terça-feira, 2 de junho de 2026

Queremos continuar a ser humanos na era da IA?

Num mundo dominado pela rapidez de decisões e pela emotividade das reações, ainda bem que há quem continue a insistir em pensar demoradamente sobre os assuntos, a refletir sobre os vários caminhos que podem ser tomados e, no final, a ser capaz de o transmitir através de um texto extenso, mas muito bem estruturado, repleto de citações e de referências confiáveis. Para um não católico como eu, foi isso que mais me inspirou – ou quase emocionou – quando comecei a ler a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), divulgada na manhã de segunda-feira, poucas horas antes do fecho desta edição. São mais de 43 mil palavras, na sua versão em português, em que, sob o subtítulo Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial, o líder de uma das mais importantes religiões do planeta procura alertar a Humanidade para o tempo delicado em que vivemos. E para a urgência que deve impelir, cada um de nós, independentemente da sua crença, a impedir a desumanização galopante, impulsionada pelo capitalismo tecnológico global.

Alguns dos princípios vertidos agora para o texto já haviam sido proferidos por Robert Prevost, há um ano, nas suas primeiras intervenções públicas como Papa. “A tecnologia não pode ser uma ferramenta ao serviço do fanatismo ou da divisão. Ela deve aproximar-nos, não afastar-nos”, afirmou, no seu primeiro encontro com os jornalistas.

Agora, na primeira publicação marcante de seu papado, após 12 meses alucinantes no desenvolvimento e na popularização das ferramentas de Inteligência Artificial, nomeadamente a sua utilização permanente e massiva em cenários de guerra, Leão XIV é mais eloquente, abordando a ameaça que ela representa para os trabalhadores, a justiça social e, acima de tudo, para “a dignidade das pessoas”.


O Papa apela explicitamente à regulação internacional das grandes empresas tecnológicas que, em muitos casos, detêm um poder que rivaliza ou até já ultrapassa o dos próprios Estados soberanos. E, nesse sentido, Leão XIV transmite uma mensagem profunda que é hoje absolutamente imperativa: “É preciso desarmar a Inteligência Artificial.”

Como o fazer? As suas reflexões deviam, no mínimo, convocar ao debate. Primeiro, a IA deve ser subtraída da competição em que está inserida atualmente, em que “a corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto” apenas tem como objetivo ganhar ou consolidar “uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros”. Nesse campo, Leão XIV é categórico: “Retirar a IA dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”

Porque é isto urgente? Simplesmente, porque devemos querer todos continuar a ser humanos, mesmo com os nossos erros e imperfeições. Ou seja, devemos querer continuar a ter a capacidade de, entre outras coisas, “saber cuidar uns dos outros”. E não de nos transformarmos em seres que, quando não correspondem a um arquétipo de perfeição, parece que têm defeitos que precisam de ser corrigidos pela tecnologia – sejam esses “defeitos” a incapacidade, a doença, a velhice, o sofrimento ou a vulnerabilidade.

Na encíclica, Leão XIV não cita nomes, mas é fácil perceber como Donald Trump e alguns dos seus mais próximos apoiantes, como Elon Musk e Peter Thiel, bem como muitos líderes da extrema-direita, estão entre os alvos dos seus avisos. Para o Papa, “vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural”, em que já se chega ao ponto de “um falso pragmatismo nos convidar a cortar as raízes da memória”, fazendo muitos acreditar “ilusoriamente que as atrocidades do século XX não podem mais ser repetidas”.

Por isso, o Papa faz questão de nos avivar a memória. E de recordar alguns princípios que muitos consideram estar em desuso, mas que são aquilo que nos torna humanos: a importância do trabalho digno, a solidariedade, o respeito pela imigração, a recusa em normalizar as guerras, e uma série de outros pontos dignos de reflexão.

Numa era de discussão em Portugal do chamado pacote laboral, há uma frase de Leão XIV que deveria ser levada à mesa da concertação: “É necessário conceber sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho.”

O apelo, portanto, não é contra a IA, mas pela regulação urgente da IA – que não pode ficar na posse de meia dúzia de multimilionários, para quem a Humanidade é um brinquedo, que podem usar a seu bel-prazer. Ainda bem, por isso, que um líder religioso que tem este peso se indigna com um futuro em que o trabalho corre o risco de se tornar novamente escravo e em que a capacidade de compaixão é ditada por algoritmos. O risco está à vista, como refere Leão XIV: “Quando a eficiência se torna a medida do valor, o ser humano é tentado a pensar-se como um projeto a otimizar, mais do que como uma criatura chamada à relação e à comunhão”, escreve. No mínimo, cabe-nos, a nós, agora, manter esse debate vivo e deixarmos de ser apenas espectadores passivos de uma evolução controlada apenas pelos mais poderosos.

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