sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O povo não é bobo



Os que estão no governo querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia

“Sim, eu sei o que fazem os editores, eles separam o joio do trigo e publicam o joio". A frase clássica de Adlai Stevenson, político americano do Pós-Guerra, pode ser utilizada com variadas intenções. Trata-se, claro, de uma divertida crítica à qualidade da imprensa. Por aí, as verdadeiras notícias estariam na lata de lixo das redações e, lógico, a sociedade ficaria sempre mal informada.

Mesmo quando não admitem, políticos de todas as tendências concordam com Stevenson. Os que estão no governo, então, acham que a frase é perfeita e justifica medidas corretivas. Não é censura, dizem, apenas encontrar meios para melhorar a qualidade da imprensa.

Conversa. O que querem mesmo é censura prévia ou, como se diz por aí, controle social da mídia.

Jornalistas estão o tempo todo decidindo, primeiro, o que se vai apurar, segundo, o que se vai publicar e, terceiro, como se vai apresentar a notícia.

Tudo considerado, caímos na mais antiga questão da profissão: o que é notícia? Há várias respostas clássicas produzidas por jornalistas:

— Se o cachorro morde o homem, não é notícia, se o homem morde o cachorro, é;

— Notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado, o resto é propaganda;

— Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados (Millôr Fernandes);

Examinamos essas teses em coluna aqui publicada em 22/12/2011, com o título “O povo não é bobo". Também pode ser encontrada no arquivo de www.sardenberg.com.br.

A questão hoje é anterior: quem decide o que é notícia? Os patrões, os donos dos jornais, rádios, TVs e sites — diz o pessoal que quer introduzir a censura prévia, perdão, o controle social.

Sim, há veículos nos quais as redações são instruídas a publicar apenas o que os patrões consideram a notícia correta. Exemplo? Todos os veículos cujo patrão é o governo — a conhecida imprensa chapa-branca.

Somos contra a censura prévia e/ou “controle social" — o leitor já terá notado — mas se a regra for introduzida, a aplicação tem que começar pelos veículos do governo. Estes publicam um enorme joio, as versões oficiais: ninguém rouba nada, não há mensalões nem petrolão, tudo funciona e, se não funciona, é por causa da seca, do azar, do mundo, da oposição ou da imprensa do contra.

Ainda tem aí uma baita farsa. O verdadeiro patrão é o povo, que paga os impostos e assim financia a chapa-branca. Mas os políticos, governantes de plantão, usurpam o papel de patrões e controlam essa mídia no interesse dos respectivos partidos. Sim, foram eleitos, e por isso representam a população. Mas, numa democracia, não podem esquecer que tiveram o voto de parte dos eleitores, havendo, pois, uma outra parte que merece respeito — e informação não partidária.

A saída — segundo uma velha tese — é colocar os veículos do governo sob controle de um comitê com representantes dos diversos partidos, em número proporcional aos votos por eles conseguidos.

Esqueçam. Não funciona. Um veículo público assim dirigido vai noticiar não uma, mas várias versões oficiais, o joio do governo e o da oposição. Duplo desperdício de dinheiro do povo.

Há quem recomende a proibição legal: governos, federal, estaduais ou municipais, não poderiam editar veículos de informação geral — de suposta informação geral, no caso. A TV pública, por exemplo, divulgaria apenas programas educativos, cursos e informação efetivamente pública, como campanhas para combater a dengue, chamada para vacinação, previsão do tempo, instruções para agricultores e assim por diante.

Seria mais barata e mais útil.

Outros sugerem que os veículos do governo sejam, afinal, dirigidos como os da imprensa privada de qualidade — aquela cujos jornalistas são guiados por um código formal ou informal, com o objetivo de apurar e publicar o que é notícia ou opinião relevante.

Na prática, é difícil conseguir tal isenção no setor público. Além disso, se a TV pública vai fazer a mesma coisa que a TV privada faz, por que gastar dinheiro do contribuinte com a primeira?

O que retorna a questão: como garantir que os jornalistas escolham o trigo? Ou como a lei pode garantir a qualidade da imprensa?

Não pode. A lei tem que garantir a liberdade da imprensa e, sim, dos jornalistas. A qualidade — ou, a notícia de interesse, publicada de forma correta, isenta e independente —, isso depende do público, do leitor, ouvinte, telespectador e internauta.

O povo não é bobo, sabe onde buscar a informação. Olhem as audiências. É eloquente a audiência zero dos noticiários das TVs púbicas. É evidente a baixa credibilidade dos veículos que só divulgam a voz do dono, seja o governo ou a empresa privada.

O tema seguinte é: como distinguir e quem pode distinguir entre ofensa e crítica? Na próxima.

Bicas continuam a jorrar


Blasfêmia


Tem gente dizendo que cartunistas foram longe demais, o que equivale a afirmar que mereceram. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada estava pedindo

Vamos combinar que não existe nada mais ofensivo do que um tiro na cabeça. Não posso imaginar uma blasfêmia maior do que espalhar os miolos de alguém com um AK-47. Porque tem gente dizendo que os cartunistas do “Charlie Hebdo" foram longe demais, o que equivale a dizer que mereceram o que lhes aconteceu. É o mesmo raciocínio de quem diz que mulher estuprada geralmente estava pedindo.

“Blasfêmia” quer dizer uma afronta ao sagrado. Assim, a verdadeira discussão não é sobre o que as pessoas consideram blasfêmia, mas sobre o que consideram sagrado. A descrença em qualquer divindade é uma blasfêmia perene — ou, visto de outra forma, quem não crê em nenhum deus não pode, por definição, ser um blasfemo.

Muitas vezes o que se faz em nome de uma crença ou de uma divindade é que é blasfêmia: uma ofensa a quem acha que sagrado deve ser a vida humana, o direito de pensar livremente e o direito de descrer. Não se está falando só do islamismo radical. Já houve tempo em que não acreditar no Deus da Igreja Romana era razão suficiente para ser queimado vivo. Levava mais tempo do que um tiro de AK-47. 

Leia mais o artigo de Luis Fernando Verissimo

O limite da liberdade de expressão



Qualquer limite à liberdade de expressão é o limite da lei. O que passar disso, tenha certeza, é vigarice
Quando alguém começa a colocar aspas antes e depois de liberdade de expressão é porque alguma coisa está errada.

É alguma coisa parecida com a “democracia relativa”, engenhosa criação da mente castrense do general Ernesto Geisel - que equivale mais ou menos a uma quase gravidez, alguma coisa produzida por um descuido, uma coisa que deveria ter sido evitada, mas como não foi, acabou produzindo resultados que desmoronam os nossos edifícios de certezas e atrapalham a pureza do discurso.

Nada mais reacionário do que alguma coisa que pode ser feita, mas só pela metade, por exigência da moral, dos bons costumas e da hipocrisia politicamente correta, a grande praga comportamental desta primeira metade de século.

O caso do massacre do Charlie Hebdo conseguiu produzir uma verdadeira teratologia de opiniões, mais chocante do que o traço irreverente que algumas das piadas pecaminosas dos gênios metralhados pelo fundamentalismo islâmico.

Mas eles abusaram…É sempre assim que começa a relativização dos neo-iluministas que acham as piadas uma grosseria inominável e uma ofensa “às crenças do outro”, mesmo desconsiderando que na cultura do “outro" as mulheres, os homossexuais e os infiéis não têm direito sequer à existência. Decapitar infiéis, por exemplo, deve ser uma característica respeitável de sua cultura.

A suposta “islamofobia” (não importa que o Charlie Hebdo seja também catolicofóbico, militarofóbico, politicofóbico, ladrofóbico, autoritáriofóbico e tudo mais que termina em fóbico) do pasquim humorístico francês é um pecado tão terrível que chega a justificar os 12 assassinatos.

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris escreveu em sua coluna semanal na Folha que na verdade o semanário humorístico atacado pelos fundamentalistas é culpado de “cretinofobia”:

“Charlie Hebdo” é uma publicação cretinofóbica, porque acha cretino qualquer um que adira a uma crença sem a capacidade de rir dela e de si mesmo enquanto crente”.
Leia mais  o artigo de Sandro Vaia

O gargalo permanece o mesmo


Cada vez mais as elites conservadoras acionam a velha cortina-de-fumaça para justificar sua inação e seus privilégios diante das agruras de quantos enfrentam a pobreza. Sustentam estar fazendo o máximo possível ao defender como sua única obrigação promover o que chamam de igualdade de oportunidades para todas as crianças e jovens. Nem isso é verdade, como demonstram as estatísticas do próprio governo, porque salta aos olhos não bastar, para vencer na vida, a frequência a escolas que fornecem merenda e providenciam uniformes de graça. Mesmo a quota para minorias, nas universidades, constitui enganação.

Os poderosos lavam as mãos a partir dessa premissa, visando manter como estão as relações econômicas, sociais e políticas da sociedade desigual. Eximem-se da responsabilidade como se fossem as mesmas as preliminares do sucesso. Esquecem-se, ou não se lembram, de ser ilusória a livre concorrência entre quantidades desiguais. Só como exceção um menino nascido na favela ou na periferia, muitas vezes sem saber quem é o pai, mesmo frequentando a escola, jamais terá as mesmas condições de competir com um pimpolho bem nascido e bem criado.

Não é por aí, assim, que se chegará à igualdade e ao aprimoramento das sociedades e das nações. O papel do Estado não pode resumir-se a prestar educação a todos, apesar de ser imprescindível essa primeira etapa. Torna-se necessário exigir as outras obrigações do poder público, desde o aprimoramento dos direitos sociais do trabalhador, que governos recentes vem suprimindo ao invés de ampliar, até a gradativa redução de privilégios das elites. Parece impossível nivelar num único denominador a capacidade de cada ser humano, mas reduzir as diferenças materiais entre todos constitui meta fundamental.

O preâmbulo se faz a propósito do início do segundo mandato da presidente Dilma. Inexiste um programa capaz de objetivar a igualdade, mesmo como objetivo longínquo. Não será através do Bolsa Família e outros programas assistencialistas que se chegará a lugar algum. Em especial com a supressão de direitos trabalhistas, como acaba de acontecer. De nada adiantarão os tais “ajustes” preparados pela nova equipe econômica, com ênfase para o aumento de impostos. As elites continuarão onde sempre estiveram, ou seja, muito bem, enquanto a ilusão da mesma escola para todos permanecerá favorecendo os bem nascidos, até muito mais do que os bem dotados.

Em suma, falta ao país um governo decidido a reduzir as diferenças sociais, apesar da intensa propaganda em sentido contrário. O gargalo permanece o mesmo.

Carlos Chagas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Insatisfação geral e irrestrita


A busca desesperada por algo que gere prazer e satisfação de modo rápido, intenso e constante tem sido uma das marcas de nosso tempo. A grande questão é que o envelhecimento das novidades se tornou um processo tão rápido que embriagar-se perdeu a graça, pois a ressaca invade a ilusão do falso relaxamento, que era o desejo buscado.

Somos vorazes e intensos, queremos tragar o mundo como um ébrio vira seu quarto copo de cachaça. Como se o beber social fosse perda de tempo, esquecemos que o mundo deve ser degustado, e não deglutido e devorado. Vagamos feitos zumbis afetivos, guiados pelos GPS de celulares onipresentes, gerando conteúdos tão descartáveis quanto as selfies do mês passado. Abrimos mão das lembranças, esquecidos que a cultura nada mais é que o acúmulo de vivências do passado, ensinadas por quem nos antecedeu. Sabedoria é a transmissão oral de experiências dos pais e avós, e além deles.

A mudez e inibição entre as atuais gerações, assim como a inibição afetiva entre elas, está por trás da constatação que a geração Y é a menos qualificada dos últimos dois séculos. Tirem os eletrônicos deles, impeçam que acessem ao Google ou aplicativos, desativem a internet e vamos ver a inteligência deles. Sem esquecer que o atual conceito de inteligência é a capacidade de sobreviver e adaptar ao mundo que o cerca. Para uma geração dos nem-nem, que não querem estudar nem trabalhar, é difícil imaginar que eles serão nossos futuros líderes. Mesmo porque futuro é algo que eles não projetam, afinal, no mundo das telas, não há tempo ou espaço; apenas o vício de conectar e não sentir o ciclo dia-noite, meses-ano, apenas o agora e a agonia de acessar a rede social, a escravidão do WhatsApp,de superar a fase do game atual ou o do que viralizou no YouTube.

Transtornos de ansiedade severos aparecem a cada dia para essa geração, como temor de desconectar-se mesmo à noite, abstinência de celular levando pânico quando o mesmo é roubado, perdido ou simplesmente esquecido em casa, com sensação de impotência, fraqueza, como se estivesse despido ou perdido em um mundo estranho. Sem contar o transtorno de sentir-se desatualizado quando desliga o celular, nas férias ou fins-de-semana, e mesmo para o almoço ou um lazer mínimo que seja. Quanta agonia,quanta correria e ... Todo mundo insatisfeito! E, na época do descartável, tudo perde a graça rapidamente.

Nas relações afetivas, sempre tem alguém que desejamos apenas por ser de outro, enjoa-se rápido, se quer sempre o que não se tem e desvaloriza-se o que já se conquistou, sem curtir a satisfação, a recompensa, o relaxamento e prazer pós conquista. Trabalho? A rotina, o salário, as pessoas e lá vem o desejo de trocar de emprego, que nunca foi tão frequente, mal criando vínculos afetivos ou ascensão profissional.

Estudar? As relações nas comunidades escolares tornam as escolas, berço de distúrbios comportamentais, fabricantes de transtornos psíquicos que acometem desde professores e alunos até pais e funcionários. E o que dizer das relações entre pais e filhos, das famílias conectadas e individualizadas nas suas insatisfações do dia-a-dia, incapazes de dialogar, sem tempo para trocas afetivas e sem conseguir comunicar-se?

Vale pois um princípio básico, cognitivo, comportamental: relaxamento é o passaporte para o prazer natural. Temos cinco antenas parabólicas que nos desvendam o universo: os cinco órgãos do sentidos ver, ouvir, tocar, cheirar e degustar. E o mundo é tão maior e mais satisfatório para os que têm tempo para perceber esse mundo, experimentá-lo, observá-lo e senti-lo. Mas esse milagre exige que possamos nos desconectar. Afinal, a tela não faz carinho, cafuné, nem tem ombro amigo para oferecer. Apenas o vício e ilusão de um mundo virtual inodoro, sem gosto ou sabor. A decisão é sua...

Eduardo Aquino

Central telefônica


O novel teatro do absurdo


Venho, há algum tempo, procurando entender os acontecimentos que estamos vivendo no Brasil e imaginando o que a história dirá a nosso respeito ao final deste primeiro século dos anos 2000. Tenho receio de que passemos à história como um povo “meio doido, meio sem-vergonha, desonesto e convictamente mentiroso”. Uma pena, porque, na verdade, só merecem esses qualificativos os que compõem a minoria alimentada pelas tetas da nação, liderada por analfabetos fanáticos, que exploram a boa-fé dos menos favorecidos, retirando sua dignidade e sua necessidade de trabalho honrado em troca de bolsas e alguns trocados.

São maldosos e pilantras que alimentam a boa-fé do nosso povo com promessas vãs, tentando imprimir em suas atitudes uma espécie de espiritualidade, amparando líderes bêbados e paus-mandados de países que se dizem de esquerda apenas para serem diferentes. Vide o exemplo de Fidel Castro, que vive em sua ilha particular ao estilo Côte d’ Azur, enquanto o povo come o pão que o diabo amassou. Outro podre, com nome de Maduro, “gigola” nosso país para gáudio dessa meia dúzia de mentirosos e ladrões da pátria.

Resolvi, mesmo a contragosto, ver o surrealismo da posse daqueles que se dizem vitoriosos de uma batalha em que todos morreram. Em Minas Gerais, a inovação foi fantástica. O novo governador, não satisfeito com as 21 secretarias de Estado já existentes, nomeou mais seis ou sete secretários sem secretarias. Então, primeiro nomeiam-se os secretários e depois criam-se as secretarias. Fazem um tipo de “grilas” de ministérios ou secretarias e jogam para cima. Quem pegar é dono...

No plano federal, não podem mais nomear ministros, senão inteira 40, o número de ladrões de Ali-Babá. Nós temos um governo de duas cabeças, quatro mãos, quatro pernas e 39 dedos. Mitologicamente, qualquer coisa parecida com a Hidra.

Escutei dois discursos, ambos patéticos. O primeiro, de Dona Dilma, a assaltante, vestida com uma roupa parecida com toalha de altar: “É preciso defender a Petrobras dos inimigos externos e dos predadores internos”. Oh, meu Deus, mas não foi ela quem fez essa lambança que desmoralizou e ferrou o país, quando presidia o Conselho da Petrobras, composto por nove membros, no governo do ex-Luiz, ganhando R$ 87 mil por mês mais o salário de ministra? Dona Dilma sofre de amnésia? Não foi ela, como ministra, que criou uma “empresa de papel” para construir e operar a rede de gasodutos, conforme constatação da ANP, a Gasene, que, de acordo com o TCU, teve custos superfaturados em mais de 1.800%? Ah, me poupe ou me desminta...

Bem, outro discurso foi daquele tal de Gilberto Carvalho (ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência), um comunista implicado na morte do prefeito Celso Daniel, de Santo André, até hoje sem solução, por conveniência. Sua Excelência me convenceu de que eu sou o culpado por toda essa desgraceira que está corroendo as entranhas do nosso país. Sendo assim, peço que me desculpem, mas eu não sabia de nada, pô...

Educação zero


Governo e Petrobras encenam tragédia de erros



Temos algumas opções para avaliar as reações do governo em torno dos escândalos de corrupção na Petrobras. A primeira é a de que o governo tenta empurrar o problema com a barriga, na esperança de que o tema faça parte da paisagem e todos se acostumem.

A segunda hipótese é a de que o governo não sabe o que fazer, por isso teme dar um passo adiante e piorar tudo. Além disso, teme que um simples mexer nas peças do tabuleiro possa desencadear novas investigações. Como se, ao abrirmos o armário, caíssem dezenas de esqueletos.

A terceira hipótese é a de que o governo está dividido sobre o que fazer. Caso se leve ao pé da letra o que a presidente Dilma Rousseff disse em sua posse sobre o combate à corrupção, não ficará pedra sobre pedra, e o PT, entre outros partidos, vai sangrar muito. Haverá também gente muito importante sangrando.

Considerando o governo, sua competência política e sua estratégica e, ainda, a fratura em sua base política, onde se inclui o próprio PT, a hipótese mais provável é uma quarta que junta todas as três anteriores.

Vamos à quarta: o governo espera que o tema deixe as páginas principais dos jornais ou seja relegado a espaços menos nobres. Até lá, confia em conseguir juntar sua base política para impor uma estratégia que reduza os danos causados pelos escândalos. Porém, não sabe como fazer isso e tampouco tem competência para tal.

Além do mais, está dividido sobre o que fazer. Teme que mais ex-diretores da Petrobras resolvam confessar outros crimes; assim como teme os acordos de delação premiada e os acordos de leniência que estão a caminho.

Dilma insiste em manter como presidente da empresa Graça Foster, que está completamente desmoralizada. Sobretudo após a acusação do Tribunal de Contas da União de que a estatal criou empresas de fachada com laranjas para operar a construção de gasodutos no Nordeste.

Considerando as opções mencionadas, a reação do governo é equivocada. O certo, neste momento, é demitir toda a diretoria, profissionalizar a escolha e empreender uma ampla limpeza na empresa. O governo comete um grave erro, pois demonstra ser conivente com os malfeitos que ocorreram no interior da maior empresa da América Latina. O entorno político do governo se fecha para ver se o tsunami passa. Mas não vai passar.

O potencial destruidor do caso Petrobras é monumental. E não apenas em nível nacional. Internacionalmente, o tema já está fora de controle. Existe quase uma dezena de ações contra a empresa, além das investigações que correm na Securities and Exchange Commission (SEC) e no Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Todos os conselheiros da Petrobras, inclusive Dilma Rousseff, podem ser investigados e, eventualmente, punidos criminalmente pelo ocorrido. Tempos atrás, quando ainda era ministra da Casa Civil, Dilma disse, em uma declaração à televisão (que circula na internet), que a empresa seguia padrões SOX de legislação anticorrupção.

Fica patente que ela tinha completa noção das consequências de eventuais malfeitos na empresa. Portanto, salvo a proteção diplomática de ser presidente da República do Brasil, tudo conspira a favor de uma punição exemplar para diretores e conselheiros. Imaginem o vexame para o país.

Sem uma reação digna e corajosa, a tragédia de erros vai continuar e pode levar o governo para um beco sem saída. 

Murillo de Aragão

Lição sobre fome e dinheiro

 
Eu lembro quando no Congo eu recebi as diárias, o dinheiro para sobreviver naquele lugar. E eu lembro que eu estava morrendo de fome, e era de tarde já, e não tinha nada para comer na casa. Lembro que eu perguntei: “Não tem nada aí para comer? Estou com muita fome”. E a moça disse: “Teve um ataque ontem, lá no mercado, e não sobrou nada. Não tem nada”. E você se dá conta do valor do dinheiro – um pedaço de papel que é significado puro. E, naquele dia, por exemplo, ele não significava nada. Eu não podia comprar nada com o meu dinheiro. Estava lá, com o dinheiro dentro do bolso e não tinha um grão de arroz para comprar porque não havia paz naquele lugar. E aí você começa a se dar conta de qual é o valor das coisas materiais. Você não come o seu dinheiro. Você não come o seu salário. Há outras coisas ali que têm uma importância e um significado muito maior e que não são coisas físicas. As coisas materiais te dão uma sensação de paz, mas é apenas uma sensação de paz, não é a paz. Não é a saúde, não é a riqueza. É uma sensação de tudo isso. Que pode ser destruída muito rapidamente. Talvez isso tenha ficado mais evidente para mim. Já tinha um significado, mas não tinha essa força que tem hoje
Debora Noal, Médicos Sem Fronteiras 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A depressão causada pelo futuro incerto desta cleptocracia


Recebi coincidentemente três mensagens nos últimos dias de pessoas que declaram não ter comemorado tradicionalmente a passagem de ano. Não encontraram motivos de alegria para prolongar a noitada. Sentimento de melancólica tristeza, apreensão e incerteza. São eles uma parte deste mundo verde-amarelo, captando as radiações do momento nacional. Que motivo têm de ter orgulho nacional? Quebra de autoestima brota das circunstâncias reais.

Confesso que, pela primeira vez na vida, eu também, um otimista contumaz, um desabrido enfrentador de dificuldades, não comemorei como de costume a passagem de ano. Arrumei um jeito de ficar sozinho, olhando da varanda para o céu, rezando. Sem copo e sem champanhe. Rezando para este mundo de jovens que vem aí. Rezando para que aconteça algo que alimente a esperança, a última a morrer.

Não tenho o que reclamar para mim, nada me falta, minhas exigências pessoais vão se encolhendo a cada ano, assim como se afunila o horizonte de vida. Peço a Deus que me evite a dor, mantenha minha mente lúcida e a vista suficiente para ler e aprender. Que mantenha o cálice amargo afastado, o resto é prêmio.

Mas no papel de pai, de condutor de empreendimentos, como gerador de empregos que envolvem famílias, feitas de gente, me assombro com tantas dificuldades. Uma situação a cada dia mais complexa, ninguém neste país fala de descomplicar, leis enganosas para sugar de quem trabalha e transferir para encastelados e corruptos instalados no topo da pirâmide do poder.

Já surge em muitos o sentimento da greve civil, deixar de pagar impostos para emparedar os governantes à moralidade. Mas isso também é ilusório e complicado. Entretanto, a não violência e a desobediência aos tiranos fizeram de Gandhi o maior político de todos os tempos.

Eu sou da geração que vestiu a camisa com flores, os jeans coloridos, usou cabelos compridos, adorava Bob Dylan, viajava de moto e dormia em qualquer lugar sem sentir desconforto. Um dos tantos que tinham no orientalismo uma referência. Quer saber como? Leia a biografia de Steve Jobs nas “loucuras juvenis”, que fizeram dele uma personalidade valiosa para este planeta.

Eu posso me dar luxos que já não me interessam, me sinto um Qoelet, me espelho no Eclesiastes, perdi as ilusões dos brilhos efêmeros do meio-dia. Prefiro as cores tênues do pouso do sol, aquelas que permitem ver com suavidade. Eu vou à praia quando os outros voltam e fico até o sol cair, sentindo a brisa sem protetor solar.

Prefiro de um Fiatzinho assistir ao desfile de carrões e me sentir seguro de não ser assaltado.

Felicidade não se mede em Ferraris na garagem ou no salão de casa, felicidade é não sentir falta de algo que não temos.

“Per aspera ad astra”, como sustentou Pietro Ubaldi, o caminho do sofrimento é o mais curto. Impérios se ergueram na capacidade de sacrifício, na seriedade e duraram até o momento em que os princípios éticos predominaram na condução do destino de uma sociedade.

Nada disso enxergamos hoje por perto, menos ainda no horizonte. Daí quem tem percepção costuma se encolher e ficar espectador do inevitável.

O Brasil está corroído pelo “bizantinismo burocrático”, que vem sempre associado ao imperar da corrupção. Democracia se transforma em cleptocracia. De um mensalão que desviou R$ 300 milhões se passa a um petrolão que amealhou R$ 21 bilhões. Se a progressão é essa, e a sociedade não tem como conter o avanço da imoralidade, pode-se prever que Sodoma e Gomorra serão incineradas muito em breve.

Tem esperança de evitar uma catástrofe? Gostaria sinceramente de enxergá-la.

O que é um partidaço


Macaco, cuida do teu rabo!


São tantas as investidas do governo da União contra a autonomia dos Estados e municípios que já não as vemos como investidas nem como anomalias institucionais. Quando a presidente Dilma convidou José Eduardo Cardozo para o Ministério da Justiça, ela estava sinalizando para um agravamento dessa situação e para uma radicalização à esquerda em seu governo. O novo ministro pertence à nata do Foro de São Paulo, em cujas reuniões desfia sua oratória revolucionária. Por convicção política o novo ministro só pode ser partidário da centralização, do acúmulo de poder, da unidade de comando.

Não apenas o Ministério da Justiça operará com tais propósitos. Assim será, também, o conjunto do governo por imposição racional das convicções políticas petistas. A democracia como vista por nós, cidadãos comuns, não é a mesma que o PT propõe. Para o partido governante no Brasil, a nossa democracia é burguesa, frágil e pronta para ser comida pelas bordas.

O senhor Cardozo, em recente entrevista ao Estadão, expôs seus projetos para a Segurança Pública, com destaque para a construção de uma estrutura permanente de colaboração das polícias estaduais com a federal. Editorial do mesmo jornal informa que o governo encaminhará ao Congresso um projeto de emenda à Constituição, ampliando o elenco de crimes em relação aos quais passaria a haver competência da União para intervir. No outro lado da cancha, garante o ministro, os Estados conservariam as prerrogativas atuais. Com as palavras de Sua Excelência: “Hoje não posso impor para a PM do Estado normas operacionais. Mas, se tiver uma competência concorrente, posso ter a União estabelecendo diretrizes gerais sem suprimir a possibilidade de os Estados tratarem do mesmo assunto”.

Enquanto planeja uma nova maneira de intervir nas competências dos entes federados, o governo petista descuida do próprio rabo. Sim, porque existe um bom elenco de crimes constitucionalmente postos na alçada federal. Entre eles, estão os crimes praticados por autoridades da República, que têm sido investigados com maior sucesso pela mídia nacional do que pelos órgãos federais incumbidos de fazê-lo. E vale lembrar ao ministro que também são de competência federal, entre outros, os crimes sempre bilionários contra o sistema financeiro, a lavagem de dinheiro, o contrabando e o descaminho. E lá também está o rabo do macaco estendido no meio da avenida.

Nas modernas democracias constitucionais, descentralização é um quase sinônimo de democratização. Pelo viés oposto, centralização é um quase sinônimo de autoritarismo, ou totalitarismo, ou tirania. É algo assim que está em curso no Brasil, de um modo escancarado. O governo da República se sente dispensado de disfarçar o caráter autoritário, totalitário ou tirânico de suas incursões pelas unidades federadas distribuindo dinheiro e brindes como se a vida nacional fosse um grande programa de auditório em que a falsa generosidade arranca abobalhados aplausos.

Percival Puggina

Inflação reverte tendência e é maior para pobres



Ao contrário do que ocorreu até 2008, nos últimos anos a inflação "dos pobres" brasileiros teria sido maior que a "inflação dos ricos" segundo o economista Fábio Ferreira da Silva, membro do Conselho Federal de Economia.

A pedido da BBC Brasil, Silva atualizou os dados de um estudo que havia feito em 2011 para entender como a alta de preços afetava diferentes faixas de renda da população em diferentes regiões do país.

Na época, o pesquisador havia analisado o período de 1995 a 2008 e concluído que, depois do Plano Real o Brasil teve uma inflação "pró-pobre" - ou seja, os preços dos produtos e serviços que têm um peso maior no orçamento das famílias de baixa renda teriam aumentado menos que os dos itens de maior peso para as famílias ricas e de classe média.

Segundo seus cálculos, porém, desde 2009 tem havido uma reversão dessa tendência - com uma inflação pró-ricos. "Pelo quinto ano consecutivo, a inflação dos pobres é mais alta que a média - uma tendência diferente daquela que se observou em anos anteriores", diz Silva.

Em 2014, por exemplo, enquanto a inflação no Centro Sul teria sido de 6,4%, os pobres da região teriam sentido uma alta de preços de 6,8%.

Já no caso do Nordeste, enquanto a inflação média teria sido de 6% no ano passado, para a classe baixa a alta foi de 6,4% e para os ricos, de 5,5%.

De acordo com o estudo inicial do economista, publicado na revista Economia Aplicada, de 1995 a 2008 o Brasil teve uma inflação média de 8% ao ano.

No período, a alta de preços no Nordeste teria sido de 7,4% para os pobres, 7,9% para a classe média e 8,3% para a classe alta. No Sudeste, a inflação teria sido de 7,8% para os pobres, 8,1% para a classe média e 8,2% para os ricos.

Já o novo levantamento indica que desde 2009, a inflação média foi de 5,8%. No Nordeste, a alta teria sido de 6,2% para os pobres, 5,7% para a classe média e 5,1% para a classe alta. E no Sudeste, de 6,1% para os pobres, 5,8% para a classe média e 5,7% para os ricos.

Segundo Silva, essa mudança de tendência se deve a pelo menos dois fatores. O primeiro seria a alta combinada dos alimentos e do item habitação - de grande peso para famílias de baixa renda.
"Os alimentos em domicílio têm maior peso na cesta dos pobres, e seus preços subiram, em média, 7,9% em 2014 devido principalmente a choques de oferta", diz o economista.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O lugar que gosta de novidade, mas não gera o novo


Certamente não por falta de bons profissionais, instituições ou criatividade. Faltam sistemas que premiem as boas ideias e as coloquem a serviço do crescimento

Olhando (talvez excessivamente) de perto, parece ser local abençoado com vida econômica vibrante, dinâmica, excitante. Onde um dia não é igual a outro. Tudo é sempre novidade. Sempre desafiador. Afinal de contas, não é todo lugar em que as paginas policiais invadem o noticiário politico e econômico e lhes confere emoção, cor e textura. De perto, tudo é (ou parece ser) emocionante, enfim. De perto, realmente, nada nem ninguém é normal.

Vista a distancia, entretanto, tudo muda, inclusive, e principalmente, a percepção. Distancia e o tempo servem para adicionar frieza na analise. Colocar fatos em perspectiva. Decodificar o caos, transformando-o em realidade.

Realidade, infelizmente, não tem coração. Nem preferencia. Nem favoritos. Ela apenas é. Cerca a tudo e a todos sem ser jamais conhecida por inteiro. Mas, mesmo assim, distancia e tempo nos aproxima dela. E olhando, desde onde alcança a vista, o ambiente econômico verde e amarela decepciona.

No longo prazo, É letárgica, lenta, sem dinamismo. Carece de renovação, inovação, invenção. Parece acontecer em dimensão paralela onde os avanços ocorrem em outro compasso. Tem sempre jeito de pão dormido. E sabor de café frio.

Olhando de fora, a pátria que frequentemente veste chuteiras, se esforça para apressar o passo em relação à irrelevância. Isola-se, não inova, não renova, não cresce, não age. Anda em passos de tartaruga como se fosse possível ganhar a corrida sem ser mais veloz que os adversários. E se conforma com isso.

Foi assim, insolando-se, que sempre se perpetuou um capitalismo oligopolizado, estatizado, protecionista, e sem dinamismo. E é assim que, cada dia mais, o país, e em regra (com raras exceções), as suas empresas, caminham para seu isolamento na cadeia global de produção.

As novidades ou inovações não vêm de dentro. Certamente não por falta de bons profissionais, instituições ou criatividade. Falta algo mais. Faltam sistemas que premiem as boas ideias e as coloquem a serviço do crescimento.

Enquanto o mundo, em poucas décadas gerou o Facebook, o Google, a Microsoft, a Apple, a Samsung, a Hyundai; a Kia, e muitas outras grandes empresas, negócios e ideias, nosso potencial de inovação dorme em berço expendido.

Potencial inexplorado. Pertencente ao país do futuro. Que certamente não está morto. Que talvez esteja bêbado. Em cujas terras habitam população cansada de esperar pelo futuro próspero que nos foi vendido, prometido. Mas que tempo insiste em não deixar chegar.

Gente aparentemente condenada a gostar de novidade sem conseguir gerar o novo.
Leia mais o artigo de Elton Simões

Malditos sejam os pecadores


No idioma aramaico, que Jesus e seus apóstolos falavam, uma mesma palavra significava dívida e pecado.
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está à sua espera com os credores.

Eduardo Galeano

Picaretagem chove a cântaros


as tiranias se alimentam 
de grandes e pequenas covardias!
tt catalão

Seca, que seca? A maior estiagem do Sudeste não passa de uma temporalidade para os governos, acostumados a se abastecer fartamente das tetas públicas. Não à toa proclamam mais desenvolvimento sem água. Um milagre que só gente com cabeça de máquina registradora pode conceber, ou espertos comissariados e assalariados partidários, que ganham a vida enganando as populações, saem às ruas para aplaudir.

Em Secretário, distrito de Petrópolis, a população já se movimenta contra um empreendimento, absurdamente considerado viável pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que prevê a construção de cinco hotéis, quatro campos de golfe, shopping center e condomínios verticais e horizontais, numa área abastecida apenas pelo rio Maria Comprida, de pequena vazão.

O problema, que já se configura na serra fluminense, é o mesmo instalado na litorânea Maricá, reduto do petista Quaquá, onde o problema da água vem se agravando desde que o coroné passou a controlar a Prefeitura com sua quaquadrilha. No entanto, pouco se lixando para o problema, incentivou a instalação de condomínios por todo canto, que renderam trocados à prefeitura. Sem falar no discutível projeto na Restinga com shoppings, campos de golfe e muito condomínio. Aumentou-se a população, mas água não há, nem pensar em saneamento, com uma lagoa para despejar tanta bosta.

Sem ter o que inventar para ficar na crista da onda municipal e dar o que discutir aos seus quase 5 mil comissionados, novamente dispara seu estilingue contra a Cedae, como qualquer moleque disposto a quebrar a vidraça do vizinho. Só por pirraça, para fazer jus a sua fama de revolucionário, que precisa de um batalhão de policiais de aluguel para se proteger.

Convoca mais uma vez, através de redes sociais, um movimento dos internautas para pressionar a empresa e logicamente o governo de Luiz Fernando Pezão, hoje adversário político do presidente regional do PT e alcunhado de prefeito. Quer usar principalmente seus mercenários internautas como massa de manobra para atacar o governo estadual e espalhar o quanto o revolucionário caiçara pensa no povo.

Ao apontar um culpado pela crise hídrica, da qual não cuidou durante seis anos, que ocorre desde outubro e vai se prolongar por mais um Verão, o desqualificado administrador volta a ocupar com destaque as páginas compradas na imprensa. Como segue à risca o lema de que a propaganda é a alma do negócio, assim administra petistamente.

Ninguém pode deixar de lado a imensa culpa da Cedae, que monopoliza o serviço, sob as bênçãos governamentais, mas cruzar os braços como se fez durante seis anos sem qualquer pressão sobre a empresa estadual quando se era aliado do então governador, é ser cúmplice no desprezo com que se trata a população, tanto na esfera estadual como, principalmente, na municipal.

Se esquece o digníssimo, que logo após eleito em 2008, se encontrou com o presidente da Cedae para discutir o convênio prorrogando por 60 anos os serviços de fornecimento de água e saneamento no município. Aquele que hoje reclama falava então: “A partir de agora, a Cedae e a Prefeitura de Maricá serão parceiras na captação de recursos. Iremos juntos a Brasília buscar verbas para o saneamento da cidade".

De lá para cá, o que mais fez foi brigar com o governo estadual, evitando qualquer diálogo quanto ao abastecimento. Simplesmente deixou de lado como prefeito a responsabilidade de cuidar dos interesses da população. Preferiu se empenhar em ações eleitoreiras para eleger a mulher e um companheiro às câmaras.

O digníssimo, que só não esquece de fazer farra com o dinheiro público, sequer vai se lembrar que anunciou a criação de uma empresa de águas municipal, nunca saída do papel. Em resposta, mesmo sem água, o município ganhou uma estação de tratamento e captação de água. Parece piada, mas ainda no bolo colocaram a construção de uma Estação de Tratamento de Água na Serra do Lagarto, próxima à divisa com Itaboraí, ao custo de R$ 70 milhões. E está tudo como antes. Nada mais se falou do assunto.

Mas como promessa é a única coisa que chove em Maricá, Quaquá, o digníssimo, anunciou que o município teria mais de 80% atendidos pela rede de abastecimento até o fim do mandato, em 2012. "Essa parceria com o governo estadual e a Cedae já garantiu água também para Bananal, Ponta Negra e Cordeirinho, além do aumento da vazão na região do Centro. Vale lembrar também que é mais um grande investimento que estamos levando para a região de Inoã, além dos que já estão em andamento, o que não ocorria havia mais de 50 anos". De mandato renovado, disse o dito pelo não dito e tome de incentivar, e angariar simpatias, por mais condomínios e shoppings instalados.

Está-se em 2015 e esse mesmo indivíduo volta a tocar na água com a maior desfaçatez de quem durante seis anos só levou o problema com a barriga e dele tratou apenas de boca, quando era interessante para ele. Como tudo, enfim, na seca, tórrida, desabastecida e punida cidade por um governo mafioso, que tomou de assalto a prefeitura. 

Quantas vezes usamos 'mudança climática' no dia a dia?



Mudança climática. Duas palavras cada vez mais presentes na linguagem cotidiana dos latino-americanos, que em 2014 sofreram variações bizarras no clima, afetando seu dia a dia e surgindo como uma ameaça a ser levada a sério em 2015.

Não se trata de sermos apocalípticos, mas os sinais estão aí e não podem ser ignorados. Na América Latina, foram registradas as tempestades mais intensas e recorrentes nos últimos anos, períodos cada vez mais intensos de secas e desaparecimento das majestosas geleiras andinas.

Tudo como consequência de um mundo cada vez mais quente, que tem um impacto direto na agricultura e na pesca e, por isso, põe em risco a capacidade de produzir alimentos aos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta.

Segundo o recente relatório Baixemos a Temperatura, a América Latina é responsável por apenas 12,5% das emissões de efeito estufa —destacadas como as principais causadoras do aquecimento global--, mas será uma das regiões mais afetadas se a temperatura mundial aumentar quatro graus centígrados, segundo previsões para 2100.

Esse panorama foi o centro das discussões na COP20, realizada em Lima, onde também foi analisado o impacto do aquecimento na saúde da população e na economia mundial.

Apesar das diferenças, em Lima foi acertado no último minuto um acordo para tentar frear a mudança climática, embora não seja vinculante. Agora as esperanças apontam para a conferência Paris 2015, onde deve ser selado um pacto definitivo que obrigue todos os países a adotar ações que reflitam uma diminuição real das emissões.

Enquanto isso, na América Latina os países continuam trabalhando arduamente para reduzir sua marca ambiental e frear o aquecimento global.

A região é uma das mais ativas na promoção dos mercados de carbono, que oferecem incentivos às empresas e comunidades para emitir menos CO2 e ajudam na conservação das vastas zonas florestais. A Costa Rica, por exemplo, se transformou em 2014 no primeiro país da América Latina a ter acesso, por enquanto, a esse sofisticado mercado.

Mesmo assim, a região latino-americana está na vanguarda da chamada “agricultura inteligente”, com o Uruguai na liderança. Esse país, com apenas três milhões de habitantes, passou de uma produção de alimentos para 9 milhões de pessoas em 2005, para 28 milhões de pessoas atualmente, e sua ambição é chegar até 50 milhões de pessoas.

“A agricultura focada no clima se apresenta como uma oportunidade para abordar a segurança alimentar de forma integrada, com benefícios de adaptação e mitigação de impactos”, disse Mohamed Bakarr, especialista ambiental sênior do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (FMAM).

É que as mudanças no clima têm um impacto direto na produção alimentar e poderiam gerar instabilidade social nos países em desenvolvimento. Segundo José Antonio Cuesta, economista do Banco Mundial e um dos autores do relatório Alerta sobre o Preço dos Alimentos, “em uma sociedade com maiores níveis de insatisfação é mais provável que se reaja de forma mais violenta às consequências de uma crise alimentar”.

“No último relatório Alerta sobre o Preço dos Alimentos, calculamos que nos últimos seis anos foram registradas 53 manifestações violentas no mundo (relacionadas à escassez de alimentos), das quais oito foram na América Latina”, acrescentou em uma entrevista.

Os vaivéns do clima também podem deixar muitas pessoas sem trabalho. No âmbito macroeconômico, o impacto não é menor: o setor de agricultura dá emprego a quase 20% da população na América Latina e no Caribe, e representa 21% do PIB regional.

Especialistas preveem que o impacto da mudança climática na produção de grãos básicos pode ser muito maior do que imaginamos. Na Argentina, por exemplo, estimativas do Banco Mundial apontam que os produtores perderão 2,5 bilhões de dólares (6,6 bilhões de reais) na produção de soja e milho, por causa das mudanças no clima.
Mas a mudança contra o aquecimento global não se trata apenas de reduzir emissões, mas também de saber gerenciar recursos, e na América Latina a água ocupa o primeiro lugar na lista de prioridades.

O crescimento demográfico e econômico, somado às mudanças climáticas, aumentará a pressão atual sobre os recursos hídricos. De fato, segundo especialistas, entre 43% e 50% da população mundial viverá em países com escassez de água em 2080, comparado com a parcela atual de 28%.

Os desafios em relação à água são muitos e requerem soluções multisetoriais. Alimentar 9 bilhões de pessoas que devem habitar o planeta em 2050 vai exigir duplicar a disponibilidade de água para fins agrícolas. A irrigação é, de longe, a atividade que mais consome água e representa quase 70% da extração e 90% do uso destinado ao consumo no mundo.

O mesmo acontece com a energia. Atualmente, mais de 1,2 bilhão de pessoas não têm acesso à eletricidade. Calcula-se que para produzir energia hoje em dia seja necessário cerca de 15% dos recursos hídricos. Mas as estimativas indicam que o gasto global com eletricidade aumentará cerca de 35% em 2035 e, embora o consumo de água seja mais eficiente, o consumo real desse recurso pelo setor de energia pode subir 85%.

Leia mais o artigo de María José González Rivas, editora do Banco Mundial

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Por que o humor nos liberta dos fantasmas


A sátira não mata, liberta. Os dogmas, religiosos ou políticos, é que têm semeado cadáveres ao longo da História.
O humor e a sátira, que implicam sempre uma crítica ao poder, foram ensanguentados nestes dias na França, salpicando todos nós. Sobre as implicações do assassinado de humoristas irreverentes (que verdadeiro humorista não é assim?), já se escreveu quase tudo.

Mas talvez um aspecto tenha sido menos lembrado: o da força que esse gênero literário de sátira possui para libertar os seres humanos dos fantasmas que os angustiam desde o tempo das cavernas.

Se há algo tipicamente humano, é o humor. Não os medos, nem a violência, que também existem no reino animal. Uma das manifestações artísticas que enobrecem a capacidade intelectual do Homo sapiens é a possibilidade de ridicularizar o poder – e a nós mesmos – como antídoto para as tentações de onipotência.

Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam

A sátira dói porque nos desnuda, revela nossos limites, castiga nossa pretensão de acreditar que sejamos importantes e intocáveis.

Ela ameaça o poder porque o coloca em seus limites, já que os que o detêm, seja no âmbito político, religioso ou cultural, podem escorregar na tentação de se considerar intocáveis. E, ao mesmo tempo, liberta a todos nós dos fantasmas aninhados em nossos genes. Fantasmas que afligem e às vezes tiram o sono de grandes e pequenos.

Nada liberta mais nossas crianças dos fantasmas que povoam seus sonhos e suas vigílias do que ridicularizar as bruxas e os super-homens. As crianças adoram quando rimos dos adultos, nós, que constituímos para elas o medo ao poder que castiga ou castra seus melhores sonhos de liberdade.

Poucas coisas são tão libertadoras, em todos os âmbitos, como uma ilustração inteligentemente sarcástica sobre qualquer poder político ou religioso.

Todos os poderes odeiam os humoristas e satíricos. Quanto mais tiranos os poderes se revelam, mais os odeiam. Não há nenhum teste melhor para medir o grau de democracia de uma pessoa ou instituição do que sua capacidade de aceitar a ironia sobre ela e o que ela representa.

Se o humor nos desnuda e remove o falso brilho do poder, não faz mais do que nos trazer de volta às nossas origens, já que todos, desde o início dos tempos, nascemos nus, desvalidos, necessitados de tudo. Nascemos sem poder. Chorando, não rindo.

O humor nos liberta das estruturas com as quais os mantos do poder nos vão revestindo e cobrindo. Devolve nossa essência.

Bastaria essa força de libertação de nossos medos, de nossas estúpidas crenças de superioridade, para defendermos os gênios do humor e sua força criativa.