terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 

Miguel Morales Madrigal (Cuba)

Como os iPhones, é errado pensar que os humanos estão sempre evoluindo

Para quem se prepara para 2022 em meio à pandemia, só o luto dessas utopias pode significar algum amadurecimento

Já estamos na terceira década do século 21. Agora olhamos o século 20 como de fato século passado. Para quem tem 20 anos hoje, o século 20 é como para nós, nascidos nele, o século 19 fora.

Existem muitas formas de tempo. O biológico —o envelhecimento—, o cósmico e o natural —o tempo do Universo e da natureza—, o social —frutos das relações materiais do mundo—, o psicológico —a experiência interna da consciência—, o histórico —fruto das narrativas documentadas do passado— e o político —o tempo das transformações e ações dos agentes e instituições políticas.

Há um caráter atípico dos últimos 300 anos: o processo de modernização. O senso comum, que vive pela suposição de que o mundo seja um mar calmo de evidências, pode se dar ao luxo de crer nas ilusões e expectativas criadas pelas utopias da primeira modernização, aquela do final do século 18, que se espraia ao longo do 19, até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Revolução Russa (1917 e 1923).

Quais eram essas utopias? Progresso técnico e científico que gerariam progresso social, psicológico, político. Fé de que ali onde Deus falhara, nós teríamos sucesso: o mundo avançaria a passos largos, e cada vez mais acelerados, em direção a um futuro cada vez mais glorioso em todos os sentidos. Os jovens que nascessem ao longo desse processo seriam seres humanos cada vez mais evoluídos.


Essa forma de crença permanece ativa até hoje na fala das pessoas. A ideia de que evoluímos, assim como evoluem as gerações de iPhones, permeia as relações diárias, quando a conversa entre pessoas faz um desvio em direção a visões supostamente mais profundas acerca do nosso tempo. Para muitas pessoas que vivem o luxo da ilusão da evolução histórica, essa forma de crença é um dado da realidade como são as pandemias, os trovões e os relâmpagos.

Há que se reconhecer que muito do pensamento profissional é bastante responsável por essa ilusão. Termos como “progressista” e “conservador”, usados no dia a dia para identificar pessoas e formas de análise do mundo —típicos do vocabulário da primeira modernização—, traem esse perfil.

Mas existem outras formas eruditas de apreciação da modernidade e do contemporâneo que oferecem um olhar mais consistente sobre nosso tempo.

“Histórias de Conceitos” do historiador alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), recém-publicado pela editora Contraponto, é um exemplo magistral do que é esse olhar. O autor tem outros títulos publicados no Brasil, entre eles, uma pequena coletânea de ensaios cujo título é “Uma Latente Filosofia do Tempo” pela editora da Unesp. Essa edição conta, também, com uma vigorosa introdução escrita pela historiadora e professora da UFMG Thamara de Oliveira Rodrigues.

Recomendo para quem se interessar em ensaiar um distanciamento da ilusão com relação à experiência moderna ao longo do século 21.

Muitos criticam Koselleck como um historiador conservador, qualificação que, no mundo da mídia, normalmente, é um indicativo de quem não é de confiança para as pessoas de bem. Para Koselleck, a modernização implicou um adensamento da aceleração do tempo, ou seja, o processo descrito aqui, como fruto do impacto das transformações em várias esferas da vida —psicológica, social, política.

Mas o século 21 tende a uma espécie de estagnação dessa aceleração ou uma desaceleração do tempo. Como assim? Ainda que inovações técnicas ocorram, as utopias que organizaram o “horizonte de expectativas” —lugar das utopias modernas, entre outras coisas—​ se desfizeram. A partir da dobradinha das duas grandes guerras, da Revolução Russa e da gripe espanhola, só a ignorância ou a má-fé podem sustentar essas expectativas redentoras.

Para quem se prepara para 2022 em meio à parafernália da pandemia atual, só o luto dessas utopias pode significar algum nível de amadurecimento. A história anda em círculos e não vai para lugar algum. Como diria o historiador Jacob Burckhardt (1818-1897), a história narra “o homem como sempre foi, como é, e será, se esforçando, agindo, sofrendo”.

Vitória do azar

Terei dois períodos de folga esse ano: cinco dias agora no Natal e cinco dias depois…Não estou reclamando não, a missão eu fui atrás dela porque quis, fui candidato porque quis…Dei azar e ganhei
Jair Bolsonaro

Chocado com Bolsonaro

O filme “Nem Tudo se Desfaz”, do cineasta bolsonarista Josias Teófilo, tem uma tese curiosa sobre o nosso antipresidente: ele provoca o escândalo e a perturbação que, em outras épocas, coube aos artistas despertar no homem médio. Hoje, sustenta o filme, depois de décadas de doutrinação na arte esquerdista, ninguém mais se espanta quando um ator/diretor como José Celso Martinez Corrêa aparece pelado, proferindo alguma blasfêmia. O que choca de verdade os espíritos convencionais é Jair Bolsonaro (foto).

Lembrei dessa apreciação estética do nosso mandatário ao assistir o vídeo que um de seus assessores postou hoje nas redes sociais. Nele, Bolsonaro se diverte na traseira de uma lancha cercada de jet skis, na companhia de uma “galera”, enquanto um funk em sua homenagem toca a todo volume.


Confesso que fiquei boquiaberto. Como os “temperamentos regulares”, como a “geleia pasma” de quem o modernista Mario de Andrade zombava em sua “Ode ao burguês”, eu me dei conta, mais uma vez, que é importante para mim que o homem que ocupa a Presidência da República tenha alguma compostura e não seja tão inapelavelmente grotesco.

Segundo o assessor de Bolsonaro, as imagens demonstram que ele não está nem um pouco preocupado com o jantar que reuniu Lula e Geraldo Alckmin neste domingo – ambos prováveis companheiros numa chapa que deve enfrentá-lo nas eleições do ano que vem.

De fato, Bolsonaro não parece preocupado. Nem com os adversários, nem com qualquer outra coisa. Ele dança, dá risada, faz mímicas. Aponta o próprio sovaco quando a música diz que “mulher de esquerda tem mais pelo que cadela”.

Dirão os bolsonaristas, como aqueles que rebolam no vídeo ao redor do infame: “Quer dizer então que o presidente não pode descansar no fim do ano? Não pode brincar um pouco, para descontrair?”

Francamente. O que um presidente não pode é ser tão debochado. Ele não pode se descolar tão completa e despudoradamente da realidade que o cerca, num país onde milhões de pessoas terão um Natal magro; onde 69% dos eleitores acreditam que a economia está no caminho errado, segundo a pesquisa divulgada hoje pelo Ipespe, e por isso têm medo do futuro.

Tudo no vídeo de Bolsonaro é ofensivo: os gestos, a música, os símbolos estúpidos de ostentação que são a lancha e os jet skis. Josias Teófilo tem razão. José Celso não me espanta. Mesmo depois de quatro anos, mesmo depois de tudo que Jair Bolsonaro já disse e já fez, é a sua incompatibilidade absoluta com a Presidência que ainda agride como um tapa e continua a me escandalizar.

Máquina mortífera no Planalto

Enquanto políticos, juristas e analistas em geral discutem se o que Bolsonaro comanda é genocídio, extermínio, mortandade ou carnificina, o criminoso ri da discussão semântica, dobra a aposta e ataca outra vez. Agora, nega vacinas para crianças. O massacre de 620 mil brasileiros nos cemitérios não basta. O vírus pede mais sangue, e Bolsonaro se dispõe a despachar a encomenda.

No costumeiro estilo miliciano, ele expande a truculência e parte para cima da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que autorizou a imunização para crianças entre 5 e 11 anos. Até pouco tempo atrás parceiro do delinquente em protesto negacionista e, hoje, ao que parece, distanciado do Planalto, o diretor-presidente da Anvisa, Barra Torres, pediu proteção policial para servidores e diretores da agência, tamanha a gravidade das ameaças.


Não é só a Anvisa que recomenda a imunização para os pequenos. A OMS, países da União Europeia, Estados Unidos e vizinhos aqui na América Latina fazem o mesmo. Mas o Ministério da Saúde é comandado pelo sabujo Marcelo Queiroga, que diz precisar de mais tempo para estudar o assunto e que só irá decidir em janeiro, depois de uma consulta popular. Daqui a pouco vai dizer que a vacinação precisa ser decidida em plebiscito.

Faz sentido. Se não tem impeachment para tirar esses bandidos do poder, eles sentem-se à vontade para lubrificar as engrenagens da máquina mortífera. A Covid mata crianças e também faz delas agentes transmissores do vírus para todos que lhes são próximos. Negar a proteção da vacina é de um grau de perversidade difícil de assimilar, mas o que esperar de alguém que defende a tortura, como Bolsonaro, a não ser podridão humana?

O que ainda impressiona é que nenhuma instituição política e/ou jurídica do país seja capaz de deter esse assassino. Instituições e seus representantes inertes são cúmplices da morte e da naturalização da desgraça que nos assola e nos condena a mais um ano com o genocida no poder.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Brasil em prece

 


Bolsonaro, o primeiro presidente eleito que declara guerra ao povo

O que quer o presidente Jair Bolsonaro quando pede para divulgar a lista dos técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária autores do parecer favorável à vacinação contra a Covid-19 de crianças entre 5 e 12 anos de idade?

Simples: quer jogar seus fanáticos seguidores contra eles. Expô-los a toda sorte de ameaças – de insultos a agressões físicas. É o que começou a acontecer desde que Bolsonaro considerou absurda a vacinação de crianças, adotada no mundo inteiro.

No fim de semana, recuou, como de costume. Disse que as crianças podem ser vacinadas, sim, mas só por recomendação médica e com o prévio consentimento dos pais. O consentimento dos pais é necessário. Parecer médico só em casos especiais.

Bolsonaro é o primeiro presidente da República eleito que declara guerra ao povo brasileiro.

Treno por um país em permanente estupor

Temi parecer pedante ao usar o substantivo treno (do grego thrênos, canto ou oração pungente) no título deste artigo, mas não me vem à mente outro termo que traduzisse o que sinto ao ver nosso país despencando morro abaixo, incapaz de responder à crise que há anos nos assola.

Não há dúvida de que nossas instituições políticas atingiram o ponto mais baixo de sua história. No Executivo, um presidente que fez o que podia para dificultar o trabalho dos agentes de saúde no combate à pandemia, só pensa em se reeleger e ornamenta seu desapreço pela liturgia do cargo que ocupa com tiradas do mais duvidoso humor. No Legislativo, o presidente da Câmara parece pensar que sua função se exaure na tarefa de barrar o mais que justificado impeachment de Jair Bolsonaro. No Judiciário, desde a tragicômica exegese lewandowskiana do artigo 52 (inciso 15, parágrafo único) da Constituição federal de 1988, adrede concebida para beneficiar Dilma Rousseff no episódio do impeachment, só o que vimos foi uma interminável melopeia entoada com o único objetivo de obscurecer as falcatruas perpetradas pelo sr. Luiz Inácio Lula da Silva, notadamente na Petrobras, e admitir sua elegibilidade para a Presidência da República em 2022. O resultado de tudo isso serão, provavelmente, mais oito anos de Lula e a continuidade da idiota polaridade entre ele e Bolsonaro, que teve início na eleição presidencial de 2018.

Seria tudo muito engraçado, se tais fatos não tivessem como pano de fundo a pandemia de covid-19.

Neste quadro medonho, com o próximo pleito presidencial reeditando a polarização das facções políticas chefiadas por Lula e Jair Bolsonaro, cada um pondo fogo pelas narinas, com base em quê nutriremos a expectativa de um equacionamento adequado de nossas contas fiscais, de uma reestruturação enérgica da máquina de Estado e da atração de investimentos na escala em que necessitamos?

O que acima se expôs diz respeito ao desempenho dos atuais titulares dos Três Poderes, mas o estrábico desempenho deles resulta de um acúmulo de causas. A primeira é o travejamento institucional de nosso sistema político. Não existe atualmente em Brasília, como bem sabemos, um elenco que se abalance a tentar reformar o anêmico enredo institucional que nos rege. Se tivesse de ressaltar um só aspecto dele, ficaria no mais simples: o formigueiro de partidos que vão diariamente a Brasília a fim de exercitar sua cômica coreografia do doce far niente. Na Câmara, temos atualmente 24 partidos, nenhum dos quais capaz de amealhar 20% das cadeiras. Penso que o leitor convirá comigo em que isso e nada são a mesma coisa.

A segunda causa oculta algo ainda pior que a atual impotência da sociedade, à qual fiz referência acima. Não vejo como nossas instituições de governo possam voltar a um nível razoável de desempenho enquanto não tivermos elites mais coesas, lúcidas e responsáveis. É lógico que emprego o conceito de elites no sentido sociológico, amplamente aceito, não na acepção comum no século 19, que se referia a grupos dirigentes interligados por laços de hereditariedade, menos ainda com intenção encomiástica. As elites que tenho em mente deveriam ser a parte inferior do iceberg político, balizando e conferindo consistência à atuação do Estado. No mundo atual, já praticamente inexistem elites aristocráticas e hereditárias como as do século 19. O que existe são apenas grupos numéricos: os ápices das diferentes hierarquias que em tese compõem a espinha dorsal da sociedade: a alta administração civil e militar, os empresários, o alto clero, os jornalistas, intelectuais e cientistas mais destacados, e assim por diante.

Claro, os “ápices” a que me refiro não são uniformes em termos de poder. Um scholar que obteve seu PHD nas melhores universidades americanas faz parte da elite cultural, mas para pertencer ao ápice da elite econômica ele teria de viver numa mansão, passar os fins de semana numa casa de campo ou no litoral e, quem sabe, possuir um iate de US$ 10 milhões. Tais atributos o qualificariam inicialmente como um possível membro da elite, mas, para fazer realmente parte dela, ele teria de se sentir movido por uma missão, uma vocação de exemplaridade, um desejo de servir ao bem público e à sociedade. Se tivéssemos ao menos isso, nossos 24 partidos poderiam levar sua vidinha como quisessem, pois não passariam de um epidérmico incômodo. Mas não: elites com um mínimo razoável de coesão, comunicando-se umas com as outras com certa frequência, capacitando-se para enfrentar os desafios (e oportunidades) com que o País de tempos em tempos se depara, isso, decididamente, não temos. Temos, como disse, grupos apenas numéricos, atomísticos, precariamente conectados.

Preparemo-nos, pois, para o espetáculo que se vai encenar no Coliseu em outubro de 2022. No caminho, olhando para um lado e para o outro, é possível que vejamos famintos desmaiando enquanto aguardam atendimento em postos de saúde e famílias catando comida descartada ou comprando ossos para a sopa de que irão se servir no jantar.

Herodes é brasileiro


A pandemia não acabou. A estupidez, vírus ainda mais perigoso, também não​
Reinaldo Azevedo

Por que tem um general no TSE?

O general Fernando Azevedo e Silva, ex-ministro da defesa de Bolsonaro, ocupará a direção-geral do TSE durante a campanha presidencial de 2022. Isto é: quem vai decidir se a eleição valeu será um sujeito armado que até outro dia era funcionário de um dos candidatos.

Azevedo e Silva já desempenhou papel semelhante na eleição passada: por algum motivo até hoje inexplicado, foi assessor de Toffoli no STF durante a eleição de 2018. Naquela oportunidade, o STF decidiu que Lula, que tinha 38% nas pesquisas, não poderia concorrer contra Bolsonaro, que tinha 18%. Bolsonaro venceu e nomeou Azevedo para a Defesa.

Se o leitor conhecer caso semelhante ocorrido em país de democracia estável, peço que envie carta para a Redação.


Defensores da nomeação argumentam que um general no TSE apaziguará os defensores de Bolsonaro. O presidente da República já deixou claro que, em caso de derrota (e, portanto, prisão automática pelos crimes da pandemia), mentirá que houve fraude e tentará um golpe.

Não há, naturalmente, nenhuma apreensão honesta a ser apaziguada. Os defensores de Bolsonaro não acham, sinceramente, que as urnas eletrônicas são fraudadas. Eles estão, do primeiro ao último, mentindo. Se não houver essa desculpa para tentar um golpe, eles usarão outra. Os bolsonaristas devem ser desarmados, não refutados.

E mesmo se fossem sinceros, a nomeação de Azevedo foge à regra. Em 2018, os eleitores de Lula contestavam a decisão judicial que tirou o ex-presidente da eleição. Ninguém nomeou Gleisi Hoffman para a direção do TSE como forma de tranquilizá-los. A diferença, é claro, é que os militantes do PT estavam desarmados.

Supondo que a nomeação de Azevedo tranquilizará os golpistas, porque não deveria inquietar a imensa maioria do eleitorado, que, a crer nas pesquisas, pretende votar na oposição?

Se Lula ou outro oposicionista vencer por grande vantagem, pode não fazer diferença: ninguém vai conseguir fraudar uma eleição que perdeu por 30 pontos percentuais. Mas e se a eleição for equilibrada? Se Bolsonaro vencer por pouco, se for para o segundo turno por pouco?

Não deve haver militares no TSE em uma eleição em que um dos candidatos passou quatro anos tentando cooptar as forças armadas para um golpe de estado, sobretudo se o militar em questão foi ministro da defesa do referido candidato, sobretudo se o foi depois de ter supervisionado a eleição anterior sem ter qualquer direito de fazê-lo, e, sinceramente, eu tenho vergonha de ter que explicar isso.

Segundo a revista Veja, a nomeação de Azevedo foi ideia dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Edson Fachin. Em democracias estáveis, ministros da Suprema Corte não precisam se preocupar em acalmar golpistas. Certamente não precisam fazê-lo com o mesmo general por duas eleições seguidas.

De qualquer forma, lanço um apelo àquela turma do comentariado brasileiro que sempre defendeu que Bolsonaro não representava risco à nossa democracia: lancem um manifesto contra a nomeação de Azevedo.

Ela dá munição a alarmistas como eu: se a ameaça de Bolsonaro não é real, por que a nomeação do general foi necessária? Ela foi conduzida por ministros do STF sob aplauso generalizado do establishment político e econômico. Será que essa turma toda também foi enganada pelo livro do Levitsky?

O ano que passou

Mais um ano escorre pelos dedos. Não foi terrível nem animador, apenas um ano de transição.

O Brasil ficou cansativo com essa interminável polêmica com o negacionismo. Primeiro, negaram o vírus, depois a gravidade da pandemia, o número de mortos, a importância da vacina e, finalmente, o passaporte vacinal.

Foi um ano de grandes debates em Glasgow, políticas ambientais decisivas nos EUA e na Alemanha, mas termina com uma dura mensagem da natureza: enchentes no sul da Bahia e o tornado no Kentucky.

A democracia foi ameaçada pelos mesmos de sempre, mas creio que, ali pelo 7 de Setembro, a ameaça se dissipou, deixando apenas alguns perplexos caminhoneiros bloqueando estradas no dia seguinte ao feriado.

Felizmente me deixaram passar para o trabalho presencial. Duplamente vacinado, caí na estrada para desenferrujar os dedos e a sensibilidade. Viver a esperança de voltar ao trabalho e preparar um salto de qualidade para o ano que entra. É o que está ao meu alcance.

Tudo o mais depende de muita gente: combater a fome, aliviar a tensão sobre a floresta e os índios, reanimar a ciência, levar um novo fôlego à cultura, apresentar uma imagem digna do Brasil lá fora.

Certamente, o passo essencial é impedir um novo mandato de Bolsonaro. Estou acostumado com suas barbaridades. Mas fiquei triste com a reação dos empresários quando ele disse que demitiu as pessoas do Iphan porque colocaram obstáculos às obras daquele senhor da Havan.

Os mesmos empresários que aplaudem a destruição do meio ambiente em nome do progresso aplaudem o desaparecimento de nossa memória e identidade. Se triunfarem em toda a linha, serei, como muitos outros, um exilado num país sem suas florestas, desmemoriado, tocando apenas a música das caixas registradoras.

Alguns poderão arrancar alguma beleza dessa paisagem desoladora, plantar uma flor no asfalto. Teriam de ter a força de um Bispo do Rosário, que, encerrado no manicômio, criou obras maravilhosas, usando o fio do uniforme de louco, tampas de garrafa.

Se Bispo do Rosário conseguiu criar algo numa atmosfera absolutamente áspera, quem sabe nós também sobreviveríamos à barbárie político-empresarial?

Mas não triunfarão. Neste momento da História, tudo indica que o povo brasileiro sabe pelo menos a quem rejeitar. A maioria não aceita Bolsonaro, e essa talvez seja a grande notícia do ano que começa logo.

Foi um ano de muitas leituras, aprendizado, biografias e romances. Nem por isso consegui transcender à banalidade do debate que o atraso nos impôs.

Não fantasio o futuro. Quem pensa com a própria cabeça sempre enfrentará consensos, partidos, corriolas. Mas nada, nada é tão difícil quanto os anos de domínio da extrema direita. No exílio, pelo menos a dor era compensada pelo fluxo de novas ideias.

Mas não há do que reclamar, exceto realizar o projeto de avanço, contar melhor as histórias, burilar as imagens, ouvir o som das ruas e estradas.

Em Atafona, São João da Barra, norte fluminense, num trabalho sobre o litoral brasileiro, conheci uma mulher de 86 anos que me disse: “Todas as manhãs deposito três rosas na Igreja Nossa Senhora da Penha, para agradecer mais um dia de vida”.

Não trabalho com escala tão curta, mais um dia de vida. Mas, olhando bem tudo o que se passou conosco, talvez valesse a pena depositar três rosas pelo ano que passou, pelo fato de termos vivido e estarmos prontos para o ano que virá. É uma maneira de desejar Feliz Natal e Ano-Novo; quem sabe no ano que vem poderemos nos aglomerar e jogar as flores diretamente nas ondas do Atlântico?

De qualquer forma, estaremos livres, trabalhando ou caminhando pelas ruas, e isso a pandemia nos ensinou que é uma das grandes dádivas da vida.

Fernando Gabeira

domingo, 19 de dezembro de 2021

Os piores anos das nossas vidas

É difícil supor que alguém tenha previsto, em 1º de janeiro de 2019, que teríamos três anos terríveis, os piores da história republicana. Imaginava-se que o Bolsonaro faria um governo ruim. Afinal, seria um milagre se aquele deputado do baixo clero, que, em momento algum (e foram 28 anos!), tinha se destacado pelo entendimento das complexas questões de Estado tivesse subitamente se convertido em um bom governante. Mas o pesadelo que estamos vivendo, com acontecimentos diários que nos envergonham no concerto das nações, ah, com a mais absoluta certeza nem o mais pessimista dos analistas poderia supor.


Os anos da presidência Bolsonaro serão eternamente lembrados como o ponto mais baixo, mais vil, da nossa história. Porque além do presidente da República ter desempenhado o papel de inimigo da Constituição e dos valores humanistas da nossa civilização, teve a companhia de milhares de brasileiros que o apoiaram na faina que espalhou a barbárie por todo o território nacional. E, vale destacar, não somente aqueles com precária formação escolar ou oportunistas políticos. Não! Teve a companhia de brasileiros com educação universitária que tiveram a possibilidade de externar seu ódio de classe, seu desprezo pelo povo brasileiro, pela nossa formação histórica. O que estava engasgado durante décadas foi expelido com satisfação, como um momento de gozo, uma espécie de libertação dos valores civilizatórios. Ao assumir a barbárie como visão de mundo, os bolsonaristas se reencontraram com os valores mais reacionários da história do Brasil.

O pesadelo que estamos vivendo é produto da nossa história política. Não é um acidente, um acaso ou uma manifestação de algum fenômeno da natureza como uma erupção vulcânica ou um tsunami. Teremos de fazer uma autocrítica do processo de redemocratização e, especialmente, dos 21 anos do condomínio PSDB-PT. Algo de errado — de muito errado — aconteceu.

A opção pela conciliação com o velho regime, concedendo aos egressos do passado antidemocrático posições de força no aparelho de Estado, acabou petrificando o processo de transição para a democracia. O novo foi impedido de nascer pelo velho, mais uma vez os fatores de conservação se sobrepujaram frente aos fatores de transformação.

A tarefa democrática e civilizatória para 2022 é de varrer o reacionarismo bolsonarista. A derrota dos extremistas nazifascistas é condição sine qua non para a preservação da democracia e dos valões consubstanciados na Constituição.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Pensamento do Dia

 


Brasil passa por empobrecimento de sua sociabilidade

Diversos episódios de violência contra pessoas indefesas e frágeis revelam um aspecto problemático da realidade social brasileira. São aqueles casos que poderiam ter sido evitados se tomados alguns cuidados autoprotetivos em relação às vítimas potenciais. Se uma desconfiada prudência fosse adotada pelas famílias em face dos perigos da modernidade.

A falta desses cuidados revela-nos uma sociedade ignorante em relação ao que é o mundo moderno. Por isso destituída de uma consciência crítica imprescindível para viver e sobreviver participativamente nos dias de hoje.

Quanto a isso, nos países civilizados as ciências humanas são decisivas na formação da personalidade tanto dos pais quanto dos filhos. Principalmente quanto à consciência social em relação ao que é a sociedade que nos forma e nos conforma.

O mundo atual é o mundo que perdeu ou está perdendo de modo socialmente desigual os valores sociais da tradição e das identidades coletivas e a consciência dos limites e condições do que é e não é possível ser e fazer. O Brasil é um país que passa por acentuado empobrecimento de sua sociabilidade, o que se evidencia nas manifestações de violência autodestrutiva daí decorrente.


Demoramos na resposta à crise social, na elaboração e difusão de uma cultura substitutiva de identificação, localização do risco às vítimas potenciais das situações de distanciamento social invisível no interior dos grupos tradicionalmente de proximidade, como a família e a vizinhança.

Amplia-se uma patológica sociabilidade de pessoas reduzidas à condição de indivíduos, mediada por sua coisificação. Regride e encolhe a historicamente e decisiva sociabilidade comunitária, que, mesmo com a modernização, é socialmente decisiva no equilíbrio das relações sociais. A sociedade está em perigo, ameaçada pela anomia e pela anulação sem inovação das normas sociais.

Essas transformações, na vida cotidiana e interativa, se manifestam na concreta ameaça aos frágeis, como crianças, adolescentes, velhos e, não raro, a mulheres. São as situações em que a vítima e o algoz vivem juntos ou próximos, mas separados pelo desconhecimento da hierarquia social própria da diferença de idade, de posição social e até de gênero, uma questão cultural que facilita sua vitimação.

Vítima e algoz não só estão em tempos desencontrados. A vítima está no lugar errado e na hora errada, em face de pessoas erradas. Não raro de modo permanente, como nos casos de estupro de filhas por pais e padrastos, cada vez mais frequentes entre nós como causa de linchamentos. São situações de convivência marcadas pela banalização do outro e pela supressão da responsabilidade social de cada um quanto aos demais.

Em artigo recente, analisei o caso do jovem negro, pobre e quilombola que, numa cidade interiorana do Rio Grande do Norte, foi amarrado, surrado e pisoteado por um comerciante branco, já envolvido em episódio precedente de racismo. O autor da violência ainda pautado por valores depreciativos da pessoa próprios do regime de escravidão.

Em 2014, Fabiane Maria de Jesus, uma mãe de família, foi brutalmente linchada num bairro em que morava no Guarujá, SP. Fora confundida com a imagem forjada de suposta sequestradora de crianças, divulgada pelas redes sociais. A multidão foi atiçada por uma mulher que dera o grito de que ela estava tentando sequestrar uma criança.

Na verdade, ela estava saindo de uma frutaria e, vendo o menino chorar na calçada, deu-lhe uma fruta. Em poucos minutos, mais de mil pessoas estavam arrastando-a pela rua. Apedrejada, derrubada e espancada, foi morta como se não fosse um ser humano.

Em 2003, num sítio abandonado de Embu-Guaçu, um casal de adolescentes de um colégio de São Paulo acampava quando foi rendido por um pequeno grupo de roceiros liderado por Champinha, menor de idade, morador na região. Durante cinco dias, foram prisioneiros do grupo, seviciados, a moça foi violentada e acabaram mortos.

É possível fazer uma leitura antropológica do que ocorreu. Os jovens de classe média urbana estavam fazendo algo que no mundo rústico dos agressores significava apenas que eram pessoas disponíveis para a violência que as vitimaria. Pessoas supostamente desumanizadas pela liberdade de fazer o que contrariava a cultura repressiva de grupos atrasados.

A própria concepção de vizinhança está substancialmente alterada em relação ao que ela era na geração de nossos avós. Uma indicação nesse sentido é que os linchamentos, forma violenta e não raro cruenta de justiçar alguém, até por motivos banais, ocorrem cada vez mais nos bairros. E pelas mãos dos moradores, que definem como perigo e inimigo o estranho, o recém-chegado, o arredio, o diferente.

Maldições históricas

Quem observa a política e a realidade social no presente, tem razão dese assustar com as maldições que pesam sobre nossa história, é preciso olhar adiante para perceber o potencial que temos, se formos capazes de reorientar nosso destino nacional.

Por sua estupidez e maldade no tratamento da epidemia, pela desmoralização do país no exterior, pela desconstrução de nosso sistema científico, pela desconfiança sobre a as eleições e ameaças à democracia, a presidência de Bolsonaro será vista como uma maldição na história do Brasil. Mas não será a única que caracteriza nossa história, e de fato ela é consequência de outras anteriores que amarram há séculos nossa evolução civilizatória.


A estrutura escravocrata por quase toda nossa história, submetendo parte de nossa população ao trabalho escravo deixou a maldição que até hoje pesa provocando racismo, aceitação da desigualdade, da corrupção e da violência. Como irmão da escravidão, o latifúndio, imposto desde as capitanias hereditárias, deixou a maldição da terra como reserva de valor nas mãos de especuladores e não como fator de produção nas mãos dos trabalhadores.

O Brasil sofre a maldição do desrespeito aos limites dos recursos nacionais: ecológicos, fiscais, urbanos, sociais. Aceitando-se depredar os patrimônios como se fossem infinitos. O resultado é a degradação ambiental, as cidades transformadas em “monstrópoles”, a moeda desvalorizada sistematicamente por inflação.

Em parte, isto foi uma exigência da maldição do desenvolvimento industrial baseado sobretudo na indústria automobilística. Esta opção exigiu concentrar renda, endividar o Estado e as famílias, degradar o meio ambiente, desorganizar as finanças públicas e individuais.

Esta maldição foi possível por causa da aliança maldita entre políticos populistas e economistas irresponsáveis, incapazes de adaptar teorias importadas à nossa realidade cultural.

Talvez a maior e mais permanente maldição esteja no desprezo à educação de base. Por séculos temos descuidado de implantar um sistema educacional que assegure escola com máxima qualidade a cada criança brasileira, independente da renda e do endereço de sua família. Esta opção histórica levou à formação de uma economia com baixa produtividade, e uma sociedade desigual, violenta, sujeita à política corrupta e populista. A maldição da deseducação é a mãe de todas as maldições históricas que caracterizam o Brasil, de Cabral a Bolsonaro.

Da mesma maneira, é na observação do desafio educacional que podemos encontrar otimismo para o futuro do Brasil. Se o païs se une em torno a uma revolução que assegure educação de qualidade para todas nossas crianças, no prazo de uma geração, o Brasil poderá mobilizar o maior de nossos recursos: os cérebros de nossa população. Neste século do Conhecimento, com nossa imensa riqueza natural, com o ativo econômico já implantado apesar dos erros, aliados à população educada, o Brasil pode dar o salto civilizatório que vem sendo impedido pelas maldições do passado

Mediocridade criminosa

 Rucke Souza

Não é tempo de violência, não é tempo de sentimentos menores

Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa  

Pedras da fome

Guardo da semana que passou duas imagens fortes. A primeira, a de uma estante com livros, erguendo-se solitária em meio a um cenário de absoluta devastação, após a passagem de um tornado, em Mayfield, nos Estados Unidos da América. A estante está intacta. Os livros continuam alinhados, uns ao lado dos outros, disponíveis para quem os quiser consultar. Na segunda imagem vêem-se seis girafas mortas, fotografadas a partir do céu, como bailarinas caídas num palco. As girafas morreram de sede, perto da aldeia de Eyrib, no Quênia, vítimas de uma das piores secas já registradas naquele país da África Oriental.

A primeira imagem é uma metáfora pronta, de uma perfeição milagrosa, sobre o papel e a capacidade de resistência da maior invenção da Humanidade — o livro. Depois que tudo desmorona, aquilo que nos resta, e que nos ajuda a responder à angústia do recomeço do mundo, é a literatura.

Como escritor fico sempre assustado quando alguém me diz “seu livro mudou minha vida”, ou, numa versão ainda mais dramática, “seu livro me salvou”. Assusta-me a responsabilidade. Reconheço, contudo, o poder redentor dos livros. Alguns deles também mudaram a minha vida. Estou a pensar, por exemplo, num dos títulos clássicos de Bertrand Russel, “Porque não sou cristão”, ou num dos grandes romances fundadores da literatura sul-africana, “Chora terra bem-amada”, de Alan Paton. Li ambos em plena adolescência. O primeiro fez de mim um pacifista radical e um agnóstico obcecado pelo divino. O segundo ajudou-me a compreender e a combater o apartheid e, de forma mais geral, todas as formas de injustiça racial.


A segunda imagem forte que guardei da semana não permite nenhuma metáfora de esperança. Uma girafa viva, dançando na savana, é a ilustração da graciosidade, da elegância improvável e do extraordinário poder e imaginação da mãe natureza. Uma girafa morta é a própria morte — a humilhação da vida.

As duas imagens, a da estante e a das girafas, retratam uma tragédia comum. Ambas expressam a situação de colapso ambiental que o planeta atravessa. Enquanto certas paisagens são castigadas por ciclones e cheias, outras definham de sede. A destruição das florestas tropicais ou do permafrost, um tipo de solo característico das regiões árticas, ameaça libertar vírus muito mais perigosos do que aqueles que hoje combatemos. Já não temos sequer a desculpa da ignorância. Sabemos exatamente o que é necessário fazer, e não fazer, para atenuar o aquecimento global e evitar a nossa própria extinção.

Lendo “Underland”, de Robert Macfarlane, escritor britânico que escreve sobre paisagens e tudo aquilo que elas ocultam, encontrei outra metáfora assustadora: “Na República Tcheca, os níveis estivais do rio Elba desceram de tal maneira que foram descobertas “pedras da fome”, pedregulhos esculpidos, usados ao longo de séculos para recordar secas e alertar para as suas consequências. Uma destas pedras revelou a seguinte inscrição: se me vires, chora”.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Um colchão por domicílio

O casal mora lá, embaixo de uma longa marquise pintada de verde, a poucos minutos do cruzamento entre a Rebouças e a Faria Lima. Naquele mesmo endereço já funcionou um supermercado de luzes escassas, com ares mofados de entreposto comercial. Hoje, com suas portas de metal bem trancadas, o imóvel não tem mais nenhuma função social ou mercantil. Só a calçada, apenas ela, encontrou uma utilidade: virou dormitório popular. Foi lá que o jovem casal fixou residência, em pacífica vizinhança com outros moradores. Os colchões perfilados, mudos e discretos se organizaram para não incomodar ninguém: tiveram o cuidado de deixar livre uma boa faixa do calçamento para que os pedestres trafeguem, sem virar a cabeça.

A moça é alta, bonita. Dos seus olhos grandes e claros, realçados pelo tom bronzeado do rosto, escorre uma sensação de paz que às vezes alcança quem passa por ali. O nariz descreve um arco pronunciado, numa ponte fina entre a testa e os lábios. Elegante e delgado, o nariz denota personalidade, mas não arrivismo. Quando ela se espreguiça sobre o cobertor bem esticado, no meio da tarde, deixa ver que está feliz. Temos algo a aprender com ela.


A moça, o marido e os vizinhos às vezes almoçam no mesmo lugar em que dormem. Conversam sobre isso e aquilo. Malas puídas fazem as vezes de mesinhas de cabeceira. Caixas de papelão desmontadas e dispostas ao lado, como divisórias, ajudam a cortar o vento e a demarcar os domínios da privacidade de cada um dos lares enfileirados.

Um dia desses estava lá, estacionada ao lado, uma viatura do Samu. Um profissional de saúde examinava a cidadã dos olhos calmos, que, naquela hora, se apertavam numa expressão de dor. Ela estava sentada na beirada de seu endereço, com os pés descalços sobre o piso público. Com as duas mãos, apertava o lado esquerdo do ventre. Duas tardes depois estava lá outra vez, com aquele ar de plenitude que só os seres humanos a quem não falta nada conseguem experimentar. Sim, temos algo a aprender com ela.

E com tantos mais. Os moradores de rua se multiplicaram por São Paulo. Na Amaral Gurgel, sob o Minhocão, há barracas reforçadas com camadas adicionais de lona plástica, ao lado de leitos ao relento. Na ligação entre a Avenida Paulista e a Doutor Arnaldo, naquele túnel avarandado que cruza por baixo a cabeceira da Consolação, as barraquinhas-dormitórios se proliferaram como numa florada. Quem passa por ali vê as rodas de conversa, que lembram as cadeiras na calçada das pequenas cidades do interior.

Emoldurada pelas luzinhas de Natal que eclodem nas fachadas das instituições financeiras, a nova ocupação urbana faz a gente pensar em presépios vivos. A metáfora é piegas, bem se sabe, mas é impositiva.

Nós somos uma cidade que gera desabrigados em escala superindustrial. Nós somos uma cidade que produz pobreza, fome e desamparo, mas não sabemos o que somos e o que fazemos. Não vemos a segregação que fabricamos. Somos uma cidade que fecha os olhos para os presépios de carne e osso e faz orações pungentes diante dos presépios de mentirinha – alguns deles caríssimos, financiados pelos bancos sobre o pavimento da Paulista.

Os moradores de rua se multiplicam na mesma proporção que os lucros dos financistas. Em 2019, o Censo da População em Situação de Rua contabilizou 24,3 mil sem-teto em São Paulo. Agora, as estimativas dão conta de 66 mil paulistanos sem casa para morar. A pandemia piorou o quadro. Dizem as estatísticas que 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil. As estatísticas não têm nem rosto nem coração, mas o mais perturbador é que nós, nós mesmos, os presunçosos aqui que nos gabamos de saber ler as estatísticas, parecemos não ter nem rosto, nem coração, nem responsabilidade. É como se não fosse com a gente.

Nós somos a metrópole que morrerá de insensibilidade. Nós somos a nação que morrerá de meritocracia, sem saber que os famintos e os degredados formam conosco um só corpo. Nós nunca entendemos o que isso significa, encastelados no alto de nossas petulâncias patéticas. Nós ainda estamos longe de saber que pior do que ter um colchão por domicílio é ter a ostentação como ideal de gozo.

Mas não há de ser nada, sejamos otimistas. É Natal, você sabe, então sejamos confiantes no tal do futuro melhor. Imaginemos que a cidade de São Paulo e o Brasil conseguirão atravessar este desfiladeiro de vergonha e horror e que, lá adiante, a gente possa ver o tempo que terá passado em fotografias nos livros de História. Isso na perspectiva otimista, é claro. Imaginemos a retórica que teremos de inventar para explicar o nosso desprezo cruel pelo sofrimento dos nossos iguais. Por que não fizemos nada quando podíamos ter feito tudo?

No futuro, se houver futuro, os retratos dos padecimentos que fabricamos nas ruas e nas periferias do Brasil serão tão chocantes quanto as cenas que hoje guardamos do gueto de Varsóvia. Diremos o quê? Que a culpa não era nossa? Enquanto isso, a moça bonita e seu marido talvez passem o Natal sob a marquise. Contentes, a seu modo. Sem máscara.

Cozinha brasileira do Bozo

 


No escurinho do Planalto, ameaça à democracia continua em alta

No escurinho do Planalto, o golpismo continua em alta. Conselheiro presidencial e crítico contumaz do STF, o general Augusto Heleno reeditou a avaliação de que a corte tenta "esticar a corda até arrebentar" e insinuou que uma reação autoritária ao tribunal é uma carta que está sempre na mesa de Jair Bolsonaro.

"Eu tenho que tomar dois Lexotan na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF", disse o ministro na formatura de um curso para agentes da Abin, na última terça-feira (14). A fala do general foi divulgada pelo site Metrópoles.

Heleno é um personagem recorrente nos sonhos antidemocráticos dos bolsonaristas. Em 2020, ele publicou uma nota em que ameaçava o STF com "consequências imprevisíveis" caso o tribunal determinasse a apreensão do celular do presidente. General da reserva, ele empresta uma coloração militar aos planos autoritários do chefe.


Na conversa com os agentes da Abin, o ministro jogou lenha no radicalismo político de Bolsonaro e seus aliados. "Um atentado ao presidente da República bem-sucedido modifica totalmente a história do Brasil", afirmou. "Tenho uma preocupação muito grande com esse 2022."

Não se deve ignorar perigos nem baixar a guarda na segurança de um presidente, mas o risco à vida do governante é a desculpa favorita de autocratas interessados em tomar medidas fora dos limites da lei.

O próprio Bolsonaro voltou a explorar, nos últimos dias, a expectativa de conflitos políticos e institucionais. Nesta quarta (15), ele criticou ministros do STF que, segundo ele, "agem contra sua pátria" e disse que vai "tomar uma decisão" se o tribunal rejeitar a tese que limita a demarcação de terras indígenas.

Em outras palavras, Bolsonaro ameaçou novamente descumprir uma decisão judicial –ou, no mínimo, retomar o confronto direto com o Supremo. A ruptura ainda é a principal ferramenta do presidente para agitar sua base radical.