quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Erramos! Mas ainda é tempo

As notícias de hoje indicam recessão econômica, violência nas ruas, inflação alta, governo sem rumo, a Petrobras derretida pelo roubo e a incompetência, o povo profundamente descontente, milhões de crianças fora da escola e as outras em um sistema sem qualidade, sobretudo desconfiança profunda com todos que fazem política, por causa da corrupção monumental e generalizada.

É natural e correto jogar a culpa na Dilma, no Lula, no PT: eles encarnam a incompetência e irresponsabilidade na gestão e a tolerância e roubo da corrupção. Mas a culpa não é apenas deles. Por ação ou omissão, outros erraram e erram.

Primeiro, os partidos que fazem parte do governo: a base de apoio à corrupção e aos desmandos. Por locupletar-se com cargos, PCdoB, PDT, PMDB, PTB, PRB, PR e todos os outros são tão culpados quanto o PT, por conivência ou por omissão.

Sinto culpa porque há dez anos tento e não consigo influenciar meu partido, PDT, deslumbrado com ministério desde 2007, depois de ter sido oposição quando nele ingressei em 2005. Todos os coniventes, os omissos ou os impotentes,também somos culpados. Os eleitores que os elegeram também têm parte da responsabilidade, mínima, mas têm.

Felizmente, sempre é tempo de mudar e enfrentar o problema, reverter a vergonha e a decadência, lutar por um novo rumo para o Brasil. De maneira que deixemos para filhos e netos notícias diferentes das que dominam o presente brasileiro.

O asceta de Garanhuns


“Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da Igreja Católica, nem dentro da Igreja Evangélica. Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido.” Lula continua achando que o brasileiro é idiota. Reuniu ontem blogueiros amigos para um café da manhã em seu instituto e, a pretexto de anunciar que vai participar “ativamente” do próximo pleito municipal, aderiu pessoalmente – já o havia feito por intermédio de seu pau-mandado Rui Falcão – à campanha promovida por prósperos advogados e seus clientes, apavorados empresários e figurões da política, para desmoralizar a Operação Lava Jato, que procura acabar com a impunidade de poderosos corruptos.

Lula conseguiu escapar penalmente ileso do escândalo do mensalão e, por enquanto, não está oficialmente envolvido nas investigações sobre o assalto generalizado aos cofres públicos. Os dois casos juntam-se numa sequência das ações criminosas que levaram dinheiro sujo para os cofres do PT e aliados e “guerreiros” petistas como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares para a cadeia.

O que é inacreditável é que, como presidente da República e dono do PT, Lula não tivesse conhecimento do mensalão e do petrolão que desfilavam sob seu nariz. Assim, é notável o atrevimento – talvez mais estimulado pelo desespero do que por sua índole de ilusionista – com que o personagem, que ficou rico na política, se apresenta como monopolista das mais prístinas virtudes.

Só mesmo alguém empolgado pelo som da própria voz e pelas reações da plateia amiga cairia no ridículo de se colocar como referência máxima e insuperável em matéria de honestidade. “Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido.”

Apesar de inebriado com as próprias virtudes, Lula encontrou espaço para a modéstia – infelizmente de braços dados com a mendacidade, que alguns chamam de exagero retórico – ao se referir ao combate à corrupção. Fez questão de dar crédito a sua sucessora, deixando no ar a pergunta sobre a razão pela qual os petistas esperaram oito anos, até que o chefão deixasse a Presidência, para se preocuparem com os corruptos: “O governo criou mecanismos para que nada fosse jogado embaixo do tapete nesse país. A presidente Dilma ainda será enaltecida pelas condições criadas para punir quem não andar na linha nesse país”. E arrematou, falando sério: “A apuração da corrupção é um bem nesse país”.

Lula não se conforma, no entanto, com a mania que os policiais e procuradores têm de o perseguirem, obstinados pela absurda ideia fixa de que ele tem alguma coisa a ver com a corrupção que anda solta por aí: “Já ouvi que delação premiada tem que ter o nome do Lula, senão não adianta”. Ou seja, os homens da Lava Jato ou da Zelotes não vão sossegar enquanto não obrigarem alguém a apontar o dedo para o impoluto Lula. Mas, confiante, o chefão do PT garante que não tem o que temer: “Duvido que tenha um promotor, delegado, empresário que tenha coragem de afirmar que eu me envolvi em algo ilícito”.

Lula falou também sobre a fase mais financeiramente próspera de sua carreira política, quando, depois de ter deixado o governo, na condição de ex-presidente faturou alto com palestras aqui e no exterior patrocinadas por grandes empresas. Explicou que é comum ex-chefes de governo serem contratados para transmitir suas experiências ao mundo. Quanto a palestrar no exterior para levantar a bola de empreiteiras que para isso lhe pagam regiamente, Lula tem a explicação que só os mal-intencionados se recusam a aceitar: “As pessoas deveriam me agradecer. O papel de qualquer presidente é vender os serviços do seu país. Essa é a coisa mais normal em um país”.

De fato, é muito louvável que um ex-presidente da República se valha de seu prestígio para “vender” os serviços e produtos de grandes empresas brasileiras aptas a competir no mercado internacional. Resta definir quando essa benemerência se transforma em tráfico de influência.

“Nesse país”, porém, qualquer um que manifeste dúvidas em relação à absoluta integridade moral do asceta de Garanhuns é insano ou mal-intencionado.

O mosquito e o cavalo chamado Brasil

O filósofo grego Sócrates costumava dizer que Atenas, sua cidade, era uma como uma égua preguiçosa – não queria discutir e rever seus costumes, conceitos, instituições. Grande questionador disso tudo, ele se definia como um mosquito que picava o lombo da égua para que ela se mexesse.

O Brasil não tem um Sócrates. Nem precisa. O Aedes aegypti nos incomoda há décadas causando epidemias sucessivas de dengue. Mas o país é um cavalo muito indolente. Pouco se mexeu nesse período. Agora, o resultado da negligência: o mosquito virou o vetor de mais duas ameaças, a febre chikungunya e o vírus zika – este, responsável por casos de microcefalia de bebês.

O descaso histórico com a proliferação do Aedes aegypti, mais do que uma questão de saúde pública, diz muito sobre os brasileiros e nossas autoridades. O combate ao mosquito, afinal, depende de uma ação individual em benefício da comunidade: eliminar recipientes com água parada no seu imóvel. É a lógica da coisa pública – em algumas questões, todos têm de dar sua contribuição pelo bem da coletividade.

Mas uma parcela expressiva da população ainda tem problemas para entender isso. Basta pegar um carro e sair pelas ruas para ver isso se materializar no desrespeito às leis de trânsito.

As autoridades tampouco deram a importância que o assunto exigia. O mais grave é que o país chegou a erradicar o mosquito, em 1955. E parece ter se esquecido de como conseguiu fazer isso.

O esforço nacional para eliminar o Aedes aegypticomeçou em 1927 – quando uma epidemia de febre amarela, também transmitida pelo mosquito, chegou ao Rio de Janeiro, a capital federal à época. Ou seja, a picada só incomodou quando chegou ao centro do poder.

Apesar disso, as ações planejadas pelo governo funcionaram. E tudo já começou da forma certa: foi fechada uma parceria com a Fundação Rockefeller, dos Estados Unidos, que tinha experiências bem-sucedidas na erradicação do Aedes.

Houve resistências, porém. Autoridades sanitárias brasileiras apostavam no fumacê – aspersão de inseticida nos locais com maior infestação (estratégia ainda usada hoje em dia). Os técnicos estrangeiros eram contra. Diziam que o fumacê não funcionava para erradicar o mosquito. Venceram a disputa.

A estratégia adotada foi visitar todas as casas para matar os mosquitos por meio da dedetização. Em paralelo, a população era imunizada contra a febre amarela.

Havia metas diárias de residências a serem visitadas. E os agentes da saúde pública ganhavam bem pelo serviço. Também houve persistência: foi uma luta de quase 30 anos que chegou a todos os rincões do país. Funcionou. O mosquito só voltou no fim dos anos 60, início dos 70. Isso porque países vizinhos não fizeram sua parte e o Aedes entrou no Brasil pelas fronteiras.

A experiência que deu certo poderia inspirar nossas atuais autoridades. Hoje há mais conhecimento e tecnologia para combater o mosquito. Mas não há uma ação nacional eficiente de eliminação do vetor.

Talvez o drama das gestantes ameaçadas de terem bebês com microcefalia seja a picada que falta para os políticos e a população se mexerem.

A perigosa mensagem do voto do ministro Barroso

No Brasil da era petista é assim: terrorista vira herói; herói vira bandido. Bandido tem regalia; gente honesta paga pelas regalias. Corrupção virou lugar comum, não envergonha mais ninguém; aliás, se a corrupção for em benefício do partido que ocupa o poder, merece solidariedade e aplausos. A mentira virou política de estado: mente-se para ganhar eleição e para permanecer no cargo. Mentir pode; protestar, não pode! Aliás, só quem pode protestar é a esquerda; quando os outros protestam é golpe.

Tudo isso é grave; mas, não chega a ser trágico. Sejamos sinceros: o brasileiro parece não se importar com a mentira, a corrupção e os desmandos.


Trágico é quando um ministro do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de Justiça do país, frauda conscientemente a fundamentação de uma grave decisão que afeta toda a nação, visando proteger quem lá lhe colocou. Luís Roberto Barroso ao omitir a parte final do art. 188 do Regimento Interno da Câmara Federal feriu de morte a Constituição que um dia ele jurou defender. Suas explicações após a exposição de sua deplorável atuação não convencem nem a ele mesmo. Porém, o ministro Barroso, pelas regras atuais, permanecerá firme no cargo que ele manchou indelevelmente.

Desde que Montesquieu formulou a teoria dos três poderes, as nações democráticas a têm aplicado. Executivo, Legislativo e Judiciário são, na teoria do célebre francês, poderes harmônicos e independentes entre si, que, em um sistema de pesos e contrapesos, garantem a continuidade da democracia. Sem nenhum demérito, pode-se afirmar que, enquanto os Poderes Executivo e Legislativo podem ser formados por leigos, muitas vezes bem intencionados, mas, sem o conhecimento adequado, não se permite ao Poder Judiciário ser ocupado por pessoal que não seja técnico e desprovido de paixões além de certo limite. E coloco o condicional, pois o fato de se tornar magistrado não torna o homem melhor, maior, ou mais sábio do que outro. Mas pressupõe que seu compromisso seja com a verdade, a lei e a justiça.

Reside justamente aí a tragicidade do voto do Ministro Barroso: ele destruiu a esperança de termos um judiciário acima das paixões partidárias. Magistrados erram; o erro é inerente à natureza humana. Mesmo Cristo, quando veio a esse miserável planeta errou e, com a Sua grandeza, reconheceu e corrigiu seu erro (Mateus, 15, 21-28). Mas, ali tratamos do erro inconsciente ou se consciente, sem malícia. Não é o caso do Ministro Barroso. Com seu voto ele diminuiu a si mesmo a toga que ele veste, desonrou a casa que ele ocupa; e forneceu o mais eloquente exemplo das incoerências que reinam no Brasil da era petista.

O voto do Ministro Barroso transcende o julgamento que ele maliciosamente influenciou. O judiciário é a vitrine da justiça e o baluarte da democracia. Quando um magistrado da mais alta corte de justiça do país se deixa levar pelo interesse pessoal ou partidário ele abre um perigoso precedente, pois manda a mensagem errada para toda a sociedade. As consequências podem ser imprevisíveis. Sorte dele, que vive no Brasil de 2016. Se estivesse em qualquer outro país sério, já teria perdido o direito de usar a toga que desonrou.

Lula anuncia guerra contra jornalistas


Lula anuncia guerra contra a imprensa e sugere que vai processar jornalistas a rodo.

Na entrevista a blogueiros progressistas de joelhos, o petista fez algumas afirmações que levaram a turminha a salivar, como os cães de Pavlov. Disse ele:
“Comecei a processar jornalistas. […] Vou começar a processar jornalista para ver se a gente recupera a dignidade da categoria e as pessoas verem que, quando escrevem alguma coisa prejudicando alguém, aquilo tem consequência. Contratei o Nilo Batista. Daqui pra frente, vou processar todo mundo, criminalmente, cível, sei lá. Pra ver se a gente consegue colocar um pouco de ordem na casa.”

Bem, o PT tentou censurar a imprensa de várias maneiras, não é? Primeiro com o Conselho Federal de Jornalismo. Não deu certo. Depois veio a cascata do “controle social da mídia”. Também não deu certo. Agora chegou a fase do terror jurídico. Lula deve lamentar não ter conseguido fazer aqui o que Chávez fez na Venezuela.

Ele emitiu também um juízo sobre a imprensa, que, curiosamente, é majoritariamente de esquerda:

“A politização da imprensa chegou a tal ordem. Admito que tenham um lado, que publiquem editoriais, o que quiserem. A única coisa que não admito é mentira na informação, é mentira. […]”

Huuummm… “Mentira”, para políticos, com alguma frequência, são as notícias de que eles não gostam. Mas, claro, se alguém contar alguma mentira sobre Lula, que ele processe. Acho que não serei alvo. Só digo verdades sobre ele. Quando afirmo, por exemplo, que Nestor Cerveró e Fernando Baiano o acusam de ter intermediado a operação que resultou no “perdão” do empréstimo concedido pelo Grupo Schahin ao PT, isso é verdade. Nota: o chefão deve achar os blogs progressistas, muitos deles financiados com dinheiro público, um exemplo de jornalismo, elegância e independência.

Ele também foi adiante tentando fazer uma guerrinha de gênero e de classe:
“Pensei que a Dilma ia ser mais bem tratada por ser mulher. Mas é ideológica a coisa, é uma coisa de pele. Você não tem a minha pele, meu caro, então não entra no meu clube. Te aceito do portão pra fora. As pessoas de mais baixa renda nesse país não podem ter ascensão que incomoda as pessoas. Eu vou me defender.”

Hein? Ser mulher, agora, é categoria de pensamento que deve colocar o vivente acima da crítica? Isso é uma forma de machismo ou é só oportunismo vulgar mesmo? Em se tratando de Lula, as duas coisas. Acho que eu tachá-lo de “oportunista vulgar” não vai levar Nilo Batista a se assanhar e me processar, né?

Lula, cujo partido fez o país mergulhar numa crise inédita, com corrupção idem, ainda pretende ser o monopolista da causa dos pobres.

Este senhor já morreu politicamente e ainda não recebeu o recado. É um zumbi. É só um cadáver adiado que procria.

É uma opinião, Lula, não uma ofensa. Eu até o acho notavelmente inteligente. Esperto mesmo. Muito esperto. Tanto é assim que não há, até agora, nem mesmo um inquérito contra você. É bem verdade que isso se deve também à covardia do Ministério Público.

Esgotou o prazo de validade, companheiro!

O desperdício nosso de cada dia

A astronomia desconhece unidades de medidas cotidianas, como metro e quilômetro. Tudo é, no mínimo, bilhão. São 5,9 bilhões de quilômetros da Terra a Plutão, e 263 bilhões da Terra ao centro da Via Láctea. Assimilá-las não é trivial. Acontece o mesmo com as despesas do Estado, listadas em bilhão, dezenas de bilhão, centenas de bilhão de reais, tudo astronômico e desafiador como as distâncias cósmicas. Em 2015, as pastas da Educação e da Saúde receberam dotação de mais de R$ 100 bilhões cada uma. Ainda assim, faltou dinheiro. O gasto com o pagamento dos servidores federais superou os R$ 280 bilhões. A Previdência custou mais de meio trilhão. O Orçamento Geral da União foi de R$ 2,68 trilhões de reais. Números siderais, com tantos zeros, são alcançados pelas calculadoras. Mas deixam as pessoas um pouco confusas. Uma forma de trazer o debate a um patamar mais terreno é realizar os cálculos com apoio do calendário (a boa e velha folhinha) e do cronômetro. Pode parecer estranho, mas faz sentido. Acompanhe.


A folhinha nos oferece o custo médio do Estado brasileiro por mês (R$ 223 bilhões ), e por dia (R$ 7,3 bilhões). O cronômetro, por hora (R$ 306 milhões) e por minuto (R$ 5 milhões). Com estes novos fatiamentos, podemos executar cálculos mais palpáveis. Para melhorar o saneamento, por exemplo, um dos grandes flagelos nacionais, o Estado reserva, por ano, apenas nove horas das despesas globais. O Congresso Nacional custa, anualmente, um dia e seis horas de orçamento. O Bolsa Família, três dias e 19 horas. O Ministério da Defesa, 11 dias, Saúde e a Educação, cerca de 15 dias cada.

Além de dimensionar as despesas no tempo, o método revela que certas economias apresentadas pelas autoridades como fruto de um admirável esforço fiscal são mais modestas do que parecem. Em setembro do ano passado, o Ministério do Planejamento divulgou um pacote de cortes que incluía extinção de ministérios, eliminação de cargos de confiança e reduções variadas de gastos administrativos. Total da economia do pacote: R$ 2 bilhões no ano. Pelo cronômetro, o Estado comprometeu-se a enxugar seis horas e 34 minutos do bolo anual. Pouco, já que o ano tem 8.760 horas. No caso de 2016, bissexto, 24 horas a mais.

O Orçamento de 2015, que deveria apresentar superávit, fechou com déficit de R$ 118,6 bilhões. Zerá-lo significaria um esforço fiscal semelhante a 16 dias da despesa anual. Equivaleria a cortar, em cada mês, um dia e oito horas de custos. Mas as autoridades não conseguiram, e isso nos rendeu a perda do grau de investimento. A folhinha e o cronômetro escancaram o tipo de país que estamos construindo. Em 2015, o Estado reservou aos investimentos, base para o futuro, apenas dez dias de recursos — e executou cinco. Investimento é infraestrutura. São obras necessárias para tornar o país socialmente mais justo e economicamente mais competitivo. Já as despesas referentes aos compromissos assumidos no passado consomem quase cinco meses do Orçamento. São dois meses e sete dias do ano para os serviços da dívida pública e outros dois meses e 12 dias para o pagamento da Previdência.

Como o Brasil vai progredir destinando cinco dias do ano ao futuro e quase cinco meses ao passado? Parar de pagar a dívida não é opção, mas conter seu avanço vertiginoso, uma obrigação. O mesmo vale para a Previdência, um sistema que só para em pé se guiado pela lógica atuarial, não por conceitos subjetivos e discutíveis de justiça. Se o método do cronômetro e da folhinha não ajudar os governantes a compreender o tamanho do desafio, restará o método da moedinha. Cara, o Brasil vira um país insignificante; coroa, ele quebra.

Coisas muito antigas

Até parece que não há mais nada acontecendo no País. É Lava a Jato pra cá, é Lava a Jato pra lá, mas isso vem durando tanto e dizem que por um mínimo de mais dois anos ainda vai durar.

É tanta a sujeira a lavar que a nós, cidadãos plenos nas obrigações tributárias e, não obstante, desfalcados pelo Estado no tudo a ver com a cidadania, não nos cabe ficar escamoteando tanta indignação.

Nas investigações dessa Lava Jato não há indicio que não realce a conexão entre a promiscuidade entre o poder politico e o poder econômico, os dois fazendo o diabo, como receitou a Dilma, para ludibriando a soberania popular continuarem dominando o Estado.

Os romanos até que tentaram moralizar a coisa quando obrigaram os candidatos aos cargos públicos a se vestirem numa túnica branca e durante um período antes da eleição a desfilarem assim pela cidade.

Candidato vem de cândido, aquele que conseguisse atravessar todo o período da campanha andando pelas ruas, enfiado numa túnica branca, sem que ninguém lhe incomodasse atirando-lhe um tomate ou ovo podre.

Sabe-se que por trás das boas intenções dos políticos rolava algum dinheiro como o verbo mais convincente de muitos eleitores.

Há registros de que a eleição para o primeiro cargo da carreira politica de César, o de sacerdote do Templo, custou uma pequena fortuna à família dele, que bancou tudo.

A soberania popular, mais que antigamente, tem sido conspurcada para favorecer os donos do poder politico e os financiadores de suas campanhas eleitorais.

O jogo é pesado. Rola muito dinheiro numa eleição para Vereador. Imagine para um Deputado, Senador ou Presidente da República.

Temos assistido decisões da Justiça Eleitoral cassando mandatos sob a acusação de abusos do poder politico ou do poder econômico.

O voto segue sendo comprado sob as mais diversas modalidades que a cada eleição mais se sofisticam. Mas não nunca se viu a cassação do titulo de eleitor de quem vendeu o seu voto em troca de qualquer vantagem.

O combate à corrupção eleitoral tem que alcançar também a outra ponta do túnel por onde escorre a podridão do esgoto - o eleitor que dá o voto em troca de vantagem pessoal.
Edson Vidigal

Blá-blá-blá não substitui credibilidade

Dilma e o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, acertaram os ponteiros do que será a agenda brasileira em Davos. Como sempre a presidente acredita piamente que sabe do que está falando quando viaja na maionese em economia, ou melhor, em qualquer assunto.

O Brasil novamente vai bancar palhaço na Europa diante de todo o mundo.

Barbosa, um dos artífices da "nova matriz econômica", tem recomendação de Madame para revelar ao Forum Econômico Mundial quais as medidas governamentais para tirar o país da miséria administrativa, que ninguém aqui ainda sabe. Também será otimista ao extremo sobre as vantagens de se investir no Brasil. Mais um falatório de envergonhar um país apenas para uso interno de propaganda.

Não há coelho, nem sequer cartola, que foi posta no prego. Também seria demais Barbosa bancar o mágico diante daquele público.


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Por lá todos sabem de antemão que o Brasil se tornou o maior vilão do mundo, levando para baixo outras economias. Além de levarem com seriedade o trabalho e respeitarem o cargo, não confiam em patavina petista. Estão imunizados pela malandragem que infectou tudo quanto é canto em que pousaram Lula e seus comandados.

A previsão do FMI de que o país não voltará a crescer até 2018 não pegou de surpresa ninguém lá fora. Nem só pela economia em baixa vertiginosa, o bla-blá-blá politiqueiro e as investigações da Lava Jato, revelando o maior roubo partidário aos cofres públicos, os estrangeiros também sabem que o governo não quer, porque não acha necessário, cortar gastos como deveria e, de quebra, ainda está esbanjando com a policalha.

Representantes em Davos conhecem de montão a situação político-adminbistrativa do Brasil para não caírem em esparrela. Por mais corruptos que sejam, nenhum deles teria o atrevimento de levar a maior empresa em seus países à falência. É uma questão de respeito às instituições nacionais, que Dilma e Lula, principalmente, não têm.

Portanto, fale o que falar, Barbosa não convence nem implorando de joelhos. Os estrangeiros estão cada vez mais "porráqui" com o governo brasileiro, que se despreza os próprios cidadãos ainda quer levar junto para o fundo do poço os cidadãos de outros países.

O máximo que Barbosa conseguirá será jogar purpurina na petizada nacional e bancar o rei Momo para alegrar o Carnaval dos "Clóvis" vermelhos. E claro, esconder, bem escondida, a banana que vai ganhar. Bem sabe que os estrangeiros exigem credibilidade que o governo petista não tem em seu DNA.

E agora, José?

O discurso dos “bem-pensantes” circula em torno da cantilena de que o neoliberalismo produziu pobreza. Dizem mais, repetindo mimeticamente que a renda dos trabalhadores vem diminuindo. Bem, ouço essa conversa desde que tenho memória e já se vão muitas décadas. Se a queda contínua da renda fosse verdadeira, só haveria lumpesinato e o mundo estaria reduzido a multidão maltrapilha e quantidade minúscula de pessoas com riqueza infruível em meio a iniquidade abjeta.

Parte dessa percepção das coisas foi ver os governos populistas da América do Sul como “maré rosa”, avanço socialista para superar a pobreza trazida pelos abutres do capitalismo. O neoliberalismo, diziam os arautos do paraíso, iria empobrecer os latinos ainda mais do que as ditaduras.

O encerramento do ciclo castrense trouxe governos “liberais” que fizeram leves ajustes estruturais na economia e a casa começou a ficar em ordem, superando as décadas destroçadas pela economia de quartel que vigorou nas plagas do sul, exceto no Chile. Esse período foi turbulento na economia internacional porque a Rússia e os outros países que surgiram com a implosão da União Soviética estavam em situação falimentar e, na Ásia, os satélites da China também entraram e saíram de bancarrotas. Foi período de intensa atuação do Fundo Monetário Internacional.

No Brasil o ciclo de superação da hiperinflação e estagnação econômica foi concluído com a vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal, em maio de 2000. Com nuances, os vizinhos da América do Sul viveram igual experiência, exceto a Venezuela, onde o populismo, à moda dos anos 30, chegou ao poder em 1999.

Daí em diante o populismo venceu as eleições em vários lugares prometendo milagres rápidos de enriquecimento para todos. À época o foguete chinês estava com as turbinas em força máxima, acelerando a economia mundial. Os novos líderes do canto esquerdo do terceiro mundo se jactavam de vencer a pobreza e estimular o crescimento da economia por meio de crédito com dinheiro público. Assim, as moedas locais, especialmente o real, se supervalorizaram e Miami passou a ser mais um shopping na lista da classe média que se sentiu poderosa.

Enquanto isso, na casa de máquinas do navio, a estrutura produtiva obsoleta, as instituições cartoriais, o compadrio, o patrimonialismo continuavam enferrujando todas as peças. Os marujos mais prudentes avisavam que a coisa ia ficar feia. Mau agouro, pessismistas, dizia o capitão enquanto entregava o leme à sargento.

Como era absolutamente previsível, os motores pifaram e a nau está à deriva. E agora, José? A festa acabou, a riqueza sumiu, a realidade chegou. Ah, a licença poética de Drummond obtive da estátua na Praia de Copacabana. A previsão para o ano põe o Brasil e a Venezuela na disputa pela lanterna do retrocesso. Quem trouxe pobreza? A responsabilidade ou a irresponsabilidade fiscal?

No Brasil a queda na venda de automóveis foi de 25%; na Espanha, o aumento foi de 25%. O petróleo está mais barato do que água. A nossa débâcle é culpa de quem? De alguma conspiração contra os “governos populares” ou da mais óbvia incompetência gerencial endógena?

Friedmann Wendpap

Brasil pode ter quase 1 em cada 5 novos desempregados do mundo em 2017

Quase um em cada cinco novos desempregados do mundo em 2016 e 2017 virá do Brasil. A estimativa é da Organização Mundial do Trabalho (OIT), que em seu mais recente relatório sobre empregabilidade, divulgado neste terça-feira, acredita que 700 mil brasileiros se somarão ao contingente de desempregados até o ano que vem, de um total que pode chegar a 3,4 milhões de pessoas ao redor do planeta.

O país é citado diversas vezes no documento como exemplo de mercado de trabalho em apuros. Segundo a OIT, economias emergentes como a brasileira serão as que mais sofrerão com o desemprego em 2016.

Em meio à crise econômica e à recessão, a sangria no mercado de trabalho do Brasil já foi sentida em 2015: nos 12 meses até novembro, foram perdidas cerca de 1,5 milhão de vagas formais no país.

A China, que acaba de divulgar seu menor índice de crescimento em 25 anos, por exemplo, terá 800 mil desempregados a mais nos próximos dois anos. A desaceleração do país – que é um grande exportador e também grande comprador de matéria-prima, inclusive do Brasil – é um dos principais fatores por trás do recuo no emprego global, segundo a OIT.

A entidade chama a atenção também para a possibilidade de uma acentuação do desemprego caso países emergentes adotem medidas de austeridade – pelos cálculos da OIT, isso poderia criar um contingente extra de 2 milhões de desempregados, inclusive no Brasil.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016


Tempo de penitência

Quem conhece bem o interior, quem nasceu e viveu no sertão, quem veio a conhecer a luz elétrica depois dos 10 anos, quem chegou a pensar que elevador era um quartinho de fazer “masgas”, de sumir ou aparecer gente tem um sentido muito mais apurado para as coisas da vida que aqueles que nasceram nas cidades iluminadas, de ruas calçadas, que chamam as zonas boêmias ou “coreias” de “bas-fonds”...

Só quando cheguei, aos 9 anos, ao internato do Instituto Padre Machado, foi que as coisas começaram a ser mais bem entendidas. Hoje, sei que não vou para o inferno, já que ele pode ser aqui mesmo, e também sei que não mereço o céu – não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá, reconheço. Devo ficar nesse “entremeio”, como a maioria de nós que sabe simplesmente que “pra quem é bacalhau basta”, né?

E o que tem a ver tudo isso, que pode ser fruto de um momento saudosista, com qualquer assunto compatível com a importância deste espaço? Talvez nada, talvez tudo. Os acontecimentos e fatos que tenho comentado nesta coluna não são capazes de deixar qualquer pessoa, de qualquer “status”, temerosa com a situação nacional, como se tivesse embarcado em um avião pilotado por um comandante que ficasse cego durante o voo?

Túnel do tempo: Charge dos anos 1980
Pois é, eleição é como um voo cego... E agora? Importa saber se a cegueira do piloto aconteceu antes ou depois da decolagem? Nós todos estamos neste avião chamado Brasil. O custo de vida está pela hora da morte, os governos “microcefálicos” ameaçando parcelar, atrasar ou não pagar vencimentos a quem os tenha. Enquanto vacas estranham bezerros, a OAB faz acordo com a CNBB para fiscalizar ladrões de eleições. Mas CNBB? É... O Estado não é laico? Dizem que é... Mas, no Brasil de hoje, o que é redondo também pode ser quadrado, e tudo ao mesmo tempo... O que terá acontecido para, de um dia para o outro, a situação do país-maravilha ter virado esta droga que aí está? Qualquer laboratório faria a análise desse material malcheiroso: idiotas posando de líderes e picaretas legislando em troca de milionárias prestações.

Nosso Estado é composto de 853 municípios, dos quais não mais que 180 têm ou poderão ter vida própria. Os outros 673 vivem ou sobrevivem do FPM – Fundo de Participação dos Municípios –, que é formado da soma do Imposto de Renda e proventos de qualquer natureza com o Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, menos incentivos fiscais: Fundo de Investimento da Amazônia – Finam, Fundo de Investimento do Nordeste – Finor, Fundo de Recuperação do Espírito Santo – Funres, incentivos setoriais praticados por isenções do IPI, como, por exemplo, a isenção para a indústria automobilística, que fez verdadeiro rombo no FPM e foi um dos motivos da quebradeira de Estados e municípios.

Sim, mas isso foi feito assim, pros cocos? Foi e não foi... O consumismo desenfreado iludiu o povo, e o governo venceu as eleições. Sei... e o povo? Uai, o povo sifu, é claro...

Sérgio Moro viaja para um quadro gótico

Uma das pinturas mais famosas do mundo, a do Bom e Mau Governo, dos irmãos italianos Ambrogio e Pietro Lorenzetti, poderia ser lida, a oito séculos de distância, como uma alegoria do momento vivido pelo Brasil e a revolução levada a cabo na cruzada contra a corrupção.

Em seu afresco medieval Lorenzetti poderia hoje representar o amado e temido juiz brasileiro Sérgio Moro, assim como nossos atuais políticos e governantes, bem como a sociedade brasileira objeto das ações de bons e maus governos.

Da importância pictórica do afresco de Lorenzetti, que adorna a sala do Palácio Comunal de Siena, não é necessário falar porque todos os livros de arte do mundo já fazem isso. O que importa é que se trata de uma simbologia política que pode ser lida à luz da crise que hoje este país vive. E não só ele.

Na famosa obra, que revela que, além de pintor genial, Lorenzetti era um anônimo e sagaz filósofo e crítico da sociedade de seu tempo, o artista quis pôr em relevo, usando o simbolismo das cores, vivas ou opacas, com seu jogo de luzes e sombras, os efeitos produzidos na sociedade pelo que ele qualificava de “bom ou mau governo”.

Analisando a gigantesca pintura podemos observar nas intenções políticas de Lorenzetti como certos princípios de justiça e injustiça, de sociedade unida ou sem rumo, atravessam intactos os séculos.

Assim, quem hoje no Brasil tece conspirações para tentar anular o trabalho realizado pelo juiz Moro e sua equipe em colaboração com a polícia e o Ministério público para limpar a vida pública da corrupção, que põe em perigo não só a economia brasileira, mas a própria democracia e a paz social, deveria examinar com atenção a famosa pintura dos irmãos Lorenzetti.


Nesse quadro, um banquete de arte, cor, beleza e genialidade, que representou a maior contribuição ao gótico de seu tempo, aparece, com clareza quase didática, que o que caracteriza um bom governo é que a justiça reine soberana no centro de tudo, como única possibilidade de criar uma sociedade livre e feliz. Sob ela, destaca-se a concórdia, como indicando que não pode haver paz nem união em uma sociedade sem que a justiça atue sem discriminações nem impunidade. A concórdia figura debaixo da justiça, como se esta não pudesse existir sem ela.

Em uma sociedade, como aquela a que Lorenzetti pertencia, política e socialmente convulsionada, com fome, insegura, com revoltas de rua, tiranias, guerras e açoitada pela peste, o pintor coloca como primeira consequência de um bom governo a segurança dos cidadãos, os quais ele representa passeando pelas ruas e praças, sem medo, de mãos dadas. E com a segurança, em vez da miséria, aparece a abundância de bens aos quais todos têm acesso.

Nas pinturas do mau governo tem destaque, por sua vez, a figura do soberano tirânico, rodeado por “personagens sinistros”. A seus pés a aparece a justiça pisoteada e tolhida, incapaz de agir.

Destacam-se, como características negativas do mau governo, a avareza, a vaidade e os interesses dos próprios governantes em vez da preocupação pelo bem comum.

Na cidade, em vez de gente feliz, sem medo de ser assaltada pelos bandidos da época, Lorenzetti coloca medo, doenças e morte, guerras fratricidas, sujeira e destruição.

Também hoje, aqui, e no século XXI, como no tempo de Lorenzetti, sem uma justiça livre e sem amarras, em vez de uma sociedade e um território com pessoas passeando sem medo pelas ruas continuaremos tendo os cidadãos amedrontados pela violência; em vez de concórdia entre os cidadãos, sofreremos rupturas, divisões e rixas; em vez de bem-estar físico, pessoas morrendo à espera de atendimento nas portas dos hospitais.

Em vez de governantes sábios, rodeados por aqueles que buscam servir ao bem comum mais do que a si próprios, poderemos deparar-nos com tiranos, apoiados por “personagens sinistros”, tramando como tolher a justiça para poder continuar prosperando à sombra da ilegalidade.

Que a sociedade brasileira, como um todo, é saudável e mergulha em busca de seu bem-estar e tranquilidade está demonstrado no fato de que continua vendo o juiz Moro e sua equipe como heróis, e a corrupção, como o maior inimigo da democracia. Seria o bom governo de Lorenzetti.

Ao contrário, serão fruto do mau governo, do desencanto e da desesperança aqueles “homens sinistros” que desejam transformar o juiz em bode expiatório de todos os males do país.

Seriam esses poderosos que não aceitam que neste país a justiça comece a pôr na prisão, além daqueles dos três “pês” tradicionais, “pobres, putas e pretos”, os outros, os dos novos “pês”, o dos “políticos e poderosos”.

Esses que, pela primeira vez, temem ser despertados hoje ao amanhecer pela polícia para serem levados a prestar contas à justiça de seus assaltos ao patrimônio do Estado, que deveriam ter defendido e preservado, em vez de saquear.

O genial Lorenzetti seria hoje o melhor e mais emblemático pintor da irada e ao mesmo tempo esperançosa sociedade brasileira.

O mais rico dos Carnavais

O costume tem sido programar o Carnaval com bastante antecedência. Como agora, porém, jamais aconteceu. Porque logo depois de encerrado o desfile da última escola de samba, daqui a duas semanas, a turma já começou a trabalhar para o próximo, de 2017. Por conta da crise que nos assola, mudanças estão sendo engendradas. Novas escolas se organizam, antes mesmo de as atuais terem pisado o sambódromo.

“Unidos do Lava Jato” é uma escola em formação que pensa arrebentar as arquibancadas com o samba enredo “Não Sobrou Ninguém”, entoado pelo coro da Papuda. O destaque vai para a “Ala dos Delatores”. A “Bateria das Empreiteiras e dos Advogados” empolgará o público pela riqueza de recursos já postos à sua disposição. 

Também forte candidata ao primeiro lugar, seguir-se-á a “Estação Primeira dos Depósitos no Exterior”, com a Comissão de Frente composta por ex-deputados e senadores então destituídos de seus mandatos, exibindo recibos de repatriamento de grandes fortunas e distribuindo notas de dólar para a plateia. Fantasiados de Irmãos Metralha desfilarão os que contribuíram para a desvalorização do real, seguidos por singular bateria, onde em vez de bumbos, seus integrantes portarão elegantes maletas de couro com ressonância especial.

Lugar de honra será ocupado pela “Escola dos Companheiros do Ali Babá”, muito mais do que 40, com o bloco “Dólar na Cueca” dando passagem aos “Abandonados Pelos Chefes”, coro de lamentações destinado a arrancar lágrimas da assistência. Para compensar a tristeza, um carro alegórico na forma de imenso jatinho, ocupado por beldades peladas que homenagearão as rosas e cantarão “Está Faltando Um”.

Os planos vem sendo elaborados em completo sigilo, por isso as informações são curtas, a ser confirmadas apenas no próximo ano, ignorando-se quais os novos grupos em preparação e, acima de tudo, os seus patrocinadores. Uma coisa, porém, é certa: será o mais rico carnaval de todos os tempos, mesmo sob o risco de ser financiado do fundo da cadeia. 

Petrobras patrocinar evento contra o impeachment não é coisa muito diferente do petrolão

Nos dois casos, o dinheiro público está sendo usado em favor de interesses políticos; nos dois casos, o patrimônio do povo brasileiro é empregado para financiar um turma que tenta golpear a democracia
Não adianta!

Eles não têm limites!

Neste momento, em Porto Alegre, a Petrobras está sendo vítima de uma variante do petrolão — uma variante mais difícil de perceber.

Realiza-se na capital gaúcha o tal Fórum Social Mundial, que já apelidei, no passado, de “Disneylândia da Esquerda’. Hoje em dia, nem isso é. Os valentes perderam a eleição parlamentar na Venezuela, a presidencial na Argentina, estão pelas tabelas no Brasil, em declínio na Bolívia e sem muita saída no Chile. Afinal, o tal “outro mundo possível” de que tanto falavam, no Brasil, tem a cara do mensalão, do petrolão, do assalto aos cofres públicos, da recessão, do desemprego, da ladroagem.

Foto: André Ávila / Agencia RBS
Assim, qual vai ser a pauta? Para disfarçar, dizem, vão debater coisas como “democracia, economia solidária, mídia livre, educação, direitos e empoderamento das mulheres”. Vale dizer: tudo conversa mole.

O objetivo mesmo desta edição do fórum é se manifestar contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e em favor da cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. Mais chapa-branca, impossível.

E não é só isso. Também haverá um “debate” sobre golpismo com a participação de políticos petistas. A estrela da patuscada será Tarso Genro, ex-ministro do governo Lula e ex-governador do Rio Grande do Sul. Ministros de Dilma estarão presentes, como Miguel Rosseto (Trabalho e Previdência) e Tereza Campello (Desenvolvimento Social e Combate à Fome).

Muito bem! Aquilo que já foi a Dineylândia da esquerda hoje não passa de um parquinho mequetrefe, com brinquedos quebrados, enferrujados, antigos. Todas aquelas tolices redentoras do passado acabaram virando uma extensa folha corrida de crimes. Mas eles são esquerdistas e não desistem nunca de tomar o nosso dinheiro.

A Petrobras é uma das patrocinadoras do evento. É um acinte! É um achincalhe! É um absurdo! É uma barbaridade! E por razões as mais distintas, que se combinam.

Em primeiro lugar, a Petrobras deveria cortar a zero a sua verba publicitária e seus patrocínios. Por uma questão de decoro. A empresa vive o pior momento de sua história, num processo agressivo de desinvestimento. As pessoas comuns que compraram ações viram derreter seu suado dinheiro. Em muitos aspectos, a estatal é uma espécie de monopolista. Boa parte de sua propaganda é cascata meramente adjetiva: não vende produto, não procura ganhar o consumidor, não disputa espaço no mercado.

Mas isso ainda é o de menos: a empresa é o epicentro da atual crise política; é o palco principal de atuação da quadrilha que assaltou o país. E o assalto, sabemos todos, serviu a bandidos, mas também a um projeto de poder: o do PT. Ficou muito claro que a estatal estava sendo usada para o PT fraudar as regras do jogo democrático. Petistas e aliados tratavam a estatal como quintal de seus interesses privados.

Ora, quando a empresa patrocina um fórum cujo objetivo é só produzir proselitismo em favor do governo de turno, cumpre indagar: será que isso é muito diferente, em essência do petrolão? A resposta é óbvia: não!

É evidente que se trata do uso de recursos públicos em favor da camarilha que está no poder, ainda que tal uso assuma outra face.

Não há movimentos sociais no fórum de Porto Alegre! O que há, na maioria dos casos, são pançudos de esquerda, que recebem direta ou indiretamente farto financiamento do governo federal. Quando a Petrobras patrocina um evento contra o impeachment, está cometendo um crime político e moral: afinal, a empresa também pertence àqueles que querem que Dilma seja demitida pelas vias legais.

Mas pensemos: por que eles não fariam mais essa?

Manifesto dos mano

Nóis, os mano, vem por meio desta se manifestar também. Nós também somos acusados. Como acusados, também queremos umas garantia dos meganha. Os caras também tão violando tudo. Roubam uma grana preta da pretobras e depois pagam uma fortuna para esses advogadões saírem por aí, depredando os decente. É um desrespeito. Bandido é bandido até a presunção de inocência.

Cada vez mais convencidos de nossa própria inocência, também assinamos este manifesto – e falsificamos algumas assinaturas – para podermos ter o direito de quebrar algumas catracas sem sermos presos e termos a nossa cara estampada naquela revista de grande circulação, de forma vil e espetaculosa. Uma parcela significativa da população ainda não se deu conta disso.

mario
Como bandidos, meliantes, punguistas, estelionatários, políticos e administradores que somos, exigimos o devido respeito das instituições as quais assaltamos. Não é possível que o monopólio do massacre – coisa que era exclusivamente nossa – agora também recaia sobre os justiceiros da justiça, os jornaleiros dos jornais, os revisteiros das revistas, os policiais da polícia e outras organizações não alinhadas com o nosso movimento.

Tão usando a mídia de forma inconsequente e irresponsável contra nóis, os bando. Querem que a sociedade fique contra nóis e nossas prática, uma vez que roubar, traficar, assaltar, mentir e dissimular faz parte da nossa cartilha de atuação sobre essa mesma sociedade, que deveria receber o assalto, o estrupo e a roubalheira como políticas de Estado. É o estado lastimável que nóis temos.

É de todo inaceitável que uma justiça achada na rua como a nossa queira agora nos culpar pelo que somos ou fazemos. Somos produto dessa mesma sociedade que nos quer presos. Batemos nossos tambores, colocamos nosso som alto e incomodamos a vizinhança com nosso churrasquinho de gato porque essas são as formas de aumentar a intolerância, fingir que somos arruaceiros e barulhentos e afugentar nossos desafetos.

Na verdade, precisamos de mãe. Nascemos sem ela. Por isso o nosso repúdio. O Estado de Esquerda está sob ameaça do Estado de Direita e o Poder Judiciário não pode esquecer de seus apartamentos luxuosos em Miami. Exigimos um julgamento justo e imparcial, de preferência com vista pro mar e smartphone liberado. Urge uma postura rigorosa de todos nóis contra essa sociedade tão injusta com a gente. Nóis constituímos uma gangue. Eles querem mesmo é acabar com a gente.

Assinado: É nóis.

Males antigos

O país sofre de males antigos. Por incapacidade política e despreparo econômico, prossegue a ininterrupta expansão dos gastos públicos como percentual do PIB há mais de quatro décadas. Experimentamos em decorrência a hiperinflação, crises cambiais e moratória externa, sequestro da poupança, endividamento interno em bola de neve, insanidade tributária, juros obscenos, inflação persistente e perda da dinâmica de crescimento.

A mecânica perversa de irrefreada ampliação dos gastos públicos foi disparada no regime militar e compreensivelmente exacerbada pela incapacidade política e pelo despreparo econômico de uma social-democracia hegemônica ante as legítimas pressões sociais de uma democracia emergente.

A tragédia brasileira registra o mais longo esforço anti-inflacionário da história universal.


Iniciamos 2016 com as irrefutáveis evidências da corrupção sistêmica na dimensão política e com a escalada do desemprego em massa na dimensão econômica.

A corrupção e o desemprego são sintomas de um duplo colapso: teremos de mudar ainda neste ano nossas formas de fazer política e tocar a economia. A reforma política e a mudança de regime fiscal seriam a confirmação do amadurecimento de nossas instituições.

Na política, os sucessivos escândalos refletem uma transição inacabada do Antigo Regime para a Grande Sociedade Aberta. É inaceitável que a única forma de conduzir as atividades políticas, desde o financiamento de campanha até a obtenção de maioria parlamentar, seja esta roubalheira.

Na economia, a essência de uma estabilização rápida e com pouco sacrifício da produção e do emprego é a fulminante reversão das expectativas sob um novo regime fiscal, acompanhado de reformas de modernização.

Em poucos meses teremos a definição do atual impasse político. O aprofundamento da recessão e o aumento do desemprego garantem o desgaste cada vez maior do governo perante a opinião pública. E medidas de sempre, como o aumento dos juros e dos impostos para controlar a inflação, agravam o quadro recessivo, contribuindo também para a impopularidade do governo.

Não compreendo como possa a presidente desperdiçar a oportunidade de dar um cavalo de pau nos gastos públicos espetando a conta política no Plano Temer, do PMDB, antes que seja tarde.

Paulo Guedes 

O mal é você, estúpida!


Reequilibrar o Brasil num quadro em que há queda de atividade implica necessariamente, a não ser que nós façamos uma fala demagógica, em ampliar impostos
Dilma Rousseff
Esperar confissão de culpa de Dilma, nem pensar. Se não bastasse a indigência mental, a presidente transpira o orgulho dos subalternos desde tempos do baixo escalão nos movimentos contra a ditadura.

O maior mal para o país é a figura histriônica, motivo de gargalhadas para muitos. Esse lado start-up da presidente esconde o pior: a tragédia de um país.

Rir dos tropeços mentais de Dilma é apenas participar do conluio de ocultar o sofrimento de tanta gente. O riso é o descaso para com as lágrimas e o sofrimento de um povo desesperançado, sob o jugo dos impostos, da roubalheira nos poderes (sem falar na podridão dos conluios), dos péssimos serviços à população.

Dilma esquece propositadamente de explicar por que o Brasil está desequilibrado. Seria confessar a incompetência administrativa, a conivência e complacência com a roubalheira institucionalizada, sem contar o aparelhamento do Estado para benefício dos companheiros e apadrinhados.

Se um país, com a maior taxação do mundo, ainda tem que se socorrer de outro imposto já extinto para suas finanças ficarem em dia, é confissão da presidente de que não fez o mínimo dever de qualquer dona de casa: gastar o que pode. Esbanjou, jogou no ralo e nos bolsos amigos. Prevaricou escancaradamente e se faz de santinha - crime e escárnio.

A megalomania de Dilma e do PT, assenhorando-se dos cofres públicos, em detrimento do atendimento ao povo não pode ser perdoada com a instituição da CPMF. Há que ser condenada com atitude para que o país não se torne de vez o paraíso dos coronéis, dos barões, dos caciques, do comissariado, enfim, da bandidagem político-governamental.

Não há motivos para se rir, mesmo que palhaçadas presidenciais, mas para se revoltar e gritar cada vez mais contra a bandidagem que assola o país.

Às cegas

Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade 
Miguel Torga,

Futuro

A maior das crises que o Brasil enfrenta é reflexo do vazio. Vazio de lideranças, de escrúpulos, de honestidade, de respeito. Difícil é escolher um exemplo, alguém que possa servir de farol, de guia, de inspiração. Algumas figuras míticas se desintegrando como bolhas ao sol. O que oferecer ao jovem de exemplo? Mais temos a esconder.

Antes da apresentação de um “Jornal Nacional”, deveria ser exposto em tarja vermelha: “Vetado aos menores de 60 anos”. O que passa na tela deseduca. Coisas apenas para aposentados, que da vida já tiveram quase tudo.

A cada dia, uma forma nova e sofisticada de roubar, de desviar, de aniquilar um país. Falsidade e fórmulas de envenenamento da sociedade. Pelas ondas se espalham a descrença, o desespero, a depressão. Uma incitação à revolta. A covardia é banalizada. O execrável se repete, exposto e esmiuçado para qualquer um ver o que havia de feio.

Gatos do mesmo balaio, um dedurando o outro. Quem mais e quem menos, todos dedicados a mensalão ou mensalinho, mas sempre unidos na exploração sórdida do poder. Rouba-se das verbas da saúde, da educação, da caixinha da igreja, nada escapa, qualquer oportunidade serve, mesmo deixando sofrimentos e cadáveres no rastro.

Ficou exposto também o nobre e democrático instrumento da CPI, que deveria investigar e apurar condutas delituosas. Ele se transformou, como o resto, em forma de achaque, de negociatas, de lavar crimes. CPI usada como ameaça de constrangimento, para depois extorquir verbas que, de regra, saem da coisa pública.

O que se salva hoje? Difícil de dizer. Vazio de propostas, de vontade de enfrentamento. Esperanças que se apequenam num Brasil esvaziado. Fosse manga este país, teríamos para descrevê-lo apenas um caroço seco e pelado. As boas cabeças saem, não têm por que ficar aqui. Não há perspectiva, clima, seriedade, respeito às leis.

Quem vai apostar sua vida neste país? Que futuro esperar? Perder a flor dos anos num covil de lobos?

O indivíduo aspira ao grau de cidadão, emancipado pelas suas capacidades. Quer trabalhar, quer ter renda para satisfazer suas necessidades, viver sua vida. Muitos jovens querem se casar, ter sua família e um lar, uma vida tranquila.

Eu já passei por isso e tenho pena dos jovens de hoje, também muitos deles já deteriorados pelo mal a que ficaram expostos, matando sonhos e esperanças de juventude. Faltam líderes, comandantes, pessoas que pensem amplo e que aspirem a uma sociedade justa.

Tenho pavor de comentaristas políticos caçando cabelos nos ovos e banalizando o desfrute sórdido do exercício do poder. Gostava do antigo Boris Casoy, até ser silenciado.

Arrepio e não entendo como famílias inteiras, brindadas por patrimônios incalculáveis, se dedicam ao arriscado assalto da coisa pública, dos remédios, da comida, sem consciência do mal que provocam e de que deverão, um dia, dar conta a Deus.

Eu não sou pregador nem fanático montanista. Acredito que não há felicidade nem desenvolvimento, individual e da nação a que pertencemos, sem respeito às regras. Não tem Estado que progrediu sem respeito a seus mandamentos. Um Estado predador é terminantemente desautorizado pelas suas atitudes a gerir o poder.

A roda atual gira para favorecer os escroques, incita as novas gerações a trilhar o mau caminho. Apresenta seu pendor execrável.

Brasil: um potencial assombroso jogado fora. Recessão em 2015 de 4% ao ano. Já o ano de 2016 iniciou pior. Nada no horizonte a não ser impeachment e briga de uma classe política que asfixia os entusiasmos dos mais otimistas. O consumo de energia nos primeiros 15 dias do ano caiu 9,6%. Sinal de uma catástrofe iminente? O Estado ocupado por falanges que usam suas prerrogativas para roubar o esforço honesto de quem trabalha. Estado cuja função principal se reduziu a extorquir quem trabalha, lançando mão de tudo.

O Brasil está no limite da revolta; hoje dá medo.

Enquanto isso, no 'laboratório' petista...

Minha Poça Minha Vida, programa social do PT de Maricá

Não sabem escrever

Está nos jornais: 53 mil inscritos no Enem 2015 tiraram zero em redação! E, em três das quatro áreas que compõem o exame, a média caiu. Quer dizer, decorridos 12 anos de estudos, muitos jovens continuam sem saber escrever corretamente e sem conseguir se expressar bem. Em 2014 apenas 250 haviam alcançado nota máxima. Em 2015, o número despencou: 104! É de se estranhar, pois, que o ministro da pasta considere como “oscilações normais” tal descalabro.

Certamente, algo muito sério está ocorrendo: Se somarmos 37% (que fizeram menos de 500 pontos) com 33% (que ficaram entre 501 e 600), teremos 70%! Significa dizer que cerca de quatro milhões de jovens, às vésperas de ingressarem no mercado de trabalho e/ou no ensino superior, mal conseguem resolver problemas simples, interpretar dados de manuais e compor um relatório corriqueiro! São, pois, reduzidas suas chances de autossuficiência profissional e ascensão social.

Que ninguém me diga que a causa de tudo é que os dois milhões de professores brasileiros são conservadores e adoram reprovar. Escolas que utilizavam métodos hoje tidos como antiquados cumpriram seu papel com eficiência no passado recente. Hoje em dia, há as que conscientemente adotam métodos conservadores e têm ótimos resultados. Não defendo o método A ou B. Minha experiência me ensinou que, bem utilizados, quaisquer deles dão bom resultado. É que a causa do problema não é metodológica — é política.

Por outro lado, constatar que, em 2016, uma das áreas que oferece mais vagas para o nível superior é Pedagogia assusta. A situação é crítica porque, mesmo tais vagas continuarão sem serem preenchidas, já que boa parte dos poucos que optam pelo curso não pretende trabalhar em educação, como demonstraram recentes pesquisas.

O mesmo ocorre nas licenciaturas. Afinal, quem quer ser professor hoje, quando o primeiro grande desafio é conseguir fazer os alunos compreenderem que se qualificar é diferencial para a vida deles próprios? E que, embora seja direito assegurado por lei, vale lembrar que todo direito remete a dever correspondente. O docente precisa dar aulas motivadoras e usar metodologia adequada, sim; mas o aluno tem que entender que é ele o maior interessado em progredir. E progredir demanda se dedicar e ser disciplinado. O que impera em nosso meio, porém, é a ideia de que é mister fazer com que, nas aulas, estudantes se sintam tal e qual estivessem na web ou nos joguinhos eletrônicos!

Enquanto especialistas discutem o problema do celular e assemelhados em aula, a realidade é que ainda temos 112 municípios sem uma só biblioteca pública! E como tornar a aula uma festa, se, em salas lotadas e sem infraestrutura, docentes mal conseguem se fazer ouvir, tal o nível de indisciplina? Devolvam o poder aos gestores escolares e aos docentes, que, a seguir, muito se poderá solucionar.

Tania Zagury

Por que os recursos do pré-sal estão frustrando o setor da educação

Em setembro de 2013, a presidente Dilma Rousseff assinou a lei que destina a maior parte dos recursos dos royalties do pré-sal à educação num momento de grandes expectativas: a economia brasileira ainda vivia tempos de otimismo e o petróleo era cotado internacionalmente a US$ 110 o barril.

A lei determinou que 75% dos royalties do petróleo e 50% do chamado Fundo Social do Pré-Sal sejam destinados à educação - uma espécie de poupança feita com parte dos recursos originários da exploração petrolífera do país, paga ao Estado brasileiro pelas empresas que exploram esse recurso.

Na ocasião, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, declarou que os royalties trariam a receita "mais promissora do Estado brasileiro". E Dilma lembrou que se tratava de "darmos um salto de qualidade de ensino no Brasil e em todas as atividades, da criação científica até a economia".

Passados pouco mais de dois anos, porém, o cenário é bem menos otimista: o preço internacional do petróleo vem despencando e, nesta segunda-feira, o barril foi cotado a US$ 28, valor mais baixo em 12 anos.

Isso significa que, a cada barril extraído, será substancialmente menor a receita de royalties obtida pelo governo brasileiro.

Segundo cálculos feitos até setembro pela consultoria legislativa da Câmara dos Deputados, de uma previsão orçamentária inicial de R$ 6 bilhões vindos de royalties para a educação, o país havia conseguido aplicar apenas 15% desse valor em 2015.

E, ainda que a exploração do pré-sal tenha registrado alta no ano passado e o dinheiro resultante disso já esteja pingando na conta do Ministério da Educação (MEC), municípios brasileiros dizem ter tido suas expectativas frustradas, alegando que os recursos estão ficando com o ministério para suas despesas correntes e não estão chegando à ponta final da cadeia.

Os municípios se queixam também que, por conta da crise econômica, os repasses do MEC estão atrasados, dificultando investimentos no setor.

Para complicar, uma pendência judicial contribui para a incerteza quanto aos royalties: uma liminar do Supremo Tribunal Federal mantém em suspenso a distribuição dos recursos nos termos definidos pela lei de 2013.

A ação, que não tem data para ser analisada em caráter definitivo, foi solicitada pelo governo do Rio de Janeiro, Estado produtor de petróleo, que questiona a distribuição dos royalties para os Estados não-produtores.

Nesse cenário, como ficam as chances de o dinheiro da exploração do petróleo poder de fato mudar o panorama orçamentário da educação brasileira, como se esperava em 2013?

Levantamento de Paulo César Ribeiro Lima, consultor da Câmara dos Deputados para temas minerais e energéticos, calcula que, apesar de no início de 2015 o orçamento ter previsto R$ 6 bilhões vindos dos royalties e R$ 4,1 bilhões terem sido empenhados (ou seja, prometidos) pelo governo federal até setembro, apenas R$ 872,5 milhões dessa fonte foram efetivamente gastos pelo ministério.

Para Ribeiro Lima, a previsão orçamentária nasceu alta porque ainda tinha como base o preço do petróleo ainda no patamar mais elevado.

E os municípios brasileiros, que costumam arcar com grande parte dos gastos educacionais – nas escolas de ensino primário e fundamental -, se queixam de que seus custos aumentaram, sem que as receitas petrolíferas tenham chegado para socorrê-los.

"Os royalties foram anunciados como um recurso adicional, (...) mas não temos respostas sobre como eles serão distribuídos para Estados e municípios", diz Alessio Costa Lima, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais da Educação (Undime).

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Guerra à guerra de informação

Tomar decisões sobre denúncias de corrupção nunca foi fácil para os jornalistas. Nenhum jogo se apoia tanto na manipulação das emoções e expectativas quanto o das eleições sendo, portanto, mais que previsível que a obrigação da imprensa de dar a conhecer tudo quanto é de interesse público que chegue ao seu conhecimento (não confundir com tudo quanto é de interesse “do público” que é coisa bem diferente) passasse a ser o alvo prioritário dos mais refinados manipuladores de todo o reino animal que são os que a política profissional seleciona. Não é por acaso, portanto, que o jornalismo honesto tenha, desde sempre, usado esse recurso só em último caso, tomando as devidas precauções para não ferir reputações injustamente.

A dominância absoluta desse tipo de expediente na imprensa brasileira hoje é o maior sintoma da gravidade da nossa doença política. Com a corrupção das instituições básicas da Republica pela distribuição de cargos para facilitar a ordenha do Tesouro Nacional oficialmente promovida a instrumento único de conquista e perpetuação no poder, a resposta do Judiciário adotando a delação premiada como antídoto, mas num ambiente atravancado de foros especiais e privilégios de “segredo de justiça” que ensejam a acumulação de “bombas de informação” de efeito retardado, e a mudança no padrão de gestão das empresas de comunicação que transferiram o foco da sua atenção das repercussões institucionais de seus produtos exclusivamente para as injunções de negócio atrelados a eles, formou-se a “tempestade perfeita” que enredou a imprensa numa guerra de (des)informação operada de forma cada vez mais profissional e sistemática em que ha muito mais a perder que reputações.

O vazamento de meias-verdades e mentiras inteiras a conta-gotas numa velocidade que torna impossível apurar cada uma delas transformou-se no fulcro da luta política no Brasil. Essa distorção insinua-se por uma sutileza que, no mais das vezes, passa despercebida pelo leitor: muito mais frequentemente do que não, as redações estão editando com o destaque que só se justificaria se fossem “furos” próprios, apurados e confirmados, aquilo que não passa de denuncia recebida de terceiros envolvidos na luta pelo poder, sem nenhum esforço de reportagem ou investigação autônoma. Mesmo quando há registro de que o órgão apenas “teve acesso” àquela informação, o tiro sobe às manchetes por baixo de logomarcas que – seja fato, seja factóide – emprestam ao que vai afirmado nelas uma credibilidade que, por princípio, deveria ser-lhe negada.


A esta altura já é tão certo e sabido que esse expediente tornou-se a principal arma do arsenal dessa guerra que informaria muito mais mostrar de onde veio cada tiro do que apenas estrondá-lo. A primeira providência para incluir a imprensa fora dessa briga de navalha no escuro é, portanto, banir esse assunto das manchetes, seja o que for que seja dito, sejam quais forem as galonas na farda do agente escalado para dize-lo. Não se trata de não registrar fatos mas sim de passar a cobrir a guerra de informação como guerra de informação que é, tomando dela a devida distância. O fato de estar cada vez mais difícil, aliás, acertar esses tiros apenas no que foi inicialmente mirado, é a prova da irrelevância dessa linha de “investigação jornalística” como contribuição para a solução dos gravíssimos problemas em que se debate o país. De Eduardo Cunha a Leonardo Picciani, da Dilma ao Renan na Petrobras, de Lula a Fernando Collor, passando pelos partidos de A a Z, qualquer fio de meada que se puxe, reservadas as raríssimas exceções que confirmam a regra, chacoalha todos juntos. E isso porque ninguém entre eles representa senão a parte que lhe cabe no latifúndio do privilégio que todos loteiam juntos para criar e sustentar a legião dos “Sem Crise” que os mantém no poder contra a vontade expressa do resto do Brasil.

Dilma Rousseff sofre um processo de impeachment por violação da Lei de Responsabilidade Fiscal porque é no grande oceano do déficit público que desaguam os crimes individuais de todos que agora tratam de escudá-la. No fim (e no começo) é a dinheiro sem trabalho que tudo se resume: o Brasil com privilégios inflou mais, na “Era PT”, do que o Brasil sem privilégios aguenta sustentar, e a economia está paralisada ha um ano não porque não haja solução para isso mas porque a solução passa necessariamente, ou pela extinção de privilégios nunca tocados antes, ou pela oficialização da exploração servil da maioria por uma minoria, situação que, por definição, só se estabelece quando se extingue a democracia. Não existe dificuldade alguma para que qualquer equipe técnica razoavelmente qualificada encontre meios de equacionar as contas do Brasil, dada a circunstância política que torne possível aplicar a matemática à baliza do merecimento, única alternativa para o privilégio. Cabe à imprensa construir essa circunstância dando a conhecer às forças vivas da nação os dados exatos do problema em todas as suas minúcias, isto é, mostrar, nesses dois brasis, onde estão os empregos, os salários, o trabalho e a produção e onde essas coisas correspondem ou não uma à outra. O resto o bom senso faz.

O Brasil não permanece perdido em seu labirinto em função das escolhas erradas de uma “sub-raça” incapaz de tomar o destino em suas mãos como gostam de afirmar os reacionários de sempre, sejam os da matriz “positivista”, sejam os da esquerdista que se diz “vanguarda” de quem não sabe o que é bom para si.

O que tem havido desde sempre é um cerco sistemática e cuidadosamente organizado – dos jesuítas do passado aos professores e intelectuais “orgânicos” de hoje – para impedir essa sociedade de conhecer todas as alternativas possíveis, especialmente aquelas que, testadas e aprovadas pelo mundo afora, têm mostrado eficácia para submeter representantes a representados, “contribuídos” a contribuintes, e extinguir sistemas de privilégio.

É para furar esse cerco que foi inventada a imprensa democrática.

Enquanto isso...

Aconteceu num janeiro de nove anos atrás. Lula estava na primeira semana do segundo mandato, quando sancionou a Lei do Saneamento Básico (nº 11.445/2007): “Estamos dizendo ao mundo: ‘olha, o Brasil está entrando na esfera do Primeiro Mundo e, de cabeça erguida, define, de uma vez por todas que, a depender do governo federal, não haverá momento na história futura deste país em que a gente deixe de priorizar o saneamento básico.”’

Governava há quatro anos, reelegera-se há dois meses e continuava fascinado por culpar adversários pelo retrocesso. Estribado na ênfase, arrematou: “Nós temos que trabalhar o dobro do que o governo passado para que a gente possa recuperar a irresponsabilidade a respeito do saneamento básico.”


Seu governo precisou de 32 meses para organizar um “grupo de trabalho” do plano de saneamento. E de mais 11 meses para regulamentar a lei, publicada três anos e meio antes.

Em janeiro de 2010, Lula entregou o poder a Dilma. O novo governo levou 41 meses e 13 dias — ou seja 230 semanas — para promover a primeira reunião do “GT”. Aconteceu na terça-feira 14 de maio de 2014 — sete anos, quatro meses e dez dias depois do discurso de Lula.

Ano passado foi criado um “Grupo Técnico de Macrodiretrizes e Estratégias”, sob supervisão de um “Comitê Técnico” do Ministério das Cidades. Em dezembro, o “GT” criado por Lula, finalmente, conseguiu concluir sua primeira tarefa — nove anos depois da lei. Produziu um relatório de 156 páginas com proposta de 41 “macrodiretrizes” e 137 “estratégias”, enunciadas depois de consulta a 80 especialistas “empregando a técnica do método Delphi”. Acrescentou uma seleção de 23 indicadores.

A principal conclusão do “GT” foi: Lula construiu, e Dilma sustentou até agora um Plano Nacional de Saneamento Básico sem prazos ou prioridades. Isto é, só existiu nos discursos presidenciais dos últimos 3.200 dias.

No relatório há um alerta para a degradação da qualidade da água potável nas maiores cidades. Entre 2010 e 2013, notou-se variação crescente (de 0,6 a 3,9%) nos percentuais de presença de coliformes em amostras coletadas nas saídas das estações de tratamento.

Pior é a situação na coleta de esgotos. A rede só alcança 58,2% dos domicílios. Entre 1995 e 2013 foi expandida à média anual de 1% ao ano, calcula a Confederação da Indústria. Desde 2007, cresce ao ritmo de 1,2% por ano.

Continua tudo igual, exceto nos discursos. Por isso, em 60 das cem maiores cidades, os baixos índices de coleta de esgoto resultam em altas taxas de internação por doenças diarreicas, responsáveis por mais de 80% das enfermidades causadas pelo inadequado saneamento ambiental, informa a pesquisadora Denise Kronemberger em estudo do Instituto Trata Brasil. As campeãs são Ananindeua, no Pará, Belford Roxo, no Rio, e Anápolis, em Goiás.

Sem prazos nem prioridades, o governo despeja dinheiro em obras definidas por critérios político-eleitorais. Ano passado, o Tribunal de Contas avaliou 491 contratos em cidades com mais de 50 mil habitantes, de 15 estados, que custaram R$ 10,4 bilhões. Encontrou de tudo: de obras paradas até a construção de uma estação de abastecimento de água em terreno contíguo a um cemitério. O lençol freático, claro, acabou contaminado.

José Casado

Os craques e os pernas de pau

Em 1958, véspera do jogo Brasil e Rússia, o técnico chamou Garrincha e lhe disse: “Vamos ganhar com uma jogada sua. Pegue a bola e drible o seu marcador. Quando vier o outro zagueiro, você o dribla também. Depois, vá à linha de fundo e cruze para o Vavá fazer o gol”. Garrincha, que ouvira a “estratégia” calado, indagou: “Mas, professor, você já combinou isso com os russos?”

A história é oportuna quando ministros e políticos governistas estão repetindo, como papagaios, o mantra “crescimento econômico”. A ladainha começou quando o ex-presidente Lula vociferou: “Dilma, você precisa liberar o crédito, fazer a roda da economia girar e dar boas notícias”. O problema do “mais créditos” é que o endividamento das famílias brasileiras já é o maior dos últimos dez anos. Para quase 40% dos brasileiros, a meta principal em 2016 é pagar dívidas, antes da casa própria, de trocar o carro ou encontrar um grande amor.


Difícil, também, é rodar a economia e dar boas notícias. Em 2015, o PIB pode ter encolhido até 4%, o desequilíbrio fiscal ficou próximo de R$ 120 bilhões, e o país foi rebaixado por duas agências de risco. A inflação anual foi de 10,67%, o desemprego chegou a 9%, e o dólar beira os R$ 4. Compõem o cenário a grave crise política e a popularidade da presidente em frangalhos. Sem falar dos processos de impeachment, no Congresso, e das contas de sua campanha no Tribunal Superior Eleitoral.

O atual ministro da Fazenda é Nelson Barbosa, o mentor da malfadada “nova matriz econômica” que — associada ao vale-tudo eleitoral — levou a economia brasileira a esse desastre. Para complicar, Barbosa está envolvido no caso das “pedaladas” e pode ser condenado no TCU.

Tão ou mais enrolada está a cúpula do Legislativo. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tenta livrar-se da cassação, enquanto o do Senado, Renan Calheiros, responde a vários processos no STF e teve o sigilo bancário quebrado no fim de 2015. O presidente do TCU, Aroldo Cedraz, é também investigado na Lava-Jato.

Qual a credibilidade que oferece um país em que ninguém sabe dizer exatamente quanto tempo o ministro da Fazenda, a presidente da República e os titulares da Câmara, do Senado e do TCU permanecerão nos seus cargos?

Os fatos e as expectativas — que afetam o comportamento da economia — são totalmente desfavoráveis. Para completar, em 2016 teremos eleições municipais, o que torna ainda mais difícil a contenção de despesas e a aprovação pelo Congresso de medidas impopulares. Neste cenário de incertezas, só um louco irá investir no Brasil. E, se o fizer, o preço será alto.

O PT, atônito, joga para a arquibancada. Quer usar as reservas, propõe a criação de novas faixas para o Imposto de Renda, impostos sobre lucros e dividendos, a elevação da tributação sobre heranças e doações, a volta da CPMF e a criação de impostos sobre grandes fortunas, jatinhos, helicópteros etc. Não vai ganhar o jogo, mas o discurso agrada à torcida. Como dizia Antônio Ermírio de Moraes, “a arte do PT é pedir dinheiro aos ricos, pedir voto aos pobres e mentir para ambos”. Certa ou errada a frase, o partido volta a propor medidas que alardeia desde a fundação, mas que, curiosamente, jamais implementou nos 13 anos em que está no poder.

Para agradar aos empresários, o PT sugere ao governo reativar o Conselho de Desenvolvimento Econômico, “vender” aos bancos de parte do que a União tem a receber, salvar as empresas corruptas envolvidas na Lava-Jato da inidoneidade (por meio de uma vergonhosa medida provisória), permitir a repatriação de recursos, legalizar os jogos de azar e obter empréstimos na China para lançar um “novo PAC”, ainda que deva bilhões da versão anterior.

Contrariando o PT e toda a sua base de apoio, Dilma promete manter o ajuste fiscal, o combate à inflação, os cortes nas despesas obrigatórias e a fixação de idade mínima para a Previdência. Mas será que a presidente irá bater de frente com PT, CUT, UNE e MST, a tropa chapa-branca já convocada para ir às ruas contra o impeachment? Só o tempo dirá, pois o que Dilma fala não se escreve.

A verdade é que, neste momento, falar em crescimento econômico é como a família de um enfermo, há um ano na UTI, cogitar a sua participação como atleta na próxima Olimpíada. Nem combinando com os russos.

No futebol, em 1958, o Brasil venceu a Rússia por 2 a 0. Garrincha deu um show, e Vavá fez os dois gols. A diferença é que naquela época tínhamos um time de craques. Hoje, na política e na administração pública, são muitos os “pernas de pau”. Ou seriam “caras de pau”?

Gil Castello Branco

Roubando palavras: Justiça social

Roubar palavras é a prática de corromper conceitos válidos, usando as palavras para confundir em vez de esclarecer. Quando uma palavra é usada para descrever algo que contradiz o conceito que aquela palavra representa, não só o diálogo se torna impossível como também o próprio pensamento racional.

Na sociedade há dois meios possíveis de interação: a razão e a força. Substituir a razão por mistificação só interessa a quem pretende impor a força. As esquerdas e os populistas usam palavras para provocar emoções, não para transmitir idéias. Isto lhes é necessário, pois a política que defendem é a imposição da força sobre o indivíduo. Ninguém aceitaria isto se entendesse o que está em jogo.

Roubar palavras é artifício constante no discurso esquerdista e populista e deixa o adversário despreparado sem reação. Quem defende a liberdade precisa conhecer os artifícios de quem a pretende destruir.

Justiça é um conceito altamente abstrato. Isto não significa de forma alguma que é um conceito vago ou que pode ter vários significados diferentes. Significa que é um conceito que requer o desenvolvimento de uma longa cadeia de conceitos precedentes para ser corretamente compreendido.

Conceitos abstratos são os mais susceptíveis ao roubo de palavras. Subverter um conceito com um baixo nível de abstração significa contrariar a realidade de maneira evidente, pois o interlocutor provavelmente conhece a definição objetiva daquele conceito.

Por outro lado, muitas pessoas não têm conhecimento de toda a cadeia indutiva que leva aos conceitos mais abstratos. Sabem o que significam “na prática”, mas não conseguem defini-los com rigor. Nestes casos, é fácil usar a palavra que conhecem e associam implicitamente com este sentimento – para dizer algo completamente diferente.

Justiça é um conceito ético. Isto significa que é um conceito que se refere às escolhas que as pessoas fazem. Compreender o que significa “justiça” é compreender o que é a ética, e como ela se aplica à interação entre pessoas. Isto por sua vez requer conhecer a natureza do ser humano, indivíduo dotado de razão.

Não é objeto deste texto desenvolver o conceito de justiça. Aqui é suficiente mostrar como compreender o significado de “justiça” requer compreender uma série de outros conceitos já abstratos, embora mais próximos da percepção direta.

Justiça significa agir para com os outros de maneira consistente com o que eles são, com sua natureza e com seus atos. Justiça é tornar a forma como se trata as pessoas uma conseqüência das escolhas destas pessoas, de suas ações e motivações.

Se uma pessoa comete um crime, viola intencionalmente a vida, propriedade ou liberdade de alguém, é justo tratá-la como um predador, um ser que vive pela força e não pela razão. É justo reagir à força quando alguém lhe ameaça ou agride pela força primeiro.

Se uma pessoa não viola os direitos do próximo, não mata, não rouba e não escraviza, é justo tratá-la como um ser que vive pela razão. É injusto usar a força contra esta pessoa – mesmo que se discorde de suas escolhas.

Há dois aspectos fundamentais ao conceito de justiça: trata-se de agir com base no resultado de um julgamento, portanto é algo fundamentalmente humano. O acaso, leis da natureza e seres irracionais são incapazes de serem justos ou injustos. E trata-se de reconhecer a causalidade, identificar as conseqüências das escolhas de outra pessoa e reagir de acordo.

O conceito de justiça é enfraquecido pelo uso corriqueiro. É comum chamar de “injustiça” quando uma pessoa boa sofre um revés por acaso, como um desastre natural, um acidente ou uma doença. Mas o acaso não é justo nem injusto, ele simplesmente acontece.

Injustiça é agir intencionalmente de forma incoerente com as ações dos outros. Um chefe que dá um aumento para seu amigo em vez de para o funcionário mais eficiente está sendo injusto. Se o amigo do chefe ganha (sem trapaça) a rifa da empresa, isto não é uma injustiça. Embora o resultado seja o mesmo, o amigo ter mais dinheiro que o bom funcionário, este segundo exemplo é apenas obra do acaso.

Mas o conceito de justiça é intencionalmente roubado quando se usa a palavra “justiça” para representar o seu oposto. A esquerda faz isto através do anti-conceito “justiça social”.

“Justiça social”, no discurso esquerdista, é sinônimo de igualdade de condição. Uma sociedade “mais justa” é uma sociedade mais igualitária. Toda desigualdade é tratada como injustiça.

Note-se de imediato que o conceito verdadeiro de justiça é o da causa e conseqüência: é justo agir de forma consistente com a conseqüência dos atos do outro. Igualdade é absolutamente incompatível com o conceito objetivo de justiça.

Somos todos diferentes em capacidade, motivação e condição inicial – que por sua vez resulta da capacidade e motivação de nossos antepassados. Para que se atinja a igualdade de condição, dada a desigualdade de ação, é preciso não agir de acordo com as causas e conseqüências das ações individuais.

Para fazer “justiça social” é preciso ser injusto – por definição.

Por que os esquerdistas roubam a palavra justiça para si? Caso defendessem abertamente a igualdade social – que seria o termo honesto para o que pregam – as esquerdas estariam abertas à pertinente e devastadora crítica de que a igualdade é brutalmente injusta: dá a quem faz menos benefícios que não merece e tira de quem faz muito os frutos de seu esforço.

Roubar a palavra “justiça” destrói de antemão a mais poderosa objeção racional ao ideário da esquerda. O defensor da liberdade individual fica na posição de ter de explicar porque “justiça social” não é justiça coisa nenhuma – um argumento complexo, abstrato e inacessível para muitos.

Aos desonestos esquerdistas e populistas fica a associação emotiva fácil da palavra “justiça” com aquilo que estão propondo, isto sim imediato e de ampla receptividade – apesar de sob esta bandeira promoverem as maiores injustiças.

Para combater o conceito de “justiça social” é preciso desmascarar a desonestidade inerente no termo. É preciso fazê-lo de forma clara e acessível. É preciso confrontar o esquerdista com a crua realidade do que significa colocar em prática este ideal.

“Então você está propondo fazer caridade com dinheiro roubado de gente inocente? Quem disse que o pobre honesto quer esmola? Que justiça é essa que defende roubar de alguém só porque ele trabalhou mais que o outro?”

Quando se deixa claro o que realmente significa “justiça social”, ela parece bem menos desejável.