quinta-feira, 29 de maio de 2014

Nossos tempos

Ilustração Francisco Goya (1746/1828) 
"Vivemos num tempo de chantagem universal,
Que toma duas formas complementares de escárnio:
Há a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento.
Uma e outra servem sempre para a mesma coisa:
Manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos"
José Ortega y Gasset (1883/1955), filósofo espanhol.


Sonata ao luar

Gandhi


Brasil está mais maduro e menos entusiasmado com Copa


O jornal britânico Financial Times publicou uma análise nesta segunda-feira atribuindo o suposto pouco entusiasmo dos brasileiros com a Copa do Mundo a um amadurecimento da população, que está mais velha e escolarizada do que no passado.
O artigo - assinado pelo diretor do escritório do jornal em São Paulo, Joe Leahy - diz que as decorações de ruas para a Copa "não estão muito em evidência neste ano" e que o "país do futebol talvez agora esteja um pouco mais maduro, com mais coisas na cabeça do que apenas o jogo bonito".
O jornalista sustenta sua tese citando dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): a população jovem, de 15 a 24 anos, passou de 21% da população em 1980 para 17% agora, enquanto a faixa etária de 25 a 59 anos subiu de 35% para 48% no mesmo período.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Esbórnia da cretinice em Maricá

Ônibus de uma MaricaTrans, nem instituída, mas 
com veículos participando de desfile cívico

O município promoveu uma gastança populista para lembrar os 200 anos de emancipação. De cara, como os petistas instituíram na cidade, nunca em dois séculos se aplicou tanto dinheiro público em festas como nos seis anos de esculhambação petista. Pode-se incluir nos cálculos inclusive as antigas quermesses e festas de igreja, que ainda o atual governo dá banho em número de bundalelê ou show gospel, que isso tem de agradar a gregos e troianos, o sagrado e o profano. Faz com um pé nas costas esse jogo de dar aqui e acolá, pois vale tudo em troca do voto e do continuísmo.
Fez chover todo tipo de agradinho para os incautos festejarem na praça principal sabe-se lá o quê. Inclusive restituiu o desfile cívico dos estudantes, que considerava desde 2009 uma palhaçada. Encheu todos os espaços possíveis com barracas para vender uma administração incapaz de qualquer gesto verdadeiramente cidadão como numa feira de promessas. Afinal, o que oferece mesmo são migalhas como os antecessores, que agora são enfeitadas pelo marketing – outra esbórnia com o erário. Foi assim que investiu uma dinheirama de milhões em escola de samba de município vizinho para desfilar no Sambódromo, e agora, como tornaram tradição, foi-se mais outro dinheirão para pagar suplemento em jornal do Rio com as “belezas” maquiadas dos petistas.
Governo de incapacidade atroz de administrar que não sejam os rendimentos para bolsos próprios e de comissionados tem ao mesmo tempo uma imensa dose de irrealidade. Se em outras gestões não havia dinheiro e ainda faltava ânimo de realização, agora se esbanja em royalties para se implantar o município da fantasia tresloucada de um inconseqüente, que vive de promessas de olho sempre na próxima eleição, como acontece agora.
Que importa se o hospital, o único do município, está entregue aos ratos e baratas, a educação vai de cambulhada para o ralo, as ruas recebem maquiagem eleitoreira, o crime impera na cidade, nenhuma obra de efetiva necessidade foi feita? A festa cívica de emancipação, que deveria ser mais uma exibição de obras realizadas, no mínimo, virou um desfile auto elogioso da canalha petista. A preço de ouro como é costume dos ex-pobres, barraqueiros. A festa, que teria custado a bagatela de R$ 4 milhões, incluídos aí a propaganda em grande jornal, DVDs sobre as grandes realizações distribuídos gratuitamente, CDs de música de escola de samba cantando as glórias da cidade e mais um montão de babilaques. 
A cretinice foi esbanjada com o desfile de ônibus que estão há meses estacionados no aeroporto para serem colocados nas ruas, quando agosto chegar. Tudo para demonstrar uma realização que só fez mesmo gastar dinheiro público para engrandecimento político de uns e outros.  O desfile foi o exemplo máximo de que qualquer crime pode ser cometido pela administração petista, imune às leis e impune aos crimes.

Bilhete de prefeito em Maricá

Através da página na internet, prefeito de Maricá mostrou mais uma vez o alto nível de suas mensagens petistas com uma convocação para comparecimento em festa cívica vestindo vermelho e para se assinar documento cretino pedindo fim do monopólio de empresa de ônibus, descaso pelo abastecimento de água e violência. Ou seja, temas que deveriam ser administrados por quem foi eleito.


O abaixo-assinado calhorda é o mesmo que vem colocando nas ruas desde 2011. Em vez de agir junto aos governos e instituições, prefere bancar o revolucionário e usa o povo para fazer número em reivindicações que deveria liderar. 

Taxar mais os ricos não é essencial para reduzir desigualdade hoje


O combate à desigualdade social e à pobreza nos últimos vinte anos foi marcado pela melhoria dos gastos públicos, mas, no mesmo período, se avançou muito pouco na construção de um sistema tributário mais justo, afirma Ricardo Paes de Barros, um dos idealizadores do programa Bolsa Família e atual secretário de Ações Estratégicas do governo federal.
Ou seja, o país continua taxando proporcionalmente mais a população de menor renda do que a parcela mais rica.
Apesar de reconhecer que seria importante mudar essa realidade, Paes de Barros diz que é possível continuar diminuindo a concentração de renda mesmo sem um sistema tributário mais distributivo.
Em entrevista à BBC Brasil, ele afirma que "ninguém estaria contra fazer mais" pela redução da desigualdade, mas ressalta que é difícil politicamente realizar uma reforma tributária de grande porte no país.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Faz sentido

"Se começássemos a dizer claramente que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia e uma mentira, talvez pudéssemos nos entender melhor."  José Saramago 

A corrupção causa desigualdade?


De quem é a culpa de que a desigualdade econômica tenha aumentado tanto nos últimos tempos? Dos banqueiros, é a resposta óbvia para muitos. Segundo esta visão, o setor financeiro é o principal responsável pela crise econômica mundial que começou em 2008 e cujas consequências ainda são sofridas por milhões de desempregados e pela classe média que empobreceu, especialmente na Europa e nos EUA. Os que pensam assim também enfatizam que os banqueiros e especuladores financeiros que causaram a crise não pagaram preço nenhum e, pelo contrário, muitos deles agora estão mais ricos. Para outros, o aumento da desigualdade tem a ver com os míseros salários dos trabalhadores em países como China e Índia, cujas rendas empurram para baixo o rendimento dos trabalhadores no resto do mundo e geram desemprego, já que as empresas “exportam” postos de trabalho do Ocidente ao Oriente. Não; a tecnologia é a principal fonte de desigualdade, dizem outros. São os robôs, os computadores, a Internet e, em geral, todas as máquinas que substituem os trabalhadores que causam desemprego e desigualdade.
É mais complicado e profundo que tudo isso, argumenta Thomas Piketty, o economista cujo substancial livro O Capital no Século 21 (em tradução livre para o português) transformou-se num surpreendente êxito mundial.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Se os tubarões fossem homens"



Bertold Brecht na voz de Antonio Abujamra, no programa "Provocações".




Só dá pobre na cadeia

Cadeia é só para pobre, negro e viciado. Enfim, para quem não tem costas quentes nem uma graninha para soltar de gorjeta. É um costume brasileiro que até se estava desacostumando. Gente achava que isso era coisa do passado. O mensalão fez pensar que o país enfim estava para acabar com a desigualdade judicial. O pobre e negro passaria a dividir a cela com o colarinho branco, o ficha-suja, o mensaleiro. Falácia pura injetada na veia.
O país não mudou nada. Foi só jogo de cena. Os bandidos que mereciam estar no xilindró estão soltos na maior desfaçatez. Juiz de Supremo banca a soltura do colarinho branco da Petrobras e mantém os doleiros na prisão. Se enganou, sua excelência? Mas que engano monstruoso deixando o presumido chefão da máfia na Petrobras fora das grades! Ainda por cima, por garantia, decretou investigação sob sigilo judicial. Assim, nas sombras, sem transparência, pode ocorrer um inquérito até o fim dos tempos sem que um reles mortal saiba o que aconteceu. É o jogar para debaixo do tapete a sujeira que pode atrapalhar uma reeleição petista. Não será mera coincidência.
Outro juiz, também que já foi do partido da situação, agora solta um deputado com um prontuário de mais de 100 processos como ficha-suja. Mais um caso varrido para o espaço do silêncio. Será devido ao envolvimento maior de gente aliada?

O Brasil assiste, com a devida revolta, o poder passando a mão na cabeça dos companheiros sem a mínima vergonha. É momento de livrar a cara dos aliados comparsas, apanhados com a mão na massa, para que não se aumente ainda mais a bola de neve que possa derrubar, como em boliche, a nobre candidata. Mais uma vergonhosa posição de quem não dá a mínima para a igualdade social, que só existe mesmo da boca pra fora.

Os perigos estão à vista com este novo jeito de governar, aspirando a própria porcariada para não sujar companheiros e companheiras. Aparentar um governo de mãos limpas, com as mesmas manchadas de sangue do crime amigo, pode ser um risco à formação de um país de instabilidade. Exemplos não faltam na América Latina. A corrupção crescente com a conivência dos poderes é uma bomba relógio que um dia vai explodir e implodir todo um partido que se dizia honesto, levando de cambulhada o próprio país. 

Casario

Joaquim Albuquerque Tenreiro foi marceneiro,
projetista de mobiliário, pintor e escultor (1906/1992)

Análise de guru

“Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia”.
Referência de militantes de esquerda em todo o mundo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos diz que há retrocessos em segmentos dos direitos humanos no Brasil e critica a presidente Dilma por demonstrar "insensibilidade social".

sábado, 24 de maio de 2014

Como se faz uma onda



O filme alemão “A Onda” (“Die Welle”), de 2008 dirigido por Dennis Gansel, mostra didaticamente como se fazer um regime totalitário seja ele sob uma onda, uma suástica ou uma estrela. É inspirado no livro homônimo de
1981 do autor americano Todd Strasser e no experimento social da Terceira Onda. Obteve sucesso nas bilheterias alemãs e depois de dez semanas, 2,3 milhões de pessoas haviam assistido ao filme.

Brasil do entrudo na cara


Cada manhã, o brasileiro já não tem mais a tranquilidade de outros tempos, quando abria o jornal e lá encontrava políticos em debate das grandes questões nacionais.  Hoje o tapa na cara vem num direto da internet que explode em jorros os crimes e a roubalheira política. É uma verdadeira chuva de limões de cheiro, bisnagas de água suja, baldes de dejetos politiqueiros jorrando dos computadores.
Onde o debate das questões? Onde se apresentam as possíveis soluções? Onde aparecem os governantes administrando? O que se vê são todos, de todos os partidos, numa brigalhada para quem vai ficar com o osso do poder, danando-se o povo.
Em vez de administrar um país, a presidente sai em caravana para inaugurações fajutas, armando palanque em qualquer brejo de famintos para destilar sua campanha. Os outros não ficam atrás discutindo o sexo dos anjos, promovendo briguinhas para angariar simpatizantes. Os políticos, então, saem aos tapas e socos para uma boquinha a mais, um naco de poder, quando não estão se dizendo inocentes de crimes descarados que cometem.       
O momento, então, é de se livrar de qualquer sujeira praticada no passado recente ou por companheiros nada honestos. Vale tudo, mesmo apelar para uma Justiça lá não muito justa, mantendo prisão para doleiro e deixando companheiro livre, leve e solto para não explodir como mina de efeito retardado.

Também vale fazer sumir na poeira do noticiário qualquer informação que possa vincular poder à roubalheira, ou sugerir ligações perigosas de aliados com bandidos, ou de participação de encontros suspeitos de partidários com a bandidagem da pesada. Enfim, essas sujeiras que todo o dia o noticiário espirra na cara, como deboche, do internauta, que no fim paga as contas para todo o dia ficar enlameado pela sujeira de quem, por dever, obrigação e voto, deveria ser o mais interessado em não sujar a barra. Mas todo o dia emporcalham o poleiro e, não satisfeitos, ainda querem mais.  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dá o que pensar


O Brasil, em propagandas governamentais, faz parecer que é o paraíso na Terra. Ledo engano. Os governos têm pouco dado atenção a problemas sociais urgentes segundo se vê dos dados. Se a infecção hospitalar mata 100 mil pessoas, em média, no Brasil por ano, o programa Mais Médicos, menina dos olhos petistas na saúde, não passa de mais um engodo, porque não adianta se encher de médicos se não há condições de tratamento aos doentes mais necessitados. A saúde continua a ser uma caixa-preta, intocável, só exibida durante as campanhas para angariar votos.
Outro setor que não merece nenhum olhar é o trânsito, cada vez mais caótico e assassino. Nos conflitos do Vietnã, durante 20 anos, morreram 58.193 soldados norte-americanos. No Brasil, o trânsito matará este ano 50.241 pessoas levando-se em conta o crescimento da taxa em 4% ao ano. As estatísticas mostram que o trânsito brasileiro é 90% mais perigoso do que nos Estados Unidos. Não há efetiva campanha nem sequer medidas judiciais severas que façam reduzir essas taxas.
E a violência que descambada cada vez mais para níveis alarmantes não fica atrás em dados. Um em cada dez homicídios mundiais registrados em 2012 aconteceu no Brasil, segundo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. De acordo com o Estudo Global sobre o Homicídio 2013, que traz dados relativos ao ano de 2012, o Brasil teve 50.108 homicídios, o que representa a pouco mais de 11% de todos os 437 mil assassinatos cometidos no mundo.
Na Copa das Copas, o Brasil leva com vantagem o caneco de campeão dos piores em três estilos: saúde, trânsito e violência. De quebra ainda ganha mais outras medalhas nos demais setores sociais como o pior do mundo.  

Premiada a 'filósofa'

A sempre “filósofa” Mafalda deu um prêmio ao seu criador Joaquín Salvador Lavado, de 81 anos, o cartunista Quino, que foi receber o Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades, o mais importante da Espanha.

Sem ideias, novas manifestações continuam

O projeto neoliberal é privatizar e "commoditizar" tudo. No seu fracasso em realizar promessas de eficiência estão as raízes dos protestos que eclodem pelo mundo e no Brasil. Partidos políticos convencionais, reféns do capital internacional, não conseguem canalizar a raiva que emerge das ruas. Não há ideias novas, e as manifestações vão continuar. Esta é a síntese da análise do geógrafo marxista britânico David Harvey, de 78 anos, em matéria publicada no final do ano passado. Professor da Universidade da Cidade de Nova York, ele ataca os "oligarcas globais" e afirma que os bilionários foram os que mais ganharam com a crise.
Crítico da realização de megaeventos como Copa e Olimpíada, ele avalia que os governos são muito influenciados pelo capital financeiro. E aponta: "Esses eventos são sobre a acumulação de capital através de desenvolvimento de infraestrutura. Os pobres tendem a sofrer, e os ricos tendem a ficar mais ricos".

quinta-feira, 22 de maio de 2014

E a viúva consente!

A esquerda não sonha mais?

Há pouco acompanhei, aturdido, a polêmica em torno de uma proposta, que, por ser tão absurda, custei a levar a sério: de “traduzir” clássicos da literatura brasileira para torná-los mais acessíveis aos leitores. “Quero livros nas casas dos mais simples”, argumentou a autora do projeto, que, com dinheiro captado por meio de renúncia fiscal, em junho distribuirá gratuitamente 600 mil exemplares, em linguagem facilitada, de “O alienista”, de Machado de Assis, e de “A pata da gazela”, de José de Alencar. Aguardei a poeira baixar um pouco para fugir da armadilha de criticar a ideia de Patrícia Secco sob o argumento corrente de que não se pode mexer no texto dos autores porque isso é por demais óbvio.
O que me preocupa, na verdade, é a visão distópica que alicerça a convicção de Patrícia Secco e de seus apoiadores, e que alimenta o discurso da esquerda brasileira (aqui incluo petistas e tucanos e todos os assemelhados). Ela afirma que, por causa do vocabulário, considerado difícil, os jovens não gostam de Machado de Assis, o que é fato. Então, ao invés de sugerir mudanças no sistema educacional, visando à melhoria do nível dos alunos, Patrícia e seus apoiadores propõem “descomplicar” o texto do autor. Ou seja, o problema não está no nosso péssimo sistema de ensino, que historicamente vem sendo o instrumento mais eficaz de manutenção das desigualdades sociais, mas no escritor que utiliza palavras por demais sofisticadas.