quarta-feira, 23 de outubro de 2024
O governo da lei e o poder dos costumes
Um período eleitoral repleto de agressões que põem em risco nossas hierarquias exprime a questão que ronda nosso espaço político: o conflito da lei com candidatos a um costumeiro mandonismo.
— O Estado Democrático de Direito é aquele em que o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos. Sua finalidade é coibir abusos do aparato estatal para com os indivíduos.
Essa conceituação, roubada da internet, esquece o problema: os abusos político-jurídicos dos mandões-salvadores contra o Estado Democrático de Direito. Abusos abonados por tradicional esperteza (“agora é nossa vez!”) e por costumes consagrados no preceito:
— Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei.
E no teorema de Oliveira Viana:
— Tenho coragem pra tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo!
Desvios particularistas são simploriamente chamados de “jeitinho” porque seu objetivo é manipular a lei, não modificá-la. Sua prática reitera um conhecido paradoxo brasileiro: burlar sem romper a lei.
O “jeitinho” e o estridente e agressivo “você sabe com quem está falando?” demonstram a força dos costumes. Eles exibem a antipatia pela lei que iguala, com o costume que, no Brasil, hierarquiza e verticaliza. Quem está “em ou por cima” não pode ser “tratado” como quem está embaixo. A prática democrática esbarra na hierarquia. Tal movimento promove uma dialética de insegurança, minando a prática democrática porque, na maioria dos casos, o costume engloba a lei.
Leis têm motivos, data e nome. Max Weber as classifica como instrumentos de uma “dominação racional-burocrática”. Um estilo de dominação com assustadora autonomia porque — como uma “jaula de ferro” — ela, ao lado do mercado autorregulado, submete seus operadores. Em contraposição, hábitos e costumes sem autores ou história constituem a “dominação tradicional” ao lado da “carismática”, em que predominam o personalismo e o mítico.
A dominação legal-racional tem base na lei escrita e numa presumida racionalidade. Leis são promulgadas, costumes são rotinizados e vividos. Leis podem ter propósito e autoria. Costumes são coletivos e anônimos. São as tais coisas do povo, como faz prova o populismo que promete “cuidar do povo” promovendo seus cuidadores.
O confronto entre lei e costume produz uma rotina de reformas e explica nossas reviravoltas jurídicas e políticas. Experimentamos muitos regimes: Colônia, Império, República, Estado Novo, ditadura militar, parlamentarismo, democracia e democracia de coalizão. Todos esses regimes têm um fundo comum: um personagem capaz de aglutinar tendências ideológicas. A despeito disso, contudo, hábitos religiosos, vigentes na moralidade, só agora têm sido discutidos.
O resultado é a descoberta de que um Brasil republicano e universalista está em luta contra um resistente Brasil familista, populista e particularista. É o tumulto da “casa” contra a “rua”, e não da casa como complemento da rua, conforme mostrei no livro “A casa & a rua”, publicado em 1985.
Não é fácil romper hábitos e costumes hegemônicos da reciprocidade inscritos no aforismo “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”; nem é tranquilo suprimir as hierarquias que dividiram nobres e plebeus, bispos e crentes e poderosos “donos” do povo.
Não é trivial relativizar as “regalias” com os “privilégios” e prerrogativas de cargos que usufruem isenção. Pois, caso seus ocupantes cometam um crime, são dele isentos ou julgados por leis apropriadas à sua condição.
Vale remarcar. Democracia é fácil de falar, mas difícil de fazer. Sobretudo num sistema em que a amizade, o companheirismo e a filiação podem relativizar a lei geral porque, até hoje, relativizamos pouco nossos costumes fincados em hierarquias e gradações.
Uma desconfiança da regra da lei paradoxalmente promovida pelo STF diz que é tempo de, com sensatez, harmonizar costumes e leis. E, se possível, de abandonar o axioma de Oliveira Viana, segundo o qual “tenho coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo”. É de cortar o coração, mas é preciso tentar.
— O Estado Democrático de Direito é aquele em que o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos. Sua finalidade é coibir abusos do aparato estatal para com os indivíduos.
Essa conceituação, roubada da internet, esquece o problema: os abusos político-jurídicos dos mandões-salvadores contra o Estado Democrático de Direito. Abusos abonados por tradicional esperteza (“agora é nossa vez!”) e por costumes consagrados no preceito:
— Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei.
E no teorema de Oliveira Viana:
— Tenho coragem pra tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo!
Desvios particularistas são simploriamente chamados de “jeitinho” porque seu objetivo é manipular a lei, não modificá-la. Sua prática reitera um conhecido paradoxo brasileiro: burlar sem romper a lei.
O “jeitinho” e o estridente e agressivo “você sabe com quem está falando?” demonstram a força dos costumes. Eles exibem a antipatia pela lei que iguala, com o costume que, no Brasil, hierarquiza e verticaliza. Quem está “em ou por cima” não pode ser “tratado” como quem está embaixo. A prática democrática esbarra na hierarquia. Tal movimento promove uma dialética de insegurança, minando a prática democrática porque, na maioria dos casos, o costume engloba a lei.
Leis têm motivos, data e nome. Max Weber as classifica como instrumentos de uma “dominação racional-burocrática”. Um estilo de dominação com assustadora autonomia porque — como uma “jaula de ferro” — ela, ao lado do mercado autorregulado, submete seus operadores. Em contraposição, hábitos e costumes sem autores ou história constituem a “dominação tradicional” ao lado da “carismática”, em que predominam o personalismo e o mítico.
A dominação legal-racional tem base na lei escrita e numa presumida racionalidade. Leis são promulgadas, costumes são rotinizados e vividos. Leis podem ter propósito e autoria. Costumes são coletivos e anônimos. São as tais coisas do povo, como faz prova o populismo que promete “cuidar do povo” promovendo seus cuidadores.
O confronto entre lei e costume produz uma rotina de reformas e explica nossas reviravoltas jurídicas e políticas. Experimentamos muitos regimes: Colônia, Império, República, Estado Novo, ditadura militar, parlamentarismo, democracia e democracia de coalizão. Todos esses regimes têm um fundo comum: um personagem capaz de aglutinar tendências ideológicas. A despeito disso, contudo, hábitos religiosos, vigentes na moralidade, só agora têm sido discutidos.
O resultado é a descoberta de que um Brasil republicano e universalista está em luta contra um resistente Brasil familista, populista e particularista. É o tumulto da “casa” contra a “rua”, e não da casa como complemento da rua, conforme mostrei no livro “A casa & a rua”, publicado em 1985.
Não é fácil romper hábitos e costumes hegemônicos da reciprocidade inscritos no aforismo “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”; nem é tranquilo suprimir as hierarquias que dividiram nobres e plebeus, bispos e crentes e poderosos “donos” do povo.
Não é trivial relativizar as “regalias” com os “privilégios” e prerrogativas de cargos que usufruem isenção. Pois, caso seus ocupantes cometam um crime, são dele isentos ou julgados por leis apropriadas à sua condição.
Vale remarcar. Democracia é fácil de falar, mas difícil de fazer. Sobretudo num sistema em que a amizade, o companheirismo e a filiação podem relativizar a lei geral porque, até hoje, relativizamos pouco nossos costumes fincados em hierarquias e gradações.
Uma desconfiança da regra da lei paradoxalmente promovida pelo STF diz que é tempo de, com sensatez, harmonizar costumes e leis. E, se possível, de abandonar o axioma de Oliveira Viana, segundo o qual “tenho coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo”. É de cortar o coração, mas é preciso tentar.
Os instintos mais primitivos
É muito mais fácil educar os povos para a guerra do que para a paz. Para educar dentro do espírito bélico, basta apelar para os seus instintos mais primitivos. Educar para a paz implica ensinar a reconhecer o outro, a ouvir seus argumentos, a entender suas limitações, a negociar com ele, a fazer acordos. Essa dificuldade explica por que os pacifistas nunca contam com a força suficiente para ganhar… as guerras.
José Saramago, "As palavras de Saramago"
Caminhando nas trevas
O curso dos acontecimentos é cruel. Passaram os incêndios no Brasil, a dor lancinante em Gaza se estendeu ao Líbano, quase não se fala nela, e, agora, o apagão na maior metrópole do país passará rápido também. Como também estou passando e passarei, não hesito em abordar esse tema.
Estava em São Paulo na noite de sexta, 11 de outubro, quando caiu a tempestade. Na manhã de sábado, fui pegar para viajar uma pessoa que passara por uma cirurgia: ela estava com as malas tentando descer as escadas de um prédio sem luz. Pensei nessa contradição: uma cidade com grandes hospitais e medicina avançada, mas com um serviço de energia vagabundo. Confesso que já vi apagões em Boa Vista, quando dependiam da energia da Venezuela, e comentei aquele longo apagão de Macapá, que, por sinal, definiu as eleições de 2020 contra o governo.
Não me interessa muito o empurra-empurra sobre a culpa. Nem as oscilações cosméticas na burocracia reguladora. O que parece absurdo é o fato de estarmos diante de mudanças climáticas: novas tempestades virão; com elas, ventos que varrem a cidade, inundações, talvez. E quase não se fala em saídas de longo prazo, em adaptação aos novos tempos, que já chegaram e nos colheram de calças na mão.
Soube que, em 2009, foi aprovada uma lei para aterrar os fios. Mas, ao que tudo indica, essa lei não pegou. É uma saída cara, talvez nem tanto quanto os prejuízos do apagão que, nos cinco primeiros dias, somavam R$ 1,5 bilhão. Descentralizar a produção de energia, também não ocorre. O presidente George W. Bush, na sua época, quem diria, lançou um projeto para financiar painéis solares nas casas. Isso poderia ser feito em São Paulo com o estímulo de redução no IPTU. Não é saudável ficar dependendo de elefantes como a Enel. Não funcionam nem investem o necessário para manter a qualidade do serviço.
Cada vez mais entendo a falência dos partidos políticos, inclusive os da esquerda. Estes tiveram um alento quando olharam um pouco mais longe da luta de classes e viram as lutas identitárias. Mas a fórmula já não corresponde à nova realidade. As lutas identitárias se desgastaram com o rigor do politicamente correto, com as lacrações. Conforme ressaltou Mark Lilla, num livro que mencionei aqui, a vitória de Trump em 2016 já foi um aviso: as lutas identitárias sozinhas não sustentam uma campanha política nacional.
Assim como se ampliou em certo momento a ideia das classes sociais, hoje é preciso renovar. No meu entender, o passo a ser dado é reconhecer não apenas uma sociedade de classes, mas uma sociedade de riscos, onde os pobres se expõem muito mais. Essa é uma ideia do sociólogo Ulrich Beck, que já morreu, mas deixou uma teoria sobre a metamorfose do mundo, indicando que era preciso uma nova luz para entender a realidade.
O espaço é curto para expor tudo. Mas, se os partidos adotassem a visão de sociedade de riscos, não iriam para a porta de fábrica, como fizemos no passado. Eles precisam ir para a periferia, organizar não só as lutas elementares, mas principalmente a autodefesa da população diante dos eventos extremos cada vez mais frequentes. Em outras palavras, é preciso deduzir estratégia a partir do fato dominante que são as mudanças climáticas. Na verdade, elas ocupam hoje muita atenção: debates, conferências, viagens, teses e seminários. Mas falta quem arregace as mangas e vá trabalhar na realidade cotidiana a transição necessária.
Secas, incêndios, tempestades, tufões e apagões são a consequência dos novos tempos. A política não só ainda não descobriu essa realidade, como não se adaptou a ela para orientar a adaptação da própria sociedade. Caminhamos nas trevas, como diz o texto bíblico. O apagão na maior cidade do Brasil é o tipo de mensagem que não pode ser esquecida. Embora, como quase tudo que acontece, daqui a pouco também vai para a gaveta dos acontecimentos passados. Pelo menos, até que uma nova tempestade nos sacuda.
Estava em São Paulo na noite de sexta, 11 de outubro, quando caiu a tempestade. Na manhã de sábado, fui pegar para viajar uma pessoa que passara por uma cirurgia: ela estava com as malas tentando descer as escadas de um prédio sem luz. Pensei nessa contradição: uma cidade com grandes hospitais e medicina avançada, mas com um serviço de energia vagabundo. Confesso que já vi apagões em Boa Vista, quando dependiam da energia da Venezuela, e comentei aquele longo apagão de Macapá, que, por sinal, definiu as eleições de 2020 contra o governo.
Não me interessa muito o empurra-empurra sobre a culpa. Nem as oscilações cosméticas na burocracia reguladora. O que parece absurdo é o fato de estarmos diante de mudanças climáticas: novas tempestades virão; com elas, ventos que varrem a cidade, inundações, talvez. E quase não se fala em saídas de longo prazo, em adaptação aos novos tempos, que já chegaram e nos colheram de calças na mão.
Soube que, em 2009, foi aprovada uma lei para aterrar os fios. Mas, ao que tudo indica, essa lei não pegou. É uma saída cara, talvez nem tanto quanto os prejuízos do apagão que, nos cinco primeiros dias, somavam R$ 1,5 bilhão. Descentralizar a produção de energia, também não ocorre. O presidente George W. Bush, na sua época, quem diria, lançou um projeto para financiar painéis solares nas casas. Isso poderia ser feito em São Paulo com o estímulo de redução no IPTU. Não é saudável ficar dependendo de elefantes como a Enel. Não funcionam nem investem o necessário para manter a qualidade do serviço.
Cada vez mais entendo a falência dos partidos políticos, inclusive os da esquerda. Estes tiveram um alento quando olharam um pouco mais longe da luta de classes e viram as lutas identitárias. Mas a fórmula já não corresponde à nova realidade. As lutas identitárias se desgastaram com o rigor do politicamente correto, com as lacrações. Conforme ressaltou Mark Lilla, num livro que mencionei aqui, a vitória de Trump em 2016 já foi um aviso: as lutas identitárias sozinhas não sustentam uma campanha política nacional.
Assim como se ampliou em certo momento a ideia das classes sociais, hoje é preciso renovar. No meu entender, o passo a ser dado é reconhecer não apenas uma sociedade de classes, mas uma sociedade de riscos, onde os pobres se expõem muito mais. Essa é uma ideia do sociólogo Ulrich Beck, que já morreu, mas deixou uma teoria sobre a metamorfose do mundo, indicando que era preciso uma nova luz para entender a realidade.
O espaço é curto para expor tudo. Mas, se os partidos adotassem a visão de sociedade de riscos, não iriam para a porta de fábrica, como fizemos no passado. Eles precisam ir para a periferia, organizar não só as lutas elementares, mas principalmente a autodefesa da população diante dos eventos extremos cada vez mais frequentes. Em outras palavras, é preciso deduzir estratégia a partir do fato dominante que são as mudanças climáticas. Na verdade, elas ocupam hoje muita atenção: debates, conferências, viagens, teses e seminários. Mas falta quem arregace as mangas e vá trabalhar na realidade cotidiana a transição necessária.
Secas, incêndios, tempestades, tufões e apagões são a consequência dos novos tempos. A política não só ainda não descobriu essa realidade, como não se adaptou a ela para orientar a adaptação da própria sociedade. Caminhamos nas trevas, como diz o texto bíblico. O apagão na maior cidade do Brasil é o tipo de mensagem que não pode ser esquecida. Embora, como quase tudo que acontece, daqui a pouco também vai para a gaveta dos acontecimentos passados. Pelo menos, até que uma nova tempestade nos sacuda.
Acerca da opinião
Quando me manifestei com tanto ardor contra a opinião, estava ainda sob o seu jugo, sem me aperceber. Queremos ser estimados pelas pessoas que estimamos e, enquanto pude julgar favoravelmente os homens, ou pelo menos certos homens, os juízos que eles faziam a meu respeito não me podiam ser indiferentes. Via que os juízos do público são muitas vezes justos; mas não via que essa justiça resultava do acaso, que as regras sobre as quais os homens fundamentam as suas opiniões são extraídas apenas das suas paixões ou dos seus preconceitos, que provêm deles, e que, mesmo quando ajuízam bem, é frequente que esses bons juízos nasçam de um mau princípio, como acontece quando fingem honrar, a propósito de algum sucesso, o mérito de um homem, não por espírito de justiça, mas para se dar ares de imparcialidade, ao mesmo tempo que caluniam à vontade esse homem relativamente a outros pontos.
Quando, porém, após longas e vãs pesquisas, vi que todos eles, sem exceção, se mantinham dentro do sistema mais iniquo e absurdo que um espírito infernal pode inventar; quando vi que, a meu respeito, a razão fora banida de todas as cabeças e a justiça de todos os corações; quando vi uma geração frenética entregar-se totalmente à fúria cega dos seus guias contra um infortunado que nunca fez, nem quis, causar mal a ninguém; quando, após ter em vão procurado um homem, fui obrigado a apagar a minha lanterna e a exclamar; já não os há; comecei então a ver-me sozinho na terra e compreendi que os meus contemporâneos eram, em relação a mim, nada mais do que seres mecânicos que não agiam senão levados pelo impulso e cuja ação eu só podia calcular pelas leis do movimento. Fosse qual fosse a intenção, a paixão que eu tivesse admitido existir nas suas almas, jamais teriam explicado a sua conduta para comigo, de forma que eu pudesse entender. Foi por isso que as suas disposições interiores passaram a não significar nada para mim; passei a não ver neles mais do que massas que se movimentam de diferentes maneiras, desprovidas, a meu respeito, de qualquer moralidade.
Quando, porém, após longas e vãs pesquisas, vi que todos eles, sem exceção, se mantinham dentro do sistema mais iniquo e absurdo que um espírito infernal pode inventar; quando vi que, a meu respeito, a razão fora banida de todas as cabeças e a justiça de todos os corações; quando vi uma geração frenética entregar-se totalmente à fúria cega dos seus guias contra um infortunado que nunca fez, nem quis, causar mal a ninguém; quando, após ter em vão procurado um homem, fui obrigado a apagar a minha lanterna e a exclamar; já não os há; comecei então a ver-me sozinho na terra e compreendi que os meus contemporâneos eram, em relação a mim, nada mais do que seres mecânicos que não agiam senão levados pelo impulso e cuja ação eu só podia calcular pelas leis do movimento. Fosse qual fosse a intenção, a paixão que eu tivesse admitido existir nas suas almas, jamais teriam explicado a sua conduta para comigo, de forma que eu pudesse entender. Foi por isso que as suas disposições interiores passaram a não significar nada para mim; passei a não ver neles mais do que massas que se movimentam de diferentes maneiras, desprovidas, a meu respeito, de qualquer moralidade.
Jean-Jacques Rousseau, "Os Devaneios do Caminhante Solitário"
O apagão visto por quem sobe em poste
O nome pomposo, Eduardo de Vasconcellos Correia Annunciato, virou Chicão ainda no Senai, onde entrou aos 14 anos para fazer o curso técnico de elétrica/eletrônica. A culpa é do corpulento 1,88m que colide com o jeito manso com que abre o celular para mostrar o vídeo recebido dias atrás. A imagem traz o vapor saindo de um poço com esgoto onde um termômetro marcava 71,7 graus centígrados. É nesse poço que um técnico de manutenção de uma empresa terceirizada teria que entrar para consertar um cabeamento subterrâneo.
Ao longo de uma hora e meia em que Chicão discorre sobre a manutenção da rede elétrica da cidade, a cena se repete. Anseios como o enterramento dos fios não guardam nenhuma relação com a rede como ela é. O jogo de empurra entre governantes, empresa e agências reguladoras ganha concretude no relato do presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo.
Aos 51 anos, trabalhou por 13 anos na manutenção da rede, antes de se tornar dirigente sindical, na Eletropaulo na AES, concessionária estreante da privatização, e na Enel. A corda e o capacete que usava estão pendurados na parede do sindicato no centro de São Paulo.
O problema não era diferente quando o serviço estava a cargo da Eletropaulo, mas como havia mais técnicos, os trabalhadores podiam se revezar em turnos. Agora, como a parada térmica foi abolida, é obrigado a acionar a Justiça para garantir horas extras que permitam jornadas com pausas. Ainda que esvaziados e resfriados, esses túneis têm temperaturas que ultrapassam 40 graus pela amperagem dos fios que lá correm.
O piso salarial dos eletricitários é de R$ 2.450, com 30% de periculosidade para aqueles da manutenção. O adicional, em função dos riscos a que estão submetidos, não permite que acumulem a insalubridade decorrente de ambientes como túneis de fiação.
Os números estão na ponta da língua. Dos 10.800 funcionários da Eletropaulo, 1.084 foram demitidos logo no primeiro ano da privatização, em 1998. A AES era mais dura na negociação do que a Enel, mas acabou se dando conta de que precisava recontratar quando, cinco anos depois, um apagão expôs a situação de um serviço que havia reduzido em 60% os contratados. Quando a Enel comprou a empresa, em 2018, eram 8.050 funcionários. No apagão de 2023, restavam 3,9 mil.
A terceirização de metade da mão de obra não fere a lei mas afeta a memória e a sinergia, como acabou se provando. Depois daquele apagão, a Enel comprometeu-se a repor 1,2 mil e não 2,5 mil como tem sido dito. E o fez, diz Chicão. O que não significa que deem conta.
Das 390 empresas cobertas pelo sindicato, há outras três distribuidoras além da Enel: EDP, Eletro e State Grid. Nenhuma, diz, terceiriza tanto. Depois da aprovação da lei da terceirização em 2017, até os serviços de emergência entraram na roda.
O sindicato perdeu uma ação de cumprimento da convenção coletiva de uma empresa terceirizada que tinha se valido de três CNPJs, um para a concessionária, outro para os funcionários e um terceiro para o sindicato. E assim, alegou desconhecer o objeto da ação.
Ao longo dos seis anos em que convive com a Enel pôde concluir que determinações, como a da terceirização, vêm da matriz na Itália. Impedidos por lei de estender a dívida com o fundo de pensão dos funcionários para dez anos além da vigência da concessão, quiseram tirar o patrocínio. Um dirigente da Itália chegou a vir ao Brasil para bater (vigorosamente) à porta do ministro da Previdência, Carlos Lupi, sem sucesso.
Nem por isso, Chicão é favorável à cassação da concessão. “Se mantiver o modelo de gestão, não adianta mudar a empresa”, disse ao ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Por modelo, chama, por exemplo, os religadores automáticos que garantem indicadores de frequência e duração das interrupções aceitos pela Aneel. Esses religadores caem na conta do consumidor e não na da empresa que, por conta do mecanismo, acaba adiando serviços de manutenção necessários à saúde da rede.
Não vê como a coisa possa melhorar sem uma mudança nas agências, a Aneel e a estadual, Arsesp. Diz que a fiscalização é feita a partir dos dados fornecidos pelas empresas. Tampouco exime o prefeito. Conta que depois do apagão de 2023, recebeu mensagem de Ricardo Nunes no celular, convidando-o para um encontro. Achou que fosse trote, mas, em seguida, o próprio ligou e reiterou o convite.
Filiado ao PCdoB desde a juventude, migrou para o Solidariedade para disputar a Câmara dos Deputados em 2022. Recebeu 8,8 mil votos. Apesar de seu partido apoiar Nunes, é eleitor de Guilherme Boulos (Psol), o que não o impediu de ter tido uma boa impressão do prefeito: “Ele se mostrou humilde, disse que desconhecia o setor e pediu ajuda. Se fosse má pessoa não se exporia assim.”
Entregou-lhe um mapeamento georreferenciado. Mostrou que, a cada 800 metros, havia problemas graves e, cada 1 km, risco de morte. Disse que a categoria tinha 16 mil aposentados aptos para podas emergenciais. Os meses para os eletricitários dividem-se entre aqueles que não têm “R” e aqueles que têm. É naqueles desprovidos da letra (maio a agosto) que a poda deve ser feita. Nunes ignorou o alfabeto. Às vésperas do apagão de 2023, a fila da poda tinha 3 mil árvores. Este ano, o número se repetiu.
Faz um único pedido antes de a conversa acabar. Que as pessoas não joguem pedra nos eletricitários da manutenção. Como muitos atendem em áreas dominadas pelo crime organizado, nem boletim de ocorrência podem fazer.
Ao longo de uma hora e meia em que Chicão discorre sobre a manutenção da rede elétrica da cidade, a cena se repete. Anseios como o enterramento dos fios não guardam nenhuma relação com a rede como ela é. O jogo de empurra entre governantes, empresa e agências reguladoras ganha concretude no relato do presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo.
Aos 51 anos, trabalhou por 13 anos na manutenção da rede, antes de se tornar dirigente sindical, na Eletropaulo na AES, concessionária estreante da privatização, e na Enel. A corda e o capacete que usava estão pendurados na parede do sindicato no centro de São Paulo.
O problema não era diferente quando o serviço estava a cargo da Eletropaulo, mas como havia mais técnicos, os trabalhadores podiam se revezar em turnos. Agora, como a parada térmica foi abolida, é obrigado a acionar a Justiça para garantir horas extras que permitam jornadas com pausas. Ainda que esvaziados e resfriados, esses túneis têm temperaturas que ultrapassam 40 graus pela amperagem dos fios que lá correm.
O piso salarial dos eletricitários é de R$ 2.450, com 30% de periculosidade para aqueles da manutenção. O adicional, em função dos riscos a que estão submetidos, não permite que acumulem a insalubridade decorrente de ambientes como túneis de fiação.
Os números estão na ponta da língua. Dos 10.800 funcionários da Eletropaulo, 1.084 foram demitidos logo no primeiro ano da privatização, em 1998. A AES era mais dura na negociação do que a Enel, mas acabou se dando conta de que precisava recontratar quando, cinco anos depois, um apagão expôs a situação de um serviço que havia reduzido em 60% os contratados. Quando a Enel comprou a empresa, em 2018, eram 8.050 funcionários. No apagão de 2023, restavam 3,9 mil.
A terceirização de metade da mão de obra não fere a lei mas afeta a memória e a sinergia, como acabou se provando. Depois daquele apagão, a Enel comprometeu-se a repor 1,2 mil e não 2,5 mil como tem sido dito. E o fez, diz Chicão. O que não significa que deem conta.
Das 390 empresas cobertas pelo sindicato, há outras três distribuidoras além da Enel: EDP, Eletro e State Grid. Nenhuma, diz, terceiriza tanto. Depois da aprovação da lei da terceirização em 2017, até os serviços de emergência entraram na roda.
O sindicato perdeu uma ação de cumprimento da convenção coletiva de uma empresa terceirizada que tinha se valido de três CNPJs, um para a concessionária, outro para os funcionários e um terceiro para o sindicato. E assim, alegou desconhecer o objeto da ação.
Ao longo dos seis anos em que convive com a Enel pôde concluir que determinações, como a da terceirização, vêm da matriz na Itália. Impedidos por lei de estender a dívida com o fundo de pensão dos funcionários para dez anos além da vigência da concessão, quiseram tirar o patrocínio. Um dirigente da Itália chegou a vir ao Brasil para bater (vigorosamente) à porta do ministro da Previdência, Carlos Lupi, sem sucesso.
Nem por isso, Chicão é favorável à cassação da concessão. “Se mantiver o modelo de gestão, não adianta mudar a empresa”, disse ao ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Por modelo, chama, por exemplo, os religadores automáticos que garantem indicadores de frequência e duração das interrupções aceitos pela Aneel. Esses religadores caem na conta do consumidor e não na da empresa que, por conta do mecanismo, acaba adiando serviços de manutenção necessários à saúde da rede.
Não vê como a coisa possa melhorar sem uma mudança nas agências, a Aneel e a estadual, Arsesp. Diz que a fiscalização é feita a partir dos dados fornecidos pelas empresas. Tampouco exime o prefeito. Conta que depois do apagão de 2023, recebeu mensagem de Ricardo Nunes no celular, convidando-o para um encontro. Achou que fosse trote, mas, em seguida, o próprio ligou e reiterou o convite.
Filiado ao PCdoB desde a juventude, migrou para o Solidariedade para disputar a Câmara dos Deputados em 2022. Recebeu 8,8 mil votos. Apesar de seu partido apoiar Nunes, é eleitor de Guilherme Boulos (Psol), o que não o impediu de ter tido uma boa impressão do prefeito: “Ele se mostrou humilde, disse que desconhecia o setor e pediu ajuda. Se fosse má pessoa não se exporia assim.”
Entregou-lhe um mapeamento georreferenciado. Mostrou que, a cada 800 metros, havia problemas graves e, cada 1 km, risco de morte. Disse que a categoria tinha 16 mil aposentados aptos para podas emergenciais. Os meses para os eletricitários dividem-se entre aqueles que não têm “R” e aqueles que têm. É naqueles desprovidos da letra (maio a agosto) que a poda deve ser feita. Nunes ignorou o alfabeto. Às vésperas do apagão de 2023, a fila da poda tinha 3 mil árvores. Este ano, o número se repetiu.
Faz um único pedido antes de a conversa acabar. Que as pessoas não joguem pedra nos eletricitários da manutenção. Como muitos atendem em áreas dominadas pelo crime organizado, nem boletim de ocorrência podem fazer.
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Eles existem
Um bate-papo na sala de espera de um hospital pode ser mais torturante do que a perspectiva de um exame delicado ou a expectativa por um diagnóstico. Num mau dia, ouvem-se opiniões estarrecedoras. No meu caso, foi na semana passada, pela voz de quatro ou cinco homens e mulheres, todos articulados e com leitura talvez acima da média, num ambiente —um reduto médico— em que, se não acreditamos na ciência, não sei o que estamos fazendo ali.
De repente, falou-se da vacina contra a Covid. Dois deles admitiram que se vacinaram, mas a contragosto e só uma vez. Um casal à minha frente declarou que não se vacinou, e o marido explicou por quê. Eram contra a obrigatoriedade, temiam os efeitos colaterais —"trombose, AVC, enfarte"— e não acreditavam que uma vacina pudesse ser fabricada em um ano. A prova estava em que, citando uma estatística, morreram mais vacinados em 2022 do que não vacinados em 2021.
Outro na roda era um alemão, bem sacudido para os seus 70 e tal, com leve sotaque no português bem falado. Estava revoltado com a invasão de muçulmanos na Alemanha, "empesteando-a com suas doenças e obrigando o governo a sustentá-los à custa dos alemães". Um exemplo de que a imigração arruinava um país, segundo ele, era a Inglaterra, tão ocupada pelos indianos que, até há pouco, o primeiro-ministro britânico era um.
As chuvas em Porto Alegre, o furacão nos EUA e os ventos em São Paulo também não tinham a ver com extremos climáticos. Sempre aconteceram, a mídia é que não falava neles. E o degelo da calota polar era mentira —a Groenlândia há dois séculos era um jardim e hoje é uma geleira.
Temo que o leitor não acredite que ouvi esses disparates numa sala de espera de hospital há alguns dias. Eu também não acreditava enquanto ouvia. Vivemos em bolhas e ali me dei conta de que, até então, nunca me vira entre negacionistas hidrófobos. Mas eles existem e não eram cínicos, pareciam convencidos do que diziam. Perguntei ao alemão se, em sua opinião, a Terra era redonda ou plana. Ele riu: "Que pergunta é essa? Estamos falando a sério!". E fiquei sem saber o que ele achava.
De repente, falou-se da vacina contra a Covid. Dois deles admitiram que se vacinaram, mas a contragosto e só uma vez. Um casal à minha frente declarou que não se vacinou, e o marido explicou por quê. Eram contra a obrigatoriedade, temiam os efeitos colaterais —"trombose, AVC, enfarte"— e não acreditavam que uma vacina pudesse ser fabricada em um ano. A prova estava em que, citando uma estatística, morreram mais vacinados em 2022 do que não vacinados em 2021.
Outro na roda era um alemão, bem sacudido para os seus 70 e tal, com leve sotaque no português bem falado. Estava revoltado com a invasão de muçulmanos na Alemanha, "empesteando-a com suas doenças e obrigando o governo a sustentá-los à custa dos alemães". Um exemplo de que a imigração arruinava um país, segundo ele, era a Inglaterra, tão ocupada pelos indianos que, até há pouco, o primeiro-ministro britânico era um.
As chuvas em Porto Alegre, o furacão nos EUA e os ventos em São Paulo também não tinham a ver com extremos climáticos. Sempre aconteceram, a mídia é que não falava neles. E o degelo da calota polar era mentira —a Groenlândia há dois séculos era um jardim e hoje é uma geleira.
Temo que o leitor não acredite que ouvi esses disparates numa sala de espera de hospital há alguns dias. Eu também não acreditava enquanto ouvia. Vivemos em bolhas e ali me dei conta de que, até então, nunca me vira entre negacionistas hidrófobos. Mas eles existem e não eram cínicos, pareciam convencidos do que diziam. Perguntei ao alemão se, em sua opinião, a Terra era redonda ou plana. Ele riu: "Que pergunta é essa? Estamos falando a sério!". E fiquei sem saber o que ele achava.
Enterrando a verdade sob os escombros de Gaza
“Você pode cortar todas as flores, mas não pode impedir a primavera de chegar” Pablo Neruda
Por mais de um ano, os mestres da guerra em Israel e nos Estados Unidos, auxiliados pela mídia corporativa, enterraram a verdade sob os escombros de Gaza. A grande mídia dos EUA agiu como os cortadores de madeira e carregadores de água para o império.
Para entender como chegamos aqui, precisamos tomar emprestado o autor escocês do século XIX, Walter Scott, que escreveu: “Oh, que teia emaranhada tecemos quando praticamos pela primeira vez o engano”.
A reflexão de Scott ajuda a entender como a mídia transformou o sofrimento horrível dos palestinos e a campanha genocida de Israel em Gaza em apenas mais uma notícia — uma cena "aceitável" enquanto vivemos nossas vidas diárias. Também fornece insights sobre como o regime israelense encharcado em sangue foi retratado como a vítima, o bom soldado e digno de defesa.
Israel é um veterano em fraude de informação. Por meio século, eles definiram a narrativa e controlaram o ambiente de informação para esconder sua ocupação brutal de apartheid e objetivos expansionistas na Palestina. Eles sobrecarregaram o público, particularmente nos Estados Unidos, com informações favoráveis à causa de Israel e suprimiram o que desafiou sua narrativa.
Apresentadores de televisão, jornalistas e a "intelligentsia" em think tanks espalhados pela capital do país foram condicionados a aceitar e defender o clichê político de Israel e a desacreditar rapidamente os argumentos daqueles que desafiam sua dissimulação.
A autocensura da mídia corporativa, a subnotificação, a ocultação de atrocidades, a falha em contextualizar a experiência palestina sob o regime do apartheid e, o mais flagrante, a ignorância da cumplicidade dos Estados Unidos na construção e manutenção do regime de apartheid israelense ao longo de 76 anos contribuíram para um ambiente que encorajou Israel a se tornar cada vez mais violento.
As piores práticas jornalísticas ficaram evidentes após a ofensiva palestina de 7 de outubro de 2023. Os gestores mentais permitiram que Israel estabelecesse os parâmetros da mensagem, do que poderia/não poderia ser escrito e dito.
A cobertura seria feita do jeito de Israel — por meio de uma lente militar. Todas as organizações de notícias estrangeiras que operam em Israel estão sujeitas às regras de um censor militar , com apenas certos assuntos permitidos. É comum, por exemplo, ler ou ouvir jornalistas começarem suas reportagens com “Israel disse”.
Também houve pouca atenção à recusa de Tel Aviv em permitir o acesso de jornalistas estrangeiros a Gaza, à censura e proibições internas da mídia impostas pelo regime e aos 128 jornalistas e funcionários da mídia palestinos em Gaza, que foram alvos e mortos pelos militares israelenses.
Embora a mídia tenha dado uma cobertura exagerada às histórias israelenses sobre assassinatos em massa, bebês decapitados e alegações de estupro generalizado e sistemático durante o ataque de outubro, nenhuma atenção foi dada à "Diretiva Hannibal" e à "Doutrina Dahiya" de Israel.
Em 7 de outubro, o exército israelense deu permissão às suas forças para executar a Diretiva Hannibal. Adotado em 1986, o código de conduta permite que os soldados matem seu próprio povo se eles forem capturados vivos por seu inimigo percebido. Um crescente corpo de evidências revelou que centenas de israelenses que morreram naquele dia foram mortos, não pelo Hamas, mas por seus próprios soldados.
A doutrina Dahiya se tornou política militar oficial após o devastador ataque de Israel ao Líbano em 2006. Nomeada em homenagem ao subúrbio de Dahiya em Beirute, a doutrina — ilegal segundo o direito internacional — exige o uso de força massiva e desproporcional e o ataque deliberado a civis e infraestrutura civil em guerras futuras.
Por muito tempo, narrativas enganosas foram usadas e pouca atenção foi dada às políticas indefensáveis de Israel. Este é particularmente o caso em relação à Resolução de Partição da Assembleia Geral da ONU 181 (1947) que Israel usou para declarar a condição de estado e em sua colonização do que restou da Palestina histórica.
Ao evitar anos de governo do apartheid israelense e o cerco de 16 anos à Faixa de Gaza, o público ficou com a impressão de que o ataque de outubro foi um ato aleatório e não provocado de violência. Eles ouviram poucos detalhes do cerco esmagador que Israel impôs a Gaza quando se retirou em 2005, deixando para trás um plano de retirada restritivo, mantendo o controle exclusivo sobre o espaço aéreo de Gaza, águas territoriais, fronteiras, eletricidade, suprimento de água e movimento de pessoas e bens.
A história revela que há uma ligação direta entre ocupação e violência; que as pessoas ocupadas usarão todos os meios possíveis para serem livres, incluindo a violência.
O direito internacional (Quarta Convenção de Genebra, 1949) afirma o direito dos movimentos de libertação nacional de resistir e de usar a força contra a ocupação militar.
Através de uma lente mais sutil, a ação do Hamas em 7 de outubro pode ser vista como uma reação razoável e esperada ao violento e interminável projeto colonizador de Israel.
A mídia não se lembrou de que, assim como o Hamas, o Congresso Nacional Africano foi rotulado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos. E que foi somente em 2008 que Nelson Mandela, preso por 27 anos por se opor ao regime de apartheid da África do Sul, foi removido da lista de observação de terroristas dos EUA — transformado de “terrorista” em um celebrado “farol da liberdade e da democracia”.
O mito inventado do nobre israelense, guerreiro circunspecto e “agressor civilizado” não corresponde às imagens vindas de Gaza e do Líbano. A lógica, no entanto, foi virada de cabeça para baixo, pois o povo da Palestina é instruído a aceitar que eles — os colonizados e oprimidos — não têm o direito de se defender e são os culpados pela carnificina feita pelo colonizador israelense.
O romancista inglês George Orwell (1903-1950) estava correto quando observou com perspicácia que “a linguagem política é projetada para fazer com que as mentiras pareçam verdadeiras e os assassinatos respeitáveis, e dar uma aparência de solidez ao puro vento”.
Dentro da bolha da mídia corporativa, os escribas dos EUA empregaram linguagem política promovendo Israel. Os movimentos de libertação nacional que lutam contra o genocídio israelense e a hegemonia dos EUA são rotulados como terroristas “apoiados” pelo Irã. Enquanto isso, o “apoio” de Washington aos fanáticos genocidas em Tel Aviv é “ajudar” um aliado. A liderança política no Irã é caracterizada como um “regime”, enquanto Israel é liderado por um “governo” democrático.
Assim como o terrorismo, o termo “proxy” também é usado repetidamente para caracterizar aliados do Irã. Hamas, Hezbollah no Líbano e Ansar Allah no Iêmen são falsamente representados como vassalos de Teerã, que não são indígenas, mas imposições estrangeiras sem uma base de apoio em massa em seus próprios países.
A presença opressiva de Israel na Cisjordânia é retratada como "defensiva", enquanto os colonizadores judeus, protegidos por seus militares, saqueiam e se aproveitam de casas, propriedades e contas bancárias palestinas. De acordo com o Ministério da Saúde palestino, pelo menos 716 palestinos, incluindo 160 crianças, foram mortos pelo exército israelense e ataques ilegais de colonizadores na Cisjordânia ocupada desde 7 de outubro de 2023.
Após um ano de guerra, Israel provou que não é uma democracia, é uma entidade de apartheid; não é uma terra prometida, é um projeto colonial de colonos; não é uma nação sitiada, é um agressor; não está se defendendo, está conduzindo uma guerra genocida em Gaza.
Embora tenha havido uma série de relatórios significativos sobre a realidade em Gaza, a mídia deu pouca, se alguma, atenção a eles. Fomos mantidos em grande parte no escuro. Eles incluem:
De acordo com o Watson Institute, o governo Biden gastou US$ 22,76 bilhões financiando o genocídio em Gaza. Em sua carta de 2 de outubro, uma das muitas endereçadas à Casa Branca, os profissionais de saúde relataram que 62.413 pessoas em Gaza morreram de fome e o número de mortos é provavelmente maior que 118.908.
É perigoso e custoso manter “nós, o povo” no escuro. Precisamos pensar nas mentiras que nos levaram às guerras no Vietnã, Afeganistão, Iraque e em outros lugares.
De forma pungente, as palavras de advertência do nosso desacreditado 37º presidente, Richard M. Nixon, são assustadoramente relevantes hoje: “Fundamental para o nosso modo de vida”, ele disse em 22 de novembro de 1972, “é a crença de que quando informações que pertencem ao público são sistematicamente retidas por aqueles no poder, as pessoas logo se tornam ignorantes de seus próprios assuntos, desconfiadas daqueles que as administram e — eventualmente — incapazes de determinar seus próprios destinos”.
É hipócrita tentar convencer o público de que o assassinato de líderes da resistência que se opõem à hegemonia EUA-Israel na Palestina e na região acabará com sua luta pela liberdade. A teia emaranhada de enganos impulsionada por Washington, Tel Aviv e a mídia corporativa não fará os resistentes recuarem.
Como provaram por mais de sete décadas, eles são donos de seus próprios julgamentos, decisões e ações.
domingo, 20 de outubro de 2024
Pergunta que não me faço
Se eu sou feliz ou infeliz, eis uma pergunta que não me faço.
A única coisa em que penso sempre com alegria –
é que na grande conta (a conta deles, a que detesto)
com todas as suas cifras, eu não figuro,
como uma unidade entre outras. No total,
eu não fui contado. E essa alegria me basta.
Konstantinos Kaváfis
Cegueira, a pedra no caminho
A cegueira de Israel é agora um dos maiores obstáculos no caminho para acabar com esta guerra terrível e insaciávelGideão Levy, no Haaretz
A maldição americana
Muitos cidadãos americanos se têm interrogado sobre duas questões essenciais. A primeira é por que motivo se tornaram progressivamente tristes. Nos últimos oito anos a depressão galopou tal como as mortes provocadas por drogas, álcool e suicídio. Além disso a percentagem de pessoas que dizem não ter amigos próximos quadruplicou desde 1990.
O grupo populacional dos americanos entre os 25 e os 54 anos que não eram casados ou viviam em união de facto com um parceiro aumentou para 38% em 2019, quando era de 29% em 1990. Um quarto dos cidadãos com 40 anos nunca casou. Mais de metade dos inquiridos sentem-se isolados no mundo e afirmam que ninguém os conhece bem. O número de alunos do ensino secundário que confessam “sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança” disparou de 26% em 2009 para 44% em 2021.
Desde o dono do restaurante que tem que expulsar um cliente todas as semanas devido a comportamentos rudes ou cruéis, coisa que nunca aconteceu antes, até à enfermeira-chefe de um hospital que relata que muitos elementos da sua equipa estão a abandonar a profissão porque os pacientes se tornaram abusivos e excessivamente agressivos.
De resto, os crimes de ódio em 2020 apresentaram o nível mais elevado em 12 anos e as taxas de homicídio aumentaram, assim como o comércio das armas de fogo. Como resultado, a perceção de segurança e a confiança social caíram a pique. O ambiente é de ameaça, conspiração, polarização, tiroteios em massa e trauma.
Por outro lado, se no ano 2000, dois terços das famílias americanos encaminharam doações para a caridade, em 2018, menos da metade o fez. Não há dúvida de que se está em presença de algum tipo de crise emocional, relacional e espiritual, que por sua vez sustenta uma disfunção política e uma crise geral da democracia. O que está a acontecer?
As respostas sociológicas para este fenómeno de aumento do ódio, da ansiedade e do desespero são diversas.
Por um lado, temos a tecnologia que justifica que as redes sociais estão a deixar as pessoas enlouquecidas. Do ponto de vista da demografia, os Estados Unidos estão em profunda transformação ao deixar de ser um país dominado por brancos, uma mudança que está a trazer pânico a milhões de americanos brancos. A nível da economia, as profundas desigualdades trouxeram insegurança e deixaram as pessoas com medo, alienadas e pessimistas. E tudo isto terá contribuído para afastar os cidadãos da vida comunitária e promover o isolamento.
A realidade é que as pessoas estão de facto muito mais isoladas, mas porquê? As respostas anteriores não fornecem o quadro completo. As redes sociais estão em todo o mundo, assim como as desigualdades sociais, mas isso não explica tal colapso social e emocional nos EUA. A grande questão é saber o que leva os americanos a optar por estilos de vida que os tornam solitários, tristes, alienados e rudes.
A razão primeira, provavelmente, é que eles estão numa sociedade que perdeu o hábito de tratar os outros com gentileza e consideração. Pelo contrário, hoje qualquer pessoa se sente autorizada a manifestar o seu egoísmo. Uma sociedade coesa e saudável implica uma rede de instituições como famílias, escolas, grupos religiosos, organizações comunitárias e locais de trabalho, que contribuem para a formação de indivíduos como cidadãos gentis e responsáveis. Ou seja, o país está a viver uma fase de decadência moral. David Brooks defendia há tempos, em longo artigo no “The Atlantic”, que a América deixou há muito de investir na formação moral dos seus cidadãos. Talvez tenha razão.
Sejamos honestos. O país desenvolveu nas últimas décadas uma cultura desprovida de verdadeira educação moral, o que levou à emergência de gerações que se encontram a crescer num mundo desarticulado e autorreferencial. E quando assim acontece, vem ao de cima o pior do ser humano.
A verdade é que só faz sentido viver quando o fazemos também em função dos outros.
O grupo populacional dos americanos entre os 25 e os 54 anos que não eram casados ou viviam em união de facto com um parceiro aumentou para 38% em 2019, quando era de 29% em 1990. Um quarto dos cidadãos com 40 anos nunca casou. Mais de metade dos inquiridos sentem-se isolados no mundo e afirmam que ninguém os conhece bem. O número de alunos do ensino secundário que confessam “sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança” disparou de 26% em 2009 para 44% em 2021.
A segunda questão é perceber por que razão os cidadãos americanos se tornaram tão insensíveis e antissociais.
Desde o dono do restaurante que tem que expulsar um cliente todas as semanas devido a comportamentos rudes ou cruéis, coisa que nunca aconteceu antes, até à enfermeira-chefe de um hospital que relata que muitos elementos da sua equipa estão a abandonar a profissão porque os pacientes se tornaram abusivos e excessivamente agressivos.
De resto, os crimes de ódio em 2020 apresentaram o nível mais elevado em 12 anos e as taxas de homicídio aumentaram, assim como o comércio das armas de fogo. Como resultado, a perceção de segurança e a confiança social caíram a pique. O ambiente é de ameaça, conspiração, polarização, tiroteios em massa e trauma.
Por outro lado, se no ano 2000, dois terços das famílias americanos encaminharam doações para a caridade, em 2018, menos da metade o fez. Não há dúvida de que se está em presença de algum tipo de crise emocional, relacional e espiritual, que por sua vez sustenta uma disfunção política e uma crise geral da democracia. O que está a acontecer?
As respostas sociológicas para este fenómeno de aumento do ódio, da ansiedade e do desespero são diversas.
Por um lado, temos a tecnologia que justifica que as redes sociais estão a deixar as pessoas enlouquecidas. Do ponto de vista da demografia, os Estados Unidos estão em profunda transformação ao deixar de ser um país dominado por brancos, uma mudança que está a trazer pânico a milhões de americanos brancos. A nível da economia, as profundas desigualdades trouxeram insegurança e deixaram as pessoas com medo, alienadas e pessimistas. E tudo isto terá contribuído para afastar os cidadãos da vida comunitária e promover o isolamento.
A realidade é que as pessoas estão de facto muito mais isoladas, mas porquê? As respostas anteriores não fornecem o quadro completo. As redes sociais estão em todo o mundo, assim como as desigualdades sociais, mas isso não explica tal colapso social e emocional nos EUA. A grande questão é saber o que leva os americanos a optar por estilos de vida que os tornam solitários, tristes, alienados e rudes.
A razão primeira, provavelmente, é que eles estão numa sociedade que perdeu o hábito de tratar os outros com gentileza e consideração. Pelo contrário, hoje qualquer pessoa se sente autorizada a manifestar o seu egoísmo. Uma sociedade coesa e saudável implica uma rede de instituições como famílias, escolas, grupos religiosos, organizações comunitárias e locais de trabalho, que contribuem para a formação de indivíduos como cidadãos gentis e responsáveis. Ou seja, o país está a viver uma fase de decadência moral. David Brooks defendia há tempos, em longo artigo no “The Atlantic”, que a América deixou há muito de investir na formação moral dos seus cidadãos. Talvez tenha razão.
Sejamos honestos. O país desenvolveu nas últimas décadas uma cultura desprovida de verdadeira educação moral, o que levou à emergência de gerações que se encontram a crescer num mundo desarticulado e autorreferencial. E quando assim acontece, vem ao de cima o pior do ser humano.
A verdade é que só faz sentido viver quando o fazemos também em função dos outros.
Para onde caminha a guerra no Oriente Médio — e por que a diplomacia está perdendo
Um ano atrás, chegavam imagens assustadoras do Oriente Médio.
Israel ainda se recuperava do pior ataque sofrido na sua história, mas já realizava bombardeios que devastavam a Faixa de Gaza, em uma completa reviravolta na região.
O conflito entre israelenses e palestinos, praticamente esquecido pelo noticiário há anos, voltou subitamente a invadir as nossas telas. E todos pareciam terem sido tomados de surpresa.
Apenas uma semana antes dos ataques, o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, havia dito que a "a região do Oriente Médio" vivia "o seu momento mais tranquilo nas últimas duas décadas."
Um ano se passou e a região está em chamas. Mais de 41 mil palestinos foram mortos e dois milhões de moradores da Faixa de Gaza foram desalojados.
Na Cisjordânia, outros 600 palestinos foram mortos. No Líbano, um milhão de pessoas estão desabrigadas e mais de 2 mil foram mortos.
Mais de 1,2 mil israelenses foram mortos no ataque daquele primeiro dia. Desde então, Israel perdeu 350 soldados na Faixa de Gaza e 200 mil israelenses foram forçados a deixar suas casas perto de Gaza e na sua volátil fronteira com o Líbano, no norte do país. E cerca de 50 soldados e civis foram mortos pelos mísseis lançados pelo Hezbollah.
Em todo o Oriente Médio, outras forças entraram nos combates.
Os Estados Unidos trabalharam incansavelmente para evitar a escalada da crise, com visitas presidenciais, incontáveis missões diplomáticas e o envio de vastos recursos militares. Mas não houve resultados.
Mísseis já foram disparados até de locais distantes de Israel, como o Iraque e o Iêmen. Irã e Israel, dois inimigos mortais também trocaram disparos e é quase certo que outros ataques virão.
A influência de Washington poucas vezes se mostrou tão pequena quanto neste conflito.
À medida que os combates se espalham, suas origens ficam esquecidas.
A vida dos moradores da Faixa de Gaza, antes e depois de 7 de outubro de 2023, quase foi esquecida, com a imprensa antecipando impacientemente uma possível "guerra total" no Oriente Médio. E os israelenses que tiveram suas vidas viradas do avesso naquele dia terrível também se sentem igualmente negligenciados.
"Fomos colocados de lado", queixou-se Yehuda Cohen, pai do refém Nimrod Cohen, à rede israelense Kan News, na semana passada.
Cohen responsabilizou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por uma "guerra sem sentido que colocou todos os inimigos possíveis contra nós. Ele está fazendo de tudo para transformar o evento de 7 de outubro em um caso sem importância, com grande sucesso."
Nem todos os israelenses concordam com o ponto de vista de Cohen. Hoje, muitos observam os ataques do Hamas de um ano atrás como o prenúncio de uma campanha maior dos inimigos de Israel para destruir o Estado judeu.
A reação de Israel – com a explosão de pagers, assassinatos dirigidos, bombardeios de longo alcance e as operações de inteligência que são, há muito tempo, motivo de orgulho no país – restaurou parte da sua autoconfiança perdida um ano atrás.
"Não existe nenhum lugar no Oriente Médio que Israel não possa alcançar", declarou Netanyahu, confiante, na semana passada.
Os índices de avaliação do primeiro-ministro passaram meses no fundo do poço depois de 7 de outubro. Agora, ele vê sua popularidade crescer novamente. Seria uma licença para novos atos de ousadia?
Onde isso irá parar?
"Nenhum de nós sabe quando a dança irá terminar e onde estarão todos nesse momento", declarou o ex-embaixador britânico no Irã, Simon Grass, ao podcast Today, da BBC, no dia 3 de outubro.
Os Estados Unidos continuam envolvidos, mesmo que a visita a Israel do chefe do Comando Central americano (Centcom), o general Michael Kurilla, pareça mais um ato de gestão de crise do que um estudo de saídas diplomáticas.
A apenas quatro semanas da eleição presidencial americana e com o Oriente Médio politicamente mais tóxico do que nunca, este não parece uma ocasião para novas iniciativas dos Estados Unidos.
O desafio imediato é simplesmente evitar um conflito regional maior.
Existe um consenso entre os aliados de que Israel tem o direito – e até o dever – de responder ao ataque iraniano com mísseis balísticos do início de outubro.
Nenhum israelense foi morto no ataque e o Irã aparentemente tinha como objetivo atingir alvos militares e de inteligência. Ainda assim, Netanyahu prometeu uma resposta enérgica.
Após semanas de surpreendentes vitórias táticas, o primeiro-ministro israelense parece alimentar grandes ambições. Em discurso dirigido ao povo iraniano, ele indicou que Teerã estaria próximo de uma mudança de regime.
"Quando o Irã estiver finalmente livre, e este momento irá chegar muito antes do que as pessoas pensam, tudo será diferente", declarou ele.
Para alguns observadores, sua retórica trouxe desconfortáveis lembranças dos pontos defendidos pelos neoconservadores norte-americanos, durante as preparações para a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003.
Mas, apesar de todos os riscos atuais, ainda existem frágeis mecanismos de proteção.
O regime iraniano talvez sonhe com um mundo sem a existência de Israel, mas eles sabem que o Irã ainda é muito fraco para enfrentar a única superpotência da região – especialmente em um momento em que o Hezbollah e o Hamas, seus aliados e prepostos no chamado "Eixo de Resistência", estão sendo aniquilados.
Israel também gostaria profundamente de se livrar da ameaça imposta pelo Irã, mas o país também sabe que não pode fazer isso sozinho, mesmo com seus sucessos recentes.
A mudança de regime no Irã não está na agenda do presidente Joe Biden, nem da sua vice-presidente, Kamala Harris.
Em relação a Donald Trump, a única vez em que ele se sentiu tentado a atacar o Irã ocorreu em junho de 2019, quando Teerã derrubou um drone de vigilância norte-americano. Mas o ex-presidente desistiu no último momento – embora tenha ordenado o assassinato de um importante general iraniano, Qasem Soleimani, sete meses depois.
Poucas pessoas teriam imaginado, um ano atrás, que o Oriente Médio se encaminhava para o seu momento mais perigoso nas últimas décadas. Mas, olhando pelo mesmo espelho retrovisor da jamanta, os últimos 12 meses parecem ter seguido uma lógica terrível.
Com tantos destroços espalhados pelo caminho e os eventos ainda se desenrolando em velocidades alarmantes, as autoridades e o restante das pessoas continuam lutando para acompanhar a situação.
O conflito na Faixa de Gaza se arrasta para o seu segundo ano e as discussões sobre o "dia seguinte" – como reabilitar e governar a Faixa de Gaza quando os combates finalmente terminarem – simplesmente desapareceram, ofuscadas pelos sobressaltos de uma guerra maior.
Também desapareceu qualquer traço de discussão sobre uma possível resolução do conflito de Israel com os palestinos, que foi o que nos trouxe até aqui.
Em algum momento, quando Israel acreditar que já causou danos suficientes ao Hamas e ao Hezbollah, depois que o Irã e Israel já tiverem deixado claro suas posições (imaginando que suas ações não mergulhem a região em uma crise ainda mais profunda) e quando a eleição presidencial norte-americana estiver decidida, talvez a diplomacia possa ter uma nova chance.
Mas, no momento, este ainda parece ser um objetivo distante.
Israel ainda se recuperava do pior ataque sofrido na sua história, mas já realizava bombardeios que devastavam a Faixa de Gaza, em uma completa reviravolta na região.
O conflito entre israelenses e palestinos, praticamente esquecido pelo noticiário há anos, voltou subitamente a invadir as nossas telas. E todos pareciam terem sido tomados de surpresa.
Apenas uma semana antes dos ataques, o Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, havia dito que a "a região do Oriente Médio" vivia "o seu momento mais tranquilo nas últimas duas décadas."
Um ano se passou e a região está em chamas. Mais de 41 mil palestinos foram mortos e dois milhões de moradores da Faixa de Gaza foram desalojados.
Na Cisjordânia, outros 600 palestinos foram mortos. No Líbano, um milhão de pessoas estão desabrigadas e mais de 2 mil foram mortos.
Mais de 1,2 mil israelenses foram mortos no ataque daquele primeiro dia. Desde então, Israel perdeu 350 soldados na Faixa de Gaza e 200 mil israelenses foram forçados a deixar suas casas perto de Gaza e na sua volátil fronteira com o Líbano, no norte do país. E cerca de 50 soldados e civis foram mortos pelos mísseis lançados pelo Hezbollah.
Em todo o Oriente Médio, outras forças entraram nos combates.
Os Estados Unidos trabalharam incansavelmente para evitar a escalada da crise, com visitas presidenciais, incontáveis missões diplomáticas e o envio de vastos recursos militares. Mas não houve resultados.
Mísseis já foram disparados até de locais distantes de Israel, como o Iraque e o Iêmen. Irã e Israel, dois inimigos mortais também trocaram disparos e é quase certo que outros ataques virão.
A influência de Washington poucas vezes se mostrou tão pequena quanto neste conflito.
À medida que os combates se espalham, suas origens ficam esquecidas.
A vida dos moradores da Faixa de Gaza, antes e depois de 7 de outubro de 2023, quase foi esquecida, com a imprensa antecipando impacientemente uma possível "guerra total" no Oriente Médio. E os israelenses que tiveram suas vidas viradas do avesso naquele dia terrível também se sentem igualmente negligenciados.
"Fomos colocados de lado", queixou-se Yehuda Cohen, pai do refém Nimrod Cohen, à rede israelense Kan News, na semana passada.
Cohen responsabilizou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por uma "guerra sem sentido que colocou todos os inimigos possíveis contra nós. Ele está fazendo de tudo para transformar o evento de 7 de outubro em um caso sem importância, com grande sucesso."
Nem todos os israelenses concordam com o ponto de vista de Cohen. Hoje, muitos observam os ataques do Hamas de um ano atrás como o prenúncio de uma campanha maior dos inimigos de Israel para destruir o Estado judeu.
A reação de Israel – com a explosão de pagers, assassinatos dirigidos, bombardeios de longo alcance e as operações de inteligência que são, há muito tempo, motivo de orgulho no país – restaurou parte da sua autoconfiança perdida um ano atrás.
"Não existe nenhum lugar no Oriente Médio que Israel não possa alcançar", declarou Netanyahu, confiante, na semana passada.
Os índices de avaliação do primeiro-ministro passaram meses no fundo do poço depois de 7 de outubro. Agora, ele vê sua popularidade crescer novamente. Seria uma licença para novos atos de ousadia?
Onde isso irá parar?
"Nenhum de nós sabe quando a dança irá terminar e onde estarão todos nesse momento", declarou o ex-embaixador britânico no Irã, Simon Grass, ao podcast Today, da BBC, no dia 3 de outubro.
Os Estados Unidos continuam envolvidos, mesmo que a visita a Israel do chefe do Comando Central americano (Centcom), o general Michael Kurilla, pareça mais um ato de gestão de crise do que um estudo de saídas diplomáticas.
A apenas quatro semanas da eleição presidencial americana e com o Oriente Médio politicamente mais tóxico do que nunca, este não parece uma ocasião para novas iniciativas dos Estados Unidos.
O desafio imediato é simplesmente evitar um conflito regional maior.
Existe um consenso entre os aliados de que Israel tem o direito – e até o dever – de responder ao ataque iraniano com mísseis balísticos do início de outubro.
Nenhum israelense foi morto no ataque e o Irã aparentemente tinha como objetivo atingir alvos militares e de inteligência. Ainda assim, Netanyahu prometeu uma resposta enérgica.
Após semanas de surpreendentes vitórias táticas, o primeiro-ministro israelense parece alimentar grandes ambições. Em discurso dirigido ao povo iraniano, ele indicou que Teerã estaria próximo de uma mudança de regime.
"Quando o Irã estiver finalmente livre, e este momento irá chegar muito antes do que as pessoas pensam, tudo será diferente", declarou ele.
Para alguns observadores, sua retórica trouxe desconfortáveis lembranças dos pontos defendidos pelos neoconservadores norte-americanos, durante as preparações para a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003.
Mas, apesar de todos os riscos atuais, ainda existem frágeis mecanismos de proteção.
O regime iraniano talvez sonhe com um mundo sem a existência de Israel, mas eles sabem que o Irã ainda é muito fraco para enfrentar a única superpotência da região – especialmente em um momento em que o Hezbollah e o Hamas, seus aliados e prepostos no chamado "Eixo de Resistência", estão sendo aniquilados.
Israel também gostaria profundamente de se livrar da ameaça imposta pelo Irã, mas o país também sabe que não pode fazer isso sozinho, mesmo com seus sucessos recentes.
A mudança de regime no Irã não está na agenda do presidente Joe Biden, nem da sua vice-presidente, Kamala Harris.
Em relação a Donald Trump, a única vez em que ele se sentiu tentado a atacar o Irã ocorreu em junho de 2019, quando Teerã derrubou um drone de vigilância norte-americano. Mas o ex-presidente desistiu no último momento – embora tenha ordenado o assassinato de um importante general iraniano, Qasem Soleimani, sete meses depois.
Poucas pessoas teriam imaginado, um ano atrás, que o Oriente Médio se encaminhava para o seu momento mais perigoso nas últimas décadas. Mas, olhando pelo mesmo espelho retrovisor da jamanta, os últimos 12 meses parecem ter seguido uma lógica terrível.
Com tantos destroços espalhados pelo caminho e os eventos ainda se desenrolando em velocidades alarmantes, as autoridades e o restante das pessoas continuam lutando para acompanhar a situação.
O conflito na Faixa de Gaza se arrasta para o seu segundo ano e as discussões sobre o "dia seguinte" – como reabilitar e governar a Faixa de Gaza quando os combates finalmente terminarem – simplesmente desapareceram, ofuscadas pelos sobressaltos de uma guerra maior.
Também desapareceu qualquer traço de discussão sobre uma possível resolução do conflito de Israel com os palestinos, que foi o que nos trouxe até aqui.
Em algum momento, quando Israel acreditar que já causou danos suficientes ao Hamas e ao Hezbollah, depois que o Irã e Israel já tiverem deixado claro suas posições (imaginando que suas ações não mergulhem a região em uma crise ainda mais profunda) e quando a eleição presidencial norte-americana estiver decidida, talvez a diplomacia possa ter uma nova chance.
Mas, no momento, este ainda parece ser um objetivo distante.
Quando o sangue tem nome
A primeira vez que o encontrei terá sido logo após a pandemia, em Barcelona, quando a Friedrich Naumman Foundation me convidou para fazer uma palestra sobre as mulheres na diáspora.
O tema genérico era a forma como os países do Sul encaravam e tratavam a vaga migratória que crescia a cada dia que passava.
O projeto evoluiu e outros momentos foram acontecendo tendo por base sempre uma temática que nos ligava duma forma muito especial dentro do grupo de peritos: os menores que chegavam não acompanhados à Europa e o seu destino, trabalho que nos levou ao seu país natal, Líbano.
Parece ter sido ontem mesmo e já lá vai mais dum ano…
Ibrahim é (até não ter certezas será no presente que o irei mencionar) um cientista social. Daqueles a sério, dos que vão ao terreno, dos que falam com as pessoas, dos que não aceitam ser asséticos, dos que tocam nas pessoas e lhes sorriem, dos que são objetivos, para serem cientistas e empáticos o suficiente para não deixarem de ser totalmente humanos.
Os seus trabalhos, quer em torno das sondagens políticas quer no que à questão da migração dizem respeito, são variados e profundamente fundamentados com números, estatísticas, metodologias, estudos de casos… tudo o que se pede a um académico. Mas por entre a secura dos números vazia que brotasse sempre uma flor para ninguém se esquecesse que se tratava de seres humanos.
Como diz o povo, ao pé dele ninguém consegue estar triste. Ama a vida e não o esconde. Com uma história sempre na ponta da língua (e se tem e sabe histórias e História) anima qualquer reunião formal ou qualquer encontro informal.
Foi ele que me alertou para situação da fronteira síria onde estariam a ser formados meninos soldados à base de kaptagon, a droga sintética fabricada em pequenas aldeias fronteiriças e que confere uma força sobre-humana e uma desinibição animalesca.
A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano
“ – Acredita, não precisamos de exércitos de máquinas. Já estão a ser criados exércitos de monstros”, dizia-me.
E estabelecíamos estratégias, fazíamos planos, discutíamos como terminar com este horror humano.
Falámos horas sobre o que será destas crianças nascidas e criadas em campos de refugiados, no meio da lei do mais forte.
Falámos e agora este silêncio….
E nem de propósito eis que o telemóvel apita com uma mensagem.
Depois de três dias, um novo assessment sobre o Líbano assinado por Ibrahim Jouharim.
Não consigo descrever o alívio e a alegria de ver aqueles gráficos, aquela análise… O meu amigo estava vivo e foi como se de repente a guerra tivesse acabado.
As novas tecnologias permitiram que o ouvisse e a dor voltou.
A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano, o belo Líbano.
Como se pudéssemos…
E despedimo-nos com um desanimo. Mútuo.
O sangue derramado naqueles dias de silêncio tinham tido, certamente, um nome para ele. E, quando tal acontece, a guerra torna-se bem mais real.
Yallah a todos os que sofrem uma guerra que tem nomes gravados na dor,
O tema genérico era a forma como os países do Sul encaravam e tratavam a vaga migratória que crescia a cada dia que passava.
O projeto evoluiu e outros momentos foram acontecendo tendo por base sempre uma temática que nos ligava duma forma muito especial dentro do grupo de peritos: os menores que chegavam não acompanhados à Europa e o seu destino, trabalho que nos levou ao seu país natal, Líbano.
Parece ter sido ontem mesmo e já lá vai mais dum ano…
Ibrahim é (até não ter certezas será no presente que o irei mencionar) um cientista social. Daqueles a sério, dos que vão ao terreno, dos que falam com as pessoas, dos que não aceitam ser asséticos, dos que tocam nas pessoas e lhes sorriem, dos que são objetivos, para serem cientistas e empáticos o suficiente para não deixarem de ser totalmente humanos.
Os seus trabalhos, quer em torno das sondagens políticas quer no que à questão da migração dizem respeito, são variados e profundamente fundamentados com números, estatísticas, metodologias, estudos de casos… tudo o que se pede a um académico. Mas por entre a secura dos números vazia que brotasse sempre uma flor para ninguém se esquecesse que se tratava de seres humanos.
Como diz o povo, ao pé dele ninguém consegue estar triste. Ama a vida e não o esconde. Com uma história sempre na ponta da língua (e se tem e sabe histórias e História) anima qualquer reunião formal ou qualquer encontro informal.
Foi ele que me alertou para situação da fronteira síria onde estariam a ser formados meninos soldados à base de kaptagon, a droga sintética fabricada em pequenas aldeias fronteiriças e que confere uma força sobre-humana e uma desinibição animalesca.
A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano
“ – Acredita, não precisamos de exércitos de máquinas. Já estão a ser criados exércitos de monstros”, dizia-me.
E estabelecíamos estratégias, fazíamos planos, discutíamos como terminar com este horror humano.
Falámos horas sobre o que será destas crianças nascidas e criadas em campos de refugiados, no meio da lei do mais forte.
Falámos e agora este silêncio….
E nem de propósito eis que o telemóvel apita com uma mensagem.
Depois de três dias, um novo assessment sobre o Líbano assinado por Ibrahim Jouharim.
Não consigo descrever o alívio e a alegria de ver aqueles gráficos, aquela análise… O meu amigo estava vivo e foi como se de repente a guerra tivesse acabado.
As novas tecnologias permitiram que o ouvisse e a dor voltou.
A sua voz não era a mesma. Tinha um trago amargo, um vazio emocional que não era dele. Afiançou-me que estava bem e agradeceu-me e à minha família pelo cuidado e preocupação. Pediu-me que não esquecêssemos o Líbano, o belo Líbano.
Como se pudéssemos…
E despedimo-nos com um desanimo. Mútuo.
O sangue derramado naqueles dias de silêncio tinham tido, certamente, um nome para ele. E, quando tal acontece, a guerra torna-se bem mais real.
Yallah a todos os que sofrem uma guerra que tem nomes gravados na dor,
sábado, 19 de outubro de 2024
Mergulhados numa plutocracia
Não, [a democracia] não está em perigo, mas está amputada, foi desencaminhada. Virou uma farsa. Os candidatos fazem uma promessa e logo depois a esquecem. Não é verdade que vivemos numa democracia. Estamos mergulhados numa plutocracia. E o cidadão é a primeira vítima dessa mentira generalizada.
José Saramago
É possível resistir às big techs?
Uma das crenças que costuma percorrer as mentes no Vale do Silício é a da inevitabilidade da tecnologia, ou seja, a ideia de que o progresso acontecerá invariavelmente e que parte de seu impacto será inescapável. É como se o risco da inteligência artificial um dia eliminar milhares de empregos fosse um caminho sem volta. Ou como se o domínio de uma megaempresa que acaba por sufocar pequenos empresários seja uma “disrupção” inquestionável.
O que une Mark Coeckelbergh, professor de Filosofia e Tecnologia da Universidade de Viena, na Áustria, e o escritor Danny Caine, dono de uma livraria em uma pequena cidade americana, é justamente a contraposição a essa suposta irreversibilidade do ritmo (e da forma) que rege o avanço dos algoritmos na sociedade.
Os dois estiveram juntos pela primeira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na quinta-feira. Com uma programação mais quente este ano, a 22ª edição do evento pela primeira vez incluiu na programação oficial uma mesa sobre dados e inteligência artificial, com o nome sugestivo de "Dormindo com o inimigo".
Autor de quinze livros de não-ficção no campo da filosofia da tecnologia, Coeckelbergh estuda as implicações éticas da IA muito antes do mundo voltar os olhos ao tema com o lançamento do ChatGPT, em 2022. Ele é pesquisador da Rede Mundial de Tecnologia (WTN) e membro do grupo de especialistas que aconselha a Comissão Europeia sobre Inteligência Artificial.
Dono da Raven, uma livraria independente em Lawrence, no Kansas, Caine tem atuado há anos em defesa dos pequenos comerciantes nos Estados Unidos, e se tornou uma das vozes mais importantes do país em uma espécie de ativismo anti-Amazon. No Brasil, lançou "Como resistir à Amazon e por quê" (Editora Elefante) no ano passado. A obra expõe as entranhas da gigante varejista que tem negócios de comércio eletrônico, IA, logística, segurança, nuvem e entretenimento.
Apesar de atuarem em áreas distintas, ambos refletem sobre como a tecnologia, alavancada pelo poder das grandes corporações, impacta a sociedade. E quais são as saídas para que efeitos colaterais negativos sejam tratados.
Se as IAs estão fadadas a serem cada vez mais parte da vida cotidiana, questões éticas importantes vão precisar ser enfrentadas, argumenta Coeckelbergh no livro “Robôs, Inteligência Artificial e Ética”, lançado no início deste ano pela Ubu
"Quem é responsável pelos danos da tecnologia quando seres humanos delegam decisões à IA?", questiona o pesquisador no livro. E se o custo de um sistema com bom desempenho é a falta de transparência, devemos usá-lo indistintamente?, pergunta ele em outro trecho.
Publicada no Brasil no início deste ano, mas escrita em 2020, a obra foca em dilemas éticos da IA pré-explosão dos sistemas generativos, como o ChatGPT. O filósofo belga radicado na Áustria explora questões como a responsabilidade moral de decisões tomadas por inteligências artificiais em situações críticas.
Um exemplo é o caso de um carro autônomo que precisa decidir entre diferentes cenários de risco que podem resultar em um acidente. Se salvar a vida do passageiro implica em colocar em risco um pedestre, qual escolha a IA, um sistema que não foi programado para ter um moral, deve fazer?
Quando algo dá errado, é difícil determinar se a inteligência artificial ou outro componente do sistema é o responsável, ressalta o pesquisador. Um desafio adicional é a "caixa-preta" por trás dessas decisões. São processos tão complexos quando opacos, e até mesmo programadores têm dificuldade de explicar exatamente o que levou a determinado resultado, diz ele.
— Esse problema é ainda mais acentuado no caso desses grandes modelos de linguagem (os LLMs, que são os "cérebros" que alimentam ChatGPT e outros). — diz Coeckelbergh, ao GLOBO. —Se essa tecnologia for usada em governos, por exemplo, para decidir sobre o bem-estar das pessoas ou em seguradoras, para decidir sobre pedidos de sinistros, ela poderá fazer coisas que nem o usuário nem o desenvolvedor poderiam prever.
O autor defende que mostrar como essas tecnologias funcionam é uma forma de capacitá-las a tomar decisões mais conscientes e evitar a dependência cega em sistemas automatizados.
Em “Como resistir à Amazon e por quê", Caine está interessado em "caixas-pretas". Mais especificamente, em expor como a maior varejista digital do mundo trabalha por trás das entregas rápidas e preços baixíssimos no mercado americano. O exemplo que abre o livro é do preço de livros. Um best-seller que está nas prateleiras da Raven está à venda por US$ 26. Na Amazon, pode ser comprado por US$ 9,59. Mas esse mesmo exemplar é vendido pela editora a livraria por US$ 14.
Como a Amazon pode oferecê-lo por um preço mais baixo do que o das próprias editoras o fazem para as livrarias? A empresa de Jeff Bezos pode se dar ao luxo de vender livros com prejuízo porque compensa as perdas com os lucros de outros serviços, como o Prime, lembra ele. A gigante também otimiza estratégias com a coleta de dados dos consumidores (inclusive a partir da Alexa) e com controle de parte do marketplace (a Amazon é tanto plataforma para vendedores como vendedora, o que significa que ela compete com os próprios negócios que estão lá)
— Seus algoritmos podem ser treinados com base nas compras dos consumidores, e isso é muito mais valioso para a Amazon do que os poucos livros que eles venderiam pelo preço cheio. E eles competem no próprio marketplace. Então, é como num jogo de futebol, em que são ao mesmo tempo árbitro e jogador — diz Caine.
O livreiro acrescenta que, nos Estados Unidos, o controle da Amazon sobre o mercado de livros é tão vasto que a empresa acaba por influenciar o que é publicado e como. Se um livro não tiver chance de sucesso na plataforma, uma editora pode ficar menos propensa a publicá-lo, diz.
Caine também aponta outro problema: a proliferação de livros gerados por IA na Kindle Store, que tem "inundado" a plataforma com títulos de baixa qualidade. Esses livros, muitas vezes criados rapidamente, aproveitam a popularidade de temas, autores ou gêneros em alta para "driblar" os algoritmos e aparecerem para os leitores. Isso não apenas confunde o consumidor, mas também torna ainda mais difícil para autores legítimos e livrarias independentes competirem de maneira justa, avalia.
Coeckelbergh diz que as discussões entre os bilionários da tecnologia sobre a possibilidade de a IA um dia superar a mente humana — com a criação da chamada Inteligência Artificial Geral (AIG) — são uma distração dos impactos reais e imediatos que esses sistemas vêm gerando, como a distorção no mercado editorial.
Sobre a entrada dos algoritmos na área, ele lembra ainda que há uma questão sobre o significado da criatividade em um contexto em que máquinas são capazes de reproduzir a linguagem.
— As máquinas, em última análise, se alimentam da criatividade humana como vampiros. Mas mesmo que simulem a criatividade, acabam presas em ciclos baseados em dados do passado. O que os humanos fazem de verdadeiramente novo está enraizado em nossa subjetividade. Mas acho que as pessoas nas humanidades estão sendo desafiadas a isso: o que significa para mim, como escritor, se essas tecnologias também melhorarem?— questiona.
O pesquisador não propõe a interrupção do desenvolvimento da IA, assim como Caine não sugere que as pessoas simplesmente boicotem a Amazon como forma de resistência.
— Não estou dizendo para as pessoas não apoiarem a Amazon. Estou muito mais interessado em dizer: apoie os pequenos negócios na sua comunidade, porque eles vão perceber a diferença. Até mesmo uma única venda de livro pode ser a diferença entre um dia lucrativo e um dia não lucrativo para a livraria — afirma o escritor, que também acredita em uma regulação antimonopolista como caminho para reduzir as distorções no mercado
Para os dilemas éticos que envolvem a IA, Coeckelbergh destaca a necessidade de três pilares: a regulação internacional, uma educação sobre tecnologia e a conscientização crítica dos consumidores da inteligência artificial, em um esforço conjunto que não deixe as decisões apenas na mão das big techs.
—Temos que forçar essas empresas influentes a serem mais éticas e jogarem pelas regras que acreditamos serem boas para as pessoas. E nós, humanos, talvez tenhamos que aprender a moldar nossa vida e a nós mesmos de forma mais consciente, e isso significa ter capacidade de pensar criticamente sobre a nossa relação com a tecnologia.
É preciso descobrir por que o planeta tem pulsão destrutiva
O filósofo Heidegger vasculhou a obra de Freud e não encontrou nenhuma explicação dele na escolha da palavra “análise” para nomear seu trabalho. Então descobriu que o poeta Homero, que viveu na Grécia Antiga, foi quem primeiro usou o termo no segundo livro da Odisseia, para descrever o que Penélope fazia todas as noites: ela desmontava o tecido que fizera durante o dia. Em grego, “análise” significa desfazer uma trama, soltar, libertar alguém da prisão e até desmontar os pedaços de uma construção.
A etimologia do termo “análise” é formidável para ilustrar aquilo a que se destina, tanto nos labirintos do sintoma do indivíduo quanto nos da cultura: revelar e desfazer a trama inconsciente ou irrefreável que os causa. Não é difícil imaginar sujeitos que não conseguem se livrar de atitudes, vícios e repetições que, não obstante, os prejudicam. Torna-se cada vez mais patente a dificuldade de reverter a violência das guerras e o rumo do aquecimento global, com a deterioração climática e seus efeitos — como os incêndios pelo mundo.
Se o desafio que enfrentamos consiste na missão quase impossível de desfazer a trama econômica, social e política que produz o risco de catástrofe, como nos libertar dessa prisão e desmontar a máquina destrutiva que o progresso material e tecnológico construiu — na crença absurda de que a suposta inesgotável natureza está à disposição apenas para nos servir? Na verdade, não me situo entre os que consideram inevitável o desastre climático, uma nova guerra mundial ou a emergência de outra grave pandemia. Mas é inquietante observar na atualidade a crescente onda pessimista nessa direção.
Talvez porque nunca tenha ocorrido, como nos últimos anos, uma invasão tão intensa de graves acontecimentos assolando a subjetividade das pessoas. Além do mais, está tudo conectado em tempo real. A confiança nas pulsões de vida e na capacidade humana de reverter seu impulso à autodestruição parece diluir-se ante uma época cínica e caótica, em que é inédito o arsenal — de armas, de ódio e de negacionismo — à disposição de uma destrutividade que parece contratar um time invencível.
doriA formidável expansão tecnológica e científica vem se revelando inversamente proporcional à paradoxal regressão civilizatória. Estamos de novo diante de questões que julgávamos ultrapassadas, o que expõe a força das infiltrações subterrâneas que atacam a ética, a democracia, a paz e o respeito entre povos e nações. Tudo se parece com a metáfora que surgiu de um debate entre os filósofos Peter Sloterdijk e Alain Finkielkraut sobre o que é compreender a contemporaneidade: um olhar para um céu cheio de estrelas que já desapareceram, mas cujos brilhos — ou trevas — continuam chegando até nós.
Filósofos e artistas captam sinais e antecipam o desastre. Paul Klee fez uma gravura, em que Walter Benjamin se inspirou, para criar o conceito de anjo da História: uma figura assustada, com as mãos se defendendo da tragédia para a qual o futuro nos arrastaria. A gravura hoje está no Museu de Israel, em Jerusalém. O próprio Benjamin escreveu “Aviso de incêndio”, sobre as graves ameaças de um progresso descontrolado. Sloterdijk fez livro sobre o arrependimento de Prometeu: o ladrão do fogo divino ficaria decepcionado com o que fizeram de sua dádiva. Antes dele, Hans Jonas se referiu ao perigo de um Prometeu desacorrentado e clamou por uma ética que, por meio de freios voluntários, impedisse o poder dos homens de se converter numa desgraça para si mesmos. Antes da série de incêndios, Giorgio Agamben lançou a distopia “Quando a casa queima”. As cidades, as ruas e as casas estão ardendo em chamas:
— Vivemos num mundo que está queimando, mas não sabemos.
Não?
Resta o desafio de desfazer nossa própria trama, desmontar o manto sombrio que vimos tecendo ao longo do que — de forma arrogante —chamamos de progresso. Freud disse que a função da análise é tornar consciente o que não era. Tal função tem hoje o caráter de urgência.
A etimologia do termo “análise” é formidável para ilustrar aquilo a que se destina, tanto nos labirintos do sintoma do indivíduo quanto nos da cultura: revelar e desfazer a trama inconsciente ou irrefreável que os causa. Não é difícil imaginar sujeitos que não conseguem se livrar de atitudes, vícios e repetições que, não obstante, os prejudicam. Torna-se cada vez mais patente a dificuldade de reverter a violência das guerras e o rumo do aquecimento global, com a deterioração climática e seus efeitos — como os incêndios pelo mundo.
Se o desafio que enfrentamos consiste na missão quase impossível de desfazer a trama econômica, social e política que produz o risco de catástrofe, como nos libertar dessa prisão e desmontar a máquina destrutiva que o progresso material e tecnológico construiu — na crença absurda de que a suposta inesgotável natureza está à disposição apenas para nos servir? Na verdade, não me situo entre os que consideram inevitável o desastre climático, uma nova guerra mundial ou a emergência de outra grave pandemia. Mas é inquietante observar na atualidade a crescente onda pessimista nessa direção.
Talvez porque nunca tenha ocorrido, como nos últimos anos, uma invasão tão intensa de graves acontecimentos assolando a subjetividade das pessoas. Além do mais, está tudo conectado em tempo real. A confiança nas pulsões de vida e na capacidade humana de reverter seu impulso à autodestruição parece diluir-se ante uma época cínica e caótica, em que é inédito o arsenal — de armas, de ódio e de negacionismo — à disposição de uma destrutividade que parece contratar um time invencível.
doriA formidável expansão tecnológica e científica vem se revelando inversamente proporcional à paradoxal regressão civilizatória. Estamos de novo diante de questões que julgávamos ultrapassadas, o que expõe a força das infiltrações subterrâneas que atacam a ética, a democracia, a paz e o respeito entre povos e nações. Tudo se parece com a metáfora que surgiu de um debate entre os filósofos Peter Sloterdijk e Alain Finkielkraut sobre o que é compreender a contemporaneidade: um olhar para um céu cheio de estrelas que já desapareceram, mas cujos brilhos — ou trevas — continuam chegando até nós.
Filósofos e artistas captam sinais e antecipam o desastre. Paul Klee fez uma gravura, em que Walter Benjamin se inspirou, para criar o conceito de anjo da História: uma figura assustada, com as mãos se defendendo da tragédia para a qual o futuro nos arrastaria. A gravura hoje está no Museu de Israel, em Jerusalém. O próprio Benjamin escreveu “Aviso de incêndio”, sobre as graves ameaças de um progresso descontrolado. Sloterdijk fez livro sobre o arrependimento de Prometeu: o ladrão do fogo divino ficaria decepcionado com o que fizeram de sua dádiva. Antes dele, Hans Jonas se referiu ao perigo de um Prometeu desacorrentado e clamou por uma ética que, por meio de freios voluntários, impedisse o poder dos homens de se converter numa desgraça para si mesmos. Antes da série de incêndios, Giorgio Agamben lançou a distopia “Quando a casa queima”. As cidades, as ruas e as casas estão ardendo em chamas:
— Vivemos num mundo que está queimando, mas não sabemos.
Não?
Resta o desafio de desfazer nossa própria trama, desmontar o manto sombrio que vimos tecendo ao longo do que — de forma arrogante —chamamos de progresso. Freud disse que a função da análise é tornar consciente o que não era. Tal função tem hoje o caráter de urgência.
'Exterminem todas as bestas'. As crianças também
Tenho à minha frente o raio-x do crânio de uma criança pequena. Vê-se nitidamente uma bala. Apontada para baixo em direção à nuca. Sinto uma náusea. Acabei de deixar os meus filhos na escola e, enquanto bebo um café, vejo as imagens partilhadas com o The New York Times por uma médica, chamada Mimi Syed, que trabalhou em Gaza entre 8 de agosto e 5 de setembro. É fisicamente doloroso ler os relatos compilados para o jornal por um outro médico, Feroze Sidhwa, sobre o que se passa nos hospitais da Palestina. Mas não posso desviar os olhos. Não podemos desviar os olhos.
Feroze Sidhwa já foi voluntário na Ucrânia e no Haiti. Mas nada o preparou para o que viu em Gaza. Durante quase todos os dias em que esteve na Palestina, viu entrarem pelas urgências crianças pequenas alvejadas na cabeça ou no peito. “Na altura, assumi que isto devia ser obra de um soldado particularmente sádico a lutar nas redondezas. Mas, depois de regressar a casa [nos Estados Unidos], conheci um médico que tinha trabalhado noutro hospital em Gaza dois meses antes de mim”. Nesse encontro, Sidhwa partilhou o seu choque perante a quantidade de crianças que vira baleadas na cabeça. “Sim, eu vi o mesmo. Todos os dias que lá estive”, respondeu o outro médico.
A resposta e a forma como a Palestina se tornou um buraco negro para a informação, graças às restrições cada vez maiores ao trabalho dos jornalistas naquela zona, fez com que Feroze Sidhwa fosse à procura de outros médicos que, como ele, tivessem estado a trabalhar na região e estivessem dispostos a partilhar o que viram. Falou com 65, dos quais 57 aceitaram contar as suas histórias, identificando-se, enquanto oito pediram anonimato “ou por ainda terem familiares em Gaza ou na Cisjordânia ou por temerem sofrer retaliações nos seus locais de trabalho”.
O que se segue são páginas e páginas de histórias que me deixaram atordoada. Falam de crianças que pedem para morrer, meninos a quem são feitas amputações sem analgésicos e não vertem uma lágrima, médicos que numa única noite recebem seis crianças com idades entre os cinco e os 12 anos cada uma delas com uma bala na cabeça ou uma bebé de 18 meses também com o crânio desfeito por um tiro.
“Vi muitas crianças. Na minha experiência o ferimento era quase sempre na cabeça”, diz o Dr. Ndal Farah. “Um dia, quando estava nas urgências, vi uma criança de três anos e outra de cinco, cada uma com um tiro na cabeça. Quando perguntei o que se tinha passado, o pai e o irmão disseram que tinham ouvido dizer que Israel estava a retirar de Khan Younis e resolveram voltar para ver se tinha sobrado alguma coisa da sua casa. Havia, contaram, um sniper à espera, que baleou as duas crianças”, relata o Dr. Khawaja Ikram.
O pessoal médico que esteve em Gaza fala de fome extrema, de mães incapazes de amamentar os filhos por estarem desidratadas e subnutridas que imploram por leite de fórmula que não existe, de operações feitas com material reutilizado sem qualquer esterilização, de médicos e enfermeiros que não têm sequer como lavar as mãos. Há um buraco que se me abre no peito enquanto leio estes relatos.
Vem-me à cabeça o título do livro sobre colonialismo do sueco Sven Lindqvist, que é ao mesmo tempo um grito de desumanidade e um resumo de um projeto político. “Exterminem todas as bestas”. É uma frase que Lindqvist vai buscar ao romance de Joseph Conrad O Coração das Trevas, escrito em 1899, numa altura em que a colonização era apresentada como um programa de progresso e civilização.
O grau de extermínio e crueldade de que são capazes colonizadores e nazis só é suportável depois de se desumanizarem as suas vítimas. E isso é verdade em qualquer época histórica. Só depois de olharmos para os outros como “bestas” os podemos aniquilar, convencidos até de que o fazemos por um bem maior. E esse é um mecanismo que conhecemos bem e que podemos compreender.
O que é absolutamente incompreensível para mim é a forma como as democracias liberais ocidentais estão a fingir que não veem o que se passa na Palestina. Não é que não ignorem também os horrores do Saara Ocidental, do Sudão ou de outros pontos do globo. Mas Gaza é, apesar de tudo, um horror que desfila perante os nossos olhos indiferentes todos os dias. E escolhemos ignorar.
“Não é de informação que carecemos. O que nos falta é a coragem para compreender o que sabemos e tirar conclusões”, escreveu Sven Lindqvist, que morreu em 2019.
Uma das conclusões que mais me inquieta é a sentença de morte que estamos a escrever à democracia. A política convive com um certo grau de hipocrisia a que em jargão diplomático se chama realpolitik, mas o sistema em que vivemos não sobreviverá à escalada da desumanização, à destruição da mais básica decência, à aniquilação de direitos que consagrámos na lei depois dos horrores do Holocausto nazi.
E, se durante muito anos, convivemos com massacres e horrores fora do mundo ocidental, o globo encolheu hoje a tal ponto que é impossível que essa barbárie não nos contamine a todos. Nós somos os bárbaros. Sempre fomos. Mas seremos também as bestas. Hoje, são os filhos de Gaza com as cabeças desfeitas por balas. Amanhã serão os nossos. Estamos a abrir o caminho para isso.
Feroze Sidhwa já foi voluntário na Ucrânia e no Haiti. Mas nada o preparou para o que viu em Gaza. Durante quase todos os dias em que esteve na Palestina, viu entrarem pelas urgências crianças pequenas alvejadas na cabeça ou no peito. “Na altura, assumi que isto devia ser obra de um soldado particularmente sádico a lutar nas redondezas. Mas, depois de regressar a casa [nos Estados Unidos], conheci um médico que tinha trabalhado noutro hospital em Gaza dois meses antes de mim”. Nesse encontro, Sidhwa partilhou o seu choque perante a quantidade de crianças que vira baleadas na cabeça. “Sim, eu vi o mesmo. Todos os dias que lá estive”, respondeu o outro médico.
A resposta e a forma como a Palestina se tornou um buraco negro para a informação, graças às restrições cada vez maiores ao trabalho dos jornalistas naquela zona, fez com que Feroze Sidhwa fosse à procura de outros médicos que, como ele, tivessem estado a trabalhar na região e estivessem dispostos a partilhar o que viram. Falou com 65, dos quais 57 aceitaram contar as suas histórias, identificando-se, enquanto oito pediram anonimato “ou por ainda terem familiares em Gaza ou na Cisjordânia ou por temerem sofrer retaliações nos seus locais de trabalho”.
O que se segue são páginas e páginas de histórias que me deixaram atordoada. Falam de crianças que pedem para morrer, meninos a quem são feitas amputações sem analgésicos e não vertem uma lágrima, médicos que numa única noite recebem seis crianças com idades entre os cinco e os 12 anos cada uma delas com uma bala na cabeça ou uma bebé de 18 meses também com o crânio desfeito por um tiro.
“Vi muitas crianças. Na minha experiência o ferimento era quase sempre na cabeça”, diz o Dr. Ndal Farah. “Um dia, quando estava nas urgências, vi uma criança de três anos e outra de cinco, cada uma com um tiro na cabeça. Quando perguntei o que se tinha passado, o pai e o irmão disseram que tinham ouvido dizer que Israel estava a retirar de Khan Younis e resolveram voltar para ver se tinha sobrado alguma coisa da sua casa. Havia, contaram, um sniper à espera, que baleou as duas crianças”, relata o Dr. Khawaja Ikram.
O pessoal médico que esteve em Gaza fala de fome extrema, de mães incapazes de amamentar os filhos por estarem desidratadas e subnutridas que imploram por leite de fórmula que não existe, de operações feitas com material reutilizado sem qualquer esterilização, de médicos e enfermeiros que não têm sequer como lavar as mãos. Há um buraco que se me abre no peito enquanto leio estes relatos.
Vem-me à cabeça o título do livro sobre colonialismo do sueco Sven Lindqvist, que é ao mesmo tempo um grito de desumanidade e um resumo de um projeto político. “Exterminem todas as bestas”. É uma frase que Lindqvist vai buscar ao romance de Joseph Conrad O Coração das Trevas, escrito em 1899, numa altura em que a colonização era apresentada como um programa de progresso e civilização.
O grau de extermínio e crueldade de que são capazes colonizadores e nazis só é suportável depois de se desumanizarem as suas vítimas. E isso é verdade em qualquer época histórica. Só depois de olharmos para os outros como “bestas” os podemos aniquilar, convencidos até de que o fazemos por um bem maior. E esse é um mecanismo que conhecemos bem e que podemos compreender.
O que é absolutamente incompreensível para mim é a forma como as democracias liberais ocidentais estão a fingir que não veem o que se passa na Palestina. Não é que não ignorem também os horrores do Saara Ocidental, do Sudão ou de outros pontos do globo. Mas Gaza é, apesar de tudo, um horror que desfila perante os nossos olhos indiferentes todos os dias. E escolhemos ignorar.
“Não é de informação que carecemos. O que nos falta é a coragem para compreender o que sabemos e tirar conclusões”, escreveu Sven Lindqvist, que morreu em 2019.
Uma das conclusões que mais me inquieta é a sentença de morte que estamos a escrever à democracia. A política convive com um certo grau de hipocrisia a que em jargão diplomático se chama realpolitik, mas o sistema em que vivemos não sobreviverá à escalada da desumanização, à destruição da mais básica decência, à aniquilação de direitos que consagrámos na lei depois dos horrores do Holocausto nazi.
E, se durante muito anos, convivemos com massacres e horrores fora do mundo ocidental, o globo encolheu hoje a tal ponto que é impossível que essa barbárie não nos contamine a todos. Nós somos os bárbaros. Sempre fomos. Mas seremos também as bestas. Hoje, são os filhos de Gaza com as cabeças desfeitas por balas. Amanhã serão os nossos. Estamos a abrir o caminho para isso.
'Tive que demolir minha casa por ordem de Israel'
Andando em meio às ruínas do que costumava ser sua casa, Ahmad Musa al-Qumbar, de 29 anos, diz que sempre temeu que um dia as autoridades da cidade de Jerusalém viessem atrás dele.
O palestino casado e pai de quatro filhos construiu uma modesta casa de apenas um pavimento há sete anos, em terras de sua propriedade e onde sua família vive há gerações.
Mas Ahmad nunca teve autorização oficial para construir.
Ele mora no distrito de Jabal Mukaber, em Jerusalém Oriental. Com vista para a Cidade Velha e seus muitos monumentos religiosos históricos, trata-se de uma das partes mais densamente povoadas e fortemente disputadas da região.
O distrito foi tomado por Israel da Jordânia na guerra do Oriente Médio de 1967 e depois anexado, mas é internacionalmente amplamente considerado território palestino.
O controle de Jerusalém é uma das questões mais controversas do conflito de décadas. Os palestinos reivindicam oficialmente Jerusalém Oriental como sua capital, enquanto Israel considera toda a cidade sua capital.
“Quem” tem permissão para construir e “onde” é grande parte do conflito.
E o ritmo com que casas palestinas estão sendo demolidas na Jerusalém Oriental ocupada quase dobrou desde o início do conflito em Gaza, dizem grupos de direitos humanos e organizações de monitoramento. As demolições são ordenadas pela autoridade municipal de Israel, que diz que muitas construções, como a de Ahmad, foram erguidas de forma ilegal, sem permissão.
Uma ONG, Ir Amim, diz que “sob o disfarce da guerra”, Israel está “deslocando os palestinos à força de suas casas e da cidade”.
“Eu tive que demolir minha casa após ser alvo de penalidades pela polícia e pelos tribunais israelenses”, conta Ahmad nos escombros do que costumava ser sua cozinha.
“Eu não poderia pagar as multas e correr o risco de perder coisas como plano de saúde e o seguro das crianças. Claro, recorremos ao tribunal, mas eles se recusaram.”
Como muitos na mesma situação, Ahmad contratou ele mesmo, a contragosto, máquinas pesadas para derrubar sua casa. E conta que as autoridades da cidade de Jerusalém teriam cobrado o equivalente a US$ 100 mil se tivessem sido elas a realizar o serviço.
O que talvez tenha tornado tudo ainda mais doloroso - destruir o trabalho de sua família e o futuro de seus filhos com as próprias mãos.
Quase todas as tentativas de solicitar permissão de planejamento feitas por famílias palestinas em Jerusalém Oriental são negadas pelas autoridades israelenses. E famílias em crescimento dizem não ter escolha a não ser construir ilegalmente e enfrentar as possíveis consequências - multas enormes e ordens de demolição.
Alguns dizem que a lei e os tribunais estão sendo deliberadamente usados para suprimir o crescimento e as ambições palestinas.
“Essas comunidades palestinas pedem permissão, e entre 95% e 99% dos pedidos são negados”, diz Shay Parnes, porta-voz da organização israelense de direitos humanos B'Tselem.
“Isso vem acontecendo há anos”, continua Parnes.
“Às vezes eles usam motivos de segurança para justificar, mas é sempre sob parte do mesmo processo de expulsar palestinos... porque a lei é diferente para diferentes comunidades que vivem lado a lado na mesma cidade.”
No lado ocidental predominantemente judaico da cidade, o que costumava ser um horizonte de edifícios de pedra branca relativamente baixos mudou drasticamente nos últimos anos. A construção está em ritmo acelerado.. Os guindastes operam praticamente 24 horas por dia, 7 dias por semana, com novos arranha-céus residenciais e comerciais subindo e aquele lado de Jerusalém se expandindo.
A construção também é intensa em algumas áreas de Jerusalém Oriental em que a terra foi reivindicada por Israel para dar lugar aos assentamentos judaicos. Em Har Homa, estima-se que 25.000 pessoas agora vivem em casas novas, em terras formalmente expropriadas por Israel em 1991.
Do outro lado da estrada estão as aldeias palestinas de Umm Tuba e Sur Baher, onde muitas instalações públicas são claramente inferiores às de Har Homa.
Em forte contraste com o trabalho de construção do outro lado da rodovia, várias casas foram demolidas à força por aqui nos últimos anos, no que a Anistia Internacional descreve como “uma violação flagrante do direito internacional e parte de um padrão sistemático das autoridades israelenses para deslocar os palestinos à força”.
A situação é semelhante no assentamento de Gilo, que se expande rapidamente no que é considerado internacionalmente como Jerusalém Oriental ocupada, enquanto, argumenta-se, aos subúrbios palestinos vizinhos não é permitido crescer no mesmo ritmo.
A comunidade internacional considera os assentamentos israelenses em Jerusalém Oriental ilegais sob o direito internacional, mas o governo israelense contesta. Israel também nega que as demolições fazem parte da política deliberada de discriminação que ganhou ritmo coberta pela distração acusada pela guerra em Gaza.
Em um comunicado, o município de Jerusalém disse que as acusações eram “absolutamente falsas” e que tinha apoio local para “grandes planos de construção em quase todas as áreas de Jerusalém Oriental”.
Os planos “visam dar opções para a expansão do bairro, abordar a questão generalizada da construção ilegal e designar áreas para a construção de estruturas de serviço municipal”, acrescentou.
Mas não é difícil encontrar exemplos de onde as ordens de demolição israelenses contra casas palestinas estão sendo aplicadas em Jerusalém Oriental.
No subúrbio de Silwan, logo abaixo da Cidade Velha, encontramos outra casa palestina em ruínas. Lutfiyah al-Wahidi diz que o anexo havia sido construído para a família de seu filho há mais de uma década, mas agora as autoridades vieram atrás.
“Mesmo que ergamos apenas um tijolo, as autoridades vêm e o demolem. Como nossa casa os prejudicou? É em terra na qual duvido que as autoridades tenham interesse.”
A avó diz que pagou milhares de dólares em multas judiciais ao longo dos anos em vã tentativa de manter a propriedade.
“Meu filho tem uma família de seis pessoas com apenas um provedor. Que mal eles estão fazendo? Ainda querem demoli-la”, diz ela, com sua família ainda maior e dispersa por outras partes da cidade.
Em uma análise compreensiva, a organização Ir Amim descobriu que, desde a eclosão da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023, "houve uma grande aceleração na promoção e liberação de novos planos de assentamento em Jerusalém Oriental e um aumento dramático na taxa de demolições de casas palestinas".
"O governo israelense está claramente explorando a guerra para criar mais fatos", continua.
Estima-se que haja pelo menos 20.000 pedidos de demolição pendentes em Jerusalém Oriental - pedidos que não têm limite de validade.
Especialistas também dizem, no documento, que desde 7 de outubro, membros de extrema-direita do governo de Benjamin Netanyahu e do Município de Jerusalém ficaram mais seguros para expressar publicamente sua intenção de ver mais casas judaicas construídas em terras ocupadas ou contestadas.
E embora os palestinos, como as famílias de Ahmad e Lutfiyah, ficam visivelmente com mais medo de perder suas casas, eles insistem que ficarão e, eventualmente, reconstruirão suas vidas aqui em Jerusalém Oriental.
O palestino casado e pai de quatro filhos construiu uma modesta casa de apenas um pavimento há sete anos, em terras de sua propriedade e onde sua família vive há gerações.
Mas Ahmad nunca teve autorização oficial para construir.
Ele mora no distrito de Jabal Mukaber, em Jerusalém Oriental. Com vista para a Cidade Velha e seus muitos monumentos religiosos históricos, trata-se de uma das partes mais densamente povoadas e fortemente disputadas da região.
O distrito foi tomado por Israel da Jordânia na guerra do Oriente Médio de 1967 e depois anexado, mas é internacionalmente amplamente considerado território palestino.
O controle de Jerusalém é uma das questões mais controversas do conflito de décadas. Os palestinos reivindicam oficialmente Jerusalém Oriental como sua capital, enquanto Israel considera toda a cidade sua capital.
“Quem” tem permissão para construir e “onde” é grande parte do conflito.
![]() |
| Har Homa é um dos maiores e polêmicos assentamentos judeus em Jerusalém Oriental |
E o ritmo com que casas palestinas estão sendo demolidas na Jerusalém Oriental ocupada quase dobrou desde o início do conflito em Gaza, dizem grupos de direitos humanos e organizações de monitoramento. As demolições são ordenadas pela autoridade municipal de Israel, que diz que muitas construções, como a de Ahmad, foram erguidas de forma ilegal, sem permissão.
Uma ONG, Ir Amim, diz que “sob o disfarce da guerra”, Israel está “deslocando os palestinos à força de suas casas e da cidade”.
“Eu tive que demolir minha casa após ser alvo de penalidades pela polícia e pelos tribunais israelenses”, conta Ahmad nos escombros do que costumava ser sua cozinha.
“Eu não poderia pagar as multas e correr o risco de perder coisas como plano de saúde e o seguro das crianças. Claro, recorremos ao tribunal, mas eles se recusaram.”
Como muitos na mesma situação, Ahmad contratou ele mesmo, a contragosto, máquinas pesadas para derrubar sua casa. E conta que as autoridades da cidade de Jerusalém teriam cobrado o equivalente a US$ 100 mil se tivessem sido elas a realizar o serviço.
O que talvez tenha tornado tudo ainda mais doloroso - destruir o trabalho de sua família e o futuro de seus filhos com as próprias mãos.
Quase todas as tentativas de solicitar permissão de planejamento feitas por famílias palestinas em Jerusalém Oriental são negadas pelas autoridades israelenses. E famílias em crescimento dizem não ter escolha a não ser construir ilegalmente e enfrentar as possíveis consequências - multas enormes e ordens de demolição.
Alguns dizem que a lei e os tribunais estão sendo deliberadamente usados para suprimir o crescimento e as ambições palestinas.
“Essas comunidades palestinas pedem permissão, e entre 95% e 99% dos pedidos são negados”, diz Shay Parnes, porta-voz da organização israelense de direitos humanos B'Tselem.
“Isso vem acontecendo há anos”, continua Parnes.
“Às vezes eles usam motivos de segurança para justificar, mas é sempre sob parte do mesmo processo de expulsar palestinos... porque a lei é diferente para diferentes comunidades que vivem lado a lado na mesma cidade.”
No lado ocidental predominantemente judaico da cidade, o que costumava ser um horizonte de edifícios de pedra branca relativamente baixos mudou drasticamente nos últimos anos. A construção está em ritmo acelerado.. Os guindastes operam praticamente 24 horas por dia, 7 dias por semana, com novos arranha-céus residenciais e comerciais subindo e aquele lado de Jerusalém se expandindo.
A construção também é intensa em algumas áreas de Jerusalém Oriental em que a terra foi reivindicada por Israel para dar lugar aos assentamentos judaicos. Em Har Homa, estima-se que 25.000 pessoas agora vivem em casas novas, em terras formalmente expropriadas por Israel em 1991.
Do outro lado da estrada estão as aldeias palestinas de Umm Tuba e Sur Baher, onde muitas instalações públicas são claramente inferiores às de Har Homa.
Em forte contraste com o trabalho de construção do outro lado da rodovia, várias casas foram demolidas à força por aqui nos últimos anos, no que a Anistia Internacional descreve como “uma violação flagrante do direito internacional e parte de um padrão sistemático das autoridades israelenses para deslocar os palestinos à força”.
A situação é semelhante no assentamento de Gilo, que se expande rapidamente no que é considerado internacionalmente como Jerusalém Oriental ocupada, enquanto, argumenta-se, aos subúrbios palestinos vizinhos não é permitido crescer no mesmo ritmo.
A comunidade internacional considera os assentamentos israelenses em Jerusalém Oriental ilegais sob o direito internacional, mas o governo israelense contesta. Israel também nega que as demolições fazem parte da política deliberada de discriminação que ganhou ritmo coberta pela distração acusada pela guerra em Gaza.
Em um comunicado, o município de Jerusalém disse que as acusações eram “absolutamente falsas” e que tinha apoio local para “grandes planos de construção em quase todas as áreas de Jerusalém Oriental”.
Os planos “visam dar opções para a expansão do bairro, abordar a questão generalizada da construção ilegal e designar áreas para a construção de estruturas de serviço municipal”, acrescentou.
Mas não é difícil encontrar exemplos de onde as ordens de demolição israelenses contra casas palestinas estão sendo aplicadas em Jerusalém Oriental.
No subúrbio de Silwan, logo abaixo da Cidade Velha, encontramos outra casa palestina em ruínas. Lutfiyah al-Wahidi diz que o anexo havia sido construído para a família de seu filho há mais de uma década, mas agora as autoridades vieram atrás.
“Mesmo que ergamos apenas um tijolo, as autoridades vêm e o demolem. Como nossa casa os prejudicou? É em terra na qual duvido que as autoridades tenham interesse.”
A avó diz que pagou milhares de dólares em multas judiciais ao longo dos anos em vã tentativa de manter a propriedade.
“Meu filho tem uma família de seis pessoas com apenas um provedor. Que mal eles estão fazendo? Ainda querem demoli-la”, diz ela, com sua família ainda maior e dispersa por outras partes da cidade.
Em uma análise compreensiva, a organização Ir Amim descobriu que, desde a eclosão da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023, "houve uma grande aceleração na promoção e liberação de novos planos de assentamento em Jerusalém Oriental e um aumento dramático na taxa de demolições de casas palestinas".
"O governo israelense está claramente explorando a guerra para criar mais fatos", continua.
Estima-se que haja pelo menos 20.000 pedidos de demolição pendentes em Jerusalém Oriental - pedidos que não têm limite de validade.
Especialistas também dizem, no documento, que desde 7 de outubro, membros de extrema-direita do governo de Benjamin Netanyahu e do Município de Jerusalém ficaram mais seguros para expressar publicamente sua intenção de ver mais casas judaicas construídas em terras ocupadas ou contestadas.
E embora os palestinos, como as famílias de Ahmad e Lutfiyah, ficam visivelmente com mais medo de perder suas casas, eles insistem que ficarão e, eventualmente, reconstruirão suas vidas aqui em Jerusalém Oriental.
Assinar:
Postagens (Atom)











/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2024/Y/m/bZpOAjTrm8uOvfluF8lw/ap24277254523753.jpg)





