sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tempos esquisitos

Anteontem, manifestantes em grande número, convocados e bancados pelas centrais sindicais, se reuniram em Brasília para pedir o afastamento do presidente da República. Têm lá os seus motivos. Não são os mesmos que os meus, por exemplo, cada cabeça uma sentença. Mas em vez de expor o que sentem e pensam com a cabeça, preferem usar a força bruta, se comportar como irracionais. Depredar prédios que pertencem a todos os brasileiros, deixar a nossa capital em estado lastimável, amedrontar quem lá trabalha, fazer da nossa bandeira uma piada de mau gosto.

A Polícia Militar de Brasília não soube agir, deu tiros para o alto e para os lados, fez um estrago medonho, mas não soube cumprir sua obrigação primordial, defender e proteger o povo e os prédios públicos. Perseguiu e feriu a Imprensa que estava lá para nos informar.


Que fez o Governo Federal, acuado em seus palácios e vendo a baderna se avolumar pela Esplanada dos ministérios? Convocou as Forças Armadas e logo apareceram os que não sabem ver uma farda sem associá-la aos horrores de 64 e gritam: "Forças Armadas, não!".

Como assim, Forças Armadas, não? Tempos muito esquisitos esses em que não se faz Justiça ao comportamento exemplar de nossos soldados desde a queda do regime militar, em 1985.

Queriam o quê? Deixar que os entusiasmados filhotes dos sindicatos arrebentassem com a capital? Por pouco não atingem a Catedral, por pouco não fazem de Brasília uma filial do inferno.

Pois as Forças Armadas compreenderam muito melhor e aceitaram com garbo a vontade do povo exprimida pelas Diretas Já!, muito mais do que certos civis que só pensam em como se manter no poder para usufruir do tal do foro privilegiado.

O comportamento de nossos soldados tem sido exemplar. Deles é a obrigação de zelar por nossas fronteiras e pela Lei e a Ordem. Se mais não fazem, é porque lhes falta dinheiro até para o rancho, até para os coturnos, até para manter os quartéis em bom estado.

Não sou eleitora dos bolsonaros da vida. Meu coração enregela ao pensar que eles poderiam ocupar o Planalto. Justamente por isso é que não deixarei de agradecer ao bom desempenho dos soldados que juraram e cumprem nossa Constituição.

Ainda por cima, foi muito barulho por quase nada. As Forças Armadas ficaram na Esplanada por menos de 24 horas. Foram dispensadas ontem pela manhã. A ordem já tinha sido restabelecida. Outro ponto a favor delas.

Mas os tempos estão mesmo muito esquisitos. Vemos jornalistas terem suas fontes violadas, vemos juízes que cumprem exemplarmente suas funções serem criticados por advogados que esquecem o juramento que fizeram ao serem admitidos na OAB: "O verdadeiro advogado presta serviços a seu cliente, mas a ele não pode ser subordinado. Não fazemos o que o cliente quer, mas o que a lei nos permite para que possamos defender seus direitos e interesses".

E vemos também, absolutamente chocados, tratamento diferenciado para criminosos que cometeram o mesmo crime: a corrupção que arrebenta com nossos hospitais, com nossas escolas, com nossas vidas, que ameaça nosso mais valioso bem, a democracia. Tempos muito esquisitos...

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Gente fora do mapa

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Entre Trump e Temer

Chove em Nova York. Pessoas se esbarram com os guarda-chuvas, é complicado caminhar, difícil ver vitrines, quase impossível fotografar. Ainda assim, alguns turistas enfrentam o aguaceiro para fazer selfies diante da Trump Tower, grande atração desde que o seu proprietário assumiu a presidência. Há guardas e grades em frente ao edifício, mas os gatos pingados que protestavam quando estive aqui há algumas semanas sumiram. Paro debaixo da marquise do prédio em frente e olho o movimento. Apesar do gosto duvidoso e do excesso de mármores e dourados, a Trump Tower não destoa inteiramente desse cânion de torres, dessa fileira de monumentos ao dinheiro e ao poder.

Magnatas antigos, do tempo em que a educação era considerada elemento essencial à vida civilizada — em que a vida civilizada era considerada elemento essencial à vida civilizada — financiavam obras de arte, e há algumas construções notáveis na vizinhança; Trump, porém, preferiu demolir um edifício histórico, construído nos anos 1920, onde, durante décadas, funcionou uma loja de departamentos chamada Bonwitt Teller. Houve alguma gritaria na época, mas, naquele já distante ano de 1979, mesmo aqui em Nova York, prédios antigos eram apenas prédios antigos. Mais tarde, Trump se vangloriou de ter mandado destruir pessoalmente as esculturas que enfeitavam a fachada, e que havia prometido ao Metropolitan Museum. A história dessa torre é tão cheia de maracutaias que oito andares simplesmente não existem, e os elevadores levam os passageiros direto do quinto ao décimo quarto andar.

Para os turistas, no entanto, a única coisa que importa é que essa é a torre do presidente. Eles param um segundo para as suas selfies, como param os turistas em qualquer ponto do mundo, seja a Torre Eiffel ou o Pão de Açúcar, e vão embora. Eu também vou, porque tenho mais o que fazer. O vento vira o meu guarda-chuva e, até conseguir desvirá-lo, fico totalmente encharcada.

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Somos um grupo variado, com gente de todos os cantos. A certa altura do jantar, nós, brasileiras, pedimos desculpas a colegas, do México, da França e da Inglaterra, por estarmos conversando tanto entre nós, em português.

— É por causa da situação política, não conseguimos falar sobre outra coisa...

— Que situação política?

— O escândalo.

— Ah, há um escândalo no Brasil?

Na hora do almoço, no dia seguinte, descubro que os indianos também não têm ideia do que está acontecendo. Eu sei, eu sei. Eles são nerds e só pensam em tecnologia. Mas a verdade verdadeira é que o Brasil não passa no exterior.

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Bia me liga enquanto faço as malas.

— Quanto tempo você fica em Nova York?

— Duas noites.

— Será que quando você voltar o Temer ainda vai estar no cargo?

O porteiro me ajuda na saída do elevador.

— A senhora fica muito tempo?

— Não, desta vez é rápido, volto na quinta-feira.

— Será que o Temer cai até lá?

Hoje, mais ou menos quando este jornal estiver chegando às bancas e à casa dos leitores, o meu avião estará aterrissando no Galeão. Espero ter a boa notícia que não tive até agora, e que possa, enfim, ter este pequeno, pálido motivo para comemoração: a queda do Temer.

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Vi muitas coisas bonitas e dignas de nota em Nova York. O barulho de fundo, porém, é o mesmo — a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente. O que acontece agora?, nos perguntamos uns aos outros, brasileiros, em cada pausa para o café, em cada encontro casual na rua, em cada refeição. Temer perdeu a chance histórica de mostrar que dignidade, ao menos, ele tinha, e agoniza em praça pública. Tenta comprar um tempo que não tem e que não merece. E lá vamos nós mais uma vez, de desastre em desastre.

Já li e ouvi argumentos a favor de diretas e de indiretas. A Constituição determina indiretas, mas com o Congresso que está aí? Que moral têm esses ratos para dizer quem corta o queijo? Por outro lado, que diretas? Com os marqueteiros de sempre? Com as montanhas de dinheiro sujo que compraram as últimas — e talvez todas, ever, desde sempre — eleições e reeleições? Alguém ainda acredita, no fundo do coração, de noite, debaixo das cobertas, que a vitória de Dilma, arquitetada por João Santana, foi limpa? Ou que uma eventual vitória do Aécio teria salvado o país? Ou que, agora, a possível vitória de um Lula, digamos, ou de um Bolsonaro, será tranquilamente aceita por todos os brasileiros?

Começo a pensar que, no fundo, tanto faz. O problema não é o presidente — ou não é só o presidente. Não há nada que ele ou ela possa fazer, do alto dessa pirâmide de imundície. As estruturas estão podres, o Brasil está podre. Se amanhã importarmos uma freira finlandesa para assumir a Presidência, à tarde ela será estuprada e em dois dias estará se prostituindo. Com gosto.

A única coisa líquida e certa é que Temer não tem mais a menor chance de continuar no cargo.

Vaza, Temer.

Cora Rónai

Sujeira tem dono


A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se compreendem no âmbito de um aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos
Raymundo Faoro
Nenhum texto alternativo automático disponível. 

O que fazer agora?

Assisto o programa comandado por Gerson Camaroti na Globonews entrevistando Ayres Brito, ex-STF, um brasileiro de boa fé e que indubitavelmente gosta do Brasil (coisa rara hoje em dia), e mais alguém.

E o programa acaba como todos acabam hoje: “Financiamento de campanhas só pelo estado é o remédio”.

Se a única alternativa aos 2ésleys e odebrechts é o estado é melhor desembarcar logo desse mundo. Porque a única coisa pior que essa corja é a corja do estado que criou esses dois.

Isso não é a saída, é o fim do beco; é o emparedamento da saída!


A única resposta que funciona para esse dilema é voto distrital puro que dispensa as quantidades de dinheiro de que só esses canalhas podem dispor única e exclusivamente porque atras deles esta o estado que agora querem deixar sozinho bancando as eleições. Faz sentido isso!

Se o candidato for o candidato do bairro, de um distrito eleitoral de um tamanho que faça sentido dentro da ideia de efetiva representação que, suponho, continua sendo tudo que visa a “democracia representativa“, ele só precisa de saliva e do dinheiro que seus próprios constituintes podem pagar para fazer campanha.

Esse remédio para montar legislativos e mais o referendo por iniciativa popular para bloquear todas as leis sacanas futuras e o recall para acabar com a impunidade dos representantes eleitos e você tem um país sob nova direção, com o direito à última palavra entregue a quem precisa de leis que prestem.

Isso inicia um processo virtuoso. Abre a possibilidade de irmos reformando o Brasil daí por diante, todo dia, pouco a pouco, defeito por defeito. Não tem outro jeito de fazer. Começar a conversa com listas enormes de reforminhas é o caminho mais seguro para não fazer nenhuma.

E o que fazer com o que está para trás?

Rever a constituição sob o critério inegociável da igualdade perante a lei, sem exceções. Isso basta para limpa-la de tudo que tem la que não presta.

Não tem de inventar nada! Ta tudo inventado ha 241 anos!

Tudo que nós temos de inventar é a condição para parar essa briga insana que nós não temos mais condições físicas nem materiais de levar adiante, dando a quem quiser aderir ao Brasil, nesta altura em que não sobra mais nenhum santo virgem em lugar nenhum nem do país oficial nem no país real, uma chance de se redimir.

Foco, senhoras e senhores! Três palavras para gritar e basta: IGUALDADE! REFERENDO! RECALL! Façam os seus cartazes e vão pra rua que sai. Tudo que a gente quis saiu. O problema agora é que ninguém sabe o que querer.

Ou é isso, ou vamos todos, engalfinhados, acabar exatamente onde querem nos levar os fascistas, arautos do ódio que babam fel e têm sede de sangue que o país inteiro viu atuando ontem dentro e fora do Congresso Nacional.

Sepultar os mortos, cuidar dos vivos

A devastação do ambiente político nacional já foi comparada a tempestades, furações, incêndios e terremotos. Simbolicamente, o mais provável é que seja mesmo a soma disso tudo e muito mais; a dinâmica política, econômica e moral tem sido ruinosa; trata-se de um processo destrutivo nunca antes visto neste país e, talvez, no mundo. A tragédia contribui para o desemprego e o agravamento das condições sociais; a desolação é grande. Em muito, o ambiente geral faz lembrar o terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755.

Era 1º de Novembro, dia de todos os santos, véspera de finados; a nobreza se retirara para o campo, de modo a aproveitar o feriado. Já a gente simples lotava as igrejas; acendia velas, pedia a Deus pelas almas. Às 9h40 da manhã, o tremor de terra que abalou a cidade pode ter chegado a 8 ou 9 pontos, numa escala moderna; foi descomunal. Logo veio o tsunami, com ondas de mais de 6 metros de altura, colocando a cidade baixa sob águas.


Na parte alta, o incêndio resultante da cera de milhares de velas, que escorria, pôs a arder as ruas e os corpos. A cidade foi destruída. Naturalmente, ocorreram saques de cadáveres, casas e igrejas; as autoridades determinaram que capturados, os saqueadores deveriam ser enforcados e expostos como exemplo. Possível imaginar o cenário: mortes por soterramento, mortes por afogamento, mortes pelo fogo, mortes por enforcamento: todos ali expostos, num quadro de terror.

De volta à Capital, El Rei, Dom José, reunido ao governo, perguntava: o que fazer? “Sepultar os mortos, cuidar dos vivos”. Há divergência quanto a autoria da frase — alguns atribuem a D. Pedro de Almeida, Marques de Alorna, outros a Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal —, o fato é que o conselho ecoou pelo reino. Primeiro-ministro, Pombal reuniu um seleto grupo de arquitetos, planejou-se o novo; para derrubar de vez o velho, nomeou oficial com autonomia para definir o que ia ao chão, o “Bota Abaixo”.

A metáfora serve para a cena política nacional: o primeiro tremor foi o mensalão, depois a turbulência das primeiras ondas de 2013; a operação Lava Jato incendiou a parte alta da sociedade. Crise econômica, a teimosia de Dilma; Eduardo Cunha, o impeachment, Tchau Querida; Lula, Aécio, Michel Temer e seu governo controverso; Joesley Batista e mais outro tsunami — o que faltava? O farisaísmo dos políticos, o moralismo torto nas redes; a intolerância, a impossibilidade do diálogo.

Quatorze milhões de desempregados, a expectativa frustrada do crescimento. O medo de retrocessos institucionais, políticos, democráticos; a desolação; a limitada perspectiva de futuro. O sistema político ruiu. Ninguém sabe por quanto tempo, nesse ambiente, o atual governo se sustentará. O que fazer?

O “Bota Abaixo” caberá ao Supremo Tribunal Federal. Mesmo com todos seus problemas, é a última cidadela do estado de direito. Por sua vez, os arquitetos da renovação estão incógnitos, ainda: o país precisa encontra-los, dar novos contornos ao sistema político. Na eventual queda de Michel Temer, uma coalizão capaz de construir pontes, restabelecer diálogos, desenhar um novo pacto já para 2018, parece fundamental. Assim como Lisboa, o Brasil continuará existindo.

Seguindo a norma simples, como Pombal, o país deve sepultar os mortos deste processo; são vários, à suas almas cabe o despacho deste vale de lágrimas; que os corpos sejam recolhidos, com justiça. Evitar Walking Deads. No mais, cuidar dos vivos, evitando o oportunismo dos muito vivos.

Carlos Melo 

Paisagem brasileira

Zero8centos: Davi Jupira dos Santos:
Davi Jupira

Dificuldade de governar

Charge do dia 25/05/2017
1. 

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht

Lula e Cia deveriam segurar os seus radicais

Lula e as forças políticas, sindicais e sociais que gravitam ao seu redor dançam algo muito parecido com a coreografia da insensatez. Nesta quarta-feira um elenco de arruaceiros marchou sobre a Esplanada à procura de encrenca. Exigiam a queda de um presidente que já está no chão. E guerreavam contra reformas que flertam com o arquivo. Perderam o nexo. Para não perder também a viagem, brigaram com a polícia e destruíram o patrimônio público.

Foi como se os devotos de Lula enxergassem a Esplanada dos Ministérios como uma loja de louças hipertrofiada. Marcharam em direção ao Congresso Nacional como uma manada de elefantes. A isto foram reduzidos os apologistas de Lula: elefantes itinerantes. Ora estão em Curitiba, ora na Avenida Paulista, ora em Brasília. Falta-lhes, porém, um rajá, isto é, um líder que os monte, apontando-lhes a direção e contendo-lhes os modos. Lula ainda não se deu conta, mas a hora é de moderação.


A Lava Jato tranformou a briga entre o petismo e seus rivais numa gincana de sujos contra mal lavados. Lula roça as grades de Curitiba. Aécio Neves assiste ao funeral de sua carreira política em rede nacional. Temer virou caso para estudo: o primeiro político da história a se tornar ex-presidente ainda na Presidência. Num ambiente assim, quebra-quebra disfarçado de protesto, além de ser um crime, é um erro.

Lula faria um favor a si mesmo e ao país se segurasse seus radicais. Permitir que militantes dancem desgovernados é o mesmo que cutucar a sociedade com o pé para ver se ele morde. O brasileiro já parou de abanar o rabo para os políticos faz tempo. Não demora e começa a morder.

Eureka!


Resultado de imagem para TEMER ZUMBI CHARGES
Temer é aquele vaso chinês do qual falou Lula. Só que ele ainda não sabe

Não será agora que me entregarei ao desânimo e à desesperança

Um de meus netos, de 22 anos, que receberá, no fim deste ano, o diploma de bacharel em direito, ao ser questionado, minutos antes de iniciar estas linhas, sobre o que pensa acerca da grave crise por que passa hoje o país, desabafou assim: “Estou desanimado. No instante em que vislumbrava um fio de esperança em dias melhores, um balde de água fria me bateu na cara e insiste em me levar ao desânimo e à desesperança. Luto para não me deixar vencer, mas está muito difícil”.

Em meu caso, porém, leitor, e disse isso a meu neto, apesar das muitas décadas de luta e sofrimento, ou, talvez, por causa delas, não perco nem perderei a esperança no país (e o mesmo, tenho certeza, também acontecerá com ele). O Brasil não se consumirá nem nesta, nem em qualquer outra crise que, sem dúvida, ocorrerá no futuro. Só que, depois da atual, outro país haverá de nascer, se assim o quisermos todos, sobretudo os jovens como o Bruno. A sorte está, pois, em nossas mãos, mas não podemos perdê-la optando por outro caminho que não esteja na Constituição de 1988. É a ela que devemos respeito.

As causas ou motivos que desencadearam verdadeira tempestade sobre o país, e que o expuseram interna e externamente, principalmente depois das providências tomadas pela Procuradoria Geral da República e pelo ministro Edson Fachin, ficarão um dia muito claras, e a história haverá de dizer se, por detrás de tudo, houve ou não, politicamente, segundas intenções. Hoje, pelo menos por enquanto, está tudo muito nebuloso. Liberar um criminoso confesso e deixá-lo livre, leve e rico nos Estados Unidos talvez não tenha sido a melhor das decisões.

Nenhum país, leitor, conseguiria chegar ao estágio de decadência moral a que chegou o nosso da noite para o dia. Isso vem de longe. De muitos e muitos anos. De séculos, talvez. A prática criminosa para se ganharem eleições, mesmo nesses últimos 32 anos de redemocratização, atingiu sua culminância. E ficou provado que os métodos escusos nunca foram privativos de um só partido, embora se possa dizer que, de 2002 até 2015, foram transformados em política de Estado pelo partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – um partido cuja proposta era a de implantar, no país, o império da ética.

Aos trancos e barrancos, o presidente Temer conduzia o país com os olhos nas eleições de 2018. Depois dessa hecatombe que lhe caiu sobre os ombros, restam-lhe, talvez, os versos do poeta: “E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?”. Agora, é o país que está em jogo, presidente.

Escrevo estas linhas (um suplício!) dois dias antes de serem publicadas. Tudo pode mudar em 24 horas. Mas, se o presidente renunciar (a menos traumática das soluções), a Constituição estabelece, em seu artigo 81, parágrafo 1º, que, “ocorrendo vacância nos últimos dois anos do período presidencial, a eleição para ambos os cargos será feita pelo Congresso Nacional, na forma da lei, 30 dias depois da última vaga”. Nada, pois, de eleições diretas. Isso é casuísmo!

Caberá ao Congresso Nacional a responsabilidade de conduzir o país até 2018, quando, então, novas eleições acontecerão. O argumento de que não tem legitimidade porque parte dele está envolvida na operação Lava Jato não procede. Serve como desculpa aos que querem travar o processo de consolidação de nosso regime democrático.

Mas, e se o presidente Temer continuar?

Rezemos, então, leitor...

Imagem do Dia

(6) Sergey Kurbatov:
Sergey Kurbatov

Tempos estranhos

Imaginem, daqui a alguns anos, meu neto descobrindo que o presidente da República foi grampeado pelo empresário Joesley Batista, da JBS, um megabilionário, usando um gravador “roscofe”, comprado na 25 de Março!

Que ele foi treinado pela Polícia Federal e que, mesmo assim, a gravação é amadora, cheia de defeitos. E que, no limite, o presidente foi submetido a uma espécie de teste de fidelidade do João Kleber para, eventualmente, confessar que teria praticado algum crime. Tudo com a permissão do Supremo Tribunal Federal. Como explicar isso?

Outra peça desse enredo é a oferta de uma propina de R$ 450 milhões paga em 20 anos em suaves prestações semanais!

Será factível oferecer propina de tamanho valor em um momento em que até uma gorjeta mais gorda pode ser considerada corrupção? E, pasmem, pode alguém acreditar que isso seja verdade?!
Causa grande estranhamento um ex-procurador sair da PGR para, semanas depois, estar conduzindo um acordo de delação premiada, o maior e mais escandaloso da história do instituto desde que foi criado. Será que não cabia quarentena?

O pior de tudo é que o STF e a Procuradoria-Geral da República aceitaram como prova firme uma gravação amadora, com equipamento de segunda, que pode ter sido editada várias vezes, e sem a devida perícia prévia. É uma grave irresponsabilidade. Em especial, quando se trata do presidente da República. Aliás, responsabilidade é o que mais falta aos atores envolvidos no episódio.

A regularidade dos vazamento de investigações e informações críticas - que podem comprometer os processo - é outro ponto de reflexão. Existe um claro despreparo no trato de questões sensíveis e uma ausência de responsabilidade de funcionários públicos que alimentam à mediatização do processo com os vazamentos. Alías, jamais alguém foi punido por vazamento. Não há, sinceramente, nenhuma vontade para investigar tais ocorrências.

Não sou adepto de teorias da conspiração. Tampouco tiro o peso das suspeitas que fundamentam o inquérito de investigação do episódio no STF. O presidente errou ao conversar com Joesley Batista e, em especial, ao ter ouvido fatos graves sem reagir.

As afirmações de Aécio Neves de que a escolha do presidente da Vale tinha sido dele é desmoralizados para a empresa quando todos chegaram a acreditar que houve um processo de seleção profissional.

As intimidades reveladas nos grampos entre executivos e políticos também são chocantes e apontam para o fundo do poço da política nacional. Sobretudo, uma relação indevida entre o público e o privado no que tange à defesa de interesses de forma pouco republicana.

Não há como justificar os favores pedidos ou as afirmações ditas sem a plena e imediata repulsa. Revelam que os comportamentos pré-Lava Jato são difíceis de serem modificados.

Todos os ingredientes desse enredo remetem a eventos malucos da nossa história política. Como, por exemplo, o Plano Cohen, divulgado em 1937, sobre uma suposta conspiração comunista contra Getúlio Vargas. Era uma farsa construída a partir de fatos concretos. Ou as suspeitas de que o geólogo americano Walter K. Link, que apontou dificuldades para exploração de petróleo na Amazônia, era um agente secreto querendo impedir o Brasil de desenvolver sua indústria petrolífera.

No entanto, para tristeza do país, o caso da gravação de Joesley Batista não é uma farsa. Em sua delação, ele dizia que comprava deputados e dava nome aos bois. Passava a impressão de que estava no campo a serviço de seu matadouro. Ao presidente, Joesley afirmou que tinha dois juízes e um promotor na mão. Um absurdo completo. A questão da mala com R$ 500 mil, que, meses depois, é devolvida para a Polícia Federal, é outro absurdo comprovado.

São revelações muito sérias, que devem ser exaustivamente apuradas. Porém, transitam perigosa e irresponsavelmente no campo da para-realidade, onde verdades, mentiras, factoides, manipulação e fantasia convivem, para a desgraça do povo. A verdade deve ser encontrada. Para o bem do país. O mais rapidamente possível. Para que possamos nos permitir a um novo recomeço.

Laranja podre

Tanto as denúncias contra o ex-presidente Lula quanto essas outras coisas que vieram à tona na semana passada sobre atual presidente são manifestações do mesmo fenômeno.
Paul Blow - "Elections in the Islamic States" for the Guardian. Vivid and contrasting colours create visual unease. The block colours are also powerful and slightly overwhelming. The details in the linework are stylised to help suggest the exaggerated message. Very recognisable images of the ballot box, a vote (X) and the black colour and visible hand associated with a Burqa. Builds off a cultural awareness to make this easy to understand as well.:  
Nós temos um sistema político apodrecido. Se não tratarmos a causa desse problema, nós continuaremos com esse problema. Vão mudar as lideranças, vão mudar os rostos, mas o problema vai continuar existindo

Procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol

Congresso abre portas para ampliar desmatamento na Amazônia

is this the world we want to leave for our children and grandchildren?:
O Senado aprovou nesta terça-feira uma Medida Provisória que diminui a proteção ambiental em uma região onde as áreas de conservação federais já são as mais desmatadas. A Floresta Nacional do Jamanxim, em Novo Progresso (Pará), perdeu 480.000 dos seus 1,3 milhão de hectares, que foram incorporados à Área de Preservação Ambiental (APA) do Jamanxim, um tipo de proteção de menor rigor. Isso facilitará a legalização fundiária de latifúndios irregulares e possibilitará a ocupação de novas terras, hoje intactas, dentro da floresta amazônica, segundo ambientalistas.

O texto ainda terá que passar por sanção do presidente Michel Temer. A área ambiental do Governo já sinalizou que pedirá para que o presidente vete a medida que, pelas previsões do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente, pode causar a degradação de 320.000 hectares de floresta, ou pouco mais do que duas vezes o tamanho da capital paulista.

O projeto havia sido aprovado na terça passada na Câmara. Ele era uma versão modificada de uma Medida Provisória enviada ao Congresso pelo Governo federal. A medida original pretendia reduzir uma área de 304.000 hectares de Floresta Nacional (Flona), onde a ocupação privada é proibida, para APA, onde ela é permitida obedecendo regras ambientais. Segundo o diretor de criação e manejo de unidades de conservação do ICMBio, Paulo Carneiro, o objetivo era tentar solucionar um conflito fundiário existente na área, permitindo a regularização de propriedades que já estão dentro da floresta. Algumas delas já estavam no local antes da criação da Flona, há 11 anos. A retirada desses ocupantes exigia medidas judiciais. Regularizando estas áreas, seria possível fazer exigências ambientais aos proprietários, afirma Carneiro.

Para compensar o rebaixamento, o Governo propunha ainda que 437.000 hectares dos 1,3 milhão da floresta nacional fossem incorporados ao Parque Nacional do Rio Novo, uma área de proteção integral, ou seja, de conservação ainda mais rígida que as Florestas Nacionais. "Era uma medida compensatória, lastreada no Plano de Manejo da unidade e que abrangia a área mais relevante para a biodiversidade", explica o diretor do ICMbio.

A proposta, entretanto, sofreu mudanças no Congresso, durante uma comissão mista (da Câmara e do Senado), criada para analisar a Medida Provisória do Governo. A Câmara acabou aprovando o relatório do deputado federal José Priante (PMDB/PA). O texto desconsiderou a possibilidade de transformar parte da área em parque e aumentou em 176.000 hectares a área destinada à APA. Em seu Facebook, o deputado postou um vídeo em que comemorou a aprovação. "Dizia aos colegas, hoje [terça passada] estamos discutindo e votando a vida dos brasileiros que moram em Novo Progresso, um município onde as pessoas foram chamadas para habitar e lá produzem (...) Nós nada mais fizemos do que regular uma relação entre o homem que habita e produz nesta região com a preservação ambiental", afirmou ele.

A área destinada à APA pelo Congresso, entretanto, corresponde a uma quantidade maior do que a necessária para regularizar as propriedades já existentes lá, segundo cálculos do ICMbio. Existem no local, segundo Carneiro, 250 fazendas, a maioria latifúndios onde é feita a criação de gado. Também há uma forte presença de retirada seletiva de árvores nobres no local. "O Congresso exagerou a área da APA e, com isso, pode abrir uma nova frente de ocupação, já que na APA há a possibilidade de se regularizar a propriedade, o que não existia antes com a Flona", explica ele. Segundo ele, 320.000 hectares dentre o total rebaixado ainda são de floresta não ocupada.

A região onde está localizada a Jamanxim concentra as 12 unidades de conservação federal com maior quantidade de desmatamento ilegal. Segundo o ICMbio, 67% de toda a destruição em áreas preservadas federais do país ocorrem nestas unidades. O desmatamento na Amazônia cresceu 30% em 2016, últimos dados disponibilizados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Pará, Rondônia e Mato Grosso são os Estados que mais desmataram naquele ano.

O presidente descartável

Quando Dilma Rousseff estava afastada da Presidência, a caminho da guilhotina, a senadora Rose de Freitas, líder do governo de Michel Temer, disse o seguinte: “Na minha tese não teve esse negócio de pedalada, nada disso.” Ela deveria ir embora pelo conjunto da obra e pela inércia do governo.

Temer associou sua impopularidade a um conciliábulo, e contra ele pesa o conjunto do áudio da conversa com Joesley Batista. O presidente procura se defender com argumentos parecidos com os de Dilma, contestando aspectos das denúncias. Injetaram nele o veneno que ajudou a injetar em Dilma. Ela deveria ser deposta. Ele pode ser dispensado, desde que “os homens de terno cinza”, para usar uma expressão da princesa Diana, tenham juízo ao escolher seu sucessor. Pelo cheiro da brilhantina, simpatia pela Lava-Jato não é virtude, e conexões diretas e públicas com seus réus não é defeito.


Há uma semana, quando a crise começou, podia-se acreditar que, numa “operação controlada” da Polícia Federal, conversas haviam sido gravadas e malas rastreadas por meio de chips. (Havia um toque tabajara nesse mundo high tech. Os grampos não faziam parte da “operação controlada”, o gravador usado por Batista era xumbreca, não havia chip na mala que carregou R$ 500 mil, e ela sumiu por uns dias.)

Numa conversa com Joesley Batista, depois que o empresário contou-lhe que subsidiava Eduardo Cunha, Temer teria dito que “tem que manter isso, viu?” Divulgada uma transcrição do áudio, viu-se que não havia sequencia entre a narrativa do subsídio e as cinco palavras fatídicas. Antes delas, Batista dissera que “estou de bem com o Eduardo”. Contudo, a transcrição informava que logo depois de Temer ter dito que “tem que manter isso, viu?”, Batista disse algo inaudível, seguido de “todo mês”. A ideia da mesada ainda fazia sentido. Na terça-feira, o perito Ricardo Molina, contratado por Temer, contestou a transcrição. Onde o Ministério Público ouviu “todo mês”, ele ouviu “tô no meio”.

“Todo mês”, ou “tô no meio”? Essa e outras dúvidas derivaram do voluntarismo da Procuradoria-Geral da República, inebriada pela espetacularização de suas iniciativas. A pressa para divulgar o teor das colaborações da Odebrecht fez com que os vídeos oficiais fossem liberados antes das transcrições. Com o grampo de Batista, foi-se além. Aceleraram-se as negociações, adocicou-se o acordo, apressou-se a homologação e divulgou-se a transcrição de um áudio sem que houvesse a competente perícia. A migração da Lava-Jato para o mundo dos vídeos acabará transformando as salas dos tribunais em estúdios de televisão.

Há uma falta de sintonia entre Brasília, onde se negociam acordos, anistias e solturas, e a essência moralizadora da Lava-Jato. A oligarquia brasileira está ferida, mas luta bravamente. A operação tabajara do áudio de Batista poderá derrubar Temer, mas terá ferido a Procuradoria-Geral.

Vale transcrever o que disse o advogado José Roberto Batochio, defensor de Lula, diante da decisão da Segunda Turma do STF que soltou José Dirceu: “O Supremo fez chegar ao Brasil o 9 de Termidor da Revolução Francesa”.

No dia 27 de julho de 1794 (o 9 de Termidor, pelo calendário da Revolução), foi preso Maximilien Robespierre, conhecido como o “Incorruptível”. Tomou (ou deu-se) um tiro na boca e na manhã seguinte foi guilhotinado.

Batochio exagerou, mas os “homens de terno cinza” sonham com um Termidor.

Elio Gaspari 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

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El Camino del Rey (King's Pathway) Málaga, Spain:
Caminho do Rei, Málaga (Espanha)

Inglaterra para Brasil ver


Caráter a gente tem e pega ele no berço 
Lula na campanha para eleger Agnelo Queiroz
A Inglaterra está triste pela matança de seus jovens, num ataque terrorista, em Manchester. A tragédia, que enlutará por muito tempo o país, no entanto, será superada. No momento de dor, sabemos que ingleses, como todos os povos de governos verdadeiramente governos, se tornarão mais unidos, mais humanizados e principalmente ainda mais civilizados. A tristeza de agora é seu momento mais glorioso de mostrar um país que se faz respeitar com e pelos cidadãos.

Diante da superação de uns em meio à tragédia, sem ameaças terroristas, o Brasil vive seus momentos de mediocridade. Não são os radicais que nos ameaçam com bombas e mortes. O terror daqui é organizado pela mesquinharia nos Poderes, tomado por gente sem qualquer escrúpulo. Nossos mortos não morrem por bombas, morrem por descaso político. Nossos feridos ficam em hospitais entregues à sorte pela corrupção que impede o melhor socorro.

O terror daqui é da bandidagem, porque os políticos limparam os cofres, se fortificaram em palácios ou mansões protegidas, e deixaram uma segurança de mentirinha para a população.

Os ingleses sofrem hoje, mas sabem que amanhã será outro tempo. Os brasileiros vivem enlameados e sob a ameça de cada vez mais se tornarem miseráveis em um país à míngua. governado (vício de linguagem) pelas camarilhas privilegiadas. Uns exibem o orgulho do país que construíram, outros se escondem de vergonha na mixórdia que tentam esconder. 
Luiz Gadelha 

Velho alerta

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Pior fica quando podres poderes inteiros fazem cara de vestal escandalizada e avançam uns sobre os outros em nome da moral e dos bons costumes que não exigem de si mesmos
Fernão Lara Mesquta 

Apuração de crimes fiscais de políticos esbarra em 'lista VIP' da Receita

Num momento em que o país vive sob a pressão de tirar os privilégios dos políticos – com projetos como o fim do foro privilegiado criminal para que sejam investigados na Justiça comum e não no Supremo –, uma outra lista VIP só faz crescer dentro da Receita Federal. No último ano o órgão dobrou o número de cidadãos que possuem uma espécie de “foro privilegiado fiscal”. Em doze meses, o número de pessoas que só podem ser investigadas após a autorização de algum chefe da Receita atingiu 6.052 nomes. No ano passado, eram cerca de 3.000. Nessa relação estão autoridades que ocupam ou ocuparam nos últimos cinco anos os cargos de deputado federal, senador, presidente da República, ministro de Estado, dirigente de empesas estatais (como Petrobras, Caixa, Transpetro), reitores de instituições federais, entre outros. Elas são denominadas pessoas politicamente expostas.

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Todas elas foram beneficiadas por algo que auditores fiscais identificaram ser uma distorção de uma regra que deveria servir para proteger os cofres públicos e aumentar a fiscalização das autoridades responsáveis por manejar recursos milionários. Com isso, procedimentos de investigações que poderiam ser antecipados pelos servidores da Receita, acabam sendo protelados e só ocorrem após outros órgãos, como a Polícia Federal ou o Ministério Público, iniciarem suas apurações. Foi exatamente o que ocorreu na Lava Jato. Diretores da Petrobras que já foram condenados na primeira instância, como Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Sergio Machado e Nestor Cerveró, estavam entre essas pessoas protegidas pelas regras da Receita. Na relação dos blindados também estão o ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral (PMDB), o ex-senador Delcídio do Amaral (que era do PT-MS) e o ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A Receita só passou a olhar para eles com mais atenção após o início da operação.

O conceito de pessoas politicamente expostas surgiu dentro da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (Enccla), é bastante amplo e foi incorporado às normas brasileiras a partir da resolução do Conselho de Controle da Atividade Financeira (COAF) número 16 de 2007. Diz essa norma: “consideram-se pessoas politicamente expostas os agentes públicos que desempenham ou tenham desempenhado, nos últimos cinco anos, no Brasil ou em países, territórios e dependências estrangeiras, cargos, empregos ou funções públicas relevantes, assim como seus representantes, familiares e estreitos colaboradores”.

A lista oficial à qual o EL PAÍS teve acesso possui atualmente 927 deputados e ex-deputados federais, 142 senadores e ex-senadores, 115 governadores, vice-governadores, ex-governadores e ex-vice-governadores, 128 reitores e vice-reitores, além de 174 presidentes de empresas estatais e autarquias federais. A ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) e o atual presidente Michel Temer (PMDB) também estão entre os blindados. Apesar de a resolução do COAF permitir o ingresso de parentes das autoridades na relação, a reportagem não identificou nenhum familiar nela.

A Receita Federal incorporou essa regra do COAF não para colocar uma lupa nas declarações de impostos dessas pessoas, e, sim, para blindá-las de fiscalizações eventuais de auditores. Tudo isso sem uma normatização específica. Se um funcionário da Receita detectar alguma irregularidade na declaração de um ‘cidadão VIP’ e precise cruzar os dados com informações prestadas por um deputado federal, por exemplo, um alerta será emitido aos seus superiores: um delegado, um inspetor e um superintendente da região onde o servidor é lotado. Quase que instantaneamente, esse auditor teria de justificar por que estava checando os dados do parlamentar. O aviso é produzido por um sistema batizado de Alerta.

A nossa herança

Dia desses meditava sobre um curioso aspecto da História, qual o de iludir as mentes mais desavisadas quanto a certos processos e períodos, apenas compreendidos pela posteridade.

Nos últimos anos, vimos 60% das empresas brasileiras negociadas indo parar nas mãos de estrangeiros. Foi assim que chegamos ao insólito país cujos habitantes compram o leite de suas próprias vacas, a água mineral de suas próprias nascentes e a maioria dos produtos de sua própria terra de empresas estrangeiras aqui instaladas.

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Temos sido imprudentes com o uso de nossas riquezas: no ritmo atual de extrativismo, que só aumenta a cada dia, daqui a 82 anos não teremos mais minério de ferro para exportar. Nosso níquel só durará mais 116 anos, o chumbo 96, o nióbio apenas mais 35 anos, o estanho 80, os diamantes 123 e o ouro míseros 43. Sim, o Brasil da Serra Pelada será importador de ouro daqui a mínimos 43 anos!

Dizem alguns que o Brasil cresceu nas últimas décadas. Fico a me perguntar, e vai aí uma grande pergunta, quem tem crescido verdadeiramente - se o Brasil, exportador cada vez maior de riquezas em sua maioria não-renováveis, ou se empresas aqui instaladas, com alguns poucos e evidentes reflexos positivos no nosso dia-a-dia e nas contas nacionais. Confesso não ter encontrado ainda resposta a esta pergunta.

O fato é que nossa geração abriu mão de desenvolver um parque industrial próprio, desnacionalizou nossas mais importantes empresas, e está a consumir inebriadamente as maiores riquezas não-renováveis que a natureza nos ofereceu. Temos assistido complacentemente o capital estrangeiro se apropriar de serviços e riquezas do Brasil de forma antes só concebível em alguns indefesos países africanos. Que a história nos seja misericordiosa, pois que nossa responsabilidade é imensa.

Parece incrível, mas vergonhosamente empresas estrangeiras já são responsáveis por 70% de nossas exportações de soja, 15% das de laranja, 13% de frango, 6,5% de açúcar e álcool e 30% das de café! Isto já sangra o Brasil em mais de US$ 12 bilhões a cada ano só a título de remessa de lucros.

Fico a temer pela cobrança das gerações seguintes, que estão por receber de nossas mãos um país loteado, retalhado, quase que vendido, fruto desta "Era da Alienação" que, no futuro, os livros de História registrarão.

Pedro Valls Feu Rosa

terça-feira, 23 de maio de 2017

Onde teríamos acertado?

Na luta contra a corrupção em si, nada de novo. Acabar com a corrupção não é só a promessa de todos os nossos candidatos, mas a divisa de todas as nossas revoluções e justificativa de todos os nossos golpes. Cada um a interpreta à sua moda. Para os donos do poder, essas acusações nunca passam de pretexto golpista, demagogia, moralismo barato. Ao contrário, quem derruba e sobe alega sede de justiça, autêntica aspiração popular.

Mas se essa dualidade também ocorre no momento atual, existe uma diferença gritante no desenvolvimento da luta e no seu desenlace.

A tradição limitava o embate ao terreno da política e ao desenlace em sangue, como no suicídio de Getúlio Vargas, ou em mudanças traumáticas de regime, como em 1964, ou na tradicional pizza. O impeachment de Collor e o de Dilma Rousseff foram exceções à regra, primeiros sinais de que alguma coisa estava mudando.

Com a Lava Jato, no entanto, o Brasil assistiu, estarrecido, a uma espantosa novidade: a prisão de milionários e políticos poderosos, não como resultado da brutalidade de atos institucionais ou da veneta da polícia política, mas com as instituições funcionando normalmente e respeitado o direito de defesa.


Onde teríamos acertado? De onde a Lava Jato tirou a sua força? Entre os elementos mais citados, temos os avanços da tecnologia, que hoje permite rastrear transferências bancárias pelos descaminhos dos paraísos fiscais, a eficiência das delações premiadas, o apoio decidido da grande imprensa, a revolta popular às voltas com hospitais sem medicamentos.

Uma das explicações mais citadas é que os excessos de corrupção recente teriam causado a reação moralizadora. Ouve-se falar que nunca, em tempo algum, a corrupção atingiu patamares tão elevados. É, talvez, uma meia-verdade. Se as somas envolvidas não têm paralelo, convém lembrar que somas envolvidas e a gravidade das consequências nem sempre andam juntas. Os 30 dinheiros que compraram Judas no suborno mais famoso da História, ao câmbio de hoje, dariam para comprar dois pares de tênis de marca.

De qualquer maneira, todos os casos do passado ao presente brasileiro, dos deputados de enxurrada do Império ou das eleições a bico de pena da Primeira República ao dinheiro da Petrobrás, nada se compara ao tráfico de escravos. Nos primeiros dias da independência, por uma série de tratados que a Inglaterra começara a impor desde 1810, o tráfico negreiro saiu lentamente da legalidade, mas continuou a prosperar com a total conivência ou tolerância das autoridades até 1850, quando os navios da esquadra britânica passaram a invadir os portos brasileiros apresando ou incendiando os negreiros ancorados.

Na expressão de Joaquim Nabuco, foi o crime geral e incomparável da nossa História. Incomparável “pela perversidade, horror e infinidade de crimes particulares que o compõem, pela sua duração, pelos seus motivos sórdidos, pela desumanidade do seu sistema complexo de medidas, pelos proventos dele retirados, pelo número de suas vítimas e por todas as suas consequências”.

Hoje em dia, quando se lamenta a força descabida dos bicheiros, dos traficantes e dos empreiteiros, convém lembrar que o Brasil já foi o país dos negreiros. Se não serve de desculpa, serve ao menos para pôr as coisas em perspectiva, e talvez nos ajude a entender o que deu certo na Lava Jato.

Mas, afinal, onde foi que acertamos? Além dos fatores já citados e que, juntos, compõem um feliz concurso de circunstâncias, vale lembrar a resistência crescente da opinião pública a ver o suborno como fatalidade dos negócios com o Estado. Já não se aceita que a propina seja um mecanismo indispensável para se livrar da extorsão dos políticos. Outra explicação para o êxito da Lava Jato teria vindo não de seus méritos, mas dos excessos dos governos que por falta de experiência teriam ido com muita sede ao pote.

Ao relembrar o velho ditado “quem nunca comeu melado quando come se lambuza”, Gilberto Freire lembra que ele se aplica a uma multidão e situações figuradas, além da concreta. “Come-o não somente com a boca, como com os olhos, com as mãos, com o nariz; com o rosto inteiro; com os próprios cabelos; derrama-o sobre a camisa e sobre a roupa, extravasa-o sobre a mesa; emporcalha a toalha”. Algo análogo teria ocorrido com a Petrobrás.

Mas, como a própria Lava Jato passou a demonstrar, a corrupção também atinge partidos políticos há muito tempo no poder. A tal ponto que, desenganados com todos eles, alguns desmemoriados começam a pregar a volta dos militares ao poder. É provável que os escândalos do período verde-oliva – Coroa-Brastel, Delfin, Haspa, Continental, Sulbrasileiro, Capemi, o caso das polonetas e tantos outros – tenham caído no esquecimento.

Mas um único fato bastaria para avivar a memória. Durante todo o regime militar, as empresas brasileiras de certo porte exibiam militares da reserva, coronéis de preferência, se possível generais, em cargos de diretoria, conselhos de administração ou assessorias variadas. Em empresas estatais o processo era simples, pois, como donos do poder, os militares iam nomeando uns aos outros. Nas empresas privadas, sua utilidade para abrir portas ficava clara pelo apelido “maçanetas de ouro”.

Convém notar, finalmente, que a avalanche de críticas aos empreiteiros deixou soterradas verdades inegáveis. Sem o trabalho de seus engenheiros, administradores e operários as colheitas de café e de soja apodreceriam nos campos por faltas de estradas e mesmo que houvesse caminhos de terra de nada serviriam, pois não haveria como exportá-las sem portos nem aeroportos. Não haveria como protestar em Brasília, pois não haveria Brasília. Aí, sem dúvida, foi onde acertaram. Mas também receberam até bem demais pelo seu trabalho e empregaram muito mal o dinheiro recebido. Aí foi, sem dúvida, onde erraram. A Lava Jato veio em boa hora para separar erros dos acertos nacionais.

Imagem do Dia

Jodhpur, a Cidade Azul da Índia (Steve McCurry.)

O grande teatro do escárnio

“Já li o texto do nosso amigo”, disse Indaira.

Qual é o título da peça?

O Pântano e o Labirinto.

Grande título! Quase toda a humanidade cabe nele…

“É um exagero”, ela discordou. “Mas alguma coisa deste Brasil está na peça… Cenas da anomia nacional…”

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Quanta coragem do nosso amigo, Indaira! Mal consigo escrever cinco linhas sobre um dos meus pássaros preferidos. Outro dia, um sabiá posou na romãzeira que a Célia me deu e começou a cantar. Às vezes, o canto de um pássaro é uma melodia para sempre. Os sons lembravam o sopro de uma flauta… De lembrança em lembrança, recordei um poema do Rûmi…

“Rûmi?”

Jalal Udin Rûmi, o grande poeta persa, admirado por Hafiz… Dois místicos admirados por Manuel Bandeira. Você deve ter lido Gazal em Louvor de Hafiz.

“O País está se esfacelando, e você vive embriagado pelo êxtase místico, pelos gazais… É desilusão?”

É apenas poesia, eu disse. O sonho de uma aventura. Mas por que O Pântano e o Labirinto?

“Estamos num pântano, não podemos andar… Os três poderes são o que são, ou o que sempre foram. E labirinto… porque estamos perdidos… E o que é pior, perdidos e surdos. Não há vozes, só barulho… Todos falam ao mesmo tempo, ninguém se entende, ninguém escuta… É aí que surgem os oportunistas, os que dizem não ser políticos… Mas perigoso mesmo é um velhaco, saudoso da ditadura: o tenebroso deputado homofóbico, o apologista do estupro, da tortura, do ódio aos quilombolas e índios… E nada acontece... Não é incrível?”

É totalmente crível, Indaira. Uma parte das pessoas pensa assim mesmo, como esse líder de araque. O ódio atrai certo tipo de gente... Outra parte cultiva o respeito e a compreensão, mais que a tolerância. Porque só a tolerância não basta. E há uma terceira parte, a mais sofrida e misteriosa… A parte dos desesperados… Milhões de pessoas tentando arranjar um emprego, essa coisa rara no País… Aliás, em quase todo o planeta.

“Há saída neste labirinto?”

Não sei. Quem leu o texto da peça foi você. Sou apenas um espectador. Quer dizer, serei um espectador quando a peça for encenada. Sair do pântano e pisar em terra firme é possível; sair do labirinto é quase inconcebível… E, pensando bem, pra que sair? Não é melhor tentar encontrar outros caminhos e permanecer no labirinto?

“Na peça do nosso amigo, todos os caminhos estão bloqueados.”

Todos? Ele se esqueceu da liberdade dos que estão perdidos. E da poesia… O fio de Ariadne, o amor por Teseu. Amor ferido ou traído…

“O amor… Nosso amigo vai dizer que você não passa de um reles romântico.”

É verdade… Um romântico com pés no chão, ou com o corpo afundado no pântano, mas sempre pensando em outros caminhos. Não há amor nem traição nessa tragédia? Nem mesmo uma cena amorosa, com uma taça de vinho envenenado?

“Amor na anomia? Nessa guerra latente entre irmãos? Parece que os brasileiros viraram Caim e Abel… O que se vê no espelho do País? Obscurantismo, linchamentos, risadas luciferinas… O paraíso tropical é inferno há muito tempo.”

Todos os paraísos estão perdidos, Indaira. O fio de Ariadne é o que nos resta. O amor e a liberdade. Vamos sugerir ao nosso amigo dramaturgo essas frases do João Guimarães Rosa: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Define a sua cidade

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De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dois ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dois ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dois ff se compõe.

Se de dois ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dois ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

Gregório de Matos

O enigma do sistema

É um nunca acabar de emoções… Financiamentos por baixo do pano, achaques, subornos, propinas, compras de leis e de decisões judiciais tornaram-se corriqueiros, banais. O mais expressivo é que o vendaval de denúncias não parece afetar os envolvidos — eles continuam procedendo da mesma forma, como impulsionados por um movimento dotado de dinâmica própria.

A tentação é grande de acompanhar as delações — sempre deletérias — como episódios singulares, individuais, sorvendo sadomasoquistamente os episódios obscuros, as inconfidências, as negativas patéticas, o cinismo. Muitos até esquecem, indignados, que eles próprios é que elegeram — ou reelegeram — os implicados nas denúncias.

Seria, talvez, necessário que se começasse a pensar e a refletir por que tantas grandes lideranças, por que todos os principais partidos políticos entraram neste jogo e foram tragados por ele. Os dois últimos escândalos que abalaram — e ainda abalam — o país não terão evidenciado, e mais uma vez, que estamos diante de uma crise de caráter sistêmico? A verdade é que há um jogo sendo jogado. Uma engrenagem, um sistema, que precisa ser analisado, compreendido e superado.

Este sistema tem suas raízes na Constituição de 1988.

Ulysses Guimarães, numa licença poética, a celebrou como “cidadã”. O texto, de fato, tem virtudes, até inesperadas, considerando-se a maioria conservadora que o aprovou. Uma delas foi a consagração das clássicas liberdades democráticas. Não era pouco, para um país que emergia de uma longa ditadura. Uma outra inovação positiva mereceria destaque: um conjunto de direitos sociais, mesmo que se saiba que há sempre uma distância entre direitos constitucionais e práticas sociais.

Ao mesmo tempo, porém, bem “à brasileira”, conciliando opostos, a Carta Magna abrigou uma série de dispositivos autoritários. O mais perigoso foi a reiteração da tutela das Forças Armadas e o seu direito de intervir na vida política nacional, sempre e quando requisitadas para garantir “a lei e a ordem”. Previu-se também o impeachment, este atentado à soberania democrática popular, pois reserva a uma elite de representantes o direito de usurpar o voto de grandes maiorias. O triste foi ver as esquerdas dele se servirem antes de experimentar o seu amargo sabor.

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Tais dispositivos não foram casuais. Expressaram a reafirmação das bases do modelo econômico construído pela ditadura: hegemonia do grande capital financeiro, desenvolvimento econômico predador, agronegócio no campo, obras faraônicas de infraestrutura, com estímulo para as grandes empreiteiras, urbanização descontrolada. Foi nestas bases que a ditadura propulsou o capitalismo brasileiro para novos patamares. Elas estão lá, intactas, garantidas pelo texto constitucional.

Em movimento paralelo e articulado, consagrou-se um sistema político elitista. Sob o pretexto de se defenderem contra o arbítrio, os constituintes blindaram os representantes eleitos contra qualquer tipo de controle, popular ou jurídico, aprovando o infame e aristocrático “foro privilegiado”. Na sequência, vieram mordomias de toda a ordem, dotando deputados e senadores de privilégios excepcionais, autênticas jabuticabas, pois só encontradiças no Brasil.

Fecharam-se à sociedade, mas se abriram, sem limites, ao mercado, permitindo o financiamento sem freios de grandes empresas, essencial para campanhas, marqueteiros e programas de televisão cada vez mais caros. E ainda favoreceram-se com dinheiro público, o chamado “Fundo Partidário”, tomado sem consulta às pessoas, transformando os partidos em instituições independentes dos cidadãos. Foi este sistema deformado que, isolado em Brasília, uma ilha da fantasia, proporcionou as condições ideais para a corrupção em larga escala das lideranças e das instituições brasileiras. Engoliu até o PSDB, o PT e o PDT que, nos debates da Constituinte, apresentavam-se como reformistas e inovadores.

O Supremo Tribunal Federal deu um primeiro golpe na engrenagem, ao proibir o financiamento empresarial das campanhas eleitorais. Mas não é seguro que a proibição permaneça no tempo. Por outro lado, ainda na presidência Dilma, para compensar a perda do financiamento empresarial, triplicou-se o Fundo Partidário. E, agora, na reforma política em debate, já se explicitou a perspectiva de duplicar ou triplicar os dinheiros públicos à disposição dos partidos.

Trata-se de um sistema aristocrático. Uma engrenagem antipopular e antidemocrática. Enquanto existir, fabricará Temers, Aécios, Cunhas, Lulas. Triturará todos os que dele se aproximarem e nele se integrarem, salvando-se apenas as exceções de praxe.

A crise brasileira não é obra de meia dúzia de gatunos. É produto de um sistema, consagrado pela chamada Lei Maior. Ou a sociedade encara esta esfinge, a decifra e a supera, ou pode se preparar para ser devorada por uma infindável crônica policial.

Daniel Aarão Reis

Paisagem brasileira

Simplicidade Um gosto que vai alem das explicações.:

Aliados dão corda e Temer se enforca sozinho

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Michel Temer não precisa mais de acusadores. O presidente se tornou um caso raro de autoincriminação. Ele se complica cada vez que tenta se defender. Espremendo-se tudo o que disse em pronunciamentos e entrevistas, Temer produziu as seguintes evidências contra si mesmo: admitiu o diálogo com Joesley Batista, que ele próprio diz ser um empresário desqualificado. Validou trechos vexatórios da conversa gravada pelo pilantra. Entre eles o pedaço do áudio que trata de Eduardo Cunha e da compra de um procurador e de juízes. Temer confirmou ter indicado como seu interlocutor um deputado que depois seria filmado recebendo mala de propina: R$ 500 mil.

Temer também declarou que recebeu o delator Joesley por “ingenuidade”. Afirmou que “não sabia” que o amigo era investigado. Disse que o ex-assessor pilhado com a mala de R$ 500 mil tem “boa índole, muito boa índole”. Já que não pode mais realizar os seus sonhos, Temer tenta pelo menos impedir a realização do pesadelo do surgimento de um novo delator.

Por tudo isso, Temer tornou-se um presidente precário. Até a semana passada, sua prioridade era salvar o país, aprovando reformas no Congresso. Hoje, seu objetivo estratégico é salvar o próprio pescoço. Enquanto tenta desqualificar no STF a delação do corrupto que recebeu com toda fidalguia, Temer pede aos aliados que retomem as votações no Congresso. Os partidos dão corda ao presidente. E vão esboçando um Plano B à medida em que ele se enforca.

Essa é a miséria

Noticia Final: O BRASIL E A LEGALIDADE DE UM ESTADO CORRUPTO: COM...:

Quando as misérias morais assolam um país, a culpa é de todos os que por falta de cultura e de ideal não souberam amá-lo como pátria; de todos os que viveram às suas custas sem trabalhar por ela
José Ingenieros

Estatismo e corrupção

Quanto mais ascendência o Estado tiver sobre a economia, mais corrupção existirá na sociedade respectiva. E o Brasil é vítima evidente do estatismo

Nunca as palavras de Lord Acton foram tão verdadeiras como na atualidade do Brasil: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Não se trata, apenas, do exercício do mesmo por uma pessoa, mas do poder do Estado e suas múltiplas facetas sobre a economia e a vida dos cidadãos, que se transfere, automaticamente, aos indivíduos, políticos ou burocratas, que controlam o Estado. E constitui a gênese da corrupção.

Corruptos e Famílias miseráveis do Bolsa Família:

A história brasileira não conhece episódios de corrupção endêmica como aos que hoje assistimos, nem no Império nem na República Velha. Ambos foram regimes em que o Estado se mantinha alheio aos negócios e à vida privada. A origem da corrupção que nos assola é claramente identificável.

O crescimento da influência estatal sobre a economia nasceu há mais de oito décadas na ditadura de Getulio Vargas nos anos 1930. Vargas foi o principal responsável pelo aumento do poder do Estado mantido, inexplicavelmente, pelos regimes liberais em economia das Constituições que se sucederam desde 1946, após sua destituição.

Naqueles tempos foi uma constante a criação de repartições públicas como autarquias, conselhos, departamentos, inspetorias, institutos e, sobretudo, empresas estatais. Surgiram a Companhia Vale do Rio Doce e a Siderúrgica Nacional. De um dos presidentes da primeira dizia-se que havia bebido o rio, comido o doce e deixado um vale no caixa. A segunda chegou aos anos 1990 aos trancos e barrancos. O executivo Roberto Lima Neto, encarregado de prepará-la para privatização, narra que a empresa estava inadimplente com 44 bancos e fornecedores diversos, além de todos os impostos e contribuições. Tinha linhas de produção paralisadas por falta de insumos, e foi possível reduzir o quadro funcional em nada menos que sete mil empregados, um terço do efetivo. Essas duas empresas foram salvas da onda de corrupção atual pelas privatizações de fins do século XX.

O mesmo não aconteceu com as companhias lançadas no mandato democrático de Vargas, entre 1951 e 1954: Petrobras, BNDES, e Eletrobras. Não foram privatizadas e estão, hoje, em todos os cardápios de corrupção, prejuízos, delações premiadas e demais mazelas a que temos assistido.

O poder quase absoluto do Estado sobre a economia está na raiz da corrupção. Ela não chega a ser um fenômeno exclusivamente estatal. Se ocorrer em empresas privadas, será episódio circunscrito a cada companhia e seus acionistas. Mas quando acontece no âmbito do Estado, atinge todos os contribuintes e, portanto, a coletividade, pois é ela que pagará a conta.
Quanto mais ascendência o Estado tiver sobre a economia, mais corrupção existirá na sociedade respectiva. E o Brasil é vítima evidente do estatismo criado nos anos Vargas, mantido nas etapas posteriores, inclusive no regime militar, e exacerbado no período lulopetista.
Ney Carvalho

Alegria, alegria

Ligar o circuit breaker

Deixem-me ser mais claro: a realidade do que está acontecendo não é a que aparece na imprensa. Desde que a mudança de velocidade na produção de fatos mudou e a crise reduziu, na direção contrária, as condições das redações de apurá-los por meios próprios, elas vêm, cada vez mais, sendo usadas pelas partes em luta pelo poder para disparar, umas contra as outras, os seus dossies. 99% do que se publica hoje sobre a luta política em curso no Brasil não é material apurado por jornalistas, são dossies feitos por terceiros que os detonam através de órgãos com reputações mais respeitáveis que as suas.

Quem, no meio jornalístico, ainda entra nesse jogo depois de tudo que já passamos ou está sendo otário ou está de má fé.

Eu aposto meus 50 anos de jornalismo militante que todos os políticos brasileiros de hoje estão filmados e gravados em telefonemas, encontros com “traíras” e flagrantes de relação com “operadores” por sua vez filmados entregando ou recebendo malas de dinheiro. A diferença é que só uns poucos estão publicados enquanto a maior parte continua inédita por todas as razões menos porque não existam.

Essa generalização do recurso a financiadores de campanhas “revelada” nas delações não decorre de qualquer fraqueza genética especial do brasileiro, é só a consequência obrigatória do fato de insistirmos em manter um sistema político e eleitoral que começa pelos filtros corruptores do imposto sindical e do fundo partidário que dispensa os representantes de jogar a favor dos representados, e condiciona a progressão na carreira a eleições periódicas por colégios eleitorais de extensão continental, operação que custa uma quantidade de dinheiro de que só as mega empresas com fontes de faturamento alheias à lógica econômica podem dispor.

Quem ainda está em campo na política brasileira, portanto, é porque se elegeu com dinheiro de ésleys e odebrechts. E como essa gente é o que é, todos os candidatos que eles bancam — e as exceções já morreram por falta de verba de campanha — estão gravados e filmados pedindo e recebendo esse dinheiro. Permanecerão inéditos desde que não atrapalhem o “sistema”.

Todo brasileiro sabe disso e os brasileiros que melhor sabem disso, fora os políticos, são os jornalistas. Fazer cara de vestal escandalizada a cada vez que isto de que eles estão carecas de saber que é a regra e não a exceção, vem à tona, quando não é por motivo pior, é fazer o papel de otário que deles esperam os agentes do crime organizado que iniciam esses linchamentos.

A resposta a esse desafio é desconfiar de tudo e de todos sempre. Não “abraçar” denuncia nenhuma, venha de quem vier, venha contra quem vier, mas sim tratar de desconfiar e investiga-las todas para dar a conhecer, acima de qualquer duvida, que sentido ela faz no contexto maior da guerra de quadrilhas pelo poder.

É urgente dar uma freada de arrumação. Nenhum passo a mais nessa beira de abismo até que todas as forças que nos empurraram até ela estejam clarissimamente identificadas e mapeadas nas suas intenções e comprometimentos. Continuar de olhos fechados agindo como eles determinarem que ajam os órgãos de imprensa é nada menos que suicídio.

Fernão Lara Mesquita

Dezoito brevíssimas observações sobre o efeito JBS

O texto que segue contém observações avulsas sobre os acontecimentos desencadeados pelo encontro entre Michel Temer e Joesley Batista. Creio que sintetizam boa parte das inquietações nacionais.

1. Aquilo foi uma armação? Claro que foi. Afirmá-lo não torna Joesley mais culpado do que já é. E por mais que queiramos desanuviar a cena para o bem do país isso não exime Michel Temer de suas responsabilidades pessoais em relação ao fato.

2. O encontro jamais deveria ter acontecido. Lembram da viagem de Ricardo Lewandowsky, então presidente do STF, à cidade do Porto, em julho de 2015, para se encontrar, longe dos olhos da imprensa, com a então presidente Dilma Rousseff? Pois é. Existem reuniões essencialmente reprováveis.

3. A fita foi editada? Haverá uma perícia, tardiamente solicitada pelo ministro Fachin. No entanto, nessa hipótese, quem primeiro deveria ter denunciado isso seria o próprio Temer, para dizer que o diálogo não correspondia ao que foi conversado, que suas frases de aprovação não se referiam aos crimes confessados por seu interlocutor, mas a outros ditos proferidos no encontro.

4. Em momento algum, após a divulgação do áudio, o presidente mencionou que algo pronunciado por ele estivesse ausente da fita levada a público. E mais: quando seu visitante sumiu nas sombras da noite, nenhuma atitude tomou sobre o que dele tinha ouvido.

5. Não vislumbro, portanto, qualquer motivo para abrandar as responsabilidades da mais alta autoridade da República diante do que ouvi naquela gravação, e li na sua degravação.

6. O ministro Fachin atuou de modo apressado, pondo a prudência em risco? Sim, e pode estar na falta de uma perícia da fita, a saída para Michel Temer, na hipótese de que o pleno do STF, julgando o recurso impetrado pela defesa do presidente, suspenda a investigação contra ele. Mas isso não altera o fato em si.

7. O acordo de delação beneficiou os irmãos Batista de um modo escandaloso, que repugna a consciência nacional. A estas alturas, Marcelo Odebrecht deve estar se perguntando: "Onde foi que eu errei?". Não há demasia em imaginar que, no encerramento do acordo da laureada delação, a autoridade pública que o coordenou tenha dado um beijo nas bochechas dos Batista brothers e ido para casa abrir uma bouteille de champagne.

8. No entanto, conforme alertou o Dr. Luiz Marcelo Berger com base na Teoria dos Jogos, os dois salafrários podem vir a ser presos por outros crimes praticados fora do acordo celebrado com a justiça.


9. Toda essa situação beneficia o PT? Sim, tudo que é ruim para o Brasil é bom para o PT, e vice-versa. Por isso, o PT quer rasgar a Constituição e defende a ideia de diretas imediatas. Depois de bater os recordes mundiais de incompetência e corrupção, o partido imagina voltar ao poder para mais do mesmo. Suas lideranças ainda não fizeram ao país todo o mal que pretendem, nem a si mesmos todo o bem que aspiram.

10. O governo Temer emergiu do interior da gestão que dirigia o país desde 2003, compartilhada entre o que havia de pior no PT, no PMDB e no PP. O impeachment de Dilma Rousseff não foi uma campanha oposicionista para "eleger" Michel Temer presidente. Foi uma consequência dos atos por ela praticados e teve como consequência constitucional a posse do vice-presidente eleito e reeleito em chapa com ela.

11. O troféu da ingenuidade vai para quem esperou que um grupo de homens virtuosos saísse do interior daquele governo unido em torno do vice-presidente. Não havia gente assim por lá. Salvar a nação do naufrágio - e isso vem sendo feito - era uma parte da missão. A outra era salvar o próprio pêlo.

12. As medidas para sair da crise, reduzir o descrédito do país (ou, em melhor hipótese, melhorar a confiança nele) envolvem providências que, no curto prazo, causam rejeição popular. Com um Congresso marcado pela corrupção, assombrado pelo temor da reação dos eleitores no pleito de 2018, o apoio a tais medidas envolve concessões que reduzem o efeito das reformas. Elas ficarão ainda mais difíceis sob uma presidência fortemente atingida em sua honra pessoal.

13. Não há conveniência política nem suporte constitucional para uma antecipação da eleição presidencial. A Constituição de 1988, exatamente para evitar casuísmos desse tipo, tornou cláusula pétrea a periodicidade das eleições. Antecipar é romper a periodicidade.

16. Está constitucionalmente determinado que a sucessão do presidente, passada a primeira metade do mandato, se proceda por eleição indireta, através do Congresso Nacional. O artigo 224 da lei 13.165, da minirreforma eleitoral de 2015, define diferentemente, mas está em desacordo com a Constituição.

17. Os fatos ainda estão rolando, como pedras, morro abaixo. Impossível, portanto, fazer previsões com segurança. Inclino-me, porém, pela conveniência de afastar o presidente (por renúncia, por cassação da chapa no TSE ou, na pior das hipóteses, por impeachment), preservando a base de apoio para uma eleição indireta no plenário do legislativo nacional.

18. Pode ser que, um dia, em nova tormenta institucional sempre por vir, despertemos para a absoluta irracionalidade do nosso presidencialismo, pivô de crises que cada vez mais vigorosamente flagelam o país.

Percival Puggina

Os ratos pariram uma montanha

“A montanha pariu um rato”, pontificou Michel Miguel Elias Temer Lulia, minimizando os efeitos da gravação de conversa dele com um megaempresário corrupto. Pois os ratos é que pariram uma montanha. Montanha de mentiras, cumplicidades, negociatas.

Da montanha de mentiras que estamos lendo e vendo nos últimos dias, destaque-se a de que “o presidente não disse nada demais” naquela conversa, como se a omissão ou um “ótimo, ótimo” diante da revelação de crimes não fossem gravíssima cumplicidade. A de que Sua Excelência (quase ia teclando ‘ex-Excelência’) não tinha o deputado afastado Rocha Loures como despachante de total confiança é outra.

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É também deslavado cinismo o distraído mandatário garantir que não sabia que Joesley JBS estava sendo investigado. E que considerou mera bravata – sequer merecedora de reprimenda – este dizer que “segurava” juízes, sem se dar ao trabalho de indagar por que. E que o procurou por causa da “Carne Fraca”...

A montanha que está sendo parida aos olhos estarrecidos da Nação é também a de cumplicidades. O esquemão que irrigava campanhas e patrimônios, envolvendo quase todos os partidos políticos, é uma agudização do capitalismo de laços (ou de compadrio) do Brasil.

A política dos campeões nacionais do BNDES produziu monstrengos que passaram a controlar governos e bancadas parlamentares, como JBS, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Fibria. Uma ‘conurbação’ empresa-Estado que passava pela leniência do CADE, do BACEN e da CVM, órgãos de controle que pouco ou nada controlavam sobre determinados ‘players’, motores do ‘progresso’ nacional e de expansão internacional ativadoras do nosso orgulho patriótico.

A montanha que avulta tem o peso de um modelo econômico que corrompe agentes públicos, nos Executivos e Legislativos, para viabilizar políticas que atendam aos interesses privados das grandes corporações. Elas não têm preferência partidária: seu “partido” é aquele que garantir financiamentos, isenções fiscais e leis que facilitem seus negócios.

Tudo pago com montanhosas propinas.

Pelo matadouro da Friboi passaram 28 partidos, ao custo de R$ 600 milhões. Uma montanha de dinheiro sujo! “Apenas R$ 10, 15 milhões não eram propina”, diz o diretor de Relações Institucionais da JBS, Ricardo Saud.

A montanha parida tem sempre como guia, para escalá-la, um roedor nativo, adaptado ao seu ecossistema. De vez em quando ele é trocado, quando deixa de ser funcional para os que querem explorá-la.

Mudá-lo, porém, não significa abrir nova trilha que possa desvendar para João e Maria (qualquer do povo) os mistérios da colina mágica do poder do dinheiro. A escolha do novo guia pelos tradicionais frequentadores do devastado bioma, em eleição indireta, é uma garantia de que tudo permanecerá como está.

Pode não dar certo, porém. Ventos uivantes vão corroendo as encostas do cinismo, da hipocrisia e da negociata. Ao pé da montanha, aglomera-se a cidadania. A tarefa despoluidora e cidadã que se impõe é tirar dos seus caminhos aqueles que tudo mercadejam. Expulsar os vendilhões é preciso: diretas sempre!