais, de acordo com o número estimado em janeiro deste ano num estudo da revista The Lancet.

O inferno continua a existir em Gaza e, a aceitar como válidas as declarações das três fontes militares israelitas que falaram sob anonimato ao jornal The New York Times, está prestes a piorar. De acordo com os mesmos responsáveis, para evitar o cenário de fome seria necessária a entrada imediata de ajuda humanitária (que inclui não só alimentos, mas também água, medicamentos e equipamentos médicos).

O Governo de Israel tem considerado que este bloqueio à entrada de ajuda, decretado há dois meses, é essencial para pressionar o grupo islamista Hamas, mas, à luz do direito internacional, é ilegal impedir o acesso de missões humanitárias a uma zona em conflito. E mesmo que não fosse uma questão de legalidade, seria, sem qualquer sombra de dúvida, uma questão de humanidade para com os mais de dois milhões de palestinos que tentam sobreviver na Faixa de Gaza.

Perante a situação humanitária em Gaza, Emmanuel Macron (que prometeu reconhecer o Estado da Palestina) visita à fronteira daquele território com o Egito. “Não há água, não há medicamentos, não se consegue retirar os feridos. Foi uma das piores coisas que alguma vez vi”, recordou, recebendo, do lado Benjamin Netanyahu, a resposta de que estava a apoiar uma “organização terrorista”.

Macron também disse que a situação no enclave é “inaceitável” — uma vergonha” — e que o mundo não pode “fingir que nada está a acontecer”. Tem razão o Presidente francês: quando está em causa assistência básica, nenhum fim justifica que Israel se mantenha inflexível e continue a bloquear o acesso humanitário ao enclave.

Se isso acontecer, um dia ouviremos falar na grande fome que arrasou os palestinianos de Gaza.