quinta-feira, 24 de outubro de 2024

'Vocês nos veem queimando, fiquem em silêncio'


Não há consciência. Não há humanidade. Há apenas líderes que observam e não agem.

É nisso que Ahmed al-Dalou acredita, enquanto as imagens de sua família queimando repetem em sua mente. Ele diz que sua vida se foi. Ele morreu no inferno do complexo de al-Aqsa com seus filhos e esposa nas primeiras horas de segunda-feira, 14 de outubro.

À sua frente, no chão, há uma mortalha envolvendo o corpo de Abdulrahman, 12 anos, seu filho mais novo.

A criança permaneceu em agonia por quatro dias após o incêndio, provocado por um ataque israelense. Um dia antes de morrer, Ahmed o viu no hospital e ele conseguiu dizer ao pai: “Não se preocupe, estou bem, pai... Estou bem. Não tenha medo.”

Ahmed está meio falando, meio chorando, enquanto fala sobre o que foi tirado dele.

“Três vezes tentei tirá-lo [Abdulrahman] do fogo, mas seu corpo caiu de volta nele.”

Seu irmão mais velho, Sha'aban, 19, e sua mãe, Alaa, 37, morreram na noite do incêndio.

Sha'aban se tornou um novo símbolo do terrível sofrimento de Gaza. Imagens dele se contorcendo em agonia enquanto queimava até a morte na tenda da família foram compartilhadas ao redor do mundo nas mídias sociais.

Há queimaduras por todo o rosto e mãos de Ahmed. O tom de sua voz é alto, um som agudo. Sobre o piloto anônimo que enviou o míssil e os líderes que lhe deram ordens, Ahmed disse: “Eles quebraram meu coração e quebraram meu espírito... Eu queria que o fogo tivesse me queimado.”

Ahmed al-Dalou é um homem com idade entre 30 e 40 anos, com uma barba curta e escura. Sua cabeça está enfaixada, e seu rosto mostra sinais de extensas queimaduras recentes na testa e no nariz.

Ahmed al-Dalou sobreviveu ao incêndio que destruiu tendas no complexo de al-Aqsa, mas sofreu queimaduras no rosto e nas mãos ao tentar resgatar sua família.

Quatro pessoas foram mortas imediatamente e dezenas de outras ficaram feridas, incluindo muitas com queimaduras graves. As Forças de Defesa de Israel disseram que estavam “revisando o incidente”.

Um porta-voz da Casa Branca disse à CBS News, parceira da BBC nos EUA, que as imagens do incêndio eram "profundamente perturbadoras" e pediu que Israel fizesse mais para proteger os civis.

“Israel tem a responsabilidade de fazer mais para evitar baixas civis - e o que aconteceu aqui é horrível - mesmo que o Hamas estivesse operando perto do hospital em uma tentativa de usar civis como escudos humanos.”

Os EUA e outras potências, incluindo a Grã-Bretanha, expressaram preocupação com as baixas civis desde os primeiros estágios da guerra.

Na maioria das vezes, as agonias da morte acontecem longe das câmeras. É a busca frenética por sobreviventes nos escombros, as cenas dramáticas em hospitais, o fluxo interminável de funerais, que são capturados pelas câmeras.

Mas a morte de Sha'aban al-Dalou foi diferente. Sua mão pode ser vista, saindo do inferno, uma figura envolta em chamas, se contorcendo e além do alcance de qualquer ajuda.

Nos dias seguintes à sua morte, surgiram os próprios vídeos e fotografias de Sha'aban. Ele era um adolescente típico de sua geração, ciente do poder das mídias sociais, adepto de registrar sua vida diária.

A figura em chamas da noite de fogo apareceu ao mundo como um adolescente articulado e inteligente, um estudante de engenharia de software, um jovem que cuidou de sua família planejando uma nova vida fora de Gaza. Ele se filmou doando sangue e encorajou outros a fazerem o mesmo.

“Vimos tantos feridos, muitas crianças precisam urgentemente de sangue… Tudo o que exigimos é um cessar-fogo e o fim desta tragédia.”

Só conseguimos contar a história da família al-Dalou por causa do nosso próprio jornalista local que foi ao encontro dos sobreviventes. Jornalistas internacionais de organizações de mídia, incluindo a BBC, não têm acesso independente a Gaza por Israel.

Em um vídeo gravado na tenda onde morreu, Sha'aban descreveu como sua família foi deslocada cinco vezes desde que a guerra começou, há um ano. Ele tinha duas irmãs e dois irmãos mais novos.

“Vivemos em circunstâncias muito difíceis”, ele disse. “Sofremos de várias coisas, como falta de moradia, comida limitada e remédios extremamente limitados.”

Ao fundo, enquanto ele fala, ouve-se o alto zumbido mecânico de um drone de observação israelense, uma constante na trilha sonora diária e noturna de Gaza.

O irmão sobrevivente de Sha'aban e Abdulrahman, Mohammed al-Dalou, disse à BBC que tentou entrar nas chamas para resgatar seu irmão mais velho.

Mas outras pessoas feridas o seguraram, temendo que ele também fosse morto. Mohammed não dormiu na tenda da família, mas do lado de fora, na rua, onde ele vigiava seus pertences empilhados.

“Eu estava gritando para alguém me soltar, mas em vão… A perna do meu irmão estava presa e ele não conseguia se soltar. Acho que você viu no vídeo. Ele estava levantando a mão.

"Esse era meu irmão. Ele era meu apoio neste mundo.”

Sha'aban vinha e o acordava para as orações da manhã com uma garrafa de água e dizia: "Eu trabalharei para você".

Mohammed lembrou como os irmãos montaram uma barraca nos portões do hospital vendendo comida preparada pela família.

“Nós conseguimos tudo com nosso trabalho duro. Tudo o que tínhamos era do nosso esforço. Nós recebíamos comida e bebida… então tudo se perdia.”

Ele viu os corpos queimados, mas só conseguiu identificar sua mãe. Embora seus restos mortais tivessem sido mutilados pelo fogo, ele reconheceu uma pulseira distinta.

“Sem ela, eu não saberia que ela era minha mãe. A mão dela estava separada do corpo, mas a pulseira ainda estava nela. Eu a tirei da mão dela.”

Esta é a única lembrança que ele tem da mulher que era “a gentileza em nosso lar”.

A família al-Dalou está em choque. Os sobreviventes lamentam os mortos. Nosso colega da BBC perguntou a Mohammed sobre o custo psicológico de ver seus entes queridos morrerem.

“Não consigo descrever. Não consigo descrever como me senti. Quero explicar para as pessoas, mas não consigo. Não consigo descrever. Vi meu irmão queimando na minha frente, e minha mãe também.”

Então, como se estivesse fazendo uma pergunta em nome dos mortos, ele pergunta: “O que mais vocês precisam, e ficam em silêncio? Vocês nos veem queimando, e ficam em silêncio.”

Poema pouco original do medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos
Alexandre O'Neill, "Tempo de fantasmas"

O declínio da empatia é um risco democrático

Existe uma percepção generalizada de que assistimos a um declínio da empatia nas nossas sociedades. A capacidade para individualmente nos ligarmos com alguém que não partilha a nossa idade, religião, cultura, etnia ou condições socioeconómicas está a diminuir, enquanto crescem a desconfiança face ao outro e o individualismo, potenciando uma cultura de ressentimento e fomentando a polarização social. Não faltam manifestações concretas disto mesmo: do modo como a imigração se está a transformar no tema social central nas nossas sociedades, passando pelos fenômenos de bullying e as formas persistentes de humilhação institucional, até à cultura de ódio que grassa nas redes sociais.


O declínio da empatia não é uma tendência passageira, bem pelo contrário: trata-se de uma causa profunda para a desagregação social que afeta as democracias. Num discurso marcante, feito num encontro com estudantes em Istambul, em 2009, Barack Obama alertava que “o déficit de empatia é mais grave do que o déficit orçamental. Tornámo-nos tão cínicos que parece ingênuo acreditar que podemos compreender-nos uns aos outros ultrapassando o abismo da raça, classe ou religião”. Há muitas explicações para este declínio da empatia, mas nenhuma tão poderosa como a forma como o isolamento social é potenciado pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Em todo o mundo ocidental a percentagem de agregados familiares unipessoais tem crescido e Portugal é mesmo um dos países onde a tendência é mais intensa: nos últimos censos, aumentou em 28% o número de pessoas que vivem sozinhas, perfazendo mais de um milhão – sendo que metade são idosos, o que faz de nós o 4º país da UE com maior percentagem de idosos isolados (onde já vai a nossa tradição familialística). A epidemia do isolamento social materializa-se também no decréscimo do número de amigos: por exemplo, num estudo recente, 12% dos norte-americanos reportavam não ter nenhum amigo próximo (há 20 anos o valor era residual, apenas 3%) e a percentagem que dizia ter mais de dez amigos próximos caiu de 33% para 13%. Esta propensão para o individualismo coexiste com a retração da participação em instituições que garantiam a pertença social: das igrejas aos sindicatos, passando pelos partidos.

Enquanto escasseiam os espaços de pertença coletiva, o tempo despendido nas redes sociais cresce brutalmente: em 2013, em média no mundo, cada indivíduo passava uma hora e meia por dia nas redes, em 2023, esse valor aumentou para quase duas horas e meia diárias. Enquanto os países da América do Sul e de África têm valores muito elevados, em Portugal a média é de hora e meia diária. Ao mesmo tempo, a pandemia promoveu o distanciamento social e acelerou transformações no mundo laboral, com o teletrabalho a prejudicar profundamente a forma como historicamente o trabalho foi um fator de integração social e, também, a esbater as fronteiras entre vida privada e trabalho.

Nascemos, é verdade, com uma propensão genética para a empatia, que radica nos neurónios-espelho, mas que está longe de ser suficiente para contrariar o solipsismo crescente. A recuperação de uma ideia de virtude partilhada dependerá da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, o que acontece cada vez menos. Se coletivamente não o procurarmos, ficamos condenados a viver num crescendo de ressentimento social e com as fissuras sociais a acentuarem-se, no que é um risco para as democracias.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


O governo da lei e o poder dos costumes

Um período eleitoral repleto de agressões que põem em risco nossas hierarquias exprime a questão que ronda nosso espaço político: o conflito da lei com candidatos a um costumeiro mandonismo.

— O Estado Democrático de Direito é aquele em que o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos. Sua finalidade é coibir abusos do aparato estatal para com os indivíduos.

Essa conceituação, roubada da internet, esquece o problema: os abusos político-jurídicos dos mandões-salvadores contra o Estado Democrático de Direito. Abusos abonados por tradicional esperteza (“agora é nossa vez!”) e por costumes consagrados no preceito:

— Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei.

E no teorema de Oliveira Viana:

— Tenho coragem pra tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo!


Desvios particularistas são simploriamente chamados de “jeitinho” porque seu objetivo é manipular a lei, não modificá-la. Sua prática reitera um conhecido paradoxo brasileiro: burlar sem romper a lei.

O “jeitinho” e o estridente e agressivo “você sabe com quem está falando?” demonstram a força dos costumes. Eles exibem a antipatia pela lei que iguala, com o costume que, no Brasil, hierarquiza e verticaliza. Quem está “em ou por cima” não pode ser “tratado” como quem está embaixo. A prática democrática esbarra na hierarquia. Tal movimento promove uma dialética de insegurança, minando a prática democrática porque, na maioria dos casos, o costume engloba a lei.

Leis têm motivos, data e nome. Max Weber as classifica como instrumentos de uma “dominação racional-burocrática”. Um estilo de dominação com assustadora autonomia porque — como uma “jaula de ferro” — ela, ao lado do mercado autorregulado, submete seus operadores. Em contraposição, hábitos e costumes sem autores ou história constituem a “dominação tradicional” ao lado da “carismática”, em que predominam o personalismo e o mítico.

A dominação legal-racional tem base na lei escrita e numa presumida racionalidade. Leis são promulgadas, costumes são rotinizados e vividos. Leis podem ter propósito e autoria. Costumes são coletivos e anônimos. São as tais coisas do povo, como faz prova o populismo que promete “cuidar do povo” promovendo seus cuidadores.

O confronto entre lei e costume produz uma rotina de reformas e explica nossas reviravoltas jurídicas e políticas. Experimentamos muitos regimes: Colônia, Império, República, Estado Novo, ditadura militar, parlamentarismo, democracia e democracia de coalizão. Todos esses regimes têm um fundo comum: um personagem capaz de aglutinar tendências ideológicas. A despeito disso, contudo, hábitos religiosos, vigentes na moralidade, só agora têm sido discutidos.

O resultado é a descoberta de que um Brasil republicano e universalista está em luta contra um resistente Brasil familista, populista e particularista. É o tumulto da “casa” contra a “rua”, e não da casa como complemento da rua, conforme mostrei no livro “A casa & a rua”, publicado em 1985.

Não é fácil romper hábitos e costumes hegemônicos da reciprocidade inscritos no aforismo “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”; nem é tranquilo suprimir as hierarquias que dividiram nobres e plebeus, bispos e crentes e poderosos “donos” do povo.

Não é trivial relativizar as “regalias” com os “privilégios” e prerrogativas de cargos que usufruem isenção. Pois, caso seus ocupantes cometam um crime, são dele isentos ou julgados por leis apropriadas à sua condição.

Vale remarcar. Democracia é fácil de falar, mas difícil de fazer. Sobretudo num sistema em que a amizade, o companheirismo e a filiação podem relativizar a lei geral porque, até hoje, relativizamos pouco nossos costumes fincados em hierarquias e gradações.

Uma desconfiança da regra da lei paradoxalmente promovida pelo STF diz que é tempo de, com sensatez, harmonizar costumes e leis. E, se possível, de abandonar o axioma de Oliveira Viana, segundo o qual “tenho coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo”. É de cortar o coração, mas é preciso tentar.

Os instintos mais primitivos

É muito mais fácil educar os povos para a guerra do que para a paz. Para educar dentro do espírito bélico, basta apelar para os seus instintos mais primitivos. Educar para a paz implica ensinar a reconhecer o outro, a ouvir seus argumentos, a entender suas limitações, a negociar com ele, a fazer acordos. Essa dificuldade explica por que os pacifistas nunca contam com a força suficiente para ganhar… as guerras.
José Saramago, "As palavras de Saramago"

Caminhando nas trevas

O curso dos acontecimentos é cruel. Passaram os incêndios no Brasil, a dor lancinante em Gaza se estendeu ao Líbano, quase não se fala nela, e, agora, o apagão na maior metrópole do país passará rápido também. Como também estou passando e passarei, não hesito em abordar esse tema.


Estava em São Paulo na noite de sexta, 11 de outubro, quando caiu a tempestade. Na manhã de sábado, fui pegar para viajar uma pessoa que passara por uma cirurgia: ela estava com as malas tentando descer as escadas de um prédio sem luz. Pensei nessa contradição: uma cidade com grandes hospitais e medicina avançada, mas com um serviço de energia vagabundo. Confesso que já vi apagões em Boa Vista, quando dependiam da energia da Venezuela, e comentei aquele longo apagão de Macapá, que, por sinal, definiu as eleições de 2020 contra o governo.

Não me interessa muito o empurra-empurra sobre a culpa. Nem as oscilações cosméticas na burocracia reguladora. O que parece absurdo é o fato de estarmos diante de mudanças climáticas: novas tempestades virão; com elas, ventos que varrem a cidade, inundações, talvez. E quase não se fala em saídas de longo prazo, em adaptação aos novos tempos, que já chegaram e nos colheram de calças na mão.

Soube que, em 2009, foi aprovada uma lei para aterrar os fios. Mas, ao que tudo indica, essa lei não pegou. É uma saída cara, talvez nem tanto quanto os prejuízos do apagão que, nos cinco primeiros dias, somavam R$ 1,5 bilhão. Descentralizar a produção de energia, também não ocorre. O presidente George W. Bush, na sua época, quem diria, lançou um projeto para financiar painéis solares nas casas. Isso poderia ser feito em São Paulo com o estímulo de redução no IPTU. Não é saudável ficar dependendo de elefantes como a Enel. Não funcionam nem investem o necessário para manter a qualidade do serviço.

Cada vez mais entendo a falência dos partidos políticos, inclusive os da esquerda. Estes tiveram um alento quando olharam um pouco mais longe da luta de classes e viram as lutas identitárias. Mas a fórmula já não corresponde à nova realidade. As lutas identitárias se desgastaram com o rigor do politicamente correto, com as lacrações. Conforme ressaltou Mark Lilla, num livro que mencionei aqui, a vitória de Trump em 2016 já foi um aviso: as lutas identitárias sozinhas não sustentam uma campanha política nacional.

Assim como se ampliou em certo momento a ideia das classes sociais, hoje é preciso renovar. No meu entender, o passo a ser dado é reconhecer não apenas uma sociedade de classes, mas uma sociedade de riscos, onde os pobres se expõem muito mais. Essa é uma ideia do sociólogo Ulrich Beck, que já morreu, mas deixou uma teoria sobre a metamorfose do mundo, indicando que era preciso uma nova luz para entender a realidade.

O espaço é curto para expor tudo. Mas, se os partidos adotassem a visão de sociedade de riscos, não iriam para a porta de fábrica, como fizemos no passado. Eles precisam ir para a periferia, organizar não só as lutas elementares, mas principalmente a autodefesa da população diante dos eventos extremos cada vez mais frequentes. Em outras palavras, é preciso deduzir estratégia a partir do fato dominante que são as mudanças climáticas. Na verdade, elas ocupam hoje muita atenção: debates, conferências, viagens, teses e seminários. Mas falta quem arregace as mangas e vá trabalhar na realidade cotidiana a transição necessária.

Secas, incêndios, tempestades, tufões e apagões são a consequência dos novos tempos. A política não só ainda não descobriu essa realidade, como não se adaptou a ela para orientar a adaptação da própria sociedade. Caminhamos nas trevas, como diz o texto bíblico. O apagão na maior cidade do Brasil é o tipo de mensagem que não pode ser esquecida. Embora, como quase tudo que acontece, daqui a pouco também vai para a gaveta dos acontecimentos passados. Pelo menos, até que uma nova tempestade nos sacuda.

Acerca da opinião

Quando me manifestei com tanto ardor contra a opinião, estava ainda sob o seu jugo, sem me aperceber. Queremos ser estimados pelas pessoas que estimamos e, enquanto pude julgar favoravelmente os homens, ou pelo menos certos homens, os juízos que eles faziam a meu respeito não me podiam ser indiferentes. Via que os juízos do público são muitas vezes justos; mas não via que essa justiça resultava do acaso, que as regras sobre as quais os homens fundamentam as suas opiniões são extraídas apenas das suas paixões ou dos seus preconceitos, que provêm deles, e que, mesmo quando ajuízam bem, é frequente que esses bons juízos nasçam de um mau princípio, como acontece quando fingem honrar, a propósito de algum sucesso, o mérito de um homem, não por espírito de justiça, mas para se dar ares de imparcialidade, ao mesmo tempo que caluniam à vontade esse homem relativamente a outros pontos.

Quando, porém, após longas e vãs pesquisas, vi que todos eles, sem exceção, se mantinham dentro do sistema mais iniquo e absurdo que um espírito infernal pode inventar; quando vi que, a meu respeito, a razão fora banida de todas as cabeças e a justiça de todos os corações; quando vi uma geração frenética entregar-se totalmente à fúria cega dos seus guias contra um infortunado que nunca fez, nem quis, causar mal a ninguém; quando, após ter em vão procurado um homem, fui obrigado a apagar a minha lanterna e a exclamar; já não os há; comecei então a ver-me sozinho na terra e compreendi que os meus contemporâneos eram, em relação a mim, nada mais do que seres mecânicos que não agiam senão levados pelo impulso e cuja ação eu só podia calcular pelas leis do movimento. Fosse qual fosse a intenção, a paixão que eu tivesse admitido existir nas suas almas, jamais teriam explicado a sua conduta para comigo, de forma que eu pudesse entender. Foi por isso que as suas disposições interiores passaram a não significar nada para mim; passei a não ver neles mais do que massas que se movimentam de diferentes maneiras, desprovidas, a meu respeito, de qualquer moralidade.
Jean-Jacques Rousseau, "Os Devaneios do Caminhante Solitário"

O apagão visto por quem sobe em poste

O nome pomposo, Eduardo de Vasconcellos Correia Annunciato, virou Chicão ainda no Senai, onde entrou aos 14 anos para fazer o curso técnico de elétrica/eletrônica. A culpa é do corpulento 1,88m que colide com o jeito manso com que abre o celular para mostrar o vídeo recebido dias atrás. A imagem traz o vapor saindo de um poço com esgoto onde um termômetro marcava 71,7 graus centígrados. É nesse poço que um técnico de manutenção de uma empresa terceirizada teria que entrar para consertar um cabeamento subterrâneo.

Ao longo de uma hora e meia em que Chicão discorre sobre a manutenção da rede elétrica da cidade, a cena se repete. Anseios como o enterramento dos fios não guardam nenhuma relação com a rede como ela é. O jogo de empurra entre governantes, empresa e agências reguladoras ganha concretude no relato do presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo.

Aos 51 anos, trabalhou por 13 anos na manutenção da rede, antes de se tornar dirigente sindical, na Eletropaulo na AES, concessionária estreante da privatização, e na Enel. A corda e o capacete que usava estão pendurados na parede do sindicato no centro de São Paulo.


O problema não era diferente quando o serviço estava a cargo da Eletropaulo, mas como havia mais técnicos, os trabalhadores podiam se revezar em turnos. Agora, como a parada térmica foi abolida, é obrigado a acionar a Justiça para garantir horas extras que permitam jornadas com pausas. Ainda que esvaziados e resfriados, esses túneis têm temperaturas que ultrapassam 40 graus pela amperagem dos fios que lá correm.

O piso salarial dos eletricitários é de R$ 2.450, com 30% de periculosidade para aqueles da manutenção. O adicional, em função dos riscos a que estão submetidos, não permite que acumulem a insalubridade decorrente de ambientes como túneis de fiação.

Os números estão na ponta da língua. Dos 10.800 funcionários da Eletropaulo, 1.084 foram demitidos logo no primeiro ano da privatização, em 1998. A AES era mais dura na negociação do que a Enel, mas acabou se dando conta de que precisava recontratar quando, cinco anos depois, um apagão expôs a situação de um serviço que havia reduzido em 60% os contratados. Quando a Enel comprou a empresa, em 2018, eram 8.050 funcionários. No apagão de 2023, restavam 3,9 mil.

A terceirização de metade da mão de obra não fere a lei mas afeta a memória e a sinergia, como acabou se provando. Depois daquele apagão, a Enel comprometeu-se a repor 1,2 mil e não 2,5 mil como tem sido dito. E o fez, diz Chicão. O que não significa que deem conta.

Das 390 empresas cobertas pelo sindicato, há outras três distribuidoras além da Enel: EDP, Eletro e State Grid. Nenhuma, diz, terceiriza tanto. Depois da aprovação da lei da terceirização em 2017, até os serviços de emergência entraram na roda.

O sindicato perdeu uma ação de cumprimento da convenção coletiva de uma empresa terceirizada que tinha se valido de três CNPJs, um para a concessionária, outro para os funcionários e um terceiro para o sindicato. E assim, alegou desconhecer o objeto da ação.

Ao longo dos seis anos em que convive com a Enel pôde concluir que determinações, como a da terceirização, vêm da matriz na Itália. Impedidos por lei de estender a dívida com o fundo de pensão dos funcionários para dez anos além da vigência da concessão, quiseram tirar o patrocínio. Um dirigente da Itália chegou a vir ao Brasil para bater (vigorosamente) à porta do ministro da Previdência, Carlos Lupi, sem sucesso.

Nem por isso, Chicão é favorável à cassação da concessão. “Se mantiver o modelo de gestão, não adianta mudar a empresa”, disse ao ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Por modelo, chama, por exemplo, os religadores automáticos que garantem indicadores de frequência e duração das interrupções aceitos pela Aneel. Esses religadores caem na conta do consumidor e não na da empresa que, por conta do mecanismo, acaba adiando serviços de manutenção necessários à saúde da rede.

Não vê como a coisa possa melhorar sem uma mudança nas agências, a Aneel e a estadual, Arsesp. Diz que a fiscalização é feita a partir dos dados fornecidos pelas empresas. Tampouco exime o prefeito. Conta que depois do apagão de 2023, recebeu mensagem de Ricardo Nunes no celular, convidando-o para um encontro. Achou que fosse trote, mas, em seguida, o próprio ligou e reiterou o convite.

Filiado ao PCdoB desde a juventude, migrou para o Solidariedade para disputar a Câmara dos Deputados em 2022. Recebeu 8,8 mil votos. Apesar de seu partido apoiar Nunes, é eleitor de Guilherme Boulos (Psol), o que não o impediu de ter tido uma boa impressão do prefeito: “Ele se mostrou humilde, disse que desconhecia o setor e pediu ajuda. Se fosse má pessoa não se exporia assim.”

Entregou-lhe um mapeamento georreferenciado. Mostrou que, a cada 800 metros, havia problemas graves e, cada 1 km, risco de morte. Disse que a categoria tinha 16 mil aposentados aptos para podas emergenciais. Os meses para os eletricitários dividem-se entre aqueles que não têm “R” e aqueles que têm. É naqueles desprovidos da letra (maio a agosto) que a poda deve ser feita. Nunes ignorou o alfabeto. Às vésperas do apagão de 2023, a fila da poda tinha 3 mil árvores. Este ano, o número se repetiu.

Faz um único pedido antes de a conversa acabar. Que as pessoas não joguem pedra nos eletricitários da manutenção. Como muitos atendem em áreas dominadas pelo crime organizado, nem boletim de ocorrência podem fazer.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Eles existem

Um bate-papo na sala de espera de um hospital pode ser mais torturante do que a perspectiva de um exame delicado ou a expectativa por um diagnóstico. Num mau dia, ouvem-se opiniões estarrecedoras. No meu caso, foi na semana passada, pela voz de quatro ou cinco homens e mulheres, todos articulados e com leitura talvez acima da média, num ambiente —um reduto médico— em que, se não acreditamos na ciência, não sei o que estamos fazendo ali.


De repente, falou-se da vacina contra a Covid. Dois deles admitiram que se vacinaram, mas a contragosto e só uma vez. Um casal à minha frente declarou que não se vacinou, e o marido explicou por quê. Eram contra a obrigatoriedade, temiam os efeitos colaterais —"trombose, AVC, enfarte"— e não acreditavam que uma vacina pudesse ser fabricada em um ano. A prova estava em que, citando uma estatística, morreram mais vacinados em 2022 do que não vacinados em 2021.

Outro na roda era um alemão, bem sacudido para os seus 70 e tal, com leve sotaque no português bem falado. Estava revoltado com a invasão de muçulmanos na Alemanha, "empesteando-a com suas doenças e obrigando o governo a sustentá-los à custa dos alemães". Um exemplo de que a imigração arruinava um país, segundo ele, era a Inglaterra, tão ocupada pelos indianos que, até há pouco, o primeiro-ministro britânico era um.

As chuvas em Porto Alegre, o furacão nos EUA e os ventos em São Paulo também não tinham a ver com extremos climáticos. Sempre aconteceram, a mídia é que não falava neles. E o degelo da calota polar era mentira —a Groenlândia há dois séculos era um jardim e hoje é uma geleira.

Temo que o leitor não acredite que ouvi esses disparates numa sala de espera de hospital há alguns dias. Eu também não acreditava enquanto ouvia. Vivemos em bolhas e ali me dei conta de que, até então, nunca me vira entre negacionistas hidrófobos. Mas eles existem e não eram cínicos, pareciam convencidos do que diziam. Perguntei ao alemão se, em sua opinião, a Terra era redonda ou plana. Ele riu: "Que pergunta é essa? Estamos falando a sério!". E fiquei sem saber o que ele achava.

Enterrando a verdade sob os escombros de Gaza

“Você pode cortar todas as flores, mas não pode impedir a primavera de chegar”  Pablo Neruda

Por mais de um ano, os mestres da guerra em Israel e nos Estados Unidos, auxiliados pela mídia corporativa, enterraram a verdade sob os escombros de Gaza. A grande mídia dos EUA agiu como os cortadores de madeira e carregadores de água para o império.

Para entender como chegamos aqui, precisamos tomar emprestado o autor escocês do século XIX, Walter Scott, que escreveu: “Oh, que teia emaranhada tecemos quando praticamos pela primeira vez o engano”.

A reflexão de Scott ajuda a entender como a mídia transformou o sofrimento horrível dos palestinos e a campanha genocida de Israel em Gaza em apenas mais uma notícia — uma cena "aceitável" enquanto vivemos nossas vidas diárias. Também fornece insights sobre como o regime israelense encharcado em sangue foi retratado como a vítima, o bom soldado e digno de defesa.

Israel é um veterano em fraude de informação. Por meio século, eles definiram a narrativa e controlaram o ambiente de informação para esconder sua ocupação brutal de apartheid e objetivos expansionistas na Palestina. Eles sobrecarregaram o público, particularmente nos Estados Unidos, com informações favoráveis ​​à causa de Israel e suprimiram o que desafiou sua narrativa.

Apresentadores de televisão, jornalistas e a "intelligentsia" em think tanks espalhados pela capital do país foram condicionados a aceitar e defender o clichê político de Israel e a desacreditar rapidamente os argumentos daqueles que desafiam sua dissimulação.

A autocensura da mídia corporativa, a subnotificação, a ocultação de atrocidades, a falha em contextualizar a experiência palestina sob o regime do apartheid e, o mais flagrante, a ignorância da cumplicidade dos Estados Unidos na construção e manutenção do regime de apartheid israelense ao longo de 76 anos contribuíram para um ambiente que encorajou Israel a se tornar cada vez mais violento.

As piores práticas jornalísticas ficaram evidentes após a ofensiva palestina de 7 de outubro de 2023. Os gestores mentais permitiram que Israel estabelecesse os parâmetros da mensagem, do que poderia/não poderia ser escrito e dito.

A cobertura seria feita do jeito de Israel — por meio de uma lente militar. Todas as organizações de notícias estrangeiras que operam em Israel estão sujeitas às regras de um censor militar , com apenas certos assuntos permitidos. É comum, por exemplo, ler ou ouvir jornalistas começarem suas reportagens com “Israel disse”.

Também houve pouca atenção à recusa de Tel Aviv em permitir o acesso de jornalistas estrangeiros a Gaza, à censura e proibições internas da mídia impostas pelo regime e aos 128 jornalistas e funcionários da mídia palestinos em Gaza, que foram alvos e mortos pelos militares israelenses.

Embora a mídia tenha dado uma cobertura exagerada às histórias israelenses sobre assassinatos em massa, bebês decapitados e alegações de estupro generalizado e sistemático durante o ataque de outubro, nenhuma atenção foi dada à "Diretiva Hannibal" e à "Doutrina Dahiya" de Israel.

Em 7 de outubro, o exército israelense deu permissão às suas forças para executar a Diretiva Hannibal. Adotado em 1986, o código de conduta permite que os soldados matem seu próprio povo se eles forem capturados vivos por seu inimigo percebido. Um crescente corpo de evidências revelou que centenas de israelenses que morreram naquele dia foram mortos, não pelo Hamas, mas por seus próprios soldados.

A doutrina Dahiya se tornou política militar oficial após o devastador ataque de Israel ao Líbano em 2006. Nomeada em homenagem ao subúrbio de Dahiya em Beirute, a doutrina — ilegal segundo o direito internacional — exige o uso de força massiva e desproporcional e o ataque deliberado a civis e infraestrutura civil em guerras futuras.

Por muito tempo, narrativas enganosas foram usadas e pouca atenção foi dada às políticas indefensáveis ​​de Israel. Este é particularmente o caso em relação à Resolução de Partição da Assembleia Geral da ONU 181 (1947) que Israel usou para declarar a condição de estado e em sua colonização do que restou da Palestina histórica.

Ao evitar anos de governo do apartheid israelense e o cerco de 16 anos à Faixa de Gaza, o público ficou com a impressão de que o ataque de outubro foi um ato aleatório e não provocado de violência. Eles ouviram poucos detalhes do cerco esmagador que Israel impôs a Gaza quando se retirou em 2005, deixando para trás um plano de retirada restritivo, mantendo o controle exclusivo sobre o espaço aéreo de Gaza, águas territoriais, fronteiras, eletricidade, suprimento de água e movimento de pessoas e bens.

A história revela que há uma ligação direta entre ocupação e violência; que as pessoas ocupadas usarão todos os meios possíveis para serem livres, incluindo a violência.

O direito internacional (Quarta Convenção de Genebra, 1949) afirma o direito dos movimentos de libertação nacional de resistir e de usar a força contra a ocupação militar.

Através de uma lente mais sutil, a ação do Hamas em 7 de outubro pode ser vista como uma reação razoável e esperada ao violento e interminável projeto colonizador de Israel.

A mídia não se lembrou de que, assim como o Hamas, o Congresso Nacional Africano foi rotulado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos. E que foi somente em 2008 que Nelson Mandela, preso por 27 anos por se opor ao regime de apartheid da África do Sul, foi removido da lista de observação de terroristas dos EUA — transformado de “terrorista” em um celebrado “farol da liberdade e da democracia”.

O mito inventado do nobre israelense, guerreiro circunspecto e “agressor civilizado” não corresponde às imagens vindas de Gaza e do Líbano. A lógica, no entanto, foi virada de cabeça para baixo, pois o povo da Palestina é instruído a aceitar que eles — os colonizados e oprimidos — não têm o direito de se defender e são os culpados pela carnificina feita pelo colonizador israelense.

O romancista inglês George Orwell (1903-1950) estava correto quando observou com perspicácia que “a linguagem política é projetada para fazer com que as mentiras pareçam verdadeiras e os assassinatos respeitáveis, e dar uma aparência de solidez ao puro vento”.

Dentro da bolha da mídia corporativa, os escribas dos EUA empregaram linguagem política promovendo Israel. Os movimentos de libertação nacional que lutam contra o genocídio israelense e a hegemonia dos EUA são rotulados como terroristas “apoiados” pelo Irã. Enquanto isso, o “apoio” de Washington aos fanáticos genocidas em Tel Aviv é “ajudar” um aliado. A liderança política no Irã é caracterizada como um “regime”, enquanto Israel é liderado por um “governo” democrático.

Assim como o terrorismo, o termo “proxy” também é usado repetidamente para caracterizar aliados do Irã. Hamas, Hezbollah no Líbano e Ansar Allah no Iêmen são falsamente representados como vassalos de Teerã, que não são indígenas, mas imposições estrangeiras sem uma base de apoio em massa em seus próprios países.

A presença opressiva de Israel na Cisjordânia é retratada como "defensiva", enquanto os colonizadores judeus, protegidos por seus militares, saqueiam e se aproveitam de casas, propriedades e contas bancárias palestinas. De acordo com o Ministério da Saúde palestino, pelo menos 716 palestinos, incluindo 160 crianças, foram mortos pelo exército israelense e ataques ilegais de colonizadores na Cisjordânia ocupada desde 7 de outubro de 2023.

Após um ano de guerra, Israel provou que não é uma democracia, é uma entidade de apartheid; não é uma terra prometida, é um projeto colonial de colonos; não é uma nação sitiada, é um agressor; não está se defendendo, está conduzindo uma guerra genocida em Gaza.

Embora tenha havido uma série de relatórios significativos sobre a realidade em Gaza, a mídia deu pouca, se alguma, atenção a eles. Fomos mantidos em grande parte no escuro. Eles incluem:

De acordo com o Watson Institute, o governo Biden gastou US$ 22,76 bilhões financiando o genocídio em Gaza. Em sua carta de 2 de outubro, uma das muitas endereçadas à Casa Branca, os profissionais de saúde relataram que 62.413 pessoas em Gaza morreram de fome e o número de mortos é provavelmente maior que 118.908.

É perigoso e custoso manter “nós, o povo” no escuro. Precisamos pensar nas mentiras que nos levaram às guerras no Vietnã, Afeganistão, Iraque e em outros lugares.

De forma pungente, as palavras de advertência do nosso desacreditado 37º presidente, Richard M. Nixon, são assustadoramente relevantes hoje: “Fundamental para o nosso modo de vida”, ele disse em 22 de novembro de 1972, “é a crença de que quando informações que pertencem ao público são sistematicamente retidas por aqueles no poder, as pessoas logo se tornam ignorantes de seus próprios assuntos, desconfiadas daqueles que as administram e — eventualmente — incapazes de determinar seus próprios destinos”.

É hipócrita tentar convencer o público de que o assassinato de líderes da resistência que se opõem à hegemonia EUA-Israel na Palestina e na região acabará com sua luta pela liberdade. A teia emaranhada de enganos impulsionada por Washington, Tel Aviv e a mídia corporativa não fará os resistentes recuarem.

Como provaram por mais de sete décadas, eles são donos de seus próprios julgamentos, decisões e ações.

domingo, 20 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Pergunta que não me faço


Se eu sou feliz ou infeliz, eis uma pergunta que não me faço.
A única coisa em que penso sempre com alegria –
é que na grande conta (a conta deles, a que detesto)
com todas as suas cifras, eu não figuro,
como uma unidade entre outras. No total,
eu não fui contado. E essa alegria me basta.

Konstantinos Kaváfis

Cegueira, a pedra no caminho


A cegueira de Israel é agora um dos maiores obstáculos no caminho para acabar com esta guerra terrível e insaciável
Gideão Levy, no Haaretz  

A maldição americana

Muitos cidadãos americanos se têm interrogado sobre duas questões essenciais. A primeira é por que motivo se tornaram progressivamente tristes. Nos últimos oito anos a depressão galopou tal como as mortes provocadas por drogas, álcool e suicídio. Além disso a percentagem de pessoas que dizem não ter amigos próximos quadruplicou desde 1990.

O grupo populacional dos americanos entre os 25 e os 54 anos que não eram casados ou viviam em união de facto com um parceiro aumentou para 38% em 2019, quando era de 29% em 1990. Um quarto dos cidadãos com 40 anos nunca casou. Mais de metade dos inquiridos sentem-se isolados no mundo e afirmam que ninguém os conhece bem. O número de alunos do ensino secundário que confessam “sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança” disparou de 26% em 2009 para 44% em 2021.

A segunda questão é perceber por que razão os cidadãos americanos se tornaram tão insensíveis e antissociais.

Desde o dono do restaurante que tem que expulsar um cliente todas as semanas devido a comportamentos rudes ou cruéis, coisa que nunca aconteceu antes, até à enfermeira-chefe de um hospital que relata que muitos elementos da sua equipa estão a abandonar a profissão porque os pacientes se tornaram abusivos e excessivamente agressivos.

De resto, os crimes de ódio em 2020 apresentaram o nível mais elevado em 12 anos e as taxas de homicídio aumentaram, assim como o comércio das armas de fogo. Como resultado, a perceção de segurança e a confiança social caíram a pique. O ambiente é de ameaça, conspiração, polarização, tiroteios em massa e trauma.

Por outro lado, se no ano 2000, dois terços das famílias americanos encaminharam doações para a caridade, em 2018, menos da metade o fez. Não há dúvida de que se está em presença de algum tipo de crise emocional, relacional e espiritual, que por sua vez sustenta uma disfunção política e uma crise geral da democracia. O que está a acontecer?

As respostas sociológicas para este fenómeno de aumento do ódio, da ansiedade e do desespero são diversas.

Por um lado, temos a tecnologia que justifica que as redes sociais estão a deixar as pessoas enlouquecidas. Do ponto de vista da demografia, os Estados Unidos estão em profunda transformação ao deixar de ser um país dominado por brancos, uma mudança que está a trazer pânico a milhões de americanos brancos. A nível da economia, as profundas desigualdades trouxeram insegurança e deixaram as pessoas com medo, alienadas e pessimistas. E tudo isto terá contribuído para afastar os cidadãos da vida comunitária e promover o isolamento.

A realidade é que as pessoas estão de facto muito mais isoladas, mas porquê? As respostas anteriores não fornecem o quadro completo. As redes sociais estão em todo o mundo, assim como as desigualdades sociais, mas isso não explica tal colapso social e emocional nos EUA. A grande questão é saber o que leva os americanos a optar por estilos de vida que os tornam solitários, tristes, alienados e rudes.

A razão primeira, provavelmente, é que eles estão numa sociedade que perdeu o hábito de tratar os outros com gentileza e consideração. Pelo contrário, hoje qualquer pessoa se sente autorizada a manifestar o seu egoísmo. Uma sociedade coesa e saudável implica uma rede de instituições como famílias, escolas, grupos religiosos, organizações comunitárias e locais de trabalho, que contribuem para a formação de indivíduos como cidadãos gentis e responsáveis. Ou seja, o país está a viver uma fase de decadência moral. David Brooks defendia há tempos, em longo artigo no “The Atlantic”, que a América deixou há muito de investir na formação moral dos seus cidadãos. Talvez tenha razão.

Sejamos honestos. O país desenvolveu nas últimas décadas uma cultura desprovida de verdadeira educação moral, o que levou à emergência de gerações que se encontram a crescer num mundo desarticulado e autorreferencial. E quando assim acontece, vem ao de cima o pior do ser humano.

A verdade é que só faz sentido viver quando o fazemos também em função dos outros.

Para onde caminha a guerra no Oriente Médio — e por que a diplomacia está perdendo

Um ano atrás, chegavam imagens assustadoras do Oriente Médio.

Israel ainda se recuperava do pior ataque sofrido na sua história, mas já realizava bombardeios que devastavam a Faixa de Gaza, em uma completa reviravolta na região.

O conflito entre israelenses e palestinos, praticamente esquecido pelo noticiário há anos, voltou subitamente a invadir as nossas telas. E todos pareciam terem sido tomados de surpresa.

Apenas uma semana antes dos ataques, o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, havia dito que a "a região do Oriente Médio" vivia "o seu momento mais tranquilo nas últimas duas décadas."

Um ano se passou e a região está em chamas. Mais de 41 mil palestinos foram mortos e dois milhões de moradores da Faixa de Gaza foram desalojados.


Na Cisjordânia, outros 600 palestinos foram mortos. No Líbano, um milhão de pessoas estão desabrigadas e mais de 2 mil foram mortos.

Mais de 1,2 mil israelenses foram mortos no ataque daquele primeiro dia. Desde então, Israel perdeu 350 soldados na Faixa de Gaza e 200 mil israelenses foram forçados a deixar suas casas perto de Gaza e na sua volátil fronteira com o Líbano, no norte do país. E cerca de 50 soldados e civis foram mortos pelos mísseis lançados pelo Hezbollah.

Em todo o Oriente Médio, outras forças entraram nos combates.

Os Estados Unidos trabalharam incansavelmente para evitar a escalada da crise, com visitas presidenciais, incontáveis missões diplomáticas e o envio de vastos recursos militares. Mas não houve resultados.

Mísseis já foram disparados até de locais distantes de Israel, como o Iraque e o Iêmen. Irã e Israel, dois inimigos mortais também trocaram disparos e é quase certo que outros ataques virão.

A influência de Washington poucas vezes se mostrou tão pequena quanto neste conflito.

À medida que os combates se espalham, suas origens ficam esquecidas.

A vida dos moradores da Faixa de Gaza, antes e depois de 7 de outubro de 2023, quase foi esquecida, com a imprensa antecipando impacientemente uma possível "guerra total" no Oriente Médio. E os israelenses que tiveram suas vidas viradas do avesso naquele dia terrível também se sentem igualmente negligenciados.

"Fomos colocados de lado", queixou-se Yehuda Cohen, pai do refém Nimrod Cohen, à rede israelense Kan News, na semana passada.

Cohen responsabilizou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por uma "guerra sem sentido que colocou todos os inimigos possíveis contra nós. Ele está fazendo de tudo para transformar o evento de 7 de outubro em um caso sem importância, com grande sucesso."

Nem todos os israelenses concordam com o ponto de vista de Cohen. Hoje, muitos observam os ataques do Hamas de um ano atrás como o prenúncio de uma campanha maior dos inimigos de Israel para destruir o Estado judeu.

A reação de Israel – com a explosão de pagers, assassinatos dirigidos, bombardeios de longo alcance e as operações de inteligência que são, há muito tempo, motivo de orgulho no país – restaurou parte da sua autoconfiança perdida um ano atrás.

"Não existe nenhum lugar no Oriente Médio que Israel não possa alcançar", declarou Netanyahu, confiante, na semana passada.

Os índices de avaliação do primeiro-ministro passaram meses no fundo do poço depois de 7 de outubro. Agora, ele vê sua popularidade crescer novamente. Seria uma licença para novos atos de ousadia?

Onde isso irá parar?

"Nenhum de nós sabe quando a dança irá terminar e onde estarão todos nesse momento", declarou o ex-embaixador britânico no Irã, Simon Grass, ao podcast Today, da BBC, no dia 3 de outubro.

Os Estados Unidos continuam envolvidos, mesmo que a visita a Israel do chefe do Comando Central americano (Centcom), o general Michael Kurilla, pareça mais um ato de gestão de crise do que um estudo de saídas diplomáticas.

A apenas quatro semanas da eleição presidencial americana e com o Oriente Médio politicamente mais tóxico do que nunca, este não parece uma ocasião para novas iniciativas dos Estados Unidos.

O desafio imediato é simplesmente evitar um conflito regional maior.

Existe um consenso entre os aliados de que Israel tem o direito – e até o dever – de responder ao ataque iraniano com mísseis balísticos do início de outubro.

Nenhum israelense foi morto no ataque e o Irã aparentemente tinha como objetivo atingir alvos militares e de inteligência. Ainda assim, Netanyahu prometeu uma resposta enérgica.

Após semanas de surpreendentes vitórias táticas, o primeiro-ministro israelense parece alimentar grandes ambições. Em discurso dirigido ao povo iraniano, ele indicou que Teerã estaria próximo de uma mudança de regime.

"Quando o Irã estiver finalmente livre, e este momento irá chegar muito antes do que as pessoas pensam, tudo será diferente", declarou ele.

Para alguns observadores, sua retórica trouxe desconfortáveis lembranças dos pontos defendidos pelos neoconservadores norte-americanos, durante as preparações para a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003.

Mas, apesar de todos os riscos atuais, ainda existem frágeis mecanismos de proteção.

O regime iraniano talvez sonhe com um mundo sem a existência de Israel, mas eles sabem que o Irã ainda é muito fraco para enfrentar a única superpotência da região – especialmente em um momento em que o Hezbollah e o Hamas, seus aliados e prepostos no chamado "Eixo de Resistência", estão sendo aniquilados.

Israel também gostaria profundamente de se livrar da ameaça imposta pelo Irã, mas o país também sabe que não pode fazer isso sozinho, mesmo com seus sucessos recentes.

A mudança de regime no Irã não está na agenda do presidente Joe Biden, nem da sua vice-presidente, Kamala Harris.

Em relação a Donald Trump, a única vez em que ele se sentiu tentado a atacar o Irã ocorreu em junho de 2019, quando Teerã derrubou um drone de vigilância norte-americano. Mas o ex-presidente desistiu no último momento – embora tenha ordenado o assassinato de um importante general iraniano, Qasem Soleimani, sete meses depois.

Poucas pessoas teriam imaginado, um ano atrás, que o Oriente Médio se encaminhava para o seu momento mais perigoso nas últimas décadas. Mas, olhando pelo mesmo espelho retrovisor da jamanta, os últimos 12 meses parecem ter seguido uma lógica terrível.

Com tantos destroços espalhados pelo caminho e os eventos ainda se desenrolando em velocidades alarmantes, as autoridades e o restante das pessoas continuam lutando para acompanhar a situação.

O conflito na Faixa de Gaza se arrasta para o seu segundo ano e as discussões sobre o "dia seguinte" – como reabilitar e governar a Faixa de Gaza quando os combates finalmente terminarem – simplesmente desapareceram, ofuscadas pelos sobressaltos de uma guerra maior.

Também desapareceu qualquer traço de discussão sobre uma possível resolução do conflito de Israel com os palestinos, que foi o que nos trouxe até aqui.

Em algum momento, quando Israel acreditar que já causou danos suficientes ao Hamas e ao Hezbollah, depois que o Irã e Israel já tiverem deixado claro suas posições (imaginando que suas ações não mergulhem a região em uma crise ainda mais profunda) e quando a eleição presidencial norte-americana estiver decidida, talvez a diplomacia possa ter uma nova chance.

Mas, no momento, este ainda parece ser um objetivo distante.

Quando o sangue tem nome

A primeira vez que o encontrei terá sido logo após a pandemia, em Barcelona, quando a Friedrich Naumman Foundation me convidou para fazer uma palestra sobre as mulheres na diáspora.

O tema genérico era a forma como os países do Sul encaravam e tratavam a vaga migratória que crescia a cada dia que passava.

O projeto evoluiu e outros momentos foram acontecendo tendo por base sempre uma temática que nos ligava duma forma muito especial dentro do grupo de peritos: os menores que chegavam não acompanhados à Europa e o seu destino, trabalho que nos levou ao seu país natal, Líbano.


Parece ter sido ontem mesmo e já lá vai mais dum ano…

Ibrahim é (até não ter certezas será no presente que o irei mencionar) um cientista social. Daqueles a sério, dos que vão ao terreno, dos que falam com as pessoas, dos que não aceitam ser asséticos, dos que tocam nas pessoas e lhes sorriem, dos que são objetivos, para serem cientistas e empáticos o suficiente para não deixarem de ser totalmente humanos.

Os seus trabalhos, quer em torno das sondagens políticas quer no que à questão da migração dizem respeito, são variados e profundamente fundamentados com números, estatísticas, metodologias, estudos de casos… tudo o que se pede a um académico. Mas por entre a secura dos números vazia que brotasse sempre uma flor para ninguém se esquecesse que se tratava de seres humanos.

Como diz o povo, ao pé dele ninguém consegue estar triste. Ama a vida e não o esconde. Com uma história sempre na ponta da língua (e se tem e sabe histórias e História) anima qualquer reunião formal ou qualquer encontro informal.

Foi ele que me alertou para situação da fronteira síria onde estariam a ser formados meninos soldados à base de kaptagon, a droga sintética fabricada em pequenas aldeias fronteiriças e que confere uma força sobre-humana e uma desinibição animalesca.

A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano

“ – Acredita, não precisamos de exércitos de máquinas. Já estão a ser criados exércitos de monstros”, dizia-me.

E estabelecíamos estratégias, fazíamos planos, discutíamos como terminar com este horror humano.

Falámos horas sobre o que será destas crianças nascidas e criadas em campos de refugiados, no meio da lei do mais forte.

Falámos e agora este silêncio….

E nem de propósito eis que o telemóvel apita com uma mensagem.

Depois de três dias, um novo assessment sobre o Líbano assinado por Ibrahim Jouharim.

Não consigo descrever o alívio e a alegria de ver aqueles gráficos, aquela análise… O meu amigo estava vivo e foi como se de repente a guerra tivesse acabado.

As novas tecnologias permitiram que o ouvisse e a dor voltou.

A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano, o belo Líbano.

Como se pudéssemos…

E despedimo-nos com um desanimo. Mútuo.

O sangue derramado naqueles dias de silêncio tinham tido, certamente, um nome para ele. E, quando tal acontece, a guerra torna-se bem mais real.

Yallah a todos os que sofrem uma guerra que tem nomes gravados na dor,

sábado, 19 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Mergulhados numa plutocracia


Não, [a democracia] não está em perigo, mas está amputada, foi desencaminhada. Virou uma farsa. Os candidatos fazem uma promessa e logo depois a esquecem. Não é verdade que vivemos numa democracia. Estamos mergulhados numa plutocracia. E o cidadão é a primeira vítima dessa mentira generalizada. 
José Saramago

É possível resistir às big techs?

Uma das crenças que costuma percorrer as mentes no Vale do Silício é a da inevitabilidade da tecnologia, ou seja, a ideia de que o progresso acontecerá invariavelmente e que parte de seu impacto será inescapável. É como se o risco da inteligência artificial um dia eliminar milhares de empregos fosse um caminho sem volta. Ou como se o domínio de uma megaempresa que acaba por sufocar pequenos empresários seja uma “disrupção” inquestionável.

O que une Mark Coeckelbergh, professor de Filosofia e Tecnologia da Universidade de Viena, na Áustria, e o escritor Danny Caine, dono de uma livraria em uma pequena cidade americana, é justamente a contraposição a essa suposta irreversibilidade do ritmo (e da forma) que rege o avanço dos algoritmos na sociedade.

Os dois estiveram juntos pela primeira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na quinta-feira. Com uma programação mais quente este ano, a 22ª edição do evento pela primeira vez incluiu na programação oficial uma mesa sobre dados e inteligência artificial, com o nome sugestivo de "Dormindo com o inimigo".

Autor de quinze livros de não-ficção no campo da filosofia da tecnologia, Coeckelbergh estuda as implicações éticas da IA muito antes do mundo voltar os olhos ao tema com o lançamento do ChatGPT, em 2022. Ele é pesquisador da Rede Mundial de Tecnologia (WTN) e membro do grupo de especialistas que aconselha a Comissão Europeia sobre Inteligência Artificial.

Dono da Raven, uma livraria independente em Lawrence, no Kansas, Caine tem atuado há anos em defesa dos pequenos comerciantes nos Estados Unidos, e se tornou uma das vozes mais importantes do país em uma espécie de ativismo anti-Amazon. No Brasil, lançou "Como resistir à Amazon e por quê" (Editora Elefante) no ano passado. A obra expõe as entranhas da gigante varejista que tem negócios de comércio eletrônico, IA, logística, segurança, nuvem e entretenimento.


Apesar de atuarem em áreas distintas, ambos refletem sobre como a tecnologia, alavancada pelo poder das grandes corporações, impacta a sociedade. E quais são as saídas para que efeitos colaterais negativos sejam tratados.

Se as IAs estão fadadas a serem cada vez mais parte da vida cotidiana, questões éticas importantes vão precisar ser enfrentadas, argumenta Coeckelbergh no livro “Robôs, Inteligência Artificial e Ética”, lançado no início deste ano pela Ubu

"Quem é responsável pelos danos da tecnologia quando seres humanos delegam decisões à IA?", questiona o pesquisador no livro. E se o custo de um sistema com bom desempenho é a falta de transparência, devemos usá-lo indistintamente?, pergunta ele em outro trecho.

Publicada no Brasil no início deste ano, mas escrita em 2020, a obra foca em dilemas éticos da IA pré-explosão dos sistemas generativos, como o ChatGPT. O filósofo belga radicado na Áustria explora questões como a responsabilidade moral de decisões tomadas por inteligências artificiais em situações críticas.

Um exemplo é o caso de um carro autônomo que precisa decidir entre diferentes cenários de risco que podem resultar em um acidente. Se salvar a vida do passageiro implica em colocar em risco um pedestre, qual escolha a IA, um sistema que não foi programado para ter um moral, deve fazer?

Quando algo dá errado, é difícil determinar se a inteligência artificial ou outro componente do sistema é o responsável, ressalta o pesquisador. Um desafio adicional é a "caixa-preta" por trás dessas decisões. São processos tão complexos quando opacos, e até mesmo programadores têm dificuldade de explicar exatamente o que levou a determinado resultado, diz ele.

— Esse problema é ainda mais acentuado no caso desses grandes modelos de linguagem (os LLMs, que são os "cérebros" que alimentam ChatGPT e outros). — diz Coeckelbergh, ao GLOBO. —Se essa tecnologia for usada em governos, por exemplo, para decidir sobre o bem-estar das pessoas ou em seguradoras, para decidir sobre pedidos de sinistros, ela poderá fazer coisas que nem o usuário nem o desenvolvedor poderiam prever.

O autor defende que mostrar como essas tecnologias funcionam é uma forma de capacitá-las a tomar decisões mais conscientes e evitar a dependência cega em sistemas automatizados.

Em “Como resistir à Amazon e por quê", Caine está interessado em "caixas-pretas". Mais especificamente, em expor como a maior varejista digital do mundo trabalha por trás das entregas rápidas e preços baixíssimos no mercado americano. O exemplo que abre o livro é do preço de livros. Um best-seller que está nas prateleiras da Raven está à venda por US$ 26. Na Amazon, pode ser comprado por US$ 9,59. Mas esse mesmo exemplar é vendido pela editora a livraria por US$ 14.

Como a Amazon pode oferecê-lo por um preço mais baixo do que o das próprias editoras o fazem para as livrarias? A empresa de Jeff Bezos pode se dar ao luxo de vender livros com prejuízo porque compensa as perdas com os lucros de outros serviços, como o Prime, lembra ele. A gigante também otimiza estratégias com a coleta de dados dos consumidores (inclusive a partir da Alexa) e com controle de parte do marketplace (a Amazon é tanto plataforma para vendedores como vendedora, o que significa que ela compete com os próprios negócios que estão lá)

— Seus algoritmos podem ser treinados com base nas compras dos consumidores, e isso é muito mais valioso para a Amazon do que os poucos livros que eles venderiam pelo preço cheio. E eles competem no próprio marketplace. Então, é como num jogo de futebol, em que são ao mesmo tempo árbitro e jogador — diz Caine.

O livreiro acrescenta que, nos Estados Unidos, o controle da Amazon sobre o mercado de livros é tão vasto que a empresa acaba por influenciar o que é publicado e como. Se um livro não tiver chance de sucesso na plataforma, uma editora pode ficar menos propensa a publicá-lo, diz.

Caine também aponta outro problema: a proliferação de livros gerados por IA na Kindle Store, que tem "inundado" a plataforma com títulos de baixa qualidade. Esses livros, muitas vezes criados rapidamente, aproveitam a popularidade de temas, autores ou gêneros em alta para "driblar" os algoritmos e aparecerem para os leitores. Isso não apenas confunde o consumidor, mas também torna ainda mais difícil para autores legítimos e livrarias independentes competirem de maneira justa, avalia.

Coeckelbergh diz que as discussões entre os bilionários da tecnologia sobre a possibilidade de a IA um dia superar a mente humana — com a criação da chamada Inteligência Artificial Geral (AIG) — são uma distração dos impactos reais e imediatos que esses sistemas vêm gerando, como a distorção no mercado editorial.

Sobre a entrada dos algoritmos na área, ele lembra ainda que há uma questão sobre o significado da criatividade em um contexto em que máquinas são capazes de reproduzir a linguagem.

— As máquinas, em última análise, se alimentam da criatividade humana como vampiros. Mas mesmo que simulem a criatividade, acabam presas em ciclos baseados em dados do passado. O que os humanos fazem de verdadeiramente novo está enraizado em nossa subjetividade. Mas acho que as pessoas nas humanidades estão sendo desafiadas a isso: o que significa para mim, como escritor, se essas tecnologias também melhorarem?— questiona.

O pesquisador não propõe a interrupção do desenvolvimento da IA, assim como Caine não sugere que as pessoas simplesmente boicotem a Amazon como forma de resistência.

— Não estou dizendo para as pessoas não apoiarem a Amazon. Estou muito mais interessado em dizer: apoie os pequenos negócios na sua comunidade, porque eles vão perceber a diferença. Até mesmo uma única venda de livro pode ser a diferença entre um dia lucrativo e um dia não lucrativo para a livraria — afirma o escritor, que também acredita em uma regulação antimonopolista como caminho para reduzir as distorções no mercado

Para os dilemas éticos que envolvem a IA, Coeckelbergh destaca a necessidade de três pilares: a regulação internacional, uma educação sobre tecnologia e a conscientização crítica dos consumidores da inteligência artificial, em um esforço conjunto que não deixe as decisões apenas na mão das big techs.

—Temos que forçar essas empresas influentes a serem mais éticas e jogarem pelas regras que acreditamos serem boas para as pessoas. E nós, humanos, talvez tenhamos que aprender a moldar nossa vida e a nós mesmos de forma mais consciente, e isso significa ter capacidade de pensar criticamente sobre a nossa relação com a tecnologia.