sexta-feira, 11 de abril de 2025

O dedo de Trump no mapa da fome

O centro das discussões mundiais são as tarifas de Trump. Não poderia ser diferente: envolvem a economia do planeta e a sorte de bilhões. No entanto, há uma decisão de Trump que foi pouco discutida, com efeito arrasador sobre os mais pobres do mundo. Trata-se do corte de 83% dos programas norte-americanos de ajuda humanitária e ao desenvolvimento. O balanço do estrago dessa decisão foi feito nas primeiras semanas após o anúncio, mas ainda assim ele pode surpreender pela sua carga negativa.

O jornal Le Monde cita a primeira avaliação de março, divulgada na revista Nature: a suspensão da ajuda arrisca privar 1 milhão de crianças de acesso ao tratamento vital contra a desnutrição e a provocar 160 mil mortes anuais. Essas análises se apoiam no fluxo de financiamento e na mortalidade constatada quando não se combate a desnutrição.


O problema não se limita ao corte americano. Com a nova configuração política e o abalo da Otan, os principais países europeus começam a destinar mais dinheiro para armamento. A Alemanha, por exemplo, flexibilizou suas rígidas regras fiscais para destinar verbas ao setor militar. Países como a França e o Reino Unido reduzem sua ajuda ao desenvolvimento de países pobres. A França cortou 37%; a Inglaterra, 40%. Se somamos a renúncia americana com os cortes europeus, cerca de 2,3 milhões de crianças não serão tratadas e abre-se a possibilidade de mais 370 mil mortes de crianças por ano. É como se a tragédia de crianças morrendo pelas bombas em Gaza fosse multiplicada por 30.

Ao anunciar o desmantelamento da Usaid, Elon Musk afirmou que ninguém morreria por causa de um corte para controlar a ajuda estrangeira. As estimativas o desmentem.

A organização humanitária Helen Keller afirma que somente em Bangladesh, Nigéria e Nepal cerca de 21 milhões de pessoas ficaram sem ajuda nutricional, entre elas 11 milhões de crianças. A questão alimentar já era problemática, e ficou dramática a partir da retirada dos EUA, que eram responsáveis por 30% da ajuda mundial.

Nos dias 27 e 28 de março, a França organizou um encontro internacional, uma espécie de conferência da nutrição. O tema era também qual resposta deveria ser dada pela comunidade internacional a esta nova situação, em que os EUA se demitem e os europeus, antes dos americanos, já começam a deixar o campo. Os organizadores reconhecem que o debate sobre nutrição não se limita à comida, ele se estende às mudanças climáticas. Até a obesidade crescente em algumas áreas do mundo era parte da agenda. O Brasil participou desse encontro. A representante brasileira foi Janja. Lula lançou no Rio a Aliança Global contra a Fome. Abriu-se, com essa renúncia americana, não só um campo de crítica a Trump, como uma necessidade de redobrar o esforços diante de uma situação calamitosa. Lula tem não só a chance, mas também a necessidade de avaliar o novo quadro e ampliar os esforços que culminaram com o consenso no Grupo dos 20. Antes de tudo isso, eu já tinha escrito um artigo sobre a questão dos alimentos, mostrando que o alto preço momentâneo no Brasil, na França e nos Estados Unidos é apenas a ponta do iceberg.

Inspirei-me no livro do jornalista Paul Roberts The End of the Food, no qual analisa as cadeias globais de abastecimento e fez previsões sombrias sobre o futuro dos alimentos no mundo. Ele menciona três variáveis que podem definir esse futuro: energia, mudanças climáticas e crise hídrica. Muitos países já não produzem alimentos para economizar água. E os mais competitivos, como o Brasil, exportam milhões de litros de água gratuitamente, por meio da produção de carne de frango e porco. O livro de Roberts começa com as questões de saúde que a produção em grande escala traz, como a contaminação dos alimentos, mas examina também algumas das aspirações de países mais pobres, como por exemplo a de comer mais carne. Isso traria melhorias na saúde, mas é uma forma pouco eficiente de obter calorias. Em média, são necessários dois quilos de cereais para produzir um quilo de carne.

Aos poucos, a complexidade da alimentação diante do crescimento mundial vai subindo na agenda. Dois presidentes, por exemplo, falaram do preço do ovo nas últimas semanas.

Lula, no Brasil, reclamou dos aumentos causados por questões climáticas, preço de rações e conjuntura de maior consumo de ovo por causa da Quaresma. Devastada pela gripe aviária, a produção norte-americana elevou os preços de forma assustadora. Em Nova York, os ovos estavam sendo vendidos por unidade ou em caixas de três. Trump mencionou o tema no dia em que anunciava a questão das tarifas, o que mostra a importância estratégica que uma crise alimentar pode ter para os governos ao redor do mundo.

Aliás, a importância do tema da escassez é indiscutível, pois já derrubou vários governos. A questão é prever as consequências de uma crise durável, provocada pela escassez de água, ausência de energia abundante e empobrecimento irreversível dos rios e oceanos.

Correndo por fora da batalha das tarifas, a grande pauta global dos alimentos precisa vir à tona. Naturalmente, temos de começar pela emergência da fome e pela realidade assustadora de existirem 80 milhões de crianças necessitando de tratamento contra a desnutrição. Mas há amplo caminho pela frente, um pouco ofuscado pelas tarifas, em que os alimentos são uma espécie de coadjuvantes no debate que envolve preço de carros, máquinas de lavar e iPhones.

Marine Le Pen, Martin Luther King e drones

"Nossa, graças a Deus as imagens da televisão dão a impressão de que há pessoas lá, porque se eles fizerem uma tomada aérea, estamos mortos." Esses foram os termos confessados ​​no último domingo por um membro do Rally Nacional (RN) ao jornal Libération durante o comício em Paris convocado dias antes pelo partido de extrema direita para "salvar a democracia" e apoiar sua líder, Marine Le Pen, condenada a quatro anos de prisão — dois deles com pulseira eletrônica — e cinco anos de inibição política com efeito imediato. A nova mártir da política francesa, culpada de orquestrar um esquema para desviar fundos do Parlamento Europeu no valor de mais de quatro milhões de euros ao longo de 11 anos, certamente pensou que seus seguidores viriam de todos os cantos da França para defendê-la de tal injustiça. Mas nem a intensa e delirante campanha midiática lançada pelo partido após a decisão — denunciando o ponto de náusea como uma decisão “política”, antidemocrática, tomada por “juízes vermelhos” para aniquilar a candidatura do favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2027 — nem os trinta ônibus fretados pelo RN conseguiram o milagre tão esperado. As pessoas , a quem tanto se dirigiu a mulher que se apresentou neste domingo como ninguém menos que a filha espiritual de Martin Luther King, simplesmente a ignoraram.

Basta pesquisar com X a hashtag #PlaceVauban para perceber o quão vazia estava a praça, onde apenas cerca de 7.000 pessoas se reuniram, de acordo com a polícia. O vídeo publicado no X nesta quarta-feira por Le Pen , acompanhado por uma música grotesca de drama e tensão, não deixa dúvidas: embora as equipes da RN tenham tentado disfarçar a baixa presença por meio de uma edição afiada, coincidentemente a única tomada filmada por um drone é cortada justamente no momento em que o aparelho começa a subir. O partido justificou seu fracasso em alcançar a revolta popular que esperava tanto pela dificuldade de organizar um comício com menos de uma semana de antecedência quanto por sua baixa popularidade entre os parisienses, que até agora permaneceram imunes à retórica obsoleta e xenófoba do partido. Penso, no entanto, que a explicação é muito mais simples: sua arenga trumpiana e vitimista contra o sistema e "a ditadura dos juízes" em nome da livre escolha dos eleitores não convenceu os franceses e pode até não ter conquistado alguns de seus eleitores.

Como Patrick Cohen, editorialista da estação de rádio pública France Inter , enfatizou há alguns dias, quem na França pode honestamente acreditar que é urgente aliviar os controles e sanções contra representantes eleitos suspeitos de violações de integridade — além, é claro, do primeiro-ministro François Bayrou, que ainda aguarda um recurso em um caso semelhante e levantou a necessidade de revisar a lei? Ou que a democracia e a confiança dos cidadãos nas instituições seriam fortalecidas se políticos corruptos tivessem permissão para acessar cargos de poder. Quem em sã consciência pode acreditar que, como disse Jordan Bardella, a democracia está sendo assassinada e que os únicos juízes dos políticos são seus eleitores, ignorando deliberadamente a necessária separação de poderes em um Estado governado pelo Estado de Direito? O próprio Bardella declarou em novembro passado que um funcionário público com antecedentes criminais não era legítimo o suficiente para concorrer em uma eleição, causando agitação generalizada dentro do RN e irritando seu mentor. Então, qual é a situação?

Ciente de que a retórica trumpiana que adotou após a decisão ainda não é eleitoralmente viável na França , e considerando que este é um partido cuja popularidade vem crescendo à medida que se torna menos demoníaco — apenas na aparência, porque o programa do RN continua dizendo o contrário — Le Pen agradeceu a todos os seus aliados de extrema direita pelo apoio, exceto ao magnata laranja. Parece até que seus capangas já receberam ordens para moderar as coisas até que seu julgamento de apelação comece em um ano, em vista das ameaças recebidas pelos juízes responsáveis ​​pelo caso. Ainda assim, ninguém sabe quais serão as consequências desse ataque sem precedentes às instituições democráticas e, em particular, à legitimidade do processo eleitoral lançado por Le Pen, caso a líder perca sua apelação poucos meses antes das eleições presidenciais. Embora o outro cenário, de que ele ganhe as eleições apesar de ter desviado quatro milhões de euros, seja talvez ainda mais assustador.
Carla Mascia

Chacota, a nova arma da China contra Trump

Guerra comercial é coisa séria e é assim que o governo chinês tem tratado o tarifaço de Donald Trump, tanto na retórica como nas ações. Mas, às margens do discurso oficial, as autoridades chinesas deixam espaço para que a ofensiva do governo americano seja alvo de ironias, sempre dentro dos limites da censura que regula a mídia no país.

Geralmente sisuda, principal meio da liderança chinesa para comunicar-se com o mundo, a agência estatal de notícias Xinhua, produziu um vídeo inteiramente dedicado à zoação das medidas de Trump. Começa com uma introdução dita em voz de desenho animado: “A hilariante lógica por trás das tarifas recíprocas dos EUA”. Em dois minutos, o vídeo demole com sarcasmo a fórmula que levou o governo americano a calcular as tarifas aplicadas sobre cada país, concluindo que até um estudante de escola primária faria melhor.


Wang Guan, conhecido apresentador da TV estatal que tem no currículo entrevistas com vários líderes mundiais, entre eles o presidente Lula, foi na mesma linha, questionando a competência dos responsáveis pelo tarifaço. “O homem que costumava levar cassinos à falência agora quer fazer o mesmo com o comércio global”, diz Wang em um vídeo publicado em sua conta pessoal. Para ele, o cálculo por trás da ofensiva tarifária de Trump “é uma estupidez”. Faz tanto sentido, afirma, quanto “dividir o valor de sua hipoteca pelo tamanho do seu sapato”.

Nas redes sociais chinesas, o tarifaço recebe milhões de visualizações e curtidas em vídeos que usam inteligência artificial para imaginar o futuro que aguarda os EUA se o país bloquear a importação de seus produtos mais populares, muitos deles produzidos na China. A cena fictícia é de americanos obesos e com ar deprimido na linha de montagem de fábricas da Apple, da Nike ou da Tesla, que no fim do vídeo acabam arruinadas por falta de mão de obra.

“Dia da Libertação, você nos prometeu as estrelas, mas as tarifas mataram os carros chineses baratos”, canta uma voz gerada por IA num vídeo produzido pela mídia oficial, em que consumidores americanos aparecem lutando contra a inflação e terminam com o prato vazio.

A tarefa dos chineses que se dispõem a caçoar de Trump é facilitada pela fartura de material de comediantes e influenciadores dos EUA como John Stewart achincalhando seu próprio presidente. Se fosse o oposto, seria quase impossível encontrar material cômico na China envolvendo a liderança do país e seus símbolos. Zombar do presidente ou outras figuras importantes é totalmente proibido, quem ousa fazê-lo, mesmo que de leve, paga um alto preço.

Em 2023 o comediante Li Haoshi foi preso depois de fazer piada durante um show de stand-up em Pequim sobre seus cachorros, em que citou um lema motivacional do Exército dito pelo presidente do país, Xi Jinping. A piada levou à prisão de Li e custou à empresa que o contratara multa de 14,7 milhões de yuans (algo em torno de R$ 12 milhões na cotação de hoje). “Jamais permitiremos que qualquer empresa ou indivíduo use a capital como palco para insultar a gloriosa imagem do Exército de Libertação do Povo”, rebateu o ministério da Cultura.

Embora hoje em dia na China Trump seja alvo sobretudo de chacota e desprezo nacionalista (ao menos em público), ele também atrai enorme interesse como fonte de entretenimento. Nesse sentido, um dos fenômenos atuais é Chen Rui, conhecido nas mídias sociais como o “Trump chinês” por sua imitação impecável do presidente americano. Com mais de um milhão de seguidores na China e cerca de 400 mil no Instagram, Ryan, como ele é chamado, posta vídeos diários, mas não sobre política. Usa o incrível talento de imitador para fazer vídeos do cotidiano, em que apresenta na voz de Trump sua cidade, Chongqing.

Outra polêmica com os EUA que incendiou as redes sociais chinesas e gerou uma onda de zombaria envolveu o vice de Trump, J.D. Vance. O estopim foi o comentário de Vance de que os EUA pegam “dinheiro emprestado de camponeses chineses para comprar coisas que esses camponeses fabricam”. Um porta-voz da diplomacia chinesa chamou o comentário de “lamentável, desrespeitoso e ignorante”. Internautas não deixaram escapar que Vance ficou conhecido graças ao livro de memórias de sua família de “caipiras”.

Em sua resposta à guerra comercial deflagrada por Trump, o governo chinês também recorreu a fogo amigo americano, postando um vídeo de um dos presidentes mais admirados pelos republicanos, Ronald Reagan. No discurso de 1987, Reagan faz uma crítica contundente à imposição de tarifas, afirmando que ela pode funcionar por um certo tempo, mas que no fim das contas é uma política suicida, que aniquila a prosperidade.

Durante a pandemia, começaram a circular nas redes sociais chinesas versões de antigas piadas russas críticas ao autoritarismo do período soviético, reaproveitadas para descrever situações absurdas criadas pela draconiana política de Covid zero. Reagan era conhecido por colecionar esse tipo de piada para contá-las em eventos públicos. Uma de suas favoritas era sobre uma conversa entre um americano e um russo, sobre liberdade de expressão.

“Um americano diz a um russo que os americanos têm liberdade de expressão e que ele poderia até ir à Casa Branca e gritar: Vá para o inferno, Ronald Reagan! O russo responde: Ah, nós também temos liberdade de expressão. Eu também posso ir ao Kremlin e gritar: "Vá para o inferno, Ronald Reagan!"

Sibéria: A bomba-relógio climática

Aproveitando que a Guerra Fria parece ter saído de moda, Vladmir Putin faria bem em voltar sua atenção para a bomba natural sobre a qual seu reinado está localizado. Se a Sibéria continuar derretendo, a Rússia já era, levando junto boa parte do mundo como nós o conhecemos. Acontece que é na Sibéria que fica a maior parte da superfície terrestre chamada permafrost.

O permafrost é a porção de solo permanentemente congelado que se encontra no Ártico e na sua vizinhança – como Sibéria e Groelândia -, mas também em regiões elevadas do Alasca, Tibet e Canadá. Estamos falando de terrenos encharcados com água congelada, onde se forma o cimento natural que solidifica uma pasta de terra, rochas e matéria orgânica, que chega a ter 1,5km de profundidade em alguns locais. A idade de todo esse “gelo permanente” pode variar de uns poucos milênios a 4 milhões de anos. A camada mais profunda é mais antiga e mais estabilizada. Porém, ultimamente até ela vem sendo afetada pelo aquecimento global.


A perspectiva de que esse picolé geológico mais antigo derreta tem tirado o sono dos cientistas, porque nele estão guardados enormes perigos para o meio ambiente e a humanidade. O permafrost tem sido chamado de “bomba-relógio de carbono” pelos especialistas, porque seu ritmo de degelo é imprevisível. Como esse gelo antigo tem apresentado elevação de temperatura três vezes acima da média global, seu descongelamento tanto pode ser gradual, como pode colapsar abruptamente.

Enquanto isso, Putin ainda crê nas vantagens de curto prazo que o derretimento da Sibéria traria para a economia russa (ou a dele, é difícil distinguir). Por exemplo: o acesso a novas reservas de petróleo e gás, a exploração de jazidas de minerais estratégicos e terras raras, a expansão de áreas agricultáveis e a abertura de novas rotas marítimas. Contudo, a ansiedade do Kremlin por lucros de curto prazo para si pode resultar na inexistência de um longo prazo para todos, a começar pela própria Rússia.

O primeiro problema é que, quanto mais o planeta aquece, mais rápido a Sibéria derrete e mais rápido o planeta aquece, criando-se um ciclo climático catastrófico de amplitude planetária. Diversas fontes científicas como o IPCC e as Nações Unidas já concordam que os depósitos de gelo antigo, principalmente na Sibéria, armazenam dezenas de bilhões de toneladas de CO2 e gás metano que serão liberados na atmosfera acelerando o aquecimento global a níveis irreversíveis, que podem inviabilizar a vida no planeta.

Em segundo lugar, quando o permafrost se liquefaz, toda a infraestrutura rodoviária, ferroviária, industrial, energética, urbana e de oleodutos que foi assentada sobre o solo congelado se deforma, afunda ou desmorona, implicando em custos bilionários com manutenção, reconstrução e outras adaptações. Isso já está acontecendo no norte da Rússia, Alasca e Canadá (80% das infraestruturas críticas da Sibéria, por exemplo, estão no permafrost).

Some-se a essas consequências outros efeitos inusitados, como a liberação de microrganismos letais congelados, mais antigos do que a humanidade (a bactéria do Antraz, por exemplo, ressurgiu com o degelo atual causando um surto na Sibéria).

Embora distante, nem a nossa Terra da Santa Cruz escapará do derretimento da Sibéria, que afetará o regime de chuvas e estiagens na Amazônia e em todo o País, assim como resultará na elevação dos níveis dos oceanos afetando as nossas cidades costeiras. Apesar do estresse dos mercados, o tarifaço do Trump ainda não é o maior problema do mundo.

A próxima etapa do plano de Trump

O choque imposto por Donald Trump na semana passada elevou a tarifa de importação média dos EUA de 2,5% para 22,5%, a maior em mais de cem anos. “Isso é uma revolução econômica, e vamos ganhar”, tuitou ele.

Para o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o tarifaço é apenas o começo da reordenação da ordem econômica que Trump quer estabelecer. Em mais de uma ocasião, Bessent repetiu que “o sistema de comércio internacional consiste numa rede de relacionamentos militares, econômicos e políticos. Não se pode considerar um único aspecto isoladamente. É assim que o presidente Trump vê o mundo, com interconexões que podem ser reordenadas para promover o interesse do povo americano”.

Bessent e o chefe do Conselho de Assessoria Econômica da Casa Branca, Stephen Miran, já deixaram claro que o caos tarifário é uma forma de criar alavancagem a ser usada na implementação do resto do plano para reindustrializar os EUA e preservar o dólar como moeda de reserva. A agenda Maga (Make America Great Again) parece incluir esferas de influência geoeconômica (unindo comércio e segurança), isolamento da China ao máximo, desmonte do multilateralismo (FMI, OMC) etc.


Antes de chegar à Casa Branca, Miran escreveu que seria “mais fácil imaginar que, após uma série de tarifas punitivas, parceiros comerciais como a Europa e a China se tornem mais receptivos a algum tipo de acordo monetário em troca de uma redução das tarifas”.

Ou seja, se “o dólar fosse capaz de se enfraquecer para equilibrar o comércio, não teríamos muito trabalho para equilibrar os déficits comerciais e não teríamos muitos dos problemas que as tarifas e outras políticas visam solucionar, porque seríamos mais competitivos no cenário global e não tão enganados por outros países”.

Em conversa com a coluna, o professor de competitividade Stéphane Garelli, do IMD, uma das principais escolas de negócios do mundo, sediada na Suíça, prevê que a próxima etapa para Trump será justamente arrancar um acordo para desvalorizar o dólar.

O professor observa que tudo é questão de preço na esfera Trump. O presidente dos EUA age como um comerciante que vende direitos de acesso. Primeiro, aos mais de 300 milhões de consumidores americanos. Para entrar nesse mercado, é preciso pagar mais tarifas ou fazer investimentos diretos no país. Em seguida, o acesso à tecnologia americana, que deve, também, ser paga por investimentos.

E terceiro, o dólar, com uma espécie de acordo tipo Plaza (pelo acordo de 1985 alguns países se comprometeram a intervir no mercado de câmbio para desvalorizar a moeda americana). Seria um “Acordo Mar-a-Lago” induzindo bancos centrais a vender dólar para baixar sua cotação, turbinar exportações dos EUA e reduzir o déficit.

Para Garelli, parceiros como China e Europa, embora sejam muito céticos, acabarão negociando, dependendo das condições oferecidas por Washington. Para a maior parte, talvez aceitem vender um pouco de suas reservas para o dólar não se apreciar muito e atenuar uma grande obsessão de Trump.

A etapa seguinte será sobre o sistema de defesa, na interpretação de Garelli sobre a estratégia de Trump. Para ter acesso à proteção militar americana, parceiros deveriam comprar títulos do Tesouro ilimitados com taxas de juros zero. Isso permitiria aos EUA financiar o sistema de segurança que ele coloca à disposição.

Para negociações, um problema é a imprevisibilidade e a falta de confiabilidade de Trump.

No momento, a equipe trumpista espera que, com o plano tarifário bem-executado para reduzir o déficit comercial americano, o governo terá dinheiro e poderá diminuir os impostos. Mas isso, diz Garelli, só funciona se a demanda mundial continuar a mesma, o que está longe de ser garantido.

Como nota o professor, o banho de sangue recente nos mercados financeiros ilustra o ceticismo de muitos investidores sobre a prometida “era de ouro” para os EUA. Em 1930, tarifas elevadas, como as de Trump, transformaram uma recessão em depressão e desordem que foi seguida por extremismo político e caminho para a guerra.

Após a Segunda Guerra Mundial foram cerca de 50 anos para se negociar corte efetivo de tarifas de importação em acordo global. Em uma canetada, Trump jogou tudo isso para o espaço. E quer fazer agora baixa de alíquota em discussões bilaterais intimidatórias. Os trumpistas não negociam; procuram impor, na base do pegar ou largar.

Para Garelli, a verdadeira pressão sobre Trump virá do interior dos EUA. Nota que alguns grandes CEOs começam a reagir ao tarifaço, considerado um pouco excessivo. E. Trump é também reputado por fazer reviravoltas de última hora em suas políticas.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Trem fantasma

Há dois meses achei que tinha conseguido desligar Trump das minhas ideias. Foi uma espécie de iluminação, um raro momento zen, como se uma chave tivesse sido simplesmente desligada na minha cabeça. Foi bom enquanto durou, mas passou rápido. A verdade é que estou obcecada com Donald Trump.

Um dia ele deporta dezenas de pessoas (quantas? quais?) para uma prisão em El Salvador, afrontando ordens judiciais; no outro insulta e chantageia o presidente de um país em guerra, na cena mais constrangedora que já se viu na política internacional. Toca o terror entre os imigrantes e os funcionários públicos, demite especialistas e o Estado-Maior, se indispõe com os vizinhos, expulsa a AP da Casa Branca porque a agência se recusa a chamar o Golfo do México de “Golfo da América”, como ele pretende. Ameaça as universidades, persegue escritórios de advocacia, desmonta a ordem econômica mundial.

Não dá para ignorar. É como um trem vindo em direção contrária no túnel.

Quem não está apavorado está mal-informado — e eu, infelizmente, estou super bem-informada. Até porque, como nunca vi um trem vindo em direção contrária no túnel de forma tão explícita e em tamanha velocidade, não consigo deixar de olhar: aquele clássico “não quero nem ver!” com os dedos entreabertos sobre os olhos. É medonho mas é fascinante, como foram fascinantes os vídeos do tsunami, como são fascinantes os vídeos de terremotos, tornados e erupções vulcânicas.

Em vez de correr ou tomar providências, a maior economia do planeta espera petrificada, como quem encara a Medusa.

Ninguém. Faz. Nada.

Mentira: o heroico senador Cory Booker falou durante mais de 25 horas para chamar a atenção do povo, e alguns americanos têm saído às ruas em protesto. Mas é muito pouco, pouco demais, para tudo o que está se vendo. Era para Wall Street estar aos uivos, para as universidades estarem em pé de guerra, para o New York Times circular de luto, com uma tarja preta no cabeçalho todos os dias.

Trump aumenta as tarifas para que em tese as fábricas voltem para os EUA (não existem mais fábricas como ele imagina), mas persegue os imigrantes que, tradicionalmente, trabalhariam nas fábricas (também não existem mais americanos com vontade de trabalhar em fábricas). Reclama da balança comercial, mas não leva em conta o prejuízo que está dando ao turismo na sua própria casa e chantageia países que mal se sustentam nas próprias pernas.

A essa altura as tarifas já são secundárias. O que o país perdeu em credibilidade e soft-power não há mais dinheiro que pague.

É tudo de uma estupidez avassaladora, mas não só isso. É tudo muito perverso. Trump não quer negociar com ninguém. Se engana quem ainda acha que ele é um político; não é. É um astro de reality show fazendo o papel da sua vida, acima da lei e de todos os pactos fundamentais — sociais, morais, institucionais.

Trump não está restaurando a grandeza de nada. Está apenas reduzindo tudo à sua própria escala estreita, raivosa, vingativa. Os aliados históricos se afastam, os acordos se desfazem, os indicadores tropeçam, o país se fecha. A retórica do “America First” virou, na prática, “America Alone” — uma América isolada, desacreditada, com uma liderança que inspira apenas medo e escárnio.

Volta da ultradireita é tragédia contratada

Notável pensador alemão do século 19 fraseou que, na história, a tragédia só se repetia como farsa. No caso dos governos populistas de extrema direita dá-se o oposto: seu primeiro mandato é farsa; o segundo, tragédia.

Donald Trump é prova acabada disso. Desde que voltou à Casa Branca tem produzido destruição inigualável. Na mesma semana em que a imposição de tarifas arbitrárias a uma lista enorme de países virou de ponta-cabeça o sistema de comércio mundial, agentes do Doge (sigla em inglês para Departamento de Eficiência Governamental), comandado por Elon Musk, invadiram o Woodrow Wilson Center.

Seu diretor foi forçado a renunciar e no seu lugar foi instalada uma jovem líder da torcida organizada de Trump; chefias e altos executivos foram demitidos; seus funcionários federais colocados em disponibilidade; o reputado programa internacional de pesquisadores visitantes, desativado.


O Wilson Center, como é conhecido, foi criado pelo Congresso dos EUA —e, até a semana passada, era o mais respeitado think thank de política exterior do país. O ataque ao centro de excelência é mais um episódio da investida trumpista para garrotear as instituições que produzem conhecimento, ou financiam a sua produção, ou promovem o debate livre de ideias —universidades, agências públicas de financiamento da ciência, além dos citados think thanks.

Não há dúvida alguma: o Trump do segundo mandato é muito mais radical do que o do primeiro; tem mais clareza sobre os inimigos que quer destruir; forjou instrumentos mais afiados e cevou novos apoios para fazê-lo. E, até agora, seus desígnios não tiveram de se haver com a resistência das instituições democráticas que poderiam freá-los.

A volta da extrema direita a Washington põe em dúvida teorias caras aos cientistas políticos. A primeira sustenta que a participação no jogo democrático tende a moderar partidos e líderes extremados. A segunda supõe que instituições políticas sólidas —e robustecidas com o passar do tempo— criam freios e contrapesos eficazes à ambição de poder dos governantes. Nada disso parece estar acontecendo nos EUA. Até agora, diria um otimista.

São poucos os casos de populistas de extrema direita bem-sucedidos a ponto de se reeleger ou voltar ao governo em pouco tempo. Assim, são escassos os casos que permitam aceitar ou rejeitar aquelas teorias. Por via das dúvidas, é melhor tentar evitar que o retorno ocorra. Para tanto, levem-se a sério tanto as propostas extremistas como a intenção dos proponentes de cumpri-las.

No Brasil, as instituições democráticas formaram barreira eficaz aos intentos golpistas de Jair Bolsonaro. Mas convém não apostar só nelas. Isolar politicamente o ex-capitão é medida necessária —e urgente— nesta quadra que antecede seu julgamento por crimes contra o Estado de Direito e quando, segundo Datafolha, 52% dos brasileiros acham que deveria ser preso por cometê-los.

Eis porque chega a assustar que no último domingo, na avenida Paulista, todos os pré-candidatos da direita tenham decidido, pouco importa se por convicção ou cálculo eleitoral, curvar-se à liderança de quem tem Trump como ídolo e o autoritarismo como propósito.

Inventário de perdas

Vai-se, com o tempo, perdendo tudo.
Perdi já tantos dos que tanto amava,
perdi sítios, perdi sóis, sobretudo,
perdi poderes, ilusões, e brava

força que punha, no lutar, fervor!
Perdi livros e haveres e tudo
o que à vida dá tanto sabor!
Meu canto triste foi ficando mudo,

ao ver, por todo o lado o atropelo,
o assalto ao poder da liberdade,
o pôr, na destruição, tanto zelo!

Por todo o lado, alastra a iniquidade
e a vida cada vez mais fenece,
neste pobre mundo que anoitece.
Eugénio Lisboa,"Sonetos em Tempo de Guerra Suja"

O passado reprimido do Brasil

O Brasil certamente mudou, mas somos muito incomodados por permanências contraditórias reprimidas na mudança. Testemunhos da incompetência decorrente da ausência de um olhar crítico sobre as simpatias pessoais responsáveis por um sistema jurídico kafkiano, claramente desenhado para anistiar e anular corruptos confessos e inibir conflitos de interesses. Tudo isso produz a certeza desanimadora de que leis e instituições que valeriam para todos são passíveis de particularização se o criminoso tiver o benefício de estar do nosso lado.


O exemplo mais contundente dessa afirmação é o documento que oficializa a descoberta ou achamento de nossa terra por Cabral. Nessa carta-certidão, o escrivão da frota reitera ao rei sua lealdade para, em seguida, solicitar um favor. Vale citar o original:

— Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

Nesse palaciano pedido de favor, testemunhamos como o costume fabricado pelo relacionamento pessoal obviamente particular — chamado “empenho” em Portugal — engloba a notícia oficial. É como se o oficial não pudesse se separar (como ocorre até hoje) do pessoal. O particular não se isola do universal, como seria o caso nas formas modernas de dominação. O tarifaço trumpista não tem simpatias ou jeitinhos.

Comunica-se ao rei um acontecimento feliz, e seu escrivão — saindo de seu papel institucional — aproveita o evento feliz para pedir um favor para sua filha e seu genro. O particular da casa derrete-se ao oficial, caracterizando uma intrusão vedada pela lógica burocrática existente, mas, como tenho aqui insistido, permanente nos sistemas relacionais.

Numa monarquia, o rei é a fonte da lei; numa burocracia, até mesmo os burocratas que engendram regras são, como diz Max Weber, obrigados a segui-la. Esse, observo enfaticamente, é um detalhe permanentemente reprimido, por isso sistematicamente reformulado na vida pública brasileira.

O rompimento da lei por um costume — um gesto de esperta consideração — é justamente o que permanece em nosso espaço de “modernização”. Nele, mudamos regimes imaginando ingenuamente que formas de governo mudam hierarquias e favores relacionais estabelecidos no código das reciprocidades do parentesco e da amizade. O que Caminha realizou na carta caracteriza o que chamamos de “política”, que os jornais de hoje noticiam e elaboram.

Entre Estado e sociedade; leis e costumes, deveres ligados a cargos públicos e simpatias pessoais, não conseguimos abandonar o relacional. A impessoalidade da lei que concretiza os interesses da coletividade é para os outros e, com certeza, para os inimigos.

A intrusão do familístico (a tal fulanização de um saudoso FH) no mundo público é uma forma de prêmio ou vingança. Nosso estilo político trata tal intrusão como dimensão legítima da “política” que, hoje (graças à revolução digital) promove impasse, ineficiência e atraso. Antigamente desvios “saíam no jornal”, hoje pipocam nos iPhones, destruindo segredos particularistas. Tal novidade demanda uma indesejável sinceridade, esse traço avesso a nossa concepção da esfera “política”. Para nós, ser político é ser Pedro Malasartes, como digo em meu velho livro “Carnavais, malandros e heróis”.

O favor do apadrinhamento confirma o axioma de Oliveira Vianna, segundo o qual temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo. Somos universalistas e igualitários no papel que afirma — a lei vale para todos! — e somos particularistas nas solidariedades que devemos aos familiares e amigos. Governamos o Estado que é da “rua” — e seria de todos — se relativizássemos nossas simpatias.

Se você duvida, leia este jornal!

O ataque trumpista às liberdades de pensamento e expressão

Ainda que seja impotente e sempre perdedora quando colide frontalmente com o poder, a verdade possui uma força que lhe é própria: seja o que possa afirmar e alardear quem detém esse poder, ele sempre será incapaz de descobrir um substituto viável para ela, dizia Hannah Arendt na década de 1950 em um ensaio sobre a verdade e a política escrito. A história revela que a manipulação de informações factuais, a persuasão e a violência podem até destruir a verdade. No entanto, jamais conseguirão substitui-la, concluía.

Quase duas décadas depois, quando o presidente republicano Richard Nixon se envolveu em uma política agressiva e aventureira contra seus adversários democratas e tentou ocultar abusos que o levariam a renunciar ao cargo, Arendt voltaria ao tema. Em seu ensaio sobre a mentira na política, escrito a partir do vazamento de documentos o Pentágono que mostravam como o governo Nixon se preocupava mais com medidas eleiçoeiras do que com o interesse público e o bem seja comum, ela lembrou a Primeira Emenda da Constituição americana de 1787. Esse é o dispositivo que garante a liberdade de expressão, de imprensa e de reunião pacífica e proíbe o estabelecimento de uma religião oficial ou a limitação do exercício de outras religiões.

Quando são efetivas, essas liberdades norteiam as dimensões públicas da vida social. Elas asseguram direitos básicos a todos os cidadãos, abrindo desse modo caminho para que cada pessoa possa usufruir sua cidadania ao máximo. Ao avaliar se a Primeira Emenda da Constituição americana seria suficiente para proteger o direito às informações não manipuladas dos fatos, Arendt afirmou que, sem ela, a liberdade de opinião não passaria de uma “farsa cruel” ou indiciosa.

Com o retorno do republicano Donald Trump à Casa Branca, sua aversão ao pluralismo, seu desprezo a direitos fundamentais e suas pressões sobre reitores começaram a invadir as universidades americanas, em cujo âmbito a liberdade de opinião e o livre debate sempre estiveram na essência de sua legitimidade e de seu papel na formação das novas gerações. Ou seja, o que Hannah Arendt chamou de “farsa cruel” está de volta novamente.

Uma prova disso foi um ofício enviado por um procurador trumpista ao reitor da Georgetown Law School. Criada há 236 anos por padres jesuítas, ela se destaca pela ênfase, em seus cursos, à diversidade, à equidade e à inclusão. Em seu ofício, o procurador disse que esses princípios são inaceitáveis pelo governo Trump e fez duas ameaças. Em primeiro lugar, se a instituição não abandonasse esses princípios, seus formandos seriam proibidos de trabalhar na administração federal. Em segundo lugar, os funcionários públicos federais que nela se graduaram também seriam demitidos, o que já começou a ocorrer.

Dias depois, a ofensiva trumpista contra a liberdade acadêmica e as mentiras invocadas para justificá-la, por um lado, e para tentar a discricionaridade do Executivo em detrimento das prerrogativas dos demais poderes, por outro, aumentaram. Parte do financiamento às pesquisas científicas no campo da medicina foi simplesmente cortada. Verbas de subsídio no valor de US 420 milhões para a Columbia University deixaram de ser transferidas até que ela reformulasse seus programas com base nos valores trumpistas, o que acabou acontecendo, comprometendo assim a imagem da instituição. A University of Pennsylvania e a Johns Hopkins University foram afrontadas. Professores americanos com descendência libanesa e árabe que foram participar de seminários acadêmicos em outros países foram detidos ao retornar e deportados – uma decisão tomada sem qualquer base constitucional. Magistrados de diferentes instâncias judiciais que acolheram recursos judiciais contra as ilegalidades do governo Trump foram por ele classificados como “corruptos”, “ativistas” e “marxistas radicais”. E escritórios de advocacia contratados por adversários ou por simples intelectuais críticos do trumpismo foram ameaçados pelo governo, o que os levou a perder grandes clientes corporativos.

Argumentos como esses, formulados com o objetivo de desafiar ordens judiciais e testar limites constitucionais cada vez que suas decisões são barradas pelos tribunais, mostram o que ocorre quando o poder político entra em guerra com a verdade em todas suas formas, como dizia Arendt nos ensaios acima mencionados. Contudo, mesmo que cada geração tenha o direito de forjar e afirmar sua própria história, em hipótese alguma pode-se admitir que ela tenha o direito de rearranjar fatos de acordo com sua própria perspectiva.

Uma coisa é discutir opiniões inoportunas, rejeitá-las, chegar a um compromisso acerca delas. É compreender o quanto pesquisas acadêmicas e liberdade de pensamento propiciam a conscientização de uma condição social, de um lado, e entender como o trabalho científico se converte em parte realidade como pensamento e prática, de outro lado. Outra coisa é construir narrativas com base em mentiras, sejam elas ardilosas. A marca distintiva da verdade factual consiste em que seu contrário não é o erro ou a ilusão. É, isto sim, a falsidade deliberada, a manipulação de fatos e opiniões – ou seja, a mentira, lembrava Arendt.

Que Trump sempre foi um embusteiro que construiu tanto sua fama com base no fato de que mentiras públicas são mais plausíveis do que a verdade, isso é sabido há muito tempo. Agora, o problema é saber o quanto de estragos ele fará, desafiando o Judiciário, enfraquecendo o império da lei e corroendo a democracia por meio das ameaças, intimidações e mentiras a que vem recorrendo com o objetivo de investir contra as liberdade de pensamento e de expressão que estão essência da vida acadêmica.

A produção sem censura de conhecimento é a função precípua da Universidade enquanto locus autônomo de poder econômico e político; enquanto espaço de liberdade de criação e de pensamento independente e aberto ao diálogo. Conhecimento não é apenas sinônimo de prestígio e autoridade. É, também, instrumento de poder acadêmico e institucional, ora reproduzindo um padrão de organização econômica, ora criticando suas estruturas para tentar torná-las mais justas. Como poder, o conhecimento está na essência das revoluções paradigmáticas da ciência. No campo social, é instrumento para mobilizações e protestos. No campo político, é instrumento para o questionamento contínuo da ordem estabelecida.

Na dinâmica da produção do conhecimento, as heterodoxias muitas vezes são mais importantes do que as ortodoxias na vida acadêmica. Elas viabilizam o avanço do conhecimento ao propiciar críticas às teorias prevalecentes, identificando suas contradições com relação aos fenômenos que pretendem compreender. Ao questionar o senso comum teórico que assegura a reprodução dos valores dominantes e ao modificar procedimentos convencionais de pesquisa, as heterodoxias também ajudam a abreviar os períodos de pobreza científica.

Contudo, elas têm seu preço. No passado, os Estados Unidos tiveram a caça às bruxas promovidas pelo macartismo. Agora, no âmbito da intolerância, do obscurantismo e da imoralidade trumpistas, esse preço implica o desprezo à tentativa de exercitar uma imaginação criadora capaz de habilitar os americanos a decifrar o sentido dos acontecimentos e a pensar o futuro como história. Ao investir contra instituições acadêmicas de ponta que formam as elites intelectuais, produzem ideias, geram inovações e desenvolvem pesquisas que alargam as fronteiras da ciência, sob o pretexto de que elas constituem um locus de reprodução de conhecimentos adversos e de propagação ideológica, o trumpismo – e sua versão borrada entre nós, o bolsonarista – não são apenas toscos e cruéis. Pecam, também, pela ausência de escrúpulos e pela sordidez moral.

Também somos natureza

Se a natureza não estiver próspera, as pessoas como espécie vão ter mais problemas físicos, mentais e emocionais. Em termos de alimentação, é a mesma coisa, tal como economia. Sem natureza, não temos todas as coisas de que as pessoas gostam e que querem consumir, ou seja, falta fazer a ligação com a espécie humana. Demonstrar que nós também somos natureza. 
Ângela Morgado, diretora-executiva da WWF Portugal

Confissões de um iluminista céptico

Eu sou um iluminista céptico, umas vezes mais iluminista, muitas mais vezes mais céptico. O que é que isto significa? Significa que, em matéria de saber se os homens nascem bons ou maus, se sou mais do lado de Hobbes ou de Rousseau, sou mais do lado de Hobbes – ou seja, nascem maus. Na verdade, nascem animais, ou seja, feitos para se comerem uns aos outros, prática que, sob múltiplas formas, explica o egoísmo, a ganância, o desprezo pelos mais fracos, o espezinhar os que não têm defesa, a indiferença face à pobreza e a miséria, a violência e a aceitação reverente do poder porque é poder, o medo. Ou seja, o “homem é de facto o lobo do homem”.

Parte-se a frágil película daquilo a que chamamos “civilização”, “democracia”, “solidariedade”, respeito pelos outros, o shakespeariano “milk of human kindness” e aí vem o animal, com os dentes de fora, ou o rebanho, ou a alcateia. Aqui é que entra o iluminista, a ideia de que o único antídoto para esta animalidade é aquilo a que chamamos “cultura” no sentido mais lato do termo, ou seja, a tentativa na sociedade de criar uma mediação para a violência da animalidade natural, ou seja, a única possibilidade de encontrar em sociedade o modo de materializar os contravalores da violência, o equilíbrio, a educação, o conhecimento, o bem-estar social, para a felicidade terrestre, mas também dos valores da resistência, da revolta contra a injustiça, da equidade e da paz.

Nesta perplexidade contraditória, penso que Hobbes ganha sempre a longo prazo, mas Rousseau dá-nos momentos frágeis em que a humanidade, quase sempre parte da humanidade, pode atravessar o seu período de vida melhor do que no passado. Na minha vida já conheci alguns desses momentos, a paz europeia desde 1945 até ao início do conflito jugoslavo, a melhoria das condições de vida em quase todo o mundo, melhor medicina, maior conhecimento do Universo, a ida à Lua, a queda do Muro de Berlim, o 25 de Abril, a democracia em Portugal, a diminuição de algumas violências históricas: a tortura, a pena de morte, a violência contra as mulheres, etc. Repare-se que escrevi “diminuição”.



Em 2025, tudo isto está a desabar, e Hobbes a ganhar. Personagens como Trump, Musk, Milei, Orbán, Erdogan, Putin, Bibi são os homens do momento, os que estão com a “seta da história”. Ao lado deles, a senhora Le Pen é uma figurinha. Os EUA mudaram de campo e a sua democracia está a desaparecer, a mentira tornou-se tão comum que a verdade está no exílio. Nas guerras injustas, como a da Ucrânia invadida pela Rússia, o nome orwelliano da rendição imposta pela traição e pela força é “paz”. Na Palestina, assiste-se quase sem comoção a todas as violências e crueldades, enredados em frágeis acusações de antissemitismo para matar habitualmente velhos, mulheres e crianças e, de vez em quando, um terrorista do Hamas. A democracia está a erodir-se por dentro entre deslumbramentos tecnológicos e lucros mais amorais do que é habitual. Todas as mediações tradicionais que funcionavam ao lado das democracias, família, igreja, partidos, sindicatos, mídia de referência, saber científico, primado da lei, estão a ser substituídas pela selvajaria das redes sociais, pela desinformação e pelo espelho do mal, muito mais poderoso do que o bem. As novas gerações têm como modelo os brutos e as bonequinhas com batom aos saltos no Tik-Tok.

Nada disto é novo na história, e sempre deu aos milhões de homens e mulheres que viveram nesses tempos uma vida miserável, dura e cruel. É possível resistir? Claro que é, mas com mais coragem, determinação, astúcia e intransigência. E aceitar viver com mais riscos, mais dificuldades, mais sacrifício pessoal e colectivo, e acima de tudo sem saber se se vai ganhar. Até porque, nunca como hoje, apesar da cloaca das redes, é mais importante o método de influência dos anarquistas nas aldeias da Estremadura e Andaluzia: a propaganda pelo exemplo.

As Luzes iluminam, mas não garantem nada e é sempre mais difícil resistir sem ter qualquer garantia de se poder travar a Besta que somos nós. A mediação da “cultura”, no sentido lato de uma visão da vida e do mundo que canalize os conflitos para a lei e as instituições, que eduque para se conhecer e defender direitos, que mobilize para a solidariedade e não para o egoísmo, que produza leis e práticas que protejam os mais fracos, com a sanção dos abusos dos mais fortes, que perceba a força e a necessidade de igualdade, tudo isto é o caminho. O problema principal é que tudo isto é artificial, feito pelos homens e mulheres, contra o que é natural, a brutalidade.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


As tarifas de Trump vão prejudicar o mundo

Agora sabemos qual economia é a maior ameaça aos Estados Unidos depois da China: Lesoto. Atualmente, a China tem uma tarifa combinada de 54% sob o novo plano de Donald Trump. Mas, aparentemente, Lesoto merece uma tarifa "recíproca" de 50% sobre suas exportações para os EUA, logo à frente dos 49% sobre o Camboja e 46% sobre o Vietnã, seguidos por 32% sobre a Indonésia e Taiwan, 26% sobre a Índia e 20% sobre a UE. O Reino Unido escapa com 10%.

O que talvez seja mais extraordinário sobre a derrubada de quase um século de política comercial é que ninguém, aparentemente, informou ao presidente que um procedimento que coloca Lesoto no degrau mais alto faria os EUA parecerem ridículos. Mas fez —e fez isso porque esse procedimento era ridículo.


Não houve uma análise sutil de todas aquelas supostas barreiras tarifárias e não tarifárias das quais, diz Peter Navarro, ecoando seu chefe, os EUA explorados têm sofrido tão terrivelmente. Não, foi muito mais simples e estúpido. As tarifas propostas são proporcionais ao déficit comercial bilateral dividido pelas importações bilaterais.

A suposição implícita é que, em um mundo justo, o comércio se equilibraria com cada parceiro individual. Isso é uma completa loucura. No entanto, agora se tornou a base intelectual da política comercial do país mais poderoso do mundo —infelizmente, pobre coitado, aparentemente vítima de uma conspiração comercial global.

Não é apenas loucura. É perversidade. Pense na história do envolvimento dos EUA no Vietnã. No entanto, agora, os EUA decidiram tentar interromper seu desenvolvimento econômico. O Vietnã não está sozinho em buscar explorar os benefícios da abertura. De fato, a política comercial convergiu para o liberalismo nas economias emergentes de forma bastante ampla. Eles estavam respondendo a uma promessa que os EUA agora retiraram.

Isso não é nem mesmo todo o trabalho de Trump. Canadá e México ainda são vítimas de suas "tarifas de fentanil". Há uma tarifa de 25% sobre automóveis e as tarifas sobre aço e alumínio também foram aumentadas.

No entanto, as tarifas não fecharão os déficits comerciais. Nos anos 1970, trabalhei na economia indiana, então uma das economias mais protegidas do mundo. Ela tinha grandes superávits comerciais? Não. Sim, tinha uma proporção pequena de importações em relação ao PIB. Mas tinha uma renda ainda menor de exportações. Isso se devia ao impacto adverso da proteção na competitividade das exportações.

Isso agora acontecerá com os EUA: as importações encolherão, mas as exportações também. Os déficits, determinados pela renda e pelo gasto, permanecerão praticamente inalterados. O mundo apenas acabará mais pobre. Como argumenta o Instituto Kiel da Alemanha, os maiores efeitos negativos provavelmente recairão sobre os EUA: a proteção geralmente é um tiro no próprio pé.

As pessoas que fundaram o sistema de comércio global nas décadas de 1930 e 1940 experimentaram os resultados do protecionismo empobrecedor nas décadas de 1920 e 1930. O sistema que criaram foi baseado, por boas razões, nos princípios de não discriminação, liberalização através de negociações recíprocas, vinculação de tarifas e adjudicação imparcial de qualquer uso das cláusulas de escape no sistema.

Tudo isso foi projetado para criar um regime comercial previsível, transparente e liberal. Ao longo de oito rodadas de negociações concluídas, o resultado se tornou uma economia mundial aberta e dinâmica. Isso foi um produto da diplomacia dos EUA. Trump não apenas trouxe a proteção dos EUA a níveis não vistos em um século, mas destruiu tudo o que seus predecessores buscaram alcançar. Isso é um ato de guerra contra o mundo inteiro.

O debate sobre se devemos levar Trump a sério acabou. Ele agora aprendeu a ser o tirano que sempre desejou ser. Isso levou um tempo. Mas, com a ajuda que recebeu, ele chegou lá. Sua administração está engajada em um ataque abrangente à república americana e à ordem global que ela criou. Sob ataque doméstico estão o Estado, o Estado de direito, o papel do Legislativo, o papel dos tribunais, o compromisso com a ciência e a independência das universidades.

Todos esses eram os pilares sobre os quais a liberdade e a prosperidade dos EUA repousavam. Agora, ele está destruindo a ordem internacional liberal. Em breve, presumo, Trump estará invadindo países, enquanto prossegue para restaurar a era dos impérios.

A aplicação de todas essas tarifas é um símbolo perfeito do que Trump representa. Ele apelou para uma "emergência" inexistente, permitida por um Legislativo tolo, para impor um aumento de impostos altamente regressivo que pesará particularmente sobre sua própria base política, em parte para financiar uma extensão que estoura o orçamento de seu próprio corte de impostos altamente regressivo de 2017.

Parece inevitável que essas tarifas, além da incerteza criada pelo novo ambiente político não ancorado e, portanto, imprevisível, prejudicarão o mundo e os EUA tanto agora quanto a longo prazo. Nossas economias estão muito mais abertas do que nunca.

Aumentos enormes e repentinos na proteção terão efeitos econômicos correspondentes maiores do que antes. Os mercados de ações estão certamente certos ao supor que uma boa parte do estoque de capital produtivo de hoje se tornará sucata: a contínua turbulência do mercado é provável.

Isso oferece um tipo perverso de esperança. A tentativa de Trump e seus associados de minar a república levaria tempo. Agora é mais provável que ele fique sem tempo. Imagine que, como resultado de toda essa turbulência, a economia realmente vacile e, assim, os republicanos sejam derrotados nas eleições de meio de mandato. Isso tornaria o projeto Maga muito mais difícil de realizar. Quem sabe? As instituições dos EUA podem começar a mostrar um pouco de coragem. Acima de tudo, a próxima eleição presidencial pode realmente ser justa.

Enquanto Maga dominar a direita americana, o potencial dos EUA para um comportamento imprevisível, irracional e pernicioso permanecerá. Isso é, infelizmente, um grande presente para a China. Mas quanto pior ficar agora, mais provável é que Maga seja um interlúdio, não o destino da América. Isso é um consolo e uma esperança.

Conflitos globais estimulam o garimpo na América Latina

Com o aumento das incertezas econômicas pela guerra entre Israel e Hamas, um velho conhecido voltou a aparecer como investimento seguro: o ouro. Justamente quando o metal vinha de uma queda nos preços, o conflito deu novo impulso às cotações, que subiram cerca de 10% desde os ataques de 7 de outubro. Os reflexos desta alta ultrapassam o setor financeiro e chegam até garimpos da América Latina.

Além das chamadas compras físicas, que vão de barras de ouro a joias, muitos investidores buscam os chamados ETFs, ou fundos de índices, que replicam as movimentações do metal no mercado internacional. A principal cotação nos mercados é a da chamada onça-troy na New York Mercantile Exchange (NYMEX), onde o ouro é negociado em dólares. Nos últimos dias, o metal vem rondando os 2.000 dólares (R$ 9.746) por onça-troy, um valor próximo de seu recorde histórico.

Até 2019, o ouro vinha sendo cotado próximo de 1.300 dólares. A chegada da pandemia, porém, impulsionou os preços. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o metal teve outro estímulo, em parte devido ao aumento da procura pela commodity por bancos centrais. Após as sanções contra Moscou, o ouro passou a ser visto como mais seguro por muitos governos, o que estimulou a demanda pelas autoridades monetárias, que, no primeiro semestre de 2023, foi a maior já registrada.

"A compra pelos bancos centrais é um elemento que tem apoiado os preços do ouro. Vemos isso principalmente como uma declaração política a Washington, sinalizando desconforto com a política internacional dos EUA", afirma Carsten Menke, líder de pesquisa do banco Julius Baer.

"O gatilho mais importante foi o congelamento dos ativos russos, levando os países que não estão alinhados com o Ocidente a diversificar algumas das suas reservas monetárias em ouro", afirma o analista. China e Turquia estão entre os grandes compradores recentes, por exemplo. "Esperamos que as aquisições de ouro pelos bancos centrais permaneçam fortes no futuro próximo, apoiando os preços", projeta.

Já o aumento do preço do ouro desde os ataques do Hamas foi, acima de tudo, impulsionado por uma mudança de humor entre os comerciantes especulativos, avalia Menke. Em sua visão, o aumento nos preços do metal, maior do que em conflitos anteriores, ocorre também por um pessimismo geral com a economia global antes dos ataques.

Para Carsten Fritsch, analista de commodities do Commerzbank, é "evidente que o ouro está lucrando com o seu papel de porto seguro em tempos de maior incerteza e aversão ao risco".

A relação entre a alta nos preços do metal e o avanço do garimpo na América Latina já foi citada por um relatório da Interpol, em 2022. "Há uma relação direta entre o aumento do ouro nos mercados globais e o preço dos mercados locais, ainda que de maneira ilegal", reforça Daniel Bonilla Calle, professor de negócios internacionais da Fundação Universitário CEIPA, acrescentando que os preços da mineração ilegal se comportam e têm o mesmo movimento da exploração legal.

"Quando há picos internacionais, se produz o que se chama de bonanças de ouro nos mercados locais. Isso atrai mineradores ilegais e grupos armados, além de outros atores que queiram entrar na atividade", resume Bonilla.

O especialista destaca que um dos motivos que movimenta o mercado ilegal é o valor entre 20% e 30% mais barato do ouro desta origem. No Brasil, estimativas são de que cerca de metade do metal exportado pelo país tenha origem ilegal. Na Colômbia, os cálculos são de que 80% dos envios de ouro ao exterior não tenham origem legal.

"Há uma cadeia complexa, e muitas vezes os compradores finais não têm uma visão de 100% de onde o material veio", afirma Livia Wagner, chefe de governança da Global Initiative, organização civil que estuda o crime organizado internacional. De acordo com a especialista, o metal no exterior é buscado não apenas na joalheria, mas também para a produção de equipamentos eletrônicos.

Um consenso entre especialistas é o de que a maior lucratividade do garimpo atraiu o crime organizado para a atividade, especialmente na Amazônia. Os criminosos buscam, principalmente, lavar dinheiro com a mineração ilegal, e o avanço da violência é um resultado.

"A valorização expressiva do ouro nos últimos anos teve um impacto significativo nas áreas de garimpo na Amazônia. Entre as diversas consequências, a alta resultou em um aumento nos investimentos em maquinários, como balsas e escavadeiras hidráulicas", afirma Bruno Manzollli, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que monitora o tema. Ele aponta que tais equipamentos, que podem custar mais de R$ 1 milhão, aceleram o processo de desmatamento e de retirada do material do solo.

"Assim, novas frentes de lavra são abertas com maior rapidez, a partir de práticas predatórias, sem controle ambiental. Outro fator relevante é que a partir do momento que o preço do ouro sobe, depósitos que até então não apresentavam viabilidade econômica passam a ser explorados", afirma Manzolli. Além do desmatamento, o uso do mercúrio é outro problema observado.

Em alguns casos, a atração da atividade fez com que criminosos deixassem de lado outros negócios. Segundo Bonilla, o ouro compete com o cultivo da coca, base para a cocaína, e, em algumas regiões, os mesmos grupos podem comandar ambas as atividades. Assim, pessoas migram de um mercado para outro que "paga melhor", afirma. Com uma baixa nos preços internacionais da coca, há registros na Colômbia de cultivos abandonados e sem mão de obra.
Melhor fonte de renda e soluções

"Comunidades empobrecidas veem o garimpo como uma oportunidade mais fácil para gerar renda", afirma Wagner. Segundo Manzollli, mesmo sendo abordados pela fiscalização, seja ela ambiental ou trabalhista, é comum o garimpeiro desejar voltar para a atividade, devido à falta de oportunidades na cidade ou à melhor remuneração em comparação ao salário recebido em alguns empregos na área urbana.

Para ele, no Brasil, a legislação deve ser atualizada para a nova realidade do garimpo, exigindo planos que contemplem desde a fase anterior à exploração até o fechamento das minas e plano de recuperação da área. "E os garimpeiros não podem ser deixados de lado, é preciso um plano de capacitação para que essas pessoas encontrem oportunidades em outras atividades econômicas, a fim de reduzir a dependência do garimpo", afirma.

Duas mudanças recentes endureceram as regras para o garimpo. Em junho, o plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu uma norma que presumia a legalidade do ouro adquirido e a boa-fé da empresa que comprava o metal. No mesmo mês, o governo enviou ao Congresso propondo um novo marco legal para o mercado de ouro no país. Em julho, entrou em vigor uma instrução normativa da Receita que passou a exigir a emissão de nota fiscal eletrônica para negócios que envolvam ouro como ativo financeiro ou como instrumento cambial.

Outro meio que pode ser buscado é a ampliação da certificação de legalidade internacional do ouro. Segundo Wagner, há casos de sucesso da medida, incluindo a Colômbia. "É importante buscar fazer isso em menor escala, não somente nos comerciantes finais. É necessário que todos os passos da cadeia de fornecimento sejam verificados", afirma.
Matheus Gouvea de Andrade

Receita de homem novo


(Os sábios que me perdoem, mas a piedade é essencial)

Com um pouco de Freud
Envolto em celuloide
Um tanto de marxismo
Embrulhado em jornalismo
Bastante violência
Alguma inteligência
Desprezo da verdade
E alma bem fria
Se faz a humanidade
Do robô da ideologia.
Millôr Fernandes

Tarifaço de Trump é sintoma do vigarista com paranoia de ser otário

Dizer, como tenho feito repetidamente nesta coluna, que não há nenhuma estratégia sofisticada por trás das ações de Donald Trump não é o mesmo que dizer que tudo é burrice e ignorância. Também não é o mesmo que dizer que as suas ações primam pela irracionalidade, o que no fundo seria pressupor que elas fossem meramente táticas, como defendem aqueles que acreditam que as tarifas de Trump são absurdas a não ser como tática negocial.

Nada disso. A minha tese é a seguinte: existe uma lógica simples que explica as ações de Trump. Essa lógica é a do vigarista com medo de ser otário.

Para quem é vigarista, como Trump tem demonstrado ser em toda a sua carreira desde que começou por não pagar a fornecedores e a tentar despejar inquilinos nos seus tempos de magnata do mercado imobiliário, todo o mundo é otário.

No início, o vigarista está embevecido com o superpoder que descobriu em si mesmo. Se não seguir as regras comuns da honestidade e do respeito mútuo, se não tiver vergonha na cara, se estiver disposto a tirar vantagem de todas as relações, o mundo é seu. Como qualquer psicopata, o vigarista não ganha apenas pela sua capacidade de violar limites; ele ganha pela nossa boa educação, pelos nossos escrúpulos, ou seja, pela nossa incapacidade de violar esses mesmos limites.

Com o tempo, porém, o vigarista começa forçosamente a questionar-se: "se eu ganho fazendo assim, por que é que os outros não fazem o mesmo a mim?" Aí o mundo do vigarista começa a distinguir entre duas categorias de pessoas: os otários e os que poderiam ser vigaristas como ele.

Como é natural nestes casos, o vigarista fica obcecado pela projeção. Medindo os outros com sua própria régua, ele desenvolve a paranoia de que em todas as transações só há dois resultados possíveis: ou ele ganha, vigarizando com sucesso os outros; ou, se não ganha, isso é sinal de que foi vigarizado pelos outros. Na sua mente não cabem os jogos que não sejam de soma nula. Se alguém está a ganhar, é porque ele está a perder.

Esta lógica simples explica-nos a visão que Trump tem do comércio global. Para ele, o mero fato de que um país tenha com os Estados Unidos uma balança comercial positiva é uma injustiça. Pior, é sinal de que alguém tirou vantagem dos Estados Unidos e os vigarizou. Para Trump também só há dois tipos de jogos: aqueles em que ele ganha e aqueles em que os outros jogaram sujo.

De caminho, esta explicação ajuda a entender a fórmula que o governo Trump utilizou para definir as suas "tarifas adicionais". Como vários especialistas apontaram, elas não fazem qualquer sentido macroeconômico. Mas fazem todo o sentido psicológico para a mente do vigarista que ficou obcecado com ser otário.

Se eu estiver certo, há uma conclusão inquietante a retirar de tudo isso: é que não vale a pena negociar com Trump. Nada o convencerá a reintroduzir justiça num jogo cujas regras ele não aceita, a não ser que a vitória lhe seja dada à partida. A única saída é os países que ainda reconhecem as regras do jogo reforçarem os laços comerciais entre si, deixando a birra de Trump passar sozinha.

Elon Musk: O reformador radical à beira do colapso?

Elon Musk – bilionário, showman e conselheiro governamental – estaria prestes a deixar o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado por Donald Trump , segundo a mídia dos EUA. Trump teria sugerido sua retirada em uma reunião de gabinete, afirmando que Musk desempenharia apenas um "papel de apoio" de agora em diante. No entanto, a Casa Branca está minimizando: nenhuma decisão foi tomada oficialmente. Musk, por sua vez, fala em "notícias falsas".

O que está claro é que o papel de Musk foi limitado desde o início: como um “Funcionário Especial do Governo ” , ele só pode trabalhar no máximo 130 dias por ano para o governo sem estar sujeito a regras éticas mais rígidas ou obrigações de transparência (como divulgação detalhada de ativos e renda), desde que tenha uma isenção prévia.


Até o momento, não há registro público de que tal isenção tenha sido concedida. Esse limite será atingido, no máximo, no início de junho. Portanto, sua saída oficial do DOGE parece ser apenas uma questão de tempo, principalmente porque, segundo pesquisas, Musk está se tornando uma figura cada vez mais controversa entre a população americana. A maioria já rejeita seu curso de reformas radicais.

Musk não era apenas um conselheiro, mas quase o "homem sombra" do presidente americano. Poucas pessoas na comitiva de Trump eram tão visíveis, tão influentes e tão presentes. Seja no Salão Oval, em visitas de Estado ou jogando golfe nos fins de semana, Musk estava sempre lá.

Trump até mesmo apresentou novos modelos da Tesla no gramado da Casa Branca como um incentivo às relações públicas da empresa em dificuldades.

Mas, por trás dos bastidores da camaradagem, há tensões. Vozes críticas dentro do Partido Republicano têm aumentado. O secretário de Estado Marco Rubio e o ex-assessor Steve Bannon acusam Musk de ter um estilo egocêntrico e exposição excessiva. No entanto, Sascha Lohmann, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), em Berlim, não acredita em uma divergência entre Trump e Musk:

"Trump às vezes criticou Musk por certos comportamentos e o instou a agir com mais cautela. Mas, fundamentalmente, na ideia de desmantelar o aparato administrativo por meios radicais, mesmo além dos limites constitucionais, eles sempre concordaram."

DOGE foi a resposta de Trump à sua promessa de campanha de "drenar o pântano de Washington". Em Musk, ele ganhou um aliado cuja abordagem empresarial prometia reformas abrangentes. Em pouco tempo, Musk implementou medidas de longo alcance: mais de 20.000 empregos foram eliminados em agências federais, e outros 75.000 funcionários receberam pacotes de indenização voluntária. Fusões estruturais, como a dos Correios dos EUA com o Departamento de Comércio, estão em andamento.

O exemplo mais espetacular até agora: a eliminação da USAID, a agência estatal de ajuda internacional ao desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, processos administrativos importantes foram digitalizados. Um projeto histórico, porém controverso, foi a digitalização dos registros de pensão da Pensilvânia e das folhas de pagamento de mais de 270.000 funcionários federais. O DOGE afirma ter gerado economias de mais de US$ 100 bilhões. No entanto, auditorias independentes ainda não foram realizadas, e alguns meios de comunicação já revelaram inconsistências nos números oficiais.

"O procedimento foi eficiente e rápido, mas também arriscado, pois os mecanismos tradicionais de controle foram sistematicamente contornados", alerta o especialista norte-americano Lohmann.

Donald Trump reiterou que o DOGE continuará existindo sem Musk. Ao mesmo tempo, ele minimizou um pouco a importância do empreendedor, ressaltando que, no final, são as agências as responsáveis ​​por alcançar as economias.

O que Musk planeja após sua possível aposentadoria permanece incerto. Ele provavelmente voltará a se concentrar mais em seus negócios. No entanto, não está descartado que ele continue sua carreira política.

Donald Trump e o seu populismo tarifário com cara de antigo faroeste

Não sou capaz de opinar sobre a racionalidade econômica por trás da guerra tarifária em que Trump empenhou seu governo nos últimos dias. Deixo a dor de cabeça para quem entende de comércio internacional. Mas gostaria de examinar essa confusão do ponto de vista da política ou, mais precisamente, da comunicação política. Mesmo porque tenho a impressão de que Trump entende tanto quanto eu sobre comércio e tarifas —e é na arena das narrativas e dos imaginários que está, de fato, jogando o seu jogo.


E se tudo parece desconcertante sob a ótica econômica, talvez no campo da comunicação política as coisas se esclareçam. Trump é um populista de direita, é essa a sua persona pública —e ele ainda não saiu do personagem. O contrato que o populista estabelece com seus seguidores é simples: ele é o campeão do povo contra a exploração e a traição das elites.

O povo, neste caso, é a nação em seus estratos mais profundos: o americano médio, trabalhador e empobrecido por ser vítima, ao mesmo tempo, de um Estado que mete a mão no seu bolso e do globalismo que se aproveita do país. O populismo opera com uma equação sem variações: há um povo bom, uma elite exploradora e um líder vinculado organicamente ao povo, que busca o poder para reparar essa injustiça.

Por isso, Trump estrutura sua retórica sobre três pilares centrais: o vitimismo (nacionalista), a exigência de compensações e, agora com nitidez, a punição exemplar dos culpados. O primeiro inverte os papéis: os EUA, vistos como potência imperial, aparecem como nação humilhada por seus aliados e adversários. O segundo transforma a reparação em questão de justiça histórica. E o terceiro —o mais brutal e eficaz— promete fazer os exploradores sofrerem.

Esse tripé retórico esteve escancarado no discurso do chamado Liberation Day, na semana passada. Trump declarou que "por décadas, nosso país foi saqueado, pilhado, estuprado e explorado" e que "trabalhadores americanos assistiram, impotentes, à destruição do sonho americano enquanto líderes estrangeiros roubavam seus empregos e fábricas". O mais absoluto vitimismo: a nação como vítima passiva da pilhagem mundial, enquanto uma elite nacional cúmplice a tudo assistia.

A resposta vem sob a forma de uma vingança organizada e institucional. "Este é o Dia da Libertação", declarou Trump, com pompa e vaidade. "É a nossa declaração de independência econômica." E, com isso, anunciou tarifas punitivas sobre automóveis estrangeiros e novas exigências para países que desejem acesso ao mercado americano: "Se quiser tarifa zero, construa aqui".

Aqui entra a lógica da compensação —mas com um detalhe central: essas tarifas não são apenas uma medida econômica, são castigo. Um mecanismo de correção simbólica que faz os supostos culpados —os países que "nos exploraram"— sentirem na pele o peso da justiça retributiva.

As tarifas, nesse registro, pouco têm a ver com racionalidade econômica. Podem ser um absurdo técnico —e os analistas de mercado quase unânimes as tratam como tal—, mas fazem sentido no campo da retórica política. Para Trump, elas são o chicote que desce no lombo dos que "por muito tempo se aproveitaram de nós", um prazer punitivo que o povo americano merece ver e saborear. Afinal, o que importa é o espetáculo da restituição, da revanche e da punição dos que "nos humilharam". "Eles vão pagar um preço alto", prometeu. "E, pela primeira vez em muito tempo, o povo americano vai vencer."

Essa retórica —que ora se vitimiza, ora agride— alterna dois modos populistas clássicos. No modo vitimista, Trump apresenta o povo americano como explorado por uma elite global e traído por suas próprias lideranças políticas e culturais. No modo valentão, encarna o macho alfa que chegou para limpar a cidade: o novo xerife do Velho Oeste do comércio internacional, disposto a restaurar a decência nem que seja à base de balas e murros.

Trump talvez não entenda nada de comércio internacional. Mas entende tudo de ressentimento, espetáculo e gozo punitivo. E é nisso que aposta: na satisfação que a vingança política oferece aos que se sentem derrotados, empobrecidos e esquecidos por um sistema que, ao longo das décadas, os transformou em número, estatística e dano colateral.

No fundo, o que ele oferece não é uma política comercial. É o roteiro de um western moral: o povo foi roubado, o herói chegou e alguém vai pagar com sangue por cada lágrima derramada. Se vai dar certo, não sei, mas o enredo é esse.

Falta só combinar com a realidade.