quinta-feira, 27 de março de 2025
Trump: demolidor e despertador
Nenhum chefe de governo ameaçou a humanidade de forma tão catastrófica quanto Trump. Os presidentes de países com potencial nuclear representavam ameaça, mas não chegaram a promover hecatombe. Truman usou bombas nucleares assassinando centenas de milhares de civis, em duas cidades. Ao negar os riscos da catástrofe ecológica em marcha, incentivar a produção de petróleo, abandonar o Acordo de Paris e a participação na COP30, Trump pratica a demolição: mudanças climáticas, elevação no nível do mar, desaparecimento de cidades e países, desestruturação da agricultura, extinção em massa de vida e a depredação da civilização. Mas desperta a opinião pública para a realidade da crise mundial.
Quase todos os presidentes praticam em silêncio o que Trump esbraveja. O negacionista americano propaga a mensagem "perfurem, perfurem e extraiam o petróleo onde quiserem". Enquanto o governo do Brasil, que diz ser defensor do meio ambiente, perfura e produz petróleo por sua empresa Petrobras. Os gestos explícitos de Trump têm o valor de desnudar o comportamento de outros presidentes que o criticam, mas fazem o mesmo para atender aos interesses dos eleitores. Trump escancara o desafio de escolher entre as necessidades da humanidade para o futuro e os interesses do eleitorado no presente: a escolha entre decisões que elevarão o nível do mar em todo o planeta ou que elevarão os preços da gasolina na próxima semana, no posto da esquina. Trump é um demolidor da natureza, mas é também o despertador para a percepção da encruzilhada: continuar a marcha do crescimento destruidor do equilíbrio ecológico ou reorientar o processo civilizatório na direção de um desenvolvimento sustentável com a natureza e solidário entre os seres humanos.
A eleição de Trump com voto da maioria dos americanos para depredar a natureza e ameaçar o futuro da humanidade desperta para a contradição entre a democracia e o humanismo. Com seu discurso ambíguo, Obama ofuscava o divórcio entre humanismo e democracia ao dizer que "não há presidente do mundo", cada um deve atender aos interesses de seus eleitores, mas assinar o Acordo de Paris para atender aos interesses da humanidade. Os gestos de Trump mostram os limites da democracia nacional em tempos de integração planetária. Representam a solução populista de curto prazo para atender ao eleitor local de hoje, mas abandonam a preocupação de longo prazo da humanidade.
Ao usar tarifas de importação como armas de guerra comercial para beneficiar a economia americana, Trump, sem querer, mostra que a humanidade terá de reduzir seu nível de consumo. Mostra os limites da globalização das cadeias industriais que, ao comprar alimentos no Brasil, no outro lado do planeta, a China faz a comida mais barata para os chineses, mas ao custo ecológico dos gastos em energia para o transporte de carnes. A produção de automóveis usando cadeia de produção internacional reduz o custo de produção e amplia o consumo, mas com elevados custos ecológicos, tanto ao produzir quanto ao usar o número crescente de automóveis a preços baixos. Esse processo funcionou bem, até que os limites da crise social devido ao desemprego local levassem o eleitor a preferir o nacionalismo de Trump.
Outro despertar graças ao Trump é o incômodo mundial ao perceber-se que os eleitores americanos decidem os destinos da humanidade fechando serviços de saúde na África ou elevando o nível do mar no planeta inteiro. Suas medidas são criticadas porque desequilibram o comércio internacional, as cadeias de produção e o nível dos preços, mas servem para mostrar que o mundo deixou de ser a soma dos países e, agora, cada país passou a ser um pedaço do mundo. A resistência a Trump mostra os limites do poder do nacionalismo isolacionista, mesmo no mais poderoso e rico país.
Ao assumir o ódio aos imigrantes, ele reconhece sem ambiguidade a divisão entre os seres humanos privilegiados e as massas de pobres do mundo. Desperta para o comportamento da população de classe média e rica que age da mesma forma, barrando seus "instrangeiros", imigrantes do próprio país, com muros de condomínios, com o mesmo propósito do muro entre EUA e México — barrados por catracas, impedindo acesso a boas escolas, bons hospitais. Trump é um esbravejador que assume sua maldade e desperta a consciência daqueles que silenciosamente se comportam da mesma forma: depredando a natureza pelo excesso de consumo, barrando os pobres e vendo o mundo como a soma de países e não cada país como um pedaço do mundo.
Quase todos os presidentes praticam em silêncio o que Trump esbraveja. O negacionista americano propaga a mensagem "perfurem, perfurem e extraiam o petróleo onde quiserem". Enquanto o governo do Brasil, que diz ser defensor do meio ambiente, perfura e produz petróleo por sua empresa Petrobras. Os gestos explícitos de Trump têm o valor de desnudar o comportamento de outros presidentes que o criticam, mas fazem o mesmo para atender aos interesses dos eleitores. Trump escancara o desafio de escolher entre as necessidades da humanidade para o futuro e os interesses do eleitorado no presente: a escolha entre decisões que elevarão o nível do mar em todo o planeta ou que elevarão os preços da gasolina na próxima semana, no posto da esquina. Trump é um demolidor da natureza, mas é também o despertador para a percepção da encruzilhada: continuar a marcha do crescimento destruidor do equilíbrio ecológico ou reorientar o processo civilizatório na direção de um desenvolvimento sustentável com a natureza e solidário entre os seres humanos.
A eleição de Trump com voto da maioria dos americanos para depredar a natureza e ameaçar o futuro da humanidade desperta para a contradição entre a democracia e o humanismo. Com seu discurso ambíguo, Obama ofuscava o divórcio entre humanismo e democracia ao dizer que "não há presidente do mundo", cada um deve atender aos interesses de seus eleitores, mas assinar o Acordo de Paris para atender aos interesses da humanidade. Os gestos de Trump mostram os limites da democracia nacional em tempos de integração planetária. Representam a solução populista de curto prazo para atender ao eleitor local de hoje, mas abandonam a preocupação de longo prazo da humanidade.
Ao usar tarifas de importação como armas de guerra comercial para beneficiar a economia americana, Trump, sem querer, mostra que a humanidade terá de reduzir seu nível de consumo. Mostra os limites da globalização das cadeias industriais que, ao comprar alimentos no Brasil, no outro lado do planeta, a China faz a comida mais barata para os chineses, mas ao custo ecológico dos gastos em energia para o transporte de carnes. A produção de automóveis usando cadeia de produção internacional reduz o custo de produção e amplia o consumo, mas com elevados custos ecológicos, tanto ao produzir quanto ao usar o número crescente de automóveis a preços baixos. Esse processo funcionou bem, até que os limites da crise social devido ao desemprego local levassem o eleitor a preferir o nacionalismo de Trump.
Outro despertar graças ao Trump é o incômodo mundial ao perceber-se que os eleitores americanos decidem os destinos da humanidade fechando serviços de saúde na África ou elevando o nível do mar no planeta inteiro. Suas medidas são criticadas porque desequilibram o comércio internacional, as cadeias de produção e o nível dos preços, mas servem para mostrar que o mundo deixou de ser a soma dos países e, agora, cada país passou a ser um pedaço do mundo. A resistência a Trump mostra os limites do poder do nacionalismo isolacionista, mesmo no mais poderoso e rico país.
Ao assumir o ódio aos imigrantes, ele reconhece sem ambiguidade a divisão entre os seres humanos privilegiados e as massas de pobres do mundo. Desperta para o comportamento da população de classe média e rica que age da mesma forma, barrando seus "instrangeiros", imigrantes do próprio país, com muros de condomínios, com o mesmo propósito do muro entre EUA e México — barrados por catracas, impedindo acesso a boas escolas, bons hospitais. Trump é um esbravejador que assume sua maldade e desperta a consciência daqueles que silenciosamente se comportam da mesma forma: depredando a natureza pelo excesso de consumo, barrando os pobres e vendo o mundo como a soma de países e não cada país como um pedaço do mundo.
A autocracia é contagiosa
A democracia já estava em retrocesso no mundo há alguns anos, mas o processo acelerou-se com o regresso de Donald Trump ao poder, nos EUA. Ao escolher aliar-se com os autocratas e outros líderes que manifestam um cada vez maior desprezo pela democracia, o Presidente da nação mais poderosa do planeta acaba por usar o seu exemplo e influência como uma espécie de autorização para que outros sigam os seus passos. Sempre com o mesmo método: tomar o controlo das instituições independentes de referência, manipulação sistemática da opinião pública ‒ com recurso frequente à mentira ou a narrativas distorcidas ‒, desrespeito pelas leis, assalto ao poder judiciário, um ataque cerrado à imprensa livre e independente, cortes de apoio às universidades e instituições científicas e a criação de uma clique empresarial, com pulsões monopolistas, que beneficia da sua ligação ao poder.
O efeito de contágio é evidente, desde que Donald Trump anunciou ao mundo que, na sua administração, tudo o que esteja relacionado com os direitos humanos, os princípios do Estado de direito, e defesa da igualdade e da liberdade, deixou de ser prioritário para a política dos EUA. E, quando a manutenção do poder ou a conquista de maior domínio territorial ou económico é que passa a ser importante, não admira que outros autocratas se sintam encorajados a fazerem o que lhes apetece – sem receio, sequer, de receberem alguma reprimenda. Com Trump, a América deixou de usar a retórica de ser a líder do mundo livre e passou a assumir-se, de forma descarada, como instigadora do poder autocrático. Com um efeito de cascata evidente: os autocratas perdem ainda mais a vergonha e avançam contra os opositores sem receios.
Na União Europeia, tem sido evidente a forma como Viktor Orbán endurece agora as suas posições em relação ao conflito na Ucrânia, preferindo o alinhamento com Trump e Putin. O líder húngaro já não esconde o seu desacordo com as posições dos restantes europeus. E se no passado acabou por não usar o seu direito de veto, em troca de alguns milhões de euros de fundos estruturais, cresce agora a preocupação de que, num momento crítico, decida usar essa “arma” e paralisar decisões importantes, que só podem ser tomadas por unanimidade de todos os membros.
O exemplo autocrático de Trump tem servido de combustível para a corrida autoritária de Benjamin Netanyahu em Israel. Acossado, há muito, por problemas judiciais, o primeiro-ministro israelita decidiu agora radicalizar ainda mais as suas posições. E dispara para vários lados (muitas vezes, infelizmente, de forma mais literal): já não esconde os seus planos para a anexação de Gaza, ao arrepio de todo o direito internacional, e está em intensas movimentações para aniquilar a independência do poder judicial.
Na Turquia, outro homem-forte, Recep Tayyip Erdogan, aproveitou o atual caos internacional para procurar perpetuar o seu partido no poder. Depois de anos e anos a ganhar o controlo do Estado turco, dos tribunais às universidades, passando por uma revisão da Constituição e sucessivas purgas de opositores, Erdogan levou agora o descaramento até ao ponto mais alto: impedir, através de diversas artimanhas, que o presidente da Câmara de Istambul, e seu principal adversário, possa sequer apresentar-se às próximas eleições presidenciais.
Na Hungria, em Israel e na Turquia, milhares de pessoas têm saído para as ruas a manifestarem-se contra as derivas autoritárias. Mas os seus gritos e apelos são recebidos com cada vez maior indiferença num mundo em que, pela primeira vez em duas décadas, as autocracias são já mais numerosas do que as democracias (91 contra 88), segundo as contas do Instituto V-Dem. A parte do planeta que os deveria apoiar e defender, como a Europa, está apenas preocupada, neste momento, em ganhar tempo para se conseguir rearmar e à espera que Trump saia de cena daqui a quatro anos. O problema é se, entretanto, ficamos mesmo sem tempo para ainda conseguir salvar o que resta da democracia.
O grau de amadorismo e de irresponsabilidade em que mergulhou a administração Trump ficou bem ilustrado na maneira como, de forma inédita, um jornalista foi informado dos planos de guerra dos EUA no Iémen, ao ser adicionado a um chat na aplicação de mensagens Signal. O que este caso demonstra é que, se não podemos confiar na liderança de Trump, temos aqui um excelente motivo para confiarmos no jornalismo sério e ético: depois de confirmar que estava num grupo em que se partilhava informação secreta, relacionada com a segurança nacional, o próprio jornalista, Jeffrey Goldberg, editor da revista The Atlantic, tomou a decisão de sair da conversa. O jornalismo tem regras!
O efeito de contágio é evidente, desde que Donald Trump anunciou ao mundo que, na sua administração, tudo o que esteja relacionado com os direitos humanos, os princípios do Estado de direito, e defesa da igualdade e da liberdade, deixou de ser prioritário para a política dos EUA. E, quando a manutenção do poder ou a conquista de maior domínio territorial ou económico é que passa a ser importante, não admira que outros autocratas se sintam encorajados a fazerem o que lhes apetece – sem receio, sequer, de receberem alguma reprimenda. Com Trump, a América deixou de usar a retórica de ser a líder do mundo livre e passou a assumir-se, de forma descarada, como instigadora do poder autocrático. Com um efeito de cascata evidente: os autocratas perdem ainda mais a vergonha e avançam contra os opositores sem receios.
Na União Europeia, tem sido evidente a forma como Viktor Orbán endurece agora as suas posições em relação ao conflito na Ucrânia, preferindo o alinhamento com Trump e Putin. O líder húngaro já não esconde o seu desacordo com as posições dos restantes europeus. E se no passado acabou por não usar o seu direito de veto, em troca de alguns milhões de euros de fundos estruturais, cresce agora a preocupação de que, num momento crítico, decida usar essa “arma” e paralisar decisões importantes, que só podem ser tomadas por unanimidade de todos os membros.
O exemplo autocrático de Trump tem servido de combustível para a corrida autoritária de Benjamin Netanyahu em Israel. Acossado, há muito, por problemas judiciais, o primeiro-ministro israelita decidiu agora radicalizar ainda mais as suas posições. E dispara para vários lados (muitas vezes, infelizmente, de forma mais literal): já não esconde os seus planos para a anexação de Gaza, ao arrepio de todo o direito internacional, e está em intensas movimentações para aniquilar a independência do poder judicial.
Na Turquia, outro homem-forte, Recep Tayyip Erdogan, aproveitou o atual caos internacional para procurar perpetuar o seu partido no poder. Depois de anos e anos a ganhar o controlo do Estado turco, dos tribunais às universidades, passando por uma revisão da Constituição e sucessivas purgas de opositores, Erdogan levou agora o descaramento até ao ponto mais alto: impedir, através de diversas artimanhas, que o presidente da Câmara de Istambul, e seu principal adversário, possa sequer apresentar-se às próximas eleições presidenciais.
Na Hungria, em Israel e na Turquia, milhares de pessoas têm saído para as ruas a manifestarem-se contra as derivas autoritárias. Mas os seus gritos e apelos são recebidos com cada vez maior indiferença num mundo em que, pela primeira vez em duas décadas, as autocracias são já mais numerosas do que as democracias (91 contra 88), segundo as contas do Instituto V-Dem. A parte do planeta que os deveria apoiar e defender, como a Europa, está apenas preocupada, neste momento, em ganhar tempo para se conseguir rearmar e à espera que Trump saia de cena daqui a quatro anos. O problema é se, entretanto, ficamos mesmo sem tempo para ainda conseguir salvar o que resta da democracia.
O grau de amadorismo e de irresponsabilidade em que mergulhou a administração Trump ficou bem ilustrado na maneira como, de forma inédita, um jornalista foi informado dos planos de guerra dos EUA no Iémen, ao ser adicionado a um chat na aplicação de mensagens Signal. O que este caso demonstra é que, se não podemos confiar na liderança de Trump, temos aqui um excelente motivo para confiarmos no jornalismo sério e ético: depois de confirmar que estava num grupo em que se partilhava informação secreta, relacionada com a segurança nacional, o próprio jornalista, Jeffrey Goldberg, editor da revista The Atlantic, tomou a decisão de sair da conversa. O jornalismo tem regras!
Da Nakba a Gaza: 'Exterminem todos os brutos!'
Nos anos 1960, Bernard Lewis cunhou a frase "choque de civilizações". Algum tempo depois, Samuel Huntington a adotou. Era um argumento piegas. Governos "entravam em choque" por bens tangíveis, dinheiro, território, poder, dominação, controle, não algo tão vago quanto "civilização", mas era uma cláusula de escape conveniente para potências imperialistas predatórias empenhadas em colocar o mundo sob seu controle.
Em qualquer caso, o que era a civilização "ocidental" senão uma besta esquizoide com duas caras de Jano ouvindo Bach e Mozart enquanto escravizava milhões de pessoas ao redor do mundo, massacrando-as, tomando suas terras e saqueando seus recursos?
Esta é a face feia da civilização que estamos vendo de novo agora. Sentada de braços cruzados e falando sobre tudo, menos sobre o genocídio de Gaza.
A semente que as potências europeias plantaram na Palestina cresceu e se tornou o que está se configurando como a maior ameaça à paz mundial desde os nazistas. E isso não pode ser uma coincidência, dadas as afinidades ideológicas entre o nazismo e o sionismo, o racismo, a supremacia, o desprezo pelo direito internacional e o desprezo pela vida humana agora em plena exibição em Gaza e no Líbano.
Sem esquecer o equivalente ao lebensraum , expansionismo e maximalismo territorial para abrir caminho para que os colonos judeus substituíssem os “animais humanos” palestinos. Apenas um pequeno nível acima dos nazistas, que descreviam suas vítimas judias e outras como subumanas.
E uma ironia tão grotesca, nazistas descobrindo maneiras de se livrar dos judeus na década de 1930 e judeus descobrindo como se livrar dos palestinos em 2025. Eles são judeus, é claro, não apenas sionistas, mas judeus cruéis, assim como há muçulmanos, cristãos e ateus cruéis, para deixar isso claro. Eles são uma mancha na história judaica que nunca será removida e agora estão indelevelmente gravados nessa história.
Emigração e, finalmente, campos de concentração foram as escolhas tanto do governo nazista quanto do governo israelense, exceto que "emigração" é uma palavra muito branda para o que Israel tem em mente para os palestinos. Ninguém sabe o verdadeiro número de palestinos já massacrados, mas é claramente muito maior do que o número do Hamas, perto de 200.000, sugeriu o periódico médico Lancet , mas pode ser muito maior do que isso.
Os palestinos aproveitaram o cessar-fogo para desenterrar corpos das ruínas, mas não há cessar-fogo agora porque Netanyahu o quebrou. No momento em que escrevo, 9h38 da manhã de 18 de março, Israel tinha acabado de massacrar 235 palestinos em ataques com mísseis. Muitas delas crianças, é claro – é claro – visto que tantos milhares já foram assassinados.
Pais segurando os corpos de seus filhos dilacerados é uma visão agora familiar em Gaza. Antigamente, apenas uma dessas imagens teria sido manchete no mundo todo. Agora, há tantas delas que raramente aparecem nas notícias. É assim que o mundo ocidental, em particular, caiu.
Incapaz até agora de encontrar interessados para a 'transferência' populacional que Trump também quer, Israel está indo para o extermínio. A 'escolha' dada aos palestinos semanas atrás é sair ou ficar e morrer. Sair para onde? Não há para onde ir. Os palestinos em Gaza estão atingidos, presos, à mercê desses assassinos - e eles não têm misericórdia.
"Se você não morrer porque não há comida ou água, nós o mataremos." Essa é a mensagem transmitida. Um velho palestino, um jovem palestino, um palestino deficiente, um professor, um professor, um trabalhador, um músico, um fazendeiro, um jornalista, não faz diferença alguma. O exército mais moral de Israel no universo matará todos eles.
Não em suas casas, porque não há mais nenhuma, mas em seus campos, em suas tendas, em suas praias, nas ruas de suas cidades em ruínas, mortos por bombas, mísseis, drones e balas de atiradores, mortos pelo corte de todas as necessidades da vida, comida, água, remédios e eletricidade para aquecimento e cozinha.
É isso que está acontecendo agora. 'Exterminem todos os brutos', gritou Kurtz em Coração das Trevas e é isso que está acontecendo no campo de extermínio de Gaza, dessa vez comandado por judeus, uma verdade desagradável, mas ainda assim uma verdade. Claro, foi Kurtz, o agente da civilização, que foi o bruto.
Israel nunca deveria ter sido criado na terra de outra pessoa. É um estado usurpador e ladrão, um dos muitos na história, mas este é o século 21, não o 17 ou 18. Israel nunca demonstrou nenhum remorso e nem o mundo aprendeu a não repetir ou permitir que se repitam os horrores do passado. Existem poucos horrores do passado tão ruins quanto Gaza e talvez até nenhum.
Israel é a contradição do estado colonial estabelecido no final da história colonial-colonial. Foi criado pela ONU, a mãe que agora odeia porque continua tentando corrigir seu comportamento vil.
Está cheio de ódio. Veneno jorra de suas mídias sociais. Odeia a ONU. Seu delegado chefe rasgou a carta no pódio da Assembleia Geral. Ódio jorra de seu governo, seu parlamento, sua mídia, suas instituições religiosas, ódio não apenas dos palestinos ou dos árabes ou da ONU ou de qualquer um que não aprecie o genocídio, mas ódio uns pelos outros. Talvez seja isso que possa eventualmente levar esse empreendimento ao fim. Ele acabará se consumindo.
Seus acessos de raiva e indignação teatral são uma questão de registro, mas são tolerados todas as vezes. Os políticos correm assustados, nos EUA, no Reino Unido, na Austrália, no Canadá e dentro da UE. Eles não chamam genocídio de genocídio porque Israel e seus lobistas não vão gostar.
Eles não mencionam as 17.000 crianças massacradas porque Israel e seus lobistas não vão gostar. Eles são livres para criticar, desde que consultem Israel e seus lobistas primeiro. De qualquer forma, suas críticas são codificadas para que Israel entenda que "compartilhamos seus valores democráticos e estamos realmente do seu lado, não importa o que digamos". Eles devem continuar expressando apoio a uma solução de dois estados, sabendo que isso nunca vai acontecer. Israel sabe que eles sabem, então está tudo bem.
Eles expressam preocupação em Gaza, mas não raiva. Afinal, pessoas de pele morena foram genocidadas por pessoas de pele branca por centenas de anos. Está acontecendo de novo, mas realmente é bem normal , os brancos matando e os pardos e negros sendo mortos.
Seria totalmente anormal somente se essas peles fossem brancas. Alguém consegue imaginar mais de dois milhões de pessoas de pele branca, presas em um pequeno pedaço de terra, sem meios de escapar, sendo massacradas e mortas de fome por assassinos em massa sem que o "ocidente" intervenha imediatamente para impedir?
Isso traça um limite não apenas para a desumanidade racista de Israel, mas também para o racismo implícito na inação ocidental, ou melhor, na ação que permite que o genocídio continue à vista de todos há 18 meses.
Israel é totalmente apoiado pelos EUA, cujas instituições ele infiltrou completamente, e é totalmente apoiado por eles, não importa o que faça, recebe o que quiser. A combinação dos dois é uma ameaça permanente à paz global.
Israel não obedece a nenhuma lei além das suas. Ele suga seus "aliados" até secar e ao mesmo tempo os trai. Foi isso que as milícias sionistas fizeram com a Grã-Bretanha na década de 1940, quando a Grã-Bretanha não tinha mais nada a dar. Eles assassinaram seus policiais e seus altos funcionários.
Na década de 1960, pense no USS Liberty e no plutônio contrabandeado para fora dos EUA. Mais recentemente, pense em Rachel Corrie, James Miller, Tom Hurndall, ativistas e jornalistas, dos EUA e do Reino Unido, todos assassinados em Gaza. Pense no jovem turco-americano assassinado no Mavi Marmara , Furkan Dogan. Dezenas de outras histórias completam o quadro de um estado que nem mesmo respeita seus aliados, mas ainda é apoiado por eles dessa forma masoquista destrutiva.
Por suas ações, Netanyahu enfatizou que Israel não vai mudar. Para sobreviver, ele tem que continuar matando, assim como acreditava em 1948. Não apenas os palestinos, libaneses, sírios e iranianos, mas qualquer um que fique em seu caminho.
Se e quando, ambos prováveis, Israel for finalmente encurralado em um canto sem escapatória, a mensagem que ele tem passado por décadas é que ele tem as armas para derrubar todo mundo com ele, então não se surpreenda se isso acontecer. E quem lhe forneceu as armas e o conhecimento técnico para levar o mundo cada dia mais perto da beira deste precipício? Não há prêmios para a resposta certa.
11h59 da manhã agora e o Guardian relata mais de 320 'mortos' em Gaza. Assassinatos em massa, na verdade, e sem dúvida nas próximas horas o número aumentará. 14h08, mais de 400.
Em qualquer caso, o que era a civilização "ocidental" senão uma besta esquizoide com duas caras de Jano ouvindo Bach e Mozart enquanto escravizava milhões de pessoas ao redor do mundo, massacrando-as, tomando suas terras e saqueando seus recursos?
Esta é a face feia da civilização que estamos vendo de novo agora. Sentada de braços cruzados e falando sobre tudo, menos sobre o genocídio de Gaza.
A semente que as potências europeias plantaram na Palestina cresceu e se tornou o que está se configurando como a maior ameaça à paz mundial desde os nazistas. E isso não pode ser uma coincidência, dadas as afinidades ideológicas entre o nazismo e o sionismo, o racismo, a supremacia, o desprezo pelo direito internacional e o desprezo pela vida humana agora em plena exibição em Gaza e no Líbano.
Sem esquecer o equivalente ao lebensraum , expansionismo e maximalismo territorial para abrir caminho para que os colonos judeus substituíssem os “animais humanos” palestinos. Apenas um pequeno nível acima dos nazistas, que descreviam suas vítimas judias e outras como subumanas.
E uma ironia tão grotesca, nazistas descobrindo maneiras de se livrar dos judeus na década de 1930 e judeus descobrindo como se livrar dos palestinos em 2025. Eles são judeus, é claro, não apenas sionistas, mas judeus cruéis, assim como há muçulmanos, cristãos e ateus cruéis, para deixar isso claro. Eles são uma mancha na história judaica que nunca será removida e agora estão indelevelmente gravados nessa história.
Emigração e, finalmente, campos de concentração foram as escolhas tanto do governo nazista quanto do governo israelense, exceto que "emigração" é uma palavra muito branda para o que Israel tem em mente para os palestinos. Ninguém sabe o verdadeiro número de palestinos já massacrados, mas é claramente muito maior do que o número do Hamas, perto de 200.000, sugeriu o periódico médico Lancet , mas pode ser muito maior do que isso.
Os palestinos aproveitaram o cessar-fogo para desenterrar corpos das ruínas, mas não há cessar-fogo agora porque Netanyahu o quebrou. No momento em que escrevo, 9h38 da manhã de 18 de março, Israel tinha acabado de massacrar 235 palestinos em ataques com mísseis. Muitas delas crianças, é claro – é claro – visto que tantos milhares já foram assassinados.
Pais segurando os corpos de seus filhos dilacerados é uma visão agora familiar em Gaza. Antigamente, apenas uma dessas imagens teria sido manchete no mundo todo. Agora, há tantas delas que raramente aparecem nas notícias. É assim que o mundo ocidental, em particular, caiu.
Incapaz até agora de encontrar interessados para a 'transferência' populacional que Trump também quer, Israel está indo para o extermínio. A 'escolha' dada aos palestinos semanas atrás é sair ou ficar e morrer. Sair para onde? Não há para onde ir. Os palestinos em Gaza estão atingidos, presos, à mercê desses assassinos - e eles não têm misericórdia.
"Se você não morrer porque não há comida ou água, nós o mataremos." Essa é a mensagem transmitida. Um velho palestino, um jovem palestino, um palestino deficiente, um professor, um professor, um trabalhador, um músico, um fazendeiro, um jornalista, não faz diferença alguma. O exército mais moral de Israel no universo matará todos eles.
Não em suas casas, porque não há mais nenhuma, mas em seus campos, em suas tendas, em suas praias, nas ruas de suas cidades em ruínas, mortos por bombas, mísseis, drones e balas de atiradores, mortos pelo corte de todas as necessidades da vida, comida, água, remédios e eletricidade para aquecimento e cozinha.
É isso que está acontecendo agora. 'Exterminem todos os brutos', gritou Kurtz em Coração das Trevas e é isso que está acontecendo no campo de extermínio de Gaza, dessa vez comandado por judeus, uma verdade desagradável, mas ainda assim uma verdade. Claro, foi Kurtz, o agente da civilização, que foi o bruto.
Israel nunca deveria ter sido criado na terra de outra pessoa. É um estado usurpador e ladrão, um dos muitos na história, mas este é o século 21, não o 17 ou 18. Israel nunca demonstrou nenhum remorso e nem o mundo aprendeu a não repetir ou permitir que se repitam os horrores do passado. Existem poucos horrores do passado tão ruins quanto Gaza e talvez até nenhum.
Israel é a contradição do estado colonial estabelecido no final da história colonial-colonial. Foi criado pela ONU, a mãe que agora odeia porque continua tentando corrigir seu comportamento vil.
Está cheio de ódio. Veneno jorra de suas mídias sociais. Odeia a ONU. Seu delegado chefe rasgou a carta no pódio da Assembleia Geral. Ódio jorra de seu governo, seu parlamento, sua mídia, suas instituições religiosas, ódio não apenas dos palestinos ou dos árabes ou da ONU ou de qualquer um que não aprecie o genocídio, mas ódio uns pelos outros. Talvez seja isso que possa eventualmente levar esse empreendimento ao fim. Ele acabará se consumindo.
Seus acessos de raiva e indignação teatral são uma questão de registro, mas são tolerados todas as vezes. Os políticos correm assustados, nos EUA, no Reino Unido, na Austrália, no Canadá e dentro da UE. Eles não chamam genocídio de genocídio porque Israel e seus lobistas não vão gostar.
Eles não mencionam as 17.000 crianças massacradas porque Israel e seus lobistas não vão gostar. Eles são livres para criticar, desde que consultem Israel e seus lobistas primeiro. De qualquer forma, suas críticas são codificadas para que Israel entenda que "compartilhamos seus valores democráticos e estamos realmente do seu lado, não importa o que digamos". Eles devem continuar expressando apoio a uma solução de dois estados, sabendo que isso nunca vai acontecer. Israel sabe que eles sabem, então está tudo bem.
Eles expressam preocupação em Gaza, mas não raiva. Afinal, pessoas de pele morena foram genocidadas por pessoas de pele branca por centenas de anos. Está acontecendo de novo, mas realmente é bem normal , os brancos matando e os pardos e negros sendo mortos.
Seria totalmente anormal somente se essas peles fossem brancas. Alguém consegue imaginar mais de dois milhões de pessoas de pele branca, presas em um pequeno pedaço de terra, sem meios de escapar, sendo massacradas e mortas de fome por assassinos em massa sem que o "ocidente" intervenha imediatamente para impedir?
Isso traça um limite não apenas para a desumanidade racista de Israel, mas também para o racismo implícito na inação ocidental, ou melhor, na ação que permite que o genocídio continue à vista de todos há 18 meses.
Israel é totalmente apoiado pelos EUA, cujas instituições ele infiltrou completamente, e é totalmente apoiado por eles, não importa o que faça, recebe o que quiser. A combinação dos dois é uma ameaça permanente à paz global.
Israel não obedece a nenhuma lei além das suas. Ele suga seus "aliados" até secar e ao mesmo tempo os trai. Foi isso que as milícias sionistas fizeram com a Grã-Bretanha na década de 1940, quando a Grã-Bretanha não tinha mais nada a dar. Eles assassinaram seus policiais e seus altos funcionários.
Na década de 1960, pense no USS Liberty e no plutônio contrabandeado para fora dos EUA. Mais recentemente, pense em Rachel Corrie, James Miller, Tom Hurndall, ativistas e jornalistas, dos EUA e do Reino Unido, todos assassinados em Gaza. Pense no jovem turco-americano assassinado no Mavi Marmara , Furkan Dogan. Dezenas de outras histórias completam o quadro de um estado que nem mesmo respeita seus aliados, mas ainda é apoiado por eles dessa forma masoquista destrutiva.
Por suas ações, Netanyahu enfatizou que Israel não vai mudar. Para sobreviver, ele tem que continuar matando, assim como acreditava em 1948. Não apenas os palestinos, libaneses, sírios e iranianos, mas qualquer um que fique em seu caminho.
Se e quando, ambos prováveis, Israel for finalmente encurralado em um canto sem escapatória, a mensagem que ele tem passado por décadas é que ele tem as armas para derrubar todo mundo com ele, então não se surpreenda se isso acontecer. E quem lhe forneceu as armas e o conhecimento técnico para levar o mundo cada dia mais perto da beira deste precipício? Não há prêmios para a resposta certa.
11h59 da manhã agora e o Guardian relata mais de 320 'mortos' em Gaza. Assassinatos em massa, na verdade, e sem dúvida nas próximas horas o número aumentará. 14h08, mais de 400.
A perigosa trilha da mesmice
O ano de 2024 foi o mais quente jamais registrado desde que o sapiens criou alguma civilização. Os últimos dez anos compõem a década mais quente desde a pré-história. Os desastres climáticos ocorridos no ano foram classificados, pela Organização Meteorológica Mundial – OMM, como “sem precedentes”, em quantidade e gravidade; isto é, foram mais severos que qualquer outro já registrado na região. Milhões de pessoas foram desalojadas!
Todos os sinais indicam o progressivo agravamento da crise, caso continuemos na “mesmice”. Há evidência, também, de aceleração dos processos causadores desses desastres. Isso, de tal forma que as crianças hoje com dez anos ou menos, a maioria das quais estará viva em 2100, sofrerão num mundo completamente transformado e desconhecido. A continuar a “mesmice”, estamos solapando as chances de bem viver de nossos filhos ou netos.
No ano passado, partes da Austrália, do Iran e de Mali, na África Ocidental, experimentaram temperaturas acima de 480C. Daqui a 80 anos, quais temperaturas serão observadas? Chuvas recordes, inundações em larga escala, secas desidratantes, ondas de calor em todos os continentes, incêndios apavorantes, milhões de pessoa afetadas, e nossos governantes continuam a tocar a “mesmice”! isso, em nome do “desenvolvimento”!
Especialistas estimam que cada dólar gasto na prevenção, adaptação e reversão das mudanças climáticas economiza treze dólares em custos de danos e limpeza. Ainda que a relação custo/benefício não seja tão favorável, é claro que os melhores investimentos hoje disponíveis são naquelas atividades em conjunto chamadas de resiliência climática. Não obstante, o mito da riqueza derivada do petróleo, aliada ao forte lobby das petroleiras, faz com que muitos defendam explorar novos campos fósseis, o contrário do que a Agência Internacional de Energia prescreve. Isso, porque os novos reservatórios prestes a iniciar operação já ultrapassam, em muito, o “orçamento de carbono”.
Estamos, pois, na posição de pais que consomem o jantar dos filhos e se iludem dizendo que assim estarão mais fortes para conseguir mais alimento “no futuro” …
Os custos dos desastres cada vez menos “naturais”, nos cinco anos desde 2020, somaram mais de US$800 bilhões. Este dado se compara ao total de custo na década de 1980, que nos dez anos não alcançou US$200 bilhões! E imaginar que esses custos se referem a patrimônio perdido ou danificado, não incluído aí o sofrimento humano.
Nesse quadro, a nova administração dos EUA, terra da “liberdade”, proibiu o uso da expressão “mudanças climáticas” e se propõe a demitir mais de 1.000 cientistas ligados a programas de proteção da vida humana contra alguns dos males da civilização, tais como poluição, agrotóxicos, drogas lícitas e outras consequências danosas da busca desenfreada por lucros privados, em detrimento do bem público.
Nessa trilha da mesmice, o que legaremos a nossos filhos e netos?
Eduardo Fernandez Silva
Todos os sinais indicam o progressivo agravamento da crise, caso continuemos na “mesmice”. Há evidência, também, de aceleração dos processos causadores desses desastres. Isso, de tal forma que as crianças hoje com dez anos ou menos, a maioria das quais estará viva em 2100, sofrerão num mundo completamente transformado e desconhecido. A continuar a “mesmice”, estamos solapando as chances de bem viver de nossos filhos ou netos.
No ano passado, partes da Austrália, do Iran e de Mali, na África Ocidental, experimentaram temperaturas acima de 480C. Daqui a 80 anos, quais temperaturas serão observadas? Chuvas recordes, inundações em larga escala, secas desidratantes, ondas de calor em todos os continentes, incêndios apavorantes, milhões de pessoa afetadas, e nossos governantes continuam a tocar a “mesmice”! isso, em nome do “desenvolvimento”!
Especialistas estimam que cada dólar gasto na prevenção, adaptação e reversão das mudanças climáticas economiza treze dólares em custos de danos e limpeza. Ainda que a relação custo/benefício não seja tão favorável, é claro que os melhores investimentos hoje disponíveis são naquelas atividades em conjunto chamadas de resiliência climática. Não obstante, o mito da riqueza derivada do petróleo, aliada ao forte lobby das petroleiras, faz com que muitos defendam explorar novos campos fósseis, o contrário do que a Agência Internacional de Energia prescreve. Isso, porque os novos reservatórios prestes a iniciar operação já ultrapassam, em muito, o “orçamento de carbono”.
Estamos, pois, na posição de pais que consomem o jantar dos filhos e se iludem dizendo que assim estarão mais fortes para conseguir mais alimento “no futuro” …
Os custos dos desastres cada vez menos “naturais”, nos cinco anos desde 2020, somaram mais de US$800 bilhões. Este dado se compara ao total de custo na década de 1980, que nos dez anos não alcançou US$200 bilhões! E imaginar que esses custos se referem a patrimônio perdido ou danificado, não incluído aí o sofrimento humano.
Nesse quadro, a nova administração dos EUA, terra da “liberdade”, proibiu o uso da expressão “mudanças climáticas” e se propõe a demitir mais de 1.000 cientistas ligados a programas de proteção da vida humana contra alguns dos males da civilização, tais como poluição, agrotóxicos, drogas lícitas e outras consequências danosas da busca desenfreada por lucros privados, em detrimento do bem público.
Nessa trilha da mesmice, o que legaremos a nossos filhos e netos?
Eduardo Fernandez Silva
Ricos cada vez mais ricos: nos EUA, o 0,1% agora detém 14% da riqueza nacional
nomia
, um recorde
https://s3-eu-central-1.amazonaws.com/cartoons-s3/styles/large/s3/corruption%20-%20normal%20gergely.jpg?itok=TY6tLuCr
https://s3-eu-central-1.amazonaws.com/cartoons-s3/styles/large/s3/yalda1.jpg?itok=5Jf5WLCe 1]
A metade mais rica das famílias americanas possuía cerca de 97,5% da riqueza nacional no fim de 2024, enquanto a metade inferior detinha apenas 2,5%, de acordo com os números mais recentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).
Os dados mostram a enorme concentração de renda na economia americana. E essa desigualdade não para de crescer: o 0,1% que está no topo da pirâmide social detém nada menos do que 13,8% da riqueza total dos EUA, um nível recorde. Quatro anos atrás, essa fatia era de 13%.
Essas 133 mil famílias ganharam nesse período mais US$ 6 trilhões em riqueza líquida, principalmente devido ao aumento no valor das ações e de investimentos no mercado financeiro.
Por outro lado, as 66,6 milhões de famílias que compõem os 50% mais pobres do país viram sua riqueza líquida aumentar apenas marginalmente, 2,5%, ao longo de quatro anos – um acréscimo de US$ 1,25 trilhão.
Este grupo chegou a deter 2,7% da riqueza nacional em 2022, o maior nível na série histórica do Fed desde 1989, mas depois perdeu espaço para os atuais 2,5%.
O 0,1% mais rico, que ganhou dinheiro sobretudo com investimentos financeiros, detém cerca de um quarto de todas as ações negociadas nos EUA, o que representa quase metade de sua riqueza, enquanto cerca de um quinto da fortuna deste grupo está em participações de negócios privados.
Dividido por faixas etárias, o período viu a riqueza dos EUA se acumular cada vez mais entre os lares mais velhos. Nos últimos quatro anos, a participação da riqueza detida por pessoas com 70 anos ou mais aumentou 3,8 pontos percentuais, atingindo 31,4% do total. Esses americanos mais velhos possuem 38,3% das ações corporativas, acima dos 32,9% no final de 2020.
Os ganhos são, em parte, um reflexo da demografia, já que a chamada geração baby boomer, nascida no pós Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tiveram um pico de taxa de natalidade, está entrando na casa dos 70 anos.
Bloomberg
quarta-feira, 26 de março de 2025
Gente da bolha
A compreensão torna-se difícil às pessoas das classes mais elevadas, que estão acostumadas a estilos de vida falsos que não envolvem trabalho diário .
Kenzaburo Oe
A extrema direita pagará o custo dos abusos de Trump
Há boas notícias para candidatos, partidos e movimentos da direita radical, a começar pelo fato de que Donald Trump voltou a governar os Estados Unidos. Além disso, a extrema direita segue crescendo eleitoralmente nas grandes democracias das Américas e da Europa. Le Pen, por exemplo, aparece liderando as pesquisas de intenção de voto na França para 2027, enquanto no Chile —que recentemente viveu uma primavera progressista— multiplicam-se agora as candidaturas de extrema direita, inclusive em disputa interna sobre quem é mais radical.
No caso brasileiro, as pesquisas indicam que os que votaram na extrema direita continuam, em grande medida, prontos para repetir esse voto. E todas as esperanças de desradicalização, assim como as promessas de reconciliação nacional, já não existem ou não dão qualquer indício de que possam ser cumpridas. Isso quer dizer, no mínimo, que a ascensão da extrema direita ainda não atingiu seu teto e que há espaço para expansão.
Mas há também uma má notícia para a direita mais radical: Trump, sua principal vitrine, governa os Estados Unidos de uma maneira que desaconselha qualquer um, exceto os fanáticos, a querer ser governado assim.
Trump se elegeu com uma retórica de reação à cultura progressista. Acusações de desrespeito às liberdades de expressão e pensamento e denúncias de tentativas de doutrinação e imposição de valores progressistas à sociedade conservadora foram parte do arsenal ideológico usado nos últimos anos. O que se sabe hoje, a partir dos primeiros meses de governo, é que ele não está enfrentando nem desmantelando o que chamava de obra da ortodoxia progressista, principalmente na forma da política identitária. Faz exatamente o que acusava os outros de fazer, invertendo os sinais.
Faz tempo que passou do ponto: seu governo é autoritário, personalista, revanchista e agora disposto a calar, punir e demolir qualquer dissidência. E não há sinal de que escrúpulos de consciência, decisões judiciais ou respeito à Constituição possam se constituir em obstáculos.
A tentativa de fechar o Departamento de Educação revela uma cruzada ideológica contra o sistema educacional federal. A perseguição a universidades como Columbia, que teve US$ 400 milhões de verbas federais congeladas por abrigar protestos pró-palestinos, mostra como o governo busca silenciar a dissidência usando o financiamento como arma política. Manifestantes foram presos e lideranças estudantis começaram a ser deportadas sem julgamento, como no caso do estudante Khalil Mahmoud. Ao mesmo tempo, o governo pressiona para que centros acadêmicos retirem departamentos inteiros simplesmente por não se alinharem ideologicamente.
Medidas que afetam diretamente acadêmicos e pesquisadores usam critérios absurdos: barram-se pesquisadores por terem criticado o presidente em redes sociais; investigam ou expulsam outros por posições críticas ao governo de Israel ou pró-Palestina. Projetos de pesquisa em áreas como saúde perdem financiamento porque incluem palavras-chave ou hipóteses com termos como "gênero" ou "feminismo". A situação chegou ao limite que a revista The Economist descreve como "uma administração que busca extinguir o iliberalismo esquerdista nos campi com seu próprio iliberalismo conservador".
Mesmo no campo jurídico, avançou o sinal. Trump assinou ordens executivas para proibir contratos com escritórios de advocacia que litigam contra seu governo e ignorou decisões judiciais que bloquearam essas medidas, emitindo novas ordens com o mesmo teor dois dias depois. Quando um juiz federal ordenou a suspensão de deportações com base em lei de 1798, Trump não apenas ignorou a ordem como pediu o impeachment do magistrado, sendo repreendido publicamente pelo presidente da Suprema Corte, John Roberts.
O governo Trump quer moldar a educação, a imprensa, a burocracia, o sistema judicial e a sociedade civil à sua imagem. Não se trata de corrigir o excesso de poder dos progressistas ou enfrentar o ímpeto censório do dogmatismo woke, mas de substituí-los por conservadores radicais com a mesma lógica de aparelhamento, censura e intimidação.
Com a extrema polarização eleitoral na maioria dos países hoje, as eleições são decididas pelos eleitores moderados ou de centro, que ocasionalmente pendem para um lado ou para o outro. Esse eleitor quer mais pluralismo, menos controle ideológico e mais liberdade para discordar. Quanto mais Trump governar como autocrata, mais o eleitor de centro e o conservador moderado vão repensar seu apoio a candidatos semelhantes em seus países.
No caso brasileiro, as pesquisas indicam que os que votaram na extrema direita continuam, em grande medida, prontos para repetir esse voto. E todas as esperanças de desradicalização, assim como as promessas de reconciliação nacional, já não existem ou não dão qualquer indício de que possam ser cumpridas. Isso quer dizer, no mínimo, que a ascensão da extrema direita ainda não atingiu seu teto e que há espaço para expansão.
Mas há também uma má notícia para a direita mais radical: Trump, sua principal vitrine, governa os Estados Unidos de uma maneira que desaconselha qualquer um, exceto os fanáticos, a querer ser governado assim.
Trump se elegeu com uma retórica de reação à cultura progressista. Acusações de desrespeito às liberdades de expressão e pensamento e denúncias de tentativas de doutrinação e imposição de valores progressistas à sociedade conservadora foram parte do arsenal ideológico usado nos últimos anos. O que se sabe hoje, a partir dos primeiros meses de governo, é que ele não está enfrentando nem desmantelando o que chamava de obra da ortodoxia progressista, principalmente na forma da política identitária. Faz exatamente o que acusava os outros de fazer, invertendo os sinais.
Faz tempo que passou do ponto: seu governo é autoritário, personalista, revanchista e agora disposto a calar, punir e demolir qualquer dissidência. E não há sinal de que escrúpulos de consciência, decisões judiciais ou respeito à Constituição possam se constituir em obstáculos.
A tentativa de fechar o Departamento de Educação revela uma cruzada ideológica contra o sistema educacional federal. A perseguição a universidades como Columbia, que teve US$ 400 milhões de verbas federais congeladas por abrigar protestos pró-palestinos, mostra como o governo busca silenciar a dissidência usando o financiamento como arma política. Manifestantes foram presos e lideranças estudantis começaram a ser deportadas sem julgamento, como no caso do estudante Khalil Mahmoud. Ao mesmo tempo, o governo pressiona para que centros acadêmicos retirem departamentos inteiros simplesmente por não se alinharem ideologicamente.
Medidas que afetam diretamente acadêmicos e pesquisadores usam critérios absurdos: barram-se pesquisadores por terem criticado o presidente em redes sociais; investigam ou expulsam outros por posições críticas ao governo de Israel ou pró-Palestina. Projetos de pesquisa em áreas como saúde perdem financiamento porque incluem palavras-chave ou hipóteses com termos como "gênero" ou "feminismo". A situação chegou ao limite que a revista The Economist descreve como "uma administração que busca extinguir o iliberalismo esquerdista nos campi com seu próprio iliberalismo conservador".
Mesmo no campo jurídico, avançou o sinal. Trump assinou ordens executivas para proibir contratos com escritórios de advocacia que litigam contra seu governo e ignorou decisões judiciais que bloquearam essas medidas, emitindo novas ordens com o mesmo teor dois dias depois. Quando um juiz federal ordenou a suspensão de deportações com base em lei de 1798, Trump não apenas ignorou a ordem como pediu o impeachment do magistrado, sendo repreendido publicamente pelo presidente da Suprema Corte, John Roberts.
O governo Trump quer moldar a educação, a imprensa, a burocracia, o sistema judicial e a sociedade civil à sua imagem. Não se trata de corrigir o excesso de poder dos progressistas ou enfrentar o ímpeto censório do dogmatismo woke, mas de substituí-los por conservadores radicais com a mesma lógica de aparelhamento, censura e intimidação.
Com a extrema polarização eleitoral na maioria dos países hoje, as eleições são decididas pelos eleitores moderados ou de centro, que ocasionalmente pendem para um lado ou para o outro. Esse eleitor quer mais pluralismo, menos controle ideológico e mais liberdade para discordar. Quanto mais Trump governar como autocrata, mais o eleitor de centro e o conservador moderado vão repensar seu apoio a candidatos semelhantes em seus países.
Resiliência emocional e cansaço digital: como sobreviver a esta teia?
Vivemos na era da hiperconectividade, onde a informação (não confundir com conhecimento) nunca dorme e as nossas mentes tampouco. A avalanche de notícias, a pressão das redes sociais e a cultura da urgência de estar online minam silenciosamente a nossa resiliência emocional. O resultado? Um cansaço digital que exaure e desafia a capacidade de regular emoções, tomar decisões conscientes e manter uma saúde mental equilibrada.
Este fenómeno surge relacionado com o paradoxo da conectividade: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão isolados (uns dos outros e do mundo). A tecnologia e, em particular, as redes sociais proporcionam-nos interações instantâneas, acesso ilimitado a informação e a oportunidades de estarmos em rede em qualquer lugar e a qualquer hora. No entanto, esta mesma conectividade pode levar à sobrecarga cognitiva, à superficialidade nos vínculos interpessoais e à ansiedade gerada pela necessidade constante de estar online e atualizado. Não é um facto que a primeira coisa que fazemos quando acordamos é consultar o telemóvel?!
Um dos sintomas mais evidentes deste excesso de informação é o doomscrolling – o hábito de consumir notícias negativas de forma excessivamente continuada. A cada movimento infinito do polegar, alimentamos a nossa fadiga emocional, o que nos acarreta um sentimento de impotência diante do caos do mundo. Além disso, a fadiga de empatia – resultado da exposição constante a crises globais, conflitos e injustiças – deixa-nos emocionalmente esgotados, reduzindo a nossa capacidade de lidar tanto com desafios pessoais, como sociais.
Este fenómeno surge relacionado com o paradoxo da conectividade: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão isolados (uns dos outros e do mundo). A tecnologia e, em particular, as redes sociais proporcionam-nos interações instantâneas, acesso ilimitado a informação e a oportunidades de estarmos em rede em qualquer lugar e a qualquer hora. No entanto, esta mesma conectividade pode levar à sobrecarga cognitiva, à superficialidade nos vínculos interpessoais e à ansiedade gerada pela necessidade constante de estar online e atualizado. Não é um facto que a primeira coisa que fazemos quando acordamos é consultar o telemóvel?!
Um dos sintomas mais evidentes deste excesso de informação é o doomscrolling – o hábito de consumir notícias negativas de forma excessivamente continuada. A cada movimento infinito do polegar, alimentamos a nossa fadiga emocional, o que nos acarreta um sentimento de impotência diante do caos do mundo. Além disso, a fadiga de empatia – resultado da exposição constante a crises globais, conflitos e injustiças – deixa-nos emocionalmente esgotados, reduzindo a nossa capacidade de lidar tanto com desafios pessoais, como sociais.
Quer queiramos quer não, este cenário entra-nos casa adentro e afeta diferentes grupos sociais, sendo que os jovens representam um exemplo complexo e alarmante. Os adolescentes e jovens de hoje cresceram na era do WWW e, em consequência, enfrentam desafios emocionais preocupantes. Embora demonstrem compromisso e consciência sobre temas como direitos humanos, diversidade e sustentabilidade, também lidam com a pressão constante de re-agir num mundo digitalizado, onde a comparação social e a procura por aceitação e validação online podem minar a sua autoestima. Além disso, será essa consciência, efetivamente, consciente? Ou uma moda em que se não fizer parte dela, não faz parte de nada?!
No ambiente de trabalho, a cultura do “sempre disponível” agrava ainda mais este intricado cenário. Os novos modelos de trabalho como o home office, as notificações incessantes e a pressão por produtividade e alta performance dissolvem as fronteiras entre vida profissional e pessoal (o tão aclamado work-life balance). Esta disponibilidade sobre-humana é uma fonte geradora de exaustão e dificulta a desconexão necessária para preservar o equilíbrio do nosso software interno, que faz de nós seres humanos.
Para navegar neste mundo altamente dependente das redes, sem sucumbir ao cansaço digital, a inteligência emocional torna-se uma aliada essencial nos nossos frenéticos dia-a-dias. Por exemplo, o desenvolvimento da autoconsciência permite-nos identificar quando a exposição digital pode estar a afetar o nosso bem-estar; por conseguinte, praticar a regulação emocional ajuda-nos a estabelecer limites saudáveis – criar espaços livres de telas, reduzir o consumo de notícias negativas e priorizar interações significativas são estratégias fundamentais.
Claro está que o desafio que se coloca não é rejeitar a tecnologia, mas aprender a usá-la de forma consciente e a favor do nosso desenvolvimento pessoal e emocional. Ao equilibrarmos certas dualidades antagónicas, como “conexão e desconexão”, “urgência e pausa”, “dedicação e descanso”, podemos construir uma relação mais saudável com o mundo digital e, ao mesmo tempo, fortalecer a nossa resiliência emocional.
Em El Salvador, os EUA replicaram e refinaram Guantánamo
A Administração Trump deslocalizou e subcontratou um pesadelo carcerário a El Salvador. É uma nova versão de Guantánamo, a base militar e prisão norte-americana na ilha de Cuba para onde a Administração Bush atirou aqueles que quis privar de direitos humanos elementares durante a sua guerra contra o terrorismo, e que as seguintes administrações democratas não fizeram o suficiente por encerrar de vez. Como em tantas outras frentes, a protelação ou desinteresse democrata no desmantelamento de armadilhas, alçapões e vazios legais ao longo de década e meia deixou agora na mão da segunda Administração Trump um vasto conjunto de ferramentas para a repressão e para a negação de direitos. Em Guantánamo, onde restavam em janeiro apenas 15 detidos da era Bush, cresce agora um novo campo de detenção para imigrantes em situação irregular.
A Casa Branca alega que envia para lá apenas “os piores dos piores” criminosos. Mas, como em tantas outras histórias das últimas semanas, também se multiplicam os alertas sobre inocentes apanhados na rede, porque é o que acontece quando se tenta fazer justiça fora dos tribunais. Permanecem sem contacto com advogados, sem possibilidade de clamar a sua inocência perante um juiz, e sem perspectiva de virem a ser libertados.
Ficou Guantánamo, e fez-se escola. O recurso norte-americano a estes buracos negros, a estes depósitos de vidas humanas em terra de ninguém, é agora replicado e refinado com a colaboração de El Salvador, a quem os EUA pagam para receber os tais “piores dos piores”, ou os suspeitos de o serem. Vale muito a pena ler o trabalho do jornalista norte-americano Philip Holsinger na revista Time para perceber o que é o CECOT, o gigantesco campo de detenção e de trabalhos forçados naquele país centro-americano para onde os EUA passaram a enviar, este mês, sem julgamento, centenas de estrangeiros suspeitos de filiação a grupos criminosos.
Os cerca de 15 mil reclusos do CECOT, entre os salvadorenhos que já lá estavam e os latino-americanos agora deportados dos EUA, vivem 23 horas e 30 minutos por dia fechados em celas, cada uma partilhada com cerca de 80 homens. Dormem amontoados em beliches metálicos de quatro níveis que mais se assemelham a prateleiras de um grande armazém, sem colchão, lençóis ou almofadas. Partilham duas sanitários e duas bacias de água por cela.
Saem apenas para o corredor para trinta minutos diários de exercício físico guiado, e nunca veem o céu. Não podem receber visitas, nem ocupar o tempo com nada que não seja a leitura da Bíblia. Comem apenas arroz, feijão e ovos.
Na noite de dia 15, Holsinger assistiu à chegada de três aviões com 261 homens deportados dos EUA. “Quase todos os detidos apareceram à porta do avião com rostos zangados e de desafio. Foram os seus rostos que me captaram a atenção, porque em poucas horas esses rostos seriam completamente transformados”, escreve. Viu como foram retirados das aeronaves de mãos e pés algemados, como foram pontapeados e esbofeteados, como os despiram e rasparam o cabelo.
Viu um deles chorar e chamar pela mãe. “Ele dizia, ‘não sou membro de nenhuma gangue, sou gay, sou barbeiro’. Acreditei nele. Mas talvez apenas porque ele não se parecia com aquilo que eu esperava – não era nenhum monstro tatuado”, escreve Holsinger.
O homem que chora pela mãe poderá ser Andrys, um venezuelano de 23 anos cuja advogada nos EUA nega que tenha qualquer envolvimento com organizações criminosas. Terá sido visado pelas autoridades norte-americanas pela sua origem e por ter tatuagens incorretamente identificadas como símbolos de pertença ao Tren de Aragua, um gangue venezuelano. Ou Francisco José García Casique, um barbeiro venezuelano reconhecido pela mãe através da televisão. Mas há outros indivíduos cujos advogados e famílias alegam a sua inocência.
“Mais deles começaram a choramingar; os rostos duros que vi no avião tinham-se evaporado. Era como se estivesse a olhar para homens que passaram por uma máquina no tempo. Em duas horas, tinham envelhecido dez anos”, relata Holsinger.
Estas centenas de homens deportados para El Salvador, onde arriscam passar o resto das suas vidas presos e amontoados, a dormir em prateleiras metálicas e a comer mistelas, estão por estes dias no centro de uma mediática batalha entre um juiz federal norte americano, James Boasberg, e a Casa Branca. Foram deportados à revelia do magistrado, que negou à Administração Trump o recurso a uma lei arcaica de 1798, o Alien Enemies Act, para expulsar do país, sem o devido processo legal, estrangeiros suspeitos de serem invasores inimigos.
Boasberg, que enfrenta um pedido de Donald Trump para que o Congresso o afaste, personifica para já a única esperança, ainda que muito remota, de libertação que os eventuais inocentes apanhados na rede e levados para El Salvador têm neste momento. Mas enfrentam um Governo norte-americano que entende que o Presidente tem um poder virtualmente ilimitado de decisão e acção, e que certos cidadãos estrangeiros, ou talvez todos, não usufruem sequer de direitos básicos consagrados pela Constituição.
É certamente difícil empatizar com membros de gangues sanguinários da América Latina, e é plausível que muitos dos homens deportados para El Salvador sejam, efectivamente, criminosos violentos. Só que nunca saberemos se é mesmo esse o caso de todos os deportados, porque os seus processos não foram julgados cabalmente.
E se o Governo nega direitos elementares a cidadãos estrangeiros porque entende que não está obrigado pela Constituição a garanti-los, então há também uma mensagem grave para os próprios norte-americanos: esse Governo só não violará os direitos dos seus cidadãos porque a leitura vigente da Constituição não o permite ainda; não por um imperativo moral que o impeça.
Mostra-o Trump, que na sexta-feira escreveu na sua rede social, a Truth Social: “Mal posso esperar para ver vândalos terroristas doentios levarem com sentenças de 20 anos de cadeia pelo que estão a fazer a Elon Musk e à Tesla. Talvez possam servi-las nas prisões de El Salvador, que recentemente se tornaram famosas pelas suas condições maravilhosas.”
Talvez seja apenas uma piada, esta ideia de enviar também cidadãos norte-americanos para um gulag fora de fronteiras. Ou talvez El Salvador se torne numa das maiores manchas do período histórico cada vez mais extraordinário em que os EUA entraram.
A Casa Branca alega que envia para lá apenas “os piores dos piores” criminosos. Mas, como em tantas outras histórias das últimas semanas, também se multiplicam os alertas sobre inocentes apanhados na rede, porque é o que acontece quando se tenta fazer justiça fora dos tribunais. Permanecem sem contacto com advogados, sem possibilidade de clamar a sua inocência perante um juiz, e sem perspectiva de virem a ser libertados.
Ficou Guantánamo, e fez-se escola. O recurso norte-americano a estes buracos negros, a estes depósitos de vidas humanas em terra de ninguém, é agora replicado e refinado com a colaboração de El Salvador, a quem os EUA pagam para receber os tais “piores dos piores”, ou os suspeitos de o serem. Vale muito a pena ler o trabalho do jornalista norte-americano Philip Holsinger na revista Time para perceber o que é o CECOT, o gigantesco campo de detenção e de trabalhos forçados naquele país centro-americano para onde os EUA passaram a enviar, este mês, sem julgamento, centenas de estrangeiros suspeitos de filiação a grupos criminosos.
Os cerca de 15 mil reclusos do CECOT, entre os salvadorenhos que já lá estavam e os latino-americanos agora deportados dos EUA, vivem 23 horas e 30 minutos por dia fechados em celas, cada uma partilhada com cerca de 80 homens. Dormem amontoados em beliches metálicos de quatro níveis que mais se assemelham a prateleiras de um grande armazém, sem colchão, lençóis ou almofadas. Partilham duas sanitários e duas bacias de água por cela.
Saem apenas para o corredor para trinta minutos diários de exercício físico guiado, e nunca veem o céu. Não podem receber visitas, nem ocupar o tempo com nada que não seja a leitura da Bíblia. Comem apenas arroz, feijão e ovos.
Na noite de dia 15, Holsinger assistiu à chegada de três aviões com 261 homens deportados dos EUA. “Quase todos os detidos apareceram à porta do avião com rostos zangados e de desafio. Foram os seus rostos que me captaram a atenção, porque em poucas horas esses rostos seriam completamente transformados”, escreve. Viu como foram retirados das aeronaves de mãos e pés algemados, como foram pontapeados e esbofeteados, como os despiram e rasparam o cabelo.
Viu um deles chorar e chamar pela mãe. “Ele dizia, ‘não sou membro de nenhuma gangue, sou gay, sou barbeiro’. Acreditei nele. Mas talvez apenas porque ele não se parecia com aquilo que eu esperava – não era nenhum monstro tatuado”, escreve Holsinger.
O homem que chora pela mãe poderá ser Andrys, um venezuelano de 23 anos cuja advogada nos EUA nega que tenha qualquer envolvimento com organizações criminosas. Terá sido visado pelas autoridades norte-americanas pela sua origem e por ter tatuagens incorretamente identificadas como símbolos de pertença ao Tren de Aragua, um gangue venezuelano. Ou Francisco José García Casique, um barbeiro venezuelano reconhecido pela mãe através da televisão. Mas há outros indivíduos cujos advogados e famílias alegam a sua inocência.
“Mais deles começaram a choramingar; os rostos duros que vi no avião tinham-se evaporado. Era como se estivesse a olhar para homens que passaram por uma máquina no tempo. Em duas horas, tinham envelhecido dez anos”, relata Holsinger.
Estas centenas de homens deportados para El Salvador, onde arriscam passar o resto das suas vidas presos e amontoados, a dormir em prateleiras metálicas e a comer mistelas, estão por estes dias no centro de uma mediática batalha entre um juiz federal norte americano, James Boasberg, e a Casa Branca. Foram deportados à revelia do magistrado, que negou à Administração Trump o recurso a uma lei arcaica de 1798, o Alien Enemies Act, para expulsar do país, sem o devido processo legal, estrangeiros suspeitos de serem invasores inimigos.
Boasberg, que enfrenta um pedido de Donald Trump para que o Congresso o afaste, personifica para já a única esperança, ainda que muito remota, de libertação que os eventuais inocentes apanhados na rede e levados para El Salvador têm neste momento. Mas enfrentam um Governo norte-americano que entende que o Presidente tem um poder virtualmente ilimitado de decisão e acção, e que certos cidadãos estrangeiros, ou talvez todos, não usufruem sequer de direitos básicos consagrados pela Constituição.
É certamente difícil empatizar com membros de gangues sanguinários da América Latina, e é plausível que muitos dos homens deportados para El Salvador sejam, efectivamente, criminosos violentos. Só que nunca saberemos se é mesmo esse o caso de todos os deportados, porque os seus processos não foram julgados cabalmente.
E se o Governo nega direitos elementares a cidadãos estrangeiros porque entende que não está obrigado pela Constituição a garanti-los, então há também uma mensagem grave para os próprios norte-americanos: esse Governo só não violará os direitos dos seus cidadãos porque a leitura vigente da Constituição não o permite ainda; não por um imperativo moral que o impeça.
Mostra-o Trump, que na sexta-feira escreveu na sua rede social, a Truth Social: “Mal posso esperar para ver vândalos terroristas doentios levarem com sentenças de 20 anos de cadeia pelo que estão a fazer a Elon Musk e à Tesla. Talvez possam servi-las nas prisões de El Salvador, que recentemente se tornaram famosas pelas suas condições maravilhosas.”
Talvez seja apenas uma piada, esta ideia de enviar também cidadãos norte-americanos para um gulag fora de fronteiras. Ou talvez El Salvador se torne numa das maiores manchas do período histórico cada vez mais extraordinário em que os EUA entraram.
'Austeridade é meio de poder da elite sobre trabalhadores'
A máxima de que um Estado precisa reduzir constantemente suas despesas, independente de estar em crise, ganhou força com a ascensão de governos de ultradireita pelo mundo, como o de Donald Trump, nos EUA, e de Javier Milei, na Argentina, segundo avaliação da economista italiana Clara Mattei.
A professora e diretora do Centro de Economia Heterodoxa (CHE) da Universidade de Tulsa, nos EUA, afirma que tais eleições intensificaram uma tendência global implacável de austeridade, sem justificativas macroeconômicas.
"É uma estratégia vencedora para aqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade", diz.
Segundo ela, mesmo governos de centro-esquerda, como o de Luiz Inácio Lula da Silva, também acabam reféns de uma pressão do capital internacional por cortes de gastos. "Governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado", afirma.
No Brasil, a austeridade é frequentemente justificada como necessária ao equilíbrio das contas públicas, mas também resulta em cortes em áreas sociais e aumento da desigualdade. Você vê paralelos entre a "austeridade autoritária" e as políticas econômicas adotadas no Brasil nos últimos anos?
O Brasil tem recursos abundantes. E há formas de o país ter uma produção muito mais sustentável, ecológica e democrática.
Isso deveria ser algo que poderia ser expandido com o apoio do Estado, se o Estado parar de focar em satisfazer os investidores internacionais – que, de qualquer forma, nunca estarão satisfeitos. Porque, de novo, se você fizer austeridade, você vai causar uma recessão que trará sua morte econômica no longo prazo.
Acho que o Brasil é um país típico que, se tivesse coragem política para dizer que persegue uma agenda original, ecológica e democrática, poderia realmente fazer isso. Mas é preciso muita coragem, apoio popular e imaginação política.
Será que o Lula vai conseguir fazer isso? Não sei, eu não acho. Ele está muito dentro desse sistema. E isso só vai acontecer se houver pressão de baixo.
O Estado precisa apoiar atividades que são relacionadas à produção para, finalmente, conseguir uma independência do mercado. Isso não vai acontecer na Europa, acho que a Europa está morta politicamente. Isso precisa acontecer no Sul Global, começando pelo Brasil.
A professora e diretora do Centro de Economia Heterodoxa (CHE) da Universidade de Tulsa, nos EUA, afirma que tais eleições intensificaram uma tendência global implacável de austeridade, sem justificativas macroeconômicas.
"É uma estratégia vencedora para aqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade", diz.
Segundo ela, mesmo governos de centro-esquerda, como o de Luiz Inácio Lula da Silva, também acabam reféns de uma pressão do capital internacional por cortes de gastos. "Governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado", afirma.
O que é a austeridade autoritária e como isso vem se tornando uma tendência global, mesmo sem novas crises financeiras?
Nosso sistema econômico está mostrando a sua cruzada de repressão econômica sobre a maioria, dado que a austeridade está sendo liderada sem o motivo de uma crise financeira. E isso é muito claro.
Todos os governos de direita, como Trump, nos EUA, ou Milei, na Argentina, estão pressionando pela austeridade. Sabemos que governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado.
Acho que é um momento histórico muito interessante, porque, de certa forma, as desculpas caíram, e agora o que você vê é uma guerra de classes muito clara. No fim das contas, a austeridade serve para preservar o equilíbrio de poder entre a maioria das pessoas trabalhadoras e a elite. Essa elite está capturando quase todos os recursos que são produzidos pela sociedade e mantendo o resto das pessoas em uma forma muito vulnerável e precária de vida.
Essa simbiose de austeridade e autoritarismo se forma em si mesma – no sentido de que, quanto mais austeridade os governos implementam, mais as pessoas acreditam na narrativa de que é o mais fraco que é responsável pelo quadro atual. É uma estratégia vencedora para muitos daqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade.
O retorno de Trump à Casa Branca pode trazer novas ondas de cortes orçamentários e políticas pró-mercado. Na sua visão, quais seriam as principais características da "austeridade autoritária" nesse novo mandato?
Eu acho que alguém como Elon Musk sabe que os trabalhadores podem se organizar e contestar o capitalismo e a relação social pela qual eles são explorados.
É interessante notar como essa administração [o governo Trump] ataca diretamente a área social. Trump quer desmantelar completamente a pequena infraestrutura social que restou após [Joe] Biden, como o Medicaid e o Head Start [dois programas voltados a pessoas de baixa renda, sendo o primeiro de assistência à saúde e o segundo focado na primeira infância].
Acho que é algo parecido com o que vimos na administração [de Jair] Bolsonaro no Brasil: um ataque à infraestrutura para ver o quão rápido ela pode se desmantelar, com a ideia de que, uma vez que ela se desmantela, é muito difícil reconstruir.
Mas isso não significa que o Estado não estará gastando; o Estado estará gastando para apoiar, subsidiar e incentivar a elite.
O que geralmente acontece é que taxam mais o trabalho, a classe trabalhadora, enquanto reduzem taxas sobre o capital, dividendos, propriedade, e lucros corporativos.
Além disso, a austeridade constante espreme os trabalhadores, porque, com uma taxação regressiva, se eles têm que comprar o que antes tinham como direito, isso significa que eles são mais dependentes do mercado e estão também mais dispostos a aceitar qualquer condição de trabalho.
Como essa nova onda de austeridade pode impactar a economia europeia, principalmente em países como a Alemanha, que flexibilizou o limite de endividamento introduzido pelo governo de Angela Merkel em 2009?
Sabemos que os níveis de pobreza estão subindo em toda a Europa. A desigualdade é obscena agora. Na Itália, o número de bilionários no país continua aumentando e, ao mesmo tempo, a pobreza absoluta continua subindo também.
Essa desigualdade não produz futuro para os cidadãos. Ela produz um grande banquete para aqueles que já estão ganhando. A Itália é privatizada e continua a privatizar o máximo possível. Meloni continua cortando os benefícios dos cidadãos, jogando milhares de famílias em pior condição, enquanto ela está dizendo que precisamos nos rearmar.
E isso é algo que nós estamos ouvindo na Alemanha também. A retórica é que nós estamos rearmando, precisamos aumentar nosso setor de defesa, enquanto o custo dele é desmantelar o setor social.
O setor de defesa é o melhor setor para o governo investir, no sentido de que ele não desafia o equilíbrio de classes.
Não é sobre empoderar as pessoas diretamente através de recursos sociais, através do trabalho público, através de uma sensação de participar da economia. Na verdade, é o melhor jeito de estimular os investidores enquanto preservam a total despolitização e a desdemocratização da economia.
Nosso sistema econômico está mostrando a sua cruzada de repressão econômica sobre a maioria, dado que a austeridade está sendo liderada sem o motivo de uma crise financeira. E isso é muito claro.
Todos os governos de direita, como Trump, nos EUA, ou Milei, na Argentina, estão pressionando pela austeridade. Sabemos que governantes centristas em todo o mundo estão pressionados para fazer políticas semelhantes, talvez menos aceleradas. Eu sei que o governo Lula, por exemplo, está tendo que lidar com a austeridade por causa da pressão da elite econômica e dos investidores do mercado.
Acho que é um momento histórico muito interessante, porque, de certa forma, as desculpas caíram, e agora o que você vê é uma guerra de classes muito clara. No fim das contas, a austeridade serve para preservar o equilíbrio de poder entre a maioria das pessoas trabalhadoras e a elite. Essa elite está capturando quase todos os recursos que são produzidos pela sociedade e mantendo o resto das pessoas em uma forma muito vulnerável e precária de vida.
Essa simbiose de austeridade e autoritarismo se forma em si mesma – no sentido de que, quanto mais austeridade os governos implementam, mais as pessoas acreditam na narrativa de que é o mais fraco que é responsável pelo quadro atual. É uma estratégia vencedora para muitos daqueles que querem manter o status quo, porque a austeridade cria mais xenofobia, mais autoritarismo, e esse autoritarismo só produz mais austeridade.
O retorno de Trump à Casa Branca pode trazer novas ondas de cortes orçamentários e políticas pró-mercado. Na sua visão, quais seriam as principais características da "austeridade autoritária" nesse novo mandato?
Eu acho que alguém como Elon Musk sabe que os trabalhadores podem se organizar e contestar o capitalismo e a relação social pela qual eles são explorados.
É interessante notar como essa administração [o governo Trump] ataca diretamente a área social. Trump quer desmantelar completamente a pequena infraestrutura social que restou após [Joe] Biden, como o Medicaid e o Head Start [dois programas voltados a pessoas de baixa renda, sendo o primeiro de assistência à saúde e o segundo focado na primeira infância].
Acho que é algo parecido com o que vimos na administração [de Jair] Bolsonaro no Brasil: um ataque à infraestrutura para ver o quão rápido ela pode se desmantelar, com a ideia de que, uma vez que ela se desmantela, é muito difícil reconstruir.
Mas isso não significa que o Estado não estará gastando; o Estado estará gastando para apoiar, subsidiar e incentivar a elite.
O que geralmente acontece é que taxam mais o trabalho, a classe trabalhadora, enquanto reduzem taxas sobre o capital, dividendos, propriedade, e lucros corporativos.
Além disso, a austeridade constante espreme os trabalhadores, porque, com uma taxação regressiva, se eles têm que comprar o que antes tinham como direito, isso significa que eles são mais dependentes do mercado e estão também mais dispostos a aceitar qualquer condição de trabalho.
Como essa nova onda de austeridade pode impactar a economia europeia, principalmente em países como a Alemanha, que flexibilizou o limite de endividamento introduzido pelo governo de Angela Merkel em 2009?
Sabemos que os níveis de pobreza estão subindo em toda a Europa. A desigualdade é obscena agora. Na Itália, o número de bilionários no país continua aumentando e, ao mesmo tempo, a pobreza absoluta continua subindo também.
Essa desigualdade não produz futuro para os cidadãos. Ela produz um grande banquete para aqueles que já estão ganhando. A Itália é privatizada e continua a privatizar o máximo possível. Meloni continua cortando os benefícios dos cidadãos, jogando milhares de famílias em pior condição, enquanto ela está dizendo que precisamos nos rearmar.
E isso é algo que nós estamos ouvindo na Alemanha também. A retórica é que nós estamos rearmando, precisamos aumentar nosso setor de defesa, enquanto o custo dele é desmantelar o setor social.
O setor de defesa é o melhor setor para o governo investir, no sentido de que ele não desafia o equilíbrio de classes.
Não é sobre empoderar as pessoas diretamente através de recursos sociais, através do trabalho público, através de uma sensação de participar da economia. Na verdade, é o melhor jeito de estimular os investidores enquanto preservam a total despolitização e a desdemocratização da economia.
No Brasil, a austeridade é frequentemente justificada como necessária ao equilíbrio das contas públicas, mas também resulta em cortes em áreas sociais e aumento da desigualdade. Você vê paralelos entre a "austeridade autoritária" e as políticas econômicas adotadas no Brasil nos últimos anos?
O Brasil tem recursos abundantes. E há formas de o país ter uma produção muito mais sustentável, ecológica e democrática.
Isso deveria ser algo que poderia ser expandido com o apoio do Estado, se o Estado parar de focar em satisfazer os investidores internacionais – que, de qualquer forma, nunca estarão satisfeitos. Porque, de novo, se você fizer austeridade, você vai causar uma recessão que trará sua morte econômica no longo prazo.
Acho que o Brasil é um país típico que, se tivesse coragem política para dizer que persegue uma agenda original, ecológica e democrática, poderia realmente fazer isso. Mas é preciso muita coragem, apoio popular e imaginação política.
Será que o Lula vai conseguir fazer isso? Não sei, eu não acho. Ele está muito dentro desse sistema. E isso só vai acontecer se houver pressão de baixo.
O Estado precisa apoiar atividades que são relacionadas à produção para, finalmente, conseguir uma independência do mercado. Isso não vai acontecer na Europa, acho que a Europa está morta politicamente. Isso precisa acontecer no Sul Global, começando pelo Brasil.
terça-feira, 25 de março de 2025
Anistia e negacionismo histórico
Há poucos dias, este jornal publicou artigo em que um general do Exército defendia a anistia como um instrumento político e jurídico fundamental na história brasileira. A partir de exemplos históricos que demonstrariam como as sucessivas anistias teriam aberto caminho para uma solução pacífica dos conflitos, o general defendeu, então, a anistia aos acusados pelo 8 de Janeiro.
O texto não surpreende. Afinal, anistias foram instrumentos historicamente usados por oficiais militares para garantir a própria impunidade. Também produziram o esquecimento coletivo e a própria naturalização de seus crimes. Aliás, o mesmo general, ministro da Saúde de Bolsonaro, até hoje não foi responsabilizado pela tragédia que vivemos naqueles anos, a despeito de ter sido indiciado pela CPI da Covid do Senado Federal.
O mantra da caserna de um Duque de Caxias "pacificador" ignora uma folha corrida de massacres, da Guerra do Paraguai às rebeliões regenciais. O espírito de "reconciliação" de Caxias talvez só tenha existido frente aos escravocratas que lideraram a Farroupilha, destinando aos Lanceiros Negros o Massacre de Porongos. Ali, sua ação contrastou com a resposta dada pelo militar às revoltas populares como a Cabanagem e a Balaiada, que resultou em dezenas de milhares de mortos.
A ideia de que a repressão à "Intentona" Comunista de 1935 foi a forma de "evitar um maior esgarçamento do tecido social" chega a ser inacreditável. Em 1937, uma grande fake news produzida por um tal capitão Mourão (não o amigo do general, mas Olímpio Mourão Filho) fomentou o anticomunismo do Exército para legitimar o golpe e a ditadura do Estado Novo, com brutal repressão. A anistia veio quase uma década depois, não sem antes deixar um enorme saldo de torturados e mortos. O exemplo também ignora que o Partido Comunista ficou proscrito por quase todo o século 20. Será que o general aceitaria igual destino para seu atual partido, em nome da "reconciliação nacional"?
Por fim, a ideia de que a anistia de 1979 foi ampla, geral e irrestrita é uma falsificação histórica das mais grosseiras. Essa foi a palavra de ordem construída pela sociedade civil a partir de meados dos anos 1970, por meio da qual os Comitês Brasileiros pela Anistia demandavam não apenas a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos, mas também memória, verdade, reparação e, principalmente, justiça em relação aos mortos e desaparecidos. Figueiredo, o último dos generais ditadores, veio à público repetidas vezes afirmar que os militares jamais aceitariam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Mas, ao notar que a luta crescia na sociedade, a ditadura mudou de estratégia. Ao invés de recusar a demanda, ela impôs os próprios termos para a anistia, invertendo completamente os sentidos daquela bandeira popular.
A anistia ampla, geral e irrestrita, que deveria ser sinônimo de memória e justiça, passou a ser a anistia do "esquecimento" e da "reconciliação", que eram, na verdade, sinônimos de impunidade. De fato, esse é o sentido fundamental da lei imposta pelo regime em 1979, por meio de um Congresso ainda sob seu estrito controle: garantir que os torturadores e assassinos de Rubens Paiva e de milhares de outros brasileiros saíssem impunes pelos crimes que cometeram, ao mesmo tempo em que mantinha excluídos dos benefícios diversos militantes ainda presos.
O negacionismo que já conhecíamos em relação às vacinas transforma-se em negacionismo histórico. E reforça o diagnóstico de que nas escolas militares se ensina mitologia ao invés de historiografia. Em verdade, esse negacionismo serve para esconder que anistias tiveram como efeito, ao longo da história, deixar livre o caminho para que golpistas voltassem a atentar contra a democracia. Caso militares golpistas tivessem sido responsabilizados na primeira metade do século 20, possivelmente não teríamos vivido uma ditadura de mais de 20 anos.
E caso os responsáveis por essa ditadura não tivessem sido anistiados em 1979, o deputado federal cujo ídolo é um torturador dificilmente teria chegado à Presidência da República. Assim, poderíamos ter evitado muitos episódios que, ao longo dos últimos anos, demonstraram que a farda tem sido vista, pelos próprios militares, como uma garantia de não responsabilização.
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada histórica. Ou rompemos com o ciclo de impunidade que marca nossa história ou estaremos permanentemente ameaçados pelo risco do retorno ao autoritarismo, com a ascensão de torturadores e negacionistas ao poder.
O texto não surpreende. Afinal, anistias foram instrumentos historicamente usados por oficiais militares para garantir a própria impunidade. Também produziram o esquecimento coletivo e a própria naturalização de seus crimes. Aliás, o mesmo general, ministro da Saúde de Bolsonaro, até hoje não foi responsabilizado pela tragédia que vivemos naqueles anos, a despeito de ter sido indiciado pela CPI da Covid do Senado Federal.
O mantra da caserna de um Duque de Caxias "pacificador" ignora uma folha corrida de massacres, da Guerra do Paraguai às rebeliões regenciais. O espírito de "reconciliação" de Caxias talvez só tenha existido frente aos escravocratas que lideraram a Farroupilha, destinando aos Lanceiros Negros o Massacre de Porongos. Ali, sua ação contrastou com a resposta dada pelo militar às revoltas populares como a Cabanagem e a Balaiada, que resultou em dezenas de milhares de mortos.
A ideia de que a repressão à "Intentona" Comunista de 1935 foi a forma de "evitar um maior esgarçamento do tecido social" chega a ser inacreditável. Em 1937, uma grande fake news produzida por um tal capitão Mourão (não o amigo do general, mas Olímpio Mourão Filho) fomentou o anticomunismo do Exército para legitimar o golpe e a ditadura do Estado Novo, com brutal repressão. A anistia veio quase uma década depois, não sem antes deixar um enorme saldo de torturados e mortos. O exemplo também ignora que o Partido Comunista ficou proscrito por quase todo o século 20. Será que o general aceitaria igual destino para seu atual partido, em nome da "reconciliação nacional"?
Por fim, a ideia de que a anistia de 1979 foi ampla, geral e irrestrita é uma falsificação histórica das mais grosseiras. Essa foi a palavra de ordem construída pela sociedade civil a partir de meados dos anos 1970, por meio da qual os Comitês Brasileiros pela Anistia demandavam não apenas a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos, mas também memória, verdade, reparação e, principalmente, justiça em relação aos mortos e desaparecidos. Figueiredo, o último dos generais ditadores, veio à público repetidas vezes afirmar que os militares jamais aceitariam uma anistia ampla, geral e irrestrita. Mas, ao notar que a luta crescia na sociedade, a ditadura mudou de estratégia. Ao invés de recusar a demanda, ela impôs os próprios termos para a anistia, invertendo completamente os sentidos daquela bandeira popular.
A anistia ampla, geral e irrestrita, que deveria ser sinônimo de memória e justiça, passou a ser a anistia do "esquecimento" e da "reconciliação", que eram, na verdade, sinônimos de impunidade. De fato, esse é o sentido fundamental da lei imposta pelo regime em 1979, por meio de um Congresso ainda sob seu estrito controle: garantir que os torturadores e assassinos de Rubens Paiva e de milhares de outros brasileiros saíssem impunes pelos crimes que cometeram, ao mesmo tempo em que mantinha excluídos dos benefícios diversos militantes ainda presos.
O negacionismo que já conhecíamos em relação às vacinas transforma-se em negacionismo histórico. E reforça o diagnóstico de que nas escolas militares se ensina mitologia ao invés de historiografia. Em verdade, esse negacionismo serve para esconder que anistias tiveram como efeito, ao longo da história, deixar livre o caminho para que golpistas voltassem a atentar contra a democracia. Caso militares golpistas tivessem sido responsabilizados na primeira metade do século 20, possivelmente não teríamos vivido uma ditadura de mais de 20 anos.
E caso os responsáveis por essa ditadura não tivessem sido anistiados em 1979, o deputado federal cujo ídolo é um torturador dificilmente teria chegado à Presidência da República. Assim, poderíamos ter evitado muitos episódios que, ao longo dos últimos anos, demonstraram que a farda tem sido vista, pelos próprios militares, como uma garantia de não responsabilização.
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada histórica. Ou rompemos com o ciclo de impunidade que marca nossa história ou estaremos permanentemente ameaçados pelo risco do retorno ao autoritarismo, com a ascensão de torturadores e negacionistas ao poder.
A intolerância política na internet e a urgência de superação da polarização calcificadora
A intolerância política é, hoje, um dos sintomas mais alarmantes da crise democrática que atravessa a sociedade brasileira. Desde a intensificação dos conflitos políticos no país, a partir da segunda década do século XXI, o debate público passou a ser dominado por uma lógica de polarização emocional, alimentada por discursos extremados, deslegitimadores e incapazes de reconhecer a legitimidade do outro. Nesse cenário, as redes sociais se tornaram ambientes propícios à radicalização, substituindo o diálogo por slogans, e a escuta por reações impulsivas. A internet, nesse processo, não apenas espelha as fissuras políticas e sociais, mas também age como amplificadora de afetos negativos que “calcificam” as relações sociais e corroem a possibilidade da convivência democrática.
Essa calcificação das relações sociais se manifesta na consolidação de dois campos antagônicos, que se veem como únicos porta-vozes legítimos de toda a população. Cada lado constrói para si uma narrativa autojustificadora, onde todas as virtudes residem em seu campo e todos os defeitos, no campo oposto. Essa visão binária dificulta o reconhecimento da pluralidade de perspectivas que caracteriza uma sociedade complexa e diversa como a brasileira. O que se observa, em consequência, é a substituição da política como espaço de mediação e negociação por uma arena de confronto existencial, em que os adversários deixam de ser interlocutores legítimos e passam a ser inimigos a serem eliminados simbolicamente — e, por vezes, fisicamente.
Esse ambiente de antagonismos irreconciliáveis gera um tipo de ativismo convicto de suas próprias certezas, que não admite dúvidas, contrapontos ou ambiguidades. A política se converte em um campo moralizante, onde cada grupo se arroga o monopólio da verdade, da justiça e da virtude. Nesse modelo, emoções políticas complexas como o cuidado, a compaixão ou a escuta se tornam quase impossíveis de serem expressas, pois são vistas como sinais de fraqueza ou traição à causa. A intolerância cresce como consequência natural dessa dinâmica, afetando não apenas o debate público, mas também a saúde mental da população, que se vê submetida a uma constante atmosfera de tensão, medo e ressentimento.
As lideranças políticas, longe de conter essa escalada, muitas vezes a incentivam, pois sabem que o engajamento emocional — mesmo que negativo — é um instrumento poderoso de mobilização. O medo do outro, a raiva diante da diferença e a crença de que o adversário representa uma ameaça existencial alimentam campanhas políticas e estratégias de poder. Não se trata apenas de disputa por votos, mas de construção de identidades políticas fechadas, que se fundamentam na exclusão do diferente e na reafirmação constante de uma suposta superioridade moral. O resultado disso é a transformação dos manuais de comunicação política em verdadeiros “manuais de combate existencial”, onde a linguagem serve menos para argumentar e mais para atacar, desmoralizar e destruir.
Nesse contexto, torna-se urgente enfrentar com coragem e responsabilidade o processo de polarização que endurece mentes e sentimentos, e que estabelece “verdades” sem reflexão crítica ou estudo aprofundado. A política, para cumprir seu papel civilizatório, deve ser um espaço de aprendizado mútuo e não de doutrinação. É preciso reconhecer que há outras visões de mundo possíveis, outras experiências legítimas de existência, e que o desacordo faz parte da vida democrática. Isso implica abandonar a arrogância intelectual e afetiva, que acredita possuir todas as respostas e que recusa qualquer possibilidade de escuta ou revisão de suas próprias certezas.
A intolerância política na internet é a expressão mais visível desse processo, pois ali a agressividade encontra terreno fértil para se manifestar sem freios. As redes sociais, organizadas por algoritmos que favorecem o engajamento emocional e a viralização de conteúdos polarizadores, criam bolhas informacionais onde se reforçam preconceitos, se produzem desinformações e se alimenta o ódio. O anonimato e a despersonalização das interações online contribuem para a intensificação das violências simbólicas, que frequentemente transbordam para o mundo offline. Casos de agressões físicas, ameaças, cancelamentos e até homicídios motivados por divergências políticas vêm se tornando mais comuns, e não podem ser naturalizados.
Esse ambiente de hostilidade constante corrói as bases da democracia, pois inviabiliza a formação de consensos mínimos e destrói as condições para a deliberação pública. A política, que deveria ser espaço de construção coletiva, passa a ser percebida como guerra permanente, onde só pode haver vencedores e vencidos. A ideia de bem comum é substituída por estratégias de sobrevivência discursiva e territorial. A consequência disso é o enfraquecimento das instituições, o descrédito nos processos eleitorais e o aumento da violência política. A democracia, quando submetida a essa lógica, deixa de ser um regime de convivência com a diferença e se aproxima perigosamente da tirania das maiorias.
O Brasil vive hoje essa encruzilhada. Ou se reconstrói um ethos político fundado na tolerância, na escuta ativa e no respeito à pluralidade, ou estaremos condenados a uma escalada contínua de conflitos, ressentimentos e rupturas. Isso exige, antes de tudo, uma revalorização da paz cotidiana. A convivência democrática não se constrói apenas nas urnas ou nos tribunais, mas no dia-a-dia das interações sociais, familiares, comunitárias e digitais. Precisamos reaprender a conviver com a divergência, sem que ela se transforme em motivo de ódio ou desprezo. Precisamos incorporar a ideia de que o outro, mesmo quando pensa diferente, é parte integrante do mesmo corpo social e merece consideração.
As emoções políticas precisam ser reconectadas com práticas de cuidado, empatia e responsabilidade. Isso significa construir uma pedagogia da escuta e da convivência, que ensine a lidar com a diferença como algo constitutivo da vida pública e não como ameaça. Também é necessário investir em educação midiática e literacia digital, para que os cidadãos sejam capazes de discernir entre discurso legítimo e manipulação emocional, entre crítica política e incitação ao ódio. Os meios de comunicação e as plataformas digitais têm responsabilidade nesse processo, devendo promover ambientes mais seguros, plurais e respeitosos.
Abandonar a arrogância é, portanto, um gesto de maturidade democrática. É reconhecer que nenhuma posição é absoluta, que todos os lados podem aprender com os outros, e que a construção de um país mais justo e democrático passa pela valorização do diálogo e da escuta. A superação da polarização calcificadora não será um processo simples, mas é um caminho necessário. Precisamos substituir os “manuais de combate existencial” por manuais de convivência democrática, onde a política seja compreendida como espaço de encontros possíveis, de divergências produtivas e de construção coletiva do futuro.
Se quisermos preservar a democracia como forma de vida, precisamos urgentemente recuperar a capacidade de conviver com a diferença. Precisamos de paz, tolerância e escuta no dia-a-dia.
Precisamos abrir espaço para novos sentimentos e emoções políticas que reflitam a diversidade e a complexidade do povo brasileiro. E, acima de tudo, precisamos reaprender que a política não é a arte de destruir o outro, mas a arte de viver juntos.
Essa calcificação das relações sociais se manifesta na consolidação de dois campos antagônicos, que se veem como únicos porta-vozes legítimos de toda a população. Cada lado constrói para si uma narrativa autojustificadora, onde todas as virtudes residem em seu campo e todos os defeitos, no campo oposto. Essa visão binária dificulta o reconhecimento da pluralidade de perspectivas que caracteriza uma sociedade complexa e diversa como a brasileira. O que se observa, em consequência, é a substituição da política como espaço de mediação e negociação por uma arena de confronto existencial, em que os adversários deixam de ser interlocutores legítimos e passam a ser inimigos a serem eliminados simbolicamente — e, por vezes, fisicamente.
Esse ambiente de antagonismos irreconciliáveis gera um tipo de ativismo convicto de suas próprias certezas, que não admite dúvidas, contrapontos ou ambiguidades. A política se converte em um campo moralizante, onde cada grupo se arroga o monopólio da verdade, da justiça e da virtude. Nesse modelo, emoções políticas complexas como o cuidado, a compaixão ou a escuta se tornam quase impossíveis de serem expressas, pois são vistas como sinais de fraqueza ou traição à causa. A intolerância cresce como consequência natural dessa dinâmica, afetando não apenas o debate público, mas também a saúde mental da população, que se vê submetida a uma constante atmosfera de tensão, medo e ressentimento.
As lideranças políticas, longe de conter essa escalada, muitas vezes a incentivam, pois sabem que o engajamento emocional — mesmo que negativo — é um instrumento poderoso de mobilização. O medo do outro, a raiva diante da diferença e a crença de que o adversário representa uma ameaça existencial alimentam campanhas políticas e estratégias de poder. Não se trata apenas de disputa por votos, mas de construção de identidades políticas fechadas, que se fundamentam na exclusão do diferente e na reafirmação constante de uma suposta superioridade moral. O resultado disso é a transformação dos manuais de comunicação política em verdadeiros “manuais de combate existencial”, onde a linguagem serve menos para argumentar e mais para atacar, desmoralizar e destruir.
Nesse contexto, torna-se urgente enfrentar com coragem e responsabilidade o processo de polarização que endurece mentes e sentimentos, e que estabelece “verdades” sem reflexão crítica ou estudo aprofundado. A política, para cumprir seu papel civilizatório, deve ser um espaço de aprendizado mútuo e não de doutrinação. É preciso reconhecer que há outras visões de mundo possíveis, outras experiências legítimas de existência, e que o desacordo faz parte da vida democrática. Isso implica abandonar a arrogância intelectual e afetiva, que acredita possuir todas as respostas e que recusa qualquer possibilidade de escuta ou revisão de suas próprias certezas.
A intolerância política na internet é a expressão mais visível desse processo, pois ali a agressividade encontra terreno fértil para se manifestar sem freios. As redes sociais, organizadas por algoritmos que favorecem o engajamento emocional e a viralização de conteúdos polarizadores, criam bolhas informacionais onde se reforçam preconceitos, se produzem desinformações e se alimenta o ódio. O anonimato e a despersonalização das interações online contribuem para a intensificação das violências simbólicas, que frequentemente transbordam para o mundo offline. Casos de agressões físicas, ameaças, cancelamentos e até homicídios motivados por divergências políticas vêm se tornando mais comuns, e não podem ser naturalizados.
Esse ambiente de hostilidade constante corrói as bases da democracia, pois inviabiliza a formação de consensos mínimos e destrói as condições para a deliberação pública. A política, que deveria ser espaço de construção coletiva, passa a ser percebida como guerra permanente, onde só pode haver vencedores e vencidos. A ideia de bem comum é substituída por estratégias de sobrevivência discursiva e territorial. A consequência disso é o enfraquecimento das instituições, o descrédito nos processos eleitorais e o aumento da violência política. A democracia, quando submetida a essa lógica, deixa de ser um regime de convivência com a diferença e se aproxima perigosamente da tirania das maiorias.
O Brasil vive hoje essa encruzilhada. Ou se reconstrói um ethos político fundado na tolerância, na escuta ativa e no respeito à pluralidade, ou estaremos condenados a uma escalada contínua de conflitos, ressentimentos e rupturas. Isso exige, antes de tudo, uma revalorização da paz cotidiana. A convivência democrática não se constrói apenas nas urnas ou nos tribunais, mas no dia-a-dia das interações sociais, familiares, comunitárias e digitais. Precisamos reaprender a conviver com a divergência, sem que ela se transforme em motivo de ódio ou desprezo. Precisamos incorporar a ideia de que o outro, mesmo quando pensa diferente, é parte integrante do mesmo corpo social e merece consideração.
As emoções políticas precisam ser reconectadas com práticas de cuidado, empatia e responsabilidade. Isso significa construir uma pedagogia da escuta e da convivência, que ensine a lidar com a diferença como algo constitutivo da vida pública e não como ameaça. Também é necessário investir em educação midiática e literacia digital, para que os cidadãos sejam capazes de discernir entre discurso legítimo e manipulação emocional, entre crítica política e incitação ao ódio. Os meios de comunicação e as plataformas digitais têm responsabilidade nesse processo, devendo promover ambientes mais seguros, plurais e respeitosos.
Abandonar a arrogância é, portanto, um gesto de maturidade democrática. É reconhecer que nenhuma posição é absoluta, que todos os lados podem aprender com os outros, e que a construção de um país mais justo e democrático passa pela valorização do diálogo e da escuta. A superação da polarização calcificadora não será um processo simples, mas é um caminho necessário. Precisamos substituir os “manuais de combate existencial” por manuais de convivência democrática, onde a política seja compreendida como espaço de encontros possíveis, de divergências produtivas e de construção coletiva do futuro.
Se quisermos preservar a democracia como forma de vida, precisamos urgentemente recuperar a capacidade de conviver com a diferença. Precisamos de paz, tolerância e escuta no dia-a-dia.
Precisamos abrir espaço para novos sentimentos e emoções políticas que reflitam a diversidade e a complexidade do povo brasileiro. E, acima de tudo, precisamos reaprender que a política não é a arte de destruir o outro, mas a arte de viver juntos.
Eu não quero ser Rubem Braga
Neste momento em que começam as primeiras batalhas da Terceira Guerra, quando já se ouvem ao longe os clarins das novas bandas militares, eu espero que o diretor deste jornal não tenha a mesma ideia de seu colega do Diário Carioca, Horácio de Carvalho, em 1944.
Quando o Brasil se juntou aos aliados para enfrentar o Eixo de Hitler no front da Segunda Guerra, ele escalou como correspondente no conflito o cronista de amenidades do jornal. Rubem Braga, que escrevia sobre a observação de passarinhos, moças e borboletas amarelas nos céus do Rio, foi mandado relatar o circuito dos caças aéreos derramando bombas sobre os campos italianos. Não, senhor diretor, eu não quero ser Rubem Braga.
Quando o Brasil se juntou aos aliados para enfrentar o Eixo de Hitler no front da Segunda Guerra, ele escalou como correspondente no conflito o cronista de amenidades do jornal. Rubem Braga, que escrevia sobre a observação de passarinhos, moças e borboletas amarelas nos céus do Rio, foi mandado relatar o circuito dos caças aéreos derramando bombas sobre os campos italianos. Não, senhor diretor, eu não quero ser Rubem Braga.
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| No alto, à esquerda, Rubem Braga; agachado, Joel Silveira |
No próximo 8 de maio o mundo vai lembrar os 80 anos da rendição alemã, o Dia da Vitória, e ao invés da alegria de todos saírem às ruas, celebrar a paz e cantar “We are the world”, a expectativa é que a qualquer momento o diretor vai escalar mais um cronista para deixar as delicadezas da vida e seguir rumo à Ucrânia, Gaza, Irã, onde narrará o que vai pelos campos da morte.
Nos Diários Associados, o correspondente enviado à Segunda Guerra foi Joel Silveira, “a víbora”. Não era exatamente um cronista, mas escrevia com personalidade e, como mostram suas duas reportagens clássicas sobre os Matarazzo paulistas, tinha o humor venenoso que lhe deu o apelido. Quem o pautou foi o dono do jornal, o folclórico Assis Chateaubriand. Chatô foi claro como os ternos largos que vestia:
“O senhor vai pra guerra, seu Silveira, mas não me morra! Tá me ouvindo? Não me morra, seu Silveira! Repórter é pra mandar notícia, não pra morrer!”
Joel Silveira e Rubem Braga embarcaram com a Força Expedicionária Brasileira e é assim, fardados com outros soldados, que estão na capa de “Heróis por acaso – Espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro, um dos muitos que serão lançados nos próximos dias para lembrar o armistício, mistura realidade e ficção. É assinado por Paulo Valente, filho de Clarice Lispector.
Eu repito, dispenso a honraria. Não quero ser o Rubem Braga da Terceira Guerra, muito menos a genial víbora peçonhenta do Silveira. Alguém, no entanto, precisará fazer o serviço enquanto eu permaneço na não menos dura guerra urbana carioca. A quem couber a escolha do diretor de redação, recomendo que antes de embarcar leia “Com a FEB na Itália”, os relatos de Braga sobre os nove meses em que acompanhou nossos pracinhas na busca do escalpo dos tedescos. Ao mesmo tempo que, repórter, noticiava o avanço da tropa, ele, cronista, traçava quadros de delicadeza sentimental como o da menina italiana Silvana, ferida por uma granada, um clássico da literatura nacional.
Definitivamente, eu não quero ser Rubem Braga, e parece que nem será necessário mandar cronista de amenidades para descrever os bastidores das batalhas. Vem aí uma guerra de drones. Não haverá um bar de hotel de Roma. Uma loura não estará na mesa ao lado esperando que lhe acendam o cigarro. O novo Rubem Braga não lhe dará fogo como fez o antigo. Não se apaixonará por ela, não precisará ser alertado por um oficial inglês como aconteceu com o cronista em 1944. A loura é uma espiã.
A Terceira Guerra vai ser muito chata.
Nos Diários Associados, o correspondente enviado à Segunda Guerra foi Joel Silveira, “a víbora”. Não era exatamente um cronista, mas escrevia com personalidade e, como mostram suas duas reportagens clássicas sobre os Matarazzo paulistas, tinha o humor venenoso que lhe deu o apelido. Quem o pautou foi o dono do jornal, o folclórico Assis Chateaubriand. Chatô foi claro como os ternos largos que vestia:
“O senhor vai pra guerra, seu Silveira, mas não me morra! Tá me ouvindo? Não me morra, seu Silveira! Repórter é pra mandar notícia, não pra morrer!”
Joel Silveira e Rubem Braga embarcaram com a Força Expedicionária Brasileira e é assim, fardados com outros soldados, que estão na capa de “Heróis por acaso – Espionagem no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”. O livro, um dos muitos que serão lançados nos próximos dias para lembrar o armistício, mistura realidade e ficção. É assinado por Paulo Valente, filho de Clarice Lispector.
Eu repito, dispenso a honraria. Não quero ser o Rubem Braga da Terceira Guerra, muito menos a genial víbora peçonhenta do Silveira. Alguém, no entanto, precisará fazer o serviço enquanto eu permaneço na não menos dura guerra urbana carioca. A quem couber a escolha do diretor de redação, recomendo que antes de embarcar leia “Com a FEB na Itália”, os relatos de Braga sobre os nove meses em que acompanhou nossos pracinhas na busca do escalpo dos tedescos. Ao mesmo tempo que, repórter, noticiava o avanço da tropa, ele, cronista, traçava quadros de delicadeza sentimental como o da menina italiana Silvana, ferida por uma granada, um clássico da literatura nacional.
Definitivamente, eu não quero ser Rubem Braga, e parece que nem será necessário mandar cronista de amenidades para descrever os bastidores das batalhas. Vem aí uma guerra de drones. Não haverá um bar de hotel de Roma. Uma loura não estará na mesa ao lado esperando que lhe acendam o cigarro. O novo Rubem Braga não lhe dará fogo como fez o antigo. Não se apaixonará por ela, não precisará ser alertado por um oficial inglês como aconteceu com o cronista em 1944. A loura é uma espiã.
A Terceira Guerra vai ser muito chata.
Eu só para os 'civilizados' brancos
Os homens e as mulheres ontem, os judeus e os palestinos hoje: fico pasmo com a incapacidade de os seres humanos viverem juntos no respeito mútuo. Como se o outro devesse necessariamente ser um inimigo. O outro é simplesmente o outro. O outro é como eu. Ele tem o direito de dizer “eu”. Nós, homens brancos, civilizados e ricos, não aceitamos que o outro diga eu.
José Saramago
Gaza: por que não se chama genocídio a um genocídio?
O número foi “atualizado” este domingo: 50 mil mortos em Gaza. Netanyahu prossegue o genocídio, quebrando o cessar-fogo em nome da sua sobrevivência política agora com um aval superior: Donald Trump já promete limpar a Faixa de Gaza e fazer dali “a Riviera” e dá a luz verde total ao criminoso israelita para a extinção dos palestinos.
A “nova Europa” – França, Reino Unido e Alemanha – fez um comunicado onde se mostrou “chocada” com o ressurgimento dos ataques a Gaza. Mas não irá além disso, como o não foi o Conselho Europeu reunido na semana passada: todo e qualquer opositor da política do governo israelita será acusado de “antissemitismo”. As palavras são sempre cuidadosamente medidas.
Afinal, Keir Starmer expurgou do Partido Trabalhista todos os que se opunham à política do Estado de Israel – como o antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn, reeleito nas últimas eleições pela sua circunscrição londrina como independente.
A Palestina está no fim da cadeia alimentar da possibilidade de empatia internacional. Choramos pela Ucrânia, mas depois já não sobra nada para Gaza. É como se existisse uma desumanização dos palestinos que, aos olhos do Ocidente, são olhados como há dois séculos se olhavam os escravos.
O que Trump defende é exatamente o mesmo que o ministro da Segurança de Israel, Ben Gvir, de extrema-direita – que saiu e agora, com o regresso dos ataques, reentrou no Governo. É uma Faixa de Gaza sem palestinos, seja por migração ou por extermínio, como se está a ver.
Várias agências da ONU e algumas ONG, como a Amnistia Internacional, já se referiram ao que se está a passar em Gaza como um “genocídio”. Até o Papa Francisco, num livro publicado no fim de 2024, alude à palavra “genocídio”, sem a decretar expressamente. Mas Francisco afirmou ser preciso apurar se a mortandade em Gaza “tem as características de um genocídio” e “se enquadra na definição técnica formulada por juristas e organismos internacionais”. E, ao mesmo tempo, fala do extermínio dos judeus pelos nazis, o genocídio dos arménios, o genocídio do Ruanda e dos cristãos no Médio Oriente.
Se Joe Biden sempre apoiou Israel e descartou todas estas acusações, Donald Trump eleva a discussão sobre Israel-Gaza para um novo patamar, instituindo um novo McCarthismo, nome cunhado depois do senador Joseph McCarthy denunciar uma “rede de espiões e membros do Partido Comunista” no Departamento de Estado, tendo sido corresponsável pelas perseguições a uma quantidade enorme de “suspeitos de comunismo” em todas as áreas, da cultura à política, nos anos 50 nos Estados Unidos.
Tendo em conta que, para Trump, defender a Palestina e combater a política de guerra de Israel é igual a defender o Hamas e os atos terroristas contra israelitas, a perseguição e a deportação dos imigrantes acusados de “apoiar terroristas estrangeiros” já está em curso. Mahmoud Khalil, defensor dos direitos dos palestinos, foi preso e, apesar de ter residência permanente nos Estados Unidos e de a sua mulher ser cidadã americana, Trump diz que a presença de Khalil nos Estados Unidos “é contrária aos interesses nacionais e política externa” do país. Há outros cidadãos ameaçados de deportação.
Omer Bartov, por enquanto, não é um deles. Nascido e criado em Israel, antigo combatente nas forças armadas israelitas, especialista em Holocausto e genocídio, o historiador escreveu no verão passado no The Guardian um ensaio sobre como o perturbou a sua última visita a Israel, em 2024, onde foi ver a família e amigos e conhecer a neta.
Omer Bartov – que, depois do 7 de outubro, tinha negado que Israel estivesse a cometer genocídio – escreveu nesse texto: “Já não acredito nisso. Fiquei convencido que, depois do ataque a Rafah em 6 de maio de 2024, não é possível negar que Israel comete crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e ações genocidas.”
A comunidade internacional, ao optar por não ver o que se está a passar, é obviamente cúmplice. Trump já sabemos que é.
A “nova Europa” – França, Reino Unido e Alemanha – fez um comunicado onde se mostrou “chocada” com o ressurgimento dos ataques a Gaza. Mas não irá além disso, como o não foi o Conselho Europeu reunido na semana passada: todo e qualquer opositor da política do governo israelita será acusado de “antissemitismo”. As palavras são sempre cuidadosamente medidas.
Afinal, Keir Starmer expurgou do Partido Trabalhista todos os que se opunham à política do Estado de Israel – como o antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn, reeleito nas últimas eleições pela sua circunscrição londrina como independente.
A Palestina está no fim da cadeia alimentar da possibilidade de empatia internacional. Choramos pela Ucrânia, mas depois já não sobra nada para Gaza. É como se existisse uma desumanização dos palestinos que, aos olhos do Ocidente, são olhados como há dois séculos se olhavam os escravos.
O que Trump defende é exatamente o mesmo que o ministro da Segurança de Israel, Ben Gvir, de extrema-direita – que saiu e agora, com o regresso dos ataques, reentrou no Governo. É uma Faixa de Gaza sem palestinos, seja por migração ou por extermínio, como se está a ver.
Várias agências da ONU e algumas ONG, como a Amnistia Internacional, já se referiram ao que se está a passar em Gaza como um “genocídio”. Até o Papa Francisco, num livro publicado no fim de 2024, alude à palavra “genocídio”, sem a decretar expressamente. Mas Francisco afirmou ser preciso apurar se a mortandade em Gaza “tem as características de um genocídio” e “se enquadra na definição técnica formulada por juristas e organismos internacionais”. E, ao mesmo tempo, fala do extermínio dos judeus pelos nazis, o genocídio dos arménios, o genocídio do Ruanda e dos cristãos no Médio Oriente.
Se Joe Biden sempre apoiou Israel e descartou todas estas acusações, Donald Trump eleva a discussão sobre Israel-Gaza para um novo patamar, instituindo um novo McCarthismo, nome cunhado depois do senador Joseph McCarthy denunciar uma “rede de espiões e membros do Partido Comunista” no Departamento de Estado, tendo sido corresponsável pelas perseguições a uma quantidade enorme de “suspeitos de comunismo” em todas as áreas, da cultura à política, nos anos 50 nos Estados Unidos.
Tendo em conta que, para Trump, defender a Palestina e combater a política de guerra de Israel é igual a defender o Hamas e os atos terroristas contra israelitas, a perseguição e a deportação dos imigrantes acusados de “apoiar terroristas estrangeiros” já está em curso. Mahmoud Khalil, defensor dos direitos dos palestinos, foi preso e, apesar de ter residência permanente nos Estados Unidos e de a sua mulher ser cidadã americana, Trump diz que a presença de Khalil nos Estados Unidos “é contrária aos interesses nacionais e política externa” do país. Há outros cidadãos ameaçados de deportação.
Omer Bartov, por enquanto, não é um deles. Nascido e criado em Israel, antigo combatente nas forças armadas israelitas, especialista em Holocausto e genocídio, o historiador escreveu no verão passado no The Guardian um ensaio sobre como o perturbou a sua última visita a Israel, em 2024, onde foi ver a família e amigos e conhecer a neta.
Omer Bartov – que, depois do 7 de outubro, tinha negado que Israel estivesse a cometer genocídio – escreveu nesse texto: “Já não acredito nisso. Fiquei convencido que, depois do ataque a Rafah em 6 de maio de 2024, não é possível negar que Israel comete crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e ações genocidas.”
A comunidade internacional, ao optar por não ver o que se está a passar, é obviamente cúmplice. Trump já sabemos que é.
O Mau Humor dos Nossos Rios
Nosso Brasil, de rios largos e generosos, tem enfrentado ultimamente um fenômeno estranho: o mau humor das águas. Sim, porque se os rios pudessem falar, estariam de cara fechada, emburrados com tanto descaso. No coração da Amazônia, onde a floresta deveria encontrar nos cursos d’água um refúgio fresco e constante, o que se vê é um espetáculo de secura, barcos encalhados e gente olhando pro céu, torcendo por uma chuva que insiste em não cair.
Nos municípios ribeirinhos, onde a vida depende da fluidez das águas, a estiagem prolongada não é só um contratempo: é uma calamidade. As canoas, que antes deslizavam tranquilas levando peixe, gente e esperança, agora encontram solo rachado, enquanto as populações tentam reinventar o cotidiano sem a presença do rio que sempre ditou o ritmo da vida. Mas será que podemos culpar os rios pelo seu mau humor?
A resposta, claro, está na falta de planejamento. A floresta foi sendo desmatada, os cursos d’água assoreados, e o clima resolveu dar sua resposta: secura sem fim. O fenômeno é repetido, ano após ano, e o Brasil assiste com uma cara de surpresa, como se não soubesse que sem preservação, os rios não têm como retribuir sua abundância. E quem sofre com isso? As populações ribeirinhas, abandonadas entre o verde intenso da floresta e o marrom pálido da terra esturricada. Já estamos rodando de motocicleta, doze quilômetros, de uma cidade para outra, onde antes era um lago. E a vida desse lago? Para onde foram os peixes, as garças, as arirambas, as lontras? Ninguém sabe de nada, ninguém estuda o fenômeno, os institutos se calam e os governantes ficam a mercê do bom humor da NINHA.
O poder público patina entre a burocracia e a falta de verba. Discute-se o problema, formam-se comitês, divulgam-se notas, mas a água continua baixando. As estradas, quando existem, se tornam únicas alternativas de transporte, mas são precárias ou simplesmente impraticáveis. Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver?
Mas nem só de tragédia vive a Amazônia. O povo da floresta é teimoso, criativo e resistente. Quando os rios resolvem fazer greve, o ribeirinho improvisa. Caminha quilômetros atrás de um poço, faz reza para São Pedro e, se nada disso resolver, inventa um jeito novo de lidar com o problema. Mas a pergunta que fica é: até quando depender da resiliência, quando o que se precisa é de ação?
Se o Brasil quiser ver seus rios voltando a sorrir, é preciso mais do que lamentos. O planejamento hídrico tem que deixar de ser discurso e virar uma realidade que todos vejam e apoiem. Não pode ficar trancado nas salas de Institutos que existem há décadas e não se sente o resultado prático das suas existências e custos. Preservação não pode ser papo de ambientalista solitário, ou de ministros com opiniões que estão muito longe do rigor da ciência, mas sim, política de estado. E, acima de tudo, as populações que vivem dessa água precisam ser vistas e ouvidas, porque são elas que sentem, na pele, o descaso, o falso discurso e o peso do abandono.
Nos Estados Unidos, país ainda irmão do Brasil, existe um programa que pode chegar até nós e resolver grande parte dos nossos problemas:
O Tennessee Valley Authorithy, uma agência do Governo Americano, criado no longínquo ano de 1933, para dar vida aos americanos que viviam no Rio Tennessee e que mereciam vida melhor do que aquela que existia. No começo era para controlar as enchentes, passando imediatamente para as construções de represas e desenvolvimento da energia e do agro. A tecnologia desenvolvida para as plantações na várzea, dizem muito bem para a nossa Amazônia e os seus catorze milhões de hectares de várzea ainda improdutivas. Desde que Adão e Eva andaram por aqui, só plantamos macaxeira, melancia e mandioca. Alguns caboclos se aventuram em um roçado mais avançado e plantam abóbora, milho, mandioca e umas pimentas, logo arrasado pela seca ou pelas enchentes, quando não visitados pelo IBAMA, que sugere uma roçada para não incentivar a queima de dois hectares. Só esquecem que as populações que nos invadem e nos empobrecem, sentem a necessidade de plantar, comer, beber e progredir.
Só com a normalização do humor dos rios é que voltarei a comer sorva, cama cama, sapoti, pupunha do tamanho normal, caju e até a minha querida pimenta murupi, a original, aquela que faz a bundinha em vez da ponta, aquela que arde e tem cheiro. Todas essas frutas e o tamanho dos abacaxis e cupuaçus, ficaram diferentes do que estamos acostumados a comer.
Que venham as chuvas, mas que venha também a conscientização dos eleitos, porque, sem isso, os nossos rios seguirão de mau humor, e o Brasil, sedento de soluções.
Nos municípios ribeirinhos, onde a vida depende da fluidez das águas, a estiagem prolongada não é só um contratempo: é uma calamidade. As canoas, que antes deslizavam tranquilas levando peixe, gente e esperança, agora encontram solo rachado, enquanto as populações tentam reinventar o cotidiano sem a presença do rio que sempre ditou o ritmo da vida. Mas será que podemos culpar os rios pelo seu mau humor?
A resposta, claro, está na falta de planejamento. A floresta foi sendo desmatada, os cursos d’água assoreados, e o clima resolveu dar sua resposta: secura sem fim. O fenômeno é repetido, ano após ano, e o Brasil assiste com uma cara de surpresa, como se não soubesse que sem preservação, os rios não têm como retribuir sua abundância. E quem sofre com isso? As populações ribeirinhas, abandonadas entre o verde intenso da floresta e o marrom pálido da terra esturricada. Já estamos rodando de motocicleta, doze quilômetros, de uma cidade para outra, onde antes era um lago. E a vida desse lago? Para onde foram os peixes, as garças, as arirambas, as lontras? Ninguém sabe de nada, ninguém estuda o fenômeno, os institutos se calam e os governantes ficam a mercê do bom humor da NINHA.
O poder público patina entre a burocracia e a falta de verba. Discute-se o problema, formam-se comitês, divulgam-se notas, mas a água continua baixando. As estradas, quando existem, se tornam únicas alternativas de transporte, mas são precárias ou simplesmente impraticáveis. Quem diria que, no coração da maior bacia hidrográfica do mundo, faltaria água para beber e para viver?
Mas nem só de tragédia vive a Amazônia. O povo da floresta é teimoso, criativo e resistente. Quando os rios resolvem fazer greve, o ribeirinho improvisa. Caminha quilômetros atrás de um poço, faz reza para São Pedro e, se nada disso resolver, inventa um jeito novo de lidar com o problema. Mas a pergunta que fica é: até quando depender da resiliência, quando o que se precisa é de ação?
Se o Brasil quiser ver seus rios voltando a sorrir, é preciso mais do que lamentos. O planejamento hídrico tem que deixar de ser discurso e virar uma realidade que todos vejam e apoiem. Não pode ficar trancado nas salas de Institutos que existem há décadas e não se sente o resultado prático das suas existências e custos. Preservação não pode ser papo de ambientalista solitário, ou de ministros com opiniões que estão muito longe do rigor da ciência, mas sim, política de estado. E, acima de tudo, as populações que vivem dessa água precisam ser vistas e ouvidas, porque são elas que sentem, na pele, o descaso, o falso discurso e o peso do abandono.
Nos Estados Unidos, país ainda irmão do Brasil, existe um programa que pode chegar até nós e resolver grande parte dos nossos problemas:
O Tennessee Valley Authorithy, uma agência do Governo Americano, criado no longínquo ano de 1933, para dar vida aos americanos que viviam no Rio Tennessee e que mereciam vida melhor do que aquela que existia. No começo era para controlar as enchentes, passando imediatamente para as construções de represas e desenvolvimento da energia e do agro. A tecnologia desenvolvida para as plantações na várzea, dizem muito bem para a nossa Amazônia e os seus catorze milhões de hectares de várzea ainda improdutivas. Desde que Adão e Eva andaram por aqui, só plantamos macaxeira, melancia e mandioca. Alguns caboclos se aventuram em um roçado mais avançado e plantam abóbora, milho, mandioca e umas pimentas, logo arrasado pela seca ou pelas enchentes, quando não visitados pelo IBAMA, que sugere uma roçada para não incentivar a queima de dois hectares. Só esquecem que as populações que nos invadem e nos empobrecem, sentem a necessidade de plantar, comer, beber e progredir.
Só com a normalização do humor dos rios é que voltarei a comer sorva, cama cama, sapoti, pupunha do tamanho normal, caju e até a minha querida pimenta murupi, a original, aquela que faz a bundinha em vez da ponta, aquela que arde e tem cheiro. Todas essas frutas e o tamanho dos abacaxis e cupuaçus, ficaram diferentes do que estamos acostumados a comer.
Que venham as chuvas, mas que venha também a conscientização dos eleitos, porque, sem isso, os nossos rios seguirão de mau humor, e o Brasil, sedento de soluções.
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