quinta-feira, 10 de setembro de 2015

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Brasil: sem livro novo na escola

Na última edição da Flip, em julho, as entidades do livro criaram e assinaram o manifesto Brasil, Nação Leitora, em defesa da manutenção dos programas governamentais de compras de livros. Na época, programas como o das compras para escolas e bibliotecas do governo de São Paulo já estavam suspensas e o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) estava no balança-mas-não-cai. 

Em agosto, o secretário-executivo do Ministério da Educação, Luiz Cláudio Costa, anunciou em uma reunião na qual estiveram presentes os presidentes das entidades do livro, que o programa estava suspenso em 2015 e que o PNBE Temático 2013, estimado em R$ 26 milhões, e o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic) de 2014 (R$ 100 milhões), ambos já contratados, mas ainda não executados, não deverão deslanchar na sua totalidade. 

Esse cenário levou as entidades a criarem uma petição pública para manutenção dos programas governamentais de incentivo à leitura e alfabetização. 

Visitantes da Bienal, que segue em cartaz até o próximo dia 13, poderão assinar digitalmente o documento na Praça Nação Leitura, instalada no Pavilhão Verde (ruas N26/O22). 

O mundo de Dilma

Se errar é uma imperfeição humana, Dilma Rousseff duvida que possua esse defeito. Generosa, até se sujeita à admissão de remota possibilidade, mas apenas por uma necessidade emergencial de marketing: “Se cometemos erros” — disse ontem —, “e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente.”

Dilma se apresenta satisfeita com a vida em mundo fictício, no qual a convicção da realidade nunca se altera. Nele, “crise” é palavra proibida. Há “dificuldades” e “desafios”.

O que aconteceu, então? Por que o Estado quebrou? Tal percepção da vida real não é correta, sugeriu a presidente em discurso, remetendo ao seu nobre esforço: “O governo entendeu que deveria gastar o que fosse preciso para garantir o emprego e a renda do trabalhador, a continuidade dos investimentos e dos programas sociais.”

O convencimento da presidente sobre seus acertos confronta a percepção coletiva sobre a inflação, a recessão, o rombo nas contas federais e a quebra dos estados e prefeituras, cujo endividamento foi anabolizado por ordem direta da Presidência da República.

Ela tenta manter uma aparência de racionalidade, embora tenha sido quem mandou o Tesouro garantir a triplicação das dívidas estaduais. Entre 2011 e 2014, saltaram de 0,2% para 0,6% do Produto Interno Bruto.

Dilma sabia: pelo menos 50 desses financiamentos destinavam-se a estados já classificados pelo Ministério da Fazenda como impedidos de receber novos créditos. Um deles era o Rio Grande do Sul, estrela da bandeira petista, que hoje parcela o pagamento do funcionalismo a partir da faixa de R$ 600 mensais. É prelúdio de algo previsto para acontecer em outros estados.

Não há vestígio de um terço desse novo endividamento, contratado no último triênio. Foram torrados R$ 30 bilhões, o equivalente ao déficit previsto no Orçamento da União para 2016.

O dinheiro desapareceu na folha de pagamentos, contou o ministro Joaquim Levy a deputados, na semana passada. A despesa de pessoal dos governos estaduais cresceu 54% nos últimos três anos. Passou de R$ 185 bilhões, em 2011, para R$ 284 bilhões, no ano passado.

Dilma, é óbvio, não tem culpa se os governadores aumentaram dívidas numa velocidade dez vezes maior que o crescimento da receita líquida em termos reais — ou seja, descontada a inflação.

É certo, no entanto, que a presidente estimulou-os. Abriu a porteira da Fazenda e concedeu-lhes garantias do Tesouro Nacional.

Para tapar buracos da má gestão, ela enunciou ontem nova tributação: “Alguns remédios são amargos, mas indispensáveis.” Significa que a conta será paga, principalmente, pelos mais pobres cujos bolsos foram devastados, na última década e meia, pelo aumento de 14 pontos percentuais na carga tributária.

Pobres já destinam, obrigatoriamente, 32% de sua renda mensal ao pagamento de tributos ao Estado, informa o Ipea, do Ministério do Planejamento. Devem perder ainda mais.

A anarquia fiscal parecia superada desde o final dos anos 90. Ironia da história: acabou restaurada sob gerência de uma presidente com diploma de economista e dona de certeza granítica sobre a perfeição e a nobreza de seu governo.

José Casado

Descaso com os brasileirinhos

Não existirá justiça enquanto um homem com uma faca ou uma arma puder destruir aqueles que são mais fracos do que ele
Isaac Bashevis Singer (1902 – 1991)
Rezemos, cada um a seu modo, por Aylan Kurdi morto na praia, que rezar é muito mais fazer parte do mundo. Mas na prece não esqueçamos que outros meninos em todo mundo, em cada minuto, também morrem e sofrem sob os governos sedentos de desenvolvimento a qualquer custo e cegos à desgraça. Governos, mesmo legitimamente eleitos, que infelicitam o futuro dessa criançada no nascedouro.

Chore por Aylan e seu irmão Galip, mas não se esqueça dos meninos e meninas do Brasil. Os pequenos sírios fugiam de casa para encontrar um futuro; os brasileirinhos, mortos principalmente por balas, não fugiram de casas destruídas, muitas vezes estavam brincando na porta de casa. Só tiveram o azar de nascerem num país de paz cínica que não dá segurança aos cidadãos, onde a guerra entra porta adentro, ou janela, dos seus lares.

É cretinice demais derramar tantas lágrimas para se dizer parte do mundo pela morte de Aylan, quando as nossas crianças são assassinadas, estupradas, violentadas, sem que por um momento se tornem como Aylan símbolo de mudanças.

A Europa se comoveu pelo cadáver de uma criança na praia, que fugiu da guera. Seus cidadãos estão obrigando aos governos, legitimamente eleitos, a reverem a questão dos refugiados.

As crianças brasileiras, e são milhares, como Cristian Andrade morto esta semana em Manguinhos por uma bala perdida (?), se tornam mártires de uma causa perdida. Em nenhum momento merecem a dignidade de símbolos, nem tantas palavras, para mudar a violência. Serão apenas um número a mais na estatística para exibição de governos, que não atacam a violência com a mesma garra com que assaltam os cofres públicos. 

O martírio infantil no Brasil apenas é capa de revistas parece não ter o mesmo poder de sensibilizar a sociedade a ponto de fazer a mudança de dar um basta ao infaticídio de milhares a cada ano.

Coquetel de formicida

Este país, a cada dia que passa, vai se tornando um competidor favorito na disputa do Campeonato Mundial das Discussões sem Pé nem Cabeça. A contribuição mais recente das nossas altas autoridades para esse novo título nacional é o palavrório enfezado, tolo e pretensioso que se armou em torno da seguinte questão: a campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff foi feita dentro ou fora da lei? A resposta, pelo jeito que tomaram as coisas até agora, é que não pode haver resposta, pois não vale fazer a pergunta. Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o homem que deveria procurar saber se aconteceu ou não aconteceu algo de errado na história, "não interessa à sociedade" discutir essas "controvérsias"; é inconveniente, a seu ver, que a Justiça se meta nisso, pois a eleição já foi, os vencedores devem "usufruir as prerrogativas de seus cargos" e os derrotados devem se preparar para a próxima. Não será possível, assim, saber se houve ou não houve algum crime — pela vontade da Procuradoria, não deve haver investigação, sem investigação não há prova e, sem prova, ninguém pode dizer que houve crime. O passado passou. Ficam arquivadas as dúvidas. É melhor não fazer perguntas, pois há o risco de se encontrar respostas.


A campanha para a reeleição de Dilma Rousseff e do seu entorno é uma viagem completa no trem fantasma da política brasileira. Apareceram a empregada doméstica que, pela contabilidade oficial, recebeu 1,6 milhão, mas não sabe que recebeu, o motorista que é sócio de empresa prestadora de serviços à candidatura, o pobre-diabo que é promovido a empresário para passar notas fiscais com temperatura de 10 graus abaixo de zero. Há uma indústria gráfica que recebe mais de 20 milhões de reais da campanha, mas não tem máquinas gráficas, nem funcionários, nem sede social. Há de tudo — e ao mesmo tempo não há nada, pois, sem uma decisão judicial, os fatos que ocorreram não produzem efeito algum. Por via de consequência, como diria o doutor Aureliano Chaves, não se pode dizer que a presidente é culpada e não se pode dizer que é inocente; ficamos apenas com uma discussão de hospício. Já seria bem ruim se a questão ficasse só nesse porre mental, mas é pior. Antes e além da rixa entre a PGR e a Justiça Eleitoral, o que existe aqui é um caso para a vara de falências do mundo moral.

É bem simples. Todos falam, falam e falam, e ninguém toca no ponto de onde realmente vem o curto-circuito: como pode haver limpeza numa campanha presidencial que recebe contribuições oficiais, contabilizadas e pagas em moeda corrente, de empreiteiras de obras públicas, fornecedores do governo e toda a tropa de empresas que dependem de licenças, autorizações ou favores governamentais para sobreviver? Dá para levar a sério, sinceramente, o argumento mais sagrado de todos os candidatos a algum cargo eleitoral quando lhes perguntam quem financiou sua campanha? "Ah, bom, a doação que recebemos foi perfeitamente legal", dizem eles. "Está tudo declarado, direitinho. A lei permite. Qual é o problema?" O problema é que a contribuição legal é feita basicamente com dinheiro ilegal. Em português claro: dinheiro que vem da corrupção. Esqueçam-se a empregada, o motorista, a gráfica etc. A flor do mal está na origem contaminada das doações — se elas são fruto do crime, a coisa toda vai para o diabo. Eis aí o verdadeiro coquetel de formicida que envenena as eleições brasileiras.

No caso da eleição presidencial de 2014, a campanha de Dilma Rousseff recebeu dinheiro de empresas dirigidas por criminosos processados e condenados por corrupção ativa na 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba. Não há mais nada. a provar quanto a. isso: o processo tem 28 réus confessos, a maioria deles ligada a empreiteiras de obras públicas que declararam ter feito doações à candidata oficial. Só uma delas, a Camargo Corrêa, vai devolver 700 milhões de reais ao Erário, após reconhecer que ganhou ilicitamente essa importância, pelo menos, em seus contratos com o governo. Será que Dilma não sabia nada sobre a origem dos 350 milhões de reais que gastou para se reeleger? Levou um susto quando soube? Nunca ouviu falar em empresas que roubam do governo e fazem contribuições de campanha? Naturalmente, não é só o PT que age assim — todos os seus adversários se servem dessa mesma rapadura. Mas os adversários não foram eleitos para a Presidência da República em 2014 — o problema concreto é de quem está sentado, hoje, num cargo ganho com a ajuda de dinheiro que veio do crime.

O que faz você se indignar?

Uma imagem, dizem por aí, vale mil palavras.

Sem dúvida esse é o caso da foto do menino Aylan, de apenas três anos, vítima de afogamento quando tentava imigrar com sua mãe e seu irmão para a Grécia. A inocência da criança é inquestionável; a injustiça também.

As reações à morte de Aylan não se fizeram esperar. Os líderes políticos europeus mudaram o dicurso, mas a mudança é tanto hipócrita como tardia. Apenas no dia 14 de setembro apresentarão uma nova proposta para lidar com os refugiados. E certamente não incluirá a todos os governantes europeus. Enquanto isso, novas iniciativas cidadãs vão surgindo, às margens dos governos. Em vários países, grupos de europeus dão mostras de solidariedade e de ajuda. A página de ativismo Avaaz coletou mais de um milhão de assinaturas virtuais em um abaixo-assinado publicado em várias línguas com o mesmo texto, conclamando a União Europeia a mudar sua política frente aos refugiados.

Aqui no Brasil não faltaram mostras de indignação, simpatia e vergonha alheia. Mas também logo surgiram as reclamações dos internautas: nós também não temos os nossos Aylans? Por quê essa indignação importada e seletiva?

Primeiro, porque Aylan é símbolo de sofrimento que poderia ter sido evitado. Não é fruto do destino, do infortúnio, da má sorte. Poderia ter sido evitado se houvessem mais esforços para acabar com o conflito na Síria. Poderia ter sido evitado se os governantes europeus não tivessem fechado os olhos para o drama dos refugiados. Em segundo lugar, Aylan é símbolo da injustiça e das disparidades econômicas e sociais que separam os países ricos dos pobres, das quais as vítimas mais inocentes são justamente as crianças.

Mas aqueles que reclamam da falta de indignação com os outros “Aylans” têm razão. A indignação é sempre seletiva, e a mobilização contra a injustiça também.

Vanessa dos Santos Silva, 7 anos, Corumbiara, 1995

No mês passado, cumpriram-se vinte anos do massacre de Corumbiara, em Rondônia. Mais de dois mil trabalhadores sem terra haviam invadido uma fazenda, onde estavam acampados. No conflito durante o cumprimento da ordem judicial de reintegração de posse, doze pessoas morreram. Entre elas, a menina Vanessa dos Santos Silva, de 7 anos, morta com um tiro nas costas.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, apenas no primeiro semestre deste ano ocorreram 23 assassinatos relacionados com conflitos no campo, sendo a maioria deles no Pará e em Rondônia, justamente os lugares dos piores massacres da década de 1990.

Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, Rio de Janeiro, 2015

Em abril deste ano, durante operação da Polícia Militar no Conjunto de Favelas do Alemão, o menino Eduardo de Jesus Ferreira morreu atingido por uma bala na porta da sua casa. A investigação comprovou que o tiro saiu de um fuzil da PM.

De acordo com a ONG Rio da Paz, além de Eduardo pelo menos outras 13 crianças foram mortas durante tiroteios entre policiais e traficantes desde 2007. Chamadas de vítimas de “balas perdidas”, como se tivessem apenas tido azar por estar no lugar errado na hora errada, na verdade são vítimas da incompetência, da injustiça e da indiferença da sociedade.

O relatório da ONG Anistia Internacional, “Você matou meu filho!: homicídios cometidos pela Política Militar na cidade do Rio de Janeiro”, publicado recentemente, apresenta dados impressionantes sobre as execuções extrajudiciais realizadas por policiais. Dá atenção especial para aquelas ocorridas entre agosto de 2014 e julho deste ano na Favela do Acari. Dos dez casos documentados, em quatro as vítimas já estavam feridas ou rendidas quando foram executadas.

A Favela do Acari é a mesma que ficou famosa em 1990, quando de lá desapareceram 11 jovens. Apesar das buscas intensas, dos protestos e das suspeitas do envolvimento de policiais no sequestro e assassinato dos jovens, os corpos nunca apareceram. Em 1993, Edimea da Silva Euzebio, uma das líderes do grupo Mães de Acari, foi assassinada no meio da rua quando buscava informações sobre o filho desaparecido.


O que faz você se mobilizar?

Quem participa de movimentos sociais sabe que não há fórmula mágica para chegar à indignação, e nem para conseguir que a sociedade dê o passo crucial da indignação à ação. Também sabemos, no entanto, que quando uma imagem simboliza de forma nítida a injustiça e o sofrimento de inocentes, como a foto de Aylan, há uma onda de indignação que pode ser aproveitada para alcançar mudanças que antes não seriam possíveis. Na era da Internet, essa imagem percorre o mundo com uma velocidade inimaginável à época dos massacres de Acari ou de Corumbiara.

No entanto, mesmo essa indignação global, potencializada pelas novas tecnologias da comunicação, tem prazo de validade. O trabalho contínuo e árduo daqueles que ficam ao lado das vítimas antes e depois das tragédias é o verdadeiro motor de mudanças duradouras.

O grande desafio dos que hoje choram pelos Aylans, daqui e de lá, é dar continuidade à mudança.

Dilma teme o povo

Um muro metálico instalado para isolar os cidadãos durante o desfile pelo Dia da Independência, na última segunda-feira, representa com precisão a que ponto chegou o isolamento de Dilma Rousseff e de um governo rejeitado pela esmagadora maioria dos brasileiros. O fiel e decadente retrato do Sete de Setembro presidencial mostrou ao país uma chefe de governo que já não governa, uma líder sem autoridade, uma comandante que já não comanda coisa alguma e tem medo do povo.
A estrutura formada por placas de aço, apelidada de “Muro da Vergonha” pelas pessoas que tentavam e foram impedidas de acompanhar a parada cívico-militar em Brasília, foi construída sob medida com o intuito de preservar Dilma de vaias, panelaços e qualquer tipo de manifestações que se tornaram corriqueiras nos últimos tempos. Trata-se, afinal, uma presidente que não pode sair às ruas ou se pronunciar sem ouvir em alto e bom som a indignação dos brasileiros contra o estelionato eleitoral do qual foram vítimas.

Como se não bastasse ter isolado a população e restringido os lugares nas arquibancadas para convidados, Dilma não teve coragem de convocar a tradicional cadeia de rádio e televisão, por meio da qual os presidentes da República historicamente se dirigem à nação em datas comemorativas. O Planalto optou apenas por veicular nas redes sociais um vídeo curto com um depoimento de Dilma, sem alarde, para que os panelaços não se repetissem, o que dá a dimensão do acuamento do atual governo.

Nunca antes neste país, como costuma dizer Lula, um “muro da vergonha” separou os cidadãos do presidente do país na parada de Sete de Setembro. Reeleita graças às mentiras, aos ataques desqualificados contra os adversários e ao dinheiro sujo desviado da Petrobras, Dilma enganou a população e agora não tem grandeza moral para olhar nos olhos dos brasileiros. Não se trata de esboçar um pífio “mea culpa” sem nenhuma convicção ou de jogar sobre os ombros do Congresso Nacional a responsabilidade por encontrar uma solução para o descalabro nas contas públicas – mas de reconhecer que se perderam as condições políticas e a credibilidade necessárias para governar.
Sob o comando de Dilma e do PT, a população continuará não se sentindo representada. Por mais que se construam muros de proteção, a presidente da República jamais estará a salvo dos protestos cada vez maiores e que pedem a intervenção constitucional do impeachment. Como se viu no Sete de Setembro, mesmo impedidas de assistir ao desfile, muitas pessoas mandaram seu recado por meio do já tradicional Lula inflável batizado de “Pixuleco”, desta vez acompanhado por um outro boneco que retratava Dilma com um nariz de Pinóquio – uma alusão provocativa às mentiras contumazes contadas pela presidente. 

A experiência histórica ensina que muros são bons quando derrubados, jamais quando construídos. Não é erguendo barreiras, afastando a população ou se encastelando no Palácio do Planalto que Dilma Rousseff conseguirá recuperar a credibilidade e a autoridade moral que se esvaíram em meio ao descalabro e à corrupção sem fim do lulopetismo. O Brasil acordou e está de pé para exigir outros caminhos. Somente um novo governo será capaz de derrubar os muros da vergonha e fazer ruir o castelo de cartas construído pelo PT nos últimos 13 anos.

O cafetão dos pobres


É incrível! Não bastou a Lula ser o mentor intelectual — santo Deus! como essas palavras não combinam associadas a esse ogro da ética! — de um modelo que quebrou a economia brasileira. Não bastou a Lula ter transformado em consumo e em cocô, em seu próprio país, uma janela de oportunidades que poderia ter sido, de fato, o passaporte de milhões para a uma vida melhor; não bastou a Lula ter feito de suas jumentices, em terras nativas, uma categoria de pensamento, com o anuência de setores do empresariado movidos ou por cupidez específica ou por burrice genérica. Ele quer levar adiante o seu legado. Agora ele sai dando conselhos energúmenos América Latina afora.

No Brasil, ninguém mais quer ouvir um dos principais beneficiários de sistema tão iluminado. Sim, o modo que Lula descobriu de governar criou o desenvolvimento sustentado e a riqueza de longuíssimo prazo para os Lula da Silva, por exemplo. Ele próprio, só em palestras, faturou R$ 27 milhões em quatro anos. Isso é que é crescimento de patrimônio sem precedentes! E notem que não me apego a informações não confirmadas sobre sinais exteriores de riqueza dele próprio e da família. Fico com o que está declarado. Por aqui, Lula é carta fora do baralho, é página virada, é morto que anda, é zumbi.


Mas, ora vejam!, o homem está participando ativamente da campanha eleitoral na Argentina. Empresta seu apoio a Daniel Scioli, o candidato de Cristina Kirchner à sua sucessão. Não por acaso, também a Beiçola de Buenos Aires empurra a economia de seu país para a inviabilidade, mobiliza milícias truculentas contra a imprensa, está atolada em escândalos, enriqueceu notavelmente no poder…

Fosse pouco, seu governo tem nas costas uma suspeita bastante verossímil de assassinato. Refiro-me, claro!, ao promotor Alberto Nisman, que investigava a participação do governo no esforço de esconder as evidências de que o Irã estava por trás do atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994, quando uma explosão deixou 85 mortos e provocou danos estruturais em outros 9 edifícios no bairro Once. Adiante.

Lula foi falar porcaria também no Paraguai. Durante um evento, nesta terça, naquele país, comemorando os 10 anos do programa Tekoporã, que distribui subsídios a 600 mil pessoas por meio de um cartão, afirmou que o combate à pobreza deve ter prioridade sobre os investimentos em infraestrutura. Jogou ao vento, entre outras teorias relinchantes, o que segue:

“É verdade que eu poderia fazer uma ponte, uma estrada, mas entre cuidar de 54 milhões de pessoas que estão passando fome e fazer uma estrada, a estrada pode esperar que essas pessoas comam, fiquem fortes e ajudem a construí-la. Se fizesse a estrada, essas pessoas morreriam de fome antes de vê-la terminada. É muito difícil encontrar alguém no setor de Fazenda ou Tesouro que esteja disposto a dar essa contribuição aos que estão abaixo. Não é uma política de esmola, de compensação, é um direito”.


Disse mais: “Antes de eu chegar à Presidência, os pobres eram tratados como se fossem problemas. E hoje eu digo que cuidar bem dos pobres é a solução para acabar com a miséria na nossa América do Sul”.

É uma soma formidável de mentira com estupidez. Em primeiro lugar, não havia 54 milhões de famintos no Brasil quando ele chegou à Presidência. A fome já era um problema residual — como é ainda hoje, nos grotões. Em segundo lugar, programas sociais do governo Fernando Henrique Cardozo, que Lula tomou para si, atendiam cinco milhões de famílias. Em terceiro lugar, o seu pensamento é a expressão do lixo intelectual que inviabiliza países mundo afora, conduzidos por esquerdistas ou populistas.

Não há contradição nenhuma entre investir em infraestrutura e combater a fome. Por que o Bolsa Família seria incompatível com um programa decente de concessões e privatizações na infraestrutura? Inferir que o aporte de recursos para esse setor serve apenas para enriquecer empresários e não tem efeitos sociais é de um cretinismo avassalador.

Em 2014, o Bolsa Família custou R$ 26,6 bilhões aos cofres públicos. Um ponto percentual de elevação de juros custa R$ 15 bilhões. Vejam a que altura o genial modelo de gastos públicos sem limite — sem pensar muito na infraestrutura, né, Lula? — levou a Selic no país. E não! Não foi para satisfazer a sanha dos banqueiros — não que eles fiquem infelizes, claro… Esse é o resultado das escolhas feitas pelo petismo.

Não há contradição entre investimento em infraestrutura e combate à pobreza. Até porque, vamos convir, não é mesmo?, o petrolão não foi criado em razão dos programas sociais levados adiante pelo petismo. O mesmo lulismo que expandiu o Bolsa Família foi ainda mais generoso com o Bolsa Empreiteiro, o Bolsa BNDES e, em algumas circunstâncias, o Bolsa Banqueiro.

Aí está, aliás, um dos enganos que se podem cometer sobre o PT, já escrevi centenas de vezes. Do socialismo, herdou as taras autoritárias e a tentação de se estabelecer como partido único. E só. No mais, usou o razoável controle que tinha, e tem, de movimentos sociais e a capacidade de seu demiurgo de se comunicar com as massas para regalar alguns potentados da economia nativa. Enquanto Lula distribuía Bolsa Família, ajudava alguns eleitos a arrecadar alguns bilhões em Banânia. O petismo é o escarro do populismo de extrema direita.

O PT só cobrava o valor da corretagem. O sistema de que Lula fala, no fim das contas, é aquele que faz de seu partido o cafetão dos pobres. Não por acaso, o país se transformou num bordel de bandoleiros que cobram e pagam propina.

Eis o modelo que Lula quer vender à América do Sul.
Reinaldo Azevedo

Assalto a mão armada


Tanto faz se estão usando gazua, pistola ou punhal. A verdade é que ao propor a elevação do imposto de renda das pessoas físicas, o ministro da Fazenda e sua quadrilha assumiram a condição de assaltantes. Porque o assalariado não tem como escapar do assalto. É descontado em folha ou perde-se no emaranhado de declarações que só os contadores entendem, esbulhado por um poder público que não retribui as contribuições com serviços e demais obrigações.

As empresas sempre encontrarão mecanismos para aliviar a agressão, descontando despesas particulares de seus diretores e utilizando artifícios que não raro fazem o patrão pagar menos do que o empregado. Automóveis, mansões, refeições, viagens e tudo o mais eles conseguem abater, mas quem vive de salário que se dane.

Junte-se a redução de direitos trabalhistas, a elevação do custo de vida, as demissões em massa e as incertezas de todo amanhecer para que se evidencie ter o governo acabado. Não dá mais para continuar. Poderá o cidadão comum, envolto por mil dificuldades, taxas e impostos, continuar emprestando apoio à incompetência dos governantes?

Como faltam três anos e quatro meses para o encerramento dessa farsa, outra saída não existe: o impeachment da presidente da República, símbolo maior das agruras que nos assolam. Fosse feita nova pesquisa, que aliás não demora, menos de sete por cento dos consultados optariam pela permanência de Madame e seu governo. Apesar da conturbação a ser causada pelo trauma, melhor assim do que assistir as instituições postas em frangalhos.

Quanto à recuperação, fica a dúvida: quem, organização, movimento ou partido, se disporia a enfrentar o desafio? “Todo o poder ao Judiciário!” virou coisa do passado. “Militares, nunca mais!” tornou-se imperativo categórico. “Tudo pelo social” não deu certo. Muito menos copiar o “New Deal” dos americanos ou aguardar um inviável “Plano Marshall”. Do fundo do poço, o anseio é por luz e calor.

Deveria a presidente Dilma ter presente a lição que Diógenes um dia passou em Alexandre. Oferecendo o que ele quisesse em matéria de riqueza, joias e poder, postado na frente do barril onde o filósofo morava, ouviu o futuro dominador do mundo: “Majestade, não me tires o que não me poder dar”. É que Alexandre se postara entre Diógenes e o sol…

Afinal, o vice Michel Temer apoia ou não o aumento de impostos? Para os líderes do PMDB, jura que não. Diante da presidente Dilma e de seus ministros, aceita proposta…

A crise

Uma casa dividida contra si mesma não subsiste
Abraham Lincoln, 16 de junho de 1858


Concordo que a atual crise é a mais grave que já tivemos. E vou além ao afirmar que o Brasil, por sua cultura e estrutura política, não está preparado para administrar uma crise dessas proporções. Isso porque para enfrentá-la e resolvê-la seria necessário construir uma resposta sistêmica que unificasse os principais atores políticos num projeto de ação dotado de lucidez, vontade política e audácia.

Houve uma grande oportunidade de preparar o Brasil para enfrentar o enorme desafio que se anunciava: a eleição presidencial de 2014. Mas o PT não podia perdê-la, pois precisava de mais um mandato para completar seu domínio e controle sobre o sistema político. Em seus três mandatos o PT teve condições legais e recursos para iniciar e dar curso à implantação do seu projeto de poder, mas não teve tempo para concluí-lo.

Enquanto era um partido pequeno, que se auto-exilava politicamente pelo radicalismo, as crises eram resolvidas por negociações entre os partidos tradicionais. Diante da crise, a resposta era o “pacote” e o apelo à união nacional, um guarda-chuva conceitual aceito por todos e que a todos retribuía. Assim foi com o Plano Cruzado, com o governo Itamar e, em 1994, com o Plano Real. Totalmente diferente é a situação atual.

Enquanto esteve fora do poder o problema político típico desta crise não se apresentava nem para ele nem para o País. Com o PT no poder essa união nacional se tornou muito difícil. Ela é importante para os empresários e partidos tradicionais. Não tem a mesma importância para o PT.

Com a crise o PT perdeu o rumo: não pode mais praticar a única forma de governar que conhece e aceita e é forçado a engolir um remédio amargo, na menor porção que lhe for possível, sem deixar de lembrar ao povo que assim que a situação melhorar voltará a fazer mais do mesmo.

Conquistou o poder, na eleição de 2002, quando e porque Lula promoveu o encontro da esquerda com o marketing político e tranquilizou o eleitorado com a Carta aos Brasileiros. Só agora, passados 13 anos, está sendo cobrada do PT a promissória que Lula entregou em 2002. A Carta era uma forma de abrir a porta do sistema político para o PT, não uma “tocante” conversão ao mercado, à globalização pós-socialista e à democracia representativa, como muitos entenderam.


Logo após a eleição de 2014 as nuvens de tempestade começaram a se juntar. À crise moral – de dimensão até então insuspeitada – somaram-se a crise resultante do descontrole econômico, a crise política, a crise nas relações sociais e a decorrente do grau de desconfiança na solidez das instituições e na racionalidade das decisões. Ao agregar tantas dimensões, a crise aumentou incrivelmente o número e a diversidade dos seus protagonistas (players) e a gravidade dos problemas e desafios a resolver.

O PT está imobilizado diante da crise porque a solução que se propõe para ela colide com seu projeto político, é radicalmente diferente dos projetos de PMDB e PSDB, por implicar mudanças substanciais e radicais no sistema político – na Constituição, nas relações sociais, econômicas e políticas do País.

Esse projeto se propõe a emascular a democracia representativa, fragilizando-a com organizações com funções representativas, aparelhadas e politicamente alinhadas ao governo e ao partido (projeto de decreto presidencial 8.243/14); a controlar os veículos de comunicação social (projeto de regulamentação das comunicações); a fazer alterações constitucionais como reeleições sucessivas; a regulamentar espaços privados dos cidadãos com imposição de valores, interferência nas funções da família e controle político da educação; criar o financiamento público exclusivo das eleições.

Que o plano político do PT segue essas linhas atestam os projetos com que mais se identifica. Nenhum deles, entretanto, poderá ser desenvolvido sem o controle do Estado. Não será recuperando a economia nos marcos do capitalismo e pelas regras do mercado que esses objetivos serão atingidos.


O próprio comportamento não comprometido da presidente com as medidas ortodoxas necessárias; sua evidente má vontade com o ministro da Fazenda; sua pressa em reafirmar que a crise não passa de dificuldade passageira; sua absoluta negativa em cortar despesas públicas; sua insistência em acenar não para o aperto, e sim para a retomada do crescimento (sic) e dos projetos sociais indica claramente que o projeto de poder não foi engavetado.

Apesar dos índices recordes de rejeição, o governo ainda tem fichas para permanecer na mesa de jogo. Se até agora não pôde recuperar as condições que teve e perdeu, consegue ao menos usar seu “poder de veto” e a caneta das nomeações para conquistar apoios, bloquear jogadas adversárias, interferir no timing do processo, ao mesmo tempo que resiste furiosamente a reduzir despesas.

A crise econômica não leva o PT a repensar criticamente seu modelo e a crise venezuelana, como horizonte possível, ao que tudo indica, não o assusta. O que está em jogo é um conflito político que o PT evita revelar: a disputa entre uma política nos marcos da Constituição e dos avanços econômicos obtidos na gestão do presidente FHC e uma política de natureza socializante, pós-URSS, nos moldes do que ocorre em vários países da América Latina.
Não há, pois, entre o PT e a classe política dos partidos tradicionais um valor compartilhado e de maior hierarquia que pudesse estabelecer a base para um acordo de alto nível ante a crise. Quando se expurgam as ingenuidades e ilusões, o que há são duas visões de País e da crise que se excluem mutuamente.

Por essas razões acredito que a crise é maior do que a capacidade de nosso sistema político instável resolvê-la satisfatória e tempestivamente. Entre a pressão das ruas e o salve-se quem puder da classe política, não encontraremos o caminho para sair bem dessa crise.


Francisco Ferraz

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

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Corrupção: crime de alta traição

Há uma crença generalizada na América segundo a qual a gripe, a varíola e a corrupção chegaram junto com as grandes descobertas.

Gerações e gerações de americanos têm convivido com a corrupção como quem vive diariamente com o cumprimento das funções orgânicas do corpo humano. Pois ser poderoso e corrupto tem sido quase tão inevitável quanto comer e respirar.

A corrupção faz parte do decálogo das promessas de dois séculos.


Enquanto corria atrás da democracia, a América não conseguia encontrar tempo a não ser para lamentar, abstratamente, o quanto a corrupção fazia parte de sua existência.

Otto Pérez Molina, ex-presidente da Guatemala, experimentou aquilo que muitos devem ter sentido durante as grandes turbulências da época do Terror, quando se dormia em um palácio e se acordava em uma cela.

E, se foi assim, é porque a corrupção deixou de ser um mal inevitável. Assim como deixou de ser uma parte das necessidades orgânicas dos políticos, para se transformar em um crime de alta traição que afeta igualmente a todos os cidadãos. No México, as crianças cresceram aprendendo que “quem não engana, não avança”.

E na Espanha, todos os casos de corrupção envolvendo os catalães do Governo de Convergência Democrática, além dos do PSOE e do PP no restante do país, lançando contra as cordas aquilo que foi, em seu tempo, um processo bem-sucedido de transformação política, constituem, agora, sinais inequívocos de uma doença social, a mesma que neste momento sofre, na América, uma curiosa transformação.

Antes, a corrupção era um problema isolado, quando alguém se aproveitava de seu poder cometendo abusos, roubando, apropriando-se e enfiando no próprio bolso o que não era seu, prejudicando, dessa forma, toda a população.

Hoje, porém, é causa direta, não apenas da perda do vigor moral de um país, mas também da má qualidade da construção de estradas, das mortes por causa de medicamentos vencidos, do ensino ruim nas escolas e da incapacidade de romper com o círculo vicioso da pobreza estrutural.

No Brasil, a corrupção já não é mais um crime individual. Constitui, efetivamente, um golpe de Estado contra a moral e os princípios da população brasileira.

O mais surpreendente, hoje, porém, é o efeito contagioso da punição indiscriminada que se exige que seja aplicada contra os corruptos.

Pois, agora, a corrupção se tornou a questão maior para milhões de pessoas que nunca saíram da pobreza extrema. Agora, ela é vista nos pilares que sepultaram milhares de cidadãos no terremoto de 1985 no México. E está presente, também, no sentimento de saturação de um povo que vive sob uma democracia formal na qual vigora muita injustiça e onde é muito limitada a vontade real de superar as disparidades sociais.

Esse salto qualitativo, que estabelece uma diferença entre a corrupção para os corruptos e a corrupção como um crime de alta traição, é um fenômeno relativamente novo.

O problema mais grave é que a luta contra a corrupção na América Latina não chega a ser exatamente uma primavera árabe. E que, agora, a América, tão frágil institucionalmente, depende do poder judiciário, o qual, em que pese o conjunto de citações universitárias a Montesquieu, esteve sempre a serviço do primeiro poder. Ou seja: os magistrados recebem as esmolas que lhes são dadas pelos parlamentares a serviço do poder Executivo.

Por essa razão, o grande perigo, agora, reside em que, uma vez iniciado o resgate moral, se ignore que não se trata apenas de um problema de punição, mas também de estrutura legal, e não se assegure que aquilo que hoje derruba presidentes, acalenta esperanças e anuncia primaveras não se torne futuramente a melhor maneira de voltar a povoar as Américas com novos pinochets.

Dilma é o bode: ruim sem ela, pior com ela

Charge O Tempo 09/09Adaptada aos primórdios da União Soviética, a fábula do bode na sala tem tudo que ver com nossa atualidade: incomodados com o excesso de pessoas num apartamento coletivo, seus moradores se queixaram a um comissário do povo, que os aconselhou a pôr um bode em casa. Uma semana depois voltou ao local e, ao retirar o bode, melhorou a situação, que, é claro, tinha piorado muito.

Esta terra do samba, do frevo e do futebol tornou-se pátria do incômodo de 1 milhão de desempregados, previsto para 2015. E, talvez, ainda viverá funestas consequências nos próximos “meses” (apud Joaquim Levy), com mais empresas falindo e menos serviços funcionando, sob a égide de uma destrambelhada que assiste, aparentemente impávida, à degeneração econômica, política, social e, sobretudo, moral deste “país do pixuleco”. Neste, bandidos são bajulados como heróis que empregam trabalhadores e guerreiam pelo povo e vilões são apenas seus ex-sócios que colaboram com a Justiça ao denunciá-los.

Neste atual descalabro, uma nobreza nada nobre se protege atrás de um vergonhoso muro da ira da plebe espoliada.

Antigamente a corrupção era um empreendimento pessoal e assim foi até chegarmos a este século 21, quando virou projeto sistêmico partidário de poder para enriquecer uma súcia que se pretende monopolista de todas as virtudes e benesses.

Protegida por placas de metal na festa da Independência, que deveria ser de todos, a capitã da nave à deriva pratica o voo da barata tonta, que não é aleatório, como querem fazer crer sócios e cúmplices, mas método de embromation. A “gerenta”, posta no poder pelo padim, joga contra o bolso esvaziado do pobre, que finge representar, cartadas de um pôquer funesto. No ano passado conseguiu da base genuflexa no Congresso autorização para burlar a lei, ao não cumprir a obrigação precípua e intransferível de produzir saldo nas contas públicas. Ainda assim, recorreu a “pedaladas”, atropelando de novo a mesma lei para fechar balanço mentiroso.

Neste ano recorreu a um providencial ministro neoliberal para tranquilizar seus clientes com banco. Este chegou prometendo a volta do superávit primário para, em seguida, mandar para o Legislativo um Orçamento deficitário. A obrigação de só gastar o que é capaz de arrecadar não é apenas a pedra de toque da Lei de Responsabilidade Fiscal, mas também a regra fundamental de qualquer gestão que se preze, no lar ou na República. Só que a corrupção sistêmica aparelhou e emparedou Poderes e instituições em postos-chave, capazes de sustentar o insustentável peso de um Estado estroina e de uma casta cujas máculas fazem apodrecer nossa democracia, para gáudio do bando que continua no comando.

Será esta democracia apenas um jogo de poder sem regras do voto conquistado com dinheiro desviado do bolso do próprio cidadão enganado? Voto nem sempre bem contado...

Edinho Silva, tesoureiro da campanha da “presidenta” reeleita, é acusado pelo empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, de tê-lo ameaçado de suspender seus contratos privilegiados com sobrepreço em estatais se não doasse para cobrir despesas da reeleição de Dilma. Licitação viciada e lavagem de propina pela Justiça Eleitoral são crimes graves e, no caso, sobrepostos. “Eu segui as orientações da presidenta Dilma, ou seja, conversei com empresários brasileiros seguindo os princípios éticos e morais”, ele garantiu. Se for verdade, por que ela não o afasta até provar que o colaborador (antes da campanha e agora da Justiça) mentiu ao juiz e é, então, mentalmente incapaz, única condição para explicar atitude de quem agrava a própria pena?

A mesma testemunha privilegiada acusou dois varões do Senado de crimes semelhantes: o chefe da Casa Civil da reeleita, Aloizio Oliva, e o candidato derrotado a vice pelo principal partido da oposição, Aloysio Ferreira. Ambos garantem que as doações foram legais.

Mas o mantra petista não ganha foros de verdade por ser repetido pelo PSDB. A doação somente é legítima se sua origem for limpa. Cabe aos agentes da Operação Lava Jato provar se é ou não. Se não for, Pessoa terá as penas agravadas e Suas Excelências, a reputação recuperada. Até se esclarecer isso, porém, eles teriam de se licenciar de seus cargos para não atrapalharem as investigações – dois usando poder de governo e o terceiro dificultando a oposição a se opor.


Mas os tucanos ficam de bico fechado. E madame “gerenta” permite que seu anspeçada solape o que ainda resta ao próprio governo do mínimo de credibilidade com lances geniais no xadrez político, tais como o que provocou a ida de Eduardo Cunha para as hostes inimigas e o abandono da coordenação política pelo vice, Michel Temer. Isso sem falar nos roques que ela empreendeu ao aceitar o superávit primário; tentar ressuscitar imposto renegado em época de presidente popular (Lula) e maioria de fato; encaminhar Orçamento deficitário e, portanto, irregular para o Congresso; anunciar que mandaria suplemento equilibrando as contas; e cobrar pela “travessia” (sem Moisés).

Com a oposição sem rumo nem projeto, não é de prever bonança para o Brasil, ainda que dona Dilma venha a ser deposta. Mas também não é difícil verificar que, ao apostar na fábula do bode com que o comissário do povo driblou os incomodados, a “presidenta” de Edinho e Oliva não faz o papel que se atribui de malandrinha que indica a solução errada para vender o falso alívio da retirada do bode malcheiroso, barulhento e bagunceiro da sala da “minha casa, minha vida”. Ela, ao contrário, é o bode propriamente dito. Ou seja: se pode vir a ser ruim sem Dilma, pior será que ela continue protegendo seus suspeitos do peito. E nos dando a certeza, que se confirma a cada dia, de que ou é incapaz de sentir o fedor que lhe entra pelas narinas ou é cúmplice de quem produz todo esse material orgânico que torna insuportável a vida de seus desditados condôminos.

No lombo do Brasil

Acomodo-me no vagão nem luxuoso nem simples do trem que me levará do interior de Minas a Florianópolis ou, via Pantanal, de Quixeramobim ao último povoado ocidental do extremo sul. Mas não existe essa possibilidade. Poderia existir, não fosse a falsa modernidade à qual nos agarramos ao longo do século XX e que sepultou os trens, sem que ninguém soubesse ou saiba quem garfou os trilhos.


Estou bem instalado no trem inexistente, e de sua janela num instante passo a contemplar o sertão árido, o resto de mata atlântica, o cerrado. (O Pantanal, preso num poema de Manuel de Barros, não pode ser mais visto, apenas lido, mas lemos pouco.) E sobe montanha e desce montanha. E margeia rio e se afasta de rio. Café com pão, café com pão. Bandeira, sedento de Brasil, invade o vagão e me sequestra.

No Brasil ninguém diz “eu digo”, ninguém diz “eu roubo”. (Tampouco eu.) Aqui, a esquerda benze meia dúzia de empresários: mais-valia pura pra quê se cinco letras em forma de banco abastecem os ungidos com dinheiro barato e pedalado? Aqui, a direita tem nostalgia da palmatória, mas investe mesmo é em arma pesada e sonha com um sistema prisional lucrativo: menino preso é capital sadio e, por isso,bom reprodutor.

O trem parece andar fora dos trilhos. Virge Maria, que foi isso, maquinista? Nada de susto, ele avisa pelo sistema de alto-falante, estamos apenas passando por cima de um rol de Adílios. No trem da Central,continua em tom muito formal, a operação de passar sobre o corpo de Adílio Cabral dos Santos ocorreu por necessidade: Quem seria o doido de tumultuar a vida daquele que precisa chegar ao trabalho na hora? Apesar do improviso, a profanação foi um ato de humanismo, ápice da consciência coletiva. Agora, —a voz soa bonita e cheia de si — produzimos Adílios em prostíbolatórios de última geração e os jogamos já mortos sobre os dormentes. O trem que conseguir esbarrar no menor número deles ganha um prêmio. Qual? Dizer que foi ideia do outro. No Brasil gostamos de apontar o dedo e dizer “foi ele”, “foi ela”. Precavidos, não afirmamos coisa alguma defronte do espelho. Quanta sabedoria a desse homem!

O trem-bala já contornou o Chuí e, não tarda muito, desceremos em Manaus para, de acordo com o cardápio, comer carne de índio tucunaré. Sou repreendido pelo vizinho de assento: Não seja inocente, o índio é haitiano ou guianense, ninguém sabe ao certo. E não vem ao caso. Nunca vem ao caso, e ninguém jamais sabe ao certo. O tempero vai ser nativo, corre de boca em boca, para dar sabor à nossa eterna vingança pelo que fizeram ao bispo Sardinha.

Há pela frente o Pico da Neblina. O trem não está preparado para tamanha escalada, mas uma voz prática convoca homens de fome eterna para empurrá-lo até o cume. Lembro-me de Fitzcarraldo, o lunático filmado por Herzog, cineasta idealista que fez subir um navio pela montanha, uma linda imagem à custa da vida de outros famintos nativos dessas mesmas bandas amazônicas. Agora, são índios e negros — outra vez escravos, se é que algum dia deixaram de sê-lo — os que, tropeçando em Adílios, cumprem a missão. Ninguém poderia imaginar que ainda houvesse relho, chibata e cipó de aroeira, mas eles estão lá, troando no lombo de quem nunca mandou dar —tamanha violência cujo efeito colateral inesperado é deixar cada um de nós nu e, com isso, nu e transparente o próprio Brasil. Um rápido olhar para os lados é suficiente para se perguntar: onde foi parar a África nos machos, a Europa nas fêmeas? Quem lavou nossa miscigenação com água oxigenada e óleo de peroba?

Para cruzar o pico e depois descer, o governo empenhou no orçamento do ano que não vem dinheiro insuficiente e desnecessário, diz uma voz que não é a do maquinista, sabe-se lá se de um Adílio, de um Herzog, de um Deus dessas tantas butiques da fé espalhadas pelo Brasil. Outra frase brota no ar: No alto do morro, passa boi, passa boiada, só não passa solução já pronta para tormenta encomendada. Quem diz é ele, o do lado ou aquele mais adiante, mas, segundo ele, fui eu quem disse.

Em terras tropicais, odiamos o outro.

Sete de Setembro à moda neopetista

As cenas que vi, com cercas e tapumes metálicos, faziam lembrar um campo de concentração, onde as autoridades se protegiam no lado de dentro e a população era mantida no lado de fora. Foi um Dia da Pátria em estilo neopetista. Com efeito, durante décadas, o Partido dos Trabalhadores vendeu-se como um partido popular e diferente dos tradicionais. Pé no barro e cheiro de povo.Você lembra? Pois é, acabou.

7 de setembro

Não preciso descrever, aqui, a vertiginosa ascensão social das lideranças do partido. Quanto mais habilmente escalavam o pau de sebo da prosperidade, mais tênue se tornava a relação do partido com a sociedade. E à medida que se faziam conhecidas as escabrosas formas de subvenção dos interesses partidários e pessoais do grupo governante e seus associados, firmou-se a convicção de que o PT era um partido diferente. Diferente demais.

Se formos pesquisar além dos equívocos ideológicos, dos usos e abusos do populismo e do patrimonialismo, das más companhias; se deixarmos de lado o péssimo recrutamento dos próprios quadros entre setores corrompidos do sindicalismo; se esquecermos o deslavado aparelhamento das instituições de Estado e da administração pública, veremos um partido que se afogou em banheira de champanhe. Sim, o borbulhante PT dos anos dourados, até a segunda metade do governo Lula, acreditou que as vacas seriam sempre gordas, os ventos favoráveis e o povo sempre parvo. Creu, o partido do senhor Lula, que a China cresceria eternamente, que o petróleo jamais perderia preço, que a política era um grande negócio. E vice-versa. Convenceram-se, nossos governantes, de que o país enriquecera e de que para acabar com a pobreza bastava, então, distribuir dinheiro aos pobres. Ora, nem o mais piedoso pároco acredita nisso. Após 13 anos de governo, o PT nada fez do que prometera. Encheu a banheira de champanhe e afundou na miserável abundância dos anos de esbanjamento.

Surgiu, assim, a governança em estilo neopetista. É uma governança que se esconde, que não sai às ruas. Lula importou ao custo de R$ 28 bilhões o brinquedinho da Copa de 2014. E não compareceu a um único jogo porque não quis se expor ao que aconteceu com Dilma. É uma governança que cumpre a solenidade do Sete de Setembro por dever de ofício, de cara amarrada, que se oculta do povo, dos fatos, das notícias. O estilo neopetista não dá entrevista, não fala à nação, se reúne nos porões e confabula. Dá a vida por um grande acordo que o sustente. É uma governança que, embora se esconda, cedo ou tarde acaba encontrada pelos oficiais de justiça.
Percival Puggina

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  1. Por que num país com tanta miséria, onde os salários são tão baixos, empresas encontram meios de doar bilhões a políticos e a partidos?
Joaquim Barbosa, ex-ministro presidente do Supremo Tribunal Federal

Povo bate panela e o governo bate cabeça

O tempo passa, o tempo voa, mas o governo não consegue se entender, tenta ir em frente sem o menor planejamento, num amadorismo brutal e perigoso. O país tem muitos problemas, mas o principal, do qual os demais derivam, é a dívida pública. Portanto, todos os esforços precisam estar voltados nesta direção, e a evolução da dívida depende diretamente de dois fatores – o superávit primário e a taxa de juros, que se tornaram os dois pontos mais fracos de um governo por si só fraquíssimo.

Já se passou mais de meio ano, estamos em meados de setembro, e a incompetência segue reinando absoluta, enquanto os ponteiros da bomba-relógio da dívida giram cada vez mais rapidamente.


Hoje, precisamos entender que ainda estamos numa boa, vamos sentir saudades desses dias de 2015, porque gráfico da projeção de nossa economia indica um viés de baixa tão sinistro que chega a ser o cúmulo do otimismo dizer que a crise será resolvida até 2018. Para que isso aconteça, seria preciso tomar medidas imediatas, mas isso o governo não sabe nem consegue fazer. Vai empurrando com a barriga.

Qualquer pessoa medianamente instruída nota que a presidente Dilma não sabe administrar nem conhece nada de Economia, embora se jactasse de um “doutorado” em Campinas que jamais existiu, pois nem mestrado fez. Sua dificuldade em desenvolver raciocínios exige rigoroso tratamento médico e psicológico, mas ela não se submete a terapia, prefere fazer dieta e pedalar.

O que causa surpresa é o fracasso completo de Aloizio Mercadante, que funciona no Planalto como uma espécie de Rasputin em nova versão. Economista de renome, embora seu doutorado tenha sido bastante controverso, ostenta um belo currículo e chegou a trabalhar com Henrique Meirelles no Banco de Boston. Aliás, foi Mercadante quem apresentou Lula e Meirelles, para assumir o Banco Central e acalmar o mercado.

Antes disso, tinha sido um deputado muito atuante, com belos discursos contra a política econômica de FHC. Em 2002, elegeu-se ao Senado e foi líder do Governo no primeiro mandato de Lula, que não lhe ofereceu lugar no ministério.

Mas esse excelente currículo de Mercadante não serviu para nada. Como homem-forte do governo, revela um despreparo só comparável à incompetência da própria Dilma, com a qual ele forma uma dupla do tipo Debi e Lóide, que está levando o Brasil à loucura.

Nesta terça-feira, após mais uma reunião da coordenação política do governo, o ministro Ricardo Berzoini (Comunicações) foi o porta-voz e disse que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, serão “absolutamente preservados”, mas aqueles com investimentos físicos, como educação, saúde e habitação (Minha Casa, Minha Vida), terão que passar por um realinhamento.

Ficou patente que o governo não sabe o que cortar, porque ao mesmo tempo o ministro da Fazenda Joaquim Levy dizia que poderia aumentar o Imposto de Renda e o vice-presidente Michel Temer falava em elevar a CIDE (contribuição sobre combustíveis), possibilidade também aventada por Levy.

Quanto a cortar os cargos comissionados, os cartões corporativos, o Fundo Partidário, o festival das ONGs e outras despesas injustificáveis, nem pensar.

Tradução simultânea: o povo fica batendo panelas, enquanto o governo bate cabeças.

'Unidos e coesos'

Na época do regime militar, tornaram-se famosas as notas oficiais das Forças Armadas alardeando que estavam “unidas e coesas” em torno dos ideais revolucionários. O pau cantava nos quartéis onde militares da linha dura e distensionistas se digladiavam para definir se endureciam mais ainda o regime ou se faziam um mínimo de abertura.

Para o consumo externo, oficiais de alta patente vendiam a imagem da união de propósitos. Diziam que as notícias de forte luta interna nos meios castrenses não passavam de fofocas e de intrigas insufladas pela subversão e por uma imprensa maledicente, interessadas em promover a cizânia no seio das gloriosas Forças Armadas.

Em um país de imprensa amordaçada, era essencial saber interpretar as entrelinhas dos comunicados militares, não deixar se iludir. Nas fotos do 7 de Setembro os três ministros militares apareciam no mesmo palanque para dar uma demonstração de sua unidade e patriotismo.

Neste 7 de Setembro a presidente da República e seu vice estiveram no mesmo palanque em Brasília para demonstrar o quanto estão “unidos e coesos”. Michel Temer foi mais longe: divulgou uma nota oficial para vociferar contra as “intrigas” e dar uma resposta dura a quem lhe chamou de golpista, acusando-o de conspirar contra Dilma Rousseff.

De novo, é preciso não se iludir pela foto meramente protocolar. E saber interpretar o texto de Temer. Sua afirmação de que trabalhará com Dilma até que 2018 os separe poderia ser entendida como tautológica. Mas não é. Ela é a própria confissão do fosso que há entre a presidente e o seu vice, a cada dia mais profundo.

Não se trata de atribuir incursões conspiratórias a ninguém. Mas é inegável que vivemos uma situação esdrúxula, para dizer o mínimo.

De um lado, temos uma presidente extremamente enfraquecida, quase clandestina, separada do povo por muralhas, até de metais como se viu no feriado; com uma base balcanizada e uma equipe ministerial semelhante à Torre de Babel. Cada ministro fala a própria língua e ninguém se entende.

De outro, nunca vimos um vice-presidente tão proativo, operando à revelia e com autonomia de sua superior hierárquica. Quanto mais Dilma se enfraquece, mais Michel Temer opera no limite da liturgia do seu cargo, apresentando-se como porta-voz do empresariado, como o avalista da estabilidade e da institucionalidade.

Ao mesmo tempo, Temer é semi-governista e semi-oposicionista, ainda que de uma oposição leal à sua majestade.

O vice-presidente ofusca a primeira mandatária. Constrói uma imagem antagônica à de Dilma. Está sempre na mídia de forma positiva, como o ponderado, como o construtor de pontes, com vistas a se viabilizar como polo aglutinador de um novo bloco de poder, para o pós-Dilma.

Já a presidente é aquela reclusa contraditória. Não pode, sequer, falar em rede nacional de TV, sob pena de ser alvo de imenso panelaço. E quando aparece na mídia é de forma negativa, tendo de praticar contorcionismos para explicar os ziguezagues de seu governo e o “pega pra capar” de sua equipe econômica.

Para desgraça de Dilma, seu vice é muito mais articulado do que boa parte dos políticos que a cercam. Em certo sentido, expressa a média do PMDB, essa espécie frente de caciques regionais. Tem ainda a simpatia das chamadas forças produtivas, particularmente da indústria paulista. Sabe fazer política, essa arte que não foi feita para amadores.

Pode ser o fator de desequilíbrio do jogo. É isto que a presidente mais teme, sem nenhum trocadilho com o nome do vice. Daí aceitar bailar com Michel Temer.

Nessa dança, ela engole sapo e ele estica a corda o máximo possível. Um finge que apoia o governo e a outra finge que acredita. O minueto caboclo tem tudo para acabar em divórcio, apesar das juras do casal de que estão unidos e coesos.

Alimentando a fogueira com gasolina

Vale pegar carona com o Tiririca e concluir que a presidente Dilma, quanto mais se explica, pior fica. Foi lamentável sua mais recente intervenção, fugindo da televisão e apelando para as redes sociais, dia 7. Disse ser possível que tenha cometido erros na condução da economia, mas errou para preservar empregos. Acrescentou não ter percebido que a situação era tão ruim como se descreveu.

Madame deixou de perceber por falta de observação ou, como parece mais provável, errou para garantir a reeleição? Agora, apela para a redução de direitos trabalhistas, retira benefícios que não deveria ter concedido ao empresariado e anuncia aumento de impostos. Resultado: desemprego em massa e elevação do custo de vida. Tudo ao contrário.

A gente fica pensando no dia seguinte, que sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. A recessão é um fato, a inflação também. Enquanto isso, continuamos sem um projeto estratégico. Como ao PT também falta uma visão nacional, a principal colaboração do partido é pedir a cabeça do ministro da Fazenda. Para convocar quem? Aloísio Mercadante, com certeza.

Com atraso de alguns anos, no fim do mês a presidente vai enxugar o ministério. Mas continuará privilegiando os partidos, aceitando indicações fisiológicas e ministros sem competência. Alimentar a fogueira com gasolina virou moda.

No País das Maravilhas

Alice ─ Poderia me dizer, por favor, onde está a saída?
─ Isso depende muito de para onde quer ir ─ responde o Gato de Cheshire.
Alice ─ Para mim, acho que tanto faz… – disse a menina.
─ Nesse caso, qualquer caminho serve ─ afirmou o Gato.
Lewis Carrol