terça-feira, 28 de julho de 2015

É pecado falar de felicidade hoje no Brasil?

A história de Vitória, a cadelinha de rua que tem uma conversa divertida com as águas do mar
Vitória, na praia. / J. A.
Vitória não é uma personagem inventada. Existe. É jovem, mora na rua e tem pelagem branca e marrom. Vejo-a todo dia conversando e brincando com as ondas do mar numa praia vazia no início da manhã. Observando-a, eu me pergunto se ainda há espaço no Brasil para a felicidade.

Vejo a cachorrinha como o velho emblema deste país com vocação, capaz de buscar espaços de sossego e liberdade apesar das crises que o afligem.

Corre como um galgo a uma velocidade quase irreal. E o faz na beira da água. Percorre, indo e vindo, quilômetros de praia.

Batizei-a de Vitória porque já é vencedora por não ter medo da felicidade. Conversa com as ondas que morrem na orla. Parece provocá-las. Entra no mar o bastante para sentir a água beijando suas patas, mas não se arrisca com as ondas grandes.

Brinca e dialoga com essa água limpa do Atlântico, misturando seus latidos jovens e agudos com o som das ondas que se apagam.

Antes de sair, eu acabava de folhear meia dúzia de jornais e fui à praia levando este rosário cotidiano de índices negativos, de anúncios e presságios de mais crises e mais detenções de empresários e políticos corruptos e dos perigos institucionais que se abatem sobre o Brasil.

De vez em quando, após suas corridas de beira-mar, Vitória se aproxima de mim ou de outro corredor solitário e nos olha com seus olhos molhados de areia, como se quisesse compartilhar sua felicidade. Em seguida, volta a correr até a beira do mar.

Ofende este grande país quem insiste em vê-lo como geneticamente mais violento que outros

Talvez seja o contraste da tristeza que me invade a cada manhã com o boletim do estado de saúde econômica, política e moral do Brasil doente que me faz contemplar, como uma terapia, a alegria plena da Vitória, que já amanhece feliz ao saber que na praia, sob o Sol, alheia às nuvens pesadas que pairam sobre a sociedade, a esperam suas amigas ondas.

Chega sempre antes de mim. Me cumprimenta por uns segundos e sai em disparada para o seu encontro. Às vezes, eletrizada de felicidade, traça circos e figuras com suas patas na areia que ninguém ainda pisou.

Durante o dia, enquanto mergulho nas notícias que são a alma do meu trabalho de jornalista, quando a tristeza me aperta vendo este país que amo crispado, desenganado e perplexo com os desmandos dos que deveriam velar por sua prosperidade, a lembrança da cachorrinha de rua, feliz com tão pouco, sempre alegre, e que não sei onde come nem dorme, desperta minha esperança.

A violência deste país, onde, é verdade, mata-se mais que em quase todos os outros lugares do mundo, é institucional

É verdade que nada é tão ruim que não possa piorar, mas também é certo que é possível sair até das piores crises. Nada é eterno, nem sequer a dor.

Contemplo toda manhã minha cachorrinha de rua que joga e se diverte com as ondas do mar como a expressão do Brasil, cuja vocação, como a da maioria dos latino-americanos, é a festa.

Ofende este grande país quem insiste em vê-lo como geneticamente mais violento que outros. Não é. Foi objeto de violência desde que aqui chegaram os primeiros conquistadores. Um deles escreveu em 1547 que os indígenas, donos essas terras, “surgiam a partir da decomposição de matéria morta, como as minhocas e os fungos” (Brasil: Uma Biografia, Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, Companhia das Letras, página 29). Por isso, podiam ser escravizados e exterminados sem arrependimentos excessivos.

O ódio que alguns políticos atribuem hoje à sociedade brasileira também não pertence à sua genética. A violência deste país, onde, é verdade, mata-se mais que em quase todos os outros lugares do mundo (sobretudo negros, pobres, jovens e analfabetos), é institucional. É gerada pelas feridas da desigualdade herdada da escravidão e da voracidade de certos políticos que repetem a dura imagem evangélica de “lobos em pele de cordeiro”.

Nesta manhã voltei à praia. E, pela primeira vez, Vitória não estava. A areia parecia triste e escurecida sem a sua alegria.

Tomara que volte a aparecer amanhã com o presságio de que o Brasil saberá sair vitorioso do túnel de sua atual desilusão.

Num continente como o latino-americano, castigado por abusos e tentações autoritárias, com as instituições democráticas muitas vezes em perigo, o Brasil conseguiu até agora que a política não degenere em tirania. Não é pouco, mas até quando?

Um amigo que leu esta coluna antes de ser enviada ao jornal me pergunta: “Mas como você se atreve a falar de felicidade no ambiente de pessimismo e confronto verbal vivido pelo país?”

É que prefiro ver o Brasil mais como a Vitória, a doce e brincalhona cadela de rua, feliz com pouco, do que como os derrotistas tristes e acomodados.

Quando cheguei aqui, há 15 anos, fiz minha primeira entrevista com a atriz Fernanda Montenegro. Ainda recordo uma de suas recomendações: “Se quiser entender o Brasil, lembre-se de que a diferença entre nós e vocês, europeus, é que nós não temos vergonha de dizer que somos felizes, e vocês sim.”

Não esqueci. E meu medo hoje é que o clima de desencanto criado pela crise política e econômica possa desmentir a grande atriz, se o país perder a esperança de continuar sonhando.

Tomara que amanhã encontre a Vitória brincando com as ondas. Ela ainda não sabe que o Brasil está triste.

Vem pra rua

A 'estagiária'


É preciso acabar de uma vez por todas com a lenda segundo a qual a presidente Dilma Rousseff enfrenta imensas dificuldades políticas porque não é afeita ao varejo das negociações com o Congresso e porque ela tampouco se anima a se expor aos eleitores em busca de popularidade. O desastre de sua presidência não resulta dessas características, e sim de sua incontestável incapacidade de diagnosticar os problemas do País e de ministrar-lhes os remédios adequados. A esta altura, a maioria absoluta dos brasileiros, de todas as classes sociais, já se deu conta de que o problema de Dilma não é sua reclusão ou sua ojeriza aos políticos, mas simplesmente sua incompetência. Prometeram-lhes uma “gerentona” e lhes entregaram uma estagiária
Estadão editorial 

Como amar a crise


Não aguento mais a crise. A crise está enchendo o saco. Só se fala em crise. Quando a crise vai acabar?

Nunca? O Brasil é uma crise? Talvez, mas antes as crises eram analógicas, isoladas. Esta crise é épica, digital, a crise preenche as redes sociais – a crise é online. Que restará do Brasil quando acabar a crise? Apenas um grande vazio sem assunto? Que faremos sem ela? Talvez tristeza pura, porque a crise nos dava uma torta alegria de viver, um motivo para termos esperança. E se acabar também a esperança?

A crise é política, mas é também existencial. Estamos todos em crise.

A crise justifica tudo. Não tenho dinheiro por causa da crise, me separei por causa da crise, o Brasil perdeu de 7 a 1, por causa da crise. – “Meu bem, desculpe, não consigo. É a crise.”

A crise é uma novela de suspense: quem vai ser o corrupto de amanhã? Para os acusados políticos, a crise nunca existiu; eles sempre negaram tudo: nego, nego, não fiz, é invenção do Janot e do Sergio Moro. A crise para eles é apenas uma alucinação nossa. Quem melhor explica a crise são os motoristas de táxi; eles dizem: “a vaca vai pro brejo, sempre foi assim...” Discordo do doce chofer – nunca antes foi assim, e mais: a vaca já foi para o brejo. A partir do brejo, podemos sair da lama. Como vão prender tanta gente no final da crise? Esse é o perigo da crise: ser um rio sem foz, tão extensa e lenta que pode não dar conta de tantos processos. Com o passar do tempo, talvez digamos: “que crime esse cara cometeu mesmo?”

A crise também é uma ilusão para o governo. Não houve nada, tudo culpa da outra crise, a internacional. “Somos vítimas da crise de 2008 até agora.” Pela crise, conhecemos pessoas que estavam escondidas nos subterrâneos de Brasília. Ou nos esgotos. Surgiram carantonhas horrendas onde está estampada a caricatura da corrupção. Temos de tudo: máscaras, bonecos de engonço, mamulengos, temos um desfile de caras, de bocas, de mãos trêmulas, de risos e choros constrangidos, temos as vaidades na fogueira, os falsos clamores de honradez, os falsos testemunhos, vemos a lama debaixo das dignidades, vemos as sujeiras escorrendo sob as frestas da lei – um reality show sobre o Brasil. A crise mostra que há ladrões de dois tipos: o intensivo e o extensivo – os que roubam às vezes, pois a ocasião faz o ladrão, e os ladrões extensivos, que roubaram e roubarão sempre não por necessidade, mas por tesão. Não se emendam depois de 20 anos: começam com Fiat Elba e terminam com Lamborguines de R$ 5 milhões. A crise mostra que a cumbuca é sem fundo. A corrupção excita muito – quando se abrem as malas de dólares, os bordéis se enchem. Há pouco, soubemos que foram gastos mais de US$ 150 mil nos prostíbulos de Brasília. A crise só foi boa para as prostitutas.

A crise limpa muita gente; ser contra a corrupção, por exemplo, nos faz mais puros, mas honestos, mesmo que tenhamos pegado um troco aqui e ali, que ninguém viu. A crise nos lava mais branco. A crise testa nossa honestidade – será que eu aceitaria uma gorjeta de US$ 10 milhões? A crise mostra que consciência social no Brasil é medo da polícia. A crise estremece o Congresso; a arrogância deu lugar ao tremor. A crise é democrática – atinge todo mundo, até os presidentes do Congresso. Você vê a crise no medo dos ricos, no rosto dos tristes viajantes de ônibus, a crise enfeia as pessoas, a crise engorda, emagrece, mata. A crise contamina e estimula a criminalidade, pois, se todos roubam, por que não podemos nós? A crise cria balas perdidas e assassinatos a faca. A crise acabou com a Petrobras, porque, como cantávamos antigamente: o petróleo é nosso – eles se gabam.

Por isso, por essa pletora de horrores, temos de encontrar algum lado bom da crise.

A crise é boa para nos dar a sensação de que a vida muda, que a história anda. A crise nos tira o sono e nos faz alertas.

A crise nos inclui na vida política; vivíamos sonolentos e na sombra, e agora saímos nas ruas a bater panelas.

A crise é uma aula – quase um videogame. A crise é um thriller em nossas vidas. A crise nos permite ver a verdade de cabeça para baixo. Ensina que a verdade é o contrário de tudo que alegam os depoentes. A verdade é tudo que os políticos negam.

A crise também é cultura. A crise é Brecht, Shakespeare, Nelson Rodrigues.

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A crise nos ensinou que os “revolucionários” no poder são tão escrotos quanto os “reacionários”. Qual a diferença entre Sarney e Vaccari? A crise nos mostra que um ex-proletário metido a guia do povo pode virar um deslumbrado com jatinhos e uísque 30 anos e que sabe e sabia de tudo. Ele criou a crise pela ignorância e pelo narcisismo. A crise nos ensina que presidentes têm de estudar e ter competência. A crise é boa porque acaba com a mistificação do PT, que era o partido dos “puros”. A crise acaba com os fins justificando os meios, ou seja, como pensavam e pensam: podemos ferrar a Petrobras em nome de uma “revolução”.

A crise mostra que o Brasil progride enquanto dorme. A crise nos ensina que a miséria nasce nos intestinos das classes altas. A crise prova que as pessoas não são “cumpanheiros” ou militantes, mas seres narcisistas, compulsivos, agressivos, invejosos, fracassados e com problemas sexuais. A crise é mais Freud do que Marx.

A crise mostra que a esquerda velha não tem projeto, mas um sonho que virou pesadelo. A crise nos diploma como cientistas políticos. A crise não é uma crise, mas uma “mutação” histórica. Nunca mais seremos os mesmos. A crise acaba com o angustiante futuro e nos devolve o doce presente. A crise também foi boa para nos dar uma porrada na cara, para deixarmos de ser bestas.

Lula engata o modo psicopata para dourar o discurso do desespero

lula

No Sindicato dos Bancários do ABC, o ex-presidente Lula, prestes a ver o sol nascer quadrado, mostrou-se ainda mais desesperado que o costumeiro dos últimos meses. Logo ele, cujo partido bate recorde de mentiras, se disse “cansado das mentiras e safadezas”. O mestre do cinismo quer nos convencer de que as pedaladas fiscais, a corrupção na Petrobrás e o estelionato eleitoral são antes invenções da oposição do que fatos do mundo, comprováveis empiricamente.
O livro "Without Conscience", de Robert Hare, nos lembra de um detalhe fundamental: os psicopatas são caracterizados, dentre muitos outros fatores, por se fingirem de vítimas quando são pegos. Nessa toada, Lula faz seu draminha patético:
"O que a gente vê na televisão parece os nazistas criminalizando o povo judeu."
Ah, parece, Lula? Então nada melhor que este vídeo mostrando quem realmente se comporta feito nazista. Aliás, há apenas duas diferenças entre o nazismo e o petismo: (1) a classe definida como “opressora” pelo nazismo era a judaica, no caso do PT são várias, de acordo com o marxismo cultural, (2) o nazismo fez tantas vítimas por ter conseguido o poder totalitário e ter criado um cenário de caos social absoluto, o que lhes serviu para facilitar seus massacres, e o petismo ainda não conseguiu concretizar suas ambições.

Mas, seja lá como for, o vídeo abaixo fecha a questão, não com as diferenças, mas com as semelhanças entre o nazismo e o petismo:

Este vídeo merece ser viralizado, com certeza.
Já o show de absurdos prossegue incansavelmente:
"Não tem pessoa com caráter mais forte nesse País que a Dilma."
Ele realmente está tirando com a cara do povo. Quer dizer então que não há “caráter mais forte” neste país do que a Dilma? O problema é que tirando os mamadores de tetas estatais e seus zumbis, tornou-se jogo ruim tentar convencer o povo brasileiro de que Dilma não tem falhas de caráter, principalmente depois da campanha política mais mentirosa da história, o que futuramente se exibiu como um grotesco caso de estelionato eleitoral, exatamente o ponto que tem derrubado mais a popularidade da presidente.
Em suma, é difícil encontrar falhas de caráter nesta dimensão no resto do Brasil. 

Se Dilma é um “exemplo de caráter” para Lula, isso explica muita coisa. E se no Brasil não há “caráter mais forte” do que ela, então é melhor fechar este país de uma vez, pois estaríamos em situação pior do que no filme Mad Max. Mas, como sempre, as avaliações de Lula são feitas para testar os limites da credulidade de seus zumbis. Ele com certeza morre de rir depois de proferir suas bravatas.
Como não poderia deixar de ser, ele conclui com o clichê, dizendo que a elite não gosta do PT por causa das conquistas sociais:
"Sei que é difícil para parte da elite brasileira aceitar certas coisas […] Tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa."
Que conquistas sociais, Lula? Com indicadores falsos, tudo não passa de alegação sem provas. Alias, se existisse uma conquista social verdadeira, a elite estaria em festa, pois pessoas com maior poder de compra podem comprar mais. Não existe mito mais inconvincente do que aquele que diz que “elite quer ver o pobre cada vez mais pobre”, o que seria, antes de tudo, uma burrice extrema. Os pobres dos Estados Unidos e da Europa, por exemplo, podem comprar muito mais.
Mas, em termos de elite, que tal lembrarmos dos vários empresários das empreiteiras, que fizeram a festa com verba estatal, hoje vendo o sol nascer quadrado? Ou seja, a elite ama o PT, não por “conquistas sociais” inexistentes, mas pelas tetas estatais rosadíssimas colocadas à sua disposição.
Que vergonha para um país ter sido governado por um sujeito como Lula.
Luciano Ayan

Este é o PT


Os "professores" como Whasington Quaquá, presidente regional do PT e prefeito de Maricá, se dão assim ao desrespeito, como é comum entre petistas. Os cargos, bem remunerados dos trombadinhas políticos, servem para demonstrar a falta de educação deles. Por estarem em cargos públicos, se consideram acima de qualquer ética e moral e adotam a verdadeira face: a da sarjeta de tanto frequentar pé sujo.   

Tereziiiinhaaaaa

Mais uma ideia original. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência produz em série. Está em planejamento, por exemplo, um aplicativo em que os portadores de celular tanto poderão receber as novidades governamentais, como enviar ao Planalto suas opiniões sobre o governo e a presidente. Consideradas as sondagens da opinião pública sobre Dilma e seu atual mandato, constata-se que a adesão da Presidência à modernidade tecnológica terá utilidade científica, como prática atualizada de masoquismo, assunto de interesse para os estudos das ciências psicológicas.
É um avanço, sim, embora ainda à espera de definição. A Secretaria de Comunicação instalada com o primeiro mandato tinha a peculiaridade de rejeitar a comunicação. Com isso, contribuiu muito para vários dos conceitos que se disseminaram sobre a presidente e sobre o governo. Como pregava o personagem mais característico da TV Globo, o Velho Guerreiro, depois do seu lema cultural "Tereziiiiinhaaaaa!!!", "quem não se comunica se trumbica". Ou vira especialista em comunicação.

A nova Secretaria atua até em política. Sempre com originalidade, claro. Por exemplo, tivesse ou não tivesse Lula a intenção de conversar com Fernando Henrique sobre o momento brasileiro, como a Folha noticiou, o Instituto Lula negou tal pedido do ex-presidente à intermediação de amigos. Com razões desconhecidas, se existiam, o secretário Edinho Silva desprezou a escapatória dos seus correligionários e fez a opinião pública saber que ele vê "com bons olhos a possibilidade de diálogo entre Fernando Henrique e Lula, como vejo com naturalidade que o mesmo aconteça com a presidente". Dada a importante opinião dele, é apenas natural que a da presidente da República a siga.

Assim, sem informação do que se passava, inclusive com a dúbia resposta inicial de Fernando Henrique, o comunicador ofereceu o microfone e soprou o petardo humilhante que esse ex-presidente mandou ao outro e a Dilma. É incerto, no entanto, que na original Secretaria de Comunicação hajam deduzido, dessa mancada, que também quem comunicar pode se trumbicar.

Mas o gasto de dinheiro público nessas originalidades é pequeno. Menos tranquilizadora é a conclusão ao deparar outras e caras iniciativas originais. É o que se passa com a visão de anúncio a cores, em página nobre de jornal carioca, do financiamento agrícola. Nesse caso, quem se trumbica com a Secretaria de Comunicação é o pagador de impostos.

Dilma achou a quem culpar pela crise econômica




Primeiro foi a crise internacional, que já não mais existe. Dilma culpou-a pelos maus resultados do seu primeiro governo. Como se ela nada tivesse a ver com eles.

Ontem, em reunião com 12 ministros no Palácio do Planalto, Dilma culpou a Operação Lava Jato pela queda do PIB – Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas no país.

Por acaso ela quis dizer que o melhor teria sido que não houvesse a Lava Jato, operação destinada a apurar a bandalheira na Petrobras?

Dilma precisava de uma desculpa para explicar o desastre da economia sob o seu comando. Sobrou então para o juiz Sérgio Moro e a Polícia Federal.

Nunca se esqueça de que a Petrobras foi assaltada por diretores nomeados por Lula e empreiteiras a que hoje ele serve como palestrante e lobista internacional.

A culpa, portanto, é de Lula. E também de Dilma que fingiu desconhecer o que se passava por lá. Quando parou de fingir já era tarde.

Este é um governo desorientado. Ninguém dentro dele sabe para onde irá. E, muito menos, como deveria ir.

Dilma é uma presidente fraca que se cercou de ministros e de auxiliares igualmente fracos.

Ela sabe que seu governo só sairá do buraco se a economia voltar a esquentar. Mas não parece saber como fazer isso.

Ou melhor: pode até saber. Mas não parece convencida de que o caminho escolhido deverá ser mantido.

O ministro Joaquim Levy, da Fazenda, está perto do limite de sua paciência. Dá sinais de que talvez não suporte por muito mais tempo o esforço do PT em sabotá-lo.

Nelson Barbosa, ministro do Planejamento, está pronto para substituir Levy caso seja necessário.

O ajuste fiscal não saiu como Levy imaginava. Tampouco sairá o ajuste do ajuste.

Dilma acorda cedo diariamente e sai para passear de bicicleta pelos arredores do Palácio da Alvora.

Vai do nada à coisa alguma.

Dilma vem aí

Dilma tem muito o que explicar, mas não vai falar nada no anunciado programa televisivo do PT no próximo mês sobre o que o país quer saber. Nem mesmo se espera dela um gesto realmente presidencial. Quem foi capaz de falar em fazer o diabo para vencer as eleições, não venceria em país sério.

Sob o patrocínio de pai Santana, vai mentir mais uma vez ao lado do companheiro Lula, para uma população já cansada e sofrida por tanta mentira. O mágico do marketing político acredita, insistir na mentira anima a população. Não é bem assim que toca a banda.

Dilma, Lula e o PT estão desacreditados por mais que exibam na tevê cara de confiança no futuro do país. Tanto que até mesmo esperam outro estrondoso panelaço. Não será para menos.

O governo petista, apesar de apregoar ser um partido do povo, fez mais para os ricos, e mais ainda para os bancos, do que para a população. E agora quem vai pagar a conta da palhaçada são os mais pobres, aqueles mesmos que seriam salvos da miséria pelo PT. E o pior para o governo é que ninguém mais acredita em conto da carochinha petista.

Em nome do poder, e mesmo para se livrar da prisão, como no caso de Lula, se sujeitam a qualquer coisa. Querem embrulhar o país de que tudo ainda será resolvido este ano. Nem o mais imbecil petista acredita que vai sair do atoleiro em que lhe meteram em tão pouco tempo.

A exibição será mais uma farsa para empurrar com a barriga, gorda de dinheiro roubado e muita corrupção, o maior problema do país: um governo que não governa há mais de um ano e uma presidente que se acha sendo tão pequena.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Desastres artificiais

Aflições (Foto: Arquivo Google)

Quando se trata de explicar, a gente sempre tenta. Não devia, mas tenta. A tarefa, por ingrata, quase nunca esclarece. Confunde frequentemente. Frustra sempre. Mas o fato é que existe uma obsessão nacional em fornecer explicação que dê ordem ao caos e forneça razão onde a logica não aprece faz tempo.

Quando acometidos desta compulsão, os patrícios costumam ver na ausência de informação alheia à oportunidade de embelezar a realidade. Imediatamente, atribuem aos outros a causa da desinformação. Autocritica, só a favor.

Vendem o lado de lá do equador como terra alegre, bonita, onde se plantando tudo dá. Realçam as praias, a natureza, e a hospitalidade. Neste mundo dourado, não existe lugar para reconhecer poluição, destruição, pobreza ou desmatamento.

Em rasgos de entusiasmo retórico, nossos embaixadores do gogó promovem a combinação de verde e amarelo a condição de moda de indiscutível bom gosto. E dizem que não é verdade que ali nada funciona. O segredo, dizem eles, é entender que tudo ali funciona diferentemente.

Portanto, é o caso de suspender a aplicação de leis consideradas universais fora das fronteiras do antigo país do futebol. Carece aplicar novo conjunto de regras criadas especialmente para que tema terra das palmeiras, onde gorjeia o sabiá (de maneira única, diga-se).

Nesta bizarra (re) construção da realidade, sobra imaginação, transborda pretensão, e falta contato com o mundo concreto. Tudo, claro, somente é possível, com muita vontade de acreditar e, de preferencia, evitando a qualquer custo o próprio reflexo do espelho.

Entretanto, desatino é por definição coisa efêmera. Desmorona no primeiro choque com a realidade. E, ao desfilar orgulhosamente as virtudes do país tropical abençoado por Deus, inevitavelmente vem à mesa a ausência de desastres naturais. Ali, não existem. Furacões, tufões, terremotos, nevascas, tsunamis, vulcões são coisas para lugares menos favorecidos.

Deus, afinal de contas, é (ou deveria ser) brasileiro. Reservou-nos o privilegio de viver longe de desastres naturais. E nos condenou a sofrer permanentemente com desastres artificiais auto impostos. Nos fez os únicos culpados pelas nossas aflições.

A economia brasileira vai demorar até se reaquecer


A desesperança tomou conta dos trabalhadores e também dos empresários. Creio que algo saiu fora da curva. Provavelmente foi a política de investimentos pesados do Estado via BNDES, a juros subsidiados para os campeões nacionais, que gerou um déficit incontrolável da dívida pública. A crise de 2008 não é a única responsável por nossas agruras atuais. Os assuntos se completam uns ligados aos outros. Um fio condutor os une indelevelmente.

O escritor austríaco Stefan Zweig escreveu o livro “Brasil, o País do futuro”. Um estrangeiro acreditava no Brasil, como nós não iríamos acreditar? O momento vivido pela nação é preocupante em virtude do agravamento da crise econômica, com reflexos no desemprego, na inflação, no aumento da dívida pública e na falta de investimento.

A crise dos anos 80 é similar à de agora. O início das nossas agruras começa em 2008 e o ápice está ocorrendo em 2015. Como tudo está ligado a tudo, a crise dos países ricos detonada em 2008 pegou a nação agora, exatamente no estágio de recuperação dos EUA, onde começou a quebra do setor imobiliário, no distante 2008. Mas, a Europa ainda patina, inclusive a poderosa Alemanha. Nem se fala da Grécia, que se encontra na UTI. A China desacelerou brutalmente pegando o Brasil de surpresa, visto que era a maior compradora das commodities, principalmente os minérios do Brasil, notadamente o minério de ferro. As ações da Vale despencaram. A maior mineradora do Brasil está nas cercanias da crise.

Nem os próprios criadores, ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa, acreditam no ajuste fiscal, que provoca desesperança de empresários e trabalhadores. As famílias puxaram o freio de mão, agravando o quadro de recessão e desemprego crescente.

É chegada a hora do sacrifício. No entanto, todos deveriam participar, ricos e pobres, mas não é isso que está acontecendo. Se houvesse um esforço conjunto da sociedade, poderíamos sair da crise e voltar a experimentar um ciclo de crescimento mas rapidamente.

Do jeito que estamos, a curto prazo se torna quase impossível a economia sair do atoleiro em que se encontra. No mínimo, o esforço concentrado durará pelos próximos cinco anos. Vejam bem, a maior nação do globo enfrentou uma grave crise em 2008 e só agora em 2015 dá sinais de recuperação. Nesse sentido, falar em cinco anos para o Brasil sair da crise significa até uma dose de otimismo.

O bicho da demagogia

Agosto vem aí

O Senado, em Roma, decidiu dar nome aos doze meses em que o ano foi dividido. Para homenagear Julio César e Otávio Augusto, o sétimo e o oitavo mês são até hoje julho e agosto. O problema é que, naqueles idos, os bajuladores pareciam os mesmos de agora. Como o imperador era Tibério, ofereceram-lhe tornar-se patrono de um dos outros meses. Modesto, ele recusou maliciosamente: “O que fareis quando Roma chegar a ter treze imperadores?”

O episódio se conta às vésperas da chegada de agosto, para nós um mês azarado e pleno de surpresas. Getúlio Vargas suicidou-se, Jânio Quadros renunciou, Costa e Silva adoeceu. Dilma pretende recuperar-se, mas pode ser surpreendida por outra tragédia. No Congresso, cresce a tendência da rejeição de suas contas do ano passado, em especial se for essa a decisão do Tribunal de Contas da União. Nossa imperatriz estaria incursa em crime de responsabilidade e sujeita ao impeachment. Michel Temer assumiria, ainda que na dependência do Tribunal Superior Eleitoral, que se considerar ter havido dinheiro podre na campanha presidencial do PT, no ano passado, atingirá também o vice-presidente.


Como estamos na primeira metade do mandato, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, chefiaria provisoriamente o Executivo, dispondo de noventa dias para convocar eleições diretas. Isso caso o TSE e o Supremo Tribunal Federal não se inclinassem pela singular tese de convocar Aécio Neves, como segundo colocado nas eleições de 2014.

Em suma, abre-se a perspectiva de um agosto à altura dos anteriores referidos, em matéria de confusão.

Fernando Henrique não perde oportunidade de aparecer. Entrado nos oitenta anos, em vez de recolher-se para redigir suas memórias, continua dando palpite em tudo. Acaba de repetir não querer conversa com Dilma e Lula. Logo que publicada a versão deles desejarem encontrar-se com o antecessor para exame da crise atual, o sociólogo declarou ter nome e número no catálogo telefônico, não precisando de intermediários para acertar uma reunião. Quer dizer, aceitaria conversar. Como sua disposição pegou mal no ninho tucano, avançou para dizer que nada tem a ver com o governo e prefere saltar de banda. Agora, enfatiza de novo a recusa. Deveria ter presente que em política nenhum risco acompanha o silêncio.

Perdeu, príncipe

Chamou-se “O jogo da imitação” o filme sobre a vida do criptoanalista Alan Turing, que desvendou os códigos nazistas durante a Segunda Guerra. O esforço coletivo será menor para desvendar as anotações no iPhone de Marcelo Odebrecht. Elas revelam algumas indicações contundentes e inequívocas de corrupção. Mas trazem muitos enigmas que nos impelem a devendá-los, pelo menos para saber o que, realmente, aconteceu com o Brasil. E, é claro, extrair as consequências.

Marcelo Odebrecht foi intitulado o Príncipe dos Empreiteiros. Jovem, rico e bem educado, adotou a tática petista de negar, encarou com desdém a investigação. Na cadeia, tropeçou pela primeira vez, enviando um bilhete determinando a destruição de um e-mail sobre venda de sondas. Mas agora, com as mensagens em seu telefone, eu diria: perdeu, playboy, na linguagem plebleia, mas o adequado é: perdeu, Príncipe.
São evidentes, mesmo com as barreiras de códigos, as relações íntimas entre a Odebrecht e o governo. Cúmplice na Lava-Jato, pede um contato ágil com o grupo de crise do governo. Esperar um contato ágil do grupo do governo é sonho de executivo. De todas as maneiras, isso demonstrava como estavam juntos, na tarefa de escapar da polícia.

Recados como este a Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma: avisa a ela que pode aparecer a conta da Suíça. Não é preciso grandes decifradores para supor que a campanha do PT foi feita com dinheiro que veio da Suíça. Bem que desconfiei. Uma campanha tão bem educada: a grana vinha da Suíça. Esse tópico é tão interessante que quase todos fingiram não notar, como se não olhar para a bomba impedisse que exploda.

Odebrecht usou métodos de máfia, ao mobilizar dissidentes da Polícia Federal para melar a Lava-Jato. Tudo indica que foram esses dissidentes, numa outra ação, que colocaram uma escuta clandestina na cela de Alberto Youssef, na esperança de anular o processo. Está quase tudo lá no telefone de Marcelo. Amigos poderosos, propinas, orientação para artigos. Numa dessas, ele reclama que o foco da Lava-Jato está sobre os empreiteiros e é preciso deslocá-lo para os políticos. Mas a tática está dando certo. Políticos são mais experientes e escorregadios. O grande material contra eles virá precisamente das delações, de anotações como essas do iPhone.

Marcelo Odebrecht optou pelo silêncio. Mas deixou pistas pelo caminho. Como se dissesse; se querem me pegar, trabalhem um pouco com a cabeça. Ele terá que se explicar ao juiz Sérgio Moro. Mas se usar a tática do bilhete, destruir/desconstruir, vai se dar mal. É hora de contar tudo ou então assumir as consequências. Até plano de fuga, saída Noboa, estava previsto em suas mensagens. Noboa é um dirigente equatoriano que fugiu do país para a República Dominicana.

Chega de esconde-esconde. Isso vale também para Dilma e o PT. Em Portugal, abriram-se investigações sobre o negócio entre telefônicas no Brasil. Uma equipe peruana vem investigar no país o caso Odebrecht, pois suspeita que houve corrupção. Os americanos monitoram a Odebrecht. O Brasil virou uma grande cena do crime. Qualquer dia vão nos cercar com aquelas fitas pretas e amarelas e chamar os turistas para filmarem o PT, aliados e a Odebrecht, dizendo que não roubaram nada. Foi tudo dentro da lei. Só pela cara de pau mereciam uma punição extra.


Hoje, Dilma, Renan e Eduardo Cunha constituem um triângulo das Bermudas. Nele desaparece toda a esperança. Cunha agora é contra Dilma, Renan também. Há quem ache que é preciso poupá-los porque são contra Dilma. Mas hoje quase todo mundo é. Cunha está sendo acusado de levar US$ 5 milhões da Toyo Setal. Um dos indícios era o requerimento que a deputada Solange Gomes apresentou para pressionar os empresários. O requerimento foi produzido no computador de Cunha.

Fui deputado com os dois, Cunha e Solange. Um dia, ela veio com um jabuti para acrescentar numa medida provisória: isentar a indústria nuclear de alguns impostos. Fui perguntar o que era aquilo e ela não sabia responder. Percebi que era apenas uma assinatura de aluguel. Trabalhava em sintonia com Eduardo Cunha. Quando surgiu essa pista do requerimento de Solange, mesmo antes de descobrirem que veio do computador de Cunha, na solidão do quarto hotel, soltei o grito da torcida do Atlético Mineiro:

— Eu acredito!

As próximas semanas devem ser decisivas contra essas forças que ainda dominam o Brasil mas estão em contradição com ele. Ministros, deputados, presidentes e ex-presidente, todos farão o esforço final para escapar da enrascada. Dilma contra Cunha, Renan contra Dilma, Dilma contra Renan, eles podem dançar à vontade o balé dos enforcados. Lembram-me uma canção da infância, nascida nas rodas de capoeira: “A polícia vem, que vem brava, que não tem canoa cai n’água. Pau, pau, peroba, foi o pau que matou a cobra.” Pelo menos cantávamos, naquela época.

Hora de recomeçar.

Fernando Gabeira

Crise não é marola

Eu tenho insistido muito que a gente está num tempo em que é necessário democratizar a democracia exatamente por entender que ela está vivendo já uma espécie de estagnação.
(...) A gente vive uma crise civilizatória, uma crise onde cinco grandes crises, econômica, social, ambiental, politica e de valores, constituem uma única crise, que é uma crise civilizatória.
Marina Silva

América Latina nunca teve tantos jovens, mas não aproveita impulso


A população jovem da América Latina nunca tinha sido tão numerosa: 108 milhões de pessoas têm entre 15 e 24 anos. Era uma estatística previsível havia anos. Mas o futuro chegou à região e a oportunidade de aproveitar esse impulso demográfico como motor de desenvolvimento está lhe escapando das mãos. Enquanto o crescimento econômico da zona não passará de 1% este ano (quando entre 2000 e 2012 foi, em média, de 4% ao ano), os governos procuram, cada um por seu lado, alternativas para evitar a pobreza e a desigualdade entre os jovens. Diminuir a evasão escolar e incentivar o emprego digno são os objetivos prioritários das políticas públicas para essa população.

Na América Latina há trabalho para os jovens, mas boa parte desse emprego é precária. Economias incentivadas pelas atividades informais levaram a trabalhos mal remunerados e pouco protegidos. Embora a taxa de desemprego juvenil não seja alarmante, pois está em 14%, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o panorama da precariedade é patente. As estatísticas revelam que de cada 10 jovens com trabalho, 6 o desempenham sem as garantias de Seguro Social ou estabilidade para o futuro. A proliferação do trabalho informal abre uma brecha entre a população e prejudica o crescimento dos países.


O ingrediente-chave para obter qualidade no emprego é a educação. “Há uma relação direta entre o nível educacional e a probabilidade de conseguir um emprego bem remunerado”, explica Rafael de Hoyos, economista do Banco Mundial. Uma relação que alguns países latino-americanos começaram a ver com clareza. México e Chile, por exemplo, estão procurando alternativas com a reforma de seus sistemas educacionais, mas ainda se encontram em uma etapa incipiente do ajuste do modelo.

A OIT enfatiza que os jovens da região não alcançam um nível de educação médio ou superior. Apenas 35% prosseguem com seus estudos depois do ensino médio – e isso repercute em suas oportunidades para conseguir um emprego, principalmente de qualidade. Países como Argentina, Chile, Costa Rica e Cuba conseguiram ampliar sua cobertura educacional para aumentar as oportunidades de trabalho de sua juventude, mas outras nações, como Guatemala e Nicarágua, sofrem atrasos significativos.

As boas e as más intenções


Numa coisa Karl Marx estava certo: o capitalismo é um regime de exploração. Mas daí partiu para uma conclusão errada: só o trabalhador produz riqueza e o capitalista só explora. Não é verdade, e essa conclusão errada foi responsável pelo fracasso dos governos comunistas, que excluíram a iniciativa privada –ou seja, o empreendedor– e puseram em seu lugar meia dúzia de burocratas do partido, incapazes de gerir até mesmo uma quitanda.

É curioso que ninguém se tenha dado conta disso, a começar pelo próprio Marx, homem culto e de rara inteligência. Talvez a razão de tal equívoco tenha sido o caráter selvagem do capitalismo do século 19, que explorava os trabalhadores sem qualquer escrúpulo.

Marx via os capitalistas, portanto, como cruéis exploradores que não mereciam participar da sociedade igualitária do futuro, a qual, segundo ele, seria governada pela ditadura do proletariado. O que, aliás, nunca aconteceu nem podia acontecer, uma vez que, a começar por ele, quase todos os líderes revolucionários de esquerda eram de classe média.

Chego a pensar que tampouco a classe operária sonhada por Marx era revolucionária. O operário não só não tinha conhecimento dos problemas da sociedade como temia perder o emprego, uma vez que não lhe restaria outro meio de sobrevivência.

Ele era pobre, o irmão era pobre, o pai era pobre. Já o cara de classe média, se perdia o emprego, tinha o pai para socorrê-lo ou algum outro parente. Por isso o operário pensava duas vezes antes de se meter em encrenca.

Tanto isso é verdade que, em nenhum país desenvolvido, a revolução operária aconteceu. Nos Estados Unidos, que possuíam a maior classe operária do planeta, o partido comunista nunca teve qualquer importância.

A verdade é que, se sem o trabalhador não há produção, sem o empresário também não há. Neste momento, aqui mesmo no Brasil, há milhões de pessoas inventando agora pequenas empresas, médias empresas, grandes empresas, que vão promover o crescimento econômico do país, gerar empregos e riqueza.

Mas não é o empresário que, sozinho, vai pôr sua empresa para funcionar; precisa do trabalhador. O problema é que a riqueza produzida assim é mal dividida: o patrão fica com a parte do leão. Daí a desigualdade que caracteriza a sociedade capitalista e que, se já não é a mesma que no século 21, tampouco conseguiu eliminar a pobreza, mesmo em países desenvolvidos.

Está errado, mas também não estaria certo todo mundo ganhar a mesma coisa, uma vez que as pessoas têm capacidades diferentes. Nem todo mundo é Bill Gates ou Pelé ou Picasso. Tampouco tem sentido alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver.

A conclusão a tirar de tudo isso, conforme penso, é que, se o regime capitalista tem a virtude de produzir riqueza, é uma riqueza desigualmente dividida. A conclusão inevitável é que devemos batalhar por uma divisão menos injusta possível.

Inteiramente justa, jamais o conseguiremos, porque, como se viu, a própria natureza é injusta, cria pessoas com capacidades desiguais. A justiça é, portanto, uma invenção humana e, por isso mesmo, depende das pessoas e das instituições para acontecer de fato.


Mas não é assim que pensam certos políticos que decidiram pôr, no lugar do marxismo extinto, um populismo dito de esquerda, que se vale da referida desigualdade social para ganhar o apoio dos mais pobres para chegar ao poder e pôr em prática programas assistencialistas, que não resolvem os problemas; pelo contrário, os agravam, como ocorre hoje na Venezuela, na Argentina e no Brasil.

Não há exagero, portanto, em apontar o caráter demagógico do populismo que, chegado ao governo, faz o contrário do que prometeu.

É possível até que, em alguns casos, acreditem, na sua visão equivocada, que têm a solução dos problemas, mas, na hora de enfrentá-los, veem que, nesse campo, milagres não acontecem. O resultado é o desastre, de que é exemplo o governo Dilma no Brasil.

Mas esse populismo está sendo desmistificado pela realidade dos fatos, como ocorreu agora mesmo na Grécia, onde o premiê Alexis Tsipras teve que fazer exatamente o contrário do que prometeu para chegar ao poder: submeteu-se às imposições dos credores.

Não estamos à altura

Difícil imaginar que João Goulart sofreria golpe militar, se seus apoiadores tivessem percebido e reconhecido os próprios erros e assegurado apoio e confiança na população. O golpe de 1964 foi consequência de forças diretamente golpistas autoritárias, mas também da omissão e incompetência dos democratas.

Tanto quanto as campanhas ideológicas dos golpistas, o golpe se apoiou no descontentamento popular com a inflação, o desemprego, a instabilidade por greves, as disputas internas na base de apoio; a incapacidade daqueles ao lado do presidente para perceber os erros cometidos; a euforia de que tudo estava bem e não havia o que temer, o mandato estava garantido e os militantes e sindicalistas prontos para uma guerra nas ruas em defesa da Constituição e do governo; e ainda a falta de percepção da força dos opositores, inclusive externa, no tempo da Guerra Fria. A causa de golpes também é a incapacidade dos governantes de reconhecerem a realidade.

Em 1964, o Brasil estava dividido entre esquerda e direita sem diálogo, cada lado com seus interesses econômicos e ideológicos acima do interesse maior do Brasil.

Cinquenta anos depois, atravessamos um momento parecido: com vantagens, fim da Guerra Fria e despolitização das forças armadas, e com desvantagens, raiva popular diante da corrupção e sentimento de traição pós-eleitoral, além de que o Fla-Flu partidário está menos preparado ideologicamente.

A disputa entre governo e oposição outra vez impede um entendimento político em favor do futuro do Brasil. Desta vez, felizmente, os golpistas são raros, mas também são raros os que percebem os prejuízos na interrupção do mandato da presidente e os que percebem os prejuízos que decorrerão da continuidade por mais três anos e meio do governo sem credibilidade, com uma equipe frágil politicamente e uma base dividida, unida por interesses menores por cargos.


Os próximos meses estão entre as consequências arriscadas da interrupção do mandato de um presidente (o segundo dos quatro eleitos diretamente depois da redemocratização) ou as consequências previsíveis da continuidade do atual governo. A única alternativa tranquilizadora para os próximos anos é uma concertação negociada dos democratas comprometidos com: estabilidade política e monetária, com crescimento econômico e com avanço social e respeito ecológico.

Ainda é tempo de evitar a tragédia e o desastre, mas esta ideia parece ingenuidade diante da nossa incapacidade como líderes nacionais. Neste momento, a culpa é de todos nós, por não estarmos à altura do desafio histórico do momento. E se não encontrarmos uma saída negociada, o povo na rua convocará por cima da Constituição uma eleição geral antecipada, com impeachment de todos.

Se não somos golpistas por ação, estamos golpistas por omissão, devido ao oportunismo ou à incompetência, perdidos e em disputas sem o sentimento de interesse nacional e de longo prazo.

domingo, 26 de julho de 2015

País tateia na escuridão


Um véu de incerteza teima em cobrir o espírito nacional, adensando as expectativas, aumentando as angústias e diminuindo a crença nas instituições políticas e sociais. Em quase todos os aspectos da vida nacional, impera a dúvida.

Não sabemos até onde irá essa Operação Lava Jato. Até quando o juiz Sérgio Moro continuará a dar as cartas? Até quando o STF fechará o imbróglio que envolve políticos? Ignoramos se as cartas do intrincado jogo de poder serão repartidas entre grupos que defendem o governo e se servirão para administrar as intempéries que assolam as roças da política.

Não sabemos o tamanho da enrascada que consome Estados e municípios. Estamos no início do caos, no meio da crise ou muito longe do fim do túnel? Ninguém sabe, mas todos se aventuram a garantir verdades nesse território que ama construir versões.

Ora, Dilma será afastada; ora, Lula movimentará seus exércitos para defendê-la; ora, os tucanos dizem não querer impeachment; ora, dizem ser a favor; ora, as contas do Governo serão desaprovadas pelo TCU e as contas de campanha, idem, pelo TSE. Nada certo.

Nas ruas, nos escritórios, praças e bares, emerge o país lúdico que ri da tragédia e se comove com a comédia. Comédia e tragédia, aqui, se fundem num amálgama que, frequentemente, traduz a falta de racionalidade do nosso povo tropical.

As redes sociais se locupletam com sátiras e piadas, algumas de extremo mau gosto. Mas há também graça. A improvisação, o gosto pela aventura, a alma criativa se expandem nesses tempos de recessão econômica.

A desconstrução de eixos administrativos montados por governos anteriores passa a integrar o exercício dos governantes que iniciaram sua jornada em janeiro deste ano. E assim cresce o Produto Nacional Bruto do Eterno Retorno. 




Os nossos homens públicos mais parecem dândis na escuridão. Não enxergam o profundo caos em que está afundada a imensa maioria da população brasileira.
Não são apenas as gritantes estatísticas de violência das metrópoles que assustam. Os assassinatos e assaltos (até de roubo de bicicletas) tornam-se eventos banais.

O desemprego ronda as famílias ( são mais de 8 milhões de desempregados) e deflagra ondas de medo, corroendo esperanças.

Os serviços públicos continuam a cair de qualidade. Morre-se de doença velha – dengue, por exemplo- em um atestado de volta ao passado.

A tristeza se estampa nas filas de pessoas que procuram emprego. As cenas do interior tórrido do Nordeste voltam com intensidade. Repete-se a cosmética de miséria incrustada em nossas mentes.

Para onde foram os bilhões dos desvios da roubalheira?

Quem consegue enxergar melhorias nas áreas da saúde, educação, saneamento básico, transportes urbanos, segurança pública?

Em alguns Estados, a penúria se instala. Os governos procuram ajustar suas contas. De 27, cerca de 20 estão perto do ajuste. Mas os cofres continuam pobres.

Nas ruas, as massas ruminam desconfianças, afastam-se das instituições e de seus representantes, afogam-se em mágoas, perdem-se em ilusões.

O Governo Federal deixou de ser a Tábua de Salvação para ser a Caixa de Pandora, cheia de surpresas; dos bons tempos de farta Bolsa Família, só lembranças. Da era do crédito fácil da era Lula, só velhos retratos.

A imagem da presidente Dilma afunda-se. Bate em 7% de aprovação.

Quando se espera que o governo defenda o rigor do pacote de ajustes, reduz a meta fiscal. Joaquim Levy, o próprio, que defende rigor nas contas, anuncia a desidratação de seu pacote com a redução da meta fiscal para 0,15% do PIB com abate de R$ 26,4 bilhões na receita.

A propósito, conseguirá Levy fazer passar pelo congresso o projeto de repatriação de recursos de brasileiros no exterior? De 500 bilhões, conseguira trazer 40?

A nova matriz econômica começa de maneira capenga. Onde foram parar as grandes obras do PAC? Caminham lentas. O PT gira tonto pelas ruas do Planalto, sem saber que rumo tomar.

Descalabros emergem todos os dias, ganhando espaços midiáticos, a partir das trombetas de Curitiba. O torto, o errado, o inusitado, o roubo, as negociatas que fariam inveja a Tio Patinhas já não mais comovem. De tão rotineiras, amortecem nosso espírito.

Sem perspectivas e sem crenças, o povo acaba banalizando a criminalidade. Que se expande. Um estado catatônico se instaura. Matar virou um ato de rotina. A morte é um evento que não mais comove.

A grandeza de uma Nação não é apenas a soma de suas riquezas materiais, o produto nacional bruto. É o conjunto de seus valores, o sentimento de pátria, a fé e a crença do povo, o sentido de família, o culto às tradições e aos costumes, o respeito aos velhos, o amor às crianças, o respeito às leis, a visão de liberdade, a chama cívica que faz correr nas veias dos cidadãos o orgulho pela terra onde nasceram.

A anulação de alguns desses elementos espirituais faz das Nações uma terra selvagem. O país tateia na escuridão.
Mapa do Brasil (Foto: Arquivo Google)

Um filme de terror a que ninguém quer assistir

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Uma das primeiras apostas de Hollywood para levar mais gente aos cinemas utilizou um truque psicológico extremamente simples: pavor. Há mais de um século, tal como antes na literatura, as pessoas eram atraídas pelo que deveriam abominar e, graças a esta contradição, surgiram os Frankensteins, os Dráculas, médicos loucos, fantasmas, almas do outro mundo, lobisomens, monstros importados do passado, do fundo do mar, do espaço, do futuro.

No Brasil, talvez por força da infantilização das grandes audiências – para as quais medo não tem charme –, um filme de horror chamou a atenção de um dos mais importantes jornais do mundo sem provocar grande frisson, apesar de nosso protagonismo na película.

“Recessão e suborno: a crescente podridão no Brasil” foi o título do editorial desta quinta-feira no secular Financial Times, o jornal cor-de-salmão que raramente pisa em falso quando dá opinião (sobre música, vinho, política ou macroeconomia) e, por isso, foi vendido no mesmo dia por mais de R$ 4 bilhões de reais aos japoneses da Nikkei. “Incompetência, arrogância e corrupção tiraram do Brasil seu encanto mágico (...) Não é de admirar que o país hoje seja comparado a um infindável filme de horror.”



Que o governo não reagisse ou reagisse no estilo inglês – glacialmente – era o esperado. Designado para responder, Jacques Wagner, ministro da Defesa, contestou com o argumento de veterano cinéfilo: “não é filme de horror, mas de superação”. A surpresa veio da repercussão – quase nenhuma. Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho. Para não ser denunciada como alarmista ou golpista, talvez por sentir-se absolutamente desamparada diante de uma crise tão disseminada e ameaçadora, a verdade é que a retórica e o racionalismo anglo-saxônico se impuseram aos floreios da prosa neolatina.

Ao associar de forma direta, impiedosa, o fenômeno macroeconômico da recessão à esfera criminal onde se encaixa o suborno, o jornal escancara a natureza da nossa desgraça. Para não deixar dúvidas quanto à gravidade do que está sendo investigado, adiciona dois penosos ingredientes raramente utilizados nas avaliações sobre o que aconteceu na Petrobras: incompetência e arrogância.

Para coroar o diagnóstico, o arrasador substantivo – podridão – que nos remete a Shakespeare e ao inconformado Hamlet, ao reconhecer que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Na injusta metáfora, o Bardo não se referia apenas ao casal regicida (mãe e padrasto de Hamlet), mas à sociedade desmoralizada, corrompida, desprovida de senso moral que permitiu a consumação e a ocultação do crime.

Entende-se por que o editorial não foi transcrito e traduzido na íntegra em nossa imprensa: por pudor e autoestima. Verdadeira bomba arrasa-quarteirão, espalha estilhaços, fere a todos que, mesmo de longe, percebem o enredo. O interminável filme de horror do qual somos personagens e espectadores, ao contrário do que apregoam os mestres no gênero, parece condenado ao insucesso. Ninguém faz questão de vê-lo, o desfecho ainda demora. Nossas plateias são impacientes, se resignam às longas e artificiosas telenovelas, mas quando se trata de crises exigem soluções imediatas, no atual mandato.