sábado, 12 de abril de 2025

Balas de Prata

Anda tudo doido com a série. Dizem que é boa. Que é a chave de todos os mistérios e angústias da juventude contemporânea. A razão que explica o inexplicável. A bala de prata.

Eu não vi “Adolescência”. Não verei. Tenho horror a unanimidades. E, reparem: é preciso uma série de televisão para diagnosticar o óbvio? O problema não é subtil, esfíngico. Está à nossa frente, a berrar como um palhaço embriagado num coreto. Está nas mãos, nos bolsos, nos nossos olhos mortos: o telemóvel, esse milagre estúpido que há-de dar cabo de nós.

Outro dia, o João Miguel Tavares — homem inteligente — apresentou uma tese elegante no Público — mas errada. Segundo ele, depois da BD nos anos 50, da televisão nos anos 60, dos jogos de vídeo nos anos 80, os telemóveis são apenas o novo capítulo de um velho pânico. Mudam-se os tempos, mudam-se os brinquedos. A histeria é sempre a mesma. Talvez. Talvez à superfície.


Mas o próprio João Miguel, que desconfia de balas de prata, acaba por disparar a sua. Em cheio na testa. A tese de que tudo se repete é uma dessas soluções milagrosas que ele próprio condena. Mas não é assim. Há uma diferença gritante e melancólica: o telemóvel não é um brinquedo. É arma. É um amplificador de misérias. Especializámo-nos em descobrir o pior uso possível para seja o que for — e praticá-lo com esmero. Há paralelos? Há. Mas sempre piores. Neste caso, o telemóvel é uma nova categoria de alienação.

Somos todos crianças com um telefone na mão. É um mal muito democrático. Passamos uma hora a olhar para o vazio e juramos que é importante. Falar disto como se fosse problema exclusivo dos mais novos é um erro. Não é. Se um pai está a olhar para o telefone em vez de estar a fazer um desenho, o filho não vai querer desenhar.

O telemóvel esburaca-nos a existência. E por esses orifícios entram demónios que nem o mais degenerado de 1950 imaginaria. E nós, com um sorriso aparvalhado, partilhamos essa janela com os filhos. Como quem dá bagaço a um recém-nascido. Para depois escrevermos textos resignados, suspirando que é a vida, mais do mesmo, etc.

“Têm de aprender”, dizem. “O mundo é feito de computadores”, insistem. Mas basta um dedo gorduroso para deslizar pela infâmia rectangular. Qualquer avozinho semeia milho no Facebook. Qualquer analfabeto tem a perícia de uma lagartixa iluminada. Não é preciso licenciatura para isto. Há um abismo entre ciência computacional e ser capaz de mexer nas tábuas brilhantes que veneramos como sacrários.

Perdeu-se o instinto de defesa; perdeu-se a vergonha. O mal espalha-se e tratamo-lo com regulamentos de piscina municipal. Quantas escolas proibiram verdadeiramente o telemóvel? Uma? Duas? “Não se usa o telemóvel durante as aulas”, dizem — como se fosse aceitável trazer veneno no bolso, desde que não se beba à frente do professor.

Sei de colégios onde, durante o recreio, os campos estão sem ninguém. As árvores não têm crianças. As calças não se esfolam. Tempo bizarro: miúdos a rebentar foguetes ou a pôr sapos a fumar cigarros parecem agora uma esperança.

O buraco, o verdadeiro, é o vazio. O homem precisa de enchê-lo e tem horror ao silêncio, à vida sem estímulo. E o telemóvel é a máquina portátil de fabricar distracções — infinita, irrelevante, irredimível.

O velho Godard dizia que no cinema elevava-se a cabeça e com a televisão passámos a baixá-la. Pois agora só vemos a barriga. A queda não é figurada. A queda é física, mesmo.

O mais simples é dizer que os tempos agora são outros, que tem de ser e pronto. Mas cada acto de resignação é um acto colaborativo. Com um disparo. De uma bala de prata. Contra nós.

Explicar por que razão o telemóvel é mau não resolve nada. É como explicar porque é que a fome dói: quem tem fome já sabe.

Mas nem sempre sabe isto: ao contrário do que achamos, não escolhemos. Perante vinte impulsos, achamos que decidimos, — mas é o impulso que nos decide a nós. É o par de sapatos da montra que nos compra. A imagem que nos empurra. A pornografia que nos devora.

A única saída — e nisto a bala de prata do João Miguel aponta na direcção certa — é a de sempre.

O verdadeiro caminho da liberdade é desconfiar de si mesmo. Conter-se. Fechar os olhos.

Fechar os olhos. Só isso.

Feminismos contra o fascismo: de que lado você está?

Por que tão poucas mulheres participam dos cargos políticos? Por que as que ousam entrar nessa arena são violentadas, agredidas moralmente, têm suas vidas ameaçadas? O que e quem impede as mulheres de exercerem a plena cidadania consagrada na Constituição de 1988?

Para analisar essas questões, fui convidada a participar da 1ª Audiência Pública Mulheres e Cidadania, organizada pela Escola Judiciária Eleitoral do Tribunal Eleitoral da Bahia, cujo corajoso objetivo era diagnosticar a violência política de gênero e ampliar a participação política das mulheres. Foi a primeira vez que se propôs uma audiência publica por iniciativa de importantes autoridades da Escola Judiciária: os desembargadores Abelardo Paulo da Matta Neto e Moacyr Pitta Lima Filho, além de uma ativa equipe de profissionais – homens e mulheres. Destaco que, pela primeira vez ao longo de minha longa participação pública, presenciei um evento cujos proponentes – homens e desembargadores – permanecerem do começo ao fim, até a leitura da Carta de Salvador, apontando os problemas e soluções propostos pela audiência.

Mas façamos algumas reflexões sobre a presença/ausência das mulheres na formação sociopolítica brasileira recente.

Desde os primeiros dias do século 21 enfrentamos crises, golpes, notícias falsas, governos de tom liberal e outros que flertam com o fascismo. Esse cenário sintetiza a herança do passado recente, as consequências de duas guerras mundiais, o esfacelamento do comunismo e a diversificação do capitalismo. Herdamos mudanças nas relações sociais de gênero, pois as guerras forçaram as mulheres a ocupar atividades econômicas antes desempenhadas pelos homens deslocados para atividades bélicas, das quais, aliás, nunca se livraram. Findos os conflitos, independentemente de quem tivesse sido o vencedor, as mulheres foram obrigadas (mesmo que à revelia) a voltar para as atividades domésticas.


O retorno não foi pacífico, provocou mudanças estruturais e econômicas, estimulando a abertura de alternativas profissionais, educacionais e econômicas para as mulheres. Ampliou-se o trabalho extradomiciliar, elevou-se o nível educacional das mulheres, reduziu-se o número de filhos. Concomitantemente, as cidades cresceram de maneira desorganizada, elevou-se parcamente a profissionalização masculina e feminina, o mercado de trabalho não acompanhou o crescimento populacional.

As novas tecnologias, como a internet e a inteligência artificial, foram ocupadas por poucos, embora a criatividade da população tenha superado a carência educacional. Romperam-se as fronteiras nacionais. Se na linguagem dos economistas passamos da polarização para a globalização, do ponto de vista sociológico e empírico os papéis sociais – as relações sociais de gênero – perderam tradicionais padrões.

Confrontando a ditadura de 1964-1985, os movimentos feministas ocuparam as ruas (antecedendo o Occupy), denunciavam o feminicídio e a carência de instrumentos para enfrentar a violência contra a mulher e a menina. Na redemocratização, propostas da população resultaram em algumas soluções adotadas pelo Estado: os Conselhos da Condição Feminina, as Delegacias da Mulher, a Casa da Mulher Brasileira e o importantíssimo SOS telefônico. Essas medidas foram aprimoradas com treinamento de professoras nas escolas, na universidade, entre os funcionários da polícia (delegados, atendentes etc.), com médicos nos postos de saúde e uma clara atuação sobre os direitos reprodutivos para evitar mortes por abortos inadequados.

Foram muitos anos para desenvolver e implantar essas políticas. Mas bastou um governo obscurantista e retrógrado, desumano, autoritário, para destruir essas políticas. Ataques a gênero, aos grupos LGBT+, retorno a um essencialismo identitário (homem veste azul, mulheres rosa), retorno de uma divisão radical dos papéis sociais, diabolização dos transgênero, estimularam contradições nos valores e comportamentos alterando as relações entre os membros das famílias.

A herança patriarcal fragilizou-se, mas não se extingue: o patriarcado enraizado na sociedade brasileira resiste, embora mais de 50% das famílias sejam hoje sustentadas por mulheres. O poder continua com homens socializados em padrões conservadores e que circulam absurdamente armados. Em São Paulo, por exemplo, diminuíram os roubos nos últimos 10 anos, mas aumentaram estupros e assassinatos de mulheres. Entramos no século 21 com o aumento dos feminicídios.

O governador de São Paulo, estado economicamente mais avançado do País, adota uma política educacional profundamente autoritária: implanta escolas militarizadas, exclui do currículo escolar matérias que estimulem o senso crítico, substituindo-as pela ordem e obediência. Jovens crescem sem nenhum conhecimento sobre sexualidade, são induzidos a um tipo de patriarcado em que prospera a antiga noção de que a mulher é propriedade do homem, com quem ele pode fazer o que quiser: bater, estuprar e matar.


Simultaneamente exalta-se a vida doméstica, a mulher dona de casa, submissa e obediente. E mesmo aquelas que se voltam para atividades políticas (houve ligeiro aumento de deputadas federais) adotam uma ideologia de direita. Justificam-se como Mães da Pátria, no Congresso. As parlamentares que entram para o campo político das propostas progressistas, para o bem coletivo, são agredidas. Exatamente como no nazismo: exaltam-se as mães da pátria, mulheres que reproduzem via maternidade mais mão de obra, caladas, submissas, defensoras de um líder supremo! Essa vertente congrega os antifeministas.

Os movimentos feministas são revolucionários. Comportam variações mas, em geral, buscam a igualdade de gênero. Igualdade entre as mulheres, igualdade entre mulheres e homens, igualdade entre todas as pessoas incluindo cor, etnia, aptidões, e demais variações. Mas sempre a igualdade. Igualdade também significa dividir o poder. Em oposição avança o antifeminismo, doutrina do autoritarismo. O antifeminismo significa retornar ao fascismo, garantir a submissão das mulheres e demais minorias a um líder brutal.

Essa história é nossa conhecida. Este é o momento de decidir de que lado estamos.

Há 80 anos campo de concentração Buchenwald era libertado

As construções na colina de Ettersberg parecem destoar da paisagem ao redor. Elas estão cercadas por uma floresta que se avista de longe, a noroeste da área urbana da metrópole cultural Weimar, na Turíngia.

Mas o que de longe parece um lugar idílico guarda, na verdade, uma história terrível: a do campo de concentração nazista Buchenwald, um dos maiores em solo alemão. Ali, de 1937 a 1945, nazistas prenderam cerca de 280 mil: judeus, dissidentes, comunistas, homossexuais, detentos estrangeiros, "ciganos" (sinti e roma), testemunhas de jeová e líderes religiosos malquistos.

Buchenwald era o próprio inferno – um dos vários infernos da máquina nazista de perseguição e assassinato. Além das instalações em Ettersberg, o complexo incluía mais de 50 pequenos subcampos, a maioria em locais de produção de bens importantes para a guerra.

Em Buchenwald foram mortas até abril de 1945 cerca de 56 mil pessoas, a maioria judeus. A libertação só veio nas semanas finais da Segunda Guerra Mundial, com a aproximação dos primeiros tanques americanos. Ao perceber a movimentação, prisioneiros deflagraram uma rebelião no dia 11 de abril de 1945, evitando a fuga de diversos soldados da SS (Schutzstaffel ou esquadra de proteção), o braço armado do partido nazista

Após o fim da guerra, a Turíngia passou a fazer parte do território alemão sob ocupação soviética. Logo os soviéticos passaram a usar suas instalações para um "campo especial", prendendo ali principalmente líderes locais do partido nazista, policiais ou empresários que mantiveram linhas de produção com trabalho forçado. Até 1950, outras 7 mil pessoas morreram ali.


Passado tanto tempo, restam poucas testemunhas e sobreviventes dos horrores daquele período. Essas lembranças dolorosas têm importância histórica. Para mantê-las vivas, ferramentas digitais são cada vez mais importantes.

"Ainda há 15 sobreviventes, 15 no máximo, que foram convidados", afirma o historiador Jens-Christian Wagner sobre a solenidade que ocorreu no 6 de abril. Ele dirige a fundação que administra os memoriais dos campos de concentração Buchenwald e Mittelbau-Dora.

Wagner lembra a cerimônia de 60 anos, em 2005. Naquela época, cerca de 500 sobreviventes compareceram ao evento. Em 2015, nos 70 anos da libertação de Buchenwald, pouco mais de 80 – a maioria já bem idosa – viajaram até Weimar.

A DW conheceu um deles à época, o ex-piloto da Força Aérea do Canadá, Ed Carter-Edwards, então com 92 anos. O avião dele foi abatido no verão de 1944 próximo a Paris, e ele foi levado para Buchenwald, onde passou três meses e meio. "Eles tratavam as pessoas como animais", disse, citando, aos soluços, os nomes dos amigos que não sobreviveram ao campo de concentração. Carter-Edwards morreu em 2017.

"Todos nós somos responsáveis por lembrar – cada cidadão, cada cidadã", diz Wagner. Trata-se, frisa ele, de marcar posição e de se opor ao racismo, ao extremismo de direita e ao antissemitismo.

Para o historiador, os "partidos democráticos" cometeram um "erro enorme" ao adotar a retórica da ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD) para falar sobre migração. Ele diz que esse debate acabou "normalizando" narrativas xenófobas.

O estado da Turíngia, onde fica Weimar, é um dos bastiões da AfD. Ali, o partido teve seu melhor desempenho em todo o país, conquistando 38,6% dos votos na eleição geral em fevereiro deste ano – quase o dobro do resultado nacional, de 20,8%. No Parlamento da Turíngia, a AfD também ampliou seu espaço, assumindo 32 dos 88 assentos após as eleições regionais em setembro de 2024. A bancada estadual é liderada por Björn Höcke, político notório por flertar com o extremismo.

"Estamos no olho do furacão", diz Wagner, referindo-se à Turíngia, ao citar a ascensão mundial de movimentos extremistas e autoritários de direita, inclusive na Alemanha. A situação é "extremamente preocupante", frisa. "Por muito tempo, achamos que as pessoas tinham aprendido a lição da época do nazismo." Mas ele diz já não ter mais tanta certeza disso.

Wagner afirma que o nazismo e seus crimes foram "notoriamente minimizados", posições que glorificam o nazismo teriam sido até mesmo defendidas. Ele alerta que é de fundamental importância para as estruturas que sustentam a democracia do país refletir sobre o passado nazista da Alemanha, mas que essa consciência estaria diminuindo.

Os memoriais na colina de Ettersberg que Wagner administra já foram alvos diversas vezes de vandalismo. Em 2024, ele mesmo sofreu ameaças diretas. E hoje, diz o historiador, funcionários do local também temem pela própria segurança de vez em quando. "Não devemos nos deixar intimidar, mas precisamos ser cautelosos", explica.

Em Buchenwald, há um crematório, um campo de cinzas e uma "praça de chamada", espaço onde os prisioneiros tinham que se apresentar todos os dias e todas as noites para contagem. Há também um "bloco das crianças" e o "Instituto de Higiene", onde médicos da SS conduziam experimentos em prisioneiros em cooperação com a indústria farmacêutica e pesquisadores, em busca de vacinas.

O portão de entrada do campo de concentração, que ostenta a frase "Jedem das Seine" (a cada um o que é seu), foi muito retratado na imprensa. O relógio na pequena torre acima dele marca sempre 15h15 – a hora em que o inferno dos prisioneiros acabou.

Hoje, o local onde ficava o campo de concentração tem poucas construções, muita área livre e muitos pedregulhos, faias e carvalhos nos fundos do terreno, e a vista sobre as terras turíngias.

Perguntado sobre qual lugar ali tem um significado especial para ele, Jens-Christian Wagner reflete por um momento antes de citar o "pequeno campo". Ali, em estábulos que formavam um "campo dentro do campo", prisioneiros eram selecionados antes de serem enviados para o trabalho forçado. No início de 1945, doentes foram aglomerados nos barracos e deixados à própria sorte; mais de 6 mil morreram em menos de cem dias.

"A partir de fevereiro de 1945, o local se transformou em um campo de sofrimento e morte para os prisioneiros levados de Auschwitz para Buchenwald", diz Wagner.

O local foi destruído logo depois da libertação do campo de concentração.

Wagner diz que, na época da Alemanha Oriental, o local do "pequeno campo" estava tomado pelo mato e não era muito lembrado. Agora, uma clareira ali exibe as fundações arqueológicas do confinamento. "Continua sendo um lugar de sofrimento e luto."

Pesquisa eleitoral extemporânea

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Passado pouco mais de metade do mandato do atual presidente da República, políticos e partidos já se lançaram na disputa por sua sucessão como se a eleição fosse na semana que vem. E como se aqui, costumeiramente, mesmo nos poucos dias anteriores ao de uma eleição, a decisão do eleitor já estivesse tomada.

Todos nós sabemos que um número grande de brasileiros só se preocupa com o ato de votar quase em cima da hora. É inútil e imprudente, portanto, num cenário de incerteza, indecisão e improvisação, considerar entre nós as pesquisas eleitorais fora de época como expressões objetivas e prováveis de quais serão os resultados da votação bem lá adiante.

Essas considerações resultam da observação confirmada de que o bolsonarismo introduziu na cultura política brasileira o uso da incerteza como forma de desordenar a lógica própria do processo político. E desse modo reduzi-lo àquilo que não é: expressão da opinião superficial e manipulável, antipolítica, mais resultado do acaso e do “chute” do que de uma consciência crítica fundamentada e propriamente política.


Essas pesquisas de opinião eleitoral revelam vagas tendências a dois anos do pleito. Tendências de um agora de incertezas, até sobre gente que nem sabe se Bolsonaro vai para as urnas ou se vai para a cadeia, já que é réu em processo no STF que tem como probabilidade a prisão. E mesmo que não seja condenado agora, já está impedido, pela Justiça Eleitoral, de concorrer em 2026.

O caráter manipulativo de uma eventual candidatura de Bolsonaro tem por objetivo, tudo indica, manter-lhe a imagem de que sem ele a eleição não é legítima e de que, como já assinalei em artigo anterior, sua não reeleição em 2022 e a falha do golpe tentado para negar o mandato ao presidente legitimamente eleito significa que a cadeira presidencial está vaga. Ou seja, o golpe continua.

O que mais, afinal de contas, está em jogo na realização e divulgação de pesquisas que, objetivamente, pouco ou nada dizem? Alguém tem interesse em adivinhar quem está sendo cuspido da vaga lista de candidatos e de ex-futuros candidatos. Não são pesquisas para indicar quem poderá ganhar a eleição de 2026, mas a de quem poderá perdê-la. Ou quem são os piores da lista para que os mais piores possam entrar na disputa de modo a parecer melhores do que são.

O que, portanto, nos dizem as pesquisas de opinião eleitoral? E mesmo as pesquisas de boca de urna? Sobretudo, quais Brasis falam através dessas pesquisas na distância que nos separa do dia de votar?

Em primeiro lugar, Brasil ainda é mais um território do que um país, apesar de juridicamente sê-lo. Quem conhece o Brasil sabe que há muitos Brasis disseminados pelo interior do país oficial.

No Rio de Janeiro há vários e diferentes Brasis, tão vários que estão em guerra de morte uns com os outros porque a territorialidade dos poderes, legais e/ou ilegais, é insuficiente para o tipo de mando que entre nós domina.

Aqui, à autoridade e ao poder legítimos, sobrepõe-se o mandonismo dos régulos de província e de município, desprovidos do respaldo da lei e da legalidade.

O bolsonarismo e o pendularismo que nele se expressa deixou o país tão mal que qualquer decorador de uns versículos bíblicos pode alugar uma biboca, que até à véspera fora um botequim, comprar umas cadeiras de plástico, transformar um caixote em púlpito e reabri-la como templo no dia seguinte. Arrecadar o dízimo dos fregueses e empoderar-se como guia político.

Esse sistema transformou um sujeito desses, que só conhece um versículo bíblico - “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32) - em presidente da República. Um que durante os quatro anos do seu mandato praticou cotidianamente a renúncia tácita, tutelou e anulou consciências, negou-lhes a verdade, no lugar ofereceu-lhes a mentira, disseminou a alienação da consciência como negação da libertação prometida. Milhões de cativos ideológicos estão submetidos a um falso profeta e privados de liberdade de consciência política.

Há até mesmo um Brasil que se diz patriota, não fala português nem tem sotaque nheengatu, não conhece o dialeto caipira e sertanejo, não sabe a diferença entre o rio Mississipi e o rio Tietê. E faz de Washington o quartel-general da traição à pátria.

A larga antecipação do embate eleitoral não é eleitoral. Não se está discutindo as alternativas doutrinárias nem quem tem condições de personificá-las num projeto de nação. A polarização está pondo em debate o fechamento das alternativas que legitimem o que deveria ser, propriamente, o debate político, o projeto do primado dos interesses nacionais e democráticos contra o que foi convertido em privatização da pátria.

A prova do algodão

Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12 “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito à proteção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efetivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12 enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua atividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.

Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contatos a correios eletrônicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação científica, tecnológica, criativa, teses acadêmicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.

Aqui está. Praticamos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificamos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.

José Saramago, "O caderno"

Extrema direita leva o mundo ao abismo

Os piores pesadelos estão se realizando neste início do governo Trump. Antes de sua posse, boa parcela do mercado financeiro, empresários de toda parte e políticos brasileiros que se dizem moderados sem conseguirem ter autonomia em relação a Bolsonaro acreditaram que o pragmatismo venceria. Naturalizaram o extremismo, e o mundo vai passar pela tempestade política mais terrível desde o nazismo. Para sairmos dessa desgraça, é preciso entender a perversidade e o desastre contidos no modelo político e de políticas públicas da extrema direita.

A extrema direita hoje abarca grupos de várias partes do mundo, crescendo na Europa, mas não tendo ainda vencido as eleições por lá, e está no poder na Hungria, na Argentina e nos EUA, como já esteve no Brasil. Há diferenças entre partidos e lideranças extremistas por conta de características locais - os imigrantes não são um tema no caso brasileiro, por exemplo. De todo modo, em todas essas experiências há uma característica central: uma liderança populista, carismática, iliberal e com um projeto autocrático. Seus seguidores e asseclas obedecem caninamente ao chefe.
Não há espaço para dissenso entre os extremistas e os que têm a petulância de expressar uma pequena discordância são tratados como inimigos e abandonados pelo chefe maior. Movimentos políticos que não aceitam qualquer divergência são, por natureza, antidemocráticos, sejam de direita ou de esquerda. Pior do que isso: se um grupo dominado por uma liderança inconteste elimina o debate e a diferença entre seus membros, é bem provável que cometa muitos erros e nunca aprenda com eles, aceitando como autômatos todas as decisões e falas do líder extremista. Foi assim com Bolsonaro no Brasil, e esse comportamento tem se repetido com Trump, pois os republicanos e assessores presidenciais foram transformados em sujeitos sem voz ou capacidade de reação.

A primeira característica do modo de fazer política da extrema direita é uma liderança inconteste com seguidores completamente fiéis e praticamente sem individualidade. Cabe ressaltar: são milhares de apoiadores de primeira linha e milhões de votantes que seguem esse rumo. Como angariam tamanho apoio? A explicação está na criação de inimigos internos e externos que assustem o “homem comum”, alimentando ressentimentos e ódios numa parcela grande da população que se vê derrotada frente à modernização econômica e de costumes.

A criação desses “monstros” internos e externos tem sido um dos grandes instrumentos da ascensão da extrema direita. Imigrantes, China, diversidade, comunistas, intelectuais, feministas, conhecimento científico e globalização são, para citar um conjunto relevante de fantasmas, colocados no altar daquilo que deve ser cotidianamente combatido. Cria-se um sentimento de luta diária e ininterrupta, um modelo bélico de se fazer política, fortemente impulsionado por uma linguagem polarizadora nas redes sociais. A cada dia, Trump ou Bolsonaro precisam derrotar e exterminar um desses inimigos, usando algum tipo de “motosserra” contra eles.

O modelo beligerante está no coração de cada um dos seguidores e é utilizado pela liderança extremista para enfraquecer a democracia e criar uma “geopolítica dos escolhidos” - um novo “eixo do bem” entre as nações. É exatamente isso que Trump está fazendo: enfraquecendo as instituições e a sociedade civil americanas e só aceitando como parceiros na ordem internacional os países que disserem amém às suas propostas.

É interessante notar como a extrema direita funciona ao estilo de uma máfia, com um poderoso chefão, auxiliares que fazem o trabalho sujo (um Musk ou um Pazuello) e utilizando a ameaça constante como método de se fazer política. De forma milimétrica o cientista político Cláudio Couto chamou esse modelo chantagista e mafioso de “extorsocracia”, a política como extorsão dos outros, geralmente dos inimigos ou grupos que se quer subjugar, mas por vezes também dos aliados, como Bolsonaro tem feito com os governadores de direita que querem o seu apoio para uma futura disputa presidencial - ou apoiam a anistia do chefe ou serão massacrados pelos bolsonaristas.

O resultado desse modo de se fazer política da extrema direita é, na melhor das hipóteses, o enfraquecimento da democracia, ou, na pior das possibilidades, a construção de uma autocracia iliberal. Esse é o sonho de todo líder extremista contemporâneo, e talvez por isso todos eles venerem o governante húngaro, Viktor Orbán, que chegou ao nirvana que almejam. No íntimo, num raciocínio impensável para quem viu o Muro de Berlim cair, essas lideranças ocidentais extremistas gostariam mesmo de ser Vladimir Putin, este sim um chefe sem freios e poderoso.

O que deve ser dito em alto e bom som é que a naturalização da extrema direita gera líderes autoritários e narcisistas, que comandam uma parcela grande da população que os obedece caninamente, por meio de um modelo bélico e mafioso (a “extorsocracia”) de governar países e destruir os laços de confiança da ordem internacional, e cujo objetivo final é acabar com a democracia liberal, numa espécie de revolução profunda e distópica contra a ordem internacional criada pelo mundo ocidental no pós-guerra.

Passar o pano para tais lideranças e ideias extremistas é uma forma de suicídio coletivo que parcela importante de empresários, de gente do mercado financeiro, da mídia e até intelectuais têm cometido nos últimos anos. Sempre lembro que é preferível ser Churchill, que enfrentou com “sangue, suor e lágrimas” o nazismo, a Chamberlain, o primeiro-ministro britânico que evitou o confronto com Hitler porque o mundo se consertaria sozinho. Transportando esse raciocínio para o Brasil, ninguém sai incólume do apoio ao ideário iliberal e autoritário de Bolsonaro, com sua anistia que pretende apagar a tentativa de golpe de Estado. Como estão faltando Churchills na política brasileira!

Se o modo de fazer política da extrema direita é uma perversidade contra a democracia e o modelo ocidental do pós-guerra, seu desastre deriva da forma como lida com as políticas públicas. É preciso ressaltar que os extremistas atuais não são apenas autoritários, como também são fortemente incompetentes, como estamos vendo na absurda guerra das tarifas proposta por Trump, que vai desorganizar a ordem econômica internacional e a própria economia americana.

A incompetência nas políticas públicas dos extremistas inicia-se por sua visão negativa da ciência e dos especialistas. Nos últimos anos e cotidianamente, os missionários da extrema direita espalham fake news e ideias absurdas sobre o funcionamento do mundo e de suas principais instituições. Quando chegam ao governo, precisam reproduzir esse modo de pensar para manter a legitimidade de sua visão de mundo. O problema é que o negacionismo em políticas públicas cobra um preço muito alto em termos de desempenho governamental. Foi assim na pandemia de covid-19, tem sido do mesmo modo na forma como Trump fracassa na economia. Isso para não falar do legado trágico que vão deixar ao meio ambiente, com consequências futuras terríveis.

A extrema direita não só ignora a ciência como ataca suas bases, especialmente a universidade e a burocracia formada por especialistas. O ataque trumpista às principais instituições universitárias americanas pode causar uma fuga de cérebros e a perda da principal vantagem dos Estados Unidos no pós-guerra: sua superioridade no conhecimento científico e tecnológico. Na mesma toada, a quase extinção do Departamento de Educação revela um país que não conseguirá ter um projeto alvissareiro de futuro para seus filhos e netos. Criar uma área para pretensamente melhorar a eficiência governamental foi a maneira pela qual o trumpismo pretendeu evitar que a técnica fosse uma barreira ao seu projeto megalomaníaco e autocrático.

Políticas públicas bem-sucedidas baseiam-se em evidências, em gestão bem-organizada e em mecanismos de governança colaborativa, a partir da qual o governo articula os diversos atores que participam das questões coletivas. Tudo isso é o oposto do que o trumpismo e o bolsonarismo seguem, o que leva seus governos a estratégias estéreis de confronto político-social e à negação da ciência, redundando em desastres governamentais. Os americanos terão mais inflação e/ou recessão, do mesmo modo que as políticas bolsonaristas aumentaram a pobreza, pioraram a educação e destruíram a máquina pública e o meio ambiente.

O padrão de política e políticas públicas da extrema direita pode levar o mundo para o abismo, especialmente quando adotado pela maior potência do mundo, com efeitos incalculáveis para cada parte do planeta Terra. Trump é a combinação de autoritarismo com incompetência, e o bolsonarismo é a reprodução disso na escala brasileira. Tentar retornar à trilha bolsonarista ou apoiar-se nela para se chegar ao poder é colocar o Brasil à beira do precipício. Se muitos estão cegos para os impactos do extremismo, os dois últimos meses da loucura americana mostraram como é perigoso ignorar seu real significado. Espero que nos lembremos disso nas eleições de 2026.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O dedo de Trump no mapa da fome

O centro das discussões mundiais são as tarifas de Trump. Não poderia ser diferente: envolvem a economia do planeta e a sorte de bilhões. No entanto, há uma decisão de Trump que foi pouco discutida, com efeito arrasador sobre os mais pobres do mundo. Trata-se do corte de 83% dos programas norte-americanos de ajuda humanitária e ao desenvolvimento. O balanço do estrago dessa decisão foi feito nas primeiras semanas após o anúncio, mas ainda assim ele pode surpreender pela sua carga negativa.

O jornal Le Monde cita a primeira avaliação de março, divulgada na revista Nature: a suspensão da ajuda arrisca privar 1 milhão de crianças de acesso ao tratamento vital contra a desnutrição e a provocar 160 mil mortes anuais. Essas análises se apoiam no fluxo de financiamento e na mortalidade constatada quando não se combate a desnutrição.


O problema não se limita ao corte americano. Com a nova configuração política e o abalo da Otan, os principais países europeus começam a destinar mais dinheiro para armamento. A Alemanha, por exemplo, flexibilizou suas rígidas regras fiscais para destinar verbas ao setor militar. Países como a França e o Reino Unido reduzem sua ajuda ao desenvolvimento de países pobres. A França cortou 37%; a Inglaterra, 40%. Se somamos a renúncia americana com os cortes europeus, cerca de 2,3 milhões de crianças não serão tratadas e abre-se a possibilidade de mais 370 mil mortes de crianças por ano. É como se a tragédia de crianças morrendo pelas bombas em Gaza fosse multiplicada por 30.

Ao anunciar o desmantelamento da Usaid, Elon Musk afirmou que ninguém morreria por causa de um corte para controlar a ajuda estrangeira. As estimativas o desmentem.

A organização humanitária Helen Keller afirma que somente em Bangladesh, Nigéria e Nepal cerca de 21 milhões de pessoas ficaram sem ajuda nutricional, entre elas 11 milhões de crianças. A questão alimentar já era problemática, e ficou dramática a partir da retirada dos EUA, que eram responsáveis por 30% da ajuda mundial.

Nos dias 27 e 28 de março, a França organizou um encontro internacional, uma espécie de conferência da nutrição. O tema era também qual resposta deveria ser dada pela comunidade internacional a esta nova situação, em que os EUA se demitem e os europeus, antes dos americanos, já começam a deixar o campo. Os organizadores reconhecem que o debate sobre nutrição não se limita à comida, ele se estende às mudanças climáticas. Até a obesidade crescente em algumas áreas do mundo era parte da agenda. O Brasil participou desse encontro. A representante brasileira foi Janja. Lula lançou no Rio a Aliança Global contra a Fome. Abriu-se, com essa renúncia americana, não só um campo de crítica a Trump, como uma necessidade de redobrar o esforços diante de uma situação calamitosa. Lula tem não só a chance, mas também a necessidade de avaliar o novo quadro e ampliar os esforços que culminaram com o consenso no Grupo dos 20. Antes de tudo isso, eu já tinha escrito um artigo sobre a questão dos alimentos, mostrando que o alto preço momentâneo no Brasil, na França e nos Estados Unidos é apenas a ponta do iceberg.

Inspirei-me no livro do jornalista Paul Roberts The End of the Food, no qual analisa as cadeias globais de abastecimento e fez previsões sombrias sobre o futuro dos alimentos no mundo. Ele menciona três variáveis que podem definir esse futuro: energia, mudanças climáticas e crise hídrica. Muitos países já não produzem alimentos para economizar água. E os mais competitivos, como o Brasil, exportam milhões de litros de água gratuitamente, por meio da produção de carne de frango e porco. O livro de Roberts começa com as questões de saúde que a produção em grande escala traz, como a contaminação dos alimentos, mas examina também algumas das aspirações de países mais pobres, como por exemplo a de comer mais carne. Isso traria melhorias na saúde, mas é uma forma pouco eficiente de obter calorias. Em média, são necessários dois quilos de cereais para produzir um quilo de carne.

Aos poucos, a complexidade da alimentação diante do crescimento mundial vai subindo na agenda. Dois presidentes, por exemplo, falaram do preço do ovo nas últimas semanas.

Lula, no Brasil, reclamou dos aumentos causados por questões climáticas, preço de rações e conjuntura de maior consumo de ovo por causa da Quaresma. Devastada pela gripe aviária, a produção norte-americana elevou os preços de forma assustadora. Em Nova York, os ovos estavam sendo vendidos por unidade ou em caixas de três. Trump mencionou o tema no dia em que anunciava a questão das tarifas, o que mostra a importância estratégica que uma crise alimentar pode ter para os governos ao redor do mundo.

Aliás, a importância do tema da escassez é indiscutível, pois já derrubou vários governos. A questão é prever as consequências de uma crise durável, provocada pela escassez de água, ausência de energia abundante e empobrecimento irreversível dos rios e oceanos.

Correndo por fora da batalha das tarifas, a grande pauta global dos alimentos precisa vir à tona. Naturalmente, temos de começar pela emergência da fome e pela realidade assustadora de existirem 80 milhões de crianças necessitando de tratamento contra a desnutrição. Mas há amplo caminho pela frente, um pouco ofuscado pelas tarifas, em que os alimentos são uma espécie de coadjuvantes no debate que envolve preço de carros, máquinas de lavar e iPhones.

Marine Le Pen, Martin Luther King e drones

"Nossa, graças a Deus as imagens da televisão dão a impressão de que há pessoas lá, porque se eles fizerem uma tomada aérea, estamos mortos." Esses foram os termos confessados ​​no último domingo por um membro do Rally Nacional (RN) ao jornal Libération durante o comício em Paris convocado dias antes pelo partido de extrema direita para "salvar a democracia" e apoiar sua líder, Marine Le Pen, condenada a quatro anos de prisão — dois deles com pulseira eletrônica — e cinco anos de inibição política com efeito imediato. A nova mártir da política francesa, culpada de orquestrar um esquema para desviar fundos do Parlamento Europeu no valor de mais de quatro milhões de euros ao longo de 11 anos, certamente pensou que seus seguidores viriam de todos os cantos da França para defendê-la de tal injustiça. Mas nem a intensa e delirante campanha midiática lançada pelo partido após a decisão — denunciando o ponto de náusea como uma decisão “política”, antidemocrática, tomada por “juízes vermelhos” para aniquilar a candidatura do favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2027 — nem os trinta ônibus fretados pelo RN conseguiram o milagre tão esperado. As pessoas , a quem tanto se dirigiu a mulher que se apresentou neste domingo como ninguém menos que a filha espiritual de Martin Luther King, simplesmente a ignoraram.

Basta pesquisar com X a hashtag #PlaceVauban para perceber o quão vazia estava a praça, onde apenas cerca de 7.000 pessoas se reuniram, de acordo com a polícia. O vídeo publicado no X nesta quarta-feira por Le Pen , acompanhado por uma música grotesca de drama e tensão, não deixa dúvidas: embora as equipes da RN tenham tentado disfarçar a baixa presença por meio de uma edição afiada, coincidentemente a única tomada filmada por um drone é cortada justamente no momento em que o aparelho começa a subir. O partido justificou seu fracasso em alcançar a revolta popular que esperava tanto pela dificuldade de organizar um comício com menos de uma semana de antecedência quanto por sua baixa popularidade entre os parisienses, que até agora permaneceram imunes à retórica obsoleta e xenófoba do partido. Penso, no entanto, que a explicação é muito mais simples: sua arenga trumpiana e vitimista contra o sistema e "a ditadura dos juízes" em nome da livre escolha dos eleitores não convenceu os franceses e pode até não ter conquistado alguns de seus eleitores.

Como Patrick Cohen, editorialista da estação de rádio pública France Inter , enfatizou há alguns dias, quem na França pode honestamente acreditar que é urgente aliviar os controles e sanções contra representantes eleitos suspeitos de violações de integridade — além, é claro, do primeiro-ministro François Bayrou, que ainda aguarda um recurso em um caso semelhante e levantou a necessidade de revisar a lei? Ou que a democracia e a confiança dos cidadãos nas instituições seriam fortalecidas se políticos corruptos tivessem permissão para acessar cargos de poder. Quem em sã consciência pode acreditar que, como disse Jordan Bardella, a democracia está sendo assassinada e que os únicos juízes dos políticos são seus eleitores, ignorando deliberadamente a necessária separação de poderes em um Estado governado pelo Estado de Direito? O próprio Bardella declarou em novembro passado que um funcionário público com antecedentes criminais não era legítimo o suficiente para concorrer em uma eleição, causando agitação generalizada dentro do RN e irritando seu mentor. Então, qual é a situação?

Ciente de que a retórica trumpiana que adotou após a decisão ainda não é eleitoralmente viável na França , e considerando que este é um partido cuja popularidade vem crescendo à medida que se torna menos demoníaco — apenas na aparência, porque o programa do RN continua dizendo o contrário — Le Pen agradeceu a todos os seus aliados de extrema direita pelo apoio, exceto ao magnata laranja. Parece até que seus capangas já receberam ordens para moderar as coisas até que seu julgamento de apelação comece em um ano, em vista das ameaças recebidas pelos juízes responsáveis ​​pelo caso. Ainda assim, ninguém sabe quais serão as consequências desse ataque sem precedentes às instituições democráticas e, em particular, à legitimidade do processo eleitoral lançado por Le Pen, caso a líder perca sua apelação poucos meses antes das eleições presidenciais. Embora o outro cenário, de que ele ganhe as eleições apesar de ter desviado quatro milhões de euros, seja talvez ainda mais assustador.
Carla Mascia

Chacota, a nova arma da China contra Trump

Guerra comercial é coisa séria e é assim que o governo chinês tem tratado o tarifaço de Donald Trump, tanto na retórica como nas ações. Mas, às margens do discurso oficial, as autoridades chinesas deixam espaço para que a ofensiva do governo americano seja alvo de ironias, sempre dentro dos limites da censura que regula a mídia no país.

Geralmente sisuda, principal meio da liderança chinesa para comunicar-se com o mundo, a agência estatal de notícias Xinhua, produziu um vídeo inteiramente dedicado à zoação das medidas de Trump. Começa com uma introdução dita em voz de desenho animado: “A hilariante lógica por trás das tarifas recíprocas dos EUA”. Em dois minutos, o vídeo demole com sarcasmo a fórmula que levou o governo americano a calcular as tarifas aplicadas sobre cada país, concluindo que até um estudante de escola primária faria melhor.


Wang Guan, conhecido apresentador da TV estatal que tem no currículo entrevistas com vários líderes mundiais, entre eles o presidente Lula, foi na mesma linha, questionando a competência dos responsáveis pelo tarifaço. “O homem que costumava levar cassinos à falência agora quer fazer o mesmo com o comércio global”, diz Wang em um vídeo publicado em sua conta pessoal. Para ele, o cálculo por trás da ofensiva tarifária de Trump “é uma estupidez”. Faz tanto sentido, afirma, quanto “dividir o valor de sua hipoteca pelo tamanho do seu sapato”.

Nas redes sociais chinesas, o tarifaço recebe milhões de visualizações e curtidas em vídeos que usam inteligência artificial para imaginar o futuro que aguarda os EUA se o país bloquear a importação de seus produtos mais populares, muitos deles produzidos na China. A cena fictícia é de americanos obesos e com ar deprimido na linha de montagem de fábricas da Apple, da Nike ou da Tesla, que no fim do vídeo acabam arruinadas por falta de mão de obra.

“Dia da Libertação, você nos prometeu as estrelas, mas as tarifas mataram os carros chineses baratos”, canta uma voz gerada por IA num vídeo produzido pela mídia oficial, em que consumidores americanos aparecem lutando contra a inflação e terminam com o prato vazio.

A tarefa dos chineses que se dispõem a caçoar de Trump é facilitada pela fartura de material de comediantes e influenciadores dos EUA como John Stewart achincalhando seu próprio presidente. Se fosse o oposto, seria quase impossível encontrar material cômico na China envolvendo a liderança do país e seus símbolos. Zombar do presidente ou outras figuras importantes é totalmente proibido, quem ousa fazê-lo, mesmo que de leve, paga um alto preço.

Em 2023 o comediante Li Haoshi foi preso depois de fazer piada durante um show de stand-up em Pequim sobre seus cachorros, em que citou um lema motivacional do Exército dito pelo presidente do país, Xi Jinping. A piada levou à prisão de Li e custou à empresa que o contratara multa de 14,7 milhões de yuans (algo em torno de R$ 12 milhões na cotação de hoje). “Jamais permitiremos que qualquer empresa ou indivíduo use a capital como palco para insultar a gloriosa imagem do Exército de Libertação do Povo”, rebateu o ministério da Cultura.

Embora hoje em dia na China Trump seja alvo sobretudo de chacota e desprezo nacionalista (ao menos em público), ele também atrai enorme interesse como fonte de entretenimento. Nesse sentido, um dos fenômenos atuais é Chen Rui, conhecido nas mídias sociais como o “Trump chinês” por sua imitação impecável do presidente americano. Com mais de um milhão de seguidores na China e cerca de 400 mil no Instagram, Ryan, como ele é chamado, posta vídeos diários, mas não sobre política. Usa o incrível talento de imitador para fazer vídeos do cotidiano, em que apresenta na voz de Trump sua cidade, Chongqing.

Outra polêmica com os EUA que incendiou as redes sociais chinesas e gerou uma onda de zombaria envolveu o vice de Trump, J.D. Vance. O estopim foi o comentário de Vance de que os EUA pegam “dinheiro emprestado de camponeses chineses para comprar coisas que esses camponeses fabricam”. Um porta-voz da diplomacia chinesa chamou o comentário de “lamentável, desrespeitoso e ignorante”. Internautas não deixaram escapar que Vance ficou conhecido graças ao livro de memórias de sua família de “caipiras”.

Em sua resposta à guerra comercial deflagrada por Trump, o governo chinês também recorreu a fogo amigo americano, postando um vídeo de um dos presidentes mais admirados pelos republicanos, Ronald Reagan. No discurso de 1987, Reagan faz uma crítica contundente à imposição de tarifas, afirmando que ela pode funcionar por um certo tempo, mas que no fim das contas é uma política suicida, que aniquila a prosperidade.

Durante a pandemia, começaram a circular nas redes sociais chinesas versões de antigas piadas russas críticas ao autoritarismo do período soviético, reaproveitadas para descrever situações absurdas criadas pela draconiana política de Covid zero. Reagan era conhecido por colecionar esse tipo de piada para contá-las em eventos públicos. Uma de suas favoritas era sobre uma conversa entre um americano e um russo, sobre liberdade de expressão.

“Um americano diz a um russo que os americanos têm liberdade de expressão e que ele poderia até ir à Casa Branca e gritar: Vá para o inferno, Ronald Reagan! O russo responde: Ah, nós também temos liberdade de expressão. Eu também posso ir ao Kremlin e gritar: "Vá para o inferno, Ronald Reagan!"

Sibéria: A bomba-relógio climática

Aproveitando que a Guerra Fria parece ter saído de moda, Vladmir Putin faria bem em voltar sua atenção para a bomba natural sobre a qual seu reinado está localizado. Se a Sibéria continuar derretendo, a Rússia já era, levando junto boa parte do mundo como nós o conhecemos. Acontece que é na Sibéria que fica a maior parte da superfície terrestre chamada permafrost.

O permafrost é a porção de solo permanentemente congelado que se encontra no Ártico e na sua vizinhança – como Sibéria e Groelândia -, mas também em regiões elevadas do Alasca, Tibet e Canadá. Estamos falando de terrenos encharcados com água congelada, onde se forma o cimento natural que solidifica uma pasta de terra, rochas e matéria orgânica, que chega a ter 1,5km de profundidade em alguns locais. A idade de todo esse “gelo permanente” pode variar de uns poucos milênios a 4 milhões de anos. A camada mais profunda é mais antiga e mais estabilizada. Porém, ultimamente até ela vem sendo afetada pelo aquecimento global.


A perspectiva de que esse picolé geológico mais antigo derreta tem tirado o sono dos cientistas, porque nele estão guardados enormes perigos para o meio ambiente e a humanidade. O permafrost tem sido chamado de “bomba-relógio de carbono” pelos especialistas, porque seu ritmo de degelo é imprevisível. Como esse gelo antigo tem apresentado elevação de temperatura três vezes acima da média global, seu descongelamento tanto pode ser gradual, como pode colapsar abruptamente.

Enquanto isso, Putin ainda crê nas vantagens de curto prazo que o derretimento da Sibéria traria para a economia russa (ou a dele, é difícil distinguir). Por exemplo: o acesso a novas reservas de petróleo e gás, a exploração de jazidas de minerais estratégicos e terras raras, a expansão de áreas agricultáveis e a abertura de novas rotas marítimas. Contudo, a ansiedade do Kremlin por lucros de curto prazo para si pode resultar na inexistência de um longo prazo para todos, a começar pela própria Rússia.

O primeiro problema é que, quanto mais o planeta aquece, mais rápido a Sibéria derrete e mais rápido o planeta aquece, criando-se um ciclo climático catastrófico de amplitude planetária. Diversas fontes científicas como o IPCC e as Nações Unidas já concordam que os depósitos de gelo antigo, principalmente na Sibéria, armazenam dezenas de bilhões de toneladas de CO2 e gás metano que serão liberados na atmosfera acelerando o aquecimento global a níveis irreversíveis, que podem inviabilizar a vida no planeta.

Em segundo lugar, quando o permafrost se liquefaz, toda a infraestrutura rodoviária, ferroviária, industrial, energética, urbana e de oleodutos que foi assentada sobre o solo congelado se deforma, afunda ou desmorona, implicando em custos bilionários com manutenção, reconstrução e outras adaptações. Isso já está acontecendo no norte da Rússia, Alasca e Canadá (80% das infraestruturas críticas da Sibéria, por exemplo, estão no permafrost).

Some-se a essas consequências outros efeitos inusitados, como a liberação de microrganismos letais congelados, mais antigos do que a humanidade (a bactéria do Antraz, por exemplo, ressurgiu com o degelo atual causando um surto na Sibéria).

Embora distante, nem a nossa Terra da Santa Cruz escapará do derretimento da Sibéria, que afetará o regime de chuvas e estiagens na Amazônia e em todo o País, assim como resultará na elevação dos níveis dos oceanos afetando as nossas cidades costeiras. Apesar do estresse dos mercados, o tarifaço do Trump ainda não é o maior problema do mundo.

A próxima etapa do plano de Trump

O choque imposto por Donald Trump na semana passada elevou a tarifa de importação média dos EUA de 2,5% para 22,5%, a maior em mais de cem anos. “Isso é uma revolução econômica, e vamos ganhar”, tuitou ele.

Para o secretário do Tesouro, Scott Bessent, o tarifaço é apenas o começo da reordenação da ordem econômica que Trump quer estabelecer. Em mais de uma ocasião, Bessent repetiu que “o sistema de comércio internacional consiste numa rede de relacionamentos militares, econômicos e políticos. Não se pode considerar um único aspecto isoladamente. É assim que o presidente Trump vê o mundo, com interconexões que podem ser reordenadas para promover o interesse do povo americano”.

Bessent e o chefe do Conselho de Assessoria Econômica da Casa Branca, Stephen Miran, já deixaram claro que o caos tarifário é uma forma de criar alavancagem a ser usada na implementação do resto do plano para reindustrializar os EUA e preservar o dólar como moeda de reserva. A agenda Maga (Make America Great Again) parece incluir esferas de influência geoeconômica (unindo comércio e segurança), isolamento da China ao máximo, desmonte do multilateralismo (FMI, OMC) etc.


Antes de chegar à Casa Branca, Miran escreveu que seria “mais fácil imaginar que, após uma série de tarifas punitivas, parceiros comerciais como a Europa e a China se tornem mais receptivos a algum tipo de acordo monetário em troca de uma redução das tarifas”.

Ou seja, se “o dólar fosse capaz de se enfraquecer para equilibrar o comércio, não teríamos muito trabalho para equilibrar os déficits comerciais e não teríamos muitos dos problemas que as tarifas e outras políticas visam solucionar, porque seríamos mais competitivos no cenário global e não tão enganados por outros países”.

Em conversa com a coluna, o professor de competitividade Stéphane Garelli, do IMD, uma das principais escolas de negócios do mundo, sediada na Suíça, prevê que a próxima etapa para Trump será justamente arrancar um acordo para desvalorizar o dólar.

O professor observa que tudo é questão de preço na esfera Trump. O presidente dos EUA age como um comerciante que vende direitos de acesso. Primeiro, aos mais de 300 milhões de consumidores americanos. Para entrar nesse mercado, é preciso pagar mais tarifas ou fazer investimentos diretos no país. Em seguida, o acesso à tecnologia americana, que deve, também, ser paga por investimentos.

E terceiro, o dólar, com uma espécie de acordo tipo Plaza (pelo acordo de 1985 alguns países se comprometeram a intervir no mercado de câmbio para desvalorizar a moeda americana). Seria um “Acordo Mar-a-Lago” induzindo bancos centrais a vender dólar para baixar sua cotação, turbinar exportações dos EUA e reduzir o déficit.

Para Garelli, parceiros como China e Europa, embora sejam muito céticos, acabarão negociando, dependendo das condições oferecidas por Washington. Para a maior parte, talvez aceitem vender um pouco de suas reservas para o dólar não se apreciar muito e atenuar uma grande obsessão de Trump.

A etapa seguinte será sobre o sistema de defesa, na interpretação de Garelli sobre a estratégia de Trump. Para ter acesso à proteção militar americana, parceiros deveriam comprar títulos do Tesouro ilimitados com taxas de juros zero. Isso permitiria aos EUA financiar o sistema de segurança que ele coloca à disposição.

Para negociações, um problema é a imprevisibilidade e a falta de confiabilidade de Trump.

No momento, a equipe trumpista espera que, com o plano tarifário bem-executado para reduzir o déficit comercial americano, o governo terá dinheiro e poderá diminuir os impostos. Mas isso, diz Garelli, só funciona se a demanda mundial continuar a mesma, o que está longe de ser garantido.

Como nota o professor, o banho de sangue recente nos mercados financeiros ilustra o ceticismo de muitos investidores sobre a prometida “era de ouro” para os EUA. Em 1930, tarifas elevadas, como as de Trump, transformaram uma recessão em depressão e desordem que foi seguida por extremismo político e caminho para a guerra.

Após a Segunda Guerra Mundial foram cerca de 50 anos para se negociar corte efetivo de tarifas de importação em acordo global. Em uma canetada, Trump jogou tudo isso para o espaço. E quer fazer agora baixa de alíquota em discussões bilaterais intimidatórias. Os trumpistas não negociam; procuram impor, na base do pegar ou largar.

Para Garelli, a verdadeira pressão sobre Trump virá do interior dos EUA. Nota que alguns grandes CEOs começam a reagir ao tarifaço, considerado um pouco excessivo. E. Trump é também reputado por fazer reviravoltas de última hora em suas políticas.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Trem fantasma

Há dois meses achei que tinha conseguido desligar Trump das minhas ideias. Foi uma espécie de iluminação, um raro momento zen, como se uma chave tivesse sido simplesmente desligada na minha cabeça. Foi bom enquanto durou, mas passou rápido. A verdade é que estou obcecada com Donald Trump.

Um dia ele deporta dezenas de pessoas (quantas? quais?) para uma prisão em El Salvador, afrontando ordens judiciais; no outro insulta e chantageia o presidente de um país em guerra, na cena mais constrangedora que já se viu na política internacional. Toca o terror entre os imigrantes e os funcionários públicos, demite especialistas e o Estado-Maior, se indispõe com os vizinhos, expulsa a AP da Casa Branca porque a agência se recusa a chamar o Golfo do México de “Golfo da América”, como ele pretende. Ameaça as universidades, persegue escritórios de advocacia, desmonta a ordem econômica mundial.

Não dá para ignorar. É como um trem vindo em direção contrária no túnel.

Quem não está apavorado está mal-informado — e eu, infelizmente, estou super bem-informada. Até porque, como nunca vi um trem vindo em direção contrária no túnel de forma tão explícita e em tamanha velocidade, não consigo deixar de olhar: aquele clássico “não quero nem ver!” com os dedos entreabertos sobre os olhos. É medonho mas é fascinante, como foram fascinantes os vídeos do tsunami, como são fascinantes os vídeos de terremotos, tornados e erupções vulcânicas.

Em vez de correr ou tomar providências, a maior economia do planeta espera petrificada, como quem encara a Medusa.

Ninguém. Faz. Nada.

Mentira: o heroico senador Cory Booker falou durante mais de 25 horas para chamar a atenção do povo, e alguns americanos têm saído às ruas em protesto. Mas é muito pouco, pouco demais, para tudo o que está se vendo. Era para Wall Street estar aos uivos, para as universidades estarem em pé de guerra, para o New York Times circular de luto, com uma tarja preta no cabeçalho todos os dias.

Trump aumenta as tarifas para que em tese as fábricas voltem para os EUA (não existem mais fábricas como ele imagina), mas persegue os imigrantes que, tradicionalmente, trabalhariam nas fábricas (também não existem mais americanos com vontade de trabalhar em fábricas). Reclama da balança comercial, mas não leva em conta o prejuízo que está dando ao turismo na sua própria casa e chantageia países que mal se sustentam nas próprias pernas.

A essa altura as tarifas já são secundárias. O que o país perdeu em credibilidade e soft-power não há mais dinheiro que pague.

É tudo de uma estupidez avassaladora, mas não só isso. É tudo muito perverso. Trump não quer negociar com ninguém. Se engana quem ainda acha que ele é um político; não é. É um astro de reality show fazendo o papel da sua vida, acima da lei e de todos os pactos fundamentais — sociais, morais, institucionais.

Trump não está restaurando a grandeza de nada. Está apenas reduzindo tudo à sua própria escala estreita, raivosa, vingativa. Os aliados históricos se afastam, os acordos se desfazem, os indicadores tropeçam, o país se fecha. A retórica do “America First” virou, na prática, “America Alone” — uma América isolada, desacreditada, com uma liderança que inspira apenas medo e escárnio.

Volta da ultradireita é tragédia contratada

Notável pensador alemão do século 19 fraseou que, na história, a tragédia só se repetia como farsa. No caso dos governos populistas de extrema direita dá-se o oposto: seu primeiro mandato é farsa; o segundo, tragédia.

Donald Trump é prova acabada disso. Desde que voltou à Casa Branca tem produzido destruição inigualável. Na mesma semana em que a imposição de tarifas arbitrárias a uma lista enorme de países virou de ponta-cabeça o sistema de comércio mundial, agentes do Doge (sigla em inglês para Departamento de Eficiência Governamental), comandado por Elon Musk, invadiram o Woodrow Wilson Center.

Seu diretor foi forçado a renunciar e no seu lugar foi instalada uma jovem líder da torcida organizada de Trump; chefias e altos executivos foram demitidos; seus funcionários federais colocados em disponibilidade; o reputado programa internacional de pesquisadores visitantes, desativado.


O Wilson Center, como é conhecido, foi criado pelo Congresso dos EUA —e, até a semana passada, era o mais respeitado think thank de política exterior do país. O ataque ao centro de excelência é mais um episódio da investida trumpista para garrotear as instituições que produzem conhecimento, ou financiam a sua produção, ou promovem o debate livre de ideias —universidades, agências públicas de financiamento da ciência, além dos citados think thanks.

Não há dúvida alguma: o Trump do segundo mandato é muito mais radical do que o do primeiro; tem mais clareza sobre os inimigos que quer destruir; forjou instrumentos mais afiados e cevou novos apoios para fazê-lo. E, até agora, seus desígnios não tiveram de se haver com a resistência das instituições democráticas que poderiam freá-los.

A volta da extrema direita a Washington põe em dúvida teorias caras aos cientistas políticos. A primeira sustenta que a participação no jogo democrático tende a moderar partidos e líderes extremados. A segunda supõe que instituições políticas sólidas —e robustecidas com o passar do tempo— criam freios e contrapesos eficazes à ambição de poder dos governantes. Nada disso parece estar acontecendo nos EUA. Até agora, diria um otimista.

São poucos os casos de populistas de extrema direita bem-sucedidos a ponto de se reeleger ou voltar ao governo em pouco tempo. Assim, são escassos os casos que permitam aceitar ou rejeitar aquelas teorias. Por via das dúvidas, é melhor tentar evitar que o retorno ocorra. Para tanto, levem-se a sério tanto as propostas extremistas como a intenção dos proponentes de cumpri-las.

No Brasil, as instituições democráticas formaram barreira eficaz aos intentos golpistas de Jair Bolsonaro. Mas convém não apostar só nelas. Isolar politicamente o ex-capitão é medida necessária —e urgente— nesta quadra que antecede seu julgamento por crimes contra o Estado de Direito e quando, segundo Datafolha, 52% dos brasileiros acham que deveria ser preso por cometê-los.

Eis porque chega a assustar que no último domingo, na avenida Paulista, todos os pré-candidatos da direita tenham decidido, pouco importa se por convicção ou cálculo eleitoral, curvar-se à liderança de quem tem Trump como ídolo e o autoritarismo como propósito.

Inventário de perdas

Vai-se, com o tempo, perdendo tudo.
Perdi já tantos dos que tanto amava,
perdi sítios, perdi sóis, sobretudo,
perdi poderes, ilusões, e brava

força que punha, no lutar, fervor!
Perdi livros e haveres e tudo
o que à vida dá tanto sabor!
Meu canto triste foi ficando mudo,

ao ver, por todo o lado o atropelo,
o assalto ao poder da liberdade,
o pôr, na destruição, tanto zelo!

Por todo o lado, alastra a iniquidade
e a vida cada vez mais fenece,
neste pobre mundo que anoitece.
Eugénio Lisboa,"Sonetos em Tempo de Guerra Suja"

O passado reprimido do Brasil

O Brasil certamente mudou, mas somos muito incomodados por permanências contraditórias reprimidas na mudança. Testemunhos da incompetência decorrente da ausência de um olhar crítico sobre as simpatias pessoais responsáveis por um sistema jurídico kafkiano, claramente desenhado para anistiar e anular corruptos confessos e inibir conflitos de interesses. Tudo isso produz a certeza desanimadora de que leis e instituições que valeriam para todos são passíveis de particularização se o criminoso tiver o benefício de estar do nosso lado.


O exemplo mais contundente dessa afirmação é o documento que oficializa a descoberta ou achamento de nossa terra por Cabral. Nessa carta-certidão, o escrivão da frota reitera ao rei sua lealdade para, em seguida, solicitar um favor. Vale citar o original:

— Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

Nesse palaciano pedido de favor, testemunhamos como o costume fabricado pelo relacionamento pessoal obviamente particular — chamado “empenho” em Portugal — engloba a notícia oficial. É como se o oficial não pudesse se separar (como ocorre até hoje) do pessoal. O particular não se isola do universal, como seria o caso nas formas modernas de dominação. O tarifaço trumpista não tem simpatias ou jeitinhos.

Comunica-se ao rei um acontecimento feliz, e seu escrivão — saindo de seu papel institucional — aproveita o evento feliz para pedir um favor para sua filha e seu genro. O particular da casa derrete-se ao oficial, caracterizando uma intrusão vedada pela lógica burocrática existente, mas, como tenho aqui insistido, permanente nos sistemas relacionais.

Numa monarquia, o rei é a fonte da lei; numa burocracia, até mesmo os burocratas que engendram regras são, como diz Max Weber, obrigados a segui-la. Esse, observo enfaticamente, é um detalhe permanentemente reprimido, por isso sistematicamente reformulado na vida pública brasileira.

O rompimento da lei por um costume — um gesto de esperta consideração — é justamente o que permanece em nosso espaço de “modernização”. Nele, mudamos regimes imaginando ingenuamente que formas de governo mudam hierarquias e favores relacionais estabelecidos no código das reciprocidades do parentesco e da amizade. O que Caminha realizou na carta caracteriza o que chamamos de “política”, que os jornais de hoje noticiam e elaboram.

Entre Estado e sociedade; leis e costumes, deveres ligados a cargos públicos e simpatias pessoais, não conseguimos abandonar o relacional. A impessoalidade da lei que concretiza os interesses da coletividade é para os outros e, com certeza, para os inimigos.

A intrusão do familístico (a tal fulanização de um saudoso FH) no mundo público é uma forma de prêmio ou vingança. Nosso estilo político trata tal intrusão como dimensão legítima da “política” que, hoje (graças à revolução digital) promove impasse, ineficiência e atraso. Antigamente desvios “saíam no jornal”, hoje pipocam nos iPhones, destruindo segredos particularistas. Tal novidade demanda uma indesejável sinceridade, esse traço avesso a nossa concepção da esfera “política”. Para nós, ser político é ser Pedro Malasartes, como digo em meu velho livro “Carnavais, malandros e heróis”.

O favor do apadrinhamento confirma o axioma de Oliveira Vianna, segundo o qual temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo. Somos universalistas e igualitários no papel que afirma — a lei vale para todos! — e somos particularistas nas solidariedades que devemos aos familiares e amigos. Governamos o Estado que é da “rua” — e seria de todos — se relativizássemos nossas simpatias.

Se você duvida, leia este jornal!

O ataque trumpista às liberdades de pensamento e expressão

Ainda que seja impotente e sempre perdedora quando colide frontalmente com o poder, a verdade possui uma força que lhe é própria: seja o que possa afirmar e alardear quem detém esse poder, ele sempre será incapaz de descobrir um substituto viável para ela, dizia Hannah Arendt na década de 1950 em um ensaio sobre a verdade e a política escrito. A história revela que a manipulação de informações factuais, a persuasão e a violência podem até destruir a verdade. No entanto, jamais conseguirão substitui-la, concluía.

Quase duas décadas depois, quando o presidente republicano Richard Nixon se envolveu em uma política agressiva e aventureira contra seus adversários democratas e tentou ocultar abusos que o levariam a renunciar ao cargo, Arendt voltaria ao tema. Em seu ensaio sobre a mentira na política, escrito a partir do vazamento de documentos o Pentágono que mostravam como o governo Nixon se preocupava mais com medidas eleiçoeiras do que com o interesse público e o bem seja comum, ela lembrou a Primeira Emenda da Constituição americana de 1787. Esse é o dispositivo que garante a liberdade de expressão, de imprensa e de reunião pacífica e proíbe o estabelecimento de uma religião oficial ou a limitação do exercício de outras religiões.

Quando são efetivas, essas liberdades norteiam as dimensões públicas da vida social. Elas asseguram direitos básicos a todos os cidadãos, abrindo desse modo caminho para que cada pessoa possa usufruir sua cidadania ao máximo. Ao avaliar se a Primeira Emenda da Constituição americana seria suficiente para proteger o direito às informações não manipuladas dos fatos, Arendt afirmou que, sem ela, a liberdade de opinião não passaria de uma “farsa cruel” ou indiciosa.

Com o retorno do republicano Donald Trump à Casa Branca, sua aversão ao pluralismo, seu desprezo a direitos fundamentais e suas pressões sobre reitores começaram a invadir as universidades americanas, em cujo âmbito a liberdade de opinião e o livre debate sempre estiveram na essência de sua legitimidade e de seu papel na formação das novas gerações. Ou seja, o que Hannah Arendt chamou de “farsa cruel” está de volta novamente.

Uma prova disso foi um ofício enviado por um procurador trumpista ao reitor da Georgetown Law School. Criada há 236 anos por padres jesuítas, ela se destaca pela ênfase, em seus cursos, à diversidade, à equidade e à inclusão. Em seu ofício, o procurador disse que esses princípios são inaceitáveis pelo governo Trump e fez duas ameaças. Em primeiro lugar, se a instituição não abandonasse esses princípios, seus formandos seriam proibidos de trabalhar na administração federal. Em segundo lugar, os funcionários públicos federais que nela se graduaram também seriam demitidos, o que já começou a ocorrer.

Dias depois, a ofensiva trumpista contra a liberdade acadêmica e as mentiras invocadas para justificá-la, por um lado, e para tentar a discricionaridade do Executivo em detrimento das prerrogativas dos demais poderes, por outro, aumentaram. Parte do financiamento às pesquisas científicas no campo da medicina foi simplesmente cortada. Verbas de subsídio no valor de US 420 milhões para a Columbia University deixaram de ser transferidas até que ela reformulasse seus programas com base nos valores trumpistas, o que acabou acontecendo, comprometendo assim a imagem da instituição. A University of Pennsylvania e a Johns Hopkins University foram afrontadas. Professores americanos com descendência libanesa e árabe que foram participar de seminários acadêmicos em outros países foram detidos ao retornar e deportados – uma decisão tomada sem qualquer base constitucional. Magistrados de diferentes instâncias judiciais que acolheram recursos judiciais contra as ilegalidades do governo Trump foram por ele classificados como “corruptos”, “ativistas” e “marxistas radicais”. E escritórios de advocacia contratados por adversários ou por simples intelectuais críticos do trumpismo foram ameaçados pelo governo, o que os levou a perder grandes clientes corporativos.

Argumentos como esses, formulados com o objetivo de desafiar ordens judiciais e testar limites constitucionais cada vez que suas decisões são barradas pelos tribunais, mostram o que ocorre quando o poder político entra em guerra com a verdade em todas suas formas, como dizia Arendt nos ensaios acima mencionados. Contudo, mesmo que cada geração tenha o direito de forjar e afirmar sua própria história, em hipótese alguma pode-se admitir que ela tenha o direito de rearranjar fatos de acordo com sua própria perspectiva.

Uma coisa é discutir opiniões inoportunas, rejeitá-las, chegar a um compromisso acerca delas. É compreender o quanto pesquisas acadêmicas e liberdade de pensamento propiciam a conscientização de uma condição social, de um lado, e entender como o trabalho científico se converte em parte realidade como pensamento e prática, de outro lado. Outra coisa é construir narrativas com base em mentiras, sejam elas ardilosas. A marca distintiva da verdade factual consiste em que seu contrário não é o erro ou a ilusão. É, isto sim, a falsidade deliberada, a manipulação de fatos e opiniões – ou seja, a mentira, lembrava Arendt.

Que Trump sempre foi um embusteiro que construiu tanto sua fama com base no fato de que mentiras públicas são mais plausíveis do que a verdade, isso é sabido há muito tempo. Agora, o problema é saber o quanto de estragos ele fará, desafiando o Judiciário, enfraquecendo o império da lei e corroendo a democracia por meio das ameaças, intimidações e mentiras a que vem recorrendo com o objetivo de investir contra as liberdade de pensamento e de expressão que estão essência da vida acadêmica.

A produção sem censura de conhecimento é a função precípua da Universidade enquanto locus autônomo de poder econômico e político; enquanto espaço de liberdade de criação e de pensamento independente e aberto ao diálogo. Conhecimento não é apenas sinônimo de prestígio e autoridade. É, também, instrumento de poder acadêmico e institucional, ora reproduzindo um padrão de organização econômica, ora criticando suas estruturas para tentar torná-las mais justas. Como poder, o conhecimento está na essência das revoluções paradigmáticas da ciência. No campo social, é instrumento para mobilizações e protestos. No campo político, é instrumento para o questionamento contínuo da ordem estabelecida.

Na dinâmica da produção do conhecimento, as heterodoxias muitas vezes são mais importantes do que as ortodoxias na vida acadêmica. Elas viabilizam o avanço do conhecimento ao propiciar críticas às teorias prevalecentes, identificando suas contradições com relação aos fenômenos que pretendem compreender. Ao questionar o senso comum teórico que assegura a reprodução dos valores dominantes e ao modificar procedimentos convencionais de pesquisa, as heterodoxias também ajudam a abreviar os períodos de pobreza científica.

Contudo, elas têm seu preço. No passado, os Estados Unidos tiveram a caça às bruxas promovidas pelo macartismo. Agora, no âmbito da intolerância, do obscurantismo e da imoralidade trumpistas, esse preço implica o desprezo à tentativa de exercitar uma imaginação criadora capaz de habilitar os americanos a decifrar o sentido dos acontecimentos e a pensar o futuro como história. Ao investir contra instituições acadêmicas de ponta que formam as elites intelectuais, produzem ideias, geram inovações e desenvolvem pesquisas que alargam as fronteiras da ciência, sob o pretexto de que elas constituem um locus de reprodução de conhecimentos adversos e de propagação ideológica, o trumpismo – e sua versão borrada entre nós, o bolsonarista – não são apenas toscos e cruéis. Pecam, também, pela ausência de escrúpulos e pela sordidez moral.

Também somos natureza

Se a natureza não estiver próspera, as pessoas como espécie vão ter mais problemas físicos, mentais e emocionais. Em termos de alimentação, é a mesma coisa, tal como economia. Sem natureza, não temos todas as coisas de que as pessoas gostam e que querem consumir, ou seja, falta fazer a ligação com a espécie humana. Demonstrar que nós também somos natureza. 
Ângela Morgado, diretora-executiva da WWF Portugal

Confissões de um iluminista céptico

Eu sou um iluminista céptico, umas vezes mais iluminista, muitas mais vezes mais céptico. O que é que isto significa? Significa que, em matéria de saber se os homens nascem bons ou maus, se sou mais do lado de Hobbes ou de Rousseau, sou mais do lado de Hobbes – ou seja, nascem maus. Na verdade, nascem animais, ou seja, feitos para se comerem uns aos outros, prática que, sob múltiplas formas, explica o egoísmo, a ganância, o desprezo pelos mais fracos, o espezinhar os que não têm defesa, a indiferença face à pobreza e a miséria, a violência e a aceitação reverente do poder porque é poder, o medo. Ou seja, o “homem é de facto o lobo do homem”.

Parte-se a frágil película daquilo a que chamamos “civilização”, “democracia”, “solidariedade”, respeito pelos outros, o shakespeariano “milk of human kindness” e aí vem o animal, com os dentes de fora, ou o rebanho, ou a alcateia. Aqui é que entra o iluminista, a ideia de que o único antídoto para esta animalidade é aquilo a que chamamos “cultura” no sentido mais lato do termo, ou seja, a tentativa na sociedade de criar uma mediação para a violência da animalidade natural, ou seja, a única possibilidade de encontrar em sociedade o modo de materializar os contravalores da violência, o equilíbrio, a educação, o conhecimento, o bem-estar social, para a felicidade terrestre, mas também dos valores da resistência, da revolta contra a injustiça, da equidade e da paz.

Nesta perplexidade contraditória, penso que Hobbes ganha sempre a longo prazo, mas Rousseau dá-nos momentos frágeis em que a humanidade, quase sempre parte da humanidade, pode atravessar o seu período de vida melhor do que no passado. Na minha vida já conheci alguns desses momentos, a paz europeia desde 1945 até ao início do conflito jugoslavo, a melhoria das condições de vida em quase todo o mundo, melhor medicina, maior conhecimento do Universo, a ida à Lua, a queda do Muro de Berlim, o 25 de Abril, a democracia em Portugal, a diminuição de algumas violências históricas: a tortura, a pena de morte, a violência contra as mulheres, etc. Repare-se que escrevi “diminuição”.



Em 2025, tudo isto está a desabar, e Hobbes a ganhar. Personagens como Trump, Musk, Milei, Orbán, Erdogan, Putin, Bibi são os homens do momento, os que estão com a “seta da história”. Ao lado deles, a senhora Le Pen é uma figurinha. Os EUA mudaram de campo e a sua democracia está a desaparecer, a mentira tornou-se tão comum que a verdade está no exílio. Nas guerras injustas, como a da Ucrânia invadida pela Rússia, o nome orwelliano da rendição imposta pela traição e pela força é “paz”. Na Palestina, assiste-se quase sem comoção a todas as violências e crueldades, enredados em frágeis acusações de antissemitismo para matar habitualmente velhos, mulheres e crianças e, de vez em quando, um terrorista do Hamas. A democracia está a erodir-se por dentro entre deslumbramentos tecnológicos e lucros mais amorais do que é habitual. Todas as mediações tradicionais que funcionavam ao lado das democracias, família, igreja, partidos, sindicatos, mídia de referência, saber científico, primado da lei, estão a ser substituídas pela selvajaria das redes sociais, pela desinformação e pelo espelho do mal, muito mais poderoso do que o bem. As novas gerações têm como modelo os brutos e as bonequinhas com batom aos saltos no Tik-Tok.

Nada disto é novo na história, e sempre deu aos milhões de homens e mulheres que viveram nesses tempos uma vida miserável, dura e cruel. É possível resistir? Claro que é, mas com mais coragem, determinação, astúcia e intransigência. E aceitar viver com mais riscos, mais dificuldades, mais sacrifício pessoal e colectivo, e acima de tudo sem saber se se vai ganhar. Até porque, nunca como hoje, apesar da cloaca das redes, é mais importante o método de influência dos anarquistas nas aldeias da Estremadura e Andaluzia: a propaganda pelo exemplo.

As Luzes iluminam, mas não garantem nada e é sempre mais difícil resistir sem ter qualquer garantia de se poder travar a Besta que somos nós. A mediação da “cultura”, no sentido lato de uma visão da vida e do mundo que canalize os conflitos para a lei e as instituições, que eduque para se conhecer e defender direitos, que mobilize para a solidariedade e não para o egoísmo, que produza leis e práticas que protejam os mais fracos, com a sanção dos abusos dos mais fortes, que perceba a força e a necessidade de igualdade, tudo isto é o caminho. O problema principal é que tudo isto é artificial, feito pelos homens e mulheres, contra o que é natural, a brutalidade.