terça-feira, 29 de março de 2016

Interromper ou desaparecer

Há quem suponha poder a presidente Dilma Rousseff dormir tranquila, hoje ou na madrugada de amanhã, sem que os partidários do impeachment tenham alcançado na Câmara número suficiente de votos para afastá-la do poder. Também existirão os que estarão festejando a possibilidade de o Senado, nas próximas semanas, confirmar uma decisão dos deputados pró-impeachment. Uma terceira possibilidade refere-se à Câmara optar pelo impeachment e os senadores, não, garantindo o mandato de Madame.

Em suma, tudo pode acontecer. O que não dá mais é o país viver na corda bamba, entre a permanência ou a queda da presidente da República, com a economia paralisada e a política despencando. Situação e oposição obrigam-se a encerrar o conflito verificado há meses, sob pena de dissolução das instituições. Será interromper ou desaparecer.

Continuando Dilma, ela será forçada a mudar não apenas o governo, mas a forma de governar. A apelar para a união nacional. Do mesmo modo, se a vitória couber a seus adversários: Michel Temer enfrentará igual necessidade.

Com a presidente de inquilina do palácio da Alvorada até 2018, crescem as chances para o PT emplacar o Lula, naquele ano, claro que na dependência de fatos novos ao redor da Operação Lava Jato. Derrotados agora os companheiros, abre-se o leque: dos ortodoxos, tipo Aécio, Alckmin e Serra, até Marina Silva e Ciro Gomes. Surpresas sempre poderão sobrevir, mas o fundamental será, no caso de vitória ou derrota, uma completa reviravolta na forma de governar.

Carlos Chagas

A bomba do desemprego

Entre as mazelas econômicas, a que tem o maior potencial para drama individual e tensões sociais é o desemprego. Por essa razão, é o principal problema social, que deve ser elevado à condição de prioridade número um e ser enfrentado sem tréguas. Apesar da relevância do desemprego, esse assunto tem frequentado as notícias e as manchetes da imprensa como um problema comum do país. Uma explicação possível para isso é a enorme crise moral e política que tomou conta da nação em face do processo de impeachment e da interminável montanha de fatos de corrupção apurados no âmbito da Operação Lava Jato.


Segundo dados oficiais, o Brasil tem pouco mais de 100 milhões de pessoas na chamada “população economicamente ativa”, aquela em idade e condições de trabalhar. Dessas, perto de 10 milhões já estão atingidas pelo desemprego. Há quatro anos, os estudiosos de economia vinham alertando para a estupidez contida na fala da presidente Dilma quando ela dizia que o Produto Interno Bruto (PIB) caiu, mas o nível de emprego foi preservado. Esse discurso foi feito antes que a queda do PIB jogasse o desemprego nas alturas, coisa que os leitores de história econômica sabiam que iria acontecer. Quando o PIB cai, o desemprego demora um pouco para aumentar e aparecer nas estatísticas, por razões técnicas que teorias econômicas já estudaram.

O PIB de 2014 foi igual ao do ano anterior; o de 2015 caiu 3,8% em relação ao de 2014; e as estimativas do próprio Banco Central (BC) informam que o PIB de 2016 deve cair mais 3,5%. Somente alguém com desconhecimento de economia pode imaginar que, numa situação como essa, o desemprego não aumentaria. É lícito imaginar que a presidente da República tenha feito discursos como os que fez por estratégia política, não por desconhecimento de que o desemprego fatalmente iria aumentar mais adiante.

Um governante colhe a desconfiança da nação e a descrença dos investidores quanto tergiversa e mente, coisa que os marqueteiros do governo sabem muito bem, sendo estranho que a presidente Dilma tenha tomado o caminho de ludibriar a nação com discursos insustentáveis no médio prazo. A presidente vive reclamando da imprensa e de quem mais a alerte para os erros de comunicação que ela e seu governo cometem, mas a realidade é que a imprensa não cria fatos nem discursos, apenas os divulga. No caso do aumento do desemprego, nada é inventado: os dados divulgados são dos órgãos oficiais e não há como amenizar o drama.

O desemprego no Brasil atingiu em torno de 4,5 milhões de trabalhadores ao fim de 2014 e, apenas um ano após, caminhava para chegar perto de 10 milhões. Mais que o número em si, é grave a trajetória da taxa de desemprego, que continua crescendo em 2016, pois há uma relação direta entre o crescimento do PIB e a taxa de desemprego, ainda que os efeitos ocorram com defasagem de alguns meses entre um e outro. Assim, o discurso presidencial de que, apesar da queda do PIB, o desemprego não aumentou foi uma pixotada sem tamanho.

Tratar os brasileiros como ingênuos a quem não se pode dizer a verdade é um erro da líder da nação, além de só contribuir para reduzir ainda mais a credibilidade de suas afirmações. Ou a presidente não ouve ou está mal assessorada em relação ao conteúdo de seus discursos e daquilo que diz ao povo. O desemprego é assunto sério demais para se prestar a declarações inverídicas.

segunda-feira, 28 de março de 2016

O Outono de nossa confusão

Percebi que, aos poucos, a luz está ficando mais suave. Daqui a pouco, a água esfria e entramos nas maravilhosas manhãs de abril e maio. O verão foi embora e quase não nos demos conta dele, ouvindo discursos da Dilma, vendo Lula fugir da polícia e Eduardo Cunha mover-se como um velho dinossauro nos tapetes do Salão Verde. Ele nos trouxe uma sinistra novidade: o vírus Zika surgido no bojo do crescimento das doenças causadas pelo Aedes aegypti.


Verão do El Ninõ, verão confuso o bastante para contaminar o outono. Nessa chuva de argumentos e versões, é uma tarefa importante desfazer os mitos. Dilma e seus aliados dizem que o impeachment é um golpe. Ministros do Supremo afirmam que impeachment não é golpe, quando realizado de acordo com a Constituição. Quem disser que o impeachment é golpe estará ignorando a própria Constituição, ou se rebelando contra ela. Daqui a pouco, os governistas dirão que as pedaladas não são um crime de responsabilidade. A Lava-Jato já expôs a base legal da queda de Dilma. Sua campanha usou dinheiro do Petrolão. As provas são os recursos que a Odebrecht pagou ao marqueteiro João Santana, e mais detalhadas ainda ampliam-se na delação premiada da Andrade Gutierrez. Para não abandonar a expressão golpe, o governo terá de lançar mão do mesmo oximoro inventado após a queda de Fernando Lugo no Paraguai: golpe constitucional.

Num discurso para sindicalistas, Lula pede à oposição uma trégua de seis meses para o Brasil voltar a ser alegre. Não sei a que tipo de alegria ele se refere. Com mais seis meses de Dilma, estaremos arruinados e não restará nem vestígio da alegria brasileira. Pelo que vi no Congresso, o impeachment segue seu rumo. O único incômodo, para mim, é ver Eduardo Cunha presidindo o processo. O Supremo poderia nos ajudar, tirando-o de lá. Há provas abundantes. Haveria apenas um pequeno transtorno, desses que vemos nas obras: desculpem, mas é para o próprio bem do usuário.

A Lava-Jato segue, sob pressão intensa. O vazamento da lista de mais de 200 políticos na planilha da Odebrecht foi uma tentativa de deslegitimizá-la, ampliando o front dos descontentes. A lista só teria valor se houvesse clareza sobre a legalidade da doação. Houve um tempo, não muito longe, em que a Odebrecht era considerada uma doadora legítima. Conferia até certo prestígio à lista das doações. No mesmo período em que a lista vazou, a Odebrecht comunicava que faria uma contribuição definitiva, uma delação premiada. Isto sem combinar com os procuradores, nem iniciar negociações com eles. Quando a lista for adequadamente investigada, será preciso separar quem recebeu doações legais, quem recebeu ilegais e quem tinha influência nas obras tocadas pela Odebrecht.

O Brasil amadureceu para não cultivar bandidos de estimação, nem no governo nem nas forças contrárias a ele. Tudo será esclarecido sem que se perca o foco: os saqueadores da Petrobras e um governo que afunda o país a cada dia.

A aliança das empreiteiras com governos no Brasil é antiga. No meu entender, é responsável pela fragilidade de nosso planejamento. São elas que ditam o rumo. Estavam organizadas num cartel chamado Sport Clube Unidos Venceremos. Unidos perderam. E naufragaram junto com o governo do PT que as levou a um nível de sofisticação e deboche sem paralelo na História. Os próprios apelidos com que os diretores da Odebrecht tratavam os políticos agraciados revelam como viam todo o sistema de doações como uma farsa. O discurso público era de viabilizar eleições democráticas.

Numa semana mais calma, comparada às que virão, posso refletir um pouco sobre como o impeachment é apenas uma condição para que o Brasil comece a mudar na direção de uma verdadeira democracia. Os que defendem Dilma em nome da democracia omitem o mensalão e o Petrolão, verdadeiros ataques à democracia. O que adiantava estar no Congresso debatendo com deputados previamente comprados pelo governo? De que adianta fazer campanha contra máquinas poderosas, azeitadas pelo dinheiro da corrupção? Este tipo de democracia é uma fraude. Sei porque vivi intensamente todos esses anos, desde a retomada da democratização.

Na verdade estou até escrevendo um livrinho, “Democracia Tropical, cadernos de um aprendiz”. A expressão aprendiz não é fortuita. No século passado, desprezávamos a democracia e lutávamos pela ditadura do proletariado. Quando vejo um militante de esquerda, como Guilherme Boulos, dizer que seu movimento vai incendiar o país em caso de impeachment, leio incendiar o país contra a Constituição. Só espero que a violência contra a democracia seja tratada com todos os instrumentos democráticos. Não cair na tentação de atropelar a lei. O consenso democrático é uma força tranquila, à altura da paz dominical das grandes manifestações pelo impeachment. Não creio que a oposição dará a Lula seis meses de trégua. Sinceramente, daqui a seis meses ninguém sabe onde estará. Começou o outono, e de Curitiba costumam soprar ventos frios.

'Pelé' chegou tarde

O governo de Dilma Rousseff se aproxima do final. O impedimento da presidente é o cenário básico de 9 entre 10 consultorias de política país afora. A conversa corrente entre os consultores políticos é que somente um fato novo extremo –por exemplo, suicídio do ex-presidente Lula ou mesmo um atentado ou algo do gênero– seria suficiente para estancar o processo político de impedimento da presidente.

A crise econômica resulta da sobreposição de duas dinâmicas: o péssimo desempenho da produtividade, que resulta dos efeitos defasados do desastrado intervencionismo da nova matriz econômica, em associação a uma crise fiscal aguda que redunda em desequilíbrio estrutural das contas públicas.

Ao longo de 12 anos, de 1999 até 2010, nosso desequilíbrio fiscal ficou escondido, pois nesse período a receita recorrente real da União cresceu a 6,8% ao ano, para um produto real que crescia a 3,4% ao ano.

De 2011 até 2014, a receita real recorrente da União passou a ter um comportamento normal: cresceu à mesma velocidade da atividade econômica. Quatro anos de vida normal da receita foram suficientes para tornar o superavit de 2% em 2010 em um deficit recorrente de 1,5% em 2014.

No primeiro mandato, a presidente decidiu não enfrentar a agenda fiscal estrutural. Empurrou com a barriga quatro anos. Para esconder os problemas fiscais, utilizou diversos artifícios: receitas não recorrentes, contabilidade criativa e, por fim, pedaladas fiscais.

Para ganhar as eleições, mentiu de A a Z. Aos seus eleitores e à sociedade. Empregou políticas que, ao custo de agravar ainda mais nossos desequilíbrios, sustentaram o emprego e a renda até a eleição. Adicionalmente, protagonizou, sob a liderança de João Santana, campanha agressiva e mentirosa demonizando os adversários. Muitas pontes foram queimadas.

O volume enorme de mentiras, a alteração abrupta do desempenho econômico, as pontes queimadas na campanha, agravadas pela incompetência política aguda nos primeiros cem dias do segundo mandato, minaram qualquer capacidade de governar da presidente. O Pelé do PT foi chamado tarde demais. Talvez, há seis meses, teria dado tempo.

Em maior ou menor grau, todos praticam estelionato eleitoral. Fernando Henrique Cardoso praticou em relação ao câmbio, mas não em relação ao ajuste fiscal. Na política, a quantidade importa.

É possível argumentar que as eleições presidenciais americanas são ainda mais violentas –é verdade. Mas as instituições políticas americanas são majoritárias, não requerem no dia seguinte da eleição o nível de consorciativismo requerido por nossas instituições.

Aqui é necessário entender a lógica do sistema e jogar segundo as regras: as formais e as informais. A presidente ganhou perdendo. É presidente, mas não governa.

Em vez da bela imagem de FHC passando a faixa a um candidato oposicionista, legando uma economia crescendo pouco mais de 2% e um superavit primário de 3% do PIB, teremos a presidente saindo pelas portas dos fundos do Palácio do Planalto, que será ocupado pelo seu vice, sabe-se lá até quando, e a economia na maior depressão dos últimos 120 anos.

O erro do PT foi jogar o jogo da política sem se preparar para o retorno à oposição. Pagar qualquer preço para se perpetuar no poder é, do ponto de vista do longo prazo de um partido, estratégia desastrosa. Persistir na estratégia de alongar esse governo somente aumentará os custos para o país e para o PT.

Não é preto e branco

Se preto e branco fossem as únicas cores da realidade, tudo seria mais fácil. Haveria somente duas opções para qualquer problema. E número limitado e pequeno de opções. Seria bom se fosse verdade. Infelizmente, não é. Imagens em branco e preto são sempre formadas por tons de cinza. Infinitos tons de cinza.

Visões bipolares da realidade não oferecem informação ou ações uteis. Servem apenas para enganar os sentidos. Justificam comportamentos questionáveis. Preservam o status. Tornam inexequível qualquer tentativa de reforma ou mudança.


Explicar desafios, riscos, problemas e custos através da batalha entre bom e mau já não satisfaz, nem mesmo como desculpa. Justificar o estado de coisas com vitimizações e mistificações apenas serve para desviar o foco. E, às vezes, não nem para isso serve.

Mistificações protegem os culpados, obscurecem a analise, e matem o status quo. Por isso, e não somente por isso, devem ser evitadas. Culpados, claro, devem sempre responder por suas ações, sem que suas biografias sejam consideradas escudos ou desculpas para delinquência.

Mas não deixa de ser perturbador o tamanho, a frequência, e o numero de pecados. E, claro, o volume e importância dos pecadores. Muita gente, muito frequente e muito grave para ser coincidência.
Por traz de tantos comportamentos discutíveis existem razões coletivas. E estas, devem ser identificadas, endereçadas e corrigidas. Apenas punir pecadores sem tomar medidas que impeçam a reincidência futura destas condutas não é suficiente. Demorou a chegar onde chegamos. E nada indica que sairemos rápida, ou facilmente. Tudo indica, será travessia lenta e sofrida.

Como todos os grandes desastres, sua gênese foi discreta, quase imperceptível aos olhões nus. Começou com um país cansado da desigualdade. Justiça social precisava mesmo ser incluída na agenda. E foi assim que um país inteiro abraçou ideias e ações. E esqueceu-se de controlar sua execução.

Sem controle, boas intenções se tornaram condutas criminosas. Fins nobres serviram como justificativa para condutas não republicanas. E os erros se espalharam como vírus. Insidioso, resoluto, rápido e fatal, infectou instituições, organizações, mentes e almas. Até que o errado virou norma.

E como é comum nos casos em que as ações traem os valores, criou-se narrativa para justificar os (como gostam de dizer) malfeitos. Negam-se os fatos. Quebram-se os termômetros. Eliminam-se os mensageiros. Discutem formas, processos, e chicanas enquanto o conteúdo é deixado em segundo plano, e, de preferencia, ignorado.

Felizmente, já não mais é possível tampar sol com peneira. Impossível reduzir tudo a obsoleta narrativa maniqueísta. Não cola mais. Espero.

A agonia de Dilma em verbetes

Chega às livrarias nos próximos dias, pela Record: “Que horas ela vai? - O diário da agonia de Dilma”, de Guilherme Fiuza.  São frases e tiradas sarcásticas que Fiuza escreveu ao longo dos anos Dilma, agora retrabalhadas para o livro, que é organizado em verbetes. O subtítulo — O diário da agonia de Dilma — o resume.

“Dilma afirma que a democracia brasileira é adolescente. Ou seja, terá que responder também por corrupção de menor.”
"Erenice girou quase R$ 500 milhões fraudando a Receita. Ela era braço direito de Dilma. Se fosse o esquerdo também, chegaria fácil ao bilhão".
“Neta do Lula mente para atacar O Globo. É a prova de que o DNA do messias atravessa intacto pelo menos duas gerações.”

Lula, exposição necessária

Via Crúcis
Lula, Dilma Rousseff e a tropa petista ficaram escandalizados com a decisão do juiz federal Sergio Moro de suspender o sigilo dos autos da 24.ª fase da Operação Lava Jato. Eriçaram-se especialmente com a divulgação dos grampos que captaram conversas telefônicas de Lula durante 27 dias. O caudilho e sua criatura, desesperados, vociferaram contra o secundário para tentar fugir do essencial: a presidente da República cometeu crime de obstrução da Justiça, dando à Câmara dos Deputados motivos mais que suficientes para avançar no impeachment. É disso que se trata.

Informado pela força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, concordou com o pedido para a revogação do sigilo das interceptações telefônicas que captaram uma conversa entre a subpresidente Dilma Rousseff e o presidente de fato Luiz Inácio Lula da Silva. Janot disse que a divulgação da conversa entre Lula e Dilma não afrontou as garantias constitucionais da Presidência, pois o alvo da interceptação era o ex-presidente, que não contava com foro privilegiado.

O governo tenta desviar o foco do principal, que é de grande relevância: o crime de obstrução da Justiça praticado pela presidente da República. A divulgação do diálogo entre Lula e Dilma evidencia que o intuito da nomeação de Lula para a pasta da Casa Civil foi blindá-lo do pedido de prisão preventiva que seria examinado pelo juiz. Tal gravação comprova que foram feridos quatro princípios fundamentais da administração pública, listados na Constituição da República: o princípio da moralidade (nomeação para ministro de Estado de um investigado por corrupção), o da impessoalidade (nomeação no interesse pessoal do amigo, e não no interesse público), o da eficiência (nomeação exclusivamente para blindá-lo, não em virtude dos atributos para o exercício do cargo) e o da legalidade (desvio de finalidade na nomeação).

Sergio Moro tinha o dever de tomar a providência. Se não o fizesse, seria até caso de prevaricação. Como salientou recente editorial do jornal O Estado de S. Paulo, esse “episódio mais a divulgação das gravações feitas com autorização da Justiça das conversas telefônicas de Lula prestaram ao País o importante serviço de mostrar exatamente o que o chefão do PT, a presidente Dilma e seus interlocutores pensam a respeito do atual cenário político. Graças à correta iniciativa do juiz Sergio Moro de levantar o sigilo das gravações, os brasileiros puderam constatar, de maneira indesmentível, que com essa gente não há ‘conversa republicana’”.



O que se ouve nos diálogos de Lula mostra a recorrente intenção de cometer ilegalidades e de usar o Estado em seu proveito e proteção. “Era preciso você chamar o responsável e falar ‘que porra é esta?’”, ordenou Lula ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, referindo-se à Receita Federal. O ex-presidente havia sugerido ao ministro acompanhar o que a Receita fazia juntamente com a Polícia Federal, avisando que o Instituto Lula mandaria para ele as informações sobre a atuação dos fiscais. O ministro diz: “Conta com a gente para o que der e vier”. Que apoio o ministro oferece ao ex-presidente?

Lula continua: “Você precisa se inteirar do que eles estão fazendo no instituto”. O ministro comenta que “eles fazem parte”. Quer dizer que a Receita integra a Operação Lava Jato. Lula diz que, se “eles fizessem isso com meia dúzia de grandes empresas, resolvia a arrecadação do Estado”. Diante dessa proposta de uso da Receita, o ministro diz “uhum”.

Depois de mandar que o ministro chame o responsável para admoestá-lo com palavrões, ele dá a lista dos que gostaria que fossem alvos, “a Globo, o Instituto Fernando Henrique Cardoso, o SBT, a Record”, e solta outros palavrões. O ministro em resposta pede que Paulo Okamotto envie para ele os papéis do instituto. Lula reclama de que uma investigação contra a revista Veja está parada desde 2008. E manda outro palavrão aos agentes da Receita Federal. O ministro disse que mandou apurar a razão de haver “velocidade diferente” de investigação.

Ao contrário do que Lula costuma apregoar, nada no diálogo é republicano. É uma tentativa clara de uso e controle da Receita Federal.

Enlouquecidos com o poder, Lula e os companheiros se mostram nos grampos em toda sua feiura moral. Debochados, grossos, cínicos, preconceituosos, arrogantes. Os melhores trechos são aqueles em que Lula e seus seguidores revelam o que têm por dentro: mentira e hipocrisia.

Numa conversa com a presidente da República, por exemplo, Lula se queixa da imprensa e da Lava Jato. Reclama da falta de reação: “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado. Somente nos últimos tempos é que o PT e o PCdoB começaram a acordar e começaram a brigar. Nós temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido. Não sei quantos parlamentares ameaçados. E fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar. Sinceramente, eu tô assustado com a República de Curitiba”.

Na imagem produzida pelo marketing petista, o governo apoia as investigações e a independência do Judiciário. No escurinho do celular, Lula quer esculhambar as instituições e acabar com a Lava Jato.

O juiz Sergio Moro atendeu ao princípio da publicidade ao retirar o sigilo da gravação, já que o interesse público justifica claramente sua divulgação. Não houve invasão da privacidade do ex-presidente. A informação era um dever. É uma clara questão de interesse público. Os grampos rasgaram a embalagem e mostraram o produto. Lula, despido das lantejoulas de João Santana, é torpe e indigno. Um triste capítulo da nossa História.

Brasil fica para depois

Passear pelas milhares de linhas assinaladas a cada dia, mesmo a cada hora, se intoxicando de informação, propicia a quem quer colocar tudo num saco de gatos para poder se safar. No quebra-pau destes tempos no país, mais do que nunca há que se pensar, e muito, sobre os acontecimentos, que não são poucos. 

O que está em jogo é a briga pelo poder com a judicialização do Legislativo, a politização do Judiciário e a vitimização do Planalto. O poder petista embaralhou as regras, pois está aí para confundir. Quanto mais embaralhado, melhor. Ou seria quanto pior, melhor?

Nesta confusão entre conceitos e brasileiros, o que temos certeza é que o governo deixou de governar e levou o país para o brejo, por livre e espontânea vontade. Deixou de se explicar, como os petistas fugiram sempre de qualquer explicação, preferindo apelar para manipulações retóricas quando não para o ilusionismo de promessas e a arregimentação das massas (pagas).

Os erros de Dilma sempre foram claros. Péssima administradora e ainda pior conciliadora, mostrou arrogância até em errar como quando presidiu o Conselho da Petrobras ou ocupou a Casa Civil. Não há defesa que sustente sua prepotência de também gerir a articulação política. E agora demonstra o desastre total em respeitar a faixa presidencial. Saiu pro pau contra a Justiça, quase aparelhou o governo e investiu no bero troglodita partidário. Achou-se dona do Estado, quando é apenas mera servidora com prazo de validade.

A chamada Oposição, que sempre foi cúmplice na maracutaia com culpa no cartório, não tem nada com a crise econômica, porque não manda no Ministério da Fazenda. Jogar a culpa no Legislativo pelo mal funcionamento da economia é como Lula jogar o desastre do desemprego no colo de um juiz de 1º instância. Confete para alegria dos militantes.

Quanto ao PT e Lula, são o que eram quando oposição: não há adversário, há inimigos que não pensam como nós. É de um primarismo político extremo bem próximo do autoritarismo dos anos 1960. Os argumentos que usam cheiram a naftalina e nunca se adaptaram a novos tempos como apregoam. Nunca explicaram a participação no mensalão, mesmo praticamente envolvidos com eminentes figuras do partido presas. No petrolão, também recusam explicações sob alegação de inocência.

Se prenunciam um golpe, é para se vitimizarem. Erraram amplamente como partido e governo. Não podem culpar outros pela atual situação e atacarem o impeachment que é constitucional. Mais uma vez erram ao irem contra a Constituição e jogarem todos seus batalhões mercenários neste lance.

Nesta sucessão de erros Dilma, Lula e o PT esqueceram o Brasil para se dedicarem demagogicamente à luta contra o fim do governo. Como um bando vira-lata, se degladiam pelo osso como garantia de sobrevivência.

Talvez seja o maior crime que cometem: incendeiam o país, confundem cidadãos, embaralham poderes, em nome de assegurar o Poder. Ah, o Brasil, bem, fica para depois, mas está nos planos petistas, apenas como o osso que os mantém livres do xilindró e sobrevivam nos vinhos e charutos, no melhor estilo republiqueta.

'Profissionalismo'

Isso significa conseguir o que se quer por meio de mentiras e manipulações. Significa ordenar nossas prioridades segundo a cobiça e a vgantagem, em lugar do desejo de ver a bondade e a justiça prevalecendo no mundo. Se esse é o "profinalismo" a que o senhor se refere, não gosto dele e não tenho vontade de adquirí-lo
Kazuo Ishiguro

O Brasil que queremos

Vê-se em todos os espaços o reconhecimento da importância das redes sociais na construção de uma nova realidade política e social. No mundo e no Brasil. É inegável que a internet, de alguma forma, substituiu parte considerável da imprensa na sua capacidade de penetrar na consciência das pessoas para fazê-las presentes em torno de temas antes reservados a segmentos bem identificados, muitos quase sempre próprios à classe política e às lideranças de acaso. A denúncia, o debate e a participação política se deslocaram para os meios digitais, e é daí, para quem fez tal opção, que se espera que as decisões emerjam. Nessas redes seus seguidores são amealhados e também aí se organizam concentrações, alegres encontros de domingo e veementes protestos. Soluções, nem sempre. Política, mais do que nunca, virou coisa de político, essa classe hoje evitada e segregada, de forma horizontal, numa generalização no mínimo perigosa, mas certamente desconstrutiva, míope, despótica. Os partidos também viraram lixo. Verdade que não é totalmente sem razão: nossos políticos, com exceções, claro, construíram essa repulsa, hoje consolidada na consciência de uma sociedade, reconheçamo-nos, pouco presente, omissa, imediatista e mal servida na estruturação de suas decisões. As que se dão através do voto, mais especialmente, torpe e infame. Escolhemos mal, elegemos pior e porcamente, no atacado.


Certamente é que hoje a opinião no Brasil é o resultado dos conceitos forjados nas redes sociais e os polos se dividem entre vermelhos ou coxinhas. Qualquer uma das duas designações é, no confronto de ambas, pobre, abominável, ineficaz a não ser para gerar palavrões e sopapos. São identificados como quem grita ‘fora’, é contra a corrupção, contra a bandalheira, contra o nepotismo, os favores pagos pelo dinheiro público, contra a alta carga tributária. Bem pensando, todo Brasil quer mudanças. Propostas, temos poucas; do preço que se pagará por elas ninguém quer saber, mas se desejam mudanças. Queremos reformas. Somos, todos, contra a corrupção e as bandalheiras, especialmente porque ela não é uma prática horizontalizada, republicana; esta que combatemos está reservada a uns poucos ‘felizardos’, ladrões, grupo que, graças a Deus, não integramos. Também não aprovamos o nepotismo, o empreguismo, os favores obtidos na intimidade dos gabinetes. Somos concursados, ainda que um dia alguns tenham ingressado na folha do serviço público em cargos menores e obtido promoções das formas mais abomináveis e imorais; não importa o jeitinho. Somos também contra a alta tributação do trabalho e da produção, muito embora muitos aceitem comprar produtos e serviços mais baratos sem nota fiscal, sem recibo, sem registros, o que frauda a arrecadação de impostos. Dependendo, somos contra conquistas dos trabalhadores ou por elas lutamos. Questão de lado e opção de justiça social.

O certo é que estamos longe do ideal. Não se constrói uma nação com falcatruas, com negociatas, com mentiras, com o assalto sistemático e criminoso ao caixa do erário e ao patrimônio público. Mas também não chegaremos a lugar algum com a intransigência, com a segregação, com o ódio, com a força e com a violência. Precisamos de coragem, de grandeza, de renúncias, de participação, de reformas urgentes, reais e factíveis. Querendo ou não, virar essa página vai requerer sacrifícios. Trabalho e consciência nacional.

Dilma precisa contar o que faz para dormir 'bem'

Desde que o governo Dilma começou a deslizar para o caos, o país espera por um sinal de que o fim está próximo. O desembarque do PMDB, nesta terça-feira (29), talvez fique, no resumo do ocaso da gestão petista, como uma apoteose às avessas da impotência que desgoverna o Brasil. Convém dizer “talvez” para não correr o risco de carbonizar a língua. A qualquer momento pode surgir uma antiapoteose mais marcante.

A crise se arrasta há tanto tempo que já existe uma coleção de episódios que poderiam funcionar como bons epílogos. Mas quando a coisa parece estar mal, tudo fica muito pior. No instante em que o Planalto assimila a notícia de que o Delcídio foi gravado tentando comprar o silêncio do delator Cerveró, vem a revelação de que o senador também suaria o dedo.


Na hora em que as denúncias do ex-líder do governo ganham as manchetes, fica-se sabendo que o Mercadante foi gravado oferecendo vantagens a Delcídio para que travasse a língua. No momento em que o ministro mais chegado à presidente ofende a inteligência alheia com o lero-lero de que agira por razões humanitárias, a presidente resolve dar um autogolpe, nomeando o Lula para a Casa Civil.

A plateia mal havia digerido a conversão do foro privilegiado em “desaforo privilegiado” e o Sérgio Moro enrolou na garganta de Lula as fitas do grampo em que o morubixaba petista soa fora de si, escancarando o que tem por dentro.

Ainda soava no noticiário o diálogo em que Dilma informa a Lula que está enviando pelo “Messias” o ato de nomeação —para ser usado “em caso de necessidade”—quando sobreveio a liminar do Gilmar Mendes. Nela, o ministro do STF susta o salvo-conduto e devolve Lula à “República de Curitiba”. O juiz Moro não teve nem tempo de saborear o retorno, já que o Teori Zavascki mandou silenciar os grampos até que o Supremo decida o que deve ser feito.

Assim tem sido a rotina de Dilma. Quando conserta a antena do Planalto, estoura a privada do Alvorada. Não passa dia sem que haja um novo problema. Como se não bastasse a divisão interna do PT e todo o resto, o PMDB anuncia que irá para a oposição nesta terça-feira. O PP ameaça desembarcar na sequência. O PR e o PSD também.

Dilma repete aos auxiliares algo que disse na semana passada a jornalistas estrangeiros: “Não sou uma pessoa depressiva. Eu durmo bem à noite”. Não sei quanto a você, mas eu quero uma porção do que Dilma está comendo, bebendo ou inalando, seja o que for. Diante de tudo o que se passa, quero viver no país que embala o sono da presidente da República, seja ele onde for.

Quando impeachment era legal...

Agonia de uma lenda

Acontece no Brasil algo tão transformador quanto a luta contra a corrupção. É o desmascaramento da mentira como instrumento de governo, da ficção como prática política.

A investigação conduzida pela operação Lava-Jato nos trouxe de volta ao mundo real. Revelou mais do que um gigantesco crime organizado por um partido político, acumpliciado com empresários inescrupulosos. Desvelou o caráter impostor de lideranças que abusaram durante anos da confiança de seus eleitores. Com a mão direita, ofereciam Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, políticas necessárias e louváveis. Com a mão esquerda, assaltavam a Petrobras, destruíam a golpes de desonestidade e incompetência a economia do país, gerando desemprego, o que realimenta a pobreza. Enquanto enriqueciam suas contas bancárias. No botim do PT brilha, roubada, a esperança dos pobres. E isso é o mais imperdoável.

Investigado por crime de ocultação de patrimônio, o ex-presidente Lula foi para as ruas reavivar sua lenda e, com gestos histriônicos, garantir que o perseguem porque “eles” não querem que os pobres melhorem de vida.

Quem são eles, esses personagens da ficção de Lula? Os milhões de brasileiros que país afora saíram às ruas contra a corrupção? São milhões de malvados, reacionários e egoístas? Nessa ficção de péssima qualidade, o justo precisa dos maus, precisa de um algoz para ser vítima.

A varinha de condão do pai dos pobres transforma, então, as manifestações contra a corrupção e o fracasso do governo em artimanha da direita. Divide o país entre direita e esquerda, retrocedendo em meio século a nossa história, desqualifica o que hoje emerge com força: a consciência democrática, que abriga esquerda, direita e demais as nuances de opinião, contanto que respeitem a lei.

A ficção que Lula e seu partido escrevem sobre si mesmos, com a assessoria do ilusionista João Santana, que já está preso, não resiste à capacidade de discernimento que a população brasileira desenvolveu nos últimos anos. O aumento da escolaridade, a informação ampliada, o debate intenso nas redes sociais e a retroalimentação desses fatores amadureceram uma sociedade com senso crítico, capaz de formar, por si mesma, suas convicções. Depois de tantos anos jogando com a fé cega de seu eleitorado, é difícil para o ex-presidente admitir que o encanto tenha se quebrado.

Seu partido, na ficção, mantém viva a esquerda brasileira. Na vida real, matou-a. O que a direita não tinha conseguido fazer ele fez. Jogou na vala comum da criminalidade uma causa generosa que ainda mobiliza muitos militantes honestos, hoje atarantados, como mobilizou a minha geração na luta contra a ditadura, fundadores cuja memória o PT desrespeitou, frequentando doleiros e offshore. Acordou uma direita adormecida há três décadas, que encontrou nos seus desmandos o argumento fácil para abrir uma brecha no espectro político até então blindado a ela.

Acuado pelos próprios fracassos, escuda-se no papel de defensor dos pobres. Ora, não são os ideais de justiça, de combate à pobreza e de equidade — que não são propriedade de nenhum partido — que estão em causa. É um sistema de poder que, construído sobre a mentira, nas últimas eleições se elegeu prometendo o que sabia impossível cumprir. E não cumpriu.

Quem ganha com o descrédito dessa ficção não são os políticos de oposição, é o Brasil. O Brasil que está sendo passado a limpo pelo trabalho da Justiça, um país onde as instituições estão funcionando, apesar do baile de fantasmas que ainda dançam no Congresso Nacional e que, na mira dos juízes, têm seus dias contados.

Esses tempos de tensão e desavenças são o preço que a sociedade está pagando pelo difícil enfrentamento da verdade, pela agonia da lenda. São as dores do parto de um novo país. Duas grandes manifestações pacíficas, cada uma juntando milhões de pessoas, deram um relevante testemunho sobre a solidez da nossa democracia.

Essa jovem democracia quer viver na realidade. Esquerda e direita são categorias anacrônicas que não dão conta do mundo contemporâneo. Vai ser preciso encarnar o desejo de uma sociedade mais justa em ideias e propostas que leiam nossa sociedade atual e, sobretudo, em uma gente nova que está emergindo dos milhões que desfilaram nas ruas no dia 13 de março, que não foram guiados por ninguém e sequer abriram espaço aos velhos políticos de oposição. Não seguiam líderes, apenas exprimiam um tributo merecido à coragem do juiz Sérgio Moro.

A mentira tem autoria, serve ao seu autor. O fato é o autor da verdade. E a verdade serve a todos.
Rosiska Darcy de Oliveira

A democracia, não o demo

Frequente em discursos de muitos, até daqueles que por ela não nutrem qualquer apreço, a democracia vem sendo vítima do governo brasileiro, um serial killer obstinado que finge o inverso, mas tudo faz para aniquilá-la.

Cotidianamente, a doutrina que rege mais da metade das nações do mundo tem sido espancada por aqueles que teriam a obrigação maior de praticá-la e protegê-la, mas que só se importam em preservar a própria pele.

Democracia é um conceito complexo. Exige muito de todos. Até os países que exibem maturidade e solidez derrapam. Levantamento da revista The Economist, Democracy Index 2015, aponta que apenas 20 dos 96 países enquadrados como democracias exercem o regime em sua plenitude. O Brasil aparece entre as “democracias imperfeitas”, em 51ª posição, com notas que vêm decrescendo a cada ano. Em 2006, quando a série iniciou, o país alcançou 7.38 pontos. Agora, 6.96, com perdas significativas na participação popular e no funcionamento do governo.

Uma imperfeição que a presidente Dilma Rousseff, o ex Lula e o PT têm feito questão de acentuar.

“Em defesa da democracia”, Dilma usa o Palácio do Planalto para bradar “não vai ter golpe” e outras palavras de ordem contra o seu impeachment. De uma só vez cede a sede do governo ao seu partido e golpeia de morte a instituição Presidência da República, que dela quer se afastar e não sentirá saudade alguma quando ela se for.

“Em defesa da democracia”, movimentos autoproclamados populares ameaçam incendiar o país caso a presidente seja legalmente afastada.

“Em defesa da democracia”, Dilma e o PT atropelam tudo e todos para fazer o ex Lula ministro e, assim, poupá-lo de eventual prisão iminente.

“Em defesa da democracia”, Lula solicita regalias a ministros para se safar da “perseguição” da Lava-Jato e denuncia que parte da oposição prepara um golpe, como se impeachment, com regras definidas pela Suprema Corte, fosse inconstitucional. E repete que ele, sempre ele, vai tirar Dilma dessa.

Tudo feito “em defesa da democracia”.

No palanque montado em um encontro de sindicalistas, na quarta-feira, 23, Lula expôs por completo a sua visão autocrática, mítica e mística. Um papel que em nada combina com a democracia. Depois de explicar que a elite conservadora tem dificuldade para aceitar que o povo cresceu em consciência e maturidade política e que isso foi fundamental para elegê-lo presidente, disparou a máxima: “Eu sou o resultado da consciência política dos homens e mulheres deste país”.

Fraca no que diz respeito à governança, a posição mediana do Brasil no ranking mundial de democracia começou a ser ameaçada em outra frente: a liberdade de expressão, que desde a primeira pesquisa conferiu as maiores notas ao país. Mas a insistência dos autointitulados defensores da democracia em acusar a mídia pelos dissabores de Dilma, Lula e seus asseclas, pode pôr isso a perder.

Useiros e vezeiros em inverter os sinais, os valores e o sentido das palavras, Dilma, Lula e os seus não enxergam outra saída a não ser a de tudo misturar. Todos são culpados pelos erros que eles e só eles cometeram e continuam a cometer. Polícia, Justiça e a maioria dos brasileiros, instigados pelas elites - exceto a elite de amigos presos em Curitiba - e pela mídia golpista são os responsáveis por todos os males, por todas as crises, pelo desemprego, pelo PIB negativo.

Ao insistir na insustentável existência de um complô de direita - um adjetivo que determina o lado físico e que na geografia política mundial nada mais diz -- escorraçam o Direito, substantivo que define aquilo que é justo, reto e em conformidade à lei.

À democracia, preferem o demo (demônio, diabo), verbete que a antecede no dicionário.

domingo, 27 de março de 2016

Tudo desigual

De todas as aberrações criadas na vida do país por Dilma Rousseff, pelo PT e pelo ex-presidente Lula, é difícil escolher uma campeã indiscutível, claramente maior que todas as outras hoje em circulação. Teria mesmo de ser assim. Todos eles, lá atrás, parecem ter se encantado com as teorias da “destruição criativa”, que se pretendem capazes de resolver problemas fazendo o contrário do que a lógica recomenda; chamam a isso de “quebra de paradigmas”.

É óbvio, no caso, que alguma coisa deu espetacularmente errado. Tudo o que conseguiram na prática, após um esforço que já dura treze anos e três meses, foi provocar destruição destrutiva. A consequência é essa inédita situação de anarquia no seu próprio governo, no ambiente político, no mundo da produção e do trabalho, na moralidade pública, no Tesouro Nacional, no respeito elementar às leis e, no fim das contas, em tudo aquilo que pode ser piorado, intoxicado e arruinado pela ação das autoridades da República.

Qual seria o desastre campeão? É duro escolher, até porque eles conseguem fabricar uma calamidade nova por dia, mas com certeza um concorrente muito bem cotado é a alarmante carga de cavalaria que Lula faz no momento contra as normas gerais da democracia e a paz pública, com o único propósito de fugir das suas complicações com a Justiça Penal brasileira. O homem desistiu, definitivamente, de defender-se dentro das leis. Nomeou a si próprio para um terceiro mandato, como chefe da “Casa Civil”, e passou a presidir o país ─ em benefício exclusivamente pessoal, da família e do condomínio formado à sua volta desde 2003 para mandar no Brasil e transformar os bens da nação em propriedade privada dos que mandam.

Pode ficar pior ainda, porque sempre pode ficar pior. Mas cada dia tem a sua agonia, e as misérias do momento já colocaram a vida pública do país no ponto mais baixo em que esteve até hoje em sua história. Dilma foi gravada dizendo a Lula que ia lhe mandar o “termo de posse” como ministro, para ser usado “em caso de necessidade”; não houve sequer um disfarce mínimo para ocultar que estava sendo feita uma trapaça, ou para fingir que a nomeação tinha alguma coisa a ver com o interesse público. Fizeram uma “edição extra” do Diário Oficial na véspera da posse de Lula, para ele se esconder o mais rápido possível das investigações de corrupção da Operação Lava Jato ─ é o mais perto que se poderia chegar de uma falsificação de documento público. Dilma Rousseff virou um trapo. Vive uma humilhação inédita para alguém no seu cargo; conseguiu ser expulsa do próprio governo. “Fora, Dilma”, como grita a rua? Ela já foi. Seu ministério tornou-se um esconderijo.

Dilma é tratada por Lula como se fosse sua empregada; na inesquecível gravação em que se prontifica a entregar-lhe o “termo de posse” preventivo, não recebe dele sequer um “obrigado”. É impossível acreditar que possa dar alguma ordem que desagrade a seu novo ministro da Casa Civil. O presidente de verdade, é claro, não vai apenas se esconder do juiz Sergio Moro atrás da porta do ministério: vai jogar toda a máquina do governo no esforço para não ser processado, preso e condenado. No momento em que mais de 1 milhão de pessoas vão às ruas em São Paulo, e mais de 2 milhões de outras protestam em 500 cidades do país ao mesmo tempo, para dizer que não querem mais saber de Lula, é o maior pontapé que se poderia aplicar na opinião pública brasileira.

No começo de sua carreira política, quando se apresentava como um idealista não contaminado pela politicagem, Lula disse que no Brasil só preto e pobre vão para a cadeia. “Ladrão vira ministro”, garantiu ele na ocasião. Falou de livre e espontânea vontade: a responsabilidade pelo que disse é exclusivamente sua. Essas palavras saem do túmulo, hoje, para assombrar a sua entrada no ministério. Elas completam a cachoeira de palavrões que utilizou nos telefonemas gravados pela polícia ─ uma sequência que entrará para a enciclopédia dos contos de terror da política brasileira, com os insultos que dirigiu ao STF, ao STJ, ao Congresso, aos presidentes do Senado e da Câmara, ao procurador-geral da República, a ex-colegas de partido e quem mais entrou no radar da sua ira. Além e talvez acima de tudo, Lula, o PT e seu sistema de propaganda tentam vender uma ideia perversa, de que na política brasileira tudo e todo mundo é “igual” ─ ou seja, ficar contra a presente calamidade é pura perda de tempo, pois com este ou outro governo vai dar sempre na mesma. É mentira em estado puro.

Não vai dar na mesma, porque nada pode se igualar ao que está acontecendo. Ao contrário, é tudo desigual ─ e nunca os fatos deixaram isso tão claro.

Momentos de tensão e decisão

O país está nervoso. A maioria do povo brasileiro quer a saída da presidente Dilma. É o que mostram as pesquisas. O processo de impeachment da mandatária-mor foi instalado. E a polêmica se estabelece. “Não vai haver golpe”, bradam milícias do PT, sob a orientação do maestro Luiz Inácio e da pupila presidente. Dois ministros do Supremo Tribunal, Carmen Lúcia e Dias Toffoli, e um ex-ministro que dirigiu a Corte, Carlos Ayres Britto, proclamam no mesmo dia: o impeachment é legal, se obedecido o rito determinado pela Justiça. As redes sociais se enchem de manifestações a favor e contra o impeachment. Qual será o desfecho da acirrada disputa?

Partamos da hipótese de que o exército governista consiga vencer a luta. Significa: preservar o mandato da presidente, consolidar a figura do ex-presidente Luiz Inácio como ministro-chefe da Casa Civil e distribuidor das cartas do jogo administrativo. Segura no governo o PMDB e outros partidos governistas. Dentro de seis meses, Lula fará uma guinada na economia, pela qual o povo voltaria a ter dinheiro no bolso. Meio ano seria suficiente, como prometeu em discurso, para fazer voltar a alegria ao país. Deixemos de lado a análise de como realizaria o milagre. Admitamos apenas que Deus é brasileiro e, petista de carteirinha, faria jorrar dos céus o maná para apaziguar nossas desesperanças. Sob um manto vermelho, ajudaria Dilma, Lula, o PT, a CUT e o MST a recuperarem prestígio e força.


Tentemos, agora, encaixar no entorno dos Palácios do Planalto e da Alvorada outras hipóteses. A sobrevivência da presidente e do ex, sob o prisma da preservação de forças, depende fundamentalmente do Poder Judiciário. Que não poderá enterrar as bombas tiradas do arsenal do senador Delcídio Amaral, das delações de executivos da Odebrecht e de outros artefatos em preparação, como a aguardada carga de informações do ex-presidente do PP, deputado Pedro Correa. Ele garante que Lula foi o inspirador do mensalão e do petrolão. Desse modo, a Operação Lava Jato puxará Dilma e Lula para o meio do furacão. Imaginar que estariam livres da Operação comandada pela “República de Curitiba”, como Lula se refere ao juiz Sérgio Moro, é apostar alto na tese de que Deus é um fanático petista.

Pois bem, ambos serão investigados, a presidente permanecendo na alçada do STF e Luiz Inácio descendo para o foro da 1ª. instância. O pedido de impeachment, mesmo sob o argumento da irresponsabilidade cometida com o uso de pedaladas fiscais, ganha impulso na onda da contrariedade social, alavancada pelo desemprego, alta inflação, maracutaias descobertas e políticos recebendo recursos de empresas. Soma-se a esse acervo negativo mais um pedido de impeachment, desta vez feito pela Ordem dos Advogados do Brasil, que junta outras situações. A fogueira do impedimento não se apagará. Mas há um prazo fatal para queimar as últimas estacas: junho. Se Dilma conseguir entrar como presidente no mês de agosto, será salva. Julho é mês de férias e agosto abrirá as campanhas municipais. Brasília será um deserto. Os congressistas estarão fazendo campanhas nas bases de seus candidatos a prefeito.

Ainda na esteira da reflexão lateral, pensemos no papel de Lula. Se conseguir ser ministro, posição que vai depender do julgamento do STF sobre suspeita que recai sobre ele e a presidente de tentarem obstruir a Justiça, perde a condição de palanqueiro e assume a vanguarda do governo Dilma. Realizará o milagre da multiplicação de pães e peixes? A propósito, esse milagre ocorreria em anos de vacas magras, padarias sem massa de trigo e mar sem piaba. Deixemos, porém, que ele e Nelson Barbosa arrumem a grana para abrir o crédito, enfiar dinheiro no bolso dos pobres e massificar o consumo. Mesma receita de 2008? Pois é, Luiz Inácio não se deu conta que o mundo mudou. Se Dilma for mantida, Lula não for condenado, enfim, se nada acontecer com eles no desfecho da Lava Jato, a economia sairá da recessão? Hum, possibilidade zero.

Emerge a hipótese: a instauração de um novo governo. Que se dará pela via do impeachment. O processo, como já se disse, será rápido, ao contrário da análise e julgamento das contas de campanha pelo Tribunal Superior Eleitoral. Nessa via, os corredores são longos, com oitivas, provas e contraprovas, embargos e recursos, fazendo com que o processo suba ao Supremo. Se houver impeachment, aliás, a tendência será a de arrefecimento dos recursos que correm no TSE. A temperatura social seria mais amena ante a perspectiva de um novo rumo para o país. Os setores produtivos querem resgatar a confiança perdida. Crer no país- essa é a chave que poderá reabrir as portas dos investimentos e dos negócios.

A militância lulopetista ameaça incendiar o país, caso a presidente Dilma seja afastada. É previsível o acirramento de tensões, que poderá gerar incidentes em alguns espaços, principalmente na arena de guerra paulistana, a Avenida Paulista, onde as alas contrárias e a favor do governo costumam se enfrentar. A tensão social deverá se expandir em função dos bolsos esvaziados das classes sociais. O conflito social no Brasil tende a se agravar. Diante desse cenário, não se descarta a possibilidade de intervenção de forças do Exército nas ruas para evitar catástrofes.

As próximas semanas serão decisivas para desanuviar os horizontes. Se o impeachment passar pela Câmara, será difícil que o Senado deixe de acolhê-lo. Afinal, quem fala pelo povo é o deputado. O Senado tende a aceitar eventual decisão a ser tomada por 342 votos. Na frente da Justiça, a liturgia também é previsível. As investigações continuarão, propiciando mais condenações e delações. É o que a sociedade espera. Apesar da sensação de que o exercício de “passar o Brasil a limpo” não tem retorno, indagações surgem aqui e ali: quantos parlamentares serão condenados? Que medidas são necessárias para mudar efetivamente os rumos da política? “Que o passado esteja diante de nós, vá lá... Mas o passado adiante de nós, sai pra lá.” A expressão artística é do poeta Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF.

PT surgiu com zelites


Há quem diga que a manifestação foi uma expressão da direita, do conservadorismo, mas essas pessoas estão muito equivocadas. Vimos que tinha muita gente nas ruas, rica e pobre. Todos são contra a corrupção ou o PT. E isso não faz delas conservadoras. Possivelmente, uma parte significativa dos manifestantes, até a maioria, tenha alta escolaridade e alto nível de renda. Mas, quando o PT ganhou as eleições, a base era justamente gente de alta escolaridade e renda. É muito indicativo que, talvez, essas pessoas, pela capacidade e possibilidade que elas têm, percebam um pouco mais rápido o que a população mais pobre leve um pouco mais de tempo para perceber.

A voz rouca da crise

A corrupção no Brasil pode acabar pela própria voz dos corruptos. O juiz Sérgio Moro quer manter as mãos limpas da Justiça, através do sucesso da operação Lava-Jato.

A corda da execução está sendo trançada pelo próprio enforcado, e o juiz Moro explica como a transparência do processo e a aliança com a sociedade são fundamentais para resistir às pressões dos poderosos que quer processar na investigação.

Sérgio Moro, dirigindo no império da Justiça e no limite da lei, promoveu a divulgação do conteúdo dos grampos de Lula que escandalizaram o país. Esse era o objetivo. Moro tem consciência que administra muito mais do que um simples processo criminal, mas a demolição de uma organização empresarial criminosa com ramificações parlamentares, jurídicas e administrativas. Só com a aliança do povo não correria os riscos cometidos na Itália pela operação Mãos Limpas, dos anos 90.

A ironia é um dos melhores temperos da História. Casos de amor terminam em tragédia, e festejados ideais podem ser levados ao esgoto. A portentosa Mãos Limpas, realizada a partir da década de 1980, na Itália, pelos magistrados Paolo Borsellino e Giovanni Falcone, começou pelas denúncias de que Bukovsky, ex-agente da KGB, estava injetando dinheiro no Partido Comunista Italiano e terminou com o testemunho do ex-mafioso Tommaso Buscetta, por ser o primeiro capo da máfia italiana a quebrar o código de silêncio ou a omertà.

Qualquer semelhança, não é mera coincidência.

Houve um momento em que a população perdeu a capacidade de se indignar. A falta de informação e a banalização dos delitos anestesiaram o caráter do povo italiano.

A farsa da História corria o risco de se repetir. O promotor Di Pietro, o homem que inventou a delação premiada na Itália, temeu a repetição no Brasil e, sobretudo, as pressões que Sérgio Moro irá receber. Ele alertou que Moro vai ser criticado e podem querer transformá-lo no inimigo da classe política brasileira e, com isso, desviar a atenção das investigações.

Sérgio Moro tem plena consciência de que a divulgação dos diálogos de Lula deixaram o mito despido. O povo fala de forma simples e descuidada, mas não gosta que sua mãe, mulher e filhas ouçam grosserias e palavras sujas. Lula esqueceu que o povo é pobre, mas é limpo.

O juiz, com frieza de cirurgião, estratégia de diplomata e malícia de feiticeiro, em 48 horas, fez o povo saber quem é o verdadeiro Luiz Inácio da Silva, que, com a publicação de meia dúzia de diálogos sórdidos, provou a seu povo que nunca foi a criatura imaginária que criaram para Lula.

O rouco e pornográfico Luiz Inácio da Silva traiu o mito Lula. Há anos, quando Sérgio Moro era apenas um grande estudioso do processo italiano, que imortalizou Paolo Borsellino e Giovanni Falcone, já sabia o papel que reservaria à opinião pública na hora exata.

“A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações”, já garantia o juiz Moro.

A voz rouquenha e o destempero oratório que fizeram de Lula o mito popular podem soar como frases musicais de seu réquiem. As palavras impróprias de Luiz Inácio e o inconveniente de entrar nas casas de família traem Lula, mesmo quando ele tenta falar como o velho líder das multidões.

Há pouco, quando do alto de um palanque, confessava que era o único capaz de incendiar o país, não mais assustava, apenas revelava a absurda irresponsabilidade que representa.

Ronald de Carvalho

Impeachment, celeridade, salvação

Rena de Pascoa demitida desemprego
Vivemos severa crise econômica e progressivo desemprego. O governo Dilma, ao segurar os preços dos combustíveis e da energia e esticar o crédito, aumentou artificialmente o consumo acima da capacidade de pagamento das famílias. Para empurrar o PAC, endividou o Tesouro - estamos a beirar uma dívida pública de 80% do PIB se nada for feito - pondo em risco nossas reservas, justamente quando assistimos ao início de fuga anunciada de capitais do país, por causa da persistente crise política. Se houver impeachment, rapidamente as coisas se resolvem pela reversão das expectativas dos agentes econômicos. Em caso contrário, afundaremos no abismo sem fundo do caos (desinvestimento, desemprego, depressão e inflação).

É por essa ótica que as empresas e seus responsáveis enxergam a situação. O impeachment, por estar previsto na Constituição, é para ser usado quando necessário; portanto, não é golpe político, à margem da lei. Incompreensível enxergar racionalidade no PT ao chamá-lo de golpe constitucional. Das duas, uma: ou são mentes confusas, ou agem, deliberadamente, de má-fé.

Dilma se diz grampeada, quanto até o porteiro do palácio sabe que o grampo era nos telefones de Lula. Má-fé? Quem falasse com ele ficava marcado na escuta judicialmente determinada. Pela escuta, soube-se que a presidente, antes de dar posse e exercício a Lula, sem o quê ninguém se torna ministro, mandou o sr. Messias entregar-lhe termo de posse assinado por ela, "caso fosse necessário", para livrá-lo da prisão. E lá vem ela, para se desculpar, dizer que o documento não tinha a sua assinatura. Sem ela, nada valeria. Com isso cometeu o crime de prevaricação e atentou contra a probidade administrativa, que o art. 85 da Constituição diz constituir crime de responsabilidade. Agiu para proteger terceiros da prisão usando o cargo.

Lula se diz do povo, mas seus amigos malfeitores são apenas de dois estamentos: os companheiros do sindicato e os maiores e mais ricos empresários de engenharia do país. Juntaram-se, empreiteiros e os sindicalistas, para saquearem as estatais, principalmente a Petrobras e as obras do PAC, refinarias e usinas hidroelétricas, em prejuízo do povo, acorrentado como animal faminto às migalhas do Bolsa Família e aos financiamentos à sonhada casa própria, às custas do Tesouro e do FGTS.

Esse é um governo honesto? É um governo socialista? É um governo eficaz? Como podem os intelectuais de esquerda ser tão crédulos, a ponto de tentar tampar o sol com peneira? Não se dão conta que pactuam com a corrupção, a roubalheira, a podridão moral? Acham que as delações são falsas? A Operação Lava-Jato recuperou milhões dos dólares furtados dos cofres públicos. São notas falsas ou provas inequívocas do esquema criminoso dos governos do PT? Acusam o impoluto juiz Moro de prender preventivamente - por razões jurídicas - senão os tribunais não as manteriam, com o fito de forçar os réus a confessarem seus crimes impatrióticos. Dizem que direitos humanos estão sendo violados. Não fossem as delações, jamais saberíamos das tenebrosas transações do PT e das empreiteiras. Nossos direitos é o que vale.

Lula jamais foi socialista, tampouco democrata; não passa de sindicalista esperto desde São Bernardo, um aproveitador de mentes viciadas na esquerda, por causa da luta comum contra a ditadura. Seu lugar na história é ao lado dos grandes demagogos e merece - apurados os fatos - pagar seus crimes na cadeia se os tiver praticado.

O panorama da intelectualidade brasileira de esquerda, mormente nas universidades, nas áreas de humanas e sociais, é de assustadora pobreza. Não se dão conta de que o mundo de amanhã já superou, faz mais de 40 anos, a dicotômica divisão esquerda versus direita. Ela não existe mais. O futuro está a exigir ética no governo, nos negócios e um Estado regulador. Todos os países têm técnicas anticorrupção e existem redes de tratados internacionais sobre o assunto. O Brasil passa ao largo desse debate, como Burkina Faso e a Guiné equatorial. A crise da representatividade política e o estanque da crescente desigualdade econômico-social que frequentam os debates nas democracias europeias não se fazem presentes em nosso país, por causa do baixo nível de sua intelectualidade universitária (sociologia, ciência política e antropologia).

As classes abastadas e média do Brasil procuram cada vez mais se fixar nos EUA e Portugal, como que atestando a desilusão com o país, sem solução. A emigração tem vários motivos. Outrora, irlandês, galegos e italianos emigravam, fugindo da fome. Ingleses e alemães das perseguições religiosas. Libaneses em busca de oportunidades. Hoje, sírios, iraquianos e afegãos, pela destruição dos seus países. Argentinos, venezuelanos e, agora, brasileiros, se vão por não mais acreditarem em seus países, suprema vergonha, dolorosa desilusão. E dizer que nada disso precisava acontecer.

O Judas errado

Maricá errou o alvo na malhação de Judas. O escolhido foi o prefeito do Rio, Eduardo Paes, que internacionalizou a "Cidade de Merda". Paes, que realmente disse a verdade sobre o estado (não os cidadãos) do município, mereceu não só ser o alvo do Sábado de Aleluia, mas constou de ataques furiosos dos políticos locais quando são cúmplice da barbaridade que se faz com o município.

O prefeito carioca foi malhado como boi de piranha. O verdadeiro culpado pela "Cidade de Merda" continua a espalhar sua porcaria por todo canto do município e até ficou agradecido pela cegueira maricaense. Ou será que "patrocinou" o linchamento para bater melhor no PMDB?

Paes poderia ser qualificado como um imbecil por sair criticando a terra dos outros, mas não tem nenhuma culpa se a cidade é franchising da empresa Lula da Silva, onde pontificam com cargos a filha, o genro e a neta de Lula. Sem contar de quebra o desgoverno de Quaquá, também presidente do PT fluminense, e uma cambada de outros petistas de merecido anonimato e igual insignificância comendo o osso.

Nos postes do município, em vez de placas do tipo "Faça a sua calçada", deveriam colocar como Judas as celebridades petistas que tornaram o governo propriedade do partido, distribuindo demagogicamente benesses e promessas, enquanto solapam a economia local.

Maricá, por uma escolha errada, perdeu a última oportunidade de malhar o verdadeiro Judas que prometeu muito e não fez nada de efetivo progresso, mas acumulou mentiras, ações judiciais e um comissariado que se tornou a primeira grande fonte de renda no município. Um prejuízo ao progresso municipal sem precedentes em mais de 200 anos de emancipação, que vai ficar para a História.

O golpe de Dilma contra o próprio governo

Se escapar do impeachment e das investigações da Polícia Federal, a presidente Dilma Rousseff terá perdido até o fim do ano 50% do segundo mandato, atolada nos problemas criados por ela mesma numa longa história de incompetência e de irresponsabilidade. A perspectiva de mais um ano de recessão e de frustração de receitas levou o governo a rever, mais uma vez, os planos para o Orçamento federal. A ambição, agora, é qualquer resultado entre um ridículo superávit de R$ 2,8 bilhões e um déficit de R$ 96,65 bilhões nas contas primárias, sem considerar, portanto, os juros da dívida. O novo cenário apresentado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento inclui um produto interno bruto (PIB) 3,05% menor que o do ano anterior e uma inflação de 7,44%.

Outro governo talvez pudesse usar o mau estado da economia como desculpa, mesmo precária, para as dificuldades fiscais. Política e moralmente essa manobra está vedada ao grupo instalado no poder central. Se os negócios vão mal, a produção diminui, o desemprego aumenta e a receita tributária encolhe, ninguém pode atribuir a desgraça a uma crise global nem apontar a fatalidade de um fenômeno cíclico.
A maior parte do mundo cresce, embora de maneira desigual, e nenhuma outra economia exibe uma combinação semelhante de recessão, inflação e crise fiscal. No caso da crise brasileira, a culpa é mesmo de uma administração com um currículo quase inacreditável de erros e desmandos.

Barbaridades foram cometidas tanto na gestão orçamentária quanto no apoio fiscal e financeiro a grupos e setores e na política oficial de investimentos. As impressões do governo são visíveis tanto no desarranjo de suas contas quanto na paralisia dos negócios.

Mesmo sem a pilhagem da Petrobrás e de outras áreas do setor público, os danos às finanças federais e ao sistema produtivo teriam sido enormes. Não se chega por acidente, nas contas do governo geral, a um déficit nominal superior a 9% do PIB, mais que o triplo do limite aceito na União Europeia. Mas seria um erro tratar do saque da Petrobrás como um problema à parte. O assalto à empresa, tanto quanto seu prejuízo de R$ 34,83 bilhões em 2015, está associado a um estilo de governo e de ocupação do Estado.

Não há como separar, quando se trata de entender o drama brasileiro, o desastre fiscal, os erros da política de crescimento e a devastação da maior estatal do País. Até a transformação da Petrobrás em instrumento de política industrial – um brutal erro administrativo – abriu espaço a desmandos e a perdas bilionárias.

O mau começo de 2016 e a perspectiva de mais um ano muito ruim são desdobramentos de uma história iniciada antes do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Não há grande surpresa no quadro econômico. O desemprego de 9,5% da força de trabalho, no trimestre de novembro a janeiro, é consequência dos erros cometidos entre 2011 e 2014 e agravados em 2015. A desocupação incluiu nesse período 9,62 milhões de pessoas, segundo a Pnad, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, o mais amplo levantamento das condições do emprego.

A mais nova informação do IBGE, relativa apenas às seis maiores áreas metropolitanas, aponta uma piora do cenário em fevereiro, quando a desocupação nesse universo mais limitado passou de 7,6% para 8,2%. A mesma tendência deve ter sido observada na área coberta pela Pnad, a julgar pela evolução de outros indicadores.

O governo já incorporou ao cenário oficial a perspectiva de mais um ano ruim. Reduziu a expectativa de arrecadação e ao mesmo tempo decidiu rebaixar mais uma vez a meta fiscal. Só um otimismo incomum poderia levar alguém a prever para 2016 um saldo orçamentário positivo ou mesmo equilibrado. Tudo aponta, por enquanto, mais um ano com déficit primário e com maior endividamento. Economistas do mercado já previam em fevereiro um resultado fiscal bem pior que o admitido pelo governo. Naquele momento, a mediana das projeções já correspondia a um déficit primário de R$ 79,47 bilhões. Com a nova revisão de seus planos, o governo ampliou o limite para R$ 96,65 bilhões.

Mas o balanço final poderá ser pior, porque as previsões oficiais ainda incluem receitas muito incertas, como R$ 13,64 bilhões da CPMF, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Os congressistas ainda vão decidir se aprovam a recriação desse tributo, extinto em 2007. Muitos têm falado contra essa proposta. Enquanto o governo conta votos para saber se será possível matar a ameaça de impeachment, parece um despropósito calcular se haverá apoio suficiente ao projeto da CPMF.

Por enquanto, a recessão produziu dois efeitos positivos. O primeiro é a melhora das contas externas, principalmente por causa da redução das importações e dos gastos menores no exterior. As exportações de manufaturados continuam fracas e só as vendas de produtos básicos ainda têm algum dinamismo. O outro efeito positivo é a desaceleração da alta de preços, em grande parte atribuível ao enfraquecimento da demanda. Como as contas públicas devem permanecer muito desajustadas, um dos principais fatores inflacionários continuará sem solução ainda por um bom tempo.

O governo permanece preso na armadilha criada por ele mesmo. Não há outro culpado pela recessão, nem pela crise fiscal, nem pela recessão como fator agravante do problema das contas públicas. Sem credibilidade, a presidente e sua equipe dificilmente poderão justificar um ajuste gradual, com espaço para medidas de estímulo aos negócios.

Se o processo de impeachment for extinto, a Lava Jato continuará assombrando o governo. A presidente poderá manter as acusações de golpismo. Acreditará quem já estiver inclinado a aceitar esse palavrório. Por enquanto, só se pode falar de um golpe: aquele aplicado pela presidente contra ela mesma com sua política incompetente e irresponsável.

Desacostumados

Se fosse apenas incompetente, quem sabe o governo poderia ser digno de pena, mas, ao fazer da corrupção peça central em seu projeto de poder, cristalizou-se como a maior ameaça a nossa democracia desde a reabertura política, e merece sem ressalvas o inequívoco repúdio das ruas.

De todo modo, levando em conta os discursos recitados pela presidente nos últimos dias, invariavelmente salpicados de ilações grotescas e mentiras deslavadas, fica claro que o PT não capitulará facilmente. Qual é a novidade?

Convenhamos, dadas as circunstâncias, são perfeitamente compreensíveis os chiliques de Dilma e Lula, assim como os destemperos dos grão-mestres petistas e da esquerda macunaíma. Não bastassem as delações que ainda vêm por aí, com o desembarque do PMDB carioca o impeachment nunca foi tão provável.

Podem continuar chamando de golpe o que está previsto na Constituição, movimentar ministros para intimidar a Polícia Federal, ofender tribunais, e irresponsavelmente convocar a militância profissional na tentativa de afugentar as multidões.

Ora essa, podem inclusive manipular o Itamaraty para espalhar boatos, e contar com o vergonhoso apoio de figuras cada vez menores do nosso meio artístico, finalmente corajosas para assumirem suas naturezas autoritárias.

Se nada de espetacular acontecer, seus destinos já estão selados, Wanda será impedida, Luiz Inácio passará um tempo considerável atrás das grades, e ao PT caberá enfrentar uma derrocada tão vertiginosa quanto imprevisível.

Pois, anotem aí, a debacle petista diverte, a sombra do próximo salvador da pátria assusta, a crise econômica apavora, e no entanto deveriam alarmar menos do que as críticas direcionadas ao chamado Fla-Flu.



Percebam, longe de mim querer diminuir a gravidade do atual cenário, porém não me parece sensato constranger o que possivelmente há de mais positivo em tudo o que está acontecendo.

E basta assumirmos nossa condição de sociedade historicamente despolitizada para percebermos que asfixiar o debate, quando finalmente ele começa a acontecer, não faz o menor sentido. A não ser, é claro, que a proposta seja de continuarmos servindo como massa de manobra.

Além de paternalista, flerta com o bizarro este afã em arrefecer os ânimos de uma discussão impossível sem algum grau de excitação. Principalmente quando culpa o alarido por desavenças entre amigos e desfalques em grupos de bate-papo. É aquele negócio, um pouco de perspectiva é sempre recomendável.

E, por favor, nada de entrar no mérito da elasticidade inerente ao termo “excitação” no entendimento dos raivosos. Esta é uma questão já delimitada pela lei, e desfiá-la apenas serviria para estimular ainda mais nosso equivocado costume de adequar a sociedade ao criminoso.

Sim, o fanatismo que transforma a troca de ideias em troca de acusações incomoda, e pode até emburrecer em um primeiro momento, mas é a única saída para uma lenta e necessária transformação.

Sim, a dicotomia entre PT e PSDB é uma mitologia, assim como o fictício apartheid alardeado por uma turma acostumada a propagandear-se moralmente superior.

Sim, o debate é um pau que nasceu torto, e rio de mim mesmo ao escrever estas linhas, de tanto que resmungo por aí, praticando com desenvoltura os mesmíssimos pecados que agora ilumino.

Preciso admitir, eu também não estou acostumado.

As duas formas de corrupção

O PT levou a arte de corromper ao limite, no Brasil, fazendo jus à tradição comunista de que deriva. Temos que meditar sobre esse fato, pois com o PT houve uma mudança substantiva nas práticas deletérias que pilharam o Estado. Nunca é demais dizer que a corrupção abalou os alicerces do Estado, distorceu a representação política e fez eleger, de forma ilegítima, agentes corruptos para os mais altos cargos da nação. A própria eleição de Dilma Rousseff é um exemplo conspícuo dessa distorção provocada pela corrupção.

Corrupção é intrínseca ao homem e é inerente ao poder de Estado. Se isso é verdade podemos dizer que a corrupção ela mesma não é um problema, mas um dado da realidade com o qual temos que conviver. Isso, todavia, só é verdadeiro dentro de um certo range, qual seja, que a corrupção exista sem interferir na viva profunda do ente político e que preserve o rizoma do tecido social. Isso ocorre nas formas banais de corrupção, que são aquelas em que o corrupto, qual um parasita oportunista, se aproveita das circunstâncias e realiza sua ação. É a corrupção de todo dia, que vemos quando há presença de algum fiscal do Estado ou a concupiscência de um funcionário responsável por aquisições governamentais. É aquela típica do guarda de trânsito que leva a propina para não multar. Nesse caso nem o Estado perde e nem a vida cotidiana muda.

Bem outra coisa ocorreu com o PT no poder. A corrupção foi elevada à condição de principal ferramenta da articulação política. Mais ainda, foi transformada em instrumento revolucionário pelo qual o PT quis alcançar a hegemonia, distorcendo representação política. Podemos dizer que o PT tentou dar o golpe de Estado comprando votos de parlamentares e por muito pouco não conseguiu seu intento. A denúncia acidental de Roberto Jefferson, então deputado e líder do PTB, um homem desequilibrado e sem meias medidas, é que levantou o tapume sobre a famosa prática do mensalão, que levou à abertura da Ação Penal 470, de triste memória.

À época, José Dirceu, líder em atividade das coisas tenebrosas do PT, percebeu o perigo que corria o seu projeto político e tentou de forma desesperada parar o estrelismo denuncista de Roberto Jefferson. Ele o fez porque sabia que o Estado é maior do que o partido e que, uma vez provocada, a Justiça seria posta em movimento, com os resultados previsíveis. Não deu outra. Até mesmo José Dirceu foi apenado naquela Ação Penal.

O novidadeiro na corrupção do PT, além de ter se tornado um instrumento político estratégico, e até por isso mesmo, tornou-se um fim em si mesma. O exemplo da aquisição da refinaria de Pasadena é conspícuo. A Petrobras e o Brasil jamais precisaram daquele investimento, que só foi realizado porque se mostrou uma oportunidade excelente de assalto aos cofres públicos. Nunca um negócio foi tão vantajoso para os mafiosos da política, mas no caso se perdeu completamente a funcionalidade. A corrupção como fim em si mesma é incompatível com a racionalidade do Estado e a própria vida social. A Petrobras está em situação quase falimentar por conta disso. A corrupção como fim em si mesma gera o caos, é entrópica.

O petrolão foi descoberto também por outro acidente, a investigação sobre o doleiro Alberto Youssef, que operava pesado para o esquema do PT e ninguém sabia. Puxou-se o fio da meada e agora vemos o juiz do processo, Sergio Moro, transformado em herói nacional porque fez valer o poder de Estado sobre os delinquentes do PT e seus associados.

A falha estrutural do projeto político do PT foi não ter obtido o poder total antes que os anticorpos do Estado pudessem agir. Fracassou porque não tem força para passar uma borracha na ordem jurídica, o Código Penal está em pleno vigor. Será banido da vida política e será lembrado pela História como a mais rocambolesca tentativa de totalitarismo emergindo desde dentro da ordem democrática. Algo muito parecido com o que aconteceu com a Alemanha de Hitler. Felizmente, aqui, houve tempo de se esmagar a jararaca antes que ela pudesse devorar toda gente.

Os anti-intelectuais

Mesmo diante das volumosas evidências de que o lulopetismo é autoritário por natureza, mesmo que abundem provas de que o chefão Luiz Inácio Lula da Silva e seus seguidores tramam à luz do dia contra as instituições republicanas, mesmo que seja clara a ânsia da tigrada de calar a imprensa livre e favorecer o jornalismo companheiro a serviço do pensamento único, ainda assim há intelectuais – ao menos é assim que eles se identificam – que se dispõem a defender, em nome de um suposto espírito democrático, um governo e um partido cada vez mais identificados com tudo aquilo que ofende a democracia e os padrões morais de uma sociedade civilizada.

Pululam manifestos assinados por esses assim chamados pensadores, acompanhados de artistas e outros profissionais cujo trabalho depende da mais ampla liberdade de expressão e opinião, todos devotados à denúncia do que qualificam de “golpe” contra a presidente Dilma Rousseff e contra o “governo popular” do PT.

Um dos mais recentes produtos desse ponto de vista é um tal Manifesto do Livro, em que mais de mil intelectuais, escritores, editores e profissionais ligados ao setor livreiro dizem que estão “ameaçadas” as “normas constitucionais vigentes”.

Eles não se referem à escandalosa transformação do Estado em balcão de negócios criminosos, que, ao beneficiar partidos, políticos e empresários amigos de Lula e da presidente, dilapidou o patrimônio de todos os brasileiros, a começar pelos mais pobres. Tampouco se preocupam com o aviltamento da política promovido pelo partido de Dilma e de Lula, com a conversão do Congresso em armazém de secos e molhados. Os signatários do manifesto também não fazem menção aos ataques que Lula e Dilma estão desferindo, dia e noite, contra o Judiciário e a imprensa livre e independente, a quem acusam de tramar o tal “golpe”.

Nada disso aparece no libelo desses, digamos assim, pensadores. No texto, eles preferem denunciar o “abuso de poder”, a “violação dos direitos” e o “desrespeito sistemático” do Estado de Direito por parte de “setores do Poder Judiciário” – uma clara referência às autoridades policiais e judiciais que fazem avançar a Operação Lava Jato até Dilma e Lula. Para os signatários, as conquistas democráticas, diante disso, estão “ameaçadas” – e seguem-se as já banalizadas referências à ditadura militar.

Esse manifesto respeita o padrão dos tantos outros que apareceram desde que surgiram as evidências de que Dilma havia cometido crime de responsabilidade ao “pedalar” as contas públicas, o que justifica seu impeachment, e de que Lula é o chefe do bando que tomou o Estado de assalto assim que o PT chegou ao poder. Primeiro, eles negam a realidade, atribuindo a divulgação dos escabrosos fatos a um complô da “direita” mancomunada com juízes “partidários” e uma imprensa “golpista”. Depois, exumam a ditadura militar para usá-la como epíteto do movimento que pretende expulsar do poder aqueles que, estes sim, conspurcam a Constituição e escarnecem da Justiça.

A adesão de intelectuais à verdade emanada do partido no poder, como mostram diversos exemplos na história, é o primeiro passo para legitimar a destruição da democracia. Quando vozes de destaque na sociedade disseminam a tese de que são “golpistas” aqueles que fazem respeitar a lei e que trabalham para que os governantes delinquentes paguem pelos crimes que cometeram, é sinal de que a confusão moral está instalada no País. Quando esses autoproclamados “pensadores” hostilizam todos aqueles que se recusam a renunciar à razão em favor da fé estatal e partidária, atribuindo-lhes planos maquiavélicos para a tomada do poder, negam a liberdade que tanto dizem defender.

Assim, para os intelectuais que venderam sua alma ao lulopetismo – alguns porque venderam também algo mais, outros porque acreditam mesmo na balela segundo a qual Lula salvou os pobres e, portanto, está acima da lei dos homens –, a defesa da democracia, que é de todos, se reduz à mera defesa do PT, de seu projeto autoritário e de seu caudilho fanfarrão.

Cena brasileira


A maldade é destrutiva monotonia em nossas vidas. Podemos nos tornar tão endurecidos a sua obscenidade que ela não mais nos comove
Morris West