quarta-feira, 20 de maio de 2015

A serventia da UNE

O que faz a União Nacional dos Estudantes (UNE)? Em seu site na internet, a UNE diz ter “um papel histórico em defesa da educação e dos estudantes!” – com exclamação. Os alunos das universidades federais, que enfrentam imensa crise, esperam mesmo que a UNE os defenda. No entanto, essa organização está cada vez menos interessada nos estudantes, pois seu papel, nos últimos anos, tem sido o de servir apenas como correia de transmissão do lulopetismo. Uma entidade que nasceu para contestar o poder se tornou seu fiel vassalo, para usufruir da coisa pública como se privada fosse – e o moderno prédio que a UNE está erguendo em área valorizada do Rio de Janeiro, conforme mostrou recente reportagem do Estado, talvez seja o símbolo definitivo do patrimonialismo que tanto marca a era petista no governo.

Projeto Niemeyer para a UNE
O prédio ocupará o lugar da antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo, que foi metralhada e incendiada em 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao do golpe militar. Em vez de servir como reparação histórica a uma agressão cometida pelo regime ditatorial, conforme diziam os dirigentes da UNE e do governo em 2010 – quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que a União tinha de indenizar a entidade –, o que se verá naquele terreno é uma obra do mais puro oportunismo daqueles que se assenhorearam do Estado.

No final de seu segundo mandato, Lula assinou a autorização para que a UNE recebesse nada menos que R$ 44,6 milhões a título de compensação pelos danos causados pela ditadura. Tal indenização não estava prevista na Lei de Anistia, que só menciona pagamentos a indivíduos, e não a entidades. Mas, como se sabe, a lei nunca foi um constrangimento para o lulopetismo. Em junho de 2010, Lula fez aprovar no Congresso uma norma que tratava especificamente do “reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro pela destruição da sede da União Nacional dos Estudantes”. Estava resolvido o problema.

Com dinheiro em caixa, a UNE lançou a pedra fundamental do empreendimento ainda em 2010, com a presença de Lula – saudado como “guerreiro do povo brasileiro” por uma audiência embevecida com seu mecenas.

Feita a partir de um projeto doado por Oscar Niemeyer, a obra demorou a deslanchar, mas agora está a todo vapor – e a UNE, afinal, não usará recursos próprios na construção. Como mostrou o Estado, a entidade preferiu se associar a diversas empresas privadas para bancar a obra e explorar o aluguel de salas comerciais. É um progresso e tanto para uma organização administrada pelo PC do B desde 1979 e habituada a denunciar a perversidade da exploração capitalista.

Um vídeo por ela divulgado para promover a obra mostra que a UNE disporá de luxuosas instalações, decerto muito melhores do que nos tempos em que corajosamente fazia oposição ao governo. Agora como sócia do Estado, a UNE vai dispor de equipamentos e de estrutura que contrastam com a situação de penúria enfrentada pelos estudantes das universidades bancadas com dinheiro do governo federal.

Na Universidade Federal Fluminense, por exemplo, um dos prédios corre o risco de desabar. Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, algumas turmas são obrigadas a ter aulas em uma escola estadual, por falta de salas. Há relatos de falta sistemática de equipamentos e de segurança.

A ostentação da UNE contrasta também com o momento difícil pelo qual passam estudantes que dependiam do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), crédito que passou a minguar desde que o governo mudou suas regras.

Pois não há registro de protestos da UNE nem em relação à situação dos alunos das federais nem contra o corte abrupto do financiamento estudantil. A entidade ocupa seu tempo atualmente fazendo campanha a favor da reforma política defendida pelo PT. Nem se podia esperar outra atitude de uma entidade que abandonou há muito tempo a defesa dos estudantes, preferindo servir como mera – e agora lucrativa – claque do lulopetismo.

Fique tranquilo!

Dilma levy corte no orcamento atirador de facas olho tapado tesouras B

Avião prefixo PT-ETC


O Brasil do PT é um avião particular que faz voo cego, sem plano, com pouco combustível, em tempo ruim... Sim, o piloto é astigmático e não sabe ler mapas. A meia dúzia de passageiros está distraída, ouvindo num radinho os depoimentos dos ratos da operação Lava Jato na sessão da Câmara dos Deputados e nem sonham com a situação em que se encontram...

Logo, alguém com voz claudicante pergunta: o deputado Jean Luiz já falou qualquer coisa? Não, responde um vozeirão, e nem vai falar, o presidente é o Bolsonaro... Ah... Nesse meio tempo, um dos motores parou... Nooooo, e agora? Sem chiliques, cara, quero ouvir o que diz o Vaccari, que já começou dizendo que não sabe nem por que está depondo, quanto mais assunto de propina e outros badalos... O avião sacode, e o cara da voz claudicante resmunga: Tô nem aí, se cair, tomara que seja em cima do Senado Federal. Não é ele que está virado pra cima como uma cuia? Melhor seria no Planalto, onde estão os terroristas de outrora, e os heróis de agora, e outros como aquele que parece com Santo Antônio, acho que Luís Roberto, e o outro que tem nome de violino...

Lewandowski? Cara, esse povo é do Supremo Tribunal Federal... E daí? É tudo farinha do mesmo saco. Depois que o Joaquim saiu... Cala a boca, quando o avião pousar... pousar ou cair? Não agoure...

Por falar em saco, quem leu o livro daquele cara lá do Uruguai, o presidente que morava numa furreca e tem nome de tango argentino? Geluzí? Tá louco, cara, é Mujica. É esse mesmo. E daí? Daí que ele soltou a franga... Saiu do armário? Abriu o livro, sô... Que susto! Conta, adoro fofoca... Não tem nada de fofoca, ele comenta sobre declarações do ex-Luiz, dizendo que ele não é ladrão como o Collor... fala que Lula disse que passou perrengue no governo porque só existe um meio de governar o Brasil varonil: molhando generosamente as mãos dos ratos. Esses do Lava? Sim, e os outros também, como os caras do Zelotes... Opa, que que é isso? Esse foi um pequeno assalto num tal Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, mais conhecido como Carf. Mais conhecido uma ova, eu nunca tinha ouvido falar nessa boca... Pois é, lá foi coisa mixuruca, só 19 bilhões...

Cara, esse nosso país tá mesmo é f...alido. Quem diria, né? Sim, ia me esquecendo, o tal de Marco Aurélio Poc-Poc andou fazendo secretamente umas reuniões aí, a mando de Dona Dilma, com os membros do Mercosul, naquele tempo que botaram pra fora aquele padreco, presidente comuna disfarçado lá do Paraguai, para firmar a liderança de Dona Dilma na região. Que região? América Latina... E por que Dona Dilma, em vez de... Ela sabe ler, sabe? E aí? Aí que botaram o Paraguai pra fora do Mercosul e botaram a Venezuela pra dentro. Resultado, Chávez morreu em Cuba... Só por causa disso? Sei lá... Quem sabe o que se passa no meio dessa gente... Isso tudo tá no livro do Geluzí, quer dizer, Mujica.

E o piloto, apavorado, manda apertar o cinto, que vai pousar de barriga. Aiii, meu Deus do céu, socor...

Fachin e a operação Anti-Lava-Jato


Estão querendo melar a Lava jato
Arnaldo Jabor

Dois presidentes: todo mundo manda e ninguém obedece. É o caos

O Brasil passa por um problema sério de identidade. Ninguém sabe quem manda. A avacalhação é geral. De repente, o Lula saiu da toca e começou a juntar um monte de gente para administrar o país esquecendo que a Dilma ainda está no trono. Pretende com esses grupos políticos criar um governo paralelo e deixar a presidente falando sozinha, no vazio. Lula não admite – e já disse isso pessoalmente para Dilma – que ela mantenha sob seu guarda-chuva o ministro Aloizio Mercadante. Sabe que no cargo de chefe da Casa Civil é um pulo para o ministro disputar a presidência em 2018. Portanto, Lula não quer ninguém fazendo sombra às suas pretensões políticas.

Aos poucos, ele vai minando o poder da Dilma e do Mercadante. Exigiu que a presidente indicasse o vice Michel Temer para coordenação política do governo, uma forma de botar o Mercadante para escanteio. Ela, como sempre, obedeceu cegamente. Mas não demorou para dar o troco: não atende as demandas políticas e nenhum pedido do Michel, o que tem provocado um profundo mal estar no meio político, mas sobretudo dentro do PMDB, onde o vice já foi apelidado de chefe de departamento de pessoal.

Lula mexeu na Comunicação Social do governo. Botou de goela abaixo da Dilma seu amigo Edinho, tesoureiro da campanha, já enrolado na operação Lava Jato, para cuidar dos bilhões da publicidade, uma arma mortífera para enfrentar os donos dos jornais que pensam em fazer oposição ao seu nome em direção a 2018. Com o míssil apontado para o Mercadante, seu principal alvo no governo, ele agora juntou-se aos políticos de Brasília que também não veem o ministro com muita simpatia. Tudo de ruim no governo, Lula joga nas costas do Mercadante que resiste, não porque é um grande articulador político, mas porque a Dilma sabe que se ceder a mais essa pressão de Lula pode levá-la ao total esvaziamento do poder.

E no país de dois presidentes, tudo está indo para o fundo do poço. Eduardo Cunha, por exemplo, que até então não passava de um político de segunda linha, agora está dando as cartas. Quer, por exemplo, mudar o regimento para se reeleger na mesma legislatura; quer construir um anexo e um shopping na Câmara, mesmo com o país em crise; quer derrubar Rodrigo Janot e impedir a sua reeleição na Procuradoria Geral da República; e contratou sem licitação a empresa Kroll por 1 milhão de reais para ajudar na CPI da Lava Jato. Virou, de uma hora para outra, o popstar da política com um histórico que mal encheria uma merendeira.
Lula enxerga tudo isso e mantém-se firme no seu propósito de esvaziar a Dilma. Como a presidente está no mundo da lua com seu novo corpinho, o que pode se notar pelos seus últimos pronunciamentos quando trocou as bolas, nada melhor do que passar a imagem da sua fraqueza e da sua inércia para o país, numa bem orquestrada campanha com seus blogueiros chapas-brancas. O ex-presidente não se conforma com a limpeza que a Dilma fez no seu gabinete, expurgando os militantes mais próximos dele. Não se conforma, sobretudo, com a indicação de Fernando Levy, o Ministro da Fazenda, que não passou pelas suas mãos. Mas na disputa pelo poder, Lula não quer ficar à margem, por isso enfiou lá dentro do Planalto o Edinho que entende de comunicação como ele entende de fissão nuclear.

Nesse caos em que vive o país, cada um quer tirar uma casquinha. Até os delatores premiados já desdizem os seus depoimentos porque começam a entender que podem conviver com suas tornozeleiras de grife em casa com as contas bancárias abarrotadas de dólares lá fora. Eles sabem que no Brasil o crime compensa.

Enquanto isso, o país, sem projeto, vai se esfacelando nas mãos desse governo incompetente e corrupto.

Pátria Educadora na lanterna

Charge

O Brasil segue colecionando vexames nos rankings mundiais da educação. Não andamos de lado, andamos para trás.

A cada rodada do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – Pisa, exame realizado de três em três anos e de responsabilidade da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE, ficamos patinando nas últimas posições, quase no final da fila.

Isso aconteceu em 2012, quando o país caiu posições na área de ciências. Naquele ano estávamos em 55º no ranking de leitura, 58º no de matemática e 59º no de ciências, entre 65 países avaliados. Isso voltou a ocorrer no PISA de 2015, que será divulgado nesta semana e traz o Brasil classificado na humilhante 60ª posição em matemática e ciências, entre 76 países avaliados. Dentre os latino-americanos, o Chile é o primeiro da lista, em 48º lugar. Costa Rica, México e Uruguai também estão na frente do Brasil, em 53º, 54º e 55º respectivamente.

E quando se pensa que chegamos ao fundo do poço, vem um vexame maior ainda: o Brasil está na rabeira do ranking do Fórum Econômico Mundial quando se leva em conta o desempenho dos jovens menores de 15 anos. Aí ficamos em 91º lugar!

No ranking geral do Fórum, o país fica atrás da Bolívia e do Paraguai!

Por quê?

Não há muito mistério. Pagamos caríssimo por ser retardatários. O ensino fundamental só foi universalizado na virada deste século, mais precisamente na gestão de Paulo Renato Souza no Ministério da Educação. E até aí não existia qualquer sistema nacional de avaliação do ensino.

Os passos seguintes seriam investir na formação inicial e contínua dos professores, implantar de vez a meritocracia e derrotar o corporativismo - essa força conservadora sempre resistente às mudanças. Além de enfrentar os problemas do fracasso e da evasão escolar no ensino básico.

Não foi o que aconteceu nos doze anos dos governos petistas. Os presidentes Lula e Dilma Rousseff deixaram essa agenda de lado e o país assistiu a uma sucessão de ministros da área (já estamos no oitavo), com prioridades distintas. E com políticas erráticas.

Mais grave: o Ministério da Educação abriu mão formular e articular políticas públicas capazes de mudar a face do ensino básico, de superar suas mazelas, de ingressar no século 21.

Na educação colhe-se o que se planta. Cingapura, Coréia e Hong Kong priorizaram o ensino básico, fizeram sua revolução educacional ainda no século passado. Hoje ocupam os primeiros lugares não só nos exames internacionais, mas na competitividade mundial. São melhores em tudo ou quase tudo.

Enquanto isso, o Brasil come poeira lá atrás.

'Reizinho' fez papel de bobo

O país vai de mal a pior mas a rainha Dilma (67 anos), enclausurada pela população em seu Palácio do Planalto, encontrou tempo na agenda vazia para se ocupar de uma conversa fiada por duas horas com Jô Soares (77 anos). O humorista, que fez o personagem Reizinho por alguns anos na tevê, bancou dessa vez o bobo da corte.

Caixa-preta na Saúde

A rarefeita transparência na gestão ajuda a reforçar a percepção de anarquia gerencial no SUS, uma constante nas pesquisas de opinião dos últimos seis anos
Uma bilionária caixa-preta — é o que sugerem os dados oficiais sobre os gastos e a eficiência de nove unidades de saúde pública mantidas pelo governo federal no Rio.

São seis hospitais (Andaraí, Bonsucesso, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e Servidores) e três institutos especializados (Câncer, Cardiologia e Traumatologia), administrados pelo Ministério da Saúde.

No ano passado, eles gastaram R$ 50,6 mil por cada internação.

Em contraste, a despesa média por paciente foi de R$ 6 mil nos três maiores hospitais municipais do Rio (Lourenço Jorge), de Nova Iguaçu (Hospital Geral) e de Duque de Caxias (Moacyr do Carmo).

Ou seja, internações nas instituições federais custaram oito vezes mais que nos três principais hospitais municipais do Rio e da Baixada.

A despesa cresce, mas o padrão de eficiência declina. Houve uma drástica redução do número de internações nos últimos seis anos.
A queda foi de 47% no Instituto de Cardiologia; de 41% no Hospital do Andaraí; de 39% no Servidores; de 38% na Lagoa; de 30% no Cardoso Fontes; de 28% no Instituto do Câncer, e, de 22% no Hospital de Bonsucesso.

Manteve-se alguma estabilidade no Instituto de Traumatologia (-6%). A ilha de produtividade foi o Hospital de Ipanema, onde se registrou 51% de crescimento (de 2,7 mil pacientes para 4,1 mil ao ano, no período de 2008 a 2014).

Ano passado, essa rede federal realizou um total de 54 mil internações. No mesmo período, ocorreram 61 mil em apenas três unidades das prefeituras de Nova Iguaçu (Hospital Geral), Duque de Caxias (Moacyr do Carmo), Rio (Lourenço Jorge) e um hospital estadual (Adão Nunes).

Sozinho, com 18 mil pessoas internadas, o de Nova Iguaçu superou três federais (Andaraí, Cardoso Fontes e Servidores) que somaram 17 mil internações.

A rede federal no Rio recebeu R$ 3,4 bilhões em 2014. É um volume de dinheiro expressivo, equivalente ao que o governo estadual gastou com 60 hospitais (1.050 leitos de UTI) e serviços adicionais, como a vigilância epidemiológica.

As nove instituições federais concentram 22% dos leitos existentes na capital. Deveriam ter papel-chave no serviço de saúde aos 12 milhões de habitantes da região metropolitana. No entanto, permanecem isoladas da estrutura local, sustentam precários serviços de atendimento emergencial (num deles, o ambulatório está improvisado em contêiner), e mantêm milhares de pessoas à espera de vaga para uma cirurgia — algumas completaram uma década na fila, segundo a Justiça Federal e a Defensoria Pública da União.

A rarefeita transparência na gestão ajuda a reforçar a percepção de anarquia gerencial no Sistema Único de Saúde, uma constante nas pesquisas de opinião dos últimos seis anos.

Dias atrás, no Rio, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, reuniu-se com prefeitos, secretários e o governador do Rio e repetiu as promessas dos últimos 15 meses de mudanças na política nacional de atenção hospitalar.

Ouviu calado as críticas das autoridades e torceu o nariz quando uma de suas auxiliares locais resumiu a crise no Rio.

De volta a Brasília, Chioro tomou uma decisão revolucionária: demitiu a assessora.

José Casado

Educação para a transgressão

Embora permanentemente desmentida, é muito inerente à nossa formação cultural a idéia de que as leis geram uma força própria suficiente para superar as dificuldades de que tratam. Há um problema? Faça-se lei para resolvê-lo. Feita a lei, lavam-se as mãos e dá-se tudo por resolvido. Essa mesma fé nos leva a crer, por outro lado, que as relações sociais devam estar regidas por estatutos legais, o que acaba inibindo os espaços próprios aos ajustes interpessoais, aos contratos e à liberdade, enfim.

Se verdadeira tal crença no poder corretivo das leis, nosso país deveria ser um modelo de virtudes coletivamente atingidas e a vida fluiria doce e suavemente, conforme a concebem os que redatores dos códigos. No entanto, observo uma realidade diferente e sou induzido a uma convicção diferente. Quanto mais educação dermos às pessoas, quanto melhores forem os valores a elas transmitidos, quanto mais elas se deixarem conduzir por princípios, menor será o número de leis de que necessitaremos e maior será o espaço da liberdade vivida como bem moral determinante de condutas corretas. Em palavras que melhor resumam o que pretendo dizer: estamos fazendo leis em excesso e educando de modo escasso.


Pergunte a qualquer professor na faixa etária dos 50 anos qual a avaliação que faz entre a qualidade da educação que era ministrada ao tempo de sua infância e a que é fornecida hoje. Não estou me referindo a meros conteúdos didáticos. Estou falando em muito mais do que isso, estou aludindo à verdadeira educação, àquela que prepara as novas gerações para a vida social e para o exercício da liberdade. E sublinho: não estou limitando essa tarefa educativa apenas à sala de aula. Estou falando na educação que deve ser proporcionada em casa, nas Igrejas, nos vários ambientes de convívio social e mediante os meios de comunicação.

Faça mais, pergunte a você mesmo sobre a insistência com que a responsabilidade, a solidariedade, e o respeito à verdade, ao patrimônio alheio, à dignidade do outro, às autoridades e instituições, aos idosos, eram passados a você. E compare com o que vê a seu redor. Poste-se diante de um monitor de TV e faça uma sinopse dos valores e desvalores exibidos. Compre uma revista, dessas que são destinadas ao público adolescente, e veja se encontra ali algum conteúdo que contribua de modo positivo para o adequado uso da liberdade.

De nada nos valerão tantas leis enquanto a sociedade, a partir da infância, for educada para a transgressão.

Percival Puggina 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Na 'Pátria Educadora', corte leva professores federais à greve

No ano em que o governo da presidente Dilma Rousseff adotou como slogan “Pátria Educadora”, as universidades públicas penam sem dinheiro para funcionar a contento e os professores ameaçam entrar em greve por melhores salários.

Tudo indica que vem por aí uma greve nacional de professores de instituições federais, a princípio marcada para começar no dia 28 deste mês.

Foi o que ficou decidido após reunião no último sábado de 43 seções sindicais, segundo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. Nesta semana, a decisão será submetida a voto de assembleias locais de professores.

A última greve nacional da categoria aconteceu em 2012, quando 58 universidades federais pararam durante quatro meses. Ontem, Carlos Levi, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), suspendeu a recomendação de paralisar a instituição.

Ainda não se sabe se a ordem dele será atendida. Metade dos 104 cursos de graduação da UFRJ havia deixado de funcionar devido à falta de dinheiro para pagar funcionários terceirizados. A universidade tem mais de 50 mil alunos.

Nos primeiros dois meses deste ano, o Ministério da Educação reduziu em um terço o repasse da verba das universidades federais. O ajuste fiscal do governo deverá cortar de 70 bilhões a 80 bilhões do Orçamento da União. Faltará dinheiro para quase tudo – de despesas obrigatórias a investimentos.

Prazo de validade


O problema é que ocupar os palácios de governo não significa, hoje, ocupar o poder, nem tampouco ter a capacidade de mudar a história. Significa, unicamente, que alguém estará em posição de dar ordens por tempo determinado
Antonio Navalón

No mato sem cachorro


Executado inteiro o “ajuste” já não nos levaria longe. Consiste, como sempre, em aumentar tarifas e impostos, reduzir a renda privada e cortar investimentos para sustentar os gastos do Estado no novo patamar a que chegaram. É mais um arranjo para evitar que se manifestem inteiras as consequências da nossa incapacidade de repactuar a distribuição de haveres e deveres entre o Brasil que paga os impostos e o que os arrecada para habilitar-nos a passar a disputar vitórias, em vez de seguir postergando derrotas certas, sempre no limiar da sobrevivência.

O próprio “tripé” que rendeu nosso melhor momento em um século era um arranjo precário; uma espécie de “cortisona” tomada em doses diárias para permitir ao paciente conviver em relativo equilíbrio com a doença crônica que não se dispõe a enfrentar, e não uma cura.

Nós nunca revogamos nada do que nos vem comendo pelos pés. O Estado brasileiro só tem porta de entrada. A norma fundadora do sistema que aqui aportou com dom João VI é que cada ungido pelo toque de Midas dos “de dentro” se torne um deles para todo o sempre. É em torno da compra e venda dessa “salvação eterna” ainda em vida que se estrutura o anel de ferro que o sustenta.

Ao fim de 300 anos dessa ordenha, tudo o que o Brasil dos miseráveis não tem é o que obscenamente sobra no Brasil oficial. Os direitos gerais só passarão a caber na conta quando os “direitos especiais” deixarem de pesar nela. O drama brasileiro – as crianças sem futuro, os doentes no chão dos “hospitais”, os 56 mil assassinados por ano, a corrupção epidêmica –, tudo é mera consequência dessa premissa.

Não há brasileiro vivo que não saiba disso, mas até as verdades mais evidentes precisam ser repetidas todos os dias em voz alta para se impor.

Neste momento, a ancestral mentira brasileira estrebucha pela enésima vez no seu próprio paroxismo. A conta é proporcional ao tamanho da trapaça e nunca antes ela foi tão grande na História deste país. O desastre lulopetista, que está apenas começando, é daqueles capazes de levar espécies inteiras à extinção. Vai-se abrir uma dessas raras janelas de oportunidade que só o sofrimento extremo proporcionam, com o potencial de alterar a própria ecologia do sistema.

O século 20, quae sera tamen, está chegando ao fim também no Brasil. Ninguém que o represente representa, já, a plateia que vaga pelas ruas. E, no entanto, ainda é ele e a linguagem dele que dominam reacionariamente o palco.

Não se reconhecem mais esses dois Brasis e é aí que moram a esperança... e o perigo!

A destruição do aparato nacional de educação é a obra mais bem acabada do partido que pavimentou o caminho do primeiro presidente-operário a chegar ao poder nas Américas, apenas para provar mais uma vez que a humanidade é uma só, de cabo a rabo, só que com a força dos seus piores vícios multiplicada pela ausência dos matizes críticos com que a educação formal, bem ou mal, acaba por diluí-los. A “educação” que sobrou não é o antídoto, é o veneno. O que resultou dessa desconstrução é um discurso político reduzido a um maniqueísmo primário, da antessala da conflagração, incessantemente derramado sobre um país sem repertório para definir um projeto nacional.

Sendo característico dos sistemas de servidão que quem provoca as crises não as sofre, os ventos que neste momento arejam o Brasil não sopram em Brasília. Lá, onde a maré é eternamente montante, ninguém nunca é demitido e os salários nunca param de subir, é à conquista do poder como ele sempre foi que tudo se refere. Os contendores posicionam-se exclusivamente uns em relação aos outros. O Brasil real não conta. “Se ele é contra eu sou a favor”, e vice-versa. A “primeira divisão” disputa poder político e dinheiro. A segunda só dinheiro e o poder que com ele se compra. Mas preservar o úbere onde todos mamam é o valor maior que, nas emergências, se alevanta.

O terceiro elemento, intocável no seu pedestal, divide-se entre a minoria heroica que resiste reduzida a um papel de polícia, tolerada pelos demais por falta de remédio melhor, e a linha de frente corporativa pela qual a maioria dos acomodados omissos se deixa docemente constranger cuja função é sangrar repetidamente o Tesouro mediante a articulação do “auxílio” ou do “reajuste retroativo” de cada temporada.

Fecha o quadro o “quarto poder”, que – embora não dispute o mesmo queijo dos demais – vive hipnotizado pela mixórdia que eles protagonizam. Não olha para fora, não apresenta as alternativas do presente, não pesquisa as que redimiram outros povos no passado. Limita-se a reproduzir a cena doméstica segundo a linguagem e a pauta dos outros três – quem “ganhou”?, quem “foi derrotado” no último crime de lesa-pátria? –, o que mantém o limite do possível no imaginário nacional exatamente onde o Brasil oficial quer que ele permaneça.

“O país não avança porque não sabe aonde é necessário chegar. Para sabê-lo com certeza era preciso ir ao fundo das coisas, e ao fundo das coisas só se chega com a crítica” é a citação do mexicano Daniel Cosio Villegas que Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez usam como mote do último capítulo da sua História do Brasil, que um qualificado leitor define como “um extraordinário estudo sobre a resiliência do continuísmo”, a marca renitente da nossa trajetória histórica ao longo da qual “todas as raras oportunidades de rompimento com o passado que aparecem acabam por ser reprimidas”.

A repressão da próxima, cujos protagonistas já se apresentaram com seus “generais” e “exércitos”, passa pela anulação, ainda que “em vida”, dos dois Poderes cuja credibilidade o terceiro vem trabalhando abertamente para corromper.

Falta quem, pelo outro lado, levante uma bandeira digna de ser seguida para limpar o sistema “por dentro”, porque se há uma coisa que o Brasil aprendeu de 1964 a 1985 e nossos vizinhos comprovam todos os dias é que, se vamos mal com eles, pior iremos sem eles.

Fernão Lara Mesquita

O Brasil emagrece

O Ministério da Saúde divulgou que mais da metade da população brasileira (52,5%) está acima do peso, e destes, 17,9% são obesos. Assim, é um bom exemplo a presidente da República ter perdido 15 quilos após as eleições. Como em Brasília quase tudo acaba em pizza ou em piada, a mais nova é que mentir emagrece.

Ironia à parte, Dilma deu a receita: “É fechar a boca e fazer uma ginasticazinha, uma caminhadinha”. O regime deve incluir exercícios em duas bicicletas ergométricas e no aparelho, tipo elíptico, adquiridos pela Presidência da República por cerca de R$ 21 mil. Para quem não pode caminhar nas ruas, malhar em casa é uma boa opção. Pedalar, não sendo nas contas públicas, faz bem e emagrece.

Mas quem também tem emagrecido — e sem saúde — é a economia brasileira. As previsões de contração do PIB (Produto Interno Bruto) para 2015 são de 1,2%. Em 2016, os prognósticos indicam crescimento de 0,9%. Assim, entraremos em 2017 mais magros do que estávamos em 2014.

O PIB industrial terá desempenho ainda pior. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima quedas de 4,4% na indústria de transformação, 5,5% na construção civil e 2,8% nos serviços industriais de utilidade pública. A variação da Formação Bruta de Capital Fixo — indicador que mede a capacidade de produção do país — será negativa em 6,2%, prevê a CNI.

Como sempre acontece nos ajustes fiscais, os investimentos despencaram. No ano passado, nos primeiros quatro meses, as obras e as aquisições de equipamentos da administração direta somaram R$ 18,3 bilhões, contra apenas R$ 11,5 bilhões de janeiro a abril de 2015, o que significa redução de 37,3%. Até os investimentos sociais estão sendo sacrificados. Na Educação, por exemplo, apesar do lema recém-criado, a “Pátria Educadora” ficou com R$ 895 milhões a menos. Na Saúde e no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, os investimentos foram enxugados em R$ 496 milhões e R$ 189 milhões, respectivamente. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ficou menor R$ 6,6 bilhões.

A penúria no quadrimestre é geral. Em 2014, a execução orçamentária do programa Minha Casa Minha Vida foi de R$ 6,1 bilhões. Em 2015, somou apenas R$ 5 bilhões. Trata-se do subsídio que sai do orçamento da União para a redução das prestações dos adquirentes de imóveis. A tesoura também passou pelo Fies. O dinheiro acabou e os repasses diminuíram 33%. Na nova regra, os reembolsos às instituições serão em oito parcelas ao ano, em vez das 12 praticadas em 2014. Os municípios também pagam o pato. Neste ano ainda não viram qualquer centavo da ação “Serviço de apoio à gestão descentralizada do programa Bolsa Família”, destinada à melhoria do atendimento e à atualização do cadastro, entre outras finalidades.

Nas empresas estatais, as últimas informações disponíveis são do primeiro bimestre. Em 2014, o setor investiu R$ 14,7 bilhões, enquanto em 2015 aplicou 17,8% a menos. A retração foi puxada pela Petrobras, abraçada com a Lava-Jato e endividada até o pré-sal.

O arrocho é explicado pelo atraso na aprovação do Orçamento de 2015 e pelo rigor dos limites fixados para os dispêndios. Mas o que já está ruim pode piorar. Nesta semana será divulgado corte nas despesas discricionárias na faixa de R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões, conforme as alterações do Congresso nas medidas propostas pelo governo. Várias autoridades do primeiro escalão irão reclamar em “off”, pois ministro sem verba é como neném sem chupeta.

Os petistas criticam, mas são “Levy” desde criancinhas. No horizonte vermelho, a elevação dos juros vai desaquecer a economia e conterá a inflação. Com o alívio nos preços, as famílias voltarão a consumir e os empresários irão desengavetar projetos. Os cortes nas despesas públicas e o fim das pedaladas irão recuperar a credibilidade do governo junto ao mercado financeiro e às agências de risco. Em dois anos, a economia voltará a crescer e Lula voltará em 2018.

O problema é que, diante da lambança que Dilma produziu na economia, além da sua anorexia política, a recuperação econômica pode tardar e o panelaço aumentar. Para agravar, tudo terá que ser combinado com os russos, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e parlamentares do próprio PT e aliados. Haja vista a votação do fim do fator previdenciário…

Enfim, o Brasil parou, atolado nas crises de natureza econômica, política, social e moral. O futuro, a curto e médio prazos, não é promissor. Dilma pode até perder mais alguns quilos, o que não lhe fará mal. Mas a economia e a indústria brasileira não podem continuar a emagrecer.

A raiz do rombo


A raiz da crise atual foi plantada bem antes da eleição da atual presidente. Os enganos e desvios começaram já no governo Lula. O que a realidade está mostrando é que nunca antes nesse país se errou tanto, nem se roubou tanto em nome de uma causa, mas dessa vez o desarranjo foi longe demais
Fernando Henrique Cardoso

Dilma faz haraquiri fiscal

A canetadas, Dilma pode estar cavando a cova do próprio partido. E o pior: para sepultar, inclusive, o legado pelo qual o PT reivindica ser responsável. Desde que chegou lá, em 2003, Lula deixou claro qual parcela da população deveria ser o alvo prioritário das políticas de Estado: os mais pobres.

Por meio do estímulo de políticas desenvolvimentistas, o desemprego caiu, a miséria quase se extinguiu, ampliou-se o consumo por uma classe média inflada, e o acesso à educação demonstrou-se a caminho da universalidade. Foi esse estado de premente transformação que garantiu três reeleições do PT, apesar dos vários escândalos no caminho e do empenho diuturno de nossa fatia aristocrata (de fato ou pseudo) e exclusivista em tentar, em vão, obscurecer a face real da mudança social em curso.

Pois o ciclo petista no Planalto atinge um estágio especial imediatamente após a reeleição de Dilma. O desemprego cresce, bate em nossas portas, e os índices de inflação resistem, vão superar o teto da meta apesar das elevações da taxa Selic mês a mês – o que confirma a tese de que há formas mais eficazes de se praticar política monetária contracionista em cenários de estagnação ou recessão.

Fato é que a baliza mestra do lulismo, a inclusão pelo consumo, trincou-se. O povo anda com dinheiro curto, com crédito mais caro na praça, e quem tem emprego percebe que é o momento de lutar para mantê-lo. O governo petista está perdendo, portanto, o público cativo que provou e aprovou seu “modus”. Perdendo essa massa, que armas restarão para Lula, Dilma e o PT contra uma crise de sete cabeças?

Qual o próximo capítulo? A retração nas políticas sociais. Dilma e os ministros garantem que não, que o ajuste fiscal é implementado justamente para garantir o orçamento das ações de transferência de renda. Mas alguém ainda acredita no que ela diz?

A presidente cantou o valor de R$ 78 bilhões para contingenciamento nos ministérios, sendo esse outro nome para arrocho. O Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, é exemplo de iniciativa que não sairá ilesa do facão. Trata-se de um programa com força para fazer girar um segmento poderoso e multiplicador da economia, que gera uma cadeia de empregos formais, especialmente para trabalhadores menos capacitados. A próxima sequela recairá sobre o Bolsa Família? Quem garante que não?

Dilma, Levy, Barbosa, Mercadante e cia. perpetuam a velha sina dos países em desenvolvimento, ou subdesenvolvidos: quando seu povo mais precisa do Estado é quando o Estado mais se nega a atendê-lo. Duro é saber que, ainda hoje, há muito mérito próprio retratado nos desmandos que acorrentam nosso país a seu fado histórico.

Dependente desde sempre de vender suas bananas ao mundo, o Brasil entra em recessão quando sobram bananas, ou porque a safra foi inesperadamente boa, ou porque se enjoou delas no hemisfério Norte. O resultado é que as políticas sociais, financiadas pela venda de nossas bananas, não se expandem ou retraem em contrafluxo ao andamento desse comércio internacional, como deveriam. 

O sofrimento dos enfermos

Ninguém duvida que educação pública de qualidade é prioridade indiscutível quando se trata de investimento oficial, certo? Eu também não, mas muitas vezes, para não dizer quase sempre, fico pensando se a preocupação com saúde pública não deveria também estar no mesmo nível. Ou acima. Hoje e sempre, a todo momento.

Sei: agora mesmo, milhares de alunos egressos de escolas públicas depauperadas, ensino desconectado da realidade e professores desmotivados pelos ganhos insuficientes enfrentam um impasse absurdo nos recursos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). E isso depois de terem sido estimulados a lutar por uma vaga na universidade, quando a hipótese de cortes na educação era, como sempre deveria ser, algo impensável.

Se dói ter sido excluído do auxílio oficial aos estudos, imaginem então o sofrimento de pacientes sem assistência médica. O Sistema Único de Saúde (SUS), que universalizou o atendimento, faz até o impossível com seus servidores abnegados. Tem muito plano privado de saúde que só vende ilusão. E a farsa só acaba desmascarada quando a situação já é de emergência.

Quem está mais habituado a frequentar o ambiente inspirado em hotéis luxuosos de clínicas e hospitais particulares, a começar por muitos políticos e gestores públicos, perde a noção. Pessoas doentes varam o Estado em micro-ônibus lotados pela madrugada, passam a noite ao relento na fila, têm dificuldade para conseguir uma ambulância em situações de urgência… E, mesmo nesses momentos de aflição, esbarram na falta de leito. Como os familiares podem se conformar se há hospitais com alas inteiras abandonadas? Outros têm servidores dedicados, mas em número insuficiente e até mesmo com salários em atraso. Pode isso?

Ninguém deveria dormir em paz sabendo que há pessoas sofrendo por falta de atendimento ou sem os cuidados necessários. Nenhum paciente, por maior que seja a sua dor ou por mais debilitado que esteja, deveria se conformar com a ideia de que é assim porque não tem outro jeito. Sempre tem.

Cada um de nós, individualmente ou em conjunto, pode fazer sua parte. Ainda bem que muitos fazem, e ensino de qualidade, citado lá no início, contribui para maior conscientização. Mas só os governantes _ e cada um sabe das suas atribuições _ têm potencial para agir em escala. Cobremos deles, pois. Menos desculpas e mais ação. Fim ao sofrimento dos pacientes desassistidos. Já.

Clóvis Malta

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A conta é sua, eleitor

Nada é tão ruim que não possa piorar. É o caso do sistema político brasileiro. O pouco que funciona, os parlamentares, com o PMDB à frente, estão querendo mudar. A reforma em tramitação no Congresso é concebida para afastar o eleitor da urna, facilitar a vida dos políticos e concentrar poder - o oposto do que as passeatas de 2013 pediam.

Não por acaso, os anos ímpares têm se notabilizado por manifestações contra quase tudo. Um dos alvos prioritários dos protestos são os políticos em geral - e alguns em particular. Por quê? Em anos ímpares não há eleições. O único jeito de o eleitor se manifestar é indo às ruas ou janelas.

Pois o Congresso está prestes a transformar os anos pares em anos ímpares da política também. O PMDB quer cassar o direito do eleitor de votar a cada dois anos e expressar seu descontentamento da maneira mais democrática que se conhece. Pela proposta que será apreciada nesta semana, só haveria uma eleição a cada cinco anos, para todos os cargos.

Quem perder que se contente em bater panelas ao longo de meia década, porque não haverá nenhuma outra maneira eficiente de demonstrar seu descontentamento. Não haverá mais eleições de prefeito e vereador alternadas com as de presidente e governador para liberar parte da pressão social acumulada a cada dois anos.

Enquanto a sociedade reclama maior participação nas decisões que vão impactar sua vida, os congressistas querem cortar a pouca que existe em 60%. Se haveria dez eleições ao longo dos próximos 20 anos, agora serão apenas quatro. Se a regra entrar em vigor já, a partir de 2016, em lugar de votar a cada dois anos, como têm feito desde o fim da ditadura, o eleitor só poderá votar em 2021, 2026, 2031 e 2036.

Se você é antipetista, imagine o que seria aguentar mais cinco anos de governo Dilma e dois anos a mais de mandato para o prefeito paulistano Fernando Haddad. Se você é petista, projete passar mais cinco anos sem poder nem sequer sonhar em tirar o PSDB do governo paulista. É o que o Congresso está pondo no fogo: uma panela de pressão do tamanho do Brasil, em meio a uma crise econômica e à perspectiva de racionamento de água. Além dos fabricantes de panelas, só os políticos têm a ganhar.

Depois da Operação Lava Jato, o financiamento de campanhas eleitorais passou a ser um problema até para quem o considerava uma solução para suas finanças pessoais. Marqueteiros estão estimando um corte de pelo menos 40% dos preços de produção da propaganda eletrônica - simplesmente porque quem paga a fatura está na cadeia ou vai fazer de tudo para não parar lá.

Propondo mandatos mais longos e menos eleições, os políticos estão tentando resolver um problema exclusivamente deles: diminuir o risco de ser preso ao buscar dinheiro para se eleger. É como se o empregador dissesse para o empregado que, para resolver o problema de caixa da empresa, passará a pagar o salário só de três em três meses.

Pelos padrões internacionais, as eleições brasileiras nem são das mais exorbitantes. Mas se o problema é financiá-las, que tal diminuir os custos eleitorais, em vez de cancelar a eleição?

Uma das partes mais caras das campanhas majoritárias são os programas de TV. São mais de 40 dias de bombardeio diário. Para cada spot de 30 segundos veiculado, há outro que foi gravado, mas nunca chegou a ir ao ar, porque não agradou quando foi mostrado em pesquisas sigilosas com eleitores. No final, são horas e horas de programação, boa parte jogada literalmente no lixo.

Por que não encurtar o horário eleitoral para três semanas, já que o eleitor define seu voto cada vez mais perto da eleição? Por que não acabar com os programas de meia hora - cuja audiência diminui a cada ano - e só veicular spots de 30 segundos ao longo da programação?

A resposta é a de sempre: se o eleitor pode arcar com a conta, por que os políticos haveriam de pagá-la?

No mato sem cachorro

Não dá claramente para identificar a lona servindo de cobertura. Muito menos é visível a olho nu qualquer elemento concreto que indique a construção do muro. Não dá, portanto, para determinar se o plano contempla a construção de gigantesco circo, ou de hospício de proporções jamais vistas.

Na verdade, o que fica visível é o nada. Ou melhor, o tudo. A ausência de um plano faz com que a desordem instalada torne qualquer coisa seja possível, ou, pior ainda, aceitável. É dessa maneira que tudo parece se resumir a uma sequencia de sacrifícios sem recompensa, ou (para alguns somente) recompensadas sem qualquer sacrifício. É o Caos.

Caos não traz benefícios. Apenas uma luta eterna pela sobrevivência imediata, simplesmente baseada na desordem, onde impera a entropia. Falta, enfim, razões, ideias e objetivos que formem algo que possa se assemelhar a uma nação. Ou pelo menos a seu projeto, mesmo que em construção. Sem isto, fica tudo sem direção, sem sonho, a deriva, enfim.

De um lado, pedem-se sacrifícios, ajustes, apertos nos respectivos cintos. Inexistem, entretanto, razoes para acreditar que, após todo o sacrifício, existira uma vida melhor. Pior ainda, não existem lideres capazes de explicar como seria caso realmente exista, esta vida melhor após o ajuste. Talvez por isso seja tão difícil conseguir apoio a medidas que, em outras circunstancias, seriam consideradas normais, de bom senso, recomendáveis, e até urgentes.

Todo este estado de coisas leva naturalmente a insatisfação generalizada. Não dá mesmo para imaginar que os responsáveis pelo atual estado de coisas estejam qualificados para a dura tarefa de corrigir erros, propor e propor soluções, e liderar a marcha em direção a dias melhores. Faltam competência, inteligência, vontade, e honestidade. Inexiste credibilidade.

É ai que, enquanto a vaca tosse muito e vai lentamente adentrando o lamaçal, a porca torce o rabo. Repetida e inutilmente. Ausência de ideias e de projeto não parece privilegia exclusivo daqueles que ocupam o poder.
Em país de crimes sem castigo; de quadrilhas sem chefes; de desertos de ideias, era natural que também existisse oposição que não opõe. Da mesma maneira que inexistem duvidas de que tudo precisa mudar, rareiam propostas, estratégias e lideres capazes de sugerir e liderar alternativas.

Ficamos, então, vagando perdidos neste deserto de ideias. No mato sem cachorro. Aferrados ao atraso. Forasteiros do que vemos e ouvimos. Velhos de nós mesmos.

O Brasil e os partidos


O País vive uma grave crise e, no entanto, as agremiações políticas vêm se comportando como se só os seus interesses propriamente partidários estivessem em jogo. As questões nacionais passam a segundo plano, servindo apenas de pretexto para os jogos cada vez mais brutos de poder. Governistas atuam como se oposição fossem, enquanto a oposição age como o PT de antanho, renegando até mesmo as suas próprias ideias. É como se o País tivesse de testar o abismo para logo recuar. Destaca-se nesse cenário o PMDB, que, mal ou bem, está contribuindo decisivamente para a aprovação das medidas provisórias do ajuste fiscal, absolutamente necessário como etapa preliminar do saneamento das contas públicas. 

O PT, a partir dos dois últimos anos do governo Lula e nos quatro do governo Dilma, levou o Brasil a uma situação econômica e ética insustentável. A tal “nova matriz econômica”, eivada de posições estatizantes e esquerdizantes, conduziu ao descontrole da inflação, ao produto interno bruto (PIB) negativo, às contas fiscais em desajuste extremo e, agora, ao desemprego. Nesse meio tempo, foi se apoderando cada vez mais da máquina estatal, pondo-a a serviço dos seus interesses partidários e eleitorais, como se só isso valesse. O País, enquanto bem maior, bem coletivo, não entrou nesse cálculo, sendo tão somente um meio de consecução dos objetivos exclusivamente partidários.

A conta dessa irresponsabilidade finalmente chegou e o partido, assim como seu governo, tem imensa dificuldade de reconhecer os seus próprios erros. Continua apostando no marketing e em discursos de esquerda cada vez mais radicais, como se aí se encontrasse a saída.

A esquizofrenia partidária, nesse contexto, só tende a aumentar. Sua expressão mais manifesta consiste na oposição que o PT faz a seu próprio governo, tendo chegado, inicialmente, a rejeitar demagogicamente as medidas do ajuste fiscal, condição mesma para que o País saia do atual atoleiro. Comporta-se como se o governo não fosse petista, como se essas medidas fossem coisa apenas do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um “neoliberal”. Note-se que “neoliberal” significa, na atual conjuntura, a qualificação de uma política que tem como objetivo pôr as contas públicas em dia. Ser neoliberal significa tão somente ser responsável. A esquerda perdeu o discurso.

O PSDB, que deveria ser o partido líder da oposição, não faz melhor figura. Adotou a atitude do PT de antanho, vindo a criticar as medidas de ajuste fiscal como se fossem prejudiciais ao País. Ora, essas medidas seriam muito parecidas com as que Aécio Neves implementaria se tivesse sido eleito presidente da República em 2014. É bem verdade que estas seriam mais abrangentes e teriam também um forte componente de crescimento econômico. Em qualquer caso, um ajuste teria de ser feito.

Nesse sentido, os tucanos são contraditórios consigo mesmos, acabando por renegar o que defendiam na disputa eleitoral. Exercem uma oposição irresponsável, apostando também no fracasso. Acontece que o fracasso das atuais medidas econômicas, mais do que uma disputa partidária, seria extremamente daninho para o País. É como se os partidos brasileiros não tivessem a menor noção do significado de “oposição responsável”, voltada para o bem coletivo. Cada um olha apenas o seu próprio umbigo!

O PMDB, apesar de seus conflitos internos e da voracidade fisiológica de boa parte dos seus membros, está se saindo melhor. Graças às novas funções de articulação política assumidas pelo vice-presidente da República, Michel Temer, o partido está se colocando como aquele que melhor expressa os interesses nacionais. Sua atitude de defesa do ajuste fiscal, coerente com uma posição governista e reconhecendo implicitamente os erros que foram cometidos, sinaliza uma postura voltada para o bem coletivo, embora possa, evidentemente, usufruir os dividendos políticos em caso de êxito.

O vice-presidente tem clara consciência de que a não aprovação dessas medidas poderia vir a criar um quadro econômico e político extremamente maléfico para o Brasil. Reconhece os limites do jogo político, reconhece o que a Nação pode ou não suportar. E um downgrade das agências internacionais de avaliação de risco poderia ser insuportável!

O enquadramento do PT é um fato também novo nestes 12 anos de governos petistas. O partido sempre se comportou como se o governo fosse exclusivamente dele, deixando os partidos aliados em posição claramente subalterna. Agora, tentou fugir de suas responsabilidades e foi enquadrado. Procurou mesmo votar contra o ajuste fiscal, como se não fosse coisa de seu governo, jogando, como se diz, para a plateia. Foi obrigado a fechar questão pelo vice-presidente e pelo PMDB, que teriam ameaçado não levar as medidas provisórias do ajuste fiscal a votação.

Forçado a recuar, o PT terminou aprovando tudo o que professa não concordar. A desorientação é total. Na hora decisiva, teve medo das consequências de sua irresponsabilidade. Foi impelido a ser governo, apesar de si mesmo.

Acontece que o Brasil não pode ficar à mercê das vicissitudes dessas distintas posições partidárias. Se esta primeira etapa de aprovação do ajuste fiscal não for levada a cabo, e mais, se ela não for seguida de iniciativas de crescimento responsável, o nosso país é que será o maior prejudicado, o que significa dizer que o ônus recairá sobre o conjunto dos cidadãos.

O Brasil não pode ficar refém das disputas partidárias, como se estas fossem um mero jogo de substituição de posições. O governo age como se não tivesse sido oposição e a oposição atua como se já não tivesse sido governo. É como se contassem somente os interesses particulares de cada um. É como se nos pleitos eleitorais o bem coletivo e as propostas que poderiam a ele conduzir fossem um mero pretexto. Falta a escritura de um texto, de uma verdadeira narrativa, chamada Brasil.

As farsas e os furacões

Daqui a alguns anos, filhos e netos, criados e maduros e cada vez mais perguntadores, irão querer saber de nós como o Brasil conviveu por tanto tempo com os atuais presidentes da Câmara e do Senado, se os dois estavam sob investigação do Supremo. Como a vida continuava como se nada fosse com eles, enquanto todos os dias alguma notícia os envolvia em corrupção?
Você pode dizer que Eduardo Cunha e Renan Calheiros foram os homens mais poderosos do Brasil, sob a desconfiança da maioria dos brasileiros e inclusive dos próprios colegas, porque assim desejavam dentro e fora do Congresso.

Lembraremos que sempre foi assim. Que na mesma época em que Cunha e Calheiros mandavam, orientando as reações fortes do parlamento a qualquer gesto do governo, o senador Fernando Collor pedia a cassação do procurador-geral da República.

Collor, o caçador de marajás que renunciou à Presidência em 1992 para não ser cassado, e agora também envolvido na Lava-Jato, pretende calar o chefe do Ministério Público que o denunciou ao Supremo.


Cunha, Calheiros e Collor desfrutam de uma imunidade a que poucos podem almejar. São personagens a serviço não só do Congresso que os sustenta como comandantes, mas também de quem não pretende fazer nenhum esforço para que se afastem de onde estão. Para estes, é bom que lá estejam.
Cunha a Calheiros foram feitos do mesmo barro que deu forma a Collor. Todos são aberrações. Estariam bem na periferia da política, vivendo das migalhas do baixo clero do Congresso e de suas atitudes quase sempre indecorosas. Mas são protagonistas.

Collor tem muito a ensinar aos outros dois. O jornalista Mario Sérgio Conti, autor de Notícias do Planalto (Companhia das Letras, 1999), descreve em detalhes como o alagoano foi uma construção perfeita. Um certo jornalismo, tão zeloso de seus feitos, não pode renegar o crédito de ter ajudado a elaborar a figura de Collor como salvador.

Em abril de 1987, o governador de Alagoas foi apresentado em reportagem do então poderoso Jornal do Brasil como o homem que poderia moralizar o país. O livro de Conti relata (na página 46 da primeira reedição) que o JB exaltava: “Como impetuoso lutador faixa-preta de karatê que é, ele investe com golpes fulminantes e certeiros contra vários adversários ao mesmo tempo”.

Como, repita-se, o jornalismo é tão zeloso de suas façanhas, credite-se a literatura do texto acima aos jornalistas Augusto Nunes e Ricardo Setti, que ofereceram o adjetivado personagem ao Brasil como “Furacão Collor”. Pronto, tínhamos um jovem vigoroso e justiceiro para reconstruir a democracia.
O jornalismo que procurava ficar longe de tanta ventania já sabia, de Cacequi a Marau, de Canoas a Apucarana e de Macatuba a Tapejara, que Collor era uma farsa.

O livro de Conti deveria ser estudado, desde o Ensino Médio, para que nossos filhos e netos compreendam como os Cunhas e os Calheiros são criados e sobrevivem a tudo e como Collor afronta até o xerife que o investiga.

Cunha e Calheiros são os furacões de hoje, dedicados a corromper as relações já precárias entre Congresso e governo. Se não tivessem utilidade para os fomentadores desse embate político destrutivo, já teriam sido mandados embora pela parceria, como aconteceu com Fernando Collor em 1992.