domingo, 8 de maio de 2016
Os pobres
Todo mundo conhece os pobres. Os despossuídos de tudo, humilhados pela vida que lhes foi roubada. As gentes tristes do mundo. As sem pão e sem beleza. As a que falta esperança. Que vivem dentro de um horizonte tão retraído que nele não cabe um futuro que não seja a repetição da vida ruim. Para eles e seus filhos. E netos. Como se a pobreza fosse genética e hereditária. Um fato da natureza. Ou um castigo de Deus, dos que vão passando através de gerações.
Nada de natureza, nada de Deus. Pobreza não é castigo. É imposição. Ninguém tem na pobreza qualquer alegria. Os catadores de lixo encontram nessa atividade o muito pouco com que se sustentam e às suas famílias, quando elas também não estão enterradas na sujeira dos outros, selecionando coisas ainda aproveitáveis, sabe-se lá para quê. É o limite do desespero. Salvar da aniquilação os rejeitos de vidas alheias, que, para quem está abaixo de todas as linhas da pobreza e da dignidade, valem a própria vida. Urubus voam por cima dos lixões. Aquelas montanhas são seus territórios de morte. Os que catam lixo disputam a vida com os urubus.
Sei que separar o lixo é uma atividade ecológica e economicamente relevante. O inadmissível é que ela não seja feita na recolha seletiva prévia do que ainda serve para algum fim útil e do que está destinado à putrefação dos cadáveres. Os catadores chafurdam em todas as porcarias para extrair delas uma garrafa, uma tampa de sanitário, uma bota velha de um só pé. Resgatam do naufrágio coisas tristes como eles, os jogados fora por uma sociedade que desperdiça coisas como desperdiça pessoas. Que joga fora o que não serve. Os pobres não servem para uma sociedade que consome acima dos limites de uma vida comum. Ou servem: alguém precisa fazer o trabalho sujo.
Entendamo-nos. Para os que estão ali, enterrados nos rejeitos da vida, disputando fiapos de coisas com os urubus, há uma dignidade específica, uma forma tristíssima de beleza no que fazem. Recusam-se a ser eles próprios tragados como lixo humano. Vão aonde ninguém vai, aos limites do horror, ganhar uma vida perdida. Onde não há dignidade é na atitude dos que não tratam os dejetos da cidade, acumulam-nos em montanhas, porque logo os pobres aparecerão para destrinchar dali o que ainda merece uma chance de vida. É contar com a horda de desespero das vidas tristes.
Penso num poema de Manuel Bandeira. Algo, um bicho certamente, remexia nas latas de lixo. “Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.” E os olhos insones do poeta se estarreceram quando viu a verdade da miséria: “O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” Esses bichos são homens. São como eu e vocês, meus companheiros de sábado. São homens.
Há outras formas de pobreza. Existem os que, atordoados pelo abandono e pela fome, embrutecem-se nas drogas. As mais baratas, mais terríveis, mais à mão. E se deixam largados no chão, esmagados de fome e de tristeza. Há os que se drogam para encontrarem dimensões mais largas de vida. Têm o que lhes chegue, comem e bebem, suas vestes não têm o puído da roupa única, arrastada ao longo da vida. Estetizam o sofrimento. Não conhecem a pobreza sem horizontes. Querem ampliar os seus, ter novas experiências... Mas às vezes acabam na mesma sarjeta, neopobres que fugiram da vida. Olho-os com tristeza ao lado dos que nunca tiveram nada.
E a fome! Meu Deus, a fome! A nós ronca o estômago quando se espaça demais o intervalo entre as refeições. A barriga dos pobres já não ronca. Seu vazio não tem o conforto da proximidade da próxima comida. São barrigas tristes. De dor interna e de abandono. Deitados nos cantos dos edifícios, nas calçadas onde moram, estendem mãos sem esperança. “Para comer”, dizem. E nós passamos, tomando distâncias cautelosas, pela ponta dos meios-fios. Podem ser perigosos. Estão sujos. E cheiram mal.
Há as mães que trazem os filhos pequenos, mostram suas carinhas tristes. Apelação, pensamos. Marketing do desespero. E até nos indignamos com essa exposição de crianças que deveriam estar... estar... onde? Na escola? — E passamos também ao largo, incomodados com aquela obscena demonstração da extrema tristeza.
Passamos ao largo. Tomamos distância. Fugimos. Deles, sim. Mas, no mais fundo das nossas consciências adormecidas, fugimos de nós. Os pobres, lixo da vida, estão lá — e nem nos acusam! — e nos lembram do outro lixo, aquele em que jogamos coisas ainda usáveis, sem pensarmos que alguém naquela calçada podia fazer com elas uma roupa, um abrigo para o frio. Um farrapo de esperança digna. Fugimos do beco onde algo chafurda nas latas de lixo, e come com voracidade o que encontra. E não é um bicho, meu Deus. É um homem.
Marcio Tavares D’amaral

Sei que separar o lixo é uma atividade ecológica e economicamente relevante. O inadmissível é que ela não seja feita na recolha seletiva prévia do que ainda serve para algum fim útil e do que está destinado à putrefação dos cadáveres. Os catadores chafurdam em todas as porcarias para extrair delas uma garrafa, uma tampa de sanitário, uma bota velha de um só pé. Resgatam do naufrágio coisas tristes como eles, os jogados fora por uma sociedade que desperdiça coisas como desperdiça pessoas. Que joga fora o que não serve. Os pobres não servem para uma sociedade que consome acima dos limites de uma vida comum. Ou servem: alguém precisa fazer o trabalho sujo.
Entendamo-nos. Para os que estão ali, enterrados nos rejeitos da vida, disputando fiapos de coisas com os urubus, há uma dignidade específica, uma forma tristíssima de beleza no que fazem. Recusam-se a ser eles próprios tragados como lixo humano. Vão aonde ninguém vai, aos limites do horror, ganhar uma vida perdida. Onde não há dignidade é na atitude dos que não tratam os dejetos da cidade, acumulam-nos em montanhas, porque logo os pobres aparecerão para destrinchar dali o que ainda merece uma chance de vida. É contar com a horda de desespero das vidas tristes.
Penso num poema de Manuel Bandeira. Algo, um bicho certamente, remexia nas latas de lixo. “Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.” E os olhos insones do poeta se estarreceram quando viu a verdade da miséria: “O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” Esses bichos são homens. São como eu e vocês, meus companheiros de sábado. São homens.
Há outras formas de pobreza. Existem os que, atordoados pelo abandono e pela fome, embrutecem-se nas drogas. As mais baratas, mais terríveis, mais à mão. E se deixam largados no chão, esmagados de fome e de tristeza. Há os que se drogam para encontrarem dimensões mais largas de vida. Têm o que lhes chegue, comem e bebem, suas vestes não têm o puído da roupa única, arrastada ao longo da vida. Estetizam o sofrimento. Não conhecem a pobreza sem horizontes. Querem ampliar os seus, ter novas experiências... Mas às vezes acabam na mesma sarjeta, neopobres que fugiram da vida. Olho-os com tristeza ao lado dos que nunca tiveram nada.
E a fome! Meu Deus, a fome! A nós ronca o estômago quando se espaça demais o intervalo entre as refeições. A barriga dos pobres já não ronca. Seu vazio não tem o conforto da proximidade da próxima comida. São barrigas tristes. De dor interna e de abandono. Deitados nos cantos dos edifícios, nas calçadas onde moram, estendem mãos sem esperança. “Para comer”, dizem. E nós passamos, tomando distâncias cautelosas, pela ponta dos meios-fios. Podem ser perigosos. Estão sujos. E cheiram mal.
Há as mães que trazem os filhos pequenos, mostram suas carinhas tristes. Apelação, pensamos. Marketing do desespero. E até nos indignamos com essa exposição de crianças que deveriam estar... estar... onde? Na escola? — E passamos também ao largo, incomodados com aquela obscena demonstração da extrema tristeza.
Passamos ao largo. Tomamos distância. Fugimos. Deles, sim. Mas, no mais fundo das nossas consciências adormecidas, fugimos de nós. Os pobres, lixo da vida, estão lá — e nem nos acusam! — e nos lembram do outro lixo, aquele em que jogamos coisas ainda usáveis, sem pensarmos que alguém naquela calçada podia fazer com elas uma roupa, um abrigo para o frio. Um farrapo de esperança digna. Fugimos do beco onde algo chafurda nas latas de lixo, e come com voracidade o que encontra. E não é um bicho, meu Deus. É um homem.
Marcio Tavares D’amaral
De como o PT derrubou a si mesmo
Ainda veremos nas ruas e nas estradas as manifestações de gente que põe fogo em pneus velhos e põe a culpa de tudo em Michel Temer. Virão tempos de mais gritaria. A tensão vai subir. Depois, as passeatas “contra o golpe” vão minguar, pois o dinheiro para financiá-las vai escassear. A retórica de vitimização de Dilma e Lula deixará de ser tão inflamável como é hoje, porque vai começar a carecer de sentido. O fôlego dessa propaganda é curto.
Venha pela frente o desfecho que vier, ninguém mais vai conseguir esconder o óbvio: quem feriu de morte o projeto de poder do PT não foi a imprensa burguesa, não foi o mefistofélico Sergio Moro, não foi a profana aliança entre PSDB e PMDB – foi apenas o próprio PT. Dilma poderá sair em turnê pela Europa com o roadshow do golpe, poderá se recolher a seus aposentos para articular com mais prudência sua defesa, poderá ganhar sobrevida no Alvorada com uma ou outra manobra no Senado, poderá até renunciar, tanto faz. Seja qual for o epílogo que o destino lhe reserva, nada poderá postergar indefinidamente o ajuste de contas entre os sonhos que levaram Lula à Presidência da República e o emaranhado de interesses obscuros que mastigaram aqueles sonhos quatro mandatos depois.
O PT até que tentou, bem no comecinho, mas nunca fez um governo nos moldes de uma esquerda moderna. Tirando a política de aumento no salário mínimo, que ajudou a desempobrecer um pouco os mais pobres, não reduziu a desigualdade social e a desigualdade de renda no Brasil. Não abriu caminho para o imposto sobre grandes fortunas. Não mexeu no regime fundiário. Cedeu tudo e mais um pouco no Código Florestal. Jamais propôs um projeto de lei para resolver os anacronismos acarretados pela ausência de um marco regulatório democrático para os meios de radiodifusão no Brasil (a exemplo do que já existe há quase um século nos Estados Unidos e na Europa) – nada a ver com censura ou controle do conteúdo editorial. Instalou a Comissão Nacional da Verdade (ponto para Dilma Rousseff), mas depois fez de conta que a comissão nunca existiu – não deu seguimento a nenhuma das recomendações que ela fez. Não enfrentou os temas difíceis do aborto, da homofobia, da legalização das drogas. Na campanha de 2014, Dilma caluniou Marina Silva e disse que não faria ajustes ortodoxos. E fez.
Ao longo destes 13 anos, a lista de traições é quilométrica. Instalado no poder, o PT fez meia-volta: virou as costas para os sonhos de seus fundadores e abriu os braços para o pragmatismo pecuniário das empreiteiras faraônicas, praticantes de uma esquisitíssima escola de capitalismo sem concorrência. O PT converteu-se em seu oposto. Os militantes mais fiéis viram isso e sabiam disso, mas jamais ousaram criticar o núcleo de poder do partido, cuja fibra essencial era (e é) o mando de Lula. As tentativas de elaboração crítica se desviavam, melífluas, da figura imperial de Lula para se perder em barroquismos pseudodialéticos e em menções elípticas a práticas inauguradas pelos outros partidos etc. Ninguém no PT, até agora, teve a dignidade singela de afirmar que o problema político da legenda passou (e passa) por um fato irrefutável: lá pelas tantas, a cúpula do partido tomou gosto pelos favores sorridentes dos bilionários acoplados aos favores do Estado.
O pensamento do partido foi se apequenando e se acomodando aos limites de uma pessoa física. O PT ficou menor que um homem, e esse homem se revelou menor do que a agenda de uma esquerda moderna poderia representar para o Brasil. Lula mandava e desmandava, e, claro, era impossível acertar sempre. Foi ele quem escolheu – escolheu sozinho – Dilma Rousseff para suceder-lhe. Foi ele quem errou. Entre tantos erros que cometeu, esse talvez tenha sido o pior. Dilma é uma mulher admirável, até comovente, que está sofrendo um julgamento injusto e cruel na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. O crime de responsabilidade que imputam a ela, num contorcionismo jurídico de indisfarçável casuísmo, está longe de dar motivo a uma cassação. Mas seus dois governos são um desastre inacreditável. É por isso, no fundo, que ela vai caindo. Seu despreparo, sua inépcia e sua inabilidade para governar atestam a péssima escolha de Lula. Quanto aos cérebros do PT, eles silenciam.
O resultado aí está. O castelo de sonhos vai caindo por terra. Quer dizer: vai despencando no abismo. PT, o último que sair apague a luz. Quer dizer: alguém acenda a luz aí dentro, por favor, acenda a luz que ainda é tempo.
O PT até que tentou, bem no comecinho, mas nunca fez um governo nos moldes de uma esquerda moderna. Tirando a política de aumento no salário mínimo, que ajudou a desempobrecer um pouco os mais pobres, não reduziu a desigualdade social e a desigualdade de renda no Brasil. Não abriu caminho para o imposto sobre grandes fortunas. Não mexeu no regime fundiário. Cedeu tudo e mais um pouco no Código Florestal. Jamais propôs um projeto de lei para resolver os anacronismos acarretados pela ausência de um marco regulatório democrático para os meios de radiodifusão no Brasil (a exemplo do que já existe há quase um século nos Estados Unidos e na Europa) – nada a ver com censura ou controle do conteúdo editorial. Instalou a Comissão Nacional da Verdade (ponto para Dilma Rousseff), mas depois fez de conta que a comissão nunca existiu – não deu seguimento a nenhuma das recomendações que ela fez. Não enfrentou os temas difíceis do aborto, da homofobia, da legalização das drogas. Na campanha de 2014, Dilma caluniou Marina Silva e disse que não faria ajustes ortodoxos. E fez.
Ao longo destes 13 anos, a lista de traições é quilométrica. Instalado no poder, o PT fez meia-volta: virou as costas para os sonhos de seus fundadores e abriu os braços para o pragmatismo pecuniário das empreiteiras faraônicas, praticantes de uma esquisitíssima escola de capitalismo sem concorrência. O PT converteu-se em seu oposto. Os militantes mais fiéis viram isso e sabiam disso, mas jamais ousaram criticar o núcleo de poder do partido, cuja fibra essencial era (e é) o mando de Lula. As tentativas de elaboração crítica se desviavam, melífluas, da figura imperial de Lula para se perder em barroquismos pseudodialéticos e em menções elípticas a práticas inauguradas pelos outros partidos etc. Ninguém no PT, até agora, teve a dignidade singela de afirmar que o problema político da legenda passou (e passa) por um fato irrefutável: lá pelas tantas, a cúpula do partido tomou gosto pelos favores sorridentes dos bilionários acoplados aos favores do Estado.
O pensamento do partido foi se apequenando e se acomodando aos limites de uma pessoa física. O PT ficou menor que um homem, e esse homem se revelou menor do que a agenda de uma esquerda moderna poderia representar para o Brasil. Lula mandava e desmandava, e, claro, era impossível acertar sempre. Foi ele quem escolheu – escolheu sozinho – Dilma Rousseff para suceder-lhe. Foi ele quem errou. Entre tantos erros que cometeu, esse talvez tenha sido o pior. Dilma é uma mulher admirável, até comovente, que está sofrendo um julgamento injusto e cruel na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. O crime de responsabilidade que imputam a ela, num contorcionismo jurídico de indisfarçável casuísmo, está longe de dar motivo a uma cassação. Mas seus dois governos são um desastre inacreditável. É por isso, no fundo, que ela vai caindo. Seu despreparo, sua inépcia e sua inabilidade para governar atestam a péssima escolha de Lula. Quanto aos cérebros do PT, eles silenciam.
O resultado aí está. O castelo de sonhos vai caindo por terra. Quer dizer: vai despencando no abismo. PT, o último que sair apague a luz. Quer dizer: alguém acenda a luz aí dentro, por favor, acenda a luz que ainda é tempo.
O bem da oposição
Num regime republicano, o papel de oposição a um governo pode ser tão relevante e imprescindível quanto o de quem o apoia e sustenta. Um lado complementa o outro e o deixa melhor.
Uma boa oposição facilita o governo como o vento contrário serve a uma aeronave nas manobras. Vento de popa pode alongar e complicar além do limite da pista um pouso ou uma aterrissagem.
Desde épocas romanas, quando o império se alastrava e se fazia mais proveitoso para os dominantes e os dominados, a oposição tinha o papel de fiscalização, de crítica, impedindo excessos e erros na esbórnia de poder do governante. Os tribunos da plebe exerciam a defesa do interesse popular, eram a institucionalização do freio, enquanto o cônsul era o acelerador.
Podemos voltar a um passado recente e rever o papel do próprio Partido dos Trabalhadores como determinante para evitar excessos conservadores. Em certos momentos intolerantes ao extremo, contudo, com o passar dos anos, se constatou que a oposição serviu para melhorar a democratização do Estado republicano.
O PT, especializado no manejo do estilingue, no governo tem procurado tratar a oposição não como adversária, mas como inimiga, e relegá-la, assim, a um nível em que perdeu sua utilidade. José Dirceu e a primeira onda do governo Lula procuraram silenciar ou eliminar de várias formas o incômodo de ter uma oposição que nunca foi entendida como o freio da locomotiva do poder. Provavelmente, hoje agiriam de forma mais cautelosa.
Internamente ao partido e externamente a ele, tem havido de forma equivocada a eliminação de opositores. Até o devaneio da lei da mordaça, a restrição ao exercício do Ministério Público, e a limitação da liberdade de imprensa foram temas e objetos de ações que voltaram mais recentemente como feitiço ao feiticeiro.
O vento de popa acelera a velocidade, mas dificulta as manobras e deixa curta a pista de pouso. Aquela que faltou nos momentos em que Dilma precisava de escala para reabastecer.
Uma oposição cooptada com vantagens e partilhas escusas tem se revelado um desastre no mensalão e tem se amplificado no petrolão.
Culminou agora com Eduardo Cunha, o aliado que fugiu de controle. O facilitador passou a ser o destruidor do império do PT. Um Átila contemporâneo, o bárbaro que devastou Roma ganhando a fama de “onde pisa o seu cavalo, não nasce mais um fio de grama”.
O rei dos unos, comandando um exército tosco e cruel, “ousou” invadir em 453 d.C. os limites “sagrados de Roma” e devastar o centro do império enfraquecido. Eduardo Cunha repete a sanha dos unos no império que perdeu forças por seus erros e excessos.
Embora os méritos, ou as culpas, recaiam eternamente sobre Cunha, a razão da queda do “império” deverá se encontrar no fracasso das principais medidas adotadas por Dilma, que levaram ao vendaval econômico e social em ato.
O colapso do sistema produtivo, do motor de arrecadação, é a principal culpa de Dilma, do imperdoável. No verbete enciclopédico, a primeira presidenta será descrita como comandante de um “fracasso dos setores de produção”.
O cidadão devota ao presidente da República, e a qualquer governante, o respeito e a torcida para que atinja bons resultados. As ações acertadas beneficiam a nação, e poucos são tão obtusos de torcer para o pior de um governante, independentemente da ideologia e dos rótulos. Torcer pela derrota do próprio time?
O fracasso respinga dentro de casa, na população. Poucos gostam de sofrer.
A oposição exercida de forma democrática precisa saber discordar, mostrar-se melhor e mais capacitada para governar, não para destroçar o país.
Mas, infelizmente, temos muitos que fazem da política uma profissão e distorcem a realidade sem disfarçar a cobiça pelo poder, evidentemente pelo desfrute. Assim, a oposição exercida além do limite do interesse nacional é desastrosa.
Precisamos tanto de bons “opositores” como de bons governantes. Ambos difíceis de serem encontrados.
Uma boa oposição facilita o governo como o vento contrário serve a uma aeronave nas manobras. Vento de popa pode alongar e complicar além do limite da pista um pouso ou uma aterrissagem.
Desde épocas romanas, quando o império se alastrava e se fazia mais proveitoso para os dominantes e os dominados, a oposição tinha o papel de fiscalização, de crítica, impedindo excessos e erros na esbórnia de poder do governante. Os tribunos da plebe exerciam a defesa do interesse popular, eram a institucionalização do freio, enquanto o cônsul era o acelerador.
Podemos voltar a um passado recente e rever o papel do próprio Partido dos Trabalhadores como determinante para evitar excessos conservadores. Em certos momentos intolerantes ao extremo, contudo, com o passar dos anos, se constatou que a oposição serviu para melhorar a democratização do Estado republicano.
O PT, especializado no manejo do estilingue, no governo tem procurado tratar a oposição não como adversária, mas como inimiga, e relegá-la, assim, a um nível em que perdeu sua utilidade. José Dirceu e a primeira onda do governo Lula procuraram silenciar ou eliminar de várias formas o incômodo de ter uma oposição que nunca foi entendida como o freio da locomotiva do poder. Provavelmente, hoje agiriam de forma mais cautelosa.
Internamente ao partido e externamente a ele, tem havido de forma equivocada a eliminação de opositores. Até o devaneio da lei da mordaça, a restrição ao exercício do Ministério Público, e a limitação da liberdade de imprensa foram temas e objetos de ações que voltaram mais recentemente como feitiço ao feiticeiro.
O vento de popa acelera a velocidade, mas dificulta as manobras e deixa curta a pista de pouso. Aquela que faltou nos momentos em que Dilma precisava de escala para reabastecer.
Uma oposição cooptada com vantagens e partilhas escusas tem se revelado um desastre no mensalão e tem se amplificado no petrolão.
Culminou agora com Eduardo Cunha, o aliado que fugiu de controle. O facilitador passou a ser o destruidor do império do PT. Um Átila contemporâneo, o bárbaro que devastou Roma ganhando a fama de “onde pisa o seu cavalo, não nasce mais um fio de grama”.
O rei dos unos, comandando um exército tosco e cruel, “ousou” invadir em 453 d.C. os limites “sagrados de Roma” e devastar o centro do império enfraquecido. Eduardo Cunha repete a sanha dos unos no império que perdeu forças por seus erros e excessos.
Embora os méritos, ou as culpas, recaiam eternamente sobre Cunha, a razão da queda do “império” deverá se encontrar no fracasso das principais medidas adotadas por Dilma, que levaram ao vendaval econômico e social em ato.
O colapso do sistema produtivo, do motor de arrecadação, é a principal culpa de Dilma, do imperdoável. No verbete enciclopédico, a primeira presidenta será descrita como comandante de um “fracasso dos setores de produção”.
O cidadão devota ao presidente da República, e a qualquer governante, o respeito e a torcida para que atinja bons resultados. As ações acertadas beneficiam a nação, e poucos são tão obtusos de torcer para o pior de um governante, independentemente da ideologia e dos rótulos. Torcer pela derrota do próprio time?
O fracasso respinga dentro de casa, na população. Poucos gostam de sofrer.
A oposição exercida de forma democrática precisa saber discordar, mostrar-se melhor e mais capacitada para governar, não para destroçar o país.
Mas, infelizmente, temos muitos que fazem da política uma profissão e distorcem a realidade sem disfarçar a cobiça pelo poder, evidentemente pelo desfrute. Assim, a oposição exercida além do limite do interesse nacional é desastrosa.
Precisamos tanto de bons “opositores” como de bons governantes. Ambos difíceis de serem encontrados.
A soma de todos os medos significa que não sobrou nada
Michel Temer pode não dar certo, em especial pelos nomes que têm sido especulados para o novo ministério. Com raras exceções, mas com muitas regras, há figuras que deveriam estar na cadeia em vez de prontas para tomar posse na quinta-feira. Em vez de escolher notáveis, desvinculados das futricas partidárias, vão surgindo nulidades. Terão condições de tirar o país do abismo? A três dias do desaparecimento de Dilma, inexiste um plano de governo do sucessor, ignorando-se o que fará para combater o desemprego, a alta do custo de vida, o aumento dos impostos e a corrupção.
Eduardo Cunha foi para o espaço, ameaçado de prisão preventiva se der mais uma palavra para tirá-lo do roteiro de horror. A Câmara imagina substituir seu ex-presidente por uma esmaecida cópia, ao tempo em que sobre o Senado pairam nuvens de tempestade, tornando-se Renan Calheiros a bola da vez.
O empresariado encolheu-se, evitando colaborar numa recuperação na qual não acredita, ao tempo em que as centrais sindicais saíram de cena e a classe média busca apenas sobreviver, sabendo que não vai dar.
Para todo cenário em que procuramos depositar esperanças, fecha-se o palco. O sentimento predominante no país é de medo. Não há quem deixe de imaginar o pior. Caracteriza-se a soma de todos os medos, expressa no vaticínio de que não vai dar certo. E não dando, qual a alternativa?
Dias atrás floresceu a proposta de eleições imediatas em todos os níveis, de Norte a Sul. Logo desfez-se a ilusão, com a evidência de que não mudará nada pelo comparecimento da população às urnas. Os candidatos serão os mesmos. Os eleitores, também. O modelo, igualzinho ao atual.
Milagres, faz muito que não acontecem. Nem parlamentarismo nem monarquia, muito menos ditadura dariam jeito. Proibir todo tipo de reeleição seria um risco, pois quem garante que os próximos seriam melhores do que os atuais?
Em suma, entre tantos mensalões e petrolões, incompetência e corrupção, frustrações e decepções, não sobrou nada.
Eduardo Cunha foi para o espaço, ameaçado de prisão preventiva se der mais uma palavra para tirá-lo do roteiro de horror. A Câmara imagina substituir seu ex-presidente por uma esmaecida cópia, ao tempo em que sobre o Senado pairam nuvens de tempestade, tornando-se Renan Calheiros a bola da vez.
O empresariado encolheu-se, evitando colaborar numa recuperação na qual não acredita, ao tempo em que as centrais sindicais saíram de cena e a classe média busca apenas sobreviver, sabendo que não vai dar.

Dias atrás floresceu a proposta de eleições imediatas em todos os níveis, de Norte a Sul. Logo desfez-se a ilusão, com a evidência de que não mudará nada pelo comparecimento da população às urnas. Os candidatos serão os mesmos. Os eleitores, também. O modelo, igualzinho ao atual.
Milagres, faz muito que não acontecem. Nem parlamentarismo nem monarquia, muito menos ditadura dariam jeito. Proibir todo tipo de reeleição seria um risco, pois quem garante que os próximos seriam melhores do que os atuais?
Em suma, entre tantos mensalões e petrolões, incompetência e corrupção, frustrações e decepções, não sobrou nada.
Gaveta vazia
Lá vai o governo de Dilma Rousseff caminhando para o seu fim a cada dia que passa, e enquanto não se chegar ao desfecho o público em geral vai ficar com a atenção dividida entre as questões práticas que realmente interessam ─ como será, e o que vai fazer, o novo governo? ─ e a barulheira de algo que corre o risco de ser chamado “luta de resistência”. Resistência a quê, mais exatamente? O ato de resistir, para ser de algum interesse concreto, normalmente requer que o resistente tenha alguma chance real de mudar a situação que se recusa a aceitar. Se não for assim, é apenas vaia de arquibancada ─ a torcida que perde fica xingando o juiz, a diretoria do time, o técnico, os jogadores, a bola, e no fim o resultado marcado no placar continua o mesmo.
Dilma, o ex-presidente Lula, o PT e a esquerda inconformada com o impeachment passam os dias correndo daqui para lá à procura de um portento qualquer, possivelmente sobrenatural, para poderem continuar mandando. Mas essas coisas em geral não existem no mundo da realidade. Para terem uma perspectiva séria de evitar o que vem por aí, Lula, Dilma e o seu sistema precisariam, obrigatoriamente e com urgência, oferecer à população um mínimo de atrativos coerentes em favor dos seus desejos. E aí é que está: não têm nada de útil a oferecer. Sua gaveta está vazia.
Falta gente, para começar. Lula e o governo que neste momento caminha para o cemitério não juntam multidão na rua, como os seus adversários foram capazes de juntar. Não se espera, por exemplo, mais de 1 milhão de pessoas na Avenida Paulista gritando “Fica Dilma!”, ou “Fora Temer!”. Faltam senadores para absolver Dilma da deposição, assim como faltaram deputados para impedir que fosse julgada no Senado ─ ela tinha mais ou menos 100 votos do seu lado quando a Câmara começou a decidir o caso, acabou com pouco mais que isso quando a votação se encerrou. Falta um plano concreto, imediato e compreensível para melhorar qualquer coisa que a população quer que melhore já. Não têm, nem Lula nem, menos ainda, Dilma, mais que 20% nas pesquisas de opinião. Não têm um “programa de oposição”, como imaginam neste momento de anarquia mental em que estão dentro e fora do governo ao mesmo tempo. Será cômodo dizer, daqui a pouco, que há 10 milhões de desempregados; o difícil será convencer o eleitorado de que Dilma e o PT não têm nada a ver com isso, ou com os hospitais em estado de calamidade, a recessão, as placas de “vendese” e “aluga-se”, e por aí afora.
O ex-presidente, ao mesmo tempo, quer que acreditem nele quando diz que está enfrentando uma “quadrilha” política ─ mas de que jeito, se passou os últimos treze anos vivendo como sócio dessa mesma “quadrilha”, que levou para dentro do governo e à qual até outro dia, num hotel de Brasília, estava tentando agradar com oferta de empregos?
O governo tem oferecido, isto sim, algo parecido a um projeto de guerra civil ─ ou pelo menos é o que vem dizendo em público, com ameaças de sabotagem econômica, greve geral, “parar o país” etc., se for seguido o único caminho legal que existe para a substituição de Dilma, ou seja, a posse do vice-presidente Michel Temer. O PT já decidiu que o governo a ser formado por decisão do Congresso Nacional e do STF é “ilegal”; promete que não vai dar “um dia de sossego” a quem ficar na cadeira de Dilma.
Lula e seu partido vão mesmo tentar seguir por aí? Pode ser, mas não se sabe se terão os meios reais de fazer o que propõem. Além do mais, quantos votos pode render uma coisa dessas? Têm sido ofertados, também, episódios de cuspe; não está claro se isso será promovido à categoria de “ato político de resistência”. Sobram tentativas de fazer com que o Brasil receba punições “internacionais”, possivelmente de entidades invisíveis como Unasul, Parlasul, ou coisas assim ─ mas quantos eleitores de carne e osso estariam preocupados com isso? Querem que a Operação Lava Jato “pegue” os que estão indo para o governo. E as bombas que podem estourar contra Lula, Dilma e os amigos? Só seria interessante se a Justiça parasse as investigações contra eles e começasse a investigar só os outros. Ou estão esperando uma anistia geral?
A questão real, para Lula e todo o seu universo, é clara: é impossível conseguir o que estão querendo por qualquer meio que esteja fora da lei. Dentro da lei a única saída disponível é recuperar o governo pelo voto, e a próxima oportunidade para isso é a eleição presidencial de 2018. O resto é muita conversa de “resistência” – e nada mais.
Dilma, o ex-presidente Lula, o PT e a esquerda inconformada com o impeachment passam os dias correndo daqui para lá à procura de um portento qualquer, possivelmente sobrenatural, para poderem continuar mandando. Mas essas coisas em geral não existem no mundo da realidade. Para terem uma perspectiva séria de evitar o que vem por aí, Lula, Dilma e o seu sistema precisariam, obrigatoriamente e com urgência, oferecer à população um mínimo de atrativos coerentes em favor dos seus desejos. E aí é que está: não têm nada de útil a oferecer. Sua gaveta está vazia.

O ex-presidente, ao mesmo tempo, quer que acreditem nele quando diz que está enfrentando uma “quadrilha” política ─ mas de que jeito, se passou os últimos treze anos vivendo como sócio dessa mesma “quadrilha”, que levou para dentro do governo e à qual até outro dia, num hotel de Brasília, estava tentando agradar com oferta de empregos?
O governo tem oferecido, isto sim, algo parecido a um projeto de guerra civil ─ ou pelo menos é o que vem dizendo em público, com ameaças de sabotagem econômica, greve geral, “parar o país” etc., se for seguido o único caminho legal que existe para a substituição de Dilma, ou seja, a posse do vice-presidente Michel Temer. O PT já decidiu que o governo a ser formado por decisão do Congresso Nacional e do STF é “ilegal”; promete que não vai dar “um dia de sossego” a quem ficar na cadeira de Dilma.
Lula e seu partido vão mesmo tentar seguir por aí? Pode ser, mas não se sabe se terão os meios reais de fazer o que propõem. Além do mais, quantos votos pode render uma coisa dessas? Têm sido ofertados, também, episódios de cuspe; não está claro se isso será promovido à categoria de “ato político de resistência”. Sobram tentativas de fazer com que o Brasil receba punições “internacionais”, possivelmente de entidades invisíveis como Unasul, Parlasul, ou coisas assim ─ mas quantos eleitores de carne e osso estariam preocupados com isso? Querem que a Operação Lava Jato “pegue” os que estão indo para o governo. E as bombas que podem estourar contra Lula, Dilma e os amigos? Só seria interessante se a Justiça parasse as investigações contra eles e começasse a investigar só os outros. Ou estão esperando uma anistia geral?
A questão real, para Lula e todo o seu universo, é clara: é impossível conseguir o que estão querendo por qualquer meio que esteja fora da lei. Dentro da lei a única saída disponível é recuperar o governo pelo voto, e a próxima oportunidade para isso é a eleição presidencial de 2018. O resto é muita conversa de “resistência” – e nada mais.
Olhai as ruas, Temer!
Não sou ingênuo e sei que os partidos terão de ser contemplados na distribuição de cargos. Mas será um erro grave se o futuro presidente não reduzir significativamente o número de ministérios, se não enxugar a máquina federal, se não demonstrar de forma inequívoca que os partidos é que têm de aderir a um novo eixo de valores, não o presidente aos velhos valores do mercadão.
Pense na rua verde-amarela, Michel Temer. Ela está viva e cobra um novo padrão.
Malaise
Malaise, martírio, padecimento, mal-estar. Sensação profunda de desconforto, de desilusão, suor frio de angústia no corpo, gelado pelo desespero que procura os limites do intervalo entre duas felicidades. Enquanto o Brasil discute as coisas da política e a insensatez de nossa governante, o sofrimento da população é desnudado pelos indicadores econômicos, dados que expõem com frieza exata histórias de desalento e amargura, histórias de um cotidiano de desvarios.
Economistas valem-se de artifícios diversos para medir o bem-estar de diferentes sociedades: do PIB à distribuição de renda, dos subjetivos “índices de felicidade” ao concreto índice de desenvolvimento humano. Mas este não é um artigo sobre o bem-estar. Este artigo é sobre o mal-estar, a malaise que assola toda a população brasileira, sobretudo a classe média vulnerável, a classe C, aquela que desaparece depois de tanto furor.
O Índice de Mal-Estar, ou Misery Index, foi criado pelo economista americano Arthur Okun com o intuito de medir a qualidade de vida do cidadão médio de um país. Trata-se de indicador simples, da soma entre a taxa média de inflação de determinado período com a taxa de desemprego do mesmo período.
O Índice de Mal-Estar dos EUA, depois de atingir 11,2 em 2010, caiu mais da metade, para 5,3 no ano passado. Em 2015, o Índice de Mal-Estar da China era de 7,2, do México, 6,9; da Colômbia, 13,8. O Índice de Mal-Estar do Brasil, usando os dados da Pnad Contínua trimestral do IBGE, foi de 19,7 em 2015, ou quase o dobro do ano anterior. Ou seja, a aguda acentuação da malaise é inequívoca.
Interpelada dia desses aqui nos EUA sobre o porquê de não estarmos vendo tantos defensores de Dilma nas ruas, estridências golpistas à parte, respondi em números. Meu interlocutor preferiu não brigar com os dados, um sábio.
A tragédia brasileira vai ainda mais longe do que expus. O Índice de Mal-Estar brasileiro, tal qual calculado, dá uma ideia do que acontece com a economia como um todo. Mas e as classes mais desfavorecidas? E a classe média vulnerável? Afinal, o que tem ocorrido com a classe C?
Ainda usando os dados abertos da Pnad Contínua do IBGE e utilizando o IPC-C1 compilado pela Fundação Getúlio Vargas, isto é, a chamada “inflação da baixa renda” frequentemente citada nos jornais, constata-se o seguinte: 16,2% da camada da população brasileira com ensino médio incompleto ou equivalente estava desempregada no último trimestre de 2015 – no mesmo período de 2014, a taxa de desemprego para essa faixa da sociedade era de 11,6%. Se tomarmos essa camada da população como proxy para a chamada classe C, e levarmos em conta que a inflação medida pelo IPC-C1 da FGV em 2015 foi de 11,5%, ou seja, cerca de 1 ponto porcentual maior do que a inflação para o ano medida pelo IPCA, chegamos a um Índice de Mal-Estar de 27,7 para esse estrato da população brasileira.
Tal constatação merece destaque. Enquanto o Índice de Mal-Estar Nacional subiu espantosamente entre 2014 e 2015, apenas em 2015 o Mal-Estar, o sofrimento, a malaise da classe C foi cerca de 40% maior do que se viu em todo o País.
Trocando em miúdos, a classe C, aquela que surgiu gloriosa nos anos do lulopetismo em razão de políticas que claramente não tinham sustentação de longo prazo é, hoje, a que mais sofre as consequências do desastre econômico brasileiro, conforme muitos de nós alertamos.
Dilma insiste em vender a quem ainda lhe der ouvidos a ideia de que os problemas do desemprego no Brasil são fruto da crise externa. Contudo, a classe C sofrida, essa cujo mal-estar clama pela trégua, pelo fim da desgraça, não perdeu empregos por causa da crise internacional. A classe C perdeu empregos, sobretudo, nos setores de serviços e comércio, estrangulados pela recessão. Eis, portanto, mais um desafio para o governo que vier: o resgate urgente de uma classe C reduzida a pó pela grande mentira do lulopetismo.
Deixo-os, leitores, com duas reflexões: “O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades” (Vinicius de Moraes); “Suporta-se com paciência a cólica dos outros” (Machado de Assis). Escolham a sua preferida.
Monica de Bolle
Economistas valem-se de artifícios diversos para medir o bem-estar de diferentes sociedades: do PIB à distribuição de renda, dos subjetivos “índices de felicidade” ao concreto índice de desenvolvimento humano. Mas este não é um artigo sobre o bem-estar. Este artigo é sobre o mal-estar, a malaise que assola toda a população brasileira, sobretudo a classe média vulnerável, a classe C, aquela que desaparece depois de tanto furor.

O Índice de Mal-Estar dos EUA, depois de atingir 11,2 em 2010, caiu mais da metade, para 5,3 no ano passado. Em 2015, o Índice de Mal-Estar da China era de 7,2, do México, 6,9; da Colômbia, 13,8. O Índice de Mal-Estar do Brasil, usando os dados da Pnad Contínua trimestral do IBGE, foi de 19,7 em 2015, ou quase o dobro do ano anterior. Ou seja, a aguda acentuação da malaise é inequívoca.
Interpelada dia desses aqui nos EUA sobre o porquê de não estarmos vendo tantos defensores de Dilma nas ruas, estridências golpistas à parte, respondi em números. Meu interlocutor preferiu não brigar com os dados, um sábio.
A tragédia brasileira vai ainda mais longe do que expus. O Índice de Mal-Estar brasileiro, tal qual calculado, dá uma ideia do que acontece com a economia como um todo. Mas e as classes mais desfavorecidas? E a classe média vulnerável? Afinal, o que tem ocorrido com a classe C?
Ainda usando os dados abertos da Pnad Contínua do IBGE e utilizando o IPC-C1 compilado pela Fundação Getúlio Vargas, isto é, a chamada “inflação da baixa renda” frequentemente citada nos jornais, constata-se o seguinte: 16,2% da camada da população brasileira com ensino médio incompleto ou equivalente estava desempregada no último trimestre de 2015 – no mesmo período de 2014, a taxa de desemprego para essa faixa da sociedade era de 11,6%. Se tomarmos essa camada da população como proxy para a chamada classe C, e levarmos em conta que a inflação medida pelo IPC-C1 da FGV em 2015 foi de 11,5%, ou seja, cerca de 1 ponto porcentual maior do que a inflação para o ano medida pelo IPCA, chegamos a um Índice de Mal-Estar de 27,7 para esse estrato da população brasileira.
Tal constatação merece destaque. Enquanto o Índice de Mal-Estar Nacional subiu espantosamente entre 2014 e 2015, apenas em 2015 o Mal-Estar, o sofrimento, a malaise da classe C foi cerca de 40% maior do que se viu em todo o País.
Trocando em miúdos, a classe C, aquela que surgiu gloriosa nos anos do lulopetismo em razão de políticas que claramente não tinham sustentação de longo prazo é, hoje, a que mais sofre as consequências do desastre econômico brasileiro, conforme muitos de nós alertamos.
Dilma insiste em vender a quem ainda lhe der ouvidos a ideia de que os problemas do desemprego no Brasil são fruto da crise externa. Contudo, a classe C sofrida, essa cujo mal-estar clama pela trégua, pelo fim da desgraça, não perdeu empregos por causa da crise internacional. A classe C perdeu empregos, sobretudo, nos setores de serviços e comércio, estrangulados pela recessão. Eis, portanto, mais um desafio para o governo que vier: o resgate urgente de uma classe C reduzida a pó pela grande mentira do lulopetismo.
Deixo-os, leitores, com duas reflexões: “O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades” (Vinicius de Moraes); “Suporta-se com paciência a cólica dos outros” (Machado de Assis). Escolham a sua preferida.
Monica de Bolle
Exercício do desprezível
Política é exercício de poder, poder é o exercício do desprezível. Desprezível é tudo aquilo que não colabora para o enriquecimento do humano, mas para a sua (ainda) maior degradação. Como se fosse possível. Pior é que sempre é. (…) Ah, a grande náusea por esses pequenos poderosos, que ferem e traem e mentem em nome da manutenção de seu ego imensamente medíocre. Porque sem ferir, nem trair, nem mentir tudo cairia por terra num estalar de dedos. Eu faço assim — clack! — e você desmonta. Eu faço assim — clack! — e você desaparece. Mas você não desmonta nem desaparece: você é que manda, essa ilusão de poder te mantém. Só que você não existe, como não existe nem importa esse mundo onde você se julga senhor. O outro lado, o outro papo, o outro nível — esses, meu caro, você nunca vai saber sequer que existem. Essa é a nossa vingança, sem o menor esforço.Caio Fernando Abreu
Os bodes de Cabrobó
Encravada no sertão pernambucano, a 531 quilômetros do Recife, a pequena Cabrobó, de 32 mil habitantes, talvez seja uma das cidades mais usadas e abusadas pelo populismo petista, que dela faz gato e sapato há mais de uma década. Lá, o ex Lula garantiu, em 2009, que a transposição das águas do Rio São Francisco estaria concluída em 2012, e Dilma Rousseff reiterou as juras de um futuro redentor em gravações para as campanhas de 2010 e 2014. Na sexta-feira, sem a maquilagem dos programas eleitorais, a presidente repetiu o cenário. Foi patético.
Dilma, que na próxima quarta-feira deverá ser afastada por até 180 dias pelo Senado, com chances quase nulas de sucesso no veredito final, continua a esbravejar, dizendo-se inocente e vítima de usurpadores. Confusa na forma e no conteúdo, bate em uma mesma tecla ou fala disparates. Ou os dois. Tropeça até em ditos populares. Chegou a se atribuir a figura de lixo ao dizer que não vai para “debaixo do tapete”.
Mas, se lapsos de linguagem são perdoáveis – quanto mais no discurso de Dilma, enriquecedor do anedotário nacional -, o mesmo não se pode dizer quando se manipula o público com a ladainha de que o próximo governo vai acabar com programas sociais.
Sem o glamour conferido pelo marqueteiro João Santana, preso pela Lava-Jato, ela repete as mesmas mentiras da campanha que a reelegeram e a condenaram de vez.
Em Cabrobó, onde menos de um terço da população tem acesso a água tratada e coleta de esgoto é luxo absoluto, Dilma citou o Água para Todos, programa de desempenho modestíssimo, não só no sertão pernambucano, mas junto aos mais de 30 milhões de brasileiros que não sabem o que é uma torneira.
Especificamente no quesito programas sociais, melhor seria Dilma se calar. De seu governo saíram os maiores cortes de que se tem notícia, obrigatórios depois de uma gastança infinda com o propósito de se reeleger.
Ao passar a faca no PAC, em 2015, seu governo cortou investimentos de R$ 25,7 bilhões, R$ 6,9 bilhões no programa Minha Casa, Minha Vida, menina dos olhos da presidente. O Pronatec perdeu mais de R$ 1,4 bilhão, o Fies diminuiu de tamanho. Soma-se aí o peso de 11 milhões de desempregados que engrossam a massa da população vulnerável, a falta de tudo nos hospitais, a possibilidade de acabar o dinheiro para a Farmácia Popular e o Samu, admitida pelo ministro interino da Saúde.
A escolha de Cabrobó para mais uma cerimônia de adeus de Dilma – ela tem realizado uma ou mais por dia - definitivamente não é um acaso.
A transposição das águas do São Francisco, sempre prometida para ser entregue no ano seguinte que nunca chega, é uma obra monumental, daquelas que político algum quer que outro coloque a placa. Mesmo que com ela venham superfaturamento, desvios e ladroagens.
Planejada no melhor estilo do “rouba, mas faz”, a obra petista beira incluir o “não” na frase que imortalizou Adhemar de Barros e impulsionou Paulo Maluf.
Prevista no PPA que Lula enviou para o Congresso Nacional em 2004, a transposição começou em 2007 com soldados do Exército depois de uma enormidade de polêmicas, questões ambientais relegadas e não resolvidas. E até greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio. Megalômana – bem ao gosto de Lula --, dizia que beneficiaria 12 milhões de nordestinos até 2012. Depois, até 2013, ou 2015. Agora, até o final de 2016. Orçada em R$ 4,2 bilhões, já sugou mais de R$ 8 bilhões, pagos a empreiteiras – Mendes Júnior, OAS, Galvão Engenharia - enlameadas acima do pescoço na Lava-Jato e na operação Vidas Secas da PF.
Em dezembro, Dilma inaugurou uma das bombas de Cabrobó, mas a cidade ainda não colheu benefício algum. O canal, segundo o jornal Folha de S. Paulo, já tem água, mas ninguém usa. Não existem ligações nem para consumo humano nem para irrigação.
Uns poucos bodes se desequilibram para beber a água transposta. Uma figura de linguagem apropriadíssima ao Brasil de hoje.
'Minha Casa' aumenta sob Dilma e nova prestação começa a vigorar sob Temer
A clientela mais pobre do ‘Minha Casa, Minha Vida’ terá uma desagradável surpresa. A partir de 1º de julho, os beneficiários do programa habitacional com renda familiar de até R$ 1,8 mil pagarão prestações mais caras. Nessa faixa, o valor mínimo mensal passará de R$ 25 para para R$ 80. Um salto de 220%. O valor máximo subirá de R$ 80 para R$ 270. Um salto ainda maior: 237,5%.
Na quarta-feira, o Senado se reúne para votar a admissibilidade do processo de impeachment. Confirmando-se a tendência de afastamento de Dilma Rousseff por até seis meses, os reajustes baixados por ela começarão a ser cobrados sob a presidência de Michel Temer. Farejando a oportunidade, Dilma jpga na confusão. Difunde a tese segundo a qual Temer e seus auxiliares são inimigos do social.
Há três dias, Dilma discursou numa cerimônia de entrega de casas em Santarém, no Pará. Suas palavras foram transmitidas simultaneamente para outras cidades onde houve distribuição de chaves —no Rio, em Minas, no Ceará e na Bahia. A presidente animou a plateia ao discorrer sobre cifras:
“Eu vou fazer uma pergunta: quem aqui pagava aluguel de até R$ 100,00? Ninguém. Até R$ 200,00? Até R$ 300,00? Quem vivia de favor? Quem vivia em área de risco? Sabe quanto que vocês vão pagar no programa Minha Casa, Minha Vida, não só vocês aqui, mas o pessoal de todas as cidades? Entre R$ 25 e R$ 50. E vão ter a casa própria de vocês.”
Dilma não fez menção ao iminente reajuste no preço das prestações. Preferiu falar do “golpe” de que se julga vítima. Sem citar o nome de Temer, insinuou que, querem derrubá-la para “acabar, reduzir ou rever o Minha Casa, Minha Vida.” Perguntou: “Como é que uma pessoa que quer fazer isso resolve o problema dela?” Apressou-se em responder: “Faz uma eleição indireta e veste a eleição indireta com a roupa do impeachment…”
Uma semana antes desse discurso de Dilma, o Banco do Brasil, um dos agentes financeiros do programa habitacional do governo, começou a endereçar cartas para prefeituras que participam de empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Anotou:
“Cientes da importância do programa governamental Minha Casa, Minha vida —PMCMV—, vimos informar-lhe das alterações dos valores das prestações dos empreendimentos […], Faixa 1, a partir de 01/07/2016, conforme abaixo estabelecido através da portaria ministerial número 99 de 30/03/2016:
– Prestação mínima atual R$ 25,00 – a partir de 01/07/2016 R$ 80,00.
– Prestação máxima atual R$ 80,00 – a partir de 01/07/2016 R$ 270,00”
A carta reproduzida na imagem foi remetida à prefeitura de Cruz das Almas, na Bahia. O prefeito da cidade, Ednaldo José Ribeiro, abespinhou-se. Na última sexta-feira (6), um dia depois do discurso de Dilma no município de Santarém, ele enviou um ofício à agência do Banco do Brasil na cidade.
No texto, o prefeito disse ao banco que “o município de Cruz das Almas é veementemente contra o aumento de valor das prestações” dos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Prometeu resistir: “Este ente público municipal cruzalmense tomará todas as medidas cabíveis para impedir o aumento abusivo .” Acrescentou que protocolará uma “representação no Ministério Público do Estado da Bahia.” Em carta aberta ao povo de sua cidade, o prefeito tomou distância dos reajustes. Declarou-se “indignado''.
Pioneiro da causa do impeachment, o deputado federal Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), do grupo de Michel Temer, acusa: “Dilma quebrou o país, destroçou os programas sociais e se faz de boazinha. Na verdade, é uma irresponsável. No Dia do Trabalhador, anunciou o benefício do Bolsa Família sem dizer de onde vai tirar o dinheiro. Isso ela alerdeia. O reajuste do Minha Casa, Minha Vida ela esconde. Vai deixar para o Michel um terreno minado.”
No início de janeiro, a presidente da Caixa Econômica Federal, Miriam Belchior, dissera que as prestações da faixa de menor renda do Minha Casa, MInha Vida seriam reajustadas em 2016. Não antecipou os percentuais. “Esse aumento da prestação está em linha com o crescimento da renda das pessoas e do [preço do] imóvel”, disse ela.
Submetidos à recessão e ao desemprego crescente, muitos brasileiros, depois de ouvir as palavras da presidente da Caixa, poderiam pedir para ir viver no país descrito por ela, seja onde for.
Todos sabem que, se pudesse, o governo evitaria reajustar a mensalidade das casas populares. Mas a inflação, a queda na arrecadação de impostos e o desmantelo das contas públicas cobram providências. A fonte do subsídio, mercê da ruína produzida sob Dilma, minguou. O que inquieta é a ausência de transparência e o excesso de empulhação.
Na quarta-feira, o Senado se reúne para votar a admissibilidade do processo de impeachment. Confirmando-se a tendência de afastamento de Dilma Rousseff por até seis meses, os reajustes baixados por ela começarão a ser cobrados sob a presidência de Michel Temer. Farejando a oportunidade, Dilma jpga na confusão. Difunde a tese segundo a qual Temer e seus auxiliares são inimigos do social.
“Eu vou fazer uma pergunta: quem aqui pagava aluguel de até R$ 100,00? Ninguém. Até R$ 200,00? Até R$ 300,00? Quem vivia de favor? Quem vivia em área de risco? Sabe quanto que vocês vão pagar no programa Minha Casa, Minha Vida, não só vocês aqui, mas o pessoal de todas as cidades? Entre R$ 25 e R$ 50. E vão ter a casa própria de vocês.”
Dilma não fez menção ao iminente reajuste no preço das prestações. Preferiu falar do “golpe” de que se julga vítima. Sem citar o nome de Temer, insinuou que, querem derrubá-la para “acabar, reduzir ou rever o Minha Casa, Minha Vida.” Perguntou: “Como é que uma pessoa que quer fazer isso resolve o problema dela?” Apressou-se em responder: “Faz uma eleição indireta e veste a eleição indireta com a roupa do impeachment…”
Uma semana antes desse discurso de Dilma, o Banco do Brasil, um dos agentes financeiros do programa habitacional do governo, começou a endereçar cartas para prefeituras que participam de empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Anotou:
“Cientes da importância do programa governamental Minha Casa, Minha vida —PMCMV—, vimos informar-lhe das alterações dos valores das prestações dos empreendimentos […], Faixa 1, a partir de 01/07/2016, conforme abaixo estabelecido através da portaria ministerial número 99 de 30/03/2016:
– Prestação mínima atual R$ 25,00 – a partir de 01/07/2016 R$ 80,00.
– Prestação máxima atual R$ 80,00 – a partir de 01/07/2016 R$ 270,00”
A carta reproduzida na imagem foi remetida à prefeitura de Cruz das Almas, na Bahia. O prefeito da cidade, Ednaldo José Ribeiro, abespinhou-se. Na última sexta-feira (6), um dia depois do discurso de Dilma no município de Santarém, ele enviou um ofício à agência do Banco do Brasil na cidade.
No texto, o prefeito disse ao banco que “o município de Cruz das Almas é veementemente contra o aumento de valor das prestações” dos empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Prometeu resistir: “Este ente público municipal cruzalmense tomará todas as medidas cabíveis para impedir o aumento abusivo .” Acrescentou que protocolará uma “representação no Ministério Público do Estado da Bahia.” Em carta aberta ao povo de sua cidade, o prefeito tomou distância dos reajustes. Declarou-se “indignado''.
Pioneiro da causa do impeachment, o deputado federal Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), do grupo de Michel Temer, acusa: “Dilma quebrou o país, destroçou os programas sociais e se faz de boazinha. Na verdade, é uma irresponsável. No Dia do Trabalhador, anunciou o benefício do Bolsa Família sem dizer de onde vai tirar o dinheiro. Isso ela alerdeia. O reajuste do Minha Casa, Minha Vida ela esconde. Vai deixar para o Michel um terreno minado.”
No início de janeiro, a presidente da Caixa Econômica Federal, Miriam Belchior, dissera que as prestações da faixa de menor renda do Minha Casa, MInha Vida seriam reajustadas em 2016. Não antecipou os percentuais. “Esse aumento da prestação está em linha com o crescimento da renda das pessoas e do [preço do] imóvel”, disse ela.
Submetidos à recessão e ao desemprego crescente, muitos brasileiros, depois de ouvir as palavras da presidente da Caixa, poderiam pedir para ir viver no país descrito por ela, seja onde for.
Todos sabem que, se pudesse, o governo evitaria reajustar a mensalidade das casas populares. Mas a inflação, a queda na arrecadação de impostos e o desmantelo das contas públicas cobram providências. A fonte do subsídio, mercê da ruína produzida sob Dilma, minguou. O que inquieta é a ausência de transparência e o excesso de empulhação.
sábado, 7 de maio de 2016
Passeio em campo minado
Gastamos um bom tempo da nossa vida pensando numa saída para a crise. Creio que Michel Temer também. Sua trajetória, no entanto, terá mais repercussão na crise do que qualquer um de nós. Daí a importância de monitorá-lo.
Os jornais falam de um Ministério em formação. É difícil analisar algo que ainda não existe. Mas a julgar pelas notícias, o projeto contém uma primeira contradição. Temer, diretamente e por intermédio de Moreira Franco, afirmou apoiar a Lava Jato.
O provável Ministério, todavia, tem vários nomes de investigados. Se forem confirmados, não há avanço em relação ao PT, que, por sua vez, é um retrocesso em relação ao governo Itamar. Neste os investigados não entravam. E se estivessem no governo, deixavam o cargo para se defenderem.
Essa é uma trama ainda secundária, porque o foco estará na reconstrução econômica. Temer parece escolher uma equipe com a visão clara de que é preciso reconquistar a credibilidade como primeiro passo para que se volte a investir.
Quanto mais leio e ouço sobre o rombo financeiro, não apenas sinto a dimensão da tarefa de levar o Brasil até 2018, mas percebo como faltam dados sobre a verdadeira situação que o PT e seus aliados, PMDB incluído, nos legam. Mexidas no tamanho do Estado, discussão sobre nosso sistema de Previdência, tudo isso só se fará de forma menos emocional se houver uma verdadeira revelação de nossos problemas financeiros.
Não se faz apenas com um discurso, ou mesmo um documento. É algo que tem de ser bem difundido, com quadros comparativos, animações e um trabalho de divulgação que consigam atenuar o peso do tema. Será preciso dizer, por exemplo, se o governo vai pôr dinheiro e quanto na Petrobras, na Caixa Econômica, suas grandes empresas que vivem em dificuldade.
Leio também nos jornais que Temer vai trazer de volta uma velha guarda de políticos. Em princípio, nada contra. Mas é necessário lembrar que alguns problemas decisivos dependem de sensibilidade para a revolução digital.
Na quebra do monopólio das teles, além de pensar no avanço que isso traria para o Brasil, sabíamos também que havia regiões que não interessavam às empresas. Criou-se um fundo para universalizar a conexão telefônica e modernizar a infraestrutura de comunicações. Esse dinheiro jamais foi usado em sua plenitude, como manda a lei. Uma visão de retomada do crescimento tem de passar por um novo enfoque do mundo virtual e seu potencial econômico. Se nos fixarmos só no crescimento do universo material, corremos o risco de um novo engarrafamento adiante, se já não estamos de alguma forma engarrafados perante outros povos, como os coreanos, que trafegam com muito mais rapidez do que nós.
Temer disse que não é candidato. Isso é positivo não apenas porque ficou mais leve para atrair partidos com projetos para 2018. Mas, principalmente, porque ele pode tomar medidas que horrorizam um candidato.
Claro que as medidas serão debatidas, que em caso de divulgação ampla haverá uma consciência maior do buraco econômico. Ainda assim, os economistas preveem que em 2018 chegaremos ao poder aquisitivo de 2011. Certamente haverá uma aspiração de maior rapidez no processo de retomada. E Temer não pode andar tão rápido quanto a velocidade das expectativas.
Além disso, terá de navegar num mundo político desgastado, que dependeu da sociedade para chegar ao impeachment e dependerá dela para realizar a transição. Os temas da reconstrução mexem com diferentes interesses, dificilmente vão mobilizar da mesma forma que o impeachment.
Há, no entanto, um desejo de mudança.
Os rombos no Brasil sempre foram cobertos com aumentos de impostos, os contribuintes pagam o delírio dos governantes. Se Temer usar o caminho tradicional, vai romper com o desejo de mudança e adiar para as calendas um ajuste pelo qual o governo passe a gastar de acordo com seus recursos.
Todos gastaram muito. Há uma grande pendência sobre a dívida dos Estados com a União. Juros simples ou compostos? Na verdade, a discussão mesmo é sobre quem vai pagar a conta, que pode resultar num prejuízo federal de R$ 340 bilhões.
Finanças dos Estados parecem um tema muito chato. No entanto, quando você vive no Rio de Janeiro, vê hospitais decadentes, funcionários sem receber, escolas ocupadas, percebe claramente que, quando o governo entra em colapso, isso fatalmente influencia a sua vida cotidiana.
Um tema dessa envergadura acabou no Supremo Tribunal, quando, na verdade, teria de ser decidido no universo político, governadores e presidente. É uma demonstração de incapacidade que obriga o próprio Supremo a se desdobrar, estudar todo o mecanismo financeiro, ouvir as partes, estimular acordos que eles próprios já deveriam ter celebrado.
Com esses corredores e os obstáculos na pista será difícil chegar a 2018 se não houver um esforço de reconstrução que transcenda o mundo político. Esse esforço se torna mais viável com os dados na mesa: o estrago da corrupção e os equívocos da gestão econômica.
Algumas coisas já podem mudar nas próximas semanas. Por que tantos cargos comissionados? Por que reduzir investimentos, e não o custeio da máquina do governo? Incentivos para quê e para quem? Aumentos salariais do funcionalismo agora?
Quando Dilma entrou, na esteira de suas mentiras, lembrei que não teria lua de mel. Vinha de uma vitória eleitoral. Temer, por tudo de errado que Dilma fez, talvez ganhe um curto período. O problema é que a crise mexeu com a nossa noção de tempo, mais encurtado, desdobrando-se com imprevisíveis solavancos.
Mesmo ainda sem a caneta na mão, é preciso uma ideia na cabeça. A partir da semana que vem termina um capítulo da nossa História recente. O País precisa se reconstruir como se tivesse seus alicerces abalados por um bombardeio.
Os jornais falam de um Ministério em formação. É difícil analisar algo que ainda não existe. Mas a julgar pelas notícias, o projeto contém uma primeira contradição. Temer, diretamente e por intermédio de Moreira Franco, afirmou apoiar a Lava Jato.
O provável Ministério, todavia, tem vários nomes de investigados. Se forem confirmados, não há avanço em relação ao PT, que, por sua vez, é um retrocesso em relação ao governo Itamar. Neste os investigados não entravam. E se estivessem no governo, deixavam o cargo para se defenderem.
Essa é uma trama ainda secundária, porque o foco estará na reconstrução econômica. Temer parece escolher uma equipe com a visão clara de que é preciso reconquistar a credibilidade como primeiro passo para que se volte a investir.
Não se faz apenas com um discurso, ou mesmo um documento. É algo que tem de ser bem difundido, com quadros comparativos, animações e um trabalho de divulgação que consigam atenuar o peso do tema. Será preciso dizer, por exemplo, se o governo vai pôr dinheiro e quanto na Petrobras, na Caixa Econômica, suas grandes empresas que vivem em dificuldade.
Leio também nos jornais que Temer vai trazer de volta uma velha guarda de políticos. Em princípio, nada contra. Mas é necessário lembrar que alguns problemas decisivos dependem de sensibilidade para a revolução digital.
Na quebra do monopólio das teles, além de pensar no avanço que isso traria para o Brasil, sabíamos também que havia regiões que não interessavam às empresas. Criou-se um fundo para universalizar a conexão telefônica e modernizar a infraestrutura de comunicações. Esse dinheiro jamais foi usado em sua plenitude, como manda a lei. Uma visão de retomada do crescimento tem de passar por um novo enfoque do mundo virtual e seu potencial econômico. Se nos fixarmos só no crescimento do universo material, corremos o risco de um novo engarrafamento adiante, se já não estamos de alguma forma engarrafados perante outros povos, como os coreanos, que trafegam com muito mais rapidez do que nós.
Temer disse que não é candidato. Isso é positivo não apenas porque ficou mais leve para atrair partidos com projetos para 2018. Mas, principalmente, porque ele pode tomar medidas que horrorizam um candidato.
Claro que as medidas serão debatidas, que em caso de divulgação ampla haverá uma consciência maior do buraco econômico. Ainda assim, os economistas preveem que em 2018 chegaremos ao poder aquisitivo de 2011. Certamente haverá uma aspiração de maior rapidez no processo de retomada. E Temer não pode andar tão rápido quanto a velocidade das expectativas.
Além disso, terá de navegar num mundo político desgastado, que dependeu da sociedade para chegar ao impeachment e dependerá dela para realizar a transição. Os temas da reconstrução mexem com diferentes interesses, dificilmente vão mobilizar da mesma forma que o impeachment.
Há, no entanto, um desejo de mudança.
Os rombos no Brasil sempre foram cobertos com aumentos de impostos, os contribuintes pagam o delírio dos governantes. Se Temer usar o caminho tradicional, vai romper com o desejo de mudança e adiar para as calendas um ajuste pelo qual o governo passe a gastar de acordo com seus recursos.
Todos gastaram muito. Há uma grande pendência sobre a dívida dos Estados com a União. Juros simples ou compostos? Na verdade, a discussão mesmo é sobre quem vai pagar a conta, que pode resultar num prejuízo federal de R$ 340 bilhões.
Finanças dos Estados parecem um tema muito chato. No entanto, quando você vive no Rio de Janeiro, vê hospitais decadentes, funcionários sem receber, escolas ocupadas, percebe claramente que, quando o governo entra em colapso, isso fatalmente influencia a sua vida cotidiana.
Um tema dessa envergadura acabou no Supremo Tribunal, quando, na verdade, teria de ser decidido no universo político, governadores e presidente. É uma demonstração de incapacidade que obriga o próprio Supremo a se desdobrar, estudar todo o mecanismo financeiro, ouvir as partes, estimular acordos que eles próprios já deveriam ter celebrado.
Com esses corredores e os obstáculos na pista será difícil chegar a 2018 se não houver um esforço de reconstrução que transcenda o mundo político. Esse esforço se torna mais viável com os dados na mesa: o estrago da corrupção e os equívocos da gestão econômica.
Algumas coisas já podem mudar nas próximas semanas. Por que tantos cargos comissionados? Por que reduzir investimentos, e não o custeio da máquina do governo? Incentivos para quê e para quem? Aumentos salariais do funcionalismo agora?
Quando Dilma entrou, na esteira de suas mentiras, lembrei que não teria lua de mel. Vinha de uma vitória eleitoral. Temer, por tudo de errado que Dilma fez, talvez ganhe um curto período. O problema é que a crise mexeu com a nossa noção de tempo, mais encurtado, desdobrando-se com imprevisíveis solavancos.
Mesmo ainda sem a caneta na mão, é preciso uma ideia na cabeça. A partir da semana que vem termina um capítulo da nossa História recente. O País precisa se reconstruir como se tivesse seus alicerces abalados por um bombardeio.
Sexta 13, dia sem bruxa
Os democratas que defendem Dilma e a quadrilha do petrolão contra o golpe de Sérgio Moro estão discretamente eufóricos. Os tanques da direita, que vieram arrancar a presidenta mulher à força do palácio, resolverão todos os seus problemas. Estava desconfortável (e, o que é mais grave, trabalhoso) esse negócio de ser governo.
Foram anos de sofrimento para continuar do contra, sendo a favor. Foi preciso instaurar o primeiro governo de oposição da história — e não pensem que isso é fácil. Aumentar os juros e gritar contra os juros altos, roubar o Estado e denunciar a corrupção, devastar a economia popular e defender o povo... Isso cansa uma pessoa.
Mas deu tudo certo: após 13 anos e meio de poupança ortodoxa, com propinas por fora e por dentro, valerioduto e pixulecos garantindo o formidável abastecimento do caixa partidário, chegou a hora de desfrutar. A elite vermelha volta para o presépio dos oprimidos, gorda e rica, só para jogar pedras — o que faz um bem danado à alma progressista e quase não suja as mãos. Mas eis que surge o revés inesperado.
Quando os professores de História já abrilhantavam suas aulas-comício, inserindo o golpe contra os imaculados parasitas para entregar o Brasil ao PMDB de Eduardo Cunha, viraram a mesa. Num ato sem precedentes, o Supremo Tribunal Federal destituiu o presidente da Câmara dos Deputados. Cunha caiu. E agora?
Foi um golpe duro demais para os democratas. É verdade que eles ainda têm o Bolsonaro, a PM de São Paulo, o Trump e a Guerra do Vietnã, mas a perda de um Eduardo Cunha não se repõe facilmente. Quem o STF pensa que é para cometer uma arbitrariedade dessas? Como os homens de bem farão, a partir de agora, para defender Lula — e todos os seus crimes progressistas denunciados pelo procurador-geral — sem poder gritar que bandido é o Cunha? A Anistia Internacional não está vendo isso?
O Prêmio Nobel da Paz está. Pelo menos um dos seus detentores, o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, parceiro de Cristina Kirchner, Nicolás Maduro e toda essa turma boa que ama a democracia (amor infelizmente não correspondido). Pérez Esquivel fez história no Senado brasileiro ao denunciar o golpe de Estado contra Dilma Rousseff. E atenção: o golpe foi executado por Eduardo Cunha, o mau. Quem sabe até o seu afastamento agora não foi uma espécie de queima de arquivo?
Aí vem o relator da comissão do impeachment, naquela mesma bancada onde um Nobel da Paz fez história, e expõe de forma monótona, sem um pingo de glamour, todos os crimes cometidos por Dilma Rousseff no exercício da Presidência da República. Esse aí nunca vai ganhar um Nobel. Além de tudo, é estraga-prazeres: mostrou de forma absolutamente desagradável que Eduardo Cunha não tem nada a ver com o impeachment — apenas o colocou em votação. A Anistia Internacional não está vendo isso?
Nos dois anos de literatura da Lava-Jato, entende-se de onde vieram os bilhões de reais que bancam há anos os advogados mais caros do país para os guerreiros do povo brasileiro; que bancam há anos as campanhas eleitorais nababescas pelas quais o PT se tornou o feliz proprietário dos Três Poderes; que compraram movimentos sociais (sic), entidades de classe, jornalistas com indignação tabelada, espalhadores de boatos e manifestantes profissionais. Mas nada é tão poético quanto um pedido de propinas retroativas — atribuído ao companheiro Ricardo Berzoini pelo ex-presidente da Andrade Gutierrez.
Segundo Otavio Azevedo, o então presidente do PT e atual ministro da golpeada e oprimida Dilma avisou, em 2008, que a empreiteira deveria pagar propinas sobre as obras feitas desde 2003 (ano em que o Brasil foi redescoberto). O apetite dos representantes desse governo progressista é conhecido, vide seus tesoureiros presos e o envolvimento de todos — todos — os seus principais líderes em negociatas democráticas e revolucionárias. A conta é a seguinte: quem foi mais importante na construção heroica da atual pindaíba nacional? A gangue do Lula ou a do Eduardo Cunha?
Quem acertar ganha um Nobel da Paz e meio quilo de mortadela.
Da última vez em que o Brasil viveu um impeachment, o governo passou às mãos de um presidente filiado ao PMDB. O que se impôs, então, não foi uma orgia fisiológica — foi o Plano Real. Itamar Franco foi obrigado pela ruína política e econômica a dar poder ao Brasil que trabalha. Michel Temer está na mesma situação.
Os prognósticos apontam para a sexta-feira 13 o fim da agonia. Descerá a rampa, então, a criatura que Lula inventou para tomar conta da porta, enquanto eles limpavam a casa. Uma criatura que os brasileiros incrivelmente engoliram — mesmo que, diante dela, um Tiririca seja praticamente um Churchill. Tchau, querida.
A parada agora é entre o Brasil que trabalha e o Brasil que atrapalha.
Guilherme Fiuza
Foram anos de sofrimento para continuar do contra, sendo a favor. Foi preciso instaurar o primeiro governo de oposição da história — e não pensem que isso é fácil. Aumentar os juros e gritar contra os juros altos, roubar o Estado e denunciar a corrupção, devastar a economia popular e defender o povo... Isso cansa uma pessoa.
Mas deu tudo certo: após 13 anos e meio de poupança ortodoxa, com propinas por fora e por dentro, valerioduto e pixulecos garantindo o formidável abastecimento do caixa partidário, chegou a hora de desfrutar. A elite vermelha volta para o presépio dos oprimidos, gorda e rica, só para jogar pedras — o que faz um bem danado à alma progressista e quase não suja as mãos. Mas eis que surge o revés inesperado.
Foi um golpe duro demais para os democratas. É verdade que eles ainda têm o Bolsonaro, a PM de São Paulo, o Trump e a Guerra do Vietnã, mas a perda de um Eduardo Cunha não se repõe facilmente. Quem o STF pensa que é para cometer uma arbitrariedade dessas? Como os homens de bem farão, a partir de agora, para defender Lula — e todos os seus crimes progressistas denunciados pelo procurador-geral — sem poder gritar que bandido é o Cunha? A Anistia Internacional não está vendo isso?
O Prêmio Nobel da Paz está. Pelo menos um dos seus detentores, o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, parceiro de Cristina Kirchner, Nicolás Maduro e toda essa turma boa que ama a democracia (amor infelizmente não correspondido). Pérez Esquivel fez história no Senado brasileiro ao denunciar o golpe de Estado contra Dilma Rousseff. E atenção: o golpe foi executado por Eduardo Cunha, o mau. Quem sabe até o seu afastamento agora não foi uma espécie de queima de arquivo?
Aí vem o relator da comissão do impeachment, naquela mesma bancada onde um Nobel da Paz fez história, e expõe de forma monótona, sem um pingo de glamour, todos os crimes cometidos por Dilma Rousseff no exercício da Presidência da República. Esse aí nunca vai ganhar um Nobel. Além de tudo, é estraga-prazeres: mostrou de forma absolutamente desagradável que Eduardo Cunha não tem nada a ver com o impeachment — apenas o colocou em votação. A Anistia Internacional não está vendo isso?
Nos dois anos de literatura da Lava-Jato, entende-se de onde vieram os bilhões de reais que bancam há anos os advogados mais caros do país para os guerreiros do povo brasileiro; que bancam há anos as campanhas eleitorais nababescas pelas quais o PT se tornou o feliz proprietário dos Três Poderes; que compraram movimentos sociais (sic), entidades de classe, jornalistas com indignação tabelada, espalhadores de boatos e manifestantes profissionais. Mas nada é tão poético quanto um pedido de propinas retroativas — atribuído ao companheiro Ricardo Berzoini pelo ex-presidente da Andrade Gutierrez.
Segundo Otavio Azevedo, o então presidente do PT e atual ministro da golpeada e oprimida Dilma avisou, em 2008, que a empreiteira deveria pagar propinas sobre as obras feitas desde 2003 (ano em que o Brasil foi redescoberto). O apetite dos representantes desse governo progressista é conhecido, vide seus tesoureiros presos e o envolvimento de todos — todos — os seus principais líderes em negociatas democráticas e revolucionárias. A conta é a seguinte: quem foi mais importante na construção heroica da atual pindaíba nacional? A gangue do Lula ou a do Eduardo Cunha?
Quem acertar ganha um Nobel da Paz e meio quilo de mortadela.
Da última vez em que o Brasil viveu um impeachment, o governo passou às mãos de um presidente filiado ao PMDB. O que se impôs, então, não foi uma orgia fisiológica — foi o Plano Real. Itamar Franco foi obrigado pela ruína política e econômica a dar poder ao Brasil que trabalha. Michel Temer está na mesma situação.
Os prognósticos apontam para a sexta-feira 13 o fim da agonia. Descerá a rampa, então, a criatura que Lula inventou para tomar conta da porta, enquanto eles limpavam a casa. Uma criatura que os brasileiros incrivelmente engoliram — mesmo que, diante dela, um Tiririca seja praticamente um Churchill. Tchau, querida.
A parada agora é entre o Brasil que trabalha e o Brasil que atrapalha.
Guilherme Fiuza
Lula e Dilma já estão presos, porque foram aprisionados pelo fracasso
A jornalista Mônica Bergamo, da Folha, que tem acesso privilegiado ao lulopetismo, publica a informação de que “o ex-presidente Lula está deprimido, chateado e muito preocupado”. A descrição é de um de seus melhores amigos, que prefere dizer que o petista está “deprê”, assinala a colunista, acrescentando que Lula não teve orientação oficial de médicos para faltar ao ato da CUT no 1º de Maio. “Ele estava mesmo rouco e abatido. Mas poderia ter comparecido à celebração ao lado de Dilma Rousseff, ainda que não fizesse discursos”, revela Mônica Bergamo.
A falta de solidariedade a Dilma, num momento crucial como a festa do Dia do Trabalho, em evento próximo ao local onde ele mora, evidencia bem a falha de caráter de Lula da Silva, que só costuma defender os próprios interesses.
Não é para menos que o criador do PT esteja deprimido, embora sua situação ainda não possa ser comparada ao precário estado de saúde de sua sucessora, hoje submetida a uma pressão insuportável, às vésperas de ser afastada da Presidência da República.
Na verdade, Lula e Dilma têm muitos pontos em comum, são iguais em quase tudo e ambos se tornaram prisioneiros de si mesmos. Não podem mais viver como pessoas comuns, circular nas ruas, entrar num restaurante, viajar em avião de carreira. Em qualquer espaço público que tentarem frequentar, serão vaiados e perseguidos, com toda certeza .
Lula não concede entrevista a jornalistas desde 2012, quando veio à tona o escândalo de Rosemary Noronha, a amante que mantinha às custas do erário. De lá para cá, apenas deu entrevistas à TV CUT e a outros órgãos da imprensa amestrada. Geralmente, suas declarações são transmitidas pelo Instituto Lula, ele nem aparece em cena.
Desde a posse na reeleição, Dilma também está longe dos jornalistas. As raras entrevistas são arranjadas, tipo Jô Soares, concedidas sem perguntas de real interesse público e possibilidade de réplica pelos repórteres. Sua mais recente coletiva nem teve perguntas, ela apenas leu um discurso redigido pela assessoria e foi embora.
JORNALISTAS CERCEADOS
No Estadão, os repórteres Tânia Monteiro e Leonencio Nossa relatam que nos governos petistas os assessores da Secretaria de Comunicação da Presidência passaram a cercear o trabalho dos jornalistas, para que não se aproximassem de Lula e Dilma.
“Em 2005, em um evento de Lula em Vitória da Conquista, na Bahia, a Secretaria recorreu a telas de galinheiro para delimitar a área destinada a jornalistas. Hoje, nos eventos de Dilma no Planalto, os assessores do governo montam cercadinhos distantes do palco e impedem a circulação dos jornalistas nas cerimônias”, informam os repórteres do Estadão.
Agora, Lula está denunciado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal, por crime de obstrução à Justiça. E a presidente Dilma também será investigada pelo mesmo motivo, pois atuou de forma para tentar a libertação do empreiteiro Marcelo Odebrecht, com a cumplicidade do ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, que ela recentemente nomeara para o Superior Tribunal de Justiça.
A falta de solidariedade a Dilma, num momento crucial como a festa do Dia do Trabalho, em evento próximo ao local onde ele mora, evidencia bem a falha de caráter de Lula da Silva, que só costuma defender os próprios interesses.
Não é para menos que o criador do PT esteja deprimido, embora sua situação ainda não possa ser comparada ao precário estado de saúde de sua sucessora, hoje submetida a uma pressão insuportável, às vésperas de ser afastada da Presidência da República.
Na verdade, Lula e Dilma têm muitos pontos em comum, são iguais em quase tudo e ambos se tornaram prisioneiros de si mesmos. Não podem mais viver como pessoas comuns, circular nas ruas, entrar num restaurante, viajar em avião de carreira. Em qualquer espaço público que tentarem frequentar, serão vaiados e perseguidos, com toda certeza .
Lula não concede entrevista a jornalistas desde 2012, quando veio à tona o escândalo de Rosemary Noronha, a amante que mantinha às custas do erário. De lá para cá, apenas deu entrevistas à TV CUT e a outros órgãos da imprensa amestrada. Geralmente, suas declarações são transmitidas pelo Instituto Lula, ele nem aparece em cena.
Desde a posse na reeleição, Dilma também está longe dos jornalistas. As raras entrevistas são arranjadas, tipo Jô Soares, concedidas sem perguntas de real interesse público e possibilidade de réplica pelos repórteres. Sua mais recente coletiva nem teve perguntas, ela apenas leu um discurso redigido pela assessoria e foi embora.
JORNALISTAS CERCEADOS
No Estadão, os repórteres Tânia Monteiro e Leonencio Nossa relatam que nos governos petistas os assessores da Secretaria de Comunicação da Presidência passaram a cercear o trabalho dos jornalistas, para que não se aproximassem de Lula e Dilma.
“Em 2005, em um evento de Lula em Vitória da Conquista, na Bahia, a Secretaria recorreu a telas de galinheiro para delimitar a área destinada a jornalistas. Hoje, nos eventos de Dilma no Planalto, os assessores do governo montam cercadinhos distantes do palco e impedem a circulação dos jornalistas nas cerimônias”, informam os repórteres do Estadão.
Agora, Lula está denunciado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal, por crime de obstrução à Justiça. E a presidente Dilma também será investigada pelo mesmo motivo, pois atuou de forma para tentar a libertação do empreiteiro Marcelo Odebrecht, com a cumplicidade do ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, que ela recentemente nomeara para o Superior Tribunal de Justiça.
Jamais um presidente brasileiro teve prestígio internacional como Lula da Silva, como é chamado no exterior. Foi o primeiro operário de pouca instrução a ser guindado à Presidência de um país da importância do Brasil, gigante pela própria natureza, quinto maior em população e extensão territorial, a oitava economia do mundo.
O exemplo anterior, de Lech Walesa, não tem comparação, pois a Polônia abriga apenas 20% da população brasileira e seu PIB não está nem entre os 20 maiores. Além disso, sabe-se que Lula jamais leu um só livro, enquanto o líder polonês tinha muito mais instrução e formação técnica.
A maior diferença, porém, é que Walesa teve forte apoio dos países ocidentais e do Vaticano para chegar ao poder e transformar a Polônia no primeiro país da Cortina de Ferro a abandonar o comunismo. Lula só teve auxílio do regime militar no início da carreira, mas depois se fez praticamente sozinho, embora tenha contado com ajuda de empresas como a OAS, que passou a apoiá-lo financeiramente quando o PT começou a eleger prefeitos e ser cliente de empreiteiras.
Hoje, Lula é uma pálida lembrança do grande líder político que se tornara no cenário mundial. Em breve, as importantes universidades que lhe outorgaram títulos honoríficos terão de cancelá-los, por motivos óbvios.
Quanto a Dilma Rousseff, ia entrar para a História como a primeira mulher a ser eleita para a Presidência, mas será lembrada mais especificamente por ter sido submetida ao impeachment e à investigação criminal pelo Supremo.
E assim caminha a Humanidade, do lado debaixo do Equador.
O exemplo anterior, de Lech Walesa, não tem comparação, pois a Polônia abriga apenas 20% da população brasileira e seu PIB não está nem entre os 20 maiores. Além disso, sabe-se que Lula jamais leu um só livro, enquanto o líder polonês tinha muito mais instrução e formação técnica.
A maior diferença, porém, é que Walesa teve forte apoio dos países ocidentais e do Vaticano para chegar ao poder e transformar a Polônia no primeiro país da Cortina de Ferro a abandonar o comunismo. Lula só teve auxílio do regime militar no início da carreira, mas depois se fez praticamente sozinho, embora tenha contado com ajuda de empresas como a OAS, que passou a apoiá-lo financeiramente quando o PT começou a eleger prefeitos e ser cliente de empreiteiras.
Hoje, Lula é uma pálida lembrança do grande líder político que se tornara no cenário mundial. Em breve, as importantes universidades que lhe outorgaram títulos honoríficos terão de cancelá-los, por motivos óbvios.
Quanto a Dilma Rousseff, ia entrar para a História como a primeira mulher a ser eleita para a Presidência, mas será lembrada mais especificamente por ter sido submetida ao impeachment e à investigação criminal pelo Supremo.
E assim caminha a Humanidade, do lado debaixo do Equador.
Um ministério temeroso
A saída de Dilma Roussef da Presidência da República, a se efetivar esta semana, não encerra – antes inicia novo capítulo da crise, que promete ser longa, penosa e turbulenta.
O governo Michel Temer se prenuncia pouco promissor. Pelos sinais já emitidos, constata-se que não percebe o momento singular que vive. Mostra-se menor que o desafio que o aguarda.
O noticiário em torno de seu futuro ministério indica que manterá o padrão vigente, de troca de apoio parlamentar por cargos. Se não deu certo com os governos do PT, com toda a popularidade de que já desfrutaram, é improvável que dê com quem chega sem votos, em meio a tal crise.
Chegou a anunciar que reduziria à metade os ministérios, mas, ao iniciar as articulações, ao que parece, mudou de ideia. Se o apoio depende de cargos, jamais os haverá em número suficiente para saciar o apetite parlamentar. A saída é sair desse modelo. Mas ele aparentemente não conhece outro. É um peemedebista.
A chance – única – é buscar apoio no clamor da sociedade, sinalizar, desde o início, com mudança de rumos. Pensou-se que optaria por um ministério de notáveis, gente acima de qualquer suspeita e de comprovada credibilidade.
Dois nomes circularam no início das conversas, Carlos Ayres Brito (Ministério da Justiça) e Armínio Fraga (Fazenda). Ambos declinaram. Chegou-se a dois outros nomes, já tidos como definidos – José Serra (Relações Exteriores) e Henrique Meireles (Fazenda) -, mas nenhum outro de porte equivalente foi mencionado.
Os até aqui citados não são notáveis; alguns são notórios. E indicam que Temer, em relação ao chamado presidencialismo de coalizão (o outro nome do fisiologismo), troca seis por meia dúzia.
Vejamos alguns nomes, para citar apenas os que constam de todas as especulações: Romero Jucá (Planejamento), Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), além de outros sem pasta definida, como Geddel Vieira Lima, Helder Barbalho, Eunício de Oliveira, Gilberto Kassab, Henrique Eduardo Alves, Blairo Maggi – todos ex-servidores de governos do PT.
Henrique Eduardo Alves e Romero Jucá constam de delações da Lava Jato. O advogado Antonio Mariz, que Temer cogitava de colocar no Ministério da Justiça – e depois na Defesa -, é conhecido crítico do juiz Sérgio Moro. Temer não vê problemas em nomear ministros que serão investigados pela Polícia Federal.
A sociedade, com certeza, vê. E sua frustração será explorada pelos petistas, que, de volta à oposição, voltarão a brandir dossiês – falsos ou não – contra governantes cujos prontuários conhecem bem, já que ex-parceiros.
As milícias petistas já agitam o país, invadindo prédios públicos, fechando rodovias e avenidas. Prometem tornar essas ações rotineiras e mais amplas e contundentes.
A herança maldita que deixam – a maior já legada a qualquer governo – será tratada como obra do adversário, não deles. Como não há receita para rápida solução – e ela só será abreviada se engajar a sociedade, como ocorreu com o Plano Real -, a saída seria um ministério que inspirasse confiança.
Não é o ministério Temer, não o anunciado até aqui – e é improvável que o noticiário a respeito, não desmentido, esteja inteiramente equivocado. Quem dera estivesse.
O futuro presidente precisa, como Macri na Argentina, chegar sinalizando novos rumos – e não apenas novos nomes. A crise exigirá remédios amargos e soluções lentas e dolorosas. A Lava Jato não vai parar (felizmente) – e a conjunção crise e corrupção não ajuda a construir um ambiente mais sadio.
A história oferece a Temer oportunidade única de mudar o país, de recolocá-lo numa rota da qual o PT o desviou. O desafio é gigante, mas a enfrentá-lo continuaremos a dispor de anões políticos – alguns, também, anões morais. O ministério Temer é uma temeridade – e o trocadilho não é cômico: é trágico.
O governo Michel Temer se prenuncia pouco promissor. Pelos sinais já emitidos, constata-se que não percebe o momento singular que vive. Mostra-se menor que o desafio que o aguarda.
Chegou a anunciar que reduziria à metade os ministérios, mas, ao iniciar as articulações, ao que parece, mudou de ideia. Se o apoio depende de cargos, jamais os haverá em número suficiente para saciar o apetite parlamentar. A saída é sair desse modelo. Mas ele aparentemente não conhece outro. É um peemedebista.
A chance – única – é buscar apoio no clamor da sociedade, sinalizar, desde o início, com mudança de rumos. Pensou-se que optaria por um ministério de notáveis, gente acima de qualquer suspeita e de comprovada credibilidade.
Dois nomes circularam no início das conversas, Carlos Ayres Brito (Ministério da Justiça) e Armínio Fraga (Fazenda). Ambos declinaram. Chegou-se a dois outros nomes, já tidos como definidos – José Serra (Relações Exteriores) e Henrique Meireles (Fazenda) -, mas nenhum outro de porte equivalente foi mencionado.
Os até aqui citados não são notáveis; alguns são notórios. E indicam que Temer, em relação ao chamado presidencialismo de coalizão (o outro nome do fisiologismo), troca seis por meia dúzia.
Vejamos alguns nomes, para citar apenas os que constam de todas as especulações: Romero Jucá (Planejamento), Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), além de outros sem pasta definida, como Geddel Vieira Lima, Helder Barbalho, Eunício de Oliveira, Gilberto Kassab, Henrique Eduardo Alves, Blairo Maggi – todos ex-servidores de governos do PT.
Henrique Eduardo Alves e Romero Jucá constam de delações da Lava Jato. O advogado Antonio Mariz, que Temer cogitava de colocar no Ministério da Justiça – e depois na Defesa -, é conhecido crítico do juiz Sérgio Moro. Temer não vê problemas em nomear ministros que serão investigados pela Polícia Federal.
A sociedade, com certeza, vê. E sua frustração será explorada pelos petistas, que, de volta à oposição, voltarão a brandir dossiês – falsos ou não – contra governantes cujos prontuários conhecem bem, já que ex-parceiros.
As milícias petistas já agitam o país, invadindo prédios públicos, fechando rodovias e avenidas. Prometem tornar essas ações rotineiras e mais amplas e contundentes.
A herança maldita que deixam – a maior já legada a qualquer governo – será tratada como obra do adversário, não deles. Como não há receita para rápida solução – e ela só será abreviada se engajar a sociedade, como ocorreu com o Plano Real -, a saída seria um ministério que inspirasse confiança.
Não é o ministério Temer, não o anunciado até aqui – e é improvável que o noticiário a respeito, não desmentido, esteja inteiramente equivocado. Quem dera estivesse.
O futuro presidente precisa, como Macri na Argentina, chegar sinalizando novos rumos – e não apenas novos nomes. A crise exigirá remédios amargos e soluções lentas e dolorosas. A Lava Jato não vai parar (felizmente) – e a conjunção crise e corrupção não ajuda a construir um ambiente mais sadio.
A história oferece a Temer oportunidade única de mudar o país, de recolocá-lo numa rota da qual o PT o desviou. O desafio é gigante, mas a enfrentá-lo continuaremos a dispor de anões políticos – alguns, também, anões morais. O ministério Temer é uma temeridade – e o trocadilho não é cômico: é trágico.
E naquele tempo...
Se o governo quer dar casa para o Collor, então que conceda um espaço na Casa de Detenção. Ele cometeu o que cometeu e agora vem pedir mordomias? Ele que vá pedir para o PC (Farias)Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do PT em 1992
Não houve ganhos, debitem-se as perdas às gerações futuras
Estranha figura a da ainda presidente Dilma Rousseff. Como nem sequer a conheço pessoalmente, sinceramente sem nenhuma perda para mim, graças a Deus, poderia muito mal fazer a minha vida pessoal caso viesse a sustentar qualquer tipo de convivência com a chefe do governo.
D. Dilma dá mostras, em suas aparições públicas, de ser portadora de um tipo de depressão característica do que se chama “bipolaridade”, que se define e se descreve, na psiquiatria, como vítima de dois movimentos intelectuais que, embora um seja o contrário do outro, alternam crises paradoxais de extrema tristeza com outras de otimismo e plena satisfação com a vida.
O quadro dá pena, é incurável e submete a sérios sofrimentos quem o sofre. Não estou afirmando nada que me traga futuros aborrecimentos. Os “cardozões” da vida estão por aí, catando vítimas para processar. Esclareço com vigor: não estou ofendendo ninguém. A propósito, não sei se o eventual ofendido é portador desse mal terrível. Nada sei da saúde da sra. Dilma. Apenas estou conjeturando a mais que eventual doença, e não sou desses petistas que mentem para ofender e ferir.
Tudo o mais do que digo o é em hipótese pura: o procedimento da sra. Dilma, de quando em quando, é bastante estranho, a ponto de lembrar-me a existência de determinado mal. Trata-se de especulação e desejo que sua Excelência se livre dele, se portadora for do distúrbio.
Agora, seu péssimo governo eu critico, considero que é o pior que já tivemos a oportunidade de ter, mais doentio que o do marechal Hermes da Fonseca, que, aliás, não tinha tempo para governar, entretido com os carinhos de tardio segundo casamento, cujo colo era mais doce do que o do próprio Collor, quando levantava “aquilo roxo” para ser acariciado. Eram momentos de volúpia patrocinados pelo Morcego Negro, tão negro que mal podia enxergar, e entregava as responsabilidades de governar a Pinheiro Machado, que acabou morrendo por um tiro.
Assim fica posto que bom mesmo era o grande Lula, que conhecia as liras de Camões e fazia discursos notáveis e arrebatados. Carlos Lacerda era inocente e apenas alfabetizado diante desse. Os santos restos mortais do Padre Vieira eram fichinhas quando sua voz rouca tonitroava para os cavaleiros e os sem-montarias do MST, em uníssono, proclamando uma República sábia e sadia.
A sra. Dilma utilizava a foice para conter os inimigos guerrilheiros. Acabou fazendo bobagem demais mesmo para o Brasil: usou demais a língua pátria, com tal perfeição, que não percebeu que Nosso Guia começou a enciumar-se com a lógica de seus inesquecíveis discursos que se encerravam após insuportável lenga-lenga.
Por parte da sra. Dilma e de gatos pingados do Planalto que ainda acalentavam a ambição de mais da metade do mandato, balançava o berço traiçoeiro das ilusões. Jogava-se com a rejeição do Senado Federal à segunda e última votação. Escrevo este artigo na noite do dia 3 deste mês. As notícias são deploráveis... para eles, é claro.
Na manhã do dia 4 são piores. Além da manchete de primeira página – “Lula é denunciado ao STF” –, as demais saíram no mesmo diapasão. Pois que saiam, tarde e cansados, diria Machado de Assis no “Memorial de Ayres”. A nação sairia menos esfolada.
Mas, não. Nunca o Brasil saiu de governos tão escangalhado. A história contará tim-tim por tim-tim. E contará bem porque “toda a hostilidade deste mundo não vale nada, nem a política, nem outra qualquer”.
D. Dilma dá mostras, em suas aparições públicas, de ser portadora de um tipo de depressão característica do que se chama “bipolaridade”, que se define e se descreve, na psiquiatria, como vítima de dois movimentos intelectuais que, embora um seja o contrário do outro, alternam crises paradoxais de extrema tristeza com outras de otimismo e plena satisfação com a vida.
Tudo o mais do que digo o é em hipótese pura: o procedimento da sra. Dilma, de quando em quando, é bastante estranho, a ponto de lembrar-me a existência de determinado mal. Trata-se de especulação e desejo que sua Excelência se livre dele, se portadora for do distúrbio.
Agora, seu péssimo governo eu critico, considero que é o pior que já tivemos a oportunidade de ter, mais doentio que o do marechal Hermes da Fonseca, que, aliás, não tinha tempo para governar, entretido com os carinhos de tardio segundo casamento, cujo colo era mais doce do que o do próprio Collor, quando levantava “aquilo roxo” para ser acariciado. Eram momentos de volúpia patrocinados pelo Morcego Negro, tão negro que mal podia enxergar, e entregava as responsabilidades de governar a Pinheiro Machado, que acabou morrendo por um tiro.
Assim fica posto que bom mesmo era o grande Lula, que conhecia as liras de Camões e fazia discursos notáveis e arrebatados. Carlos Lacerda era inocente e apenas alfabetizado diante desse. Os santos restos mortais do Padre Vieira eram fichinhas quando sua voz rouca tonitroava para os cavaleiros e os sem-montarias do MST, em uníssono, proclamando uma República sábia e sadia.
A sra. Dilma utilizava a foice para conter os inimigos guerrilheiros. Acabou fazendo bobagem demais mesmo para o Brasil: usou demais a língua pátria, com tal perfeição, que não percebeu que Nosso Guia começou a enciumar-se com a lógica de seus inesquecíveis discursos que se encerravam após insuportável lenga-lenga.
Por parte da sra. Dilma e de gatos pingados do Planalto que ainda acalentavam a ambição de mais da metade do mandato, balançava o berço traiçoeiro das ilusões. Jogava-se com a rejeição do Senado Federal à segunda e última votação. Escrevo este artigo na noite do dia 3 deste mês. As notícias são deploráveis... para eles, é claro.
Na manhã do dia 4 são piores. Além da manchete de primeira página – “Lula é denunciado ao STF” –, as demais saíram no mesmo diapasão. Pois que saiam, tarde e cansados, diria Machado de Assis no “Memorial de Ayres”. A nação sairia menos esfolada.
Mas, não. Nunca o Brasil saiu de governos tão escangalhado. A história contará tim-tim por tim-tim. E contará bem porque “toda a hostilidade deste mundo não vale nada, nem a política, nem outra qualquer”.
Para o desemprego, só obras públicas

Em poucas semanas o Brasil registrará doze milhões de desempregados, em cujas portas já bate a fome. Logo eles se darão conta da vigência do “cada um por si”, ou seja, se a rua é do povo, melhor ocupá-la e estabelecer nela sua própria lei. Uns seguirão fazendo biscates, outros assaltando. Estes apelando para a caridade, aqueles utilizando a força para conseguir sobreviver.
Não se encontrarão muitos preocupados com a degola de Eduardo Cunha ou com o impeachment da presidente Dilma, ou melhor, com a ascensão de Michel. Pouca ou nenhuma atenção será dada às iniciativas do Supremo Tribunal Federal ou à escolha do novo presidente da Câmara. Muito menos ao novo ministério.
Cada vez menos o país de mentirinha despertará a atenção do país de verdade. Tanto Madame quanto seu substituto no poder significarão o mesmo para a legião de desempregados, seguidos pelos desiludidos e os indignados: nada.
É nesse vazio sem limites que o Brasil se encontra, com as raras exceções dos que buscam equacionar a saída. Desde os tempos de Ramsés II que para enfrentar o desemprego, só as obras públicas resolviam. Os Césares construíam banhos populares, arenas e aquedutos, numa sequência que teve seu climax com as hidrelétricas de Roosevelt os trens subterrâneos de Stalin.
Entre nós, anunciaram o trem-bala e as ferrovias Norte-Sul, Leste-Oeste e o desvio das águas do rio São Francisco. Deu tudo em coisa alguma, ou melhor, no poço sem fundo por onde se esvaíram nossos recursos.
Agora que Michel Temer prepara um programa emergencial de governo, depois de o Lula empenhar-se na construção de num porto em Cuba e de usinas na Bolívia, são poucas as esperanças de o novo presidente produzir sequer sucedâneos. Henrique Meirelles não vai deixar. Desde a construção de Brasília e da Transamazônica que nada mais se fez. Prevaleceram a incapacidade e a corrupção. Sobraram as empreiteiras e Eduardo Cunha.
A 'esquerda nostálgica' fora do 'espírito do tempo'
Durante o regime militar, havia uma “esquerda de luta” e uma “esquerda festiva”.
A primeira fez parte dos movimentos que levaram à conquista da democracia; a última foi decisiva na realização das revoluções estética e comportamental que ocorreram naqueles anos.
Hoje, está atuante uma “esquerda nostálgica”, enquanto uma “esquerda perplexa” tenta sair dos escombros provocados pela queda do Muro de Berlim, pela amplitude da globalização, pela profundidade da revolução científica, pelo poder e pela universalização dos novos instrumentos de tecnologia da informação; além de tentar se recuperar do constrangimento com a degradação ética e a incompetência dos últimos governos.
Diferentemente da “esquerda festiva”, que fez revoluções na estética e nos costumes, a “esquerda nostálgica” não contribui para a transformação estrutural da sociedade e da economia; louva o passado, se agarra ao presente e comemora pequenas conquistas assistenciais.
Prisioneira de seus dogmas, com preguiça para pensar o novo, com medo do patrulhamento entre seus membros, viciada em recursos financeiros e empregos públicos, a “esquerda nostálgica” parece não perceber o que acontece ao redor.

Independentemente das transformações no mundo, no país, nos bairros, continua orientada aos mesmos propósitos elaborados nos séculos XIX e XX, mantém a mesma fidelidade, reverência e idolatria aos líderes do passado, especialmente àqueles que têm o mérito do heroísmo da luta durante o regime militar, mesmo quando não foram capazes de perceber as mudanças no mundo nem os novos sonhos utópicos para o futuro.
Com nostalgia do passado, reage contra o “espírito do tempo” que exige agir dentro da economia global e romper com a visão de que a estatização é sinônimo de interesse público; não reconhece que a inflação é uma forma de desapropriação do trabalhador; que o progresso material tem limites ecológicos e é construído pela capacidade nacional para criar ciência e tecnologia; que os movimentos sociais e os partidos devem ser independentes, sem financiamentos estatais; ignora que a revolução não está mais na expropriação do capital, mas na garantia de escola com a mesma qualidade para o filho do trabalhador e o filho de seu patrão; que a igualdade deve ser assegurada no acesso à saúde e à educação, sem prometer igualdade plena, elusiva, injusta e antilibertária ao não diferenciar as individualidades dos talentos; não assume que a democracia e a liberdade de expressão são valores fundamentais e inegociáveis da sociedade, tanto quanto o compromisso com a verdade e a repulsa à corrupção.
Para sair da perplexidade, uma nova esquerda precisa fugir da nostalgia por siglas partidárias que tiveram a oportunidade de assumir o poder e construir seus projetos, mas traíram a população, os eleitores e a história, tanto na falta de ética quanto na ausência das transformações sociais prometidas.
A primeira fez parte dos movimentos que levaram à conquista da democracia; a última foi decisiva na realização das revoluções estética e comportamental que ocorreram naqueles anos.
Hoje, está atuante uma “esquerda nostálgica”, enquanto uma “esquerda perplexa” tenta sair dos escombros provocados pela queda do Muro de Berlim, pela amplitude da globalização, pela profundidade da revolução científica, pelo poder e pela universalização dos novos instrumentos de tecnologia da informação; além de tentar se recuperar do constrangimento com a degradação ética e a incompetência dos últimos governos.
Diferentemente da “esquerda festiva”, que fez revoluções na estética e nos costumes, a “esquerda nostálgica” não contribui para a transformação estrutural da sociedade e da economia; louva o passado, se agarra ao presente e comemora pequenas conquistas assistenciais.
Prisioneira de seus dogmas, com preguiça para pensar o novo, com medo do patrulhamento entre seus membros, viciada em recursos financeiros e empregos públicos, a “esquerda nostálgica” parece não perceber o que acontece ao redor.

Com nostalgia do passado, reage contra o “espírito do tempo” que exige agir dentro da economia global e romper com a visão de que a estatização é sinônimo de interesse público; não reconhece que a inflação é uma forma de desapropriação do trabalhador; que o progresso material tem limites ecológicos e é construído pela capacidade nacional para criar ciência e tecnologia; que os movimentos sociais e os partidos devem ser independentes, sem financiamentos estatais; ignora que a revolução não está mais na expropriação do capital, mas na garantia de escola com a mesma qualidade para o filho do trabalhador e o filho de seu patrão; que a igualdade deve ser assegurada no acesso à saúde e à educação, sem prometer igualdade plena, elusiva, injusta e antilibertária ao não diferenciar as individualidades dos talentos; não assume que a democracia e a liberdade de expressão são valores fundamentais e inegociáveis da sociedade, tanto quanto o compromisso com a verdade e a repulsa à corrupção.
Para sair da perplexidade, uma nova esquerda precisa fugir da nostalgia por siglas partidárias que tiveram a oportunidade de assumir o poder e construir seus projetos, mas traíram a população, os eleitores e a história, tanto na falta de ética quanto na ausência das transformações sociais prometidas.
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