terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Tempo de big band

Orquestra de Benny Goodman com bateria de Gene Krupa

'Arrecua os arfe para evitar a catastre'

Neném Prancha sabia tudo do mundo do futebol e foi autor de frases memoráveis, mas algumas ele nunca as pronunciou. Elas se tornaram lendárias depois que lhe foram atribuídas por João Saldanha e Armando Nogueira.

Eis amostra grátis. “Pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube”. “Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia uma partida”. “Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem defende”. “Se macumba resolvesse, o campeonato baiano terminava sempre empatado”. “O importante é o principal, o resto é secundário”.

Talvez a frase de Neném Prancha de que mais precisemos atualmente seja esta: “ Arrecua os arfe para evitar a catastre”. E por quê? Por que no Brasil dos últimos anos esquecemos o óbvio, ainda que ele uive e grite como o “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues.

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Seu nome era Antonio Franco de Oliveira. Aos onze anos, o menino da cidade fluminense de Resende trocou a cidade natal pelo Rio, onde morreu em 1976, aos 70 anos. Seu apelido era Neném Prancha por ter, ainda em criança, pés e mãos enormes. Como vivia quase sempre de chinelos e falava gesticulando muito, o apelido veio a calhar: plantado sobre duas pranchas, falava abanando mais duas.

Reza a lenda que “O importante é o principal, o resto é secundário” e “Arrecua os arfe para evitar a catastre” foram pronunciadas num jogo em que Neném Prancha, dirigindo um time de presidiários, já perdia de três a zero aos dez minutos. Reconhecendo a superioridade do adversário, a estratégia do técnico deu certo e ele evitou uma goleada maior. O importante, diante daquele time, era perder de pouco.

Na Copa de 2014, quase quarenta anos depois da morte do famoso frasista, o técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, ignorando o conselho de Neném Prancha, dirigia a seleção brasileira na famosa derrota de sete a um para a Alemanha. Os alemães fizeram quatro gols em seis minutos e no final do primeiro tempo o Brasil já perdia de cinco a zero. Laterais e zagueiros não foram recuados e a catástrofe não foi evitada.

Na política, o nome dos que ignoram os conselhos de Neném Prancha é Legião, um dos codinomes do Diabo. Eles são uma multidão ainda maior do que as milícias do Outro, como reconheceu o poeta parnasiano Olavo Bilac numa de suas conferências: “As milícias de Belzebu compõem-se, segundo os mais rigorosos demonologistas, de 6 666 legiões, cada uma formada de 6 666 demônios”.

Por que são tantos? Um empresário de circo, o americano Phineas Taylor Barnum, deu ainda no século XIX duas respostas certeiras: “Nasce um otário por minuto” e “Nada atrai mais a multidão do que outra multidão”.

O presidente Michel Temer poderia pensar um pouco sobre o que disseram o filósofo Neném Prancha e o empresário Taylor Barnum.

Que tempos são estes?

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Pergunto agora: será esta uma época propícia para os mortos voltarem? A cidade tão tumultuada, tanta poluição, tantas greves e os assaltos e sequestros se multiplicando, nas penitenciárias há comandos do crime. Vulgaridade e violência num galope livre nas zonas da burguesia e da periferia onde os rios morrem e as árvores agonizam
 Lygia Fagundes Telles, "Eu Voltarei" (2007)

Ameaças à liberdade de imprensa

A chegada de Donald Trump à Casa Branca representa a confirmação mais contundente do êxito da demagogia, do nacionalismo e das ideologias de ódio que nos últimos anos proliferaram em diferentes partes do mundo. É muito possível que a corrente não se detenha aí. Em vários países da Europa será posta à prova muito em breve a força do atual sistema de democracia liberal diante da investida de projetos igualmente extremistas, xenófobos e populistas.

O crescimento desse fenômeno coincidiu quase simultaneamente no tempo com a crise dos jornais provocada pela revolução tecnológica. Isso não significa que as mudanças políticas ocorridas nos últimos anos se expliquem exclusivamente pela perda de influência dos jornais impressos e o aparecimento dos meios de comunicação alternativos. Mas parece, sim, evidente que uma coisa e outra estão estreitamente vinculadas, e que nós, nos jornais, estamos hoje obrigados a fazer nosso trabalho com menos recursos e em um entorno político que representa uma séria ameaça à liberdade de expressão e muito particularmente à liberdade de imprensa.

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Uma das características desse novo populismo em ascensão é sua hostilidade para com a imprensa, especialmente a imprensa profissional. Com o pretexto da suposta comunhão entre os meios mais consolidados e um perverso establishment, os políticos que se apresentam em defesa do povo, das pessoas, dos de baixo contra os de cima, tentam antes de mais nada esmagar a credibilidade dos jornais com o objetivo de eliminar obstáculos em seu caminho e deixar espaço a outras mídias –confidenciais, contas de redes sociais, blogs– que eles controlem e com as quais possam ter acesso, sem intermediários, a seu público, seus eleitores.

Esta estratégia se tornou brutalmente óbvia nos Estados Unidos. Em uma recente conferência em Madri, o diretor de The Washington Post, Martin Baron, detalhou a lista de impropérios que Trump havia vertido nos meses anteriores contra os meios de comunicação, de forma mais sistemática contra o seu próprio e The New York Times: “Asquerosos”, “escória”, “a forma mais baixa de vida”, “inimigos”, “lixo”. Houve mais desde que nosso colega pronunciou seu discurso.

Não foram muito diferentes os termos com que os líderes de um partido na Espanha se referiram à imprensa e a EL PAÍS em particular. Entre dezenas de calúnias e intrigas que evito enumerar para não contribuir com sua difusão –a repetição de falsidades até transformá-las em verdade é uma tática clássica–, vou mencionar unicamente a campanha no Twitter contra este jornal sob a hashtag “Máquina de Fango” (Máquina de Lama), em novembro, em resposta às informações sobre um controverso episódio de venda de moradia pública.

O propósito em todos os casos é evidente: destruído o prestígio e a credibilidade dos principais meios de comunicação, nada do que eles criticarem terá impacto entre meus seguidores. Funcionou com Trump, que conseguiu sobreviver ao escândalo de suas agressões sexuais a mulheres e que evitou até agora apresentar a declaração de renda que a imprensa lhe pediu. E funcionou com outros, que puderam ignorar, sem esclarecer, as suspeitas sobre suas fontes de financiamento.

Há muitos casos semelhantes em outros países com diferente orientação ideológica – a Polônia de Kaczynski, a Argentina de Kirchner, a Itália de Berlusconi são alguns deles—, todos com os mesmos componentes: políticos supostamente antissistema, meios de comunicação tradicionais e mídias de fácil criação na Internet que servem para difundir a propaganda, as fantasias ou, chegado o caso, as mentiras de quem quer se oferecer como alternativa ao decadente sistema em vigor.

Isto foi possível, em parte, devido aos erros dos próprios jornais. Baron afirmou que apenas 32% dos cidadãos norte-americanos dão credibilidade à imprensa de seu país, o que representa uma queda de 25 pontos desde 1999. A situação na Espanha é apenas ligeiramente melhor. No relatório de 2015 do CIS sobre o assunto, os espanhóis atribuíam aos meios de comunicação uma avaliação de 4,28 pontos sobre dez. Cerca de 15% da população não confia nunca ou quase nunca na mídia, diante de 2,5% que confia sempre ou quase sempre.

Pode-se dizer que o desprestígio que o populismo moderno tenta causar aos jornais só contribui para o o descrédito que essa mídia vem cavando por conta própria nos últimos anos. Sua proximidade excessiva do poder, sua distância dos leitores, sua endogamia e arrogância impediram às vezes que os jornais fizessem uma interpretação adequada dos fatos. Em nossa cegueira, inclusive desprezamos durante vários anos a avalanche digital que vinha em cima de nós e que acabaria por colocar em dúvida nossa existência.

Esse desafio, a transformação para um mundo digital, nos oferece gigantescas possibilidades diante do futuro. Mas também, no presente, nos tornou muito mais vulneráveis —não só em relação aos demagogos que tentam nos anular, como também diante de outros atores políticos e econômicos que tentam nos controlar—, precisamente no momento em que uma imprensa independente e forte é mais necessária do que nunca.

Não me importa insistir nos erros que os jornais cometeram e cometem todo dia. Exageros, imprecisões, frivolidades, omissões, descuidos... estão na ordem do dia de uma profissão que, além de tudo, agora se vê obrigada a trabalhar em condições de trabalho piores. Mas todos os defeitos imagináveis não são suficientes para esquecer a decisiva função de vigilância que os jornais cumprem em uma sociedade democrática. Sem eles, simplesmente estaríamos à mercê dos embusteiros e dos manipuladores.

Às vezes, pretende-se arruinar o crédito dos jornais situando-os com desprezo em um canto da história. Trata-se de apresentar a realidade como uma luta entre as ideias do passado, representadas pelos jornais tradicionais, e as novas ideias que trazem os novos meios digitais. Não é assim. O certo é que tanto The Washington Post como EL PAÍS são também os principais jornais digitais em seus respectivos mercados, e que a verdadeira batalha não é tecnológica mas profissional, não entre papel e web, mas entre quem cumpre as regras do jornalismo autêntico e quem as viola sistematicamente.

Fala-se muito atualmente em fake news, em pós-verdade. As principais redes sociais se precipitam a tomar medidas para responder a essa ameaça, conscientes de que a desaparição do valor da verdade significa simplesmente a desaparição de todos os valores que nos permitem conviver.

Na preservação desses valores, os jornais ocupam um papel determinante. Os jornais têm orientação ideológica, sem dúvida. Defendem algumas ideias e não outras, e são o reflexo de um determinado modelo de sociedade em detrimento de outros. Esse é o jogo da pluralidade. Mas os interesses dos jornais estão limitados ao fornecimento de informação veraz a seus leitores, e sua atuação está claramente marcada por um código ético que devem respeitar. Isso não deveria ser lido como simples retórica em uma época em que, simplesmente, está em jogo a democracia como a conhecemos hoje.

Donald Trump e seus imitadores em outros países não são um pesadelo do qual despertaremos logo para nos vermos no mesmo ponto em que estávamos. Esta onda de populismo e ultranacionalismo pretende transformar radicalmente o sistema político sob o qual vivemos. Se for possível, será levado adiante pela liberdade de imprensa. Por esse motivo, a liberdade de imprensa, os jornais saudáveis, rigorosos e livres são a melhor barreira que podemos oferecer.

Antonio Caño 

Um mundo de angústias

É algo realmente extraordinário. Vivemos, no mundo inteiro, uma era em que o homem prova dia após dia que a livre combinação de ideias, o incentivo à atividade de pensar e a eliminação cada vez mais rápida de barreiras para a criação poderiam garantir que o futuro vai sempre mudar para melhor — e que o ser humano, hoje, encontra cada vez menos limites para transformar em realidade praticamente tudo aquilo que é capaz de conceber. Que coisas seriam de fato impossíveis? A lista diminui o tempo todo. Exatamente ao mesmo tempo, entretanto, as sociedades do Brasil e do mundo, sobretudo aquelas onde são maiores os benefícios, vantagens e mudanças materiais trazidos pela liberação mais e mais audaciosa da inteligência humana, vivem no momento uma ofensiva inédita contra quem quer pensar — ou, mais exatamente, contra quem quer pensar de maneira independente. Aceita-se da forma mais natural desta vida, até com indiferença, que um dia toda a moeda do mundo estará transformada em sinais eletrônicos, que os carros não precisarão mais de motoristas ou que máquinas funcionarão como agentes racionais, capazes não apenas de tomar decisões, mas de tomar as decisões certas. O que não se admite, de jeito nenhum, é que você utilize a liberdade de pensamento e chegue a alguma conclusão desaprovada pela polícia universal do bem.

Fica-se assim, então: o cidadão convive perfeitamente bem com o reconhecimento óptico de caracteres, a utilização de algoritmos na medicina de ponta e manifestações de inteligência computacional avançada. Admite que um dia robôs possam operar as torres de controle dos aeroportos ou fazer cirurgias. Mas não pode dizer “favela” — tem de dizer “comunidade”. Hoje em dia, na vida real, opera através do planeta uma espécie de conselho de árbitros que decide o que é certo e o que é errado, o que é virtude e o que é vício.

Esse tribunal é composto de membros ativos das classes intelectuais, professores universitários e “formadores de opinião” em geral. Seus juízes estão presentes em todos os meios de comunicação, nas escolas do ensino básico e nos sindicatos que representam hoje uma parte tão grande do aparelho judicial. Sua influência não respeita as proporções nas quais as sociedades se dividem — uma pesquisa recente da revista americana Boston Magazine revelou que nas universidades da região, um dos principais centros de ensino superior dos Estados Unidos, há 28 professores de “esquerda”, ou “progressistas”, para cada professor considerado “conservador”. Se isso não é uma situação de desequilíbrio, o que seria? (Imagine-se o que daria uma pesquisa dessas na universidade brasileira — 100 para 1?) Essa gente não tem, é claro, o poder legal de proibir ou obrigar nada. Mas exerce uma repressão cada vez mais aberta na esfera das ideias; torna o ar rarefeito para quem pretende pensar com a própria cabeça. O objetivo é proibir o pensamento alheio. Parece que estamos voltando ao tempo da blasfêmia — ou seja, qualquer coisa que a Igreja Católica não queria que fosse dita. Por esse entendimento do mundo, a liberdade de pensamento é ruim. A liberdade de expressar o pensamento é pior ainda.

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Salvador Dalí
De onde vem isso tudo? Não há uma resposta única, mas é sabido que os avanços espetaculares da tecnologia de primeiríssimo grau e as perturbações brutais que a cada dia mudam, reduzem, deslocam, convertem ou eliminam todo tipo de coisa ligada ao mundo da produção e do trabalho estão criando rapidamente através do mundo uma imensa angústia quanto ao futuro. Atividades, profissões e ofícios estabelecidos há longa data simplesmente somem, substituídos por maneiras melhores, mais rápidas, mais baratas, mais úteis e mais inteligentes de fazer o que vinha sendo feito — e, sempre, com muito menos gente. A maioria se joga com entusiasmo sobre as conquistas deste novo mundo; respeitam, admiram e principalmente gastam o dinheiro que têm consumindo os produtos da chamada “quarta era” industrial. Mas, se gostam do que compram e usam, não gostam de quem faz nem, sobretudo, de quem ganha com o mundo novo — por ser muito dinheiro, somas que ninguém jamais ganhará em toda a vida, e por verem no sucesso dos que criam uma ameaça real para os que consomem. A pergunta­ chave é: “O que vai acontecer comigo?”. Aí já não há nada de cômico.

Existe no mundo do dia a dia uma ansiedade de ordem absolutamente prática — ela pega toda aquela multidão de gente que já sabe que nunca vai chegar lá. São os perdedores da atual “sociedade da inteligência”. Não entendem, simplesmente, como se trabalha nesta nova revolução industrial, ou que utilidade poderiam ter para ela. Espantam-se quando ficam sabendo que o novo prédio-sede da Apple, na Califórnia, custou 5 bilhões de dólares — a construção mais cara da história da humanidade. Sabem, por mais que se esforcem, estudem, façam cursos, que nunca vão conseguir participar desse paraíso digital-eletrônico-tecnológico onde o mundo que “vale a pena” está sendo cons­truí­do, onde os salários podem começar nos 500 000 dólares por ano, e os bem-sucedidos levam uma vida cheia de realizações pessoais, privilégios e respeito profissional. Não são apenas eles os abençoados do século XXI. São todos os que se cevam nesse bioma do sucesso. São os ricos em geral, de qualquer ocupação — pelas contas de 2016, há no mundo 33 milhões de indivíduos com mais de 1 milhão de dólares no bolso, fora a casa onde moram. São os que conseguem os melhores empregos, em qualquer área. São os mais talentosos, os mais inteligentes, os que podem trabalhar nas atividades de que gostam e que acham mais compensadoras. São os que se realizam. São os que têm uma “carreira” — enquanto a maioria, quando ainda se segura num emprego, não tem carreira nenhuma, apenas luta pela sobrevivência do jeito que dá.

Muita gente admira esses vitoriosos, e quer chegar lá. Mas muito mais gente não os considera um modelo a seguir — e, sim, adversários, ou os responsáveis por suas dificuldades. Essas pessoas não acreditam na palavra “meritocracia”; muitas nem sequer entendem o que quer dizer isso. Não acham que os vencedores mereceram suas vitórias. Mais ainda, muitas perderam ou estão perdendo a fé no progresso. O que adianta o progresso, na prática, se você não tira benefício dele? Vão criando a convicção de que progresso é algo que acontece para os outros. Elas são, hoje, o grande público-alvo da pregação antiliberdade que se reproduz mundo afora. No entender dos novos evangelistas da esquerda mundial, há duas respostas para as frustrações dos que estão perdendo. Uma é propor governos cada vez mais caros. A outra é fazer regulamentos para criar mais igualdade — o santo remédio que corrigiria tudo. Acham, naturalmente, que o caminho mais curto para aumentar a igualdade é diminuir a liberdade. O resultado é que não conseguem a primeira, jamais, e depravam a segunda. Pode ser chato, mas basicamente nada mudou desde Balzac: a igualdade, dizia ele, pode ser um direito, mas nunca será um fato.

Nunca houve no mundo tanta gente vivendo com suas necessidades básicas atendidas, nunca uma porcentagem tão alta da população mundial viveu fora da miséria — uma vitória espetacular, num planeta com 7 bilhões de habitantes. Nunca houve menos fome. Nunca tantos tiveram tanta educação nem tanto acesso à saúde. Mas isso não muda ressentimentos e rancores. As pessoas querem o que não têm — e estão com medo de perder o que têm. É a melhor estrada para o tráfego das posturas contra a liberdade.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Esconderijos da verdade

A verdade morreu, viva a não verdade! Assim se diz. Nas monarquias anuncia-se que o rei morreu, viva o rei! Há esperança. A vida é mais. Mas hoje, no reino da verdade, que é mais radical do que todas as monarquias, o que parece é que a morte vence. O rei morreu, viva a morte! — E se não for assim? Se houver nesse necrológio uma cavalar pressa pós-moderna que não nos deixa desconfiar de que a verdade se escondeu e anda suspirando pelas alcovas, sussurrando em versos e trovas, no breu das tocas, anda nas bocas, acendendo velas nos becos, falando alto pelos botecos? Chico Buarque, que é poeta, conhece isso. E se a resposta a “O que será que será?” da sua “À flor da Terra” for: é a verdade?! Se a verdade andar oculta e disfarçando? Porque antes de mais nada ela é uma história, e nela pode muito bem estar escondida, aguardando o tempo. Seria esplendoroso: a verdade morreu, viva a verdade!

Vamos olhar essa história? Ao risco de alguma dureza de linguagem. Se formos em companhia pode ser suave. Uns ajudam os outros. Não dá é para não ir. Essa conversa de pós-verdade se tornou séria. Mexe com a vida. E mexe mal.

Seis séculos antes de Cristo, os grandes pensadores pré-socráticos conceberam a verdade como o próprio mundo se movendo, e a vida com ele. Mar vai, mar vem. Vai e oculta a areia da praia. Vem e a areia aparece. Mostrar e esconder, eis a verdade. Não nos pertence. Pertence ao mundo, e nós com ele. Embolados nas marés. Nadando e tomando caixotes de espuma e areia.

No século V a. C. os magníficos “professores da Grécia”, os sofistas, puseram os pré-socráticos de cabeça para baixo. Ensinaram que não há verdade. Não nos cansemos procurando. Vamos argumentar, convencer. Com o melhor argumento, naturalmente. Como não sabemos qual é o melhor, apresentemos os dois ou três mais prováveis. E ponhamos a audiência para decidir por convencimento. Geremos convicções. Já é muito.

No século IV a. C., Sócrates, Platão, Aristóteles disseram que não. Duas vezes. Não é verdade que não haja verdade. É difícil encontrá-la, mas vale uma vida estar à sua procura. E uma segunda vez: não, convicções não bastam. São necessárias provas. A verdade não é um convencimento, é uma demonstração. Empenha a vida. As provas devem ser lógicas. Os enunciados com pretensão de verdade, os discursos, precisam ser consistentes. Não ter contradições internas. As conclusões devem decorrer rigorosamente das premissas que as antecedem. Se for assim, o enunciado está correto. E, sendo correto, só pode ser verdadeiro. Porque a verdade nunca é, não pode ser, incorreta. — Para eles isso era bastante óbvio. Deixou de ser mais à frente.

Mais à frente é do século I ao XIII d. C., mais ou menos. Aí passou a ser requerida uma verdade adicional: a das coisas elas mesmas. Não bastava a correção dos enunciados. Era preciso que as próprias coisas fossem verdadeiras. Pois, afinal, Deus as criou. E Deus não cria falsidades. Ele não tinha entrado na conversa até aqui. Entrou e mudou tudo. Os caminhos então se bifurcaram. Sto. Agostinho, no século V, procurou dentro de si. Deus habitava lá. O sentido do mundo só podia estar lá. Sto. Tomas, no XIII, olhou para fora. Foi aí que criou sua definição, que colou tanto que passou por ser a única forma da verdade, como se não tivesse antes dela corrido uma longa história. “Adequação das coisas ao intelecto e do intelecto às coisas”. Os séculos seguintes aceitaram e lutaram com essa definição. Nietzsche, no XIX, a odiou. Disse que ela submetia a vida à teologia. Atacou a verdade. Mas não a anulou. Não foi sofista. Reivindicou uma verdade mais alta, a da vontade de potência da vida. Foi uma apoteose. Não prosperou.

No século XX a filosofia estava de língua de fora. Vinte e seis séculos! Vacilou. A ciência entrou e trocou verdade por eficácia, alinhou-se com a tecnologia. E pronto: a verdade morreu.

Morreu? Qual verdade? Talvez a da adequação, a de Sto. Tomás. Mas e a dos pré-socráticos, marés, água e areia? A negação da verdade dos pós-modernos é igual à dos sofistas? (Adianto que não.) A correção do discurso, de Platão e Aristóteles, caducou? Deus saiu de cena? As coisas não possuem mais uma verdade própria? A potência da vida de Nietzsche esfarelou-se? A eficácia pós-moderna é necessariamente pós-verdadeira? — Tudo a verificar. A “pós-verdade” parece uma enorme arrogância anti-histórica. (É verdade que também dizem que a história acabou...)

Muita coisa para pensar. Não são delírios filosóficos. Têm a ver com ir comprar pão e comparecer à urna para votar. Vamos ter de desdobrar essa reflexão por mais umas colunas. Desculpem, mas isso mexe nas nossas vidas. Depois volto à poesia que é também orvalho. Manuel Bandeira sabia. Vamos nos alegrar com leveza. Agora ainda precisamos carregar algumas pedras.

Marcio Tavares D'Amaral

Sinistro

‘Sinto muito, o senhor está morto!’

— Como assim, o que você está falando, estou aqui na sua frente...

— Sim, eu vejo. Mas é por pouco tempo. Se eu fosse o senhor, ia para casa, conversava com os parentes, acertava todas as pendências.

— Que pendências? Só entrei aqui para fazer um seguro, e você me diz que estou morto?

— Não, desculpe, não sou eu quem diz; foi o senhor quem me disse isto quando preencheu a ficha.

— Eu não disse nada! Só falei que moro no Rio.

— Isso. Mora no no Grajaú e trabalha na Barra. Pega a Linha Amarela. Passa na Rocinha. Deve ir a shopping, no fim de semana... tem as joalherias...

— E qual o problema?

— O senhor sabe que a cada ano 59 mil pessoas morrem assassinadas no Brasil? São 29 mortos por cem mil habitantes. Está no Atlas da Violência, do Ipea e do Fórum Brasil de Segurança Pública. Dados de 2014. Ainda não temos os números de 2016. Mas vão ser piores, com esta crise toda.

— Ora, são estatísticas, não quer dizer nada.

— Quer dizer que, em 2014, um de cada 3.436 brasileiros morreu. Cento e sessenta e três por dia. Seis vírgula oito por hora. Imagine, ano após ano contrariando as probabilidades... Uma hora a sorte acaba.

— Não é bem assim. Eu me cuido, Não saio tarde, evito certos lugares. Não me meto em confusão.

— O senhor só não percebe. Quer ver: o senhor tem parentes em Alagoas, não tem?

— Tenho, meus pais ainda moram lá.

— Pois é, o senhor parece boa pessoa, deve visitá-los com frequência...

— Claro, são meus pais.

— Então, isso duplica os riscos. A chance de ser assassinado no Rio é de 32,1 mortes por cem mil moradores. Em Alagoas, chega a 63 mortes por cem mil.

— Tá certo, vou mandar as passagens para meus pais virem me visitar...

— Ajuda. Mas não resolve. O senhor tem também a questão étnica...

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— Questão étnica?

— Noto que o senhor tem uma certa ascendência africana...

— Eu sou negro, não está vendo?

— Sinto muito. Não é preconceito. Mas, para cada branco morto, morrem 2,4 negros.

— Essa não, você diz isto para aumentar o valor do seguro.

— Desculpe, mas não posso vender este seguro. Qual o seu time?

— Meu time?... Botafogo. O que isto tem a ver?

— Tudo. O Botafogo andou jogando naquele estádio da Ilha do Governador, não foi? Um risco! Imagine, pega a Linha Vermelha, vai se guiando pelo Waze e cai na Maré. Sem volta.

— Você só pode estar brincando; então eu estaria mais seguro se torcesse pelo Flamengo ou pelo Vasco?

— Vasco, não, um perigo! A Cracolândia, bem no seu caminho...

— Quer dizer que não posso fazer um seguro?

— Lamento, realmente, sinto muito: o senhor está morto!

— ...

— Ah, mas se a sua senhora quiser, temos um bom pacote de auxílio funeral.

Luiz Claudio Latgé

Paisagem brasileira

Paisagem rural, Ribeiro de Sá

Prepotência de Eike servia à corrupção

Em junho de 2011, o empresário Eike Batista admitiu que emprestara o seu jatinho Legacy ao governador Sérgio Cabral para que ele chegasse a um resort da Bahia para a festa de aniversário do seu amigo Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta.

Interpelado sobre a eventual impropriedade do mimo, Eike vestiu o manto de homem mais rico do Brasil, oitavo do mundo, e respondeu:

"Tive satisfação em ter colocado meu avião à disposição do governador Sérgio Cabral, que vem realizando seu trabalho com grande competência e determinação. Sou livre para selecionar minhas amizades, contribuir para campanhas políticas, trazer a Olimpíada para o Rio (...) e auxiliar a realização de diversos projetos sociais e culturais do Estado".

Batista exercitava a superioridade dos poderosos. Ele sabia a natureza de suas relações com o governador e tinha certeza de que esse segredo jamais seria rompido.

Entre 2009 e 2011 o casal Cabral voara 13 vezes nas asas de Eike, mas isso era apenas um aperitivo. Ele deslizara US$ 16,5 milhões para os bolsos de Cabral, sempre "com grande competência e determinação".

A sabedoria convencional leva as pessoas a acreditar que empresários muito ricos são também muito inteligentes. Os casos de Eike e de Marcelo Odebrecht mostram que às vezes a prepotência lhes embaça o raciocínio.

Eike não precisava ter assumido um tom principesco ao tratar do empréstimo do avião.

Da mesma forma, em 2014, ao ser incriminado na Lava Jato, Odebrecht deu uma lição de moral à imprensa: "A euforia de se publicar notícias de impacto em período eleitoral extrapolou o razoável. (...) Neste cenário nada democrático, fala-se o que se quer, sem as devidas comprovações, e alguns veículos da mídia acabam por apoiar o vazamento de informação protegida por lei, tratando como verdadeira a eventual denúncia vazia de um criminoso confesso e que é 'premiado' por denunciar a maior quantidade possível de empresas e pessoas".

Tanto no caso de Eike como no de Odebrecht, as suspeitas de 2011 e 2014 revelaram-se conversas de freiras. A verdade ia muito além. Para glória da Viúva, Marcelo Odebrecht e seus 77 executivos tornaram-se "criminosos confessos". Eike irá pelo mesmo caminho.

Deploráveis sinais de barbárie ao sul do Equador

Os massacres nos presídios vêm expondo a barbárie de gangues que usam armas rudimentares para o assassinato, seguido de degola das vítimas ou mesmo esquartejamento, e exibem seus atos em redes sociais. A grande mídia não apresenta as imagens, mas cópias são disputadas no comércio ambulante de grandes cidades porque há segmentos sociais que curtem esse tipo de expressão da maldade humana.

Outros crimes bárbaros ocorrem diariamente no Brasil, como estupro de bebês, execução sumária de delinquentes, perseguição implacável a famílias de adversários, latrocínio de idosos na área rural e esfaqueamento de parentes ou amigos por motivos fúteis. O elenco de atrocidades é inesgotável em todas as classes sociais, mas identificam-se, na maioria dos casos, o desespero pela miséria, a ignorância, a solidão, o abandono de vulneráveis e a ausência de instituições para assegurar integridade física, conforto emocional e bem-estar social de cada cidadão.
"Somos uma nação e uma sociedade violenta, não, violentíssima para ser mais exato. O estereótipo de somos historicamente um povo nascido e criados em um berço de esplendor na qual a índole brasileira se formou pela miscigenação adorável e amável na qual as raças aqui se encontraram é uma falácia dolorosa desmentida todos os dias no cotidiano pelos atos de barbárie que assolam a nossa sociedade.":

Esse quadro mostra que o país não atingiu a modernidade, pois outros indicadores são ainda mais taxativos quanto ao atraso, escancarando as deploráveis condições em que vivemos: infraestrutura obsoleta, problemas sanitários, dificuldades para mobilidade espacial, ineficiente sistema educacional, acomodação em favelas, desemprego e subemprego de diferentes faixas etárias, crianças abandonadas, idosos desamparados, alta taxa de mortalidade materna, precária assistência médica e insignificante segmento com instrução adequada para o mundo pós-industrial.

Há inexplicável aceitação dos brasileiros, que não se mobilizam para viver com o conforto obtido em diferentes países, mesmo na América do Sul. Essa atitude decorre, talvez, do individualismo que molda nosso caráter: desde que os problemas pessoais estejam resolvidos, não nos preocupamos com o coletivo. Isso se alia ao sentimento de deixar tudo nas mãos de Deus, que controla os destinos de cada um. Evidencia ainda outro viés que perpassa nossa conduta e é, infelizmente, mais difícil de superar, porque implica interesses mais amplos e profundos.

Trata-se de um silencioso pacto entre eleitores e políticos para troca de favores pessoais, estabelecendo larga distância dos interesses nacionais e alimentando as tramas da corrupção. Ele decorre do fatiamento do orçamento público para que os parlamentares atendam os interesses paroquiais e, consequentemente, seus eleitores de cabresto sem vinculação com um grande projeto nacional. Ele permitiria alcançar a indispensável racionalidade administrativa para a formulação de um plano de transformação na infraestrutura e nas relações sociais que encaminhasse o desenvolvimento socioeconômico em todo o país e, consequentemente, a modernização em benefício de todos os brasileiros.

Mesmo assim, ninguém propõe uma mudança radical na práxis política, que é a face mais deplorável do mandonismo, do clientelismo e da dependência perpétua dos eleitores em relação aos caciques regionais.

Gilda de Castro

Vergonha de todos


Mass Media At Work:
Tenho um pouco de medo quando os meios de comunicação não podem se expressar com a ética que lhes é própria
Papa Francisco

O imponderável

Um dos maiores e mais antigo desejo dos seres humanos é adivinhar o futuro.

Neste sentido, os egípcios, 3.500 a.C, jogavam dados – a cleromancia – para desvendar os tempos vindouros.

Em todas as civilizações, há registro de métodos e tentativas de decifrar o enigma que escapa da compreensão humana. A luminosa civilização grega cultuava Pítia ou Pitonisa (serpente) que, segundo a mitologia, era a sacerdotisa do oráculo de Delfos, frequentemente, visitada por celebridades e cidadãos comuns para ouvir conselhos.

Joe Webb  crea una serie de collages que permiten al espectador un diálogo con otras épocas y galaxias. Personajes de Webb también se mueven de un siglo a otro con las mezclas y proyecciones de la artista. El trabajo de Webb es el resultado de el tiempo que trabajó como diseñador gráfico. Joe dice como las limitaciones y variaciones de imágenes que se pueden crear collages.:
Joe Webb
Com efeito, as prospecções futuristas seguem atuais: a leitura das linhas das mãos, a escuta de búzios, o significado dos astros e os mais variados recursos (passo ao largo da visão religiosa do profetismo).

Por outro lado, uma abordagem científica – a futurologia – oferece aos seus discípulos, no máximo, cenários ou eventos possíveis, prováveis e desejáveis.

Na transição dos anos, é muito comum o exercício de cenarização por parte dos cientistas sociais, particularmente politólogos e economistas, em relação ao ano que inicia, no caso, o que se espera para o Brasil em 2017.

Por prudência, cabe a seguinte ressalva: na atualidade, o ritmo vertiginoso das transformações consagra a mudança como uma regra e, por consequência, agrava a nossa angústia existencial diante da “modernidade líquida”, belíssima definição do recém-falecido pensador polonês Zygmunt Baumann. Belo e simples conceito para qualificar a era da incerteza que exibe uma profunda crise da razão.

Neste quadro, que prospecção se pode fazer em relação ao Brasil? 2016 terminou melhor do que começou.

A despeito do elevado nível do desemprego e recessão de 7% do PIB (2015 e 2016), alguns sinais apontam para uma recuperação lenta e gradual da economia: a limitação constitucional dos gastos possibilita um ajuste fiscal de médio e longo prazo; a inflação de 6,29% (IPCA) caminha em direção da meta; a redução da Selic em 0,75% indica um provável ciclo de redução da taxa de juros e, ocorrendo, estabiliza a trajetória Divida/PIB, hoje em 70%; o crescimento expressivo da exportação de manufaturados e semimanufaturados e de 15,3% do setor agropecuário (safra 2016/17) produz o efeito acelerador/multiplicador da economia.

Subitamente, o imponderável – a morte trágica do Ministro Teori Zavascki – “uma trapaça da sorte”, na feliz expressão do Ministro Luís Roberto Barroso, joga um penumbra sobre o futuro do Brasil. Que seja, apenas, uma penumbra e que a trapaça pare por aí.

Empresário de estimação

Em março de 2010, o ranking de bilionários da revista Forbes anunciava um feito extraordinário: Eike Batista subira 53 posições em apenas um ano, tornando-se o oitavo homem mais rico do mundo. Um vencedor, um exemplo - “nosso padrão, nossa expectativa, o orgulho do Brasil”, segundo a ex-presidente Dilma Rousseff.

O então megaempresário, que já criara constrangimentos ao petismo – além de dívidas impagáveis que todos os brasileiros já estão pagando -, quebrou um ano depois dos elogios de Dilma. Agora, diante de um mandado de prisão, é uma bomba que pode detonar a qualquer momento. Daquelas que o alto comando petista preferia ver protegida pela cidadania alemã de Eike.

Assim como tudo que se refere a Eike, a história de sua prisão também é megalômana, digna de best-sellers. Envolve política e corrupção, milhares de dólares, ouro, fuga, dupla nacionalidade, Interpol.

Alvo da operação Eficiência da Polícia Federal, Eike foi delatado por dois doleiros aos procuradores da Lava-Jato, no Rio de Janeiro. Apurou-se que ele pagou US$ 16,5 milhões de propina ao ex-governador Sérgio Cabral, hoje na penitenciária de Bangu. A transação teria sido feita em 2011, por meio de uma triangulação entre bancos do Panamá e do Uruguai, maquiada por um contrato de venda de uma mina de ouro.

Dois dias antes de o mandado de prisão ser expedido, Eike embarcou para os Estados Unidos – a negócios, segundo seus advogados – usando seu passaporte alemão. Simplesmente espetacular.

Como se sabe, Eike não está só.


Trazê-lo à tona pode fazer com que a Lava-Jato encaixe mais peças no sofisticado quebra-cabeça que tem revelado a institucionalização da corrupção no país desde as primeiras incursões do mensalão, vista hoje como um ensaio de amadores.

As palavras dele podem corroborar com informações coletadas em arquivos e delações de dirigentes de outras empresas pagadoras de propinas. Dinheiro farto para engordar campanhas eleitorais, assegurar maioria parlamentar, rechear bolsos, garantir conforto e delícias de inescrupulosos.

Mesmo que Eike nada fale, só a expedição do mandado de prisão escancara a criminosa associação da corrupção com a política de campeões nacionais, cuja conta, estima-se, supera R$ 200 bilhões, só no BNDES.

Dinheiro que garantiu o posto de homem mais rico do Brasil para Eike e fez a fortuna de escolhidos de Lula e Dilma. Dinheiro que não financiou milhares de empreendedores capazes de amenizar a crise e o desemprego. Dinheiro que está sendo pago por todos os brasileiros.

A lista dos amigos campeões não é extensa. São empresas frequentes no rol de escândalos ou de grandes devedores. Ou nos dois.

Nela, incluem-se empréstimos à criminosa confessa Odebrecht, à Friboi, enrolada com o José Carlos Bumlai, amigo de Lula, à Fibria e à Lactos Brasil. Também está a falida megaoperadora de telefonia Oi, que manteve negócios suspeitos com a Gamecorp de Fábio Luís, filho de Lula. E instalou uma estação de rádio base (Erb), antena exclusiva próxima ao sítio de Atibaia que Lula garante que não é dele, mas que, como no lobo da história infantil, tem olhos, focinho e boca que remetem ao ex.

Eike conseguiu torrar R$ 20 bilhões do BNDES.

Cinco meses depois de frequentar pela primeira vez o top ten da Forbes, o empresário de estimação do PT, a quem Lula conferiu privilégios de interlocução antes mesmo de fazer o seu primeiro discurso na ONU, arrematou em um leilão beneficente o terno que o ex usou na posse, em 2003. Pagou R$ 500 mil.

Queria moldar a imagem de empresário do bem. E, assim como Lula, usou o chapéu alheio.

Lava Jato pode consagrar ou arruinar Supremo

Confrontados com o descalabro exposto nos depoimentos dos 77 delatores da Odebrecht, os ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam esquecer a Constituição e o Código Penal por um instante, para se concentrar num conto de Ernest Hemingway. Chama-se ‘As Neves do Kilimanjaro’. Começa com um esclarecimento:

“Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6 mil metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África”, anotou Hemingway. “O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.”

O leopardo do conto serve de metáfora para muita coisa. Tanto pode simbolizar a busca romântica pelo inalcansável como pode representar o espírito de aventura levado às fronteiras do paroxismo.


O Supremo, como se sabe, é o cume da Justiça brasileira. Seus ministros acham que estão sentados à mão direita de Deus. Num instante em que a deduragem dos corruptores confessos da Odebrecht empurra mais de uma centena de encrencados na Lava Jato para dentro dos escaninhos da Suprema Corte, cabe aos ministros interrogar os seus botões: o que fazem tantos gatunos da política no ponto mais alto do Poder Judiciário?

Num país marcado pela corrupção desenfreada, os gatunos da Lava Jato beneficados com o chamado foro privilegiado simbolizam o sentimento de impunidade cultivado pela oligarquia política. Que pode virar instituto suicida se o Supremo for capaz de dar uma resposta à altura do desafio.

Um bom começo seria a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo, homologar até terça-feira (31) todos os acordos de delação. Isso liberaria a força-tarefa da Lava Jato para abrir os inquéritos que transformarão indícios em provas.

De resto, será necessário que o ministro sorteado para substituir Teori Zavascki na relatoria da Lava Jato se convença da importância do seu papel. Seja o seco Celso de Mello, o melífluo Ricardo Lewandowski ou qualquer outro, o novo relator precisa entender que a conjuntura cobra do STF um rigor compatível com a desfaçatez.

No futuro, quando os arqueólogos forem escavar esse pedaço da história nacional, encontrarão sob os escombros de um Brasil remoto carcaças que serão tão inexplicáveis quanto a do leopardo de Hemingway. Resta saber se serão as carcaças de gatunos suicidas ou de magistrados que não se deram ao respeito. A Lava Jato pode consagrar ou arruinar o Supremo.

Em cidade protegida pela Constituição

Em resposta à crise das penitenciárias, erra o governo, em parte, como erraram os governos anteriores e os estaduais. É que o lugar do problema não está no presídio nem na fronteira. Está distribuído no território urbano brasileiro.
Acerta o governo, em parte, ao tratar o tema como questão nacional. Mas ela não se resolverá com planos de segurança. Como nos diz a experiência, eles são importantes, mas parciais.

Há 40 anos o Brasil tinha metade da população e um terço dos domicílios. Embora tenha sido espetacular o esforço brasileiro ao consolidar nesse período um sistema urbano com 5.500 cidades, 20 metrópoles e duas megacidades, de fato, nossas cidades apresentam extensas áreas sem urbanização e escassez de serviços públicos. Produzimos edificações de alta qualidade, mas a precariedade e a irregularidade são majoritárias no parque imobiliário nacional. Demos ênfase ao específico e deixamos à margem o genérico.


Os governos não acompanharam o crescimento das cidades. Desassistidos, bairros e regiões urbanas ficavam pouco a pouco sob domínio territorial de traficantes, que expandiam seus negócios apoiados em armas cada vez mais potentes.

Outras organizações criminosas, sem a droga como base, também se estruturaram territorialmente. Ambos os modelos têm lucros controlando ampla rede comercial que inclui o transporte alternativo, a distribuição de gás engarrafado, o mercado imobiliário, extrapolando para o embricamento no sistema político.

É no domínio territorial que reside a força da bandidagem, como visto esta semana na Cidade Alta e em Irajá, no Rio; e também no DF, em Salvador, em Natal, entre outras metrópoles. Desse domínio resultam a violência e a mortandade, de centenas de pessoas nos presídios e de dezenas de milhares nas ruas de nossas cidades.

O lugar do problema, portanto, é a ausência de Estado em partes significativas do território nacional. O seu encaminhamento depende de uma questão ético-política fundamental: o reconhecimento do direito de todo cidadão brasileiro de viver em cidade integralmente protegida pela Constituição.

A presença do Estado não é retórica. Significa prestação dos serviços públicos, inclusive o de segurança, regularização da propriedade, controle urbanístico e edilício. Há que ter lei do Estado, não da gangue, como em Ipanema, nos Jardins ou no Corredor da Vitória — local do caso La Vue, do ex-ministro. É além de escola e de hospitais. Na ausência, bairros pobres e favelas continuarão dominadas pelo “poder paralelo” e como cidadela de facções e milícias.

Mas, se historicamente o Estado está fora, como poderá de imediato estar dentro?

A cidade brasileira é um ativo fundamental ao desenvolvimento social e econômico. Há de ser planejada, ordenada, cuidada com estruturas funcionais permanentes pelo poder local. A discricionariedade dos governantes, com seus projetos de ocasião, precisa ser substituída por políticas públicas de médio e longo prazos onde a redução da desigualdade intraurbana seja o cerne. Também o âmbito federal tem grandes responsabilidades. Seus programas e políticas têm que ser consequentes, com conceitos e objetivos claros. É preciso que o Ministério das Cidades diga a que veio.

Veja-se a habitação. Mesmo com o alto déficit ambiental e sanitário das cidades, a urbanização de loteamentos e favelas foi abandonada, apesar de importante experiência na década de 1990. Os investimentos federais priorizaram a construção de conjuntos residenciais, em geral, tal como na ditadura, segregados da cidade e segregadores das populações pobres — logo tomados pela bandidagem. Ao invés de servirem de libertação, serviram à dominação.

Se o destino é de país desenvolvido, precisamos mudar o rumo. Planos nacionais de segurança, sim, são importantes; e há uma emergência. Mas sozinhos não serão efetivos. É preciso política nacional de recuperação de todo o território nacional para o domínio da Constituição — uma política de cidadania.

O país pede estruturas permanentes e competentes que tratem o urbano como função de Estado.

Sérgio Magalhães

Imagem do Dia


visitheworld: Lake O’Hara, Yoho NP / Canada (by Sergio Rymar).:
Lago O'Hara (Canadá)

Governos não são para gestores

O que há em comum entre Dilma, Trump e Doria? Além do fato de serem outsiders, todos esses personagens se apresentaram aos eleitores com a imagem de bons gestores.

No primeiro caso, Dilma foi apresentada como uma “burocrata competente”, ou seja, alguém com experiência na administração pública e, portanto, com uma visão mais técnica do que política. Trump e Doria exploraram a imagem do “homem de negócios”, “alguém que governará com a mesma eficiência e buscando os mesmos resultados alcançados na esfera privada”. Enquanto a primeira foi beneficiada por um ilusório bom momento econômico, os outros dois se beneficiaram da rejeição dos eleitores aos “políticos profissionais”.


Ocorre que a civilização ocidental atribuiu à política — para o bem ou para o mal — uma lógica própria. Mesmo sendo discípulo de Platão, Aristóteles definiu a atividade política como a administração da pólis, realizada por cidadãos virtuosos, ao invés do rei-filósofo. Sim, para Aristóteles, o homem era por natureza um animal político, mas o mesmo, tal como Montesquieu, definia a melhor forma de governo como aquela capaz de conjugar democracia e aristocracia, cabendo a esta última a tarefa de separar aquilo que seria a boa legislação daquilo que seriam as “paixões momentâneas”. Mutatis mutandis, a tarefa de legislar seria incumbência de uma pequena elite política.

As virtudes públicas preconizadas pelos gregos foram, mais tarde, transformadas em virtu (astúcia) por Maquiavel. A este coube demonstrar que a política possuía uma lógica peculiar e demandava do príncipe uma habilidade própria para a manutenção do seu reinado. Nesta mesma linha de raciocínio, Max Weber no século XX diferenciaria a ética da convicção da ética da responsabilidade ao afirmar que, quanto maior a inserção do indivíduo na esfera política, mais intensa é a substituição de suas convicções pessoais pelas responsabilidades impostas pelo cargo.

Com o insulamento próprio dos burocratas, a ex-presidente Dilma negou a tarefa de conviver com o dia a dia da negociação política com o Congresso Nacional e foi incapaz de operar, no campo econômico, a transição entre convicção e responsabilidade. Trump fez uma campanha xenófoba e, uma vez eleito, tenta, tal qual o Super-Homem, fazer com que a Terra se mova no sentido contrário. Já Doria cometeu a primeira gafe antes mesmo de tomar posse ao afirmar que doaria seu primeiro salário para uma entidade que cuida de “crianças defeituosas”, conceito que causa náusea ao mais empedernido crítico do politicamente correto.

Por mais salutar que seja a incorporação de métodos da gestão privada nos órgãos públicos, a política está no berço da civilização ocidental e apenas os políticos mais profissionais são capazes de sustentar a imagem do não insider.

Gustavo Müller 

Resistir é preciso

Resistir é preciso. Foi essa a mensagem da Marcha das Mulheres, uma inédita manifestação, simultânea em cinco continentes, contra a brutalidade com que o novo presidente dos Estados Unidos insiste em humilhá-las. E não só a elas.

Trump mal saíra do seu baile estilo anos 50, e as mulheres do século XXI já estavam nas ruas anunciando que vão enguiçar esse trator, movido a atraso e ódio, que ameaça esmagar seus direitos duramente conquistados. Madonna pegou o microfone e avisou: “Lutamos pela liberdade de sermos o que somos e de sermos iguais. Vamos manifestar juntos porque assim, a cada passo da travessia dessa escuridão, dessa era da tirania que é o governo Trump, não teremos medo”.


A Marcha das Mulheres que se espalhou por centenas de cidades americanas e do mundo foi uma irrupção do inesperado. Pelo seu imenso porte, uma surpresa, até mesmo para quem a convocou. E uma aula de democracia contemporânea, do modo de fazer política em tempos de internet e globalização, quando cada um decide em seu foro íntimo que luta quer lutar e joga no mundo sua convocatória. Uma advogada aposentada criou um perfil no Facebook convocando à marcha. Recebeu uma avalanche de adesões. A indignação individual floresceu em ação coletiva.

Vai ser um duro enfrentamento. Afinal, as mulheres são persistentes. Vêm quebrando um paradigma milenar que lhes negava o reconhecimento de sua plena humanidade. Conquistaram direitos de que não estão dispostas a abrir mão e forjaram uma ideia clara do seu lugar no mundo contemporâneo. Espalhadas em todos os continentes, estão em todas as casas, são mães de família, profissionais, cientistas, juízas, celebridades, anônimas. De todas as cores, idades e nacionalidades. São metade da humanidade. O homem mais poderoso da Terra, que exprime um genuíno desprezo por elas, não contava com um adversário dessa envergadura, saindo de cada porta. Seu arsenal nuclear, seus agentes da CIA podem pouco contra elas, que mostram a cara e dizem nas ruas sua indignação. As mulheres em movimento são como a floresta que assombrou Macbeth.

Elas sabem por que o conservadorismo as tem na mira. Um dos ingredientes principais desse veneno é o inconformismo com a perda da supremacia dos homens nas famílias e nos múltiplos espaços da sociedade trazida pela emancipação das mulheres. Sentindo o chão fugir debaixo dos pés, os Trumps da vida querem ressuscitar um mundo em agonia. São eles que se sentem mais atingidos e roubados em suas prerrogativas de autoridade, justamente esses que se habituaram a ter nelas o par perfeito, as bonecas para dançar “My way”, elas que não faziam caminho nenhum, que não iam a parte alguma.

Como conviver agora com mulheres que sabem o que querem e o que não querem, falam com voz própria, afirmam o direito sobre seu próprio corpo e desejo, que levam à prisão espancadores e estupradores? E ainda ousam se candidatar à Presidência dos Estados Unidos! Tudo isso vira de pernas para o ar o mundo em que esses homens estavam instalados, como um direito natural, imutável. A reação vem amadurecendo há muito tempo e se personificou agora, de forma caricatural no presidente recém-eleito dos Estados Unidos. Faz parte da caricatura acreditar que piadas obscenas, gestos agressivos, insultos e ameaças intimidariam e calariam as mulheres. Mas as ruas se coloriram no primeiro grande gesto de resistência a esses tempos de trevas. As mulheres foram as primeiras a protestar defendendo seus direitos e o de todos os que foram agredidos, em nome da civilização por quem se sentem responsáveis e que querem construir com direitos humanos, liberdades individuais e equilíbrio do planeta. Arrastaram multidões.

Fica um alerta: no Brasil também estamos em risco. Uma assustadora onda conservadora, inconformada com o avanço das liberdades, ameaça fazer a História retroceder. No apodrecido Congresso Nacional, um amálgama de fanatismo religioso, bancada da bala e parlamentares de extrema-direita aproveita o campo de ruínas em que se transformou o sistema político para tentar reverter os direitos conquistados nas ultimas décadas por mulheres e gays, para coibir o avanço da ciência e difundir nas escolas teorias criacionistas.

Não se minimize o perigo dessa aliança sombria. Humanistas que somos, temos o mau hábito de não acreditar em catástrofes. Poucos acreditaram no pesadelo Trump. Quem quer acordar no pesadelo que seria o triunfo dessa aliança? Antes que esse fantasma se materialize, é provável que tenhamos, nós também, que sair às ruas. Resistir é preciso.

Rosiska Darcy de Oliveira 

A era das carroças

Em muitas cidades a prefeitura comemora quando consegue recapear algumas ruas, entre tantas esburacadas ou já esfarelentas. “Já” esfarelentas, não: ainda e desde muito tempo esfarelando, com a vida útil do asfalto vencida, as pedras entupindo bueiros e causando enchentes, toda a rua “em processo de rápida deterioração”, como diria um técnico, sabendo que sua advertência não será como nunca foi levada a sério pelos governantes.

Afinal, dirão eles, o problema é herdado de governos anteriores, que não fizeram a devida manutenção, o asfalto envelhecendo mal sem cuidados nem consertos, além de mal feito pela corrupção ou pela incompetência sem fiscalização.
Imagem relacionada
Henry Chamberlain. A sege e a cadeira (1822)
Enquanto isso, começamos a acordar que o Estado – das prefeituras à presidência da República – não é pai do povo, é seu filho e deve ser vigiado. Quem trabalha sustenta o Estado, recebendo serviços públicos de filho ingrato.

Recape, por exemplo, recupera mas não melhora rua, que apenas volta a ser a velha rua para trânsito sempre crescente, com transporte público sempre precário. Até que muitas ruas voltem a ser, como nos mapas antigos, apenas “vias carroçáveis”, onde só carroças conseguirão transitar.

Não, não as carroças do Collor, movidas a cavalos-vapor; mas carroças com cavalo e carroceiro, que a cidade foi enxotando para a periferia mas, enfim, voltarão vitoriosas. Passarão pelos buracos e destroços levando jardineiros, vendedores de víveres, disquentregas e até roça-táxis.

Caminharemos – ou trotaremos – para a Era da Carroça.

O prefeito será um carroceiro com mestrado em Oxfordê.

A toda poderosa ABC, Associação Brasileira dos Carroceiros, bancará candidato à presidência da República por uma coligação-carroção de muitos partidos.

Aquele Rolls-Royce da Presidência será trocado por uma carruagem de museu com cavalaria das Forças Armadas.

A AIC, Associação Internacional da Carroagem, arrebatará a diretoria da Fifa, da Onu e, de quebra, do FMI.

A indústria automobilística lançará carroçarros, carroças movidas a motor, nos bairros ricos ou rebeldes com asfalto, e movidas a cavalo nos bairros pobres ou resignados. Estacionamentos terão baias para cavalos, e o quadro de maior sucesso na tevê será A Carroça da Sorte, com um carroção distribuindo prêmios pelo país.

E as pessoas passarão a nascer aC ou dC, antes ou depois da Era das Carroças.

A Seleção ganhará a Copa, e o time desfilará no Carroção dos Bombeiros.

Isto, claro, se antes não acharem um jeito de recuperar não só algumas, mas todas nossas ruas.

Domingos Pellegrini

sábado, 28 de janeiro de 2017

Paisagem brasileira

Mureta da Urca em Rio de Janeiro, RJ / assistir o pôr do sol ali é algo simplesmente mágico! :
Vista da Urca (Rio de Janeiro)

Campeão da roubalheira

A história da República registra proezas de cleptocratas extremamente proficientes na arte de meter a mão nos cofres públicos – que o diga a São Paulo dos tempos do ademarismo e do malufismo. O que talvez não se esperasse é que sobre os protagonistas daquelas épocas reinasse agora, impávido, um fantástico “campeão nacional” da roubalheira, cujas proezas levaram à falência todo um Estado da Federação, o Rio de Janeiro: o hoje encarcerado ex-governador Sergio Cabral, em seus melhores dias amigo do peito dos presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff.

De acordo com o que foi até agora apurado pela força-tarefa da Lava Jato no âmbito da Operação Eficiência, o esquema de corrupção comandado por Cabral é simplesmente fantástico: pelo menos US$ 100 milhões foram encontrados em contas no exterior ligadas ao grupo criminoso, dos quais cerca de US$ 80 milhões pertenceriam ao ex-governador, dono também de US$ 1,8 milhão em diamantes que serão igualmente repatriados. Assim mesmo, segundo revelaram procuradores e delegados da operação, “o patrimônio da organização criminosa comandada por Cabral é um oceano não completamente mapeado”. Para o Ministério Público, “as cifras são indubitavelmente astronômicas” e “esses US$ 100 milhões são apenas uma parte do dinheiro do esquema”.

O jornal O Globo revela que Sergio Cabral, em 25 anos de carreira política, fez seu patrimônio crescer gradativamente, sempre por conta de recursos de origem suspeita. Como deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa fluminense, entre 1991 e 2002, inicialmente filiado ao PSDB e depois ao PMDB, Cabral acumulou um patrimônio de US$ 2 milhões em contas no exterior. Como senador, de 2003 a 2006, seu patrimônio não declarado fora do País já era de US$ 7 milhões. Como governador, de 2007 a 2014, a movimentação de suas contas secretas no exterior foi de US$ 152 milhões, o que equivale a inacreditáveis US$ 18,1 milhões por ano de governo. Dinheiro que financiou um alto padrão de vida não apenas para Sergio Cabral e família, mas também para parentes próximos, como um irmão, a ex-mulher e toda uma quadrilha que se encarregava da captação e distribuição dos recursos de origem escusa depositados em 12 contas no exterior. 


Essas novas descobertas foram feitas pela Operação Eficiência – e, mais uma vez, não se trata de coincidência – a partir de investigações que tinham como objeto o empresário Eike Batista, que, conforme já havia sido anteriormente descoberto, teria pagado a Cabral propina de US$ 16,6 milhões por “favores” diversos. Por ironia, as novas revelações sobre o ex-governador fluminense vêm a público simultaneamente com aquelas relativas ao empresário, que cinco anos atrás, surfando nas prerrogativas de “campeão nacional” do empreendedorismo a que fora elevado pelo lulopetismo, foi apontado pela revista Forbes como o sétimo homem de negócios mais rico do mundo. Só o BNDES contribuiu com US$ 6 bilhões para os planos mirabolantes de Eike Batista que se revelaram inexequíveis e o acabaram levando à falência.

A prisão de Sergio Cabral e seu bando não chega a ser um consolo para a população do Estado do Rio de Janeiro, que não consegue honrar suas contas, nem mesmo a obrigação elementar de pagar em dia seus milhares de funcionários. Mas, se essa desgraça pode ser atribuída, em boa parte, à corrupção deslavada de quem governou o Estado por mais de sete anos, o conjunto da obra é responsabilidade de um poder central que anos a fio vendeu ao País a ilusão da Pátria Grande lastreada na gastança irresponsável que alimentou programas sociais, necessários, mas insustentáveis, e a ilusão de importantes empreendimentos privados reservados para “campeões nacionais” politicamente escolhidos e descuidadosamente financiados por abundantes recursos públicos.

Essa foi uma experiência dispendiosa e frustrada da qual Eike Batista e seu império de fachada são um triste exemplo. Assim, o título de “campeão nacional”, que o lulopetismo não conseguiu garantir para empreendedores amigos de Lula e Dilma, é ironicamente ostentado agora – finalmente por direito de conquista – por um político corrupto que privava da intimidade do gabinete presidencial.

A lucidez perigosa

Resignação Diante do Irreparável - Ismael Nery:
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector

E aplaude (ou elege)...


A plateia adora um gigolô da bondade

Eike Batista, nem santo nem diabo

Eike Batista uma hora vai delatar. Não por maldade ou vingança. Não para crucificar a enorme lista de políticos que ele beneficiou, à vista de todos ou por baixo da mesa. Vai delatar porque nenhum empresário famoso consegue se manter “foragido da Interpol” por muito tempo, mesmo com passaporte alemão.

Vai delatar porque o ex-homem mais rico do Brasil, pai de Thor e Olin, ex-marido de Luma, se recusará a ser trancafiado em cela comum de presídio. Eike não concluiu o ensino superior de engenharia na Alemanha e, por isso, sem diploma, não tem direito a regalias. É o X do problema. Falência financeira, tudo bem, Eike já se reergueu com saídas mirabolantes. Falência moral é outra coisa para o filho do nonagenário Eliezer Batista.

Eike não se enxerga como chefe de quadrilha criminosa. Seus amigos e ex-funcionários tampouco o viam assim. Muitos ganharam e perderam dinheiro embarcando em seus delírios. Louco, visionário, audacioso, megalômano, empreendedor, místico e generoso – e até cafona e ingênuo – são adjetivos mais associados a Eike do que “bandido” ou “mau-caráter”, segundo quem o conhece bem. Era “mão-aberta”, não só em troca de incentivos fiscais. Não fazia segredo de sua carência maior: ser amado, especialmente no Rio.


Acusado de repassar e ajudar a esconder propina de US$ 16,5 milhões – um pingo no oceano que inundou as finanças do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral –, Eike é o alvo da hora da Operação Lava Jato. Mesmo antes de ter mandado de prisão preventiva contra ele, Eike já despertava misto de ódio e inveja. Era o 171 mais bajulado e contraditório do Brasil, recebido como Midas por banqueiros do mundo.

Hoje paga pela ostentação, pelos carrões na sala de sua casa no bairro do Jardim Botânico, os jatinhos, os barcos de corrida, os implantes de cabelo e Botox. Paga pela insistência em prever, com seu riso estranho, que se tornaria o homem mais rico do mundo. O povo não perdoa ricos exibidos.

O que me surpreende é que seus amigos não tenham coragem de vir a público defender seu outro lado. Uma vez testemunhei, no restaurante chinês Mr Lam, de sua propriedade, os efeitos de sua personalidade. O trabalho parecia ser sua maior diversão. Seus convidados, um bando de empresários orientais, só faltavam beijar seus pés. Ao longo de sua ascensão, vimos alguns admiradores ferrenhos de Eike.

“O Eike é nosso padrão, nossa expectativa e orgulho do Brasil”, afirmou a então presidente Dilma Rousseff na inauguração do Porto do Açu, em São João da Barra, Norte Fluminense. Para Dilma, Eike tinha “capacidade de trabalho”, buscava “as melhores práticas”, queria “tecnologia de última geração”, percebia “os interesses do País” e merecia “o nosso respeito”.

Eike arrematou por R$ 500 mil o terno usado por Lula na primeira posse de janeiro de 2003. Era um leilão beneficente promovido pelo cabeleireiro da então primeira-dama, Dona Marisa, para arrecadar dinheiro para crianças do projeto Escola do Povo, na favela de Paraisópolis, em São Paulo.

Eike fez Madonna chorar, num jantar íntimo no Rio em sua casa, ao dar R$ 12 milhões para a Fundação SFK (Success for Kids), que ajudaria crianças brasileiras e suas mães vítimas de violência. Eike deu para a Santa Casa da Misericórdia um aparelho de ressonância magnética que custou quase US$ 2 milhões. “Todo mundo pede socorro ao Eike. Daqui a pouco vão ter de fazer uma estátua dele de braços abertos no alto de um morro”, afirmou o neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho.

Uma vez, caminhando no Morro do Borel com o ex-secretário de Segurança José Mariano Beltrame, perguntei sobre o acordo entre o governo do estado e sete grandes empresários que criaria um fundo para infraestrutura nas favelas ocupadas. “Só o Eike Batista honrou esse acordo”, disse Beltrame. “Ele contribui com R$ 20 milhões por ano.” A sede azul e branca da UPP exibia carros reluzentes. “Viu as camionetes?”, perguntou Beltrame. “Todas compradas com a ajuda do Eike. As motos para coleta de lixo também.”

O ator Rodrigo Santoro disse que o apoio financeiro de Eike foi “o fator decisivo” para que o filme "Heleno de Freitas" acontecesse. Eike ajudou Arnaldo Jabor a financiar A suprema felicidade, ajudou Cacá Diegues a realizar Cinco vezes favela. Nunca vimos antes no Brasil um pilantra com essas conexões.

Eike começou comprando ouro no Xingu aos 22 anos, magrelo, com botas e chapéu. Terminou vendendo ilusões e pasta de dentes – seu negócio mais recente. Dizia, no auge, que seu sonho era nadar “numa Lagoa Rodrigo de Freitas limpa” e por isso deu milhões para a despoluição-fantasma. Seu pesadelo agora é a cela comum de Bangu.

 Clip com cenas de Tom Ewell no clássico "The Girl Can't Help It" (1956)

Um exemplo a seguir

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O general Juracy Magalhães deixou a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, a pedido do presidente Castello Branco, para assumir o ministério da Justiça e editar o Ato Institucional número 2, que dissolveu os antigos partidos políticos e estabeleceu as eleições indiretas para presidente da República, entre outras monstruosidades. Estava disposto a enquadrar os jornais, que timidamente se insurgiam contra os desmandos do primeiro governo militar, e reuniu os proprietários dos principais. Apresentou-lhes uma lista de redatores e repórteres, exigindo que fossem demitidos “porque eram comunistas”. Foi quando se levantou Roberto Marinho, que tinha transformado O Globo no maior defensor da Revolução, e disse: “Olha aqui, Juracy, eu tenho muitos comunistas na minha redação, mas eles só escrevem o que eu quero. Nos meus comunistas, mando eu!”

Na mesma hora, retirou-se, para espanto dos outros donos de jornal, muitos que já estavam copiando a lista dos subversivos denunciados, prometendo demiti-los. Um dia depois, o dr. Roberto mandou convidar Franklin de Oliveira, recentemente demitido do Correio da Manhã, para tornar-se editorialista de seu jornal, apesar de notoriamente conhecido como comunista.

Esse episódio se recorda como exemplo de que quando se resiste contra a truculência e o arbítrio, a resistência costuma vencer.

O Globo continuou apoiando a Revolução, mas os governos nunca mais pediram a cabeça de um de seus jornalistas. Até ontem, quando não existem mais generais-governantes nem comunistas…

Quando a sujeira se acha 'purificada'...

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O Brasil precisa de um banho de democracia
Dilma Rousseff, em palestra na Universidade de Salento (Itália)

Humanos estão a caminho de extinguir todos os outros primatas

“Foi surpreendente descobrir que as cifras eram tão altas, porque sugerem que estamos chegando a um ponto de não retorno ou que talvez já tenhamos chegado”, lamenta o primatologista mexicano Alejandro Estrada, que há 35 anos estuda os primatas da América em seu habitat. As cifras às quais se refere são horripilantes: 60% dos primatas estão ameaçados de extinção. Dos gigantescos gorilas das montanhas, de 200 quilos, aos diminutos lêmures do gênero Microcebus, de 30 gramas, os primatas estão a caminho de desaparecerem para sempre na natureza por culpa da pressão que os humanos exercem através da agricultura, caça, exploração madeireira, mineração... “Vendo o reduzido tamanho das populações e a intensidade das ameaças, logo poderíamos viver uma cascata de extinções. Não podemos nos permitir isso!", alerta Estrada.

Um primata, o humano, parece decidido a extinguir os seus parentes mais próximos numa batalha sem trégua em que as forças estão completamente desequilibradas: em apenas 50 anos terão desaparecido três de cada quatro espécies de primatas, 378 das 504 registradas. Acabamos de saber disso graças a um macro estudo publicado na Science Advances, liderado pelo pesquisador mexicano, entre outros, e com a participação de 30 especialistas. “Estamos realmente muito preocupados, e nosso artigo é um apelo por uma ação global à comunidade científica em geral e ao público e aos políticos para que evitem isso”, afirma.


O estudo é muito rico em dados e informações detalhadas sobre esse extermínio. Na Ásia, 73% dos primatas estão ameaçados, cifra que sobe para 87% em Madagascar, o reino dos lêmures, na costa oriental da África. O orangotango da Sumatra perdeu 60% do seu habitat em apenas 20 anos e deve perder mais 30% nas próximas décadas por culpa do desmatamento (geralmente para a produção de óleo de palma) e da mudança climática.

Os pesquisadores foram muito minuciosos na sua descrição das ameaças que dizimam nossos parentes. Embora haja diferenças importantes entre regiões, a agricultura se destaca como principal problema, já que devorou 76% dos habitats dos macacos, micos, lêmures e afins. Entre 1990 e 2010, as práticas agrícolas consumiram 1,5 milhão de quilômetros quadrados nesses habitats, o equivalente ao Estado do Amazonas, e foram perdidos dois milhões de quilômetros quadrados de cobertura florestal. Mas o pior é o que está por vir: a expansão futura dos cultivos abrange dois terços da área que esses mamíferos habitam. “Isto provocará um conflito territorial sem precedentes com75% das espécies de primatas em todo o mundo”, conclui o artigo.

As práticas agrícolas não agem sozinhas. A caça representa 60% das perdas diretas desses animais, com um problema emergente: o da captura de primatas para consumo humano. Calcula-se que na Nigéria e em Camarões são comercializados anualmente 150.000 primatas no mercado alimentício. Além disso, o desmatamento afeta 60% dos habitats, e a pecuária, 31%. A mineração, apesar de estar muito concentrada em pequenos territórios, está mostrando uma capacidade destrutiva muito grave, porque contribui para o desmatamento, a degradação florestal e a poluição do solo e da água. Os garimpeiros de coltan na África Central caçam macacos para se alimentar, outra terrível e inesperada decorrência do ciclo consumista que cerca os telefones celulares.

Esse estudo, além de ser o primeiro a oferecer uma descrição global do estado de conservação dos primatas no mundo e das pressões antropogênicas contra eles, também fornece ideias e soluções para mitigar a perda local, regional e mundial de espécies. “Abordar as principais ameaças que afetam as populações de primatas é algo que exige políticas globais, mas um enfoque local seria construtivo”, diz Estrada, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México. “O desmatamento, a caça insustentável e o comércio ilegal poderiam ser rapidamente abordados, com o objetivo de sensibilizar a população das zonas urbanas e rurais de que os primatas são um componente importante do seu capital natural”, diz. “Que conservá-los com seus hábitats e deter o comércio ilegal significa investir no futuro."

Há um fator importante que ele ressalta ao analisar os contextos nos quais os primatas não humanos mais sofrem: a pobreza dos primatas humanos. “O denominador comum dessas regiões são os altos níveis de pobreza e desigualdade, a perda de capital natural devido às demandas do mercado global, a má gestão, a falta de segurança alimentar e a escassa alfabetização. Cuidar desses aspectos é uma prioridade para assegurar a conservação dos primatas”, defende o especialista.

A importância vai muito além da beleza dos primatas, de sua diversidade e de nossa capacidade de nos reconhecermos em seu olhar. “Devemos nossa humanidade a uma história evolutiva compartilhada”, diz Estrada. Numerosos trabalhos recentes certificam o papel fundamental que estes primatas desempenham em seus ecossistemas, e protegê-los seria investir no efeito guarda-chuva, pelo qual salvar uma espécie implica defender muitas outras, porque se mantém o equilíbrio do ciclo natural do seu entorno.

“Temos certeza de que em muitos casos a difícil situação dos nossos companheiros primatas não é conhecida pela comunidade global, incluídos os Governos locais e nacionais”, afirma o pesquisador, e essa é a razão pela qual publicaram esse estudo. As últimas frases do artigo científico são um alerta: “Temos uma última oportunidade de reduzir ou inclusive eliminar as ameaças humanas aos primatas e seus habitats, de orientar os esforços de conservação e aumentar a consciência mundial sobre a sua situação. Os primatas são extremamente importantes para a humanidade. Afinal de contas, são nossos parentes biológicos vivos mais próximos”.

'O político que multiplicava'

Estava feliz naquela noite de primavera, quinta-feira 7 de outubro de 2010. Há apenas quatro dias garantira a reeleição ao governo estadual no primeiro turno, com 66,08% votos. Agora seguia no voo 455 da Air France para descanso em Paris, com escala em Londres.

Escolheu um hotel no lado oeste da capital do Reino Unido, perto do Hyde Park, onde em 1855 Karl Marx subiu num caixote — para não pisar em solo inglês, conforme a tradição — , e discursou sobre a revolução proletária para uma plateia de ingleses reformistas.

Na suíte, telefonou ao Rio ordenando o envio de 20 mil libras esterlinas (cerca de R$ 80 mil hoje). O carioca Marcelo, um dos herdeiros da mesa de câmbio Hasson Chebar, passou numa agência do banco israelense Hapoalim, e levou o dinheiro ao governador reeleito. Na antessala, viu e cumprimentou a primeira-dama.

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“Mr. Santos", era o nome que registrara no livro de hóspedes do hotel. Ele gostava de disfarces. Vivia uma rotina de clandestinidade. Tinha outro codinome, que restringia às conversas por um telefone (21-9972-33315) na privacidade do Palácio Laranjeiras: Nelma. No catálogo telefônico, Nelma de Sá Saraça.

Santos e Nelma, na vida real, eram Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho, que hoje completa 54 anos numa cela no presídio de Bangu, onde a temperatura de verão oscila acima de 40 graus.

Tinha metade desse tempo de vida quando emergiu das urnas como deputado, nos anos 90. Terminou o terceiro mandato com pelo menos US$ 2 milhões (ou R$ 6,8 milhões) em contas secretas no exterior, conforme descritos nos inquéritos e processos em andamento na Justiça Federal. Por cada ano na Alerj, recebeu em média US$ 166 mil de origem suspeita.

Elegeu-se senador com 4,2 milhões de votos. No período em Brasília (2003 a 2006), seu patrimônio oculto fora do país subiu para US$ 7 milhões (R$ 23,8 milhões). Como senador passou a receber US$ 1,2 milhão por ano — aumento de 653% em relação ao tempo de deputado.

Disputou e ganhou o governo estadual. Eleito, permaneceu entre 1º de janeiro de 2007 a 3 de abril de 2014. Passou o cargo ao vice, Luiz Fernando Pezão, nove meses antes do fim do segundo mandato. Não precisaria mais usar o codinome Santos para desfrutar a fortuna que Nelma arrecadara na solidão do Laranjeiras, ao telefone com executivos das empresas de Eike Batista e de Marcelo Odebrecht, entre outras.

Multiplicara sua riqueza 21 vezes no espaço de 84 meses. O movimento nas contas encobertas em bancos estrangeiros saltou de US$ 7 milhões para US$ 152 milhões (R$ 517 milhões). Como governador, coletou US$ 18,1 milhões, em média, a cada ano no palácio — 138% acima do patamar que alcançara quando era senador, e 10.803% mais que a arrecadação na Assembleia. No país do real, Cabral foi um meio-bilionário por um tempo. Voltou à realidade em Bangu-8.
José Casado