domingo, 1 de junho de 2025

Fascismo: Economia e Ideologia

Na economia, é simples. Toda vez que as classes médias, que dependem de estabilidade financeira para sobreviver, são comprimidas, como hoje, estas classes médias, que não querem o socialismo e descrentes que estão para com a democracia, ficam propensas ao discurso de aventureiros radicais à direita, que formam o fascismo.

Assim foi na Alemanha, com a eleição do Partido Nazista em 1932, Hitler com o título de “das Führer”, “o Líder”, em 1934, e suas consequências. No acordo de Versailles após a Primeira Guerra Mundial, foram impostos à Alemanha pesados encargos financeiros de indenização de Danos de Guerra aos Aliados, que chegavam a cerca de 80% do valor de seu PIB. Em 1922, a Alemanha emitiu papel moeda sem lastro para pagar a dívida, gerando a hiperinflação. A partir daí, cai o voto no Partido Social Democrata Alemão, com a ascensão do Partido Nazista.


No Brasil, assim ocorreu com Bolsonaro, após a vertiginosa queda do PIB com Dilma Rousseff de US$ 2,6 trilhões em 2011 para US$ 1,8 trilhão em 2015, Bolsonaro chegando ao poder nas eleições de 2018. Na Argentina, o fenômeno se repete, com o PIB caindo de US$ 643 bilhões em 2017 para US$ 385 bilhões em 2019, com a eleição de Milei na sequência em 2023. E agora com Trump, nos Estados Unidos, com a corrosão da renda do Americano com Biden, com a inflação muito acima do crescimento do PIB, como consequência da Guerra da Ucrânia em 2023 e 2024; com a eleição de Trump ao final de 2024, para o exercício a partir de 2025,

Com relação à ideologia, o Fascismo tem sempre dois inimigos “a combater”, um interno e um externo, na manutenção do discurso do ódio na mobilização contínua da população. Na Alemanha Nazista, o inimigo interno eram os Judeus, que teriam retirado seus recursos financeiros da Alemanha, base econômica do antissemitismo; e o inimigo externo, o “comunismo” da Rússia, atribuindo-se ao Partido Social Democrata Alemão ser um braço dos interesses estrangeiros.

Importante se notar que a História não se repete em fatos, mas em conteúdo.

No Brasil, com Bolsonaro, o inimigo interno foi a “Classe Política”, considerada como corrupta, com Bolsonaro paradoxalmente proveniente do “Baixo Clero” no Congresso Nacional, onde aferia benefícios; e o inimigo externo atribuído ao “comunismo” da Venezuela, contra a qual se promoveu a tentativa de invasão e guerra, fracassada, no início de seu Governo, com a mobilização tácita da Colômbia e dos Estados Unidos. Na Argentina, o inimigo interno são as “Corporações Peronistas”, com Milei apregoando, durante a sua campanha, o término do Banco Central, na esperança de se nascer o “novo homem econômico Schumpeteriano”, decorrente das teorias de Adam Smith; e o inimigo externo, o “socialismo”, existente no Brasil e na Venezuela. Com Trump, o inimigo interno são os imigrantes Latinos, deportáveis paras as prisões de El Salvador; e o inimigo externo são todos os países do mundo, inclusive seus antigos parceiros como o México e o Canadá, com suas tarifas alfandegárias, sob o lema “Make America Great Again”; as tarifas alfandegárias questionadas pela Justiça Americana, na luta de Trump de impor uma nova ordem econômica, política e social contrárias aos preceitos da nação da liberdade e do mercado, que fizeram a América “Great Before”.

E assim vamos nós, buraco abaixo.

O que seu dinheiro tem a ver com a crise climática

Quando o assunto é finanças pessoais, a questão climática é um ponto cego para muitas pessoas. Decisões sobre ações individuais nessa seara têm peso menor quando comparado a temas como alimentação, viagens ou compras.

No entanto, em termos de redução de pegada de carbono pessoal, trocar o plano de previdência privada convencional por um sustentável pode ser 20 vezes mais eficaz do que o impacto combinado de parar de viajar em voos comerciais, tornar-se vegetariano ou trocar de fornecedor de energia, de acordo com uma análise do movimento britânico Make My Money Matter ("Faça com que meu dinheiro importe").

Estima-se que os 60 maiores bancos do mundo tenham empenhado 705 bilhões de dólares (R$ 3,9 trilhões) na indústria de combustíveis fósseis em 2023, e 6,9 trilhões de dólares desde que o Acordo Climático de Paris foi firmado em 2015.

Grande parte disso financia planos de expansão que vão contra os inequívocos alertas climáticos da ciência.


"Todos nós temos grandes quantias de dinheiro que contribuem para isso de várias maneiras, muitas vezes sem o nosso conhecimento", diz Adam McGibbon, estrategista de campanha da organização americana de pesquisa Oil Change International. Esse dinheiro pode ser na forma de contas correntes, pensões ou apólices de seguro que são reinvestidas na indústria de combustíveis fósseis.

Especialistas, contudo, destacam a dificuldade em quantificar com precisão a contribuição das finanças pessoais para o financiamento de combustíveis fósseis, devido à complexidade dos sistemas financeiros e a circunstâncias individuais.

Isso porque, em grande parte, é pelo lado corporativo – e não pelo varejo, onde o dinheiro de clientes individuais é mantido – que os bancos geralmente emprestam dinheiro ou subscrevem títulos para empresas com projetos de combustíveis fósseis. Quem diz isso é Quentin Aubineau, analista de políticas do BankTrack, uma ONG internacional que monitora as atividades financeiras de bancos comerciais.

No entanto, McGibbon ressalta que os bancos ainda usam nosso dinheiro para expandir seus negócios, gerar mais receita e atrair investidores. Ele pontua que nossas economias poderiam, no mínimo, ser "usadas para inflar o balanço de um banco, o que os permite atender clientes corporativos" vinculados aos combustíveis fósseis.

Quando se trata de investimentos, algumas finanças pessoais vão diretamente para a indústria de combustíveis fósseis através de ações ou títulos, afirma Carmen Nuzzo, diretora executiva do Transition Pathway Initiative Centre no Reino Unido, que pesquisa os avanços feitos pelo mundo financeiro e corporativo rumo a uma economia de baixo carbono.

"Isso inclui investimentos em empresas de petróleo e gás, que têm se mostrado muito atraentes e lucrativas nos últimos anos [...] assim como investimentos em outras empresas que dependem fortemente de combustíveis fósseis para sua produção ou prestação de serviços, como a siderurgia ou a aviação", diz Nuzzo.

Muitas pessoas também financiarão combustíveis fósseis por meio de economias que vão para fundos de pensão que investem em empresas dos setores com maior emissão de gases de efeito estufa e de carbono. As pensões geralmente são mantidas e controladas pelos Estados, empregadores ou empresas privadas.

"Você contribui para um fundo de pensão, esse dinheiro é investido em seu nome e parte dele pode acabar indo para empresas que garantem que você viva sua aposentadoria em um mundo instável e difícil", explica McGibbon.

Estudos recentes estimam que, em um mundo com aquecimento global de 4 ºC, uma pessoa poderá se tornar 40% mais pobre e os retornos dos fundos de pensão nos Estados Unidos e Canadá poderão cair até 50% até 2040, devido à exposição dos ativos a eventos climáticos extremos.

Os fundos de pensão estão entre os maiores investidores mundiais em combustíveis fósseis, com cerca de 46 trilhões de dólares investidos no setor e detendo 30% de suas ações, de acordo com a Climate Safe Pensions, uma campanha de desinvestimento com sede nos EUA e Canadá. Esses fundos também estão entre os principais financiadores da expansão dos combustíveis fósseis na África.

Em 2023, o grupo alemão de jornalismo investigativo Correctiv revelou que fundos de pensão em 10 dos 16 estados federais da Alemanha investiram em atividades relacionadas a combustíveis fósseis.

Embora os bancos verdes nem sempre ofereçam as condições mais favoráveis, há um apetite cada vez maior entre pessoas preocupadas com o clima por alternativas financeiras sustentáveis, aponta Katrin Ganswindt, pesquisadora financeira da ONG alemã Urgewald.

Entre o crescente grupo de bancos verdes, estão aqueles que se comprometem a parar de emprestar para empresas de combustíveis fósseis e investir em atividades favoráveis ao clima.

Ferramentas online como o bank.green surgiram para ajudar os consumidores a comparar as credenciais ambientais de diferentes bancos.

No entanto, superar a falta de conhecimento financeiro ainda é um dos principais desafios, explicou Nuzzo.

"Nos países onde a maioria das pessoas possui uma pensão, os indivíduos não controlam onde seus ativos de pensão estão sendo investidos [...] ou podem não revisar suas opções regularmente."

Ativos como pensões que investem no longo prazo são meios eficazes para fazer uma mudança, disse Ganswindt. "Os fundos de pensão têm um grande impacto porque investem grandes somas."

A Make My Money Matter estimou que o setor previdenciário do Reino Unido teria a capacidade de investir 1,2 trilhão de euros (R$ 7,7 trilhões) em energias renováveis e soluções climáticas até 2035.

Na Holanda, fundos de pensão para funcionários públicos e professores, bem como para profissionais de saúde, removeram seus investimentos em empresas de combustíveis fósseis. No Reino Unido, os grandes planos de pensão são obrigados a reportar seus riscos climáticos.

No entanto, apesar do aumento da conscientização e das opções de financiamento verde, ainda há falta de padrões e regulamentações nesse setor, aponta Franziska Mager, pesquisadora sênior da Tax Justice Network, um grupo de defesa do Reino Unido que trabalha contra a evasão fiscal.

"Mesmo que você tenha um banco 'verde', poderá se surpreender ao descobrir onde seu dinheiro está investido – se conseguir descobrir, é claro. Isso sem falar na definição de 'sustentável' por parte dos grandes atores", afirma.

Um artigo recente de sua coautoria sobre "lavagem verde" no setor bancário conclui que a existência de práticas financeiras obscuras – incluindo o uso de jurisdições sigilosas, um tipo de paraíso fiscal – obscurece a verdadeira dimensão do financiamento de combustíveis fósseis.

Quanto aos ETFs – um tipo de fundo de investimento negociado na bolsa de valores –, Ganswindt, da Urgewald, aponta que eles podem se autointitular "verdes" mesmo que isso não signifique nada.

Mas Ganswindt afirma ter observado progressos recentes em termos de transparência, citando uma nova regulamentaço da UE sobre quais empresas podem ou não participar de fundos rotulados como verdes ou sustentáveis.

Em última análise, as finanças pessoais provavelmente representam uma pequena fração das enormes somas de financiamento de combustíveis fósseis – mas a pesquisadora diz que esse não é o sentido de ações como migrar para um banco mais verde. Trata-se de enviar uma mensagem.

"Certamente, temos algum poder como clientes, mas muito mais como cidadãos", disse McGibbon. "É ótimo mudar para um banco mais verde, ótimo mudar para um plano de previdência mais verde. Mas, em última análise, poderíamos ter muito mais poder como cidadãos, mudando a forma como votamos e exigindo que os políticos regulem o setor financeiro."

‘Temos mentes tribais e capacidades modernas. É uma combinação perigosa’

No último dia 24 de maio, completaram-se dez anos do acidente aéreo que sofremos próximo a Campo Grande (MS). O que poderia ter sido uma tragédia sem volta foi um ponto de virada. Desde então, vivemos uma jornada silenciosa de gratidão, espiritualidade e ressignificação da missão de vida. A busca por equilíbrio entre corpo e mente se tornou parte da nossa rotina, liderada com ternura e intuição por Angélica, que assumiu um papel de guia e inspiração. Foi minha esposa quem abriu espaço para a meditação se tornar um pilar em nossa convivência familiar. E, nesse caminho, nos aproximamos do pensamento de alguém que há décadas ilumina essa trilha com consistência e profundidade: Deepak Chopra.

Chopra começou sua carreira na Índia como endocrinologista, mas, em 1980, teve seu rumo alterado ao encontrar Maharishi Mahesh Yogi, o criador da Meditação Transcendental. Os dois se tornaram próximos, e, entre 1980 e 1993, Chopra acompanhou o mestre espiritual em diversas viagens, entrando em contato com grandes transformações geopolíticas e culturais. Em 1983, publicou seu primeiro livro, integrando espiritualidade, medicina alternativa e ciência ocidental. A partir daí, vieram parcerias com personalidades como Oprah Winfrey e os Beatles, e a consolidação como uma das vozes mais influentes sobre saúde, bem-estar e consciência. Nomeado pela revista Time um dos ícones do século XX, Chopra hoje é professor e palestrante em instituições como Columbia Business School, Northwestern University e Universidade da Califórnia em San Diego.

Seu pensamento parte de uma premissa ousada: a consciência vem antes da matéria. Para Chopra, o mundo físico é uma expressão da consciência — e não o contrário. O cérebro humano não a cria, apenas a manifesta. Para sustentar essa tese, Chopra dialoga com conceitos da física quântica, tratando a consciência como um campo em que todas as possibilidades existem até serem definidas pela observação ou escolha. A partir daí, propõe uma visão integrada do ser humano, em que corpo, mente e espírito são expressões de uma mesma origem. Nessa lógica, pensamentos e emoções não são abstratos: influenciam diretamente a saúde física e o bem-estar. Ele fala sobre a possibilidade de um estado de “saúde perfeita” —não como utopia, mas como a condição natural do ser humano quando há equilíbrio entre os aspectos físico, emocional, mental e espiritual.




Aos 78 anos, Chopra mantém uma rotina disciplinada e introspectiva. Medita três horas por dia, evita compromissos sociais e diz buscar apenas paz e presença. Observa com certa distância o personagem público que o mundo projetou sobre ele e se esforça para manter-se fiel ao essencial. Seu pensamento continua reverberando em diferentes partes do mundo —e também dentro da minha casa. Dez anos depois daquele episódio inesperado, seguimos tentando viver com mais presença, consciência e propósito. Um dia de cada vez.

Na última sexta-feira, tive a oportunidade de me reunir com Chopra no Uruguai. Na conversa, ele sustentou que a inteligência artificial não deve ser vista como uma ameaça isolada, mas como uma consequência natural da expansão da consciência humana —um novo salto evolutivo. Assim como a descoberta do fogo transformou biologicamente o cérebro humano ao possibilitar a digestão de alimentos cozidos, a IA tem o potencial de reconfigurar nossas redes neurais e modificar profundamente nosso modo de existir. Mas, para Chopra, esse salto técnico ocorre num momento em que a sociedade parece cada vez mais desconectada de sua interioridade. Ao valorizar excessivamente o exterior —o que se mostra nas redes, o que se performa—, perdemos contato com aquilo que é essencial: a fonte de toda experiência. A IA, portanto, pode ser uma ferramenta de cura e transformação ou de destruição e alienação, dependendo de como escolhemos utilizá-la. A chave, diz Chopra, está em reconectar o uso da tecnologia a uma consciência mais plena, ética e espiritual. Abaixo, compartilho trechos desse bate-papo.


Desculpe começar a conversa por um tema pessoal, mas as coisas não acontecem por acaso. Há 10 anos, eu, minha esposa e nossos filhos sofremos um acidente aéreo. Graças a Deus, todos sobrevivemos. Tivemos uma segunda chance e cada um reagiu de maneira diferente ao trauma. Minha esposa entendeu que precisava respirar. E foi assim que a meditação, a busca pelo equilíbrio e o mindfulness entraram em nossa família. Desde então, queremos democratizar essas terapias Queria saber como simplificar essa mensagem e a importância dela.

Em primeiro lugar, não tento convencer ninguém de nada. As pessoas decidem por si mesmas quando estão prontas, como você fez. Mas o entendimento mais simples é que toda experiência que temos é uma forma de sensação. Não experimentamos a realidade, e sim sensações, e então conceituamos com base nessas sensações e criamos a ideia de um corpo físico, nossa mente e nosso universo. Mas, na verdade, tudo o que experimentamos são sensações, sensações de respiração, som, paladar, olfato, visão, apenas sensações. Se você quiser resumir isso, a sigla é SIFT (Sensação, Imagem, Sentimento e Pensamento em inglês). A respiração é a sensação mais primitiva. Ela está emaranhada com todas as outras sensações. Digamos que eu esteja respirando muito rapidamente. Isso significa que estou ansioso. E, como está tudo emaranhado, se mudo a respiração, eu mudo a ansiedade. Quando você se acomoda na respiração e quando ela automaticamente se torna lenta e profunda, seus pensamentos, emoções, imaginação e todas as outras sensações se acalmam. É como falamos no ioga: nada disso é realidade. A realidade não é a sensação, mas a fonte da sensação. Está no espaço entre as diferentes percepções. Portanto, o espaço entre o pensamento, entre as emoções, entre o sentimento, o espaço entre a respiração, entre a imaginação, o espaço entre você e eu, o espaço entre este e o espaço intergaláctico é tudo um só espaço. É a fonte do que chamamos de espaço-tempo, energia, informação e matéria. Mas está além da imaginação porque não tem forma. Não tem forma, então não tem borda. Se não tem fronteira, é infinito, e, se é infinito, é sem espaço, atemporal, inimaginável, incompreensível, irredutível e fundamental. Uma vez que você está calmo, então você se pergunta: o que é a realidade? Qual é a fonte do universo? E a fonte do universo nunca será encontrada em nada que seja perceptivo ou conceitual. É a matriz da qual o universo emerge.

Mas o mundo está indo na direção oposta.

Correto.

O mundo hoje valoriza mais o exterior —aquilo que a pessoa mostra (todos são felizes no Instagram) — e menos o que de fato é, seu interior. Queria te ouvir sobre isso.

Sempre foi assim. Mas agora, por causa da tecnologia, chamamos de realidade virtual. Mas o que as pessoas não percebem é que seu corpo, sua mente, seu cérebro e o universo são todos realidade virtual. Não é real, o que chamamos de universo físico. Não existe tal coisa. É uma realidade virtual de sensações, imagens, sentimentos e pensamentos que são flutuações do vazio. Então, o que é chamado de forma? Você diz que seu corpo tem uma forma, certo? Mas, se você diz que eu sou meu corpo, então você tem que me dizer qual: óvulo fertilizado, embrião, bebê, criança, adulto jovem, adulto velho, até a morte. Portanto seu corpo não é um substantivo —é um verbo. A forma é impermanente, o sem forma é eterno. Então, se você entende que você é sem forma, então esta forma atual está sujeita a revisão —é uma realidade virtual. O teólogo cristão Teilhard de Chardin disse que somos seres espirituais tendo uma experiência humana. Você só sabe o que experimenta. Quando olha para o cenário fora dessa janela, isso é uma experiência humana. A árvore que você enxerga não é a mesma para um golfinho ou para um morcego ou para um pássaro que navega no ultravioleta. Tudo é uma projeção daquilo que é infinito e sem forma.

Estamos vivendo uma revolução de Inteligência Artificial que vai mudar tudo para todos. Apesar de muitos elencarem perigos e riscos, você tem um olhar positivo sobre o tema. No seu novo livro ‘Digital Dharma’, você elenca como essa tecnologia pode mudar a vida das pessoas para melhor. Pode falar sobre isso?

A IA é o repositório de tudo o que os humanos descobriram nos últimos séculos. Tem superconhecimento, e não superinteligência. Mais do que qualquer ser humano pode ter. Mais do que todos os seres humanos combinados. A IA é o passado, é o presente e é o futuro, pois pode prevê-lo estatisticamente, com base em padrões do passado. Mas a IA não é consciente. Não sente fome, não sente sexualidade, não teme a morte, não tem sede. Não há subjetividade na IA. Por isso digo que a tecnologia tem dois lados. É divina e diabólica. Se você tem uma faca, pode me matar com ela, pode cortar uma maçã e comer, ou, nas mãos de um cirurgião, pode ser um instrumento de cura. Temos um polegar opositor e andamos eretos, e isso nos liberta para criar ferramentas. Antes de qualquer outra coisa que criamos, descobrimos uma tecnologia. Chama-se fogo. Começamos a cozinhar alimentos. E, se não fizéssemos isso, o ser humano não teria o cérebro que tem hoje. Porque com o cozimento, você pode absorver micronutrientes. Nossa anatomia mudou, nosso cérebro mudou. Hoje, o que estamos vendo com a IA é mais um salto, um salto quântico, não apenas na evolução cultural e na evolução social, mas também biológica. As redes neurais humanas estão mudando, porque a IA está dando acesso a tudo isso. E, quando o cérebro muda, o corpo muda.

Você acha que o cérebro pode mudar?

A cada experiência, o cérebro muda.

Como as crianças que usam muito as telas?

Neste ponto, altera a dopamina, a serotonina.

A nossa evolução dos macacos não foi intencional —foi um desvio evolutivo. Mas nós estamos criando a IA intencionalmente. Com que propósito?

Nossa existência é um salto quântico na consciência. Esqueça a evolução darwiniana, que é muito mecanicista. Se o universo é consciência pura, e esta é a realidade virtual da consciência pura, então a transição do primata para o humano é um salto na evolução. Porque a diferença entre você, eu e o macaco é menor que 1% no DNA. Então, o que é que esse 1% mudou em você e em mim? Foi um salto. Por isso, agora, basicamente temos duas opções com a Inteligência Artificial. Uma é que podemos causar a extinção humana. Usar IA para causar guerra nuclear, envenenar a cadeia alimentar. Mas podemos usá-la para criar um mundo mais pacífico, justo, sustentável, saudável e alegre. Assim como com a faca, você pode matar uma pessoa ou curá-la. Com a IA, podemos curar o mundo ou podemos fazer com que o mundo desapareça. A escolha é nossa. Agora, a coisa mais profunda que você está dizendo é que criamos a IA. Nós não fizemos isso. Inteligência Artificial nem é a palavra certa. É inteligência humana aumentada, pois, como você sabe, é uma criação feita através de nós. Mas a coisa é mais profunda, deixe-me explicar: a diferença entre o computador, você, aquela árvore, aquela montanha, aquele oceano é apenas uma combinação diferente de zeros e uns. Então o que chamamos de universo é criado em uma oficina digital fora do espaço e do tempo, e, nessa oficina, zeros e uns em diferentes combinações estão produzindo esse universo.

Muita gente envolvida no desenvolvimento da IA acredita que estamos vivendo as últimas gerações capazes de criar algo de valor. Daqui para frente, qualquer criação que possa impactar a vida de das pessoas será feita de maneira mais rápida, melhor e mais barata pela máquina. O que o senhor acha disso?

Curar o planeta, reverter as mudanças climáticas, trazer justiça social e econômica, abundância, saúde e até felicidade. Essa escolha é nossa, não da IA, porque a IA pode ser programada para qualquer coisa, destruição ou criação. Em última análise, são basicamente algoritmos, certo? Quem programa a IA? Humanos. Agora, você tem um ponto muito importante: nossa evolução emocional e espiritual não acompanhou nossa evolução tecnológica. Ainda pensamos com mentes medievais. Temos mentes tribais e capacidades modernas. Essa é uma combinação perigosa. Então, a razão pela qual escrevi o “Digital Dharma” é como podemos usar a IA para acelerar nossa inteligência espiritual e emocional.

Há 10 anos vivíamos o momento de maior paz, calma e qualidade de vida da história, e de repente tudo degringolou… pandemia, guerras, retrocessos, autoritarismos. Você vê algum perigo no fato de a IA estar entrando no cotidiano do mundo bem neste momento confuso?

Veja, Luciano, as pessoas estão em guerra desde os tempos dos caçadores-coletores, só que era regional, sabe? Era pequeno. Desde que descobrimos arcos e flechas, estamos matando uns aos outros. Isso se tornou global por causa da informação que se espalha tão rápido. Portanto, estamos mais conscientes disso. Mas os seres humanos, psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente, sua evolução tem sido muito lenta. Por outro lado, a tecnologia deu um salto à frente. Se não nos recuperarmos, entraremos em extinção. De acordo com a ciência atual, existem dois trilhões de galáxias. Existem 706 trilhões de estrelas. Pode haver 60 bilhões de planetas habitáveis apenas na Via Láctea. Habitável significa: como você e eu, com base no que chamam de biosfera, campos gravitacionais de ajuste fino e campos eletromagnéticos. O planeta Terra não é nem um grão de areia. Se a gente desaparecesse, a praia não notaria. Se não entendermos isso, estaremos cheios de arrogância e ego.

Temos no Brasil um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, que atende mais de 190 milhões de pessoas. Imaginemos que você fosse gestor desse sistema. Como transformaria o seu conhecimento em políticas públicas?

O que sabemos sobre saúde e bem-estar é que menos de 5% de todas as doenças são devidas ao que é chamado de mutações genéticas totalmente penetrantes. Totalmente penetrante significa que, uma vez que você tenha a mutação genética, isso garante a doença. Como, por exemplo, se alguém tem um gene BRCA para câncer de mama, terá câncer de mama. Mas nos próximos anos você terá algo chamado edição de genes. Você poderá recortar e colar genes da mesma forma que recorta e cola seus e-mails. Então você exclui o gene defeituoso, insere o gene saudável —e a doença é curada. Isso vai acontecer.

Vamos viver 120 anos?

Mas isso é menos de 5% das doenças. 95% é epigenético, o que significa: estilo de vida, sono, controle do estresse, exercícios, mente, coordenação corporal, emoções, relacionamentos, nutrição, suplementos nutricionais, em alguns casos, ritmos biológicos e nossa experiência de amor, compaixão, alegria e equanimidade. Isso representa 95% de todas as doenças. O que significa que podemos modelar o corpo para autorregulação e cura. Resumindo: com a tecnologia de edição de genes de RNA mensageiro e uma revolução da consciência, poderemos tornar a doença opcional. Você não vai mais morrer de uma doença. Você morrerá porque seu relógio genético se esgota.

E economicamente?

Então, economicamente, é possível.

Usar isso como uma maneira exponencial de tratar milhões de pessoas?

Sim, a maneira de começar é pela educação em saúde e bem-estar nas escolas.

Você tem alguma mensagem para deixar para os brasileiros?

Sou fascinado pelo Brasil, simplesmente porque, na verdade, sou fascinado por todos os países que estão ao redor da Amazônia. Eles têm um sentimento pela ideia de que nosso corpo é um ecossistema —um ecossistema que faz parte de um ecossistema maior. É assim para muitos dos povos indígenas, mas os brasileiros em geral são mais sintonizados com a compreensão da ecologia mais profunda da existência —de que não existimos por nós mesmos, existimos no ecossistema da vida. Sinto que os brasileiros — e, em geral, as pessoas ao redor da Amazônia e também da América Central — têm uma compreensão mais profunda da existência, não uma compreensão mecanicista. Por isso me sinto muito encorajado para aprender com as tradições xamânicas. O futuro é nos reconectarmos com nossa fonte na natureza e entendermos que nada existe por si só. Nem uma célula, nem um órgão, nem um corpo, nem uma árvore, nem uma rocha, nem uma estrela. Tudo está interligado. Precisamos nos envolver com aquilo que nunca muda —que é a fonte de toda experiência, que é sempre eterna e atemporal— e então podemos participar desse jogo com alegria.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


82% dos judeus israelenses apoiam a expulsão de moradores de Gaza

Uma pesquisa recente com judeus israelenses revela um crescente conforto com a ideia de expulsar palestinos à força – tanto de Gaza quanto de dentro das fronteiras de Israel. A pesquisa também constatou que uma minoria significativa apoia o massacre de civis em cidades inimigas capturadas pelo exército israelense.

Em desarmonia com a natureza

O Senado aprovou, na semana passada, um novo marco federal para o licenciamento ambiental: o Projeto de Lei nº 2.159/2021, que deverá agora passar por nova votação na Câmara dos Deputados. A revisão foi pautada na busca por maior celeridade e eficiência no processo de licenciamento, com o objetivo de reduzir o chamado “entrave ambiental”. Na prática, ela promove o autolicenciamento de empreendimentos de baixo a médio impacto ambiental e dispensa uma série de atividades do licenciamento, entre elas uma ampla gama de atividades agropecuárias.

Em outras palavras, abre as porteiras para a degradação ambiental, favorecendo alguns poucos setores industriais e econômicos e prejudicando amplamente a sociedade em termos de resiliência climática, bem-estar e saúde. Além disso, aumenta significativamente os riscos de poluição e de perda de vegetação nativa altamente biodiversa.

Isso ficou particularmente evidente quando os senadores incluíram, de última hora, uma emenda que literalmente desconstrói a Lei da Mata Atlântica. A modificação, que parece ser singela, nada mais é do que a eliminação do principal princípio norteador dessa lei: a proteção de florestas em estágios mais avançados de sucessão. Estamos falando, em particular, de florestas mais maduras, com árvores de grande porte, alta biodiversidade e biomassa — reconhecidamente importantes aliadas no enfrentamento das mudanças climáticas, tanto em termos de estoque de carbono quanto de proteção contra eventos climáticos extremos.


Essas florestas, que se desenvolveram ao longo de décadas — ou mesmo séculos — agora podem ser mais facilmente cortadas do dia para a noite com a passagem de um correntão.

A autorização para o corte dessas florestas, que só deveria ocorrer em situações excepcionais de utilidade pública e após análise de órgãos estaduais ou federais competentes, passa agora a poder ser feita no âmbito municipal. Infelizmente, muitos municípios — em especial os menores ou localizados em áreas remotas, que frequentemente coincidem com regiões mais preservadas — não dispõem de equipe técnica qualificada nem de órgãos dedicados a essas análises socioambientais.

Delegar essa decisão ao nível municipal significa transferir um processo que deveria se basear em critérios técnico-científicos e no interesse coletivo para um ambiente mais vulnerável a pressões políticas e a interesses econômicos de setores restritos da sociedade. Considerando que a Mata Atlântica abriga cerca de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas (um quarto do bioma), que geram poucos benefícios socioeconômicos, é difícil entender por que o desenvolvimento econômico requereria o corte de remanescentes de florestas maduras — que representam menos de 12% do bioma.

O Brasil deveria priorizar ações que criem as condições necessárias para avançar rumo ao desmatamento zero e à restauração plena das áreas degradadas. No entanto, o novo licenciamento ambiental, com a mudança da Lei da Mata Atlântica, caminha na direção oposta, facilitando o desmatamento de florestas e outras formações nativas que beneficiam cerca de 140 milhões de brasileiros. O desmatamento zero deveria começar com a plena proteção das matas mais maduras.

O aperfeiçoamento do licenciamento ambiental depende de um equilíbrio entre celeridade e qualidade. O ganho de velocidade não pode ocorrer em detrimento da qualidade. Seria mais lógico reforçar os órgãos ambientais responsáveis pelo licenciamento do que fragilizar — ou mesmo eliminar — o processo. Com a fragilização promovida pelo Projeto de Lei nº 2.159/2021, quem perde é a sociedade brasileira, que conviverá com paisagens mais poluídas e degradadas, sofrerá ainda mais com as mudanças climáticas e seus eventos extremos e vivenciará a perda de um patrimônio natural altamente biodiverso.

Com isso, estamos indo abertamente contra o bom senso e violando as diretrizes do Marco Global da Biodiversidade, aprofundando nossa desarmonia com a natureza.

Como os rentistas sabotam o desenvolvimento nacional

O Brasil vive sob o domínio de uma narrativa que se tornou senso comum: o Estado está sempre à beira da falência, os gastos públicos são intrinsecamente perigosos, e qualquer política que beneficie a população através do aumento de gastos governamentais representa um risco fiscal inaceitável. Esta narrativa não é acidental – é uma construção deliberada que serve aos interesses de quem lucra com a manutenção da escassez artificial em economias monetárias e capitalistas, os rentistas.

Para compreender essa dinâmica, é fundamental reconhecer que vivemos em uma economia onde diferentes grupos têm interesses estruturalmente antagônicos. De um lado, encontram-se aqueles que dependem do desenvolvimento real da economia – trabalhadores, empresários produtivos, setores voltados para o mercado interno. Do outro, aqueles que extraem renda através de operações financeiras, beneficiando-se da volatilidade, da escassez de crédito produtivo e das altas taxas de juros.

O discurso dominante inverteu completamente a relação entre Estado e economia. Transformou o ente capaz de criar moeda em refém daqueles que dela dependem. Esta inversão não é produto de ignorância – é resultado de uma sofisticada operação ideológica que obscurece deliberadamente como funciona um sistema monetário soberano.

Quando economistas do mercado financeiro afirmam que “o Estado precisa se ajustar como uma família”, estão propagando uma analogia que sabe ser falsa. Uma família é usuária de moeda; o Estado soberano é seu emissor. Esta diferença não é técnica – é fundamental para compreender o espaço fiscal real de qualquer nação.

A insistência nesta analogia revela sua funcionalidade política: manter o debate econômico dentro de parâmetros que legitimam a primazia dos interesses rentistas sobre as necessidades nacionais de desenvolvimento. 


A experiência do governo Dilma oferece lições inequívocas sobre os limites da estratégia conciliatória. A tentativa de conquistar credibilidade através do ajuste fiscal radical não apenas falhou em seu objetivo político – aprofundou drasticamente a crise econômica e criou as condições que viabilizaram o golpe de 2016.

Este episódio demonstra que o setor rentista não busca políticas “tecnicamente corretas” – busca políticas que maximizem seus rendimentos, independentemente de seus custos sociais. A manutenção de juros elevados, a austeridade fiscal procíclica e a subvalorização cambial inflacionária não são erros de gestão – são características funcionais de um modelo econômico que subordina o desenvolvimento nacional aos imperativos da acumulação financeira.

O terror fiscal baseia-se em uma compreensão deliberadamente equivocada sobre as capacidades de um Estado monetariamente soberano. Países que emitem sua própria moeda enfrentam limites reais – inflação, constrangimentos de recursos produtivos, pressões cambiais – mas não enfrentam limites financeiros no sentido convencional.

Reconhecer esta realidade não significa defender gastos ilimitados ou irresponsáveis. Significa compreender que as restrições relevantes são aquelas relacionadas à capacidade produtiva da economia, não aos saldos nominais de contas públicas. Um Estado que possui recursos ociosos, desemprego em massa e necessidades sociais urgentes enfrenta, na verdade, um imperativo ético de mobilizar estes recursos – não uma restrição fiscal que o impeça de fazê-lo.

É fundamental que o governo desenvolva uma comunicação sistemática que eduque a população sobre o funcionamento real da economia. Isto inclui explicar as diferenças entre Estados emissores e usuários de moeda, demonstrar como funciona o sistema bancário, e expor os interesses específicos por trás das demandas por austeridade. Implementar políticas antifragilidade

Em vez de buscar aprovação dos mercados financeiros, o governo deve construir sua legitimidade através de resultados concretos para a população. Isto inclui políticas de pleno emprego, investimentos massivos em infraestrutura, fortalecimento dos serviços públicos e redução das desigualdades regionais.

A obsessão com metas de inflação descontextualizadas serve principalmente para manter elevados os rendimentos financeiros. Uma política monetária verdadeiramente soberana deveria considerar o pleno emprego como objetivo primário, utilizando a taxa de juros como instrumento de desenvolvimento, não como mecanismo de transferência de renda para rentistas.

Somente o Banco Central tem o poder ilimitado de criar reais na economia brasileira. Se utilizado de forma competente, este poder pode inviabilizar quase completamente a viabilidade das estratégias sabotadoras utilizadas hoje pelo setor financeiro para manter refém o governo brasileiro. A oferta infinitamente elástica de swaps cambiais (aplicações remuneradas pela desvalorização cambial mais algum prêmio) tornariam inviavelmente custosa a especulação cambial. Já a estabilidade da taxa referencial de juros de curto prazo (a Selic) tornaria inviavelmente custosa a especulação contra títulos públicos. Fortalecer as instituições democráticas

O combate ao poder rentista requer o fortalecimento das instituições que representam os interesses populares. Isto inclui tanto o parlamento quanto os mecanismos de participação social, criando contrapesos efetivos ao poder econômico concentrado.

O Brasil enfrenta uma janela de oportunidade que pode não se repetir. O fracasso das políticas neoliberais tornou-se evidente mesmo para setores que antes as apoiavam. A população demonstra crescente ceticismo em relação às promessas do mercado financeiro. O cenário internacional oferece espaços para políticas mais soberanas.

Desperdiçar esta oportunidade em nome de uma conciliação que sabemos ser impossível representa mais do que um erro político – representa uma traição histórica às possibilidades de transformação que o momento oferece.

O desenvolvimentismo do século XXI não pode repetir as ingenuidades do passado. Deve reconhecer que o setor rentista não é um parceiro relutante do desenvolvimento nacional – é seu adversário estrutural. Políticas que beneficiam genuinamente a população brasileira ameaçam diretamente os mecanismos de extração de renda que sustentam este setor.

A escolha é clara: ou o Brasil constrói uma economia voltada para as necessidades de seu povo, ou continua sendo uma plataforma de valorização para o capital financeiro internacional. Não há meio-termo técnico que resolva esta contradição fundamental.

O momento exige coragem para enfrentar os interesses que se beneficiam da subserviência nacional. Exige também a inteligência para construir alternativas viáveis que demonstrem, na prática, que outro modelo econômico é possível.

A história julgará se soubemos aproveitar esta oportunidade ou se permitimos que mais uma geração fosse sacrificada no altar da ortodoxia rentista.

A inutilidade (?) dos nossos dirigentes

Mesmo sem pesquisa de campo, é intuitivo que quase 100% das pessoas concordam que os maiores problemas da humanidade são pobreza, guerras, criminalidade (inclusive corrupção), destruição da biosfera e opressão de minorias. Claro, há outros, mas, no geral, concorda-se quanto a estes. A capacidade tecnológica do mundo atual é plenamente suficiente para eliminar todos eles, rapidamente. Se isso não ocorre é sinal da inutilidade dos nossos dirigentes?

Na realidade, nossos dirigentes optam por serem úteis aos que os tornaram dirigentes; por isso são inúteis ou mesmo contraproducentes para as pessoas em geral. Ou seja, defendem aqueles que financiaram e deram suporte às suas trajetórias até o poder, muito antes e apesar das eleições, onde as há. É exatamente por assim preferirem que se tornam, pior que inúteis, danosos para a quase totalidade dos humanos.


Um exemplo, entre muitos: em 2021, mais de 140 dirigentes mundiais prometeram zerar o desmatamento até 2030. No entanto, em 2024 a perda de florestas alcançou, globalmente, 6,7 milhões de hectares, ou 67.000km2! É uma cifra opaca, pois quem consegue visualizar, num mapa, a extensão de tal área? Para maior clareza devemos torná-la de mais fácil visualização.

Essa área desmatada, no ano de 2024, foi equivalente a um quadrado de 260km de lado! Trata-se de um território 11,5 vezes maior que o nosso Distrito Federal, que tem 5,8mil km2. Agora, pegue o mapa do Brasil, multiplique a área do DF por 11,5 e veja o tamanho do estrago em apenas um ano!

Grande parte dessa perda foi causada por incêndios, em razão das mudanças climáticas que tornam o clima mais quente e seco. Logo, a tendência é de aceleração da perda de florestas; agora, pergunte-se como viverão seus filhos e netos num planeta sem cobertura florestal.

Como podem ser chamados “líderes” aqueles dirigentes que permitem tanto dano à nossa única casa? Não é melhor reconhecer que são úteis apenas para aquele pequeno grupo que os ajudou a galgar a escorregadia e perigosa escalada rumo ao cume, ascensão esta muitas vezes mediante recurso a crimes os mais variados, desde sonegação fiscal à corrupção a assassinatos e compra de magistrados? Não são tais dirigentes inúteis para as ditas “pessoas comuns”? Ou seria melhor chamá-los danosos?

Chamar essas pessoas de “líderes” é falsear a realidade, assim como empresas petrolíferas fazem ao dizer que “produzem” petróleo, quando apenas o extraem.

Como os demais problemas acima citados, esses dirigentes têm sido incapazes de reduzir a pobreza, pois ainda hoje 80% dos humanos sobrevivem com menos de US$10,00/dia!

Assim, para o grosso da humanidade, esses dirigentes são piores que inúteis, são gravosos. E ainda elevam gastos militares pagam – com nosso dinheiro! – marqueteiros para dizerem que são ótimos governantes!

A estrutura da nossa representação política está podre – e não me refiro apenas ao Brasil! É enorme a dimensão das mudanças de que necessitamos para voltarmos a ter chance de construir um bom futuro comum!

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


Tempo, tempo, tempo


No nosso tempo, ainda vemos muita discórdia, muitas feridas causadas pelo ódio, pela violência, pelo preconceito, pelo medo da diferença e por um paradigma econômico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres.
Papa Leão XIV

Gaza: 600 dias de horror que o mundo não quis ver

Robert Fisk desabafava várias vezes, em entrevista, sobre a resistência das televisões e da imprensa internacional em mostrar as mais horríveis imagens que os jornalistas de guerra testemunhavam no terreno. Uma espécie de saneamento da desgraça, que poupa o leitor ou telespectador do choque, mas sacrifica a verdade sobre a tragédia que está a ser noticiada. Os editores das maiores agências de notícias internacionais lamentavam-se sobre a “pornografia do horror” para justificar o bloqueio dessas imagens e exigiam aos jornalistas que as tentavam publicar mais “respeito pelos mortos”. Fisk indignava-se contra a hipocrisia destas pessoas, que exigiam maior respeito pelas vítimas agora em pedaços do que quando ainda estavam vivas. Um dos maiores repórteres de guerra do pós-Segunda Guerra Mundial, que foi testemunha direta dos cenários mais sombrios do Médio Oriente, defendia, com os dentes trancados de indignação, que estas provas visuais violentas não se tratam de um fetiche pelo choque, mas de um dever de máxima exigência ética. Certas consciências adormecidas só acordam com um banho gelado de realidade.


Em Gaza, os 600 dias de massacre prolongado da população civil palestiniana não se fizeram apenas com bombas, doença e fome, mas também com ausência. Ausência de imagens. A tentação confortável de filtrar este horror diário, de poupar o espectador à visão de pesadelo de corpos mutilados espalhados pelas ruas, de hospitais em colapso onde as amputações se fazem sem anestesia, do choro das mães que já não têm leite para os filhos, do desespero e raiva de um pai que carrega ao colo um pequeno pedaço de carne, resto humano do que sobrou de uma filha que já não pode ser tudo.

Há quase dois anos que Israel bloqueia, quase sem exceção, a entrada da imprensa internacional independente no terreno. O mundo empurra assim a responsabilidade de contar o que se passa em Gaza para os próprios palestinianos e os seus telemóveis. Por lá, jornalistas, médicos, youtubers, cidadãos anónimos insistem em mostrar tudo, em partilhar tudo. Não querem que o mundo respeite os seus mortos desviando o olhar, mas que encare, sem filtro, a dimensão inimaginável do seu sacrifício. Um grande amigo, estudioso apaixonado por toda a história da Segunda Guerra Mundial, lembrava-me da advertência de Eisenhower ao visitar os campos de concentração nazis: “Registem tudo — filmem, recolham testemunhos — porque, algures no caminho da História, algum canalha vai levantar-se para dizer que isto nunca aconteceu.”


De acordo com dados do Committee to Protect Journalists (CPJ), desde o início do conflito até 21 de maio deste ano, morreram pelo menos 180 jornalistas e trabalhadores ligados à comunicação social em Gaza, dos quais 172 eram palestinianos. Em redes sociais de cerco menos apertado, como o X e o TikTok, os seus vídeos aparecem-nos na timeline como socos que vão direitos ao estômago. São imagens que desafiam qualquer pudor ou racionalidade, que não procuram neutralidade, que manifestam o desespero absoluto por empatia deste lado do ecrã. Agarram-nos o queixo à força com as mãos e fitam-nos nos olhos com uma verdade tão inimaginável e cruel que ninguém se atreve a esquecer.

Desde outubro de 2023 que vejo diariamente esses vídeos. Estes velhos e novos repórteres palestinianos gravam com a urgência de quem sabe que a sua única arma eficaz contra um dos mais poderosos exércitos do mundo é o testemunho sem cortes da sua realidade. E gravam a mão de criança que já não mexe por entre os escombros, registam os pedaços de corpos pendurados, que enfeitam com horror a fachada do prédio despejado à força pela fúria acéfala de mais uma bomba. Devo-lhes, pelo menos, a partilha, e faço-o até que o aviso da máquina a bloqueie. Prefiro tentar dormir com o terror dessas imagens na cabeça do que carregar, para o resto da vida, o peso na consciência de não as ter mostrado. Este horror visual pode ser insuportável, mas pelo menos não é cúmplice na indiferença. A um povo a quem já foi tirado quase tudo, que não se lhes roube a mensagem que nos querem passar. O suplício aflito para que os vejam.

Se quase sempre são criticadas pelo seu lado pernicioso para os nossos filhos, a verdade é que, neste contexto, as redes sociais tiveram um papel decisivo. Foi através delas que jovens de todo o mundo puderam testemunhar, muitas vezes em direto, o que muitos canais tradicionais e entidades de responsabilidade acrescida hesitavam em querer ver, quanto mais mostrar. Foi por ali que rebentou a comporta que insistia, teimosa, em travar a indignação das pessoas. O primeiro grito ouviu-se nas ruas, depois nas universidades e agora, por fim, em alguns corredores do poder. O silêncio tornou-se indesculpável e, aqueles que negaram as evidências durante demasiado tempo, forçam agora sorrisos enrascados para ficar bem na fotografia deste momento de maior vergonha da nossa história recente.

Por muito que os mais velhos, os que ainda mandam, não quisessem ver, juristas internacionais, a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch, multiplos relatores das Nações Unidas, grandes académicos do Holocausto, entre outros, já não se coíbem de afirmar que o que se passa em Gaza é a destruição sistemática de um povo, é limpeza étnica, é genocídio. Um dos mais prestigiados jornais neerlandeses, o NRC, publicou, a 14 de maio, uma reportagem onde analisava vários artigos académicos recentes do Journal of Genocide Research — a principal revista científica da área — concluindo que todos os oito académicos internacionais especializados em genocídio, que participaram nesses artigos, incluindo o editor-chefe da publicação, reconhecem em Gaza um genocídio, ou pelo menos, violência genocida. Também nessa reportagem, a presidente da International Association of Genocide Scholars, Melanie O’Brien, afirmou que o bloqueio deliberado de comida, água, abrigo e saneamento por parte de Israel constitui genocídio. O Tribunal Internacional de Justiça, há mais de um ano, alertou para a possibilidade plausível do que hoje já não se diz apenas entredentes, obrigando Israel a tomar medidas para o evitar e permitir o acesso de ajuda humanitária. Mais recentemente, o Tribunal Penal Internacional emitiu pedidos de mandados de captura para líderes de ambos os lados do conflito, por suspeita de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Em ambos os casos, Israel ignorou as decisões, por não reconhecer autoridade a nenhum destes tribunais. E hoje, na Europa, ainda que com cautela, começamos finalmente a ouvir líderes europeus prometer consequências para o atual governo israelita.

Neste ponto, importa ser ainda mais rigoroso. A condenação pelos crimes de guerra sistemáticos cometidos não é um ataque ao povo de Israel, nem pode ser uma generalização xenófoba e abusiva. O que se aponta, e deve ser apontado, são as ações concretas de um governo e de uma máquina militar, sobejamente documentadas até pelos próprios soldados no terreno, que, como disse anteriormente, já são objeto de processos judiciais em tribunais internacionais. Da mesma forma que todos os palestinianos não são terroristas do Hamas, o sofrimento em Gaza não pode continuar a ser abafado pela confusão deliberada entre a crítica justa e urgente a um Estado e o preconceito contra um povo. A dignidade de todas as vítimas, de ambos os lados, exige essa clareza.

Os números já não nos cabem na compreensão. Depois de 7 de outubro de 2023, em que cerca de 1200 pessoas foram mortas pelo Hamas, o horror ganhou uma nova dimensão impensável do outro lado do muro, com mais de 53 mil palestinianos assassinados, dos quais 17 mil são crianças, dezenas de milhares de feridos, milhares de novos amputados, cerca de meio milhão de pessoas à beira da fome extrema, a quase totalidade de hospitais e escolas destruídos (94% dos hospitais foram danificados ou destruídos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde), a ajuda humanitária bloqueada, saqueada, outras vezes bombardeada. Quase 300 funcionários da ONU mortos e dezenas de outros detidos ou impedidos de entrar na Faixa de Gaza, de acordo com os mais recentes UNRWA Situation Reports, em consequência da aprovação, pela Knesset, de leis que bloqueiam o acesso de novos elementos da equipa internacional desta agência das Nações Unidas. Sem estas imagens, a devastação seria apenas uma abstração estatística. Com elas, a realidade ganha osso, ganha carne, ganha rosto.

Fisk, que faleceu em 2020, dizia com aquele peso nas palavras de quem já testemunhou mais do que se deveria poder aguentar, que, se as pessoas vissem o que ele viu, nunca mais apoiariam uma guerra na vida. Nunca sentiremos verdadeiramente a dor dos outros, mas temos a obrigação humanista de partilhar, pelo menos, o seu pedido de ajuda. A imprensa tem o dever de mostrar tudo, por mais violento e difícil que seja. Não servirá para alimentar o horror, mas para que este nunca mais se torne invisível.

Hoje e então; como era e como é

Carmen Veronica, fabulosa vedete do teatro rebolado dos anos 1960, disse tudo: "Naquele tempo se enfiava a bunda dentro do biquíni. Hoje se enfia o biquíni dentro da bunda". A atriz Camila Amado resumiu a nova e difícil situação em sua profissão: "Quando jovem, eu fazia teatro para ganhar dinheiro. Hoje, preciso ganhar dinheiro para fazer teatro". E Tom Jobim assim definiu a diferença entre o Brasil e o Japão: "O Japão é um país paupérrimo com vocação para a riqueza. O Brasil é um país riquíssimo com vocação para a pobreza".


Em Portugal, quando nos pedem alguma coisa, nosso gentil e obsequioso "Pois não" significa um peremptório "Não". Já, ao ouvir algo de que duvidamos, nosso irônico "Pois sim..." significa um afirmativo "Sim". Lá, as calcinhas femininas são cuecas. As cuecas masculinas também. Por essas e outras se acredita que somos dois países separados pela mesma língua. E o dramaturgo Oscar Wilde dizia de seu colega George Bernard Shaw: "Shaw não tem um inimigo no mundo. Em compensação, nenhum de seus amigos gosta dele".

Ficou famosa a frase de Jean-Luc Godard: "A fotografia é a verdade, e o cinema é a verdade 24 vezes por segundo". Mas Godard não contava com a inteligência artificial, que tornou o cinema a mentira 24 vezes por segundo. E alguém falou outro dia do problema da segurança em São Paulo: "Latrocínio era roubo seguido de morte. Agora é morte seguida de roubo".

Um ecologista perguntou: "Pode-se acreditar que, um dia, o ar já foi limpo e o sexo, sujo?". Claudio Manoel, cardeal do ex-grupo Casseta&Planeta, definiu a nossa nova situação institucional: "Antes, os políticos eram eleitos por votos. Hoje, por devotos".

E quem não se lembra da cantilena de Bolsonaro, "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos"? Conversa para trouxas. Com sua campanha para reduzir o Brasil a um puxadinho dos EUA com Donald Trump como síndico, Bolsonaro não demora a arrancar sua máscara de religioso e, no desespero, acusar Deus de conluio com Alexandre de Moraes.

O aparente regresso da fé a Silicon Valley

A piada favorita na região era que a fé cristã era ilegal. Ou quase. Embora continuasse a haver cristãos na zona, eles optavam por esconder a sua fé e fingir que não tinham convicções religiosas. Hoje tudo mudou, e muito embora já não se reaja abertamente contra a fé, ainda se sente nalguns meios intelectuais que as convicções cristãs constituem uma espécie de desvio.

Note-se que esta deformação de pensamento ainda é mais forte na Europa. Há uns anos, no final duma sessão dum congresso académico numa universidade em Lisboa, onde proferi uma conferência, uma senhora veio ter comigo para manifestar a sua surpresa deste modo: “Como é que uma pessoa inteligente (referia-se a mim…) pode ser crente em Deus?” A minha resposta foi que, justamente por ser inteligente é que era cristão. Talvez não tenha sido a melhor resposta, mas pelo menos procurei desmontar o vício de pensamento que se posiciona na base de tal pergunta, pois bem sabemos que entre os maiores cientistas do mundo sempre se contaram religiosos e não-religiosos, o que demonstra que fé e ciência de modo algum são incompatíveis.

Durante muito tempo, em Silicon Valley a cultura dominante privilegiava um determinado modelo de “pessoa inteligente”, caracterizada por apoiar os direitos das minorias, ser anti-racista ou adepto das filosofias orientais. Podia até simpatizar com o Islão porque caso contrário poderia parecer xenófobo, ou com o judaísmo porque o antissemitismo ainda não era moda.


Entretanto, quando muitos pensavam que a humanidade estava em marcha acelerada na senda do progresso, começou a perceber-se que na realidade se estava em regressão. Mesmo os mais progressistas começaram a aperceber-se de que muito provavelmente era necessário regressar a uma estrutura ética sólida e de milénios, como a judaico-cristã.

Neste momento, os cristãos de Silicon Valley sentem-se encorajados devido ao facto de contarem com numerosos milionários e cientistas entre eles. Até mesmo Elon Musk se assumiu como um “cristão cultural”: “Eu acredito que os ensinamentos de Jesus são bons e sábios”. Embora se duvide que tal afirmação seja realmente uma coisa boa, vinda de quem vem, o facto é que se indivíduos como Musk afirmam admirar os ensinos bíblicos, então isso ajuda a retirar à fé cristã o labéu norte-americano de ser considerada anticapitalista ou anti-intelectual.

Neste momento, se alguém chega junto de potenciais investidores e diz que ama os pais, cresceu na igreja, serviu no exército, e que isso o influenciou no sentido de uma postura de ética profissional, existe uma imediata disposição para apoiar os seus projectos com financiamento.

Naquela região subsiste a ideia de que criar bons produtos e trazê-los ao mercado faz com que Deus se torne mais real na vida dos consumidores, alimentando-se assim a ideia duma espécie de “deus do consumo”. No entanto, parece que a indústria tecnológica já não confia em si mesma e no mercado para fazer do mundo um lugar melhor, como sucedia no passado. Agora sente-se a necessidade de um pano de fundo ético, o que abre espaço à religião e à espiritualidade, partindo do pressuposto de que os valores espirituais são realmente diferentes dos interesses tecnológicos seculares pós-modernos.

Acresce a isso o receio de que as máquinas venham a competir com a inteligência humana, ou mesmo a substituí-la, através duma IA superlativa, uma espécie de superinteligência artificial, e daí poderá mesmo resultar que alguns a considerem como um deus.

Embora muitos dos cristãos “tecnológicos” de Silicon Valley creiam que a dialética entre produtos inovadores, mercado e ética não poderá ser resolvida através do pensamento religioso, a verdade é que o regresso à fé que atualmente se verifica parece estar a oferecer-lhes uma alternativa de vida e crença. Resta saber se, afinal, não estaremos perante uma coisa diferente da fé cristã, isto é, uma espécie de nova religião.

O mundo se cala sobre o genocídio de Gaza e, às vezes, é pior quando fala

Em seu primeiro discurso dominical , em 11 de maio, o Papa Leão XIV pediu um cessar-fogo imediato em Gaza e expressou preocupação com a escalada da guerra global. Ao reiterar o apoio de seu antecessor a Gaza, o Papa não cometeu atos de comissão (transgressão ativa) nem perpetrou os atos mais comuns de omissão (omissão quando se é moralmente responsável por fazê-lo).

O mesmo não pode ser dito de grande parte da população mundial. Lá, o sentimento varia de "indivíduos não podem mudar o mundo, então por que se preocupar?" a "Israel tem o direito de se defender contra outro ataque terrorista".

Quanto aos primeiros, indivíduos como jornalistas, escritores e comentaristas públicos certamente podem fazer a diferença, enquanto os demais podem se juntar a uma organização que trabalha coletivamente para trazer paz global com justiça.

Em relação a este último, que é possivelmente mais pernicioso, Israel, por ser o colonizador, não tem o direito legal de cometer genocídio contra os colonizados. A disseminação dessa desinformação permitiu que a entidade cometesse assassinatos em massa impunemente.

Enquanto Israel continua a cometer uma atrocidade após a outra, cada uma mais horrível que a anterior, parece haver muito pouca ação para impedi-la.


Como observa Ramzy Baroud , esses atos de omissão são realizados com “vários graus de raiva, desamparo ou total desrespeito”.

Mesmo quando alguns ativistas não se calam, seja individualmente ou como política de grupo, muitas vezes há muita coisa que é propositalmente omitida de suas declarações. Como observa Amanda Gelender, é "profundamente decepcionante e francamente inconcebível" que muitos de seus companheiros judeus antissionistas "ainda se recusem a apoiar aberta e inequivocamente a resistência armada palestina".

"Não é seu direito como 'antissionistas' judeus higienizar e enfraquecer a luta", ela continua . "jogando a resistência debaixo do ônibus para apaziguar as sensibilidades liberais de seus membros, doadores, famílias e seguidores de uma forma que se adapte aos seus debates filosóficos, egos frágeis, culpa e conforto, bem como à escuridão vazia de suas próprias presunções."

Sua declaração se aplica a todos os funcionários públicos, comentaristas e indivíduos, antisionistas ou não, que afirmam se opor à campanha de limpeza étnica de Israel, mas não chegam a chamá-la de um genocídio que remonta à Nakba original.

Por exemplo, o senador Bernie Sanders (Vermont) é conhecido como um político progressista devido ao seu apoio ao sistema nacional de saúde, ao aumento do salário mínimo, juntamente com outras políticas sociais.

Apesar de ser aclamado por criticar a “destruição do povo palestino” pela entidade , seus comentários são frequentemente extraídos do manual sionista liberal.

Em 8 de maio de 2025, Sanders fez um discurso repreendendo o Congresso por seu silêncio sobre o "pesadelo provocado pelo homem" que acontece em Gaza.

Depois de listar todos os problemas de Gaza, até mesmo criticando o gabinete de Netanyahu por seus crimes de guerra, Sanders passa a dizer que Israel tinha o direito de se defender depois que "o Hamas, uma organização terrorista, começou esta guerra terrível com seu bárbaro ataque contra Israel em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 pessoas inocentes e fez 250 reféns".

Essas observações desfazem todas as boas intenções de Sanders porque a maior parte dessa declaração foi usada primeiro por Israel para justificar o genocídio que agora está em seu 591º dia , além disso, suas palavras são uma distorção dos fatos.

Embora o direito internacional conceda aos ocupados o direito de resistir à ocupação, não concede o mesmo direito ao ocupante. Além disso, grande parte da matança foi perpetrada pelo próprio Israel, enquanto seus soldados atiravam descontroladamente na confusão do momento.

"Houve uma histeria insana, e decisões começaram a ser tomadas sem informações verificadas", escreve Yaniv Kubovich. Além disso, documentos e depoimentos reunidos pelo Haaretz mostram que soldados israelenses empregaram a ordem operacional de Hannibal, que permite que os militares usem a força para impedir que soldados sejam levados como prisioneiros pelo inimigo.

Por fim, Sanders tira o dia 7 de outubro do contexto, como muitas pessoas fazem. Especificamente, ele não menciona a Nakba (catástrofe), que ocorreu em 1948, mas continua desde então.

“Uma das tácticas utilizadas pelo Ocidente e por Israel foi quase conseguir descontextualizar o 7 de Outubro, fazendo com que parecesse ter surgido do nada”, explica o especialista jurídico Richard Falk em uma entrevista ao Palestine Chronicle.

Dessa forma, Sanders demoniza a resistência, que ele rotula como uma organização terrorista responsável por essa “guerra terrível”, não apenas tirando o dia 7 de outubro do contexto, mas também removendo-o da história da luta anticolonial que continua até hoje.

Políticos "progressistas" como Sanders parecem mais confortáveis ​​compartilhando fotos de crianças famintas do que permitindo aos palestinos sua plena humanidade, o que exigiria ver sua luta como uma resposta legítima a décadas de ocupação. Em vez disso, eles veem os ocupados como meras vítimas, o que é claro que são, mas também são corajosos lutadores pela liberdade que resistem como a única opção moral.

“A descolonização está atualmente sendo travada pela resistência no campo de batalha”, escreve Gelender, “não nas urnas dos EUA”.

“O que está em jogo é a soberania da própria narrativa”, escreve Mohamed L. Mokhtar, “quem define a justiça, quem controla o significado, quem decide o que é visível e o que permanece oculto”.

Em uma análise do livro de Peter Beinart sobre “Genocídio, Trauma e Identidade Judaica”, como o artigo é intitulado, Paul Von Blum concorda com o apelo de Beinart por uma nova narrativa judaica, “uma que seja baseada na igualdade e não na supremacia”.

No entanto, Von Blum e, por padrão, Peter Beinart, não têm clareza sobre como passar de um genocídio para uma vida de coexistência.

A partir daqui, Beinart e seu crítico retornam ao tropo padrão de confundir resistência com atos terroristas, uma "análise de ambos os lados" que apaga o apelo por uma nova narrativa que inclua o que veio antes.

“Beinart entende perfeitamente o trauma que o ataque do Hamas em 7 de outubro causou aos judeus em Israel e em outros lugares”, escreve Von Blum, fornecendo assim cobertura para a resposta desproporcional de Israel.

Para seu crédito, Beinart destaca a opressão histórica dos palestinos, observa Von Blum , mas o crítico continua escrevendo que isso "de forma alguma absolve o Hamas por sua carnificina".

Dessa forma, ambos os escritores oferecem um relato a-histórico da resistência palestina. Assim como Sanders, eles deixam de mencionar que o dia 7 de outubro é mais um capítulo na longa história das lutas pela liberdade — a revolta de Nat Turner, Wounded Knee, o Vietnã, a Revolta do Gueto de Varsóvia e o movimento "Terra de Volta", para citar alguns.

De fato, quando um grupo de pessoas é mantido em cativeiro por um período significativo, seus algozes convivem com o medo de que a qualquer momento possa ocorrer uma revolta dos próprios vitimizados. Isso certamente era verdade nas plantações de escravos no sul dos Estados Unidos, onde os donos dos escravizados sabiam que sua "propriedade" queria ser libertada.

Como judeu, não sinto esse tipo de medo, pelo menos não por parte dos palestinos. O que me preocupa são os grupos sionistas que estão cada vez mais se manifestando em seus esforços para, no mínimo, intimidar organizações antisionistas, especialmente seus companheiros judeus.

Em vez de focar no trauma judaico, como Beinart parece fazer, talvez seja melhor discutir esforços como o Projeto Esther, que visam rotular grupos pró-palestinos como organizações terroristas para que os membros possam ser mais facilmente "deportados, desfinanciados, processados, demitidos, expulsos, condenados ao ostracismo e excluídos de outras formas do que é considerado uma 'sociedade aberta'".

Tendo sido eu próprio alvo dessas políticas, parece, por vezes, surreal que judeus, que vivenciaram o seu próprio Holocausto, às vezes apenas na segunda ou terceira geração, estejam agora a ser ameaçados por protestarem contra outro genocídio. Desta vez, não é sangue judeu, mas sim palestino, que está a ser derramado.

“Em meio à depravação implacável deste holocausto”, conclui Gelender, “a resistência é o único antídoto para o desespero. Nunca capitular, nunca se ajoelhar, lutar contra todas as adversidades, até a vitória.”

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Pensamento do Dia

 


A esquerda tirou os olhos da bola, e a direita saiu correndo com ela

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ataca diretamente a liberdade acadêmica de uma universidade como Harvard, fica muito claro que ele nunca teve verdadeiramente uma agenda de liberdade. Como tantos autoritários antes dele, a conversa da liberdade foi apenas um meio para chegar a um fim, o poder, a partir do qual passou a esmagar a liberdade dos outros.

A culpa principal é de quem participou nessa perversão ideológica. Há já uma década que duas versões da liberdade têm sido vendidas pela direita radicalizada. Uma delas é conservadora, patriarca e nacionalista: a liberdade de ofender, insultar e degradar, apresentada contra a "ditadura do politicamente correto" ou do wokismo ou, mais frequentemente, apenas para chatear a esquerda. Qualquer observador minimamente atento sabia que esse pessoal nunca quis saber de liberdade.

Uma segunda versão, a dos ultraliberais, era mais genuína: eles acreditavam (e alguns ainda acreditam) em uma versão da liberdade como não interferência por parte do Estado, mas é uma liberdade desidratada. Menos Estado, mais liberdade. Menos impostos, mais liberdade. Não passa disso. É uma liberdade poucochinha, como dizemos aqui em Portugal.


Mas é preciso que a esquerda assuma também as suas culpas nesse sequestro e subversão da liberdade. Só foi assim tão fácil para a direita ocupar o espaço semântico da liberdade porque a esquerda, em boa medida, deixou-o abandonado. Esse jogo foi perdido pela esquerda por falta de comparecimento, ainda antes de começar.

Grande parte da esquerda deixou que se tornasse consensual a ideia de que a direita era pela liberdade como a esquerda seria pela igualdade. Essa ideia não tem qualquer sentido histórico: a esquerda do século 19 e de grande parte do 20 é uma esquerda da luta pela liberdade, que é sempre o primeiro valor na tríade revolucionária, com a igualdade e a tão esquecida e menosprezada fraternidade. Mas sem liberdade, nada vale a pena.

Outra parte da esquerda convenceu-se de que andava ocupada com os outros valores —a justiça, em particular a social, ou a sustentabilidade— sem perceber que a defesa deles só é eficaz se forem enquadrados num entendimento de raiz libertária: a justiça ou a sustentabilidade são princípios que asseguram a equilibrada distribuição da liberdade, numa sociedade ou ao longo do tempo.

Outra esquerda ainda foi incoerente na defesa da liberdade, desculpando ditaduras ou violações de direitos humanos por solidariedade táticas, afinidades históricas ou geopolíticas, ou outras razões espúrias. Mas a liberdade não pode ser descartável, nem instrumental.

Em resumo, a esquerda tirou os olhos da bola. E a direita correu com ela por mais de uma década. E com isso ganhou um eleitorado jovem, urbano, ascendente, proletário, ou simplesmente gente que sonha com uma pequena independência ou prosperidade para si e para os seus. Gente que deveria ser o público da esquerda.

Pode ser que agora, que ficou evidente que o apego de certa direita à liberdade sempre foi fajuto, a esquerda acorde. Só derrotaremos os populistas de extrema direita se for em nome da liberdade.

Burlas virtuais, danos reais

A vida em sociedade sempre coexistiu com a burla. Na fábula de Esopo, Prometeu esculpiu Aleteia (a verdade) para que esta fosse capaz de regular o comportamento humano. Tendo de repentinamente ausentar-se, Dolo (o espírito da trapaça), ambicioso, com os dedos sujos moldou uma estátua à semelhança de Aleteia, mas não teve tempo de terminar os pés. Ao retornar à oficina, Prometeu, impressionado com a semelhança, infundiu vida em ambas as esculturas. A imitação de Dolo – Pseudo – era um produto do subterfúgio, que caminhava de forma desordenada.

A mentira tem a perna curta, dizemos, mas na era da vida online, colados ao telemóvel, os “pés” são mais difíceis de visualizar. Partilhamos online informação pessoal, tornando simples, via as novas ferramentas tecnológicas, detetar situações de vulnerabilidade (a morte de um familiar, uma separação, doença…), “cultivar” relações (amorosas ou não) e ludibriar, com promessas de ganhos financeiros. Pseudo chega até nós via redes como o LinkedIn, o Tinder ou WhatsApp. Mas quem é Pseudo no mundo virtual?

Xi Jinping, nomeado, em 2012, secretário-geral do Partido Comunista Chinês, iniciou uma campanha anticorrupção no sistema do Estado, que lhe permitiu não só eliminar opositores políticos, mas também quebrar relações entre os funcionários do Estado e as tríades que dominavam o negócio do jogo em Macau, Hong Kong e Taiwan. Demonstrando enorme resiliência, as tríades transferiram-se para o espaço virtual. Embora inicialmente focadas no mercado chinês, hoje as potenciais vítimas são qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, com um telemóvel.


O negócio sofisticou-se, operando em rede. Existem “empresas” de recrutamento, que fornecem a mão de obra, atraindo para “empregos”, que parecem bem pagos, pessoas do Sudeste Asiático, África e América Latina. Estas pessoas tornam-se os novos escravos, vendidos a “call center”, impedidos de abandonar as instalações e sujeitos a tortura caso a sua performance seja baixa (ou seja, caso se mostrem incapazes de enganar os incautos espalhados pelo mundo). E, finalmente, grupos especializados em branqueamento de capitais.

No século XXI, a par dos narco-Estados, nasceram os Estados cibercrime, como Camboja, Mianmar, Laos. Os recursos dos sindicatos do crime são de tal forma vastos, que capturam o Estado. Pagam a funcionários que facilitam a entrada dos futuros “trabalhadores” e a polícias e agentes do Estado que fecham os olhos aos edifícios, cercados de arame farpado, onde operam dezenas de milhares de pessoas (no Camboja estima-se que 100 mil pessoas trabalhem nestes centros). E se, preferencialmente, estes centros se localizam em regiões remotas da fronteira que separa Mianmar e Laos, a impunidade cresceu e na capital das Filipinas, Manila, a agência anticibercrime opera hoje num complexo de escritórios até há pouco tempo ocupado por uma rede de criminosos. Agentes da autoridade circulam entre a sala de karaoke – onde os chefes se divertiam –, a sala de tortura, o call center e os dormitórios (onde, aliás, ainda permanecem os “trabalhadores” enquanto se tenta distinguir chefes de vítimas de tráfico).

Pseudo multiplicou-se. O combate ao cibercrime tornou-se, por isso, prioritário e exige ação concertada. No entanto, num mundo às avessas, a cooperação internacional tornou-se difícil. As melhores práticas parecem vir de Singapura, onde, nos espaços públicos anúncios advertem para os riscos, nas esquadras os agentes encaminham queixas para um centro, onde autoridades e bancos atuam de forma concertada, para tentar barrar transferências em criptomoedas (o esquema preferencial). O perigo não vem apenas da Ásia, existem esquemas mais simples continuamente a renascer. Os SMS falsos podem ser evitados logo que se imponha um número único e não replicável para entidades críticas (Estado, bancos, fornecedores de energia, correios…) – um processo que se arrasta, mas que em Taiwan já opera, trazendo confiança ao sistema e evitando burlas. E nós, individualmente, devemos abordar o tema com familiares e amigos. São o isolamento e a vergonha que permitem a Pseudo ser tão bem-sucedido.

Chega. Israel está cometendo crimes de guerra

O governo de Israel está atualmente travando uma guerra sem propósito, sem objetivos ou planejamento claro e sem chances de sucesso. Nunca, desde a sua criação, o Estado de Israel travou uma guerra como essa.

Ultradireita avança a agenda da 'nova ordem mundial'

Na ocasião da posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, fãs do presidente americano vindos de todas as partes do mundo afluíram a Washington para participar do evento histórico. Entre os presentes, estavam o presidente da Argentina, Javier Milei, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Políticos de ultradireita na oposição, como Nigel Farage, do Reino Unido, assim como representantes do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), também se vangloriaram por estar entre os convidados.

A direita radical aproveitou o evento para fazer contatos com seus pares pelo mundo todo. Na véspera, figuras como o filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o ideólogo-mor de Trump, Steve Bannon, um parlamentar da AfD e vários influenciadores também se encontraram para trocar ideias. Um influenciador de direita da Alemanha inclusive se filmou no encontro enquanto se gabava de ter recebido um convite do embaixador de El Salvador. O movimento tem uma sede de conexões nunca vista antes.

O fato de justamente Donald Trump ter se tornado um ímã para ultranacionalistas de todo o mundo com sua agenda "America First" é um fenômeno por si só – sobretudo porque muitos deles tendem a ser ideólogos antiamericanos. Mas essa aliança global de antiglobalistas é um paradoxo apenas à primeira vista.
Contra a imigração e uma sociedade moderna

"O que une essas redes é a rejeição da migração, o nacionalismo, as imagens da família tradicional e o antiglobalismo", sumariza a professora de sociologia Katrine Fangen, da Universidade de Oslo, na Noruega

"O objetivo dessas redes não é simplesmente lutar por mais influência política. Seu objetivo final é um realinhamento da ordem mundial ideológica global – elas estão lutando pelo nacionalismo e pelo conservadorismo social e contra a democracia liberal."


E a direita radical está aprendendo rapidamente através da troca de experiências. As estratégias e os sucessos num país são logo adotados por outros movimentos, analisa o cientista político Thomas Greven, da Universidade Livre de Berlim. Ele considera que a extensão da rede da direita radical é algo historicamente sem precedentes.

As táticas são descritas em seu livro Das internationale Netz der radikalen Rechten (A rede internacional da direita radical): "Por exemplo, a estratégia de Bannon 'flooding the zone with shit' ["inundar a zona com merda"] é muito bem-sucedida internacionalmente. Nela, o oponente político é constantemente bombardeado com provocações, mentiras, novas ideias e hostilidade", explica Greven. "Essa estratégia de comunicação agora é usada em todos os lugares por atores radicais de direita."

A relação de seus seguidores com a democracia é instrumental: eles precisam dela para chegar ao poder. "O foco é dizer: quem quer que tenha sido eleito deve ser capaz de governar sem barreiras", explica Thomas Greven. Seu termo para isso é "democracia hipermajoritária", ou seja, voltada exclusivamente para supostas maiorias.

"Viktor Orbán, por exemplo, levanta-se e diz: 'Fui eleito com um mandato claro para manter a migração fora da Hungria, e não quero que instituições europeias, tribunais, resistência da sociedade civil ou qualquer mídia financiada por estrangeiros me impeçam de governar'".

Contradições e concessões são anátema para eles. "Os protagonistas da direita radical estão incomodados com o fato de que, devido à crescente legalização, burocratização e supranacionalização, há obstáculos demais essa vontade da maioria. E esta deve se impor numa democracia hipermajoritária."

Em sua luta ideológica, a direita radical também tem muito dinheiro à disposição. Os doadores mais famosos vêm dos EUA: Elon Musk e os irmãos Koch, empresários bilionários que apoiam a luta ideológica. O bilionário da tecnologia Musk, aliás, não se envolve apenas com dinheiro, mas é, ele próprio, um protagonista da direita radical. Em sua plataforma X, ele se entusiasma com a AfD na Alemanha, apoia a direita radical no Reino Unido e critica os partidos liberais.

Mas não são apenas os doadores privados que apoiam as redes de direita. Rússia e China, por exemplo, também são constantemente criticadas por alimentar as redes populistas de direita para desestabilizar as sociedades liberais.

Entretanto o financiamento por parte dos inimigos declarados da direita radical também ganhou importância, como no caso das verbas da própria União Europeia e de democracias liberais. Na Alemanha, por exemplo, o odiado Estado liberal é o doador mais importante da AfD: em 2021, mais de 10 milhões de euros, ou cerca de 45% dos recursos do partido, vieram dos cofres do Estado.

A explicação é que, numa democracia partidária, o Estado apoia o trabalho das diferentes siglas – e o apoio financeiro aumenta conforme o crescimento delas. "Isso permite que os partidos radicais de direita ampliem seu alcance. Além disso, o Parlamento Europeu, por exemplo, lhes oferece um espaço mais ou menos automático para a cooperação internacional, incluindo recursos adicionais que protegem suas redes", observa a socióloga Katrine Fangen.

Neste início de 2025, a estratégia das redes radicais de direita parece estar funcionando: Donald Trump foi reeleito nos EUA, e os partidos populistas de direita continuam a crescer na preferência dos eleitores em países como Alemanha, França, Reino Unido e Áustria.

Sua ascensão é irrefreável? O cientista político Thomas Greven diz que não. Muitos partidos radicais de direita se beneficiariam do fato de nunca terem tido que governar sozinhos, e sua situação de oposicionistas é relativamente confortável. Além disso, seu sucesso encobre as diversas fissuras de movimentos cuja união, muitas vezes, é apenas superficial, explica o acadêmico.

"Se a discordância nas bases quanto aos conteúdos se unir à insatisfação entre o eleitorado em geral, o sucesso da ultradireita pode ser novamente revertido", argumenta Greven. Mas há um pré-requisito, enfatiza o politólogo: "que as instituições democráticas funcionem".