sábado, 5 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Onde foi que erramos?

Diversos países têm um livro de referência ao qual os cidadãos, de tempos em tempos, recorrem para retemperar seu entendimento da sociedade em que vivem.

O exemplo hors-concours é, com certeza, a França, que compartilha com os Estados Unidos a obra-prima de Alexis de Tocqueville A Democracia na América (1835). O Brasil é um caso especial. Para identificar o “nosso” livro, devemos, primeiro, descartar a geração dos críticos da Constituição Republicana de 1891, quase todos medíocres e propensos a ouvir o canto de sereia de Mussolini. Depois da Segunda Guerra, sim, passamos a contar com autores do quilate de Victor Nunes Leal, Raymundo Faoro, Simon Schwartzman e José Murilo de Carvalho. Mas, sem demérito para nenhum desses, penso que o status de “clássico” cabe ainda a Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936 e diversas vezes reeditado.


Minha avaliação não se deve apenas à beleza da escrita e à vastidão do conhecimento histórico de Sérgio Buarque. Deve-se, a meu juízo, à atualidade da questão que ele suscitou. Não nos esqueçamos de que a obra a que me refiro data de meados dos anos 1930, época em que a maioria de nossa população vivia no interior e em pequenas comunidades e era quase toda analfabeta. Mesmo assim, o que Sérgio se indagou foi: por que o Brasil parecia incapaz de construir um verdadeiro Estado? Sim, caro leitor, eu escrevi “parecia”, mas talvez o verbo me esteja traindo, pois não descabe indagar se, finalmente, temos um verdadeiro Estado. Quem aterrissa em Brasília por certo avista, lá embaixo, o Palácio do Planalto, as conchas invertidas do Congresso e todos os demais edifícios que sugerem a pujante presença de um Estado. O saudoso mestre Hélio Jaguaribe costumava dizer que o Estado brasileiro era o mais moderno do Terceiro Mundo. Mas, nesses quase 90 anos, algo parece não ter se encaixado. Pior: a estagnação da economia é um claro reflexo da debilidade do Estado.

Raízes do Brasil parte de um valioso acerto. Ou pelo menos de um aparente acerto, ao descartar a monocultura, a escravidão, o patriarcalismo – ou seja, toda a cantilena da colonização ibérica. Mas logo reafirma que o principal impedimento à emergência do Estado são os grupos primários – leia-se, a família extensa, avessa a qualquer impessoalidade. Aqui, sem dúvida, começamos a pisar em terra escorregadia. “A solidariedade entre (grupos primários) – o autor prossegue – existe somente onde há vinculação de sentimentos mais do que relações de interesses – no recinto doméstico ou entre amigos” (Holanda, página 10). Essa premissa leva-o a tipificar a contraposição entre laços sentimentais e Estado remontando à tragédia Antígona, de Sófocles, escrita há mais de 2.400 anos. A razão dessa escolha é indicada nesta bela passagem: “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e ainda menos uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particularistas, de que a família é o melhor exemplo. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. É só pela transgressão da ordem doméstica e familiar que nasce o Estado e que o simples indivíduo se faz cidadão, contribuinte, recrutável e responsável, ante as leis da Cidade”. O problema é que Sérgio Buarque, embora invoque o antagonismo entre a heroína Antígona e Creonte, o rei de Tebas, para frisar o caráter universal da incompatibilidade entre os dois referidos, baseia praticamente toda a sua exemplificação histórica e cultural na história ibérica.

Descontem-se pequenos equívocos de leitura, como o que ocorre na página 101, em que Sérgio se refere a Antígona como irmã do rei Creonte. Na peça de Sófocles, ela não é irmã, mas futura nora, por ser noiva de Héron, filho de Creonte. Mais importante é o fato de Sérgio incorrer num equívoco que atribui a Max Weber, qual seja, o de dar um peso excessivo à esfera dos valores, em detrimento de fatores mais objetivos. Referindose à ideia de um Estado em sua plena configuração impessoal – já “depurado” de todo vínculo primário, Sérgio afirma: “A ideia de uma espécie de entidade imaterial e impessoal, pairando sobre os indivíduos e presidindo os seus destinos, é dificilmente inteligível para os povos da América Latina” (Holanda, página 138).

Ora, dessa formulação deveria decorrer que o Estado em sua plena configuração requer uma superestrutura normativa capaz de limitar quaisquer excessos que ocorressem entre os cidadãos, tal função não poderia ficar na dependência de uma ordem normativa apenas valorativa, e sim a uma ordem jurídica respaldada na força.

Saltemos para 2025. Hoje, uma enorme parcela da população vive em grandes metrópoles, não em comunidades rurais. A força de sentimentos de discórdia ou de concórdia como balizadores do comportamento social declinam de forma acelerada. A criminalidade não só aumenta, como se torna a cada dia mais bestial. E mesmo em Brasília, onde o esqueleto de um Estado é perceptível, o que mais vemos são interesses (não sentimentos) antiestatais.

Assim falou Zaratustra

“Para os puros tudo é puro”: 
– Assim fala o povo. 
– Mas eu vos digo: para os porcos tudo é porco!

Por isso os fanáticos e os que curvam a cerviz,
que também têm o coração inclinado, predicam
desta forma:
“O próprio mundo é um monstro lamacento!”

Porque todos esses têm o espírito sujo,
especialmente os que se não dão paz nem sossego
enquanto não veem o mundo por trás:
são os crentes no mundo posterior.

A esses lhes digo eu na cara, enquanto não
soe muito bem: o mundo parece-se com o homem por ter também traseiro; isto é uma verdade!

Há no mundo muita lama; isto é
muita verdade! Mas nem por isso o mundo é um
monstro lamacento!

É sensato haver no mundo muitas coisas
que cheirem mal; o próprio asco cria asas e
forças que pressentem mananciais!

Até nos melhores há qualquer coisa repugnante, e até
o melhor é coisa que se deve superar!

Oh! meus irmãos! é sensato haver
muita lama no mundo!
Friedrich Nietzsche

'Éramos todos civis'

"Sou o único sobrevivente que viu o que aconteceu com meus colegas", diz Munther Abed, enquanto mostra fotos de seus colegas paramédicos no telefone.

Ele sobreviveu ao ataque israelense que matou 15 profissionais de emergência em Gaza na madrugada de 23 de março, ao se jogar no chão na parte de trás da ambulância, enquanto seus dois colegas que estavam na frente foram atingidos pelos disparos.

No ataque, cinco ambulâncias, um caminhão dos bombeiros e um veículo da Organização das Nações Unidas (ONU) foram atacados "um por um" na região de al-Hashashin, no sul de Gaza, informou a ONU.

Os 15 corpos foram recuperados de uma vala comum no último domingo.


"Saímos da base perto do amanhecer", Munther contou a um dos jornalistas freelancers que trabalham em Gaza.

Ele explicou como a equipe de emergência do Crescente Vermelho Palestino, da agência de Defesa Civil de Gaza e da agência da ONU para refugiados palestinos (UNRWA, na sigla em inglês) se reuniu nos arredores da cidade de Rafah, no sul do país, depois de receber informações sobre tiros e feridos.

"Por volta das 4h30, todos os veículos da Defesa Civil estavam a postos. Às 4h40, os dois primeiros veículos saíram. Às 4h50, chegou o último. Por volta das 5h, o veículo da agência [da ONU] foi alvo de disparos diretos na rua", diz ele.

O Exército israelense afirma que suas forças abriram fogo porque os veículos estavam se movimentando de forma suspeita em direção aos soldados sem coordenação prévia, e com as luzes apagadas. E também alega que nove membros do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina foram mortos no incidente.

Munther contesta esta versão.

"Durante o dia e à noite, é a mesma coisa. As luzes externas e internas ficam acesas. Tudo indica que se trata de um veículo ambulância que pertence ao Crescente Vermelho Palestino. Todas as luzes estavam acesas até que o veículo ficou sob fogo direto", diz ele.

Depois disso, ele contou que foi retirado dos escombros por soldados israelenses, preso e vendado. Ele afirmou que foi interrogado por mais de 15 horas antes de ser liberado.

A BBC apresentou as alegações dele às Forças de Defesa de Israel (FDI), mas ainda não obteve resposta.

"As FDI não atacaram aleatoriamente uma ambulância", afirmou o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, quando questionado em uma entrevista coletiva de imprensa, ecoando as declarações das FDI.

"Vários veículos descoordenados foram identificados avançando de forma suspeita em direção às tropas das FDI, sem faróis ou sinais de emergência. Os soldados das FDI abriram então fogo contra os veículos suspeitos."

Ele acrescentou que "após uma avaliação inicial, foi determinado que as forças haviam eliminado um terrorista militar do Hamas, Mohammed Amin Ibrahim Shubaki, que participou do massacre de 7 de outubro, junto a outros oito terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica".

O nome de Shubaki não consta da lista dos 15 profissionais de emergência mortos— oito deles eram paramédicos do Crescente Vermelho Palestino, seis eram socorristas da Defesa Civil e um era membro da equipe da UNRWA.

Israel não deu informações sobre o paradeiro do corpo de Shubaki, nem apresentou qualquer evidência da ameaça direta que os profissionais de emergência representavam.

Munther rejeita a alegação de Israel de que o Hamas pode ter usado as ambulâncias como fachada.

"Isso é totalmente falso. Todos nas equipes eram civis", diz ele.

"Não pertencemos a nenhum grupo militante. Nosso principal dever é oferecer serviços de ambulância e salvar vidas. Nem mais, nem menos."

Os paramédicos de Gaza transportaram os corpos de seus próprios colegas para os funerais no início desta semana. Houve um clamor de pesar e apelos por prestação de contas. Um pai enlutado disse à BBC que seu filho foi morto "a sangue frio".

As agências internacionais só puderam acessar a área para recuperar seus corpos uma semana após o ataque. Eles foram encontrados enterrados na areia junto às ambulâncias, o caminhão dos bombeiros e o veículo da ONU destruídos.

Sam Rose, diretor interino do escritório da UNRWA em Gaza, declarou: "O que sabemos é que 15 pessoas perderam a vida, que foram enterradas em covas rasas em um banco de areia no meio da estrada, tratadas com total indignidade e o que parece ser uma violação do direito humanitário internacional".

"Mas somente se realizarmos uma investigação, uma investigação total e completa, é que poderemos chegar ao fundo da questão."

Israel ainda não se comprometeu a realizar uma investigação. De acordo com a ONU, pelo menos 1.060 profissionais de saúde foram mortos desde o início do conflito.

"Sem dúvida, todos os funcionários de ambulância, todos os paramédicos, todos os trabalhadores humanitários dentro de Gaza neste momento se sentem cada vez mais inseguros, cada vez mais frágeis", afirma Rose.

Um paramédico segue desaparecido após o incidente de 23 de março.

"Eles não eram apenas colegas, mas amigos", diz Munther, enquanto passa nervosamente as contas de oração pelos dedos. "Costumávamos comer, beber, rir e fazer piadas juntos... Eu os considero minha segunda família."

"Vou expor os crimes cometidos pela ocupação [de Israel] contra meus colegas. Se eu não fosse o único sobrevivente, quem poderia ter contado ao mundo o que fizeram com eles, quem poderia contar sua história?"

As duas anistias do bolsonarismo

A medida que avança no STF o julgamento dos golpistas do bolsonarismo, cresce no Congresso e nas ruas a mobilização em torno de uma possível anistia. Buscando legitimar o perdão aos golpistas, a ultradireita foca seus esforços nos condenados pela intentona do 8 de Janeiro, estejam presos ou foragidos da justiça. É mais fácil tentar justificar o perdão a um bando de palermas manipulados pelos artífices do golpe do que isentá-los de responsabilidade.

Os palermas, contudo, não são meros inocentes úteis. São gente que, antes de invadir e destruir as sedes dos Três Poderes, acampou por semanas diante de instalações militares, clamando pelo cometimento do maior dos crimes, o golpe de Estado. Este é o maior dos crimes porque não se limita à transgressão pontual de alguma lei. Em vez disso, busca derrubar o próprio Estado de Direito, sem o qual nenhuma lei legítima vigora. Se tanto, após um golpe passa a viger uma pretensa legalidade, imposta por usurpadores que alegam legitimar a si mesmos graças a terem sido vitoriosos no emprego da violência para derrocar a ordem legal sob o pretexto de uma ilusória “causa justa”.


Ora, a palermada golpista não ocorreu diante das casernas à toa. Os ali reunidos pediam que militares saíssem de seus quartéis para efetuar uma violenta virada de mesa. Não fosse esse o objetivo, teriam se reunido noutro lugar – em frente a tribunais ou igrejas, por exemplo, apelando à justiça dos homens ou de Deus. Por isso mesmo, quando saí­ram da frente de um quartel em Brasília para assaltar os Três Poderes, pretenderam produzir o que não haviam conseguido após meses de acampamento golpista, uma ação militar. Caísse o governo recém-empossado nessa esparrela, teria decretado uma operação de garantia da lei e da ordem (GLO), convocando os militares a debelar o caos produzido justamente por aqueles que, por meses (e incitados a isso pelo bolsonarismo), imploraram pela intervenção castrense.

Aprovar a anistia para essa ­arraia-miú­da do golpismo significa normalizar o golpe de Estado, pois implica afirmar, por meio de um diploma legal, que o maior dos crimes não é coisa grave. Uma das várias falácias brandidas por Bolsonaro et caterva­ é que isso seria necessário para “pacificar o País”. Ora, mas quem é que perturbou e segue perturbando a paz neste País? Não é quem insistiu (e segue insistindo) em questionar sem qualquer fundamento factual a licitude das eleições? Havia um meio simples de manter o Brasil pacificado: o respeito à ordem legal, às instituições democráticas e ao resultado das urnas. Quem se negou a isso, perturbando a paz, foram Bolsonaro e sua gangue. Para eles, a pacificação vem do perdão a seus crimes, de modo que possam continuar a cometê-los. Que paz seria essa?

Contudo, se a anistia jurídica ainda é algo incerto (não me arrisco a dizer improvável), a anistia política já é um fato. Ela se dá pela normalização da ultradireita por políticos, partidos, órgãos de imprensa e analistas convencionais. Ora, quem numa eleição busca o apoio de Bolsonaro, coliga-se com ele e aparece a seu lado em atos de campanha, está o normalizando e, portanto, anistiando seu golpismo.

E como classificar quem, como Tarcísio de Freitas, sobe ao lado de Bolsonaro num palanque, clamando pela anistia aos golpistas do 8 de Janeiro e afirmando que o ex-presidente e seus colegas de banco dos réus são perseguidos políticos? Ora, trata-se de alguém em negacionismo democrático, seja por supor que todas as evidências colhidas pela investigação da Polícia Federal são invenções (ou, quem sabe, miragens), seja por acreditar que não há mal algum em tentar golpes de Estado. Da mesma forma, está em negacionismo quem, diante disso, afirma ser Tarcísio um político moderado ou de centro. Igualmente, normaliza-se a ultradireita, neste caso não em sua forma tosca e explícita, mas na pretensiosa e dissimulada.

Eis a gravidade não só de aprovar uma anistia legal para o golpismo bolsonarista (da arraia-miúda, das lideranças ou do médio escalão), mas de seguir aprovando a anistia política ao tratar como normal o extremismo direitista com modos. Acreditar em bolsonarismo moderado (isto é, em extremismo moderado, evidente oxímoro) equivale a anistiar politicamente o golpismo que ameaçou a democracia no passado recente e seguirá ameaçando-a no futuro próximo, se lhe for permitido. Ou alguém crê que, mesmo que o atual projeto de anistia aos golpistas naufrague no Congresso, outro não surgirá com a eleição de um aliado seu para a Presidência?

Quem são os invisíveis e ausentes no julgamento do 8 de Janeiro

Os aspectos mais retrógrados e sombrios da sociedade brasileira vieram à tona com a subversão olavo-bolsonarista em aspectos que nos perturbam e nos colocam diante daquilo que somos e não julgamos ser. Da cabeleireira ao general, todos expressam o fato de que o país está à beira do abismo de sua história. Ao menos um dos brasis que conhecemos está chegando ao fim. Resta saber qual deles.

O caso da cabeleireira sugere que uma inocente mãe de família, por ter participado de uma alegre excursão a Brasília e açulada por circunstantes movidos pelo mesmo espírito, depredou uma obra de arte, a escultura “A Justiça”, do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti. Escrevendo-lhe no peito “Perreu, Mané” (sic).

Uma bandeira brasileira foi amarrada no pescoço da escultura, mais ou menos como o faziam as centenas de manifestantes que com o mesmo ímpeto invadiram e depredaram os palácios dos Três Poderes.

A ocorrência por ter mobilizado os contraditórios sentimentos que formam a personalidade nacional transformou-se em símbolo dessas contradições. Há nela todos os indícios do que não conseguimos ser, que manifestamos naquilo que achamos que somos, os patriotas que não somos.


Pátria somos quando estamos comprometidos com o nosso nós. O olavo-bolsonarismo nos dividiu e fragmentou, nos privou de pátria. Gente que vai ao governo americano pedir uma intervenção em nosso país, para assegurar interesses que não são os de nossa pátria, trai a pátria. Gente que ataca as instituições, que planeja assassinato de autoridades, é inimiga da pátria e inimiga de todos nós.

Gente, civil ou militar, que não sabe a diferença entre um botequim de Xiririca e os palácios que em Brasília abrigam as instituições, ao se comunicar por meio de palavrões, diz que por ela a pátria acabou. Porque pátria é também uma linguagem, a de uma unidade política de referência comum a todos. Religiosos, não só evangélicos que aceitam naturalmente essa linguagem são o quê?

O ato em torno da escultura de Ceschiatti reuniu e consagrou várias ignorâncias. A de não saber escrever. “Perreu”, em lugar de “perdeu”. A de achar que escultura é mera estátua e não saber que é obra de arte, obra de conhecimento e, nos países civilizados, de respeito e de admiração.

Não é estranho, pois, que os subversivos, imediatamente após a decisão do STF de transformar os acusados em réus, já têm montado o discurso de continuidade do golpe. Começam artimanhas para justificar as próprias ilegalidades com base na própria lei. Fragmentar o criminoso coletivo para diluir o delito na suposta multiplicidade de individualidades.

Justiça e Parlamento parecem propensos a cair na armadilha. O que aconteceu no dia 8 de janeiro de 2023 foi crime de multidão. Tem explicação sociológica e psicológica como crime de um sujeito único, um sujeito social e político. O próprio Código Penal atenua, mas não perdoa a participação nele.

Na imensa pesquisa que fiz sobre linchamentos no Brasil, crime de multidão, 2 mil casos num período de mais de 20 anos, ficou evidente que os participantes nesse tipo de violência coletiva têm consciência de que “linchar não é crime”, o que não é verdade.

Em seus depoimentos, os participantes da insurreição de 8 de janeiro de 2023 dão várias indicações de que se consideravam convocados por Bolsonaro e pelo Exército para depor o presidente eleito da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Aqueles acampamentos às portas dos quartéis só foram possíveis porque legitimados por diferentes modos de solidariedade e apoio de militares, de empresários e igrejas e seitas.

A multidão é um ente coletivo. Desde Gustave Le Bon, o médico e psicólogo que no século XIX estudou o surgimento e a ação desse sujeito social da modernidade, sabe-se que a personagem da turba é instrumento voluntário do que a turba faz. Ela se dirige com precisão aos objetivos e símbolos disseminados da ação coletiva.

Neste caso atual, a conspiração golpista desde 2021 era meramente indicial. A multidão subversiva da Praça dos Três Poderes revelou-lhe os meandros e os laços de unidade, o invisível tornou-se visível e deu sentido ao que já se vinha vendo.

Houve uma omissão na investigação. Muitos dos que foram presos e interrogados disseram que foram a Brasília orar pelo Brasil, mesmo as velhinhas com Bíblia nas mãos. De fato as filmagens registraram exaltados pentecostais orando aos berros dentro dos palácios, exorcizando o satanás do poder, isto é, das instituições democráticas.

A convergência das justificativas dos acusados indica um dos sujeitos invisíveis da mobilização e da violência, as igrejas e seus pastores. Não foram indiciados e continuam conspirando.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Tarifas de 3ª classe!

1- Quando um governo impõe tarifas sobre produtos estrangeiros, estes chegam ao país mais caros. Resultado? Desde sapatos até eletrodomésticos, tudo passa a custar mais ao consumidor comum. A inflação volta, e os salários não acompanham. Uma guerra falhada.

2 – As tarifas podem proteger uma indústria, mas prejudicam muitas outras. Se as empresas não conseguem exportar, perdem receitas, cortam postos de trabalho ou até encerram. Ou seja, não há empregos.

3 – Numa guerra comercial, empresas e investidores não sabem o que esperar. Uma tarifa aqui, uma retaliação ali… Resultado? Travam investimentos, adiam contratações e a economia perde força.


Exemplo: em 2018, Trump aplicou tarifas sobre máquinas de lavar importadas. A ideia era proteger os fabricantes locais, como a Whirlpool. E sim, os concorrentes asiáticos ficaram mais caros. Que aconteceu?

O preço das máquinas subiu, em média, 86 dólares por unidade. E o mais surpreendente: o preço das máquinas de secar (sem tarifas!) também aumentou — apenas porque os vendedores aproveitaram a boleia.

Esta guerra, no primeiro mandato de Donald Trump, acabou assim: os consumidores americanos gastaram mais de 1,5 mil milhões de dólares extra só para lavar e secar roupa. E apenas 1.800 empregos foram criados.

Groelândia, o retorno do Império Americano

Vladmir Putin acertou na mosca ao dizer que “os planos dos EUA de controlar a Groenlândia podem surpreender apenas à primeira vista e é um erro acreditar que seja só uma conversa extravagante do governo americano” (The Guardian, 28/03/25).

Contudo, no mesmo evento sobre o futuro do Ártico, ocorrido na Rússia em março, o presidente russo fingiu admitir a legitimidade do direito do colega cowboy sobre a Groelândia. Convenhamos, tal justificativa servirá também para Putin, na barganha pela Ucrânia.

Porém, se a ideia de Trump for trocar a Ucrânia pela Groelândia, estará reproduzindo o Pacto Molotov-Ribbentrop, firmado às portas da II Guerra Mundial entre Berlim e o Kremlin para dividirem a Polônia. Pensavam ter excluído a Europa do xadrez geopolítico, mas o saldo foi um continente devastado e 60 milhões de mortos. Em 2025, a incerteza de propósitos de Trump e Putin também se sobrepõe a qualquer perspectiva de desfecho pacífico dessa nova partilha do mundo entre as potências do momento.

Para começar, assim como na brodagem anterior entre Stalin e Hitler, os dois líderes atuais blefam com a mesma naturalidade com que respiram. Trump deveria saber que o teatro Groelândia-Ucrânia pode ser mais útil na repactuação do seu convívio com a Europa do que na tratativa duvidosa com a Rússia. Se o presidente ianque tiver algum juízo (memória já seria suficiente), não largará o barril de nitroglicerina europeu ao Deus dará.

Afinal, nos últimos dois milênios os europeus têm dado um boi pra não entrarem numa guerra e uma boiada pra não saírem dela.



Por sua vez, apesar de os Estados Unidos terem brindado a humanidade com a democracia republicana em 1776 (uma década antes da Revolução Francesa), o país símbolo de liberdade não tardou a pôr em marcha um projeto imperialista de fazer inveja a qualquer monarquia colonial europeia. Ou seja, não há nada de propriamente novo no front americano.

Os EUA vivem em guerra (ou da guerra) há 250 anos, desde seu nascimento. A primeira, logo em 1812, foi contra o Canadá numa disputa por fronteiras que só acalmou quando canadenses e ingleses incendiaram Washington e a Casa Branca. Em 1836 foi a vez do Texas que, mal havia declarado sua independência do México, foi engolido pelo Tio Sam. Pouco depois os americanos entraram em guerra com o próprio México e anexaram a California, Nevada, Utah, Novo México, Arizona, Wyoming e Colorado. Nesse meio tempo, pasmem, conseguiram guerrear até contra si próprios, numa guerra civil que vitimou cerca de um milhão de americanos!

Enquanto isso, compraram o Alasca dos russos e na virada do Século XX anexaram o Havaí numa escaramuça mal explicada. Na mesma época, ao adquirirem as Filipinas herdaram uma guerra de independência do arquipélago que durou 40 anos. Depois vieram duas guerras mundiais (com duas bombas atômicas), a Guerra Fria, Coreia, Vietnam, Iraque, Líbia, Somália, Libéria, Síria, Afeganistão, sem falar no apoio a inúmeros golpes de Estado e conflitos regionais.

Ou seja, é possível que a Groelândia seja apenas mais um episódio, de uma nova temporada, na extensa série de refregas do Império Americano. Resta saber se prevalecerá alguma racionalidade mínima do colonialismo tradicional, ou se o fator Trump pode bagunçar o tabuleiro geopolítico e econômico global. Vale lembrar que Roma prosperou com Otaviano Augustus, mas findou (des)governada por Calígula.

Biblioteca oficial do crime bolsonarista

Não é só o curriculum vitae de pessoa cruel, incivil e indecorosa, que exibe indignidade com orgulho e raiva. Não é só a biografia de cultivo da violência contra todo apelo por liberdade e inclusão. Contra qualquer interesse não privado e familiar.

Se você está desconfiado da delação de Mauro Cid, como se tijolinho de barro fosse alicerce do arranha-céus de provas contra Bolsonaro; se leu notas de imprensa céticas à denúncia da PGR, versão palpiteira e diletante de garantismo; se fica admirado com a coragem moral da advocacia bolsonarista para dizer o que diz, renove a biblioteca e acione a memória.


A delinquência foi documentada e televisionada. A tentativa de golpe veio também na forma impressa, à moda de Jair. Coisa tão grande que alguns se recusam a ver. A sociologia chamou essa atrofia sensorial de cegueira supraliminar.

A biblioteca tem três estantes. A primeira guarda a bibliografia militar, cuja referência é "O Cadete e o Capitão: a Vida de Bolsonaro no Quartel", de Luiz Maklouf. Conta do plano de atentado na adutora do Guandu e da absolvição fraudulenta pelo STM, que ignorou laudo grafotécnico.

Na segunda, a bibliografia parlamentar. Reúne casos de quebra de decoro e ações criminais no STF em razão de: defesa do fechamento do Congresso e do fuzilamento de FHC, ameaça de agressão física a assessora parlamentar, agressão verbal a Preta Gil e física a Randolfe Rodrigues, incitação ao estupro, ode à tortura e ao maior torturador da ditadura, leniência de Michel Temer, rachadinhas. Inclua os podcasts Retrato Narrado, de Carol Pires, e A Vida Secreta de Jair, de Juliana Dal Piva.

Na terceira, a presidencial. O governo que existiu em permanente estado de flagrância tem duas prateleiras principais: crimes contra a vida e a saúde pública; crimes contra a liberdade democrática. Para não falar em corrupção.

São peças produzidas não pela esquerda com sede de vingança, mas pela cidadania, famílias de vítimas, advogados, autoridades: representações ao Tribunal Penal Internacional; pedidos de impeachment (e o chamado "superpedido"); relatório da CPI da Covid; representações criminais arquivadas liminarmente por Augusto Aras; ação civil pública contra a Jovem Pan, por construção dolosa do caldo desinformacional em ataque à democracia; denúncia criminal da PGR.

Graças a Aras, a Lira e até a Gonet, que deixou muito na gaveta para se concentrar nos crimes de 8 de janeiro, virou pechincha. Crimes da pandemia foram disfarçadamente anistiados. Tradição de nossas casas de tolerância à delinquência política.

Todos temos direito de dizer que nada disso é crime, apenas exercício da liberdade patriota. Assim como todos temos direito de ser idiotas. O sistema de justiça tem dever de proteger o exercício do direito à idiotia. Só não pode confundir paixão com inocência, servidão voluntária com legalidade.

Há casos juridicamente difíceis e politicamente fáceis. A denúncia contra a cúpula do golpe é o contrário. Não pede superpoderes analíticos, só coragem de juízes e integridade de comentaristas.

Bolsonaristas chamaram de "reedição do Tribunal de Nuremberg". Sorte que o direito penal desconsidera ato falho. Hannah Arendt notou em Eichmann a banalidade do mal. Estamos assistindo à banalidade da ignorância.

O Trump que Bolsonaro seria

Hollywood era formidável em filmes de tribunal. Para ficarmos só nos clássicos, "O Vento Será Tua Herança" (1960) e "Julgamento em Nuremberg" (1961), ambos de Stanley Kramer; "Anatomia de um Crime" (1959), de Otto Preminger; "O Sol É para Todos" (1963), de Robert Mulligan; e o talvez melhor de todos, "Doze Homens e uma Sentença" (1957), de Sidney Lumet. Em suas disputas entre advogados ou jurados, sempre a luta por uma causa perdida. Em todas, a vitória da Justiça, baseada num princípio inarredável: a lei.


Foi como sempre enxergamos os EUA —arrogantes e sem escrúpulos no exterior, mas internamente sujeitos a um sistema legal de quase 250 anos e sólido demais para ser abalado por arroubos fora das, olha só, "quatro linhas". Agora Donald Trump está provando que não era nada disso. Bastaria que surgisse alguém chutando a porta, distribuindo tapas na cara e mandando todo mundo ficar de nariz contra a parede para que esse sistema se acoelhasse —com todo respeito pelos coelhos.

Trump descobriu em seu primeiro mandato que, se reeleito, o sistema não resistiria a um peteleco. Novamente de posse do Executivo e tendo reduzido seu outrora grande partido, o Republicano, a um bando de zumbis, só teria pela frente a Suprema Corte, esta já composta em maioria por seus homens, nomeados da outra vez. Para sua surpresa, são exatamente esses juízes que, ainda respeitosos à lei, estão tentando peitar suas indignidades.

Há dias, Hillary Clinton chamou Trump de "burro". Incrível, uma mulher com a tarimba de Hillary afirmar isso. Trump, por mais tresloucadas suas falas e atitudes, sabe o que diz e o que faz. Precisa destruir o sistema para impor outro, em que possa aplicar suas pretensões. A Groenlândia, por exemplo, não lhe interessa para fins turísticos —quer derretê-la para explorar seus minérios e petróleo. Há interesses em todos os aparentes absurdos que comete.

Para isso, Trump precisa imperar sem contestação. Como aqui faria Bolsonaro se tivesse sido reeleito.

Daniel Kahneman e o Populismo

A crise financeira global de 2008, deflagrada pelo mercado de títulos de dívidas imobiliárias de segunda linha (sub prime bonds), nos Estados Unidos, causou desvalorização em cascata no mercado financeiro, quebra de grandes bancos como o Lehman Brothers e uma profunda recessão. O mercado de ações perdeu trilhões de dólares em valor afetando o patrimônio das famílias, fundos de pensão e carteiras de investimentos. Empresas cortaram gastos, demitiram trabalhadores em massa, o consumo despencou e a recessão aprofundou. Os governos ao redor do mundo, através de uma ação coordenada dos seus bancos centrais, liderados pelo Fed norte americano, injetaram muito dinheiro (quantitative easeing) para conter os danos. A recuperação foi lenta.

Daniel Kahneman, psicólogo israelense, foi Prêmio Nobel de economia em 2002, por sua teoria (junto com Amos Tversky) sobre o comportamento humano em matéria econômica. A teoria deles era radicalmente contrária ao princípio das expectativas racionais que fundamenta teoricamente a mística da infalibilidade dos mercados financeiros e a defesa de sua completa desregulamentação. Os seres humanos decidem sob influência de vieses e heurísticas (atalhos mentais) que levam a ilusões cognitivas e grandes erros de avaliação. Como a crise de 2008 demonstrou de forma definitiva, o comportamento de manada nos mercados financeiros e a irracionalidade dos agentes econômicos acontecem por erros e ilusões cognitivas.


Amos Tversky faleceu em 2006 e no último dia 27 de março, fez um ano que Daniel Kahneman submeteu-se ao procedimento de suicídio assistido na Suíça aos noventa anos. Seu livro “Rápido e devagar: duas formas de pensar” publicado em 2011, mostra que a forma rápida é intuitiva, automática e emocional. Toma decisão com base em padrões e experiências passadas mas é sujeita a erros de avaliação e ilusões cognitivas. A forma devagar é logica, deliberada e esforçada. Analisa informações com cuidado e precisão. É mais lenta e trabalhosa e menos sujeita a erros.

Kahneman e Tversky trabalharam anos para que sua contestação dos principios psicológicos da teoria econômica fosse ouvida nos fóruns de economia. A história e, principalmente, a crise de 2008 comprovaram que eles tinham razão. A verdade apareceu e a economia comportamental tornou-se um ramo de pesquisa aceito e respeitado.

O debate político no mundo digital, nas redes sociais em particular, em muito se assemelha aos mercados financeiros desregulados. O discurso político populista é elaborado para ser avaliado pelo modo rápido de pensar. Narrativas, exemplos, metáforas e situações hipotéticas são construídas e costuradas para fazer as pessoas se apaixonarem pelos heróis, odiarem os vilões e, principalmente, acreditarem piamente na mitologia populista. Sua força está apenas na verossimilhança e na capacidade de encantamento da narrativa. Conspirações, difamações e mentiras são ingredientes válidos. A realidade é apenas um dos mundos possíveis.

A ascenção do populismo de extrema direita em todo o mundo, tendo Donald Trump e os bilionários das Big Techs `a frente, reforça o paralelo entre os desastres causados por mercados financeiros desregulados e a força política da mensagem populista. No ambiente de vale tudo das redes sociais, as Big Techs resistem `as tentativas de regulação enquanto lucram com o caos. O pensamento humano em modo devagar, fundamental para a ciência e para a evolução da humanidade ficou fora de moda. Sob o Trumpismo ficou quase proibido.

Estou convencido que o populismo vai fracassar mas não sem antes fazer um estrago gigantesco em termos de destruição institucional e de valores civilizatórios. Como na crise financeira de 2008, o mundo poderá pedir ajuda ao Estado e a suas instituições para nos tirar da desordem e da desesperança. Contudo, acho que levará algum tempo.

O Brasil pode chegar nas eleições de 2026 sem os dois lideres populistas que ainda hoje polarizam o país mas que estão perdendo terreno no imaginário da população. Os eleitores de Bolsonaro e Lula estão arrependidos como mostrou a pesquisa da Tendências publicada recentemente no Estadão.

Precisamos nos livrar desta ilusão cognitiva que fez o Brasil andar pra trás.

Musk, meu bilionário favorito

"Loser. Loser. Loser". Essa é a pior ofensa para um empresário como Elon Musk, que Trump transformou no gênio da “eficiência da América Grande”. O homem mais rico do planeta está prestando enorme serviço ao mundo livre. Musk conseguiu, com a derrota fragorosa de seu candidato conservador para a Suprema Corte do estado de Wisconsin, provar que nem todo o dinheiro consegue comprar uma eleição.

Seria uma semana de holofotes apenas para Trump e seu tarifaço delirante. Mas Musk quis dar a seu patrão na Casa Branca uma vitória. A de um juiz patriota contra uma juíza “progressista de esquerda radical”, num estado decisivo. Musk gastou US$ 23 milhões (mais de R$ 130 milhões) nessa campanha de uma corte estadual. Deu, publicamente, cheque de US$ 1 milhão por um voto em seu juiz. Em jogo, entre outras coisas, estará o julgamento do direito ao aborto.

Perdeu, mané. E foi pelo voto de eleitores republicanos arrependidos. Desconfortáveis com os ataques trumpistas a todos os aspectos da vida real da classe média. E da lucidez. Não falo só de educação e universidades. Saúde. Emprego. Liberdade de expressão. Deportação ilegal. Agora, o fantasma da recessão e da inflação. Um isolacionismo típico de ditaduras, de esquerda e direita. O contrário da ideologia liberal que orgulha os americanos.

O bilionário de cabeceira de Trump vai rachar esse governo. Musk, como se sabe, vem de uma família tão racista que seus avós maternos se mudaram do Canadá para a África do Sul do apartheid. E lá o bebê Elon nasceu e cresceu, num ambiente de segregação máxima. Suas saudações nazistas e seu descontrole emocional incomodam. Seus discursos inflamados com boné ao lado do presidente também. Afinal, de louco basta um na Casa Branca.

O significado simbólico de Wisconsin é poderoso e me intrigou mais que o tarifaço. As taxas eram previstas. Essa derrota, não. Musk é desprovido de inteligência política. Usou seu X para chamar o voto em Wisconsin de “uma daquelas situações estranhas em que uma eleição aparentemente pequena pode determinar o destino da civilização ocidental”.

Quis comprar uma corte de juízes. Meteu o dedo na tomada. Seu chefe também.

Estimulado por Musk, Trump acusou a candidata da oposição de “libertar pedófilos e estupradores”. Pediu ao eleitor que evitasse um DESASTRE, com maiúsculas. Losers. Patéticos. A juíza democrata Susan Crawford ganhou. E as análises apontam como causa um sentimento forte do eleitorado: o ressentimento contra “um governo de bilionários”. Sem empatia pelos comuns.

Está viva a democracia americana. Prestem atenção. É só a primeira derrota depois das urnas do ano passado. Wisconsin se tornou a plataforma do descontentamento.

O mundo já enxerga a cruz na testa lisa de Musk, o dono da SpaceX e da Tesla que empunhou a motosserra de gastos públicos nos EUA. Um homem com fortuna declarada de quase R$ 2 trilhões. Dinheiro pode até trazer felicidade, mas não traz inteligência.

Eu torcia para Musk permanecer no governo, pois é tão sem noção que constrange até o próprio Trump. Em fevereiro, o bilionário escreveu em seu X: “Eu amo @realDonaldTrump tanto quanto um homem heterossexual pode amar outro homem”. Acho que esse amor começa a perder reciprocidade.

Musk está para ser defenestrado – e sabe disso, como admitiu em comício no Wisconsin: “Não vou a lugar nenhum. Talvez eu vá para Marte, mas ele fará parte dos Estados Unidos”.

Musk é o alter ego de Trump. Veremos como o mundo vai se livrar dessa dupla megalomaníaca.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O martírio da universidade brasileira começa lá

O fato de maior peso para o futuro da universidade pública brasileira não acontece no Brasil. Acontece lá fora. Acontece na Casa Branca, em Washington, epicentro de um tsunami radioativo que se alastra pelos campi de Columbia, em Nova York, de Tufts, em Boston, e de Yale, em New Haven. Leio numa reportagem de Jamil Chade, publicada no UOL, que o Departamento de Educação de Trump investiga 45 das mais respeitáveis instituições de ensino superior nos Estados Unidos, incluindo a Universidade de Kansas, a de Utah e a de Cornell.

Nas adjacências do Golfo do México – nome que está ameaçado de extinção – muitas bibliotecas escolares já convivem com a censura. Trata-se de uma caçada. As autoridades alegam que perseguem agentes do antissemitismo, sem apresentar provas circunstanciadas. Falam também que combatem o racismo – contra brancos. Em sua mira, entra tudo aquilo que desafine da doutrina obtusa do trumpismo. É uma nuvem de gafanhotos de silício que começou a devorar a liberdade acadêmica.


Começou também a prender pessoas. Ilegalmente. Mahmoud Khalil e Rumeysa Ozturk estão encarcerados em desobediência frontal a determinações judiciais. Estudiosos estrangeiros que vivem lá se veem ameaçados de expulsão. Estudantes são vigiados. A delação entre colegas é incentivada ou mesmo imposta. Desde que o macarthismo se abateu sobre milhares de professores nos anos 1940 e 1950 não se via nada parecido na terra de Bob Dylan, Martin Luther King, Jimmy Carter, Andy Warhol, Kamala Harris e Timothy Leary. Chuva corrosiva. Fuligem no céu. Trevas sob o sol a pino.

Donald Trump banca o Torquemada estulto. Armado de seu lança-chamas moral, incinera as cátedras que ainda respiram. Columbia sofreu um corte de US$ 400 milhões do orçamento que deveria receber do governo federal. Parte disso seria destinada ao combate contra a aids. Os golpes financeiros e políticos levaram a instituição a uma espécie de nocaute, a um estado de letargia que é até difícil de entender. Na semana passada, Columbia anunciou a demissão de sua presidente (reitora), Katrina Armstrong, que ficou apenas uns meses na função. Outras escolas se apressam em retirar dos seus currículos e de seus programas termos que façam referência a diversidade sexual ou estudos da democracia. O índex de vetos é pormenorizado e humilhante. A rendição já vem dando seus sinais.

E o que é que isso tem a ver com a universidade pública no nosso país? Ora, tudo. Absolutamente tudo. Tudo e mais um pouco. A sanha repressora que se levantou a partir do Salão Oval tem conexões íntimas, ou mesmo promíscuas, com facções da extrema direita antidemocrática de diversos países, o Brasil incluído.

Para essas forças, o paraíso se efetiva na tirania e no brilho opaco dos olhos dos fanáticos. Sua estratégia é desmontar a autonomia dos ambientes acadêmicos e lobotomizar os cérebros. Você viu Jack Nicholson em O Estranho no Ninho? Pois é isso. O que acontece nos Estados Unidos, hoje, é o ensaio geral do que vem sendo preparado para os tristes trópicos. Na primeira oportunidade, as tropas vão se pôr em movimento e virão para cima, com seu ódio ressentido.

Em seu primeiro mandato, entre 2017 e 2020, Donald Trump enfrentou resistências nas melhores escolas de sua nação. Lee Bollinger, um renomado especialista em liberdade de expressão, que presidiu Columbia de 2002 a 2023, expressou mais de uma vez seu descontentamento com as rosnadas do republicano. Agora, Trump, além de latir, começa a morder. Sangue nos olhos. O inquisidor do século 21 redobrou a carga e promoveu a uma “ocupação autoritária” (“authoritarian takeover”), para usar aqui as palavras do próprio Bollinger, segundo reportou o Guardian, em reportagem publicada em 20 de março. Bollinger não está mais à frente de Columbia, infelizmente. Trump está de volta à Casa Branca, mais infelizmente ainda.

O improvável leitor que não duvide: o que não falta hoje, seja no Congresso Nacional, seja no Palácio dos Bandeirantes, é gente engravatada que mal vê a hora de copiar o “authoritarian takeover”. Cada uma de nossas universidades será brindada com uma blitzkrieg taylormade. Na USP o bote virá de um jeito, digamos, personalizado. Na Unicamp, de outro. A Unesp terá seu próprio roteiro. Assaltos parecidos virão nas federais.

A gente já viu esse filme antes. A gente já viu como termina. A gente parece que esqueceu. Agora, estamos vendo o mesmo filme começar de novo, como se fosse uma atração inédita. Nos Estados Unidos, onde a elite financeira e tecnológica cerrou fileiras com o poder estatal, num pacto de viés antidemocrático, podemos ver o trailer.

A nossa universidade precisa se preparar e reforçar suas alianças com suas irmãs do norte. O espírito universitário, no mundo todo, só sobrevive e se expande quando sabe que é um só. A arte, a Filosofia e a ciência, que tecem as melhores universidades do mundo, não têm fronteiras. Isso vale para as horas das grandes conquistas e para as horas, como esta, em que temos de nos defender.

Mais um gol contra do clã Bolsonaro. Nada de estranho

Como reagiria o Brasil ao tarifaço de Trump caso o presidente da República ainda fosse Jair Bolsonaro, reeleito em 2022 depois de derrotar Lula? Bolsonaro, e mais ninguém, tem a resposta.

E ele a ofereceu anteontem ao participar de mais um podcast que aplaude suas ideias. Na véspera do anúncio do tarifaço, que afetará setores estratégicos das exportações brasileiras, ele disse:

“A guerra comercial com os Estados Unidos não é uma estratégia inteligente que proteja os interesses do povo brasileiro. A única resposta razoável às tarifas recíprocas dos EUA é que o governo Lula abandone a mentalidade socialista que impõe altas tarifas aos produtos americanos, impedindo que os brasileiros tenham acesso a produtos de qualidade a preços mais baixos”.

Patriota de mentira procede assim. A qualquer hora, ou em hora particularmente delicada, ele tira a máscara e mostra de que lado está ou sempre esteve. Joga contra seu próprio país.



Dir-se-á – e seus fanáticos seguidores logo dirão -, que Bolsonaro quis apenas fazer mais um aceno a Trump porque necessita do seu apoio para não ser condenado e preso.

Como se o presidente americano estivesse de fato preocupado com a sorte de Bolsonaro. Para Trump, Bolsonaro não passa de uma caricatura tropical dele mesmo. Acha-o tão somente engraçado.

Nas últimas 48 horas, o Senado, por 70 votos a zero, aprovou o projeto de lei que permite ao Brasil retaliar o tarifaço de Trump. A Câmara dos Deputados também o aprovou por larga maioria.

A relatora do projeto foi a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro, ligada ao agronegócio. Pela primeira vez, direita e esquerda marcharam unidas.

Eduardo Bolsonaro, (PL-SP), deputado licenciado para cuidar da própria vida nos Estados Unidos, e da vida do pai junto a Trump, partiu para cima da senadora. Escreveu nas redes sociais:

“Gostaria de fazer considerações sobre o projeto de lei da senadora Tereza Cristina […] Essa guerra não é nossa, não vamos defender a mentalidade tributária socialista, sob a falsa bandeira da proteção da indústria nacional, para manter essa imensa e pesada carga tributária, que esmaga o poder de compra do brasileiro e nos leva a ter uma péssima qualidade de vida. Tributação é a distribuição criminosa da miséria”.

Quem puxa aos seus não degenera. Dos filhos de Bolsonaro, Eduardo é o que mais puxou ao pai. Vai fritar hambúrguer, Eduardo!

O crime contra a democracia não pode compensar

Uma das características mais marcantes da extrema direita é a clareza com que defende que a punição severa e exemplar de qualquer comportamento desviante ou ilícito é o modo mais eficaz de manter a sociedade na linha. Um bom punitivista desdenha de quem busca compreender as causas sociais do comportamento e desconfia de garantias legais, como o devido processo, a presunção de inocência e o direito de defesa. Tudo isso —dirá— é parte da cultura de complacência progressista que mantém alta a criminalidade, a desordem e o desrespeito à lei no país.

Não tenho dúvida de que a abordagem punitivista do crime —muito mais próxima da percepção e do desejo da maioria dos brasileiros do que a exaurida perspectiva da esquerda— é uma das razões do sucesso popular do bolsonarismo.


Bolsonaro é a favor da pena de morte e da antecipação da maioridade penal, justifica a brutalidade policial, é contra audiências de custódia, progressão de penas e saídas temporárias e não dá a mínima para a superlotação carcerária ou para os direitos humanos de presos. Boa parte da população brasileira o acompanha.

Na base dessa posição está uma aplicação simplificada da teoria econômica do crime, proposta por Gary Becker, Prêmio Nobel de Economia, que em 1968 formulou a hipótese de que os criminosos agem com base em cálculos de custo-benefício. O indivíduo avalia a viabilidade de cometer um delito considerando três variáveis fundamentais: o risco de ser descoberto, a probabilidade real de punição e a severidade da pena em caso de condenação.

Se os riscos de ser descoberto são baixos —por falta de vigilância, insuficiência institucional ou cumplicidade interna—, o crime compensa, pois é provável que se escape ileso. Se, mesmo após a descoberta, a punição for improvável —por motivos políticos ou lentidão judicial—, a sensação de que vale a pena persiste. Por fim, se mesmo após ser descoberto e punido as penalidades forem brandas ou facilmente reversíveis, o benefício potencial da ação ilegal será percebido como ainda superior aos riscos envolvidos.

Pois bem, essa mesma teoria econômica do comportamento aplica-se com ainda mais precisão ao julgamento de Bolsonaro e dos bolsonaristas envolvidos na tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito e na conspiração golpista.

Ser tolerante com a violência política, o golpismo e os ataques às instituições democráticas é o mesmo que reduzir o custo de futuros atentados. E, como ensinou Becker, quando o custo é baixo, o crime se repete.

Ao longo da história, qualquer pessoa que se junta a outras para derrubar um regime sabe, de antemão, que se fracassar o preço será altíssimo. Se, mais adiante, alguém tiver sucesso na empreitada, os punidos serão considerados mártires e o golpe será chamado de revolução; mas, enquanto isso, fuzilamento, evisceração, forca, esquartejamento e prisões perpétuas são o preço cobrado por qualquer regime que resista ao ataque.

Na democracia, os golpistas ao menos têm direito ao devido processo —e já não se paga com sangue e vida, o que é muito mais do que eles ofereceriam aos seus inimigos se tivessem tido êxito. Mas nem mesmo a democracia sobrevive se não cobra um alto preço de quem tenta derrubar governos legítimos ou permanecer no poder à força.

O Brasil viveu várias experiências traumáticas com regimes autoritários e golpes militares ao longo de sua história, o que torna a democracia liberal, entre nós, sempre uma conquista provisória e sob risco. Nesse cenário, se não houver vigilância, investigação e punição de atos contra o Estado democrático de Direito emite-se a mensagem —aos oportunistas de sempre— de que o crime contra a democracia é um ato de baixo risco e que, portanto, compensa.

Por essa razão, todos precisam ser julgados e severamente punidos —inclusive Bolsonaro. Isso não é desejo de vingança, mas uma necessidade estratégica: elevar drasticamente o custo percebido de futuros atentados semelhantes. É fundamental que ninguém acredite poder escapar às consequências de atentar contra o regime democrático.

Aplique-se aos golpistas a mesma lógica do bolsonarismo, que diz: "Se não houver punição firme, o crime compensará". Permitir a impunidade ou minimizar a gravidade dos crimes contra a democracia significa tornar esses atos politicamente lucrativos, encorajar novos ataques e fragilizar permanentemente o sistema democrático.

Não há democracia sustentável sem que os riscos para seus inimigos sejam claros, certos e rigorosamente aplicados.

Freud com Hitler

Acabo de voltar de uma viagem à Alemanha, em que experimentei o famoso Turismo Nazi. Visitei o local em Nurembergue, onde Hitler fazia seus comícios diante de multidões inflamadas. Também estive no Centro de Concentração de Dachau, ainda mais impressionante. A preservação desses lugares de memória demonstra um esforço da Alemanha para não repetir os erros do passado. Mas a crescente popularidade do partido Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD), de inspiração nazi, preocupa os alemães progressistas, que se perguntam se esse esforço terá sido em vão.

Enquanto as testemunhas da II Guerra Mundial se tornam anciãs e escassas, muitos jovens enxergam nas pautas da extrema-direita a solução para a crise econômica no país. No lugar dos judeus, o bode expiatório são os imigrantes — ambos têm em comum a condição de Outro, percebido como ameaça a ser subtraída.


Hitler ascendeu ao poder pelo voto popular, quando o povo se sentia fragilizado e elegeu o que Freud chamaria de um “Pai forte”. O psicanalista judeu morreu em setembro de 1939, três semanas após o início da II Guerra. Teve seus livros queimados pelos nazis e precisou se exilar na Inglaterra. No livro Psicologia das massas e análise do eu (1921), descreveu o mecanismo inconsciente que leva um sujeito, na massa, a projetar parte do seu Eu sobre a figura de um líder poderoso, capaz de guiá-lo e apaziguar seu desamparo.

Numa massa organizada, o sujeito se identifica com o líder de tal modo que o situa no lugar do seu próprio Ideal — de pensamento, de conduta, etc. Isto explica o alto grau de obediência em que as pessoas se engajam em instituições como a Igreja e o Exército, em que o Líder Supremo não admite questionamento. E este não é um processo exclusivo dos alemães. É um processo humano, que aconteceu e acontecerá em outros contextos.

Em troca da sua servidão voluntária, a massa ganha a fantasia de segurança, pertencimento e irmandade. São todos “filhos” do grande líder. A mesma fantasia contagiou os golpistas que acamparam em Brasília e outras cidades do Brasil, entre 2022 e 2023, defendendo a narrativa de Jair Bolsonaro de que houve fraude na eleição de Lula. Os golpistas estavam irmanados na destruição dos palácios dos Três Poderes e no patriotismo que sempre alimentou os fascismos (apesar de Bolsonaro não esconder sua veneração patética pelos Estados Unidos).

Segundo Freud, tais projeções tendem a ocorrer em qualquer massa organizada em torno de um líder forte. A rigor, nem eu nem você somos seres humanos superiores, livres de cair nessa armadilha. Aliás, a crença na superioridade do “nós” em relação ao “eles” é a essência do supremacismo nazi.

Nenhum de nós está livre do risco de cometer violências em nome de um Ideal que nos capture, inconscientemente, num momento de vulnerabilidade. É preciso atentarmos para esse perigo, para resistirmos a ele democraticamente, num mundo em que a crise parece o estado natural das coisas e as propostas autoritárias se apresentam como o caminho mais fácil.

'Achava que o livre mercado tinha vindo para ficar, até que Trump apareceu'

Eu me lembro bem de 1974. Com o aumento da inflação, o governo britânico ficou travado em uma batalha contra os sindicatos sobre os salários dos trabalhadores.

O governo parecia paralisado. Se enfrentasse os mineiros, greves poderiam interromper o fornecimento elétrico. Se cedesse e aumentasse os salários, a inflação dispararia.

De repente, surgiu do nada a crise global do petróleo – que lançou as economias de muitos países ao caos, incluindo a do Reino Unido.

O governo britânico decidiu introduzir a semana de três dias. Cortes de energia eram comuns e ficávamos desligados no escuro sem aviso prévio. E, aparentemente, o governo simplesmente esperava que nós aceitássemos aquilo.


Foi também o ano em que comecei a apresentar Panorama – o programa sobre atualidades da BBC. Passamos muito tempo debatendo estas questões e surgiram pessoas com todo tipo de ideias a respeito.

Houve até quem sugerisse que, para retomar o controle dos sindicatos, o que o país realmente precisava era de um golpe de Estado, liderado pelos militares.

Surgiu também outra ideia, proposta pelo político conservador Keith Joseph (1918-1994). Na verdade, era algo tão radical, tão fora dos padrões, que, durante a gravação do Panorama, ele se voltou para a equipe de produção e perguntou, irritado, se eles haviam entendido o que ele queria dizer.

Ou seja, o Reino Unido abandonaria o consenso estabelecido após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) de que o governo deveria controlar a economia.

Em vez disso, se deixássemos os mercados funcionarem sozinhos, eles ofereceriam maior prosperidade e segurança ao país.

Em 2025, esta ideia parece totalmente comum. Esta é exatamente a questão.

O que vimos no Reino Unido dos anos 1980, com a primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013), foi exatamente a rapidez com que o livre mercado deixou de ser uma ideia radical para se transformar em uma nova realidade. E, pouco tempo depois, muitos acreditaram que o sistema duraria para sempre.

O presidente americano, Donald Trump, é um empresário bilionário que, com certeza, se saiu muito bem financeiramente com o capitalismo. Mas, de repente – e, em parte, graças a ele –, o livre mercado está sendo atacado, como nunca havia sido antes.

O sistema ainda pode sobreviver à tempestade. Mas há quem pergunte: estaria o livre mercado fatalmente ferido e fadado ao fracasso?

As ações de Thatcher após sua vitória nas eleições gerais de 1983, em grande parte, parecem agora muito óbvias.

Ficamos acostumados a ver empresas particulares desempenharem papel central no nosso abastecimento de água, eletricidade, gás, ferrovias, portos e transporte de carga.

Mas, naquela época, poucos acreditavam que seria possível. Parecia um mundo de fantasia, totalmente distante de como tudo vinha sendo feito no pós-guerra.

Eu tinha seis anos de idade quando a guerra terminou.

Havia racionamento – cupons que nos permitiam comprar carne, roupas ou, é claro, doces. Mas, daqueles tempos difíceis e do calor da vitória, surgiu uma nova visão de sociedade no Reino Unido.

A vitória disparada de Clement Attlee (1883-1967) na eleição de julho de 1945 fez com que, pela primeira vez na história política do Reino Unido, a maioria dos eleitores votasse em um partido voltado ostensivamente ao socialismo.

Mas, mais do que isso, surgiu um novo consenso sobre como o país deveria ser governado. Em linhas gerais, o discurso dos líderes dos principais partidos britânicos, Trabalhista e Conservador, era parecido.

"Construímos nossas defesas contra a pobreza e a doença – e temos orgulho disso." A frase não é de um primeiro-ministro trabalhista, mas de Harold Macmillan (1894-1986), primeiro-ministro conservador entre 1957 e 1963. Era assim que tudo era feito na época.

Mas nem todos aceitavam este consenso. O criador de galinhas Antony Fisher (1915-1988) se irritou com o que considerava intromissão do Comitê de Comercialização dos Ovos, um antigo órgão do governo britânico.

Por isso, ele criou o think tank (centro de pesquisa e debates) Instituto de Assuntos Econômicos. Fisher inspirou Keith Joseph que, por sua vez, foi ter com Margaret Thatcher.

O mais irônico sobre o atual ataque ao sistema de livre mercado é que ele vem, em parte, de um presidente americano do Partido Republicano, já que as reformas de Thatcher foram muito populares entre a direita dos Estados Unidos.

Thatcher e o então presidente americano Ronald Reagan (1911-2004) mantinham visões de mundo parecidas. E Trump já falou de sua admiração por ambos, embora com a ressalva de que ele não concorda com algumas das políticas comerciais de Reagan.

Thatcher estava convencida de que seu país ficaria muito melhor se o gás, a água e a energia elétrica fossem retiradas das mãos do Estado e vendidas no mercado aberto – no mercado livre, como se estivéssemos comprando um pãozinho.

A grande ideia do governo Thatcher não era apenas vender as ações das companhias de serviços públicos para grandes empresas ou investidores. O governo iria oferecê-las para o povo do Reino Unido.

Em dezembro de 1984, foram colocadas à venda as ações da British Telecom (BT). E, na manhã seguinte, os números eram impressionantes: mais de dois milhões de britânicos passaram a ser acionistas da empresa.

Thatcher começou então a perceber que vender aquelas empresas não era apenas uma questão de romper as algemas do controle governamental. Poderia fazer parte de algo maior — transformar cada pessoa do Reino Unido em um capitalista e, assim, tornar o capitalismo mais popular.

No final dos anos 1980, a escala de transformação no Reino Unido era impressionante.

A venda das companhias estatais levantou o montante de 60 bilhões de libras (cerca de R$ 442 bilhões, pelo câmbio atual). Até 15 milhões de cidadãos britânicos passaram a ser acionistas.

Foi assim que o Reino Unido abraçou o livre mercado. Não era apenas uma mudança econômica, mas uma revolução cultural — uma redefinição da relação dos britânicos com o dinheiro, com o governo e consigo próprios.

E, depois que a privatização de Thatcher ofereceu às pessoas comuns a possibilidade de comprar ações, suas reformas do setor de serviços financeiros do país em 1986, conhecida como o Big Bang, permitiu que aquelas mesmas pessoas também as vendessem, oferecendo a elas um lugar no até então fechado mundo do mercado financeiro londrino.

Muitos políticos de esquerda acreditavam que o princípio que orientou estas reformas era questionável. Já as críticas ao livre mercado por parte da direita não eram sobre os princípios da reforma, mas sobre suas consequências.

No pensamento de Thatcher, havia a crença central de que o capitalismo de livre mercado só poderia funcionar se muitas pessoas participassem dele. E, com a propriedade das ações dos prestadores de serviços que, antes, eram estatais, foi o que aconteceu.

Mas, pouco tempo depois, começaram a soar os sinais de alarme – que só ficaram cada vez mais altos.

O empresário James Goldsmith (1933-1997) havia feito fortuna comprando empresas em dificuldades a preços baixos. Ele as remodelava para maximizar a eficiência e as vendia com lucro.

Para ele, as reformas dos anos 1980 foram uma dádiva dos céus. Mas, depois, ele pareceu ter mudado de opinião.

Em 1994, Goldsmith declarou a um comitê de senadores americanos que sua premissa continha uma falha mortal: o sistema exigia o máximo de lucro, mas atingir este ponto significava cortar o cordão umbilical com grande parte do seu próprio eleitorado.

"Você tem um sistema no qual, para conseguir os melhores lucros empresariais, você precisa deixar seu próprio país", afirmou ele. "Você precisa dizer para os seus vendedores: 'até logo, não podemos mais manter vocês – vocês são caros demais'."

"Vocês têm sindicatos. Vocês querem férias. Vocês querem proteção. Por isso, estamos indo para o exterior."

Ou seja, Goldsmith previu que as empresas levariam seus negócios para onde elas ganhassem mais dinheiro.

Se você for um CEO (diretor-executivo) comprometido com seus acionistas, esta é literalmente a descrição do seu trabalho. E o resultado, segundo Goldsmith, seria a perda de empregos no Ocidente, com comunidades entrando em colapso.

E, para piorar as coisas, ele defendeu que o Reino Unido havia cedido sua soberania a organizações como a União Europeia e à Organização Mundial do Comércio, restringindo-se a um sistema econômico conduzido por burocratas não eleitos em Bruxelas, na Bélgica (sede da UE). Tudo isso só aumentaria a sensação de alienação verificada nas comunidades que entravam em colapso.

E, com os mercados globais ditando a política, se uma indústria não fosse lucrativa, ela seria simplesmente abandonada até morrer.

Atualmente, o Reino Unido pode ser líder global em ciências e serviços financeiros. Mas será que isso serve de consolo para as comunidades que, um dia, faziam aquilo que hoje é feito no exterior?

A julgar pelo que ouvi frequentemente nos anos que passei viajando pelo país, apresentando o programa de TV Question Time, da BBC, não estou certo de que seja verdade.

Goldsmith acabaria tentando entrar na política. Seu Partido do Referendo levou uma surra nas eleições gerais de 1997, mas deixou uma semente plantada.

Ele defendeu que o caminho para o livre mercado global que o Reino Unido e o resto do mundo estavam percorrendo era perigoso. E que aumentaria as divisões em todo o mundo.

Se avançarmos cerca de 20 anos até 2016, seu alerta se tornou realidade. Os britânicos votaram para sair da União Europeia e o veredito não poderia ser mais claro: o voto a favor do Brexit foi mais alto nas comunidades que ficaram para trás, aparentemente alimentado pelas pessoas que sentiam que a globalização não estava funcionando para elas.

E o sonho de ter uma nação de acionistas de empresas também desandou.

Em 1989, a companhia de abastecimento de água Thames Water foi privatizada. Recebemos a promessa de redução das contas, melhor infraestrutura, menos burocracia e mais investimentos em um sistema desgastado pelas bordas. Era um investimento que o sistema capitalista global supostamente teria mais capacidade de oferecer.

Mas o que se seguiu foi totalmente diferente. As dívidas dispararam e os dividendos foram para os acionistas. A empresa extraía lucros enquanto os canos vazavam e o esgoto era despejado nos rios.

Agora, nossas contas pagam os juros daquelas dívidas. Parece que nos afastamos muito da nação de acionistas de empresas sonhada por Thatcher.

Em 1994, James Goldsmith havia defendido que o problema do sonho do livre mercado era que ele não protegia a base doméstica. Agora, existe alguém muito mais poderoso que concorda com aquela opinião.

Os métodos do presidente Trump são muito erráticos. Com ele, é difícil saber o que está acontecendo.

Sua disposição de lançar tarifas de importação para inimigos tradicionais e supostos amigos, com imensas consequências para os países envolvidos, desafia a nossa compreensão.

O que podemos dizer é que ele está tentando retornar às ideias anteriores ao livre mercado. Ele está tentando fortalecer a América por meio do protecionismo, dificultando para que qualquer pessoa consiga vender para qualquer lugar.

Existe o argumento de que, se você olhar a longo prazo, talvez o período de livre mercado seja a exceção. O próprio Reino Unido atravessou um período muito longo de protecionismo até abraçar o livre mercado.

As tarifas de importação não são nada de novo na história econômica mundial. E, de certa forma, Trump está simplesmente tentando fazer as coisas nos Estados Unidos voltarem a ser como eram antigamente, ainda que de forma bastante caótica.

O reinado do livre mercado enfrenta, agora, seu maior desafio de todos. Mas este desafio não vem dos apoiadores do socialismo – que, ideologicamente, defendem um grande papel para o Estado.

Na verdade, o desafio vem de Trump, que, de forma geral, é de direita e não tem escrúpulos ao ver o capitalismo permitindo que algumas pessoas enriqueçam cada vez mais.

O fato de que estes questionamentos vêm de dentro é o que os torna tão poderosos.