quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Incêndios convergentes

Em 2 de outubro, comemorou-se o dia da não-violência. A data é uma homenagem ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, que nasceu a 2 de outubro de 1869, na cidade de Porbandar, no Gujarat.

Sempre me incomodou tropeçar com a palavra violência na expressão “não-violência”. A inexistência de uma palavra simples, na maior parte das línguas, capaz de definir um pacifismo ativo, capaz de impor serenidade e devolver a lucidez aos conflitos, diz muito acerca das limitações morais do ser humano — ou, pelo menos, das limitações morais das civilizações geradas pela nossa espécie.



A história da Humanidade é uma história da violência. Tenho a certeza, contudo, de que em todas as épocas, em todas as sociedades humanas, terá havido pessoas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela ou Jesus Cristo, para as quais o recurso à violência traduz um colapso da inteligência, da Justiça e da racionalidade. Essas pessoas, por poucas que sejam, seguram os frágeis fios do nosso destino comum.

Enquanto os pacifistas comemoravam o dia da não-violência, a guerra entre Israel e os palestinos; entre Israel e o Líbano; entre Israel e o Irã, entrou numa fase ainda mais assustadora.

Poucas horas após o Irã ter atacado Israel com mísseis balísticos, sem consequências graves, o governo de Benjamin Netanyahu declarou Antônio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, persona non grata, proibindo a sua entrada no país. Imagino que Guterres, antigo dirigente do Partido Socialista português, um homem plácido, discreto, que até agora nunca fora capaz de despertar paixões fortes, tenha acolhido a notícia com certo orgulho. Ser atacado por alguém como Netanyahu é quase um prêmio.

Benjamin Netanyahu e Ali Khamenei são incêndios convergentes. O desvario de um alimenta e justifica o do outro. Há anos que Netanyahu ambicionava envolver o Irã num conflito de grandes proporções, arrastando para o mesmo o seu principal aliado — os EUA. Tudo indica que, finalmente, terá êxito. Uma guerra ampla convém a Netanyahu, que dessa forma consolidará a sua posição no poder, adiando os inúmeros problemas com a Justiça por acusações de corrupção. Milhares de pessoas estão morrendo para evitar a prisão de um único homem.

O conhecido jornalista israelense Gideon Levy alertou há poucos dias, numa entrevista ao canal Democracy Now!, para o crescente isolamento e enfraquecimento do seu país: “Toda essa mentalidade de bombardeio e bombardeio, que dura já um ano, recusando qualquer tipo de diplomacia, isso não garantirá a segurança de Israel, sem falar no preço que o outro lado está pagando. Mas mesmo a segurança de Israel não vai melhorar. Agora estamos em uma situação menos boa do que há um ano. Posso te dizer que, em Tel Aviv, estamos mais assustados do que há um ano.”

Mais de 500 mil judeus israelenses abandonaram o país desde o horrível massacre de 7 de outubro. Imagino que esses, os que estão saindo, serão aqueles que se opõem à atual dinâmica de violência. Vozes pacifistas, como a de Gideon Levy, são cada vez mais raras em Israel — embora tão necessárias. Temos pela frente dias muito sombrios.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Tempo...

 

A única coisa no mundo é insaciável e constantemente consumidora... Gerações, guerras, paz, celebridades, os desconhecidos, os ricos, os pobres, a tecnologia, os planetas em que vivemos... Ela consome todos eles, um por um. Alguns lentamente, alguns rapidamente...

Os empreendedores de tecnologia querem criar países e substituir a democracia

Imagine se você pudesse escolher sua cidadania da mesma forma que escolhe se matricular em uma academia de ginástica.

Esta é a visão de um futuro não muito distante apresentada por Balaji Srinivasan.

Balaji, que é conhecido apenas pelo seu primeiro nome, é uma estrela no mundo das criptomoedas.

Ele é um empreendedor e investidor que acredita que a tecnologia pode se sair melhor em praticamente tudo o que os governos fazem hoje.

Eu vi Balaji expor suas ideias no ano passado em uma grande sala de conferências nos arredores de Amsterdã.


“Criamos novas empresas como o Google; criamos novas comunidades como o Facebook; criamos novas moedas como Bitcoin e Ethereum. Será que podemos criar novos países?”, perguntou ele enquanto atravessava o palco, vestido com um terno cinza levemente folgado e uma gravata frouxa.

Mais do que um astro do rock, ele parecia um gerente qualquer de um departamento de contabilidade.

Mas não se deixe enganar. Balaji é ex-sócio da gigante empresa de capital de risco Andreessen Horowitz. Ele tem patrocinadores com muito dinheiro.

O Vale do Silício adora “disrupção” — o ato de inovar rompendo paradigmas. As empresas emergentes de tecnologia vêm revolucionando a imprensa tradicional há anos. Agora elas também estão se aventurando em outras áreas: educação, finanças e viagens espaciais, por exemplo.

“Imagine mil startups diferentes, cada uma substituindo uma instituição tradicional diferente”, disse Balaji ao público.

“Elas existem paralelamente ao sistema estabelecido, vão atraindo os usuários, vão ganhando força, até se tornarem o novo.”

Se as startups pudessem substituir todas essas instituições diferentes, argumentou Balaji, elas também poderiam substituir os países.

Ele chama a sua ideia de “Estado em Rede”: nações emergentes. Funcionaria assim: as comunidades formam-se – inicialmente na Internet – em torno de um conjunto de interesses ou valores comuns.

Eles então adquirem terras, tornando-se “países” físicos com leis próprias. Estes coexistiriam com os Estados-nação existentes e, com o tempo, os substituiriam completamente.

Você escolheria sua nacionalidade da mesma forma que escolhe seu provedor de banda larga. Você poderia virar cidadão de um pequeno estado-nação cibernético que quisesse.

Não é novidade que as empresas tenham uma influência indevida em assuntos soberanos.

A expressão "República das Bananas" deriva do fato de que uma empresa americana, a United Fruit, governou a Guatemala durante décadas, a partir da década de 1930.

Além de possuir a maior parte das terras, ela administrava as ferrovias, os correios e o telégrafo. Quando o governo da Guatemala tentou recuar, a CIA ajudou a United Fruit instigando um golpe de Estado.

Mas este novo movimento tecnológico parece ter ambições ainda maiores. Ele não só quer que os governos existentes sejam submissos para que as empresas possam gerir os seus próprios assuntos, como também quer substituir os governos por empresas.

Há quem veja a ideia do “estado em rede” como um projeto neocolonial que substituiria líderes eleitos por ditadores corporativos que agiriam em benefício dos seus acionistas.

Mas outros pensam que essa seria uma forma de acabar com os Estados dominados pela regulamentação das atuais democracias ocidentais.

Você acha que isso parece apenas uma fantasia de um empreendedor de tecnologia? Na verdade, já existem elementos do Estado em rede no mundo.

A conferência em Amsterdã incluiu empreendedores de tecnologia apresentando algumas dessas “sociedades de startups”.

Existe a Cabin, uma “cidade em rede de aldeias modernas” que tem filiais nos Estados Unidos, Portugal e outros lugares; e Culdesac, uma comunidade com sede no Arizona projetada para trabalho remoto.

O conceito de Estado em rede de Balaji baseia-se na ideia de “cidade outorgada”, áreas urbanas que constituem uma zona econômica especial, semelhante às zonas francas.

Existem vários projetos deste tipo em construção em todo o mundo, incluindo na Nigéria e na Zâmbia.

Em um comício eleitoral recente em Las Vegas, o ex-presidente americano e candidato à Casa Branca Donald Trump prometeu que, se eleito em novembro, ele liberaria terras federais no Estado do Nevada para “criar novas zonas especiais com impostos e regulamentações ultra-baixas”, para atrair novas indústrias, construir habitações a preços acessíveis e gerar empregos.

O plano, segundo ele, iria reanimar “o espírito da fronteira e do sonho americano”.

Culdesac e Cabin são mais como comunidades online que estabeleceram bases territoriais.

Já a comunidade Próspera é diferente. Localizada em uma ilha perto do litoral de Honduras, ela se descreve como uma “cidade privada” que atende empreendedores.

A cidade promove o que chama de "ciência da longevidade", oferecendo terapias genéticas experimentais e não regulamentadas para retardar o processo de envelhecimento.

Administrada por uma empresa com fins lucrativos sediada em Delaware, nos Estados Unidos, a Próspera recebeu classificação especial do governo hondurenho anterior para criar suas próprias leis.

A atual presidente, Xiomara Castro, quer que a empresa vá embora e começou a retirar alguns dos privilégios especiais que lhe foram concedidos.

A Próspera está processando o governo hondurenho por US$ 10,8 bilhões.

Em algum momento durante a sessão de apresentação que durou todo o dia em Amsterdã, um jovem com um moletom cinza surgiu no palco.

Seu nome era Dryden Brown. Ele disse que queria construir uma nova cidade-estado, em algum lugar da costa do Mediterrâneo.

Ela não seria governada por uma burocracia estatal gigante, mas pela “blockchain”, a tecnologia das criptomoedas.

Seus princípios fundadores seriam as ideias de “vitalidade” e “virtude heróica”. Ele chamou isso de Praxis, a antiga palavra grega para “ação”. Os primeiros cidadãos desta nova nação, disse ele, poderão se mudar para lá em 2026.

Ele não foi muito específico sobre os detalhes. Mudar-se exatamente para onde? Quem construiria a infraestrutura? Quem administraria a cidade?

Dryden Brown mostrou um slide, sugerindo que a Praxis era apoiada por fundos com acesso a centenas de bilhões de dólares.

Por enquanto, porém, a “comunidade Praxis” existe principalmente na internet. Existe um site onde você pode solicitar a cidadania.

Não está claro quem são exatamente esses cidadãos. Dryden mostrou outro slide. Era um meme de Pepe: o triste sapo de desenho animado que se tornou mascote da direita alternativa durante a campanha de Trump em 2016.

Neste nicho mundial de nações emergentes, a Praxis tem reputação de ser inovadora.

Ela promoveu festas que ficaram famosas: há relatos de noites à luz de velas em enormes coberturas de Manhattan, onde programadores de computador se misturavam com modelos e figuras do “Iluminismo das Trevas” (um movimento cultural antidemocrático e reacionário) — que inclui pessoas como o blogueiro Curtis Yarvin, que defende um futuro totalitário em que o mundo seja governado por "monarcas corporativos".

Suas ideias são às vezes descritas como fascistas, algo que ele nega. Os participantes da festa em geral precisam assinar um acordo de confidencialidade. Os jornalistas não são bem-vindos.

Após sua apresentação, fui conversar com Dryden Brown. Ele parecia na defensiva e um pouco frio, mas me deu seu número de telefone. Enviei algumas mensagens, tentando iniciar uma conversa. Mas não tive sucesso.

Cerca de seis meses depois, vi um anúncio interessante no X: “Lançamento da revista Praxis. Amanhã à noite. Tire cópia das suas páginas favoritas.”

A hora ou local não foram indicados. Havia apenas um link onde você poderia se registrar para participar.

Fiz minha inscrição. Não houve resposta. Então, na manhã seguinte, enviei outra mensagem para Dryden Brown. E, para minha surpresa, ele respondeu imediatamente: “Ella Funt às 22h”.

Ella Funt é um bar e boate em Manhattan — anteriormente conhecido como Club 82, uma lendária casa noturna na cena gay de Nova York. Nos anos 50, escritores e artistas frequentavam o local para tomar coquetéis servidos por mulheres de smoking e assistir a shows de drag no porão.

Agora o local seria palco de uma festa exclusiva para pessoas tentando fundar um novo país. E, para meu espanto, eu estava convidado.

Mas eu estava no Estado de Utah, a 3 mil quilômetros dali. Se eu quisesse chegar a tempo, teria que pegar um vôo imediatamente.

Ainda assim, acabei sendo um dos primeiros a chegar. O lugar estava quase vazio, com algumas pessoas da Praxis colocando exemplares de sua revista no bar.

Folheei o papel caro e grosso, com muitos anúncios de coisas aparentemente aleatórias: perfumes, armas impressas em 3D e... leite.

Assim como Pepe, o Sapo, o leite é um meme da internet. Nos círculos da direita alternativa, postar um emoji de garrafa de leite branca é um sinal de supremacia branca.

A revista incentivava os leitores a "fotocopiar as páginas e colá-las por toda a cidade", como uma espécie de meme analógico. Uma máquina Xerox foi colocada no bar exatamente para isso.

Um grupo de jovens entrou, alguns usando botas de cowboy. No entanto, eles não pareciam pessoas que viviam muito ao ar livre.

Comecei a conversar com um deles. Ele se apresentou como Zac, um “cripto cowboy” de Milton Keynes, na Inglaterra (ele usava um chapéu Stetson de couro).

“Eu meio que represento o Velho Oeste americano”, disse ele. “Eu sinto que estamos em uma espécie de fronteira.”

Muitas pessoas associam criptomoedas a fraudes: dinheiro altamente volátil da internet, cujo valor pode desaparecer da noite para o dia.

Mas no mundo do Estado em rede, todos adoram criptomoedas. Eles acreditam que elas são o futuro do dinheiro — um dinheiro que os governos não podem controlar.

A próxima pessoa com quem falei se autodenominava Azi. Perguntei seu sobrenome. “Mandias”, ele respondeu com um sorriso.

Era uma referência a um soneto do poeta inglês Percy Bysshe Shelley: Ozymandias, rei dos reis.

O anonimato é uma parte importante da ética do mundo cripto. Tive a sensação de que ninguém naquela festa estava me falando seus nomes verdadeiros.

Mandias era originalmente de Bangladesh, mas cresceu no bairro de Queens, em Nova York. Ele era fundador de uma empresa de tecnologia emergente.

Ele acreditava que, tal como a imprensa tinha contribuído para o colapso da ordem feudal na Europa há 500 anos, hoje as novas tecnologias (criptomoedas, blockchain, inteligência artificial) causariam o colapso do Estado-nação democrático.

“Obviamente, a democracia é ótima”, disse ele. “Mas o melhor governante é um ditador moral. “Algumas pessoas chamam isso de rei filósofo.”

Azi disse que estava animado por estar à beira do que considera ser o próximo renascimento.

Mas antes deste renascimento, ele previu um “movimento ludita” contra as novas tecnologias que destruiria milhões de empregos e monopolizaria a economia global.

Os luditas fracassariam, observou Azi. No entanto, ele previu que o período de transição para o que chamou de “próxima fase” da evolução social humana – a fase do Estado em rede – seria violento e “darwiniano”.

Longe de ficar perturbado com esta perspectiva, Azi parecia entusiasmado com a ideia de que das cinzas da democracia emergiriam novos reis: ditadores corporativos que governariam a sua rede de impérios.

Fui até o bar e peguei uma bebida. Lá conversei com duas jovens que não pareciam fazer parte do grupo cripto.

Ezra era gerente de outra boate próxima, e sua amiga Dylan era estudante. Aparentemente elas tinham sido convidadas para acrescentar um pouco de glamour ao que era essencialmente uma festa de criptoempreendedores e geeks de informática. Mas elas tinham algumas ideias próprias sobre o Estado da rede.

“E se você não tiver funcionários suficientes no hospital ou na escola para cuidar das crianças?”, perguntou Dylan. “Não é realista começar uma cidade inteira sem qualquer governo.”

Para Ezra, toda a ideia parecia distópica. “Queríamos ver como seria uma reunião de um culto de verdade”, disse ela, brincando, eu acho.

Naquele momento, Dryden Brown, cofundador da Praxis, apareceu na festa. Quando ele saiu para fumar um cigarro, eu o segui.

A revista Praxis era uma forma de mostrar a nova cultura que ele esperava construir, ele me disse. A Praxis, afirmou ele, tratava da “busca da fronteira” e da “virtude heroica”.

Eu duvidava que Dryden conseguisse durar muito tempo numa carroça no Velho Oeste. Ele parecia exausto.

Eu queria fazer algumas perguntas específicas sobre o projeto do Estado em Rede: quem seriam os cidadãos deste admirável mundo novo? Quem o governaria? Por que usar tantos memes de extrema direita? E a pergunta de Dylan: quem iria trabalhar nos hospitais?

Mas éramos constantemente interrompidos pela chegada de convidados. Dryden Brown me convidou para visitar a “Embaixada Praxis” no dia seguinte.

Nos despedimos e voltei para dentro. A festa estava ficando mais selvagem. Ezra, Dylan e algumas amigas que pareciam modelos subiram na máquina de Xerox.

Elas estavam ocupadas fotocopiando, não páginas de revistas, mas partes de seus corpos. Peguei um exemplar da revista e saí.

De volta ao meu pequeno Airbnb acima de um supermercado chinês, folheei a revista. Ao lado dos memes da supremacia branca e dos anúncios de armas, havia um código QR que levava a um curta-metragem de 20 minutos contra o vazio da vida moderna e com nostalgia por um mundo de hierarquias e heroísmo que já não existe mais.

“Você está entretido e saciado”, entoa o narrador, “você parece produtivo, mas não é excelente”.

A voz fala dos “algoritmos que fazem você odiar a si mesmo e à sua própria civilização”.

Neste ponto do curta, a tela mostra uma figura animada apontando uma arma diretamente para o espectador.

“A mídia contemporânea proclama que ter qualquer ideal é fascista”, continua a voz. “Todo aquele que tem convicções é fascista.”

Seria isso um convite para adotar o rótulo de fascista? Este movimento parecia ansiar por uma concepção específica da cultura ocidental: um mundo nietzschiano em que os mais aptos sobrevivem, onde a ruptura e o caos dão origem à grandeza.

No dia seguinte, passei pela “Embaixada Praxis”, uma cobertura gigantesca na Broadway.

As prateleiras estavam realmente cheias de exemplares de Nietzsche, biografias de Napoleão e um volume intitulado O Manual do Ditador. Esperei um pouco, mas Dryden Brown nunca apareceu.

Saí me perguntando o que exatamente tinha testemunhado na noite anterior: seria um visão do futuro, no qual países como os Estados Unidos e o Reino Unido seriam envolvidos por uma teia de sociedades corporativas, um mundo no qual alguém poderia escolher se tornar cidadão de um pequeno Estado cibernético?

Ou estariam Dryden Brown e seus amigos apenas "trollando" — um grupo de empreendedores de tecnologia se passando por revolucionários de extrema direita para rir do establishment e se divertir?

Poderia Dryden Brown um dia se tornar um rei-CEO, governante de uma franquia de império de direita radical com postos avançados espalhados por todo o Mediterrâneo?

Eu duvido. Mas já existem medidas para promover mais portos livres e cidades autônomas.

E se a democracia estiver em apuros, o movimento do Estado em rede parece estar pronto para entrar em cena.

Gabriel Gatehouse 

Mortes em offline para encobrir as mortes na Faixa de Gaza

Relata o The Guardian, o mais importante jornal do Reino Unido: quando a conectividade de internet retornou a Jabalia, no norte de Gaza, após mais um apagão na última quinta-feira, o jornalista da Al Jazeera, Anas Al-Sharif, usou suas contas de mídia social para deixar o mundo saber o que aconteceu durante as horas em que a área ficou offline. Ataques aéreos israelenses atingiram várias casas na mesma rua no bairro de al-Hawaja, ele disse, matando ou ferindo cerca de 150 pessoas – mas ninguém sabia ao certo.

O cerco israelense cada vez mais apertado de Jabalia e várias outras partes do norte de Gaza — imposto por tanques e tropas terrestres — significou que equipes de defesa civil e médicos não puderam vir para resgatar aqueles presos sob os escombros. Nenhum repórter conseguiu ir, além de al-Sharif, que mora perto. “Nenhuma defesa civil, nenhuma cobertura, nada além de morte e destruição”, ele disse em um vídeo da rua silenciosa e escura. “Ninguém está vindo para salvá-los.”


Vários dias depois, ainda não há relatos oficiais ou abrangentes dos ataques em al-Hawaja, uma situação que se repete no norte de Gaza, à medida que o movimento e a comunicação se tornam cada vez mais difíceis após quatro semanas de uma nova ofensiva israelense na área.

Israel tem bloqueado rotineiramente as redes telefônicas e de internet de Gaza durante sua campanha de um ano contra o Hamas, desencadeada pelo ataque do grupo militante palestino em 7 de outubro de 2023. As redes também ficam rotineiramente offline devido a danos à infraestrutura ou à falta de eletricidade e combustível para os geradores.

No entanto, civis, humanitários, médicos e profissionais da mídia no norte de Gaza dizem que o problema está piorando, afetando os esforços de salvamento feitos por equipes de resgate e médicos, bem como a capacidade dos jornalistas de relatar as notícias.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Lula e eu estamos na idade da queda

Lula caiu no banheiro, cortou a cabeça e, em algumas horas, já estava apto para as tarefas cotidianas. Ele pratica musculação, caminha com regularidade, e sua dieta deve ser orientada por nutricionista. Nem todos os idosos, no entanto, têm a mesma sorte quando sofrem um acidente doméstico.

Estou lendo um belo livro da escritora portuguesa Lídia Jorge. Chama-se “Misericórdia” e se passa dentro de uma casa de repouso, chamada Hotel Paraíso. São precisamente 70 internos. Quando morre um, há nova admissão.

A narradora, que usa cadeira de rodas, ficou chocada quando uma recém-admitida descreveu sua queda. Era idêntica à que sofrera:

— Era demasiado semelhante ao que havia me acontecido três anos atrás, quando caí junto da porta de entrada e lá estive várias horas deitada de bruços, e o vizinho da Villa Sol me foi levantar do chão.

Havia sido como se os pulsos feridos tivessem aberto a decadência:

— Duas portas por onde a derrocada se infiltrava sem regresso.


O que é descrito no romance de Lídia Jorge costuma acontecer na realidade. Muitas vezes, a queda, dependendo da gravidade, pode ser o ponto de partida para uma decadência irreversível.

No meu tempo de redação, designaria um repórter para pesquisar a queda em idosos e aproveitaria a história do presidente para tornar o tema um pouco mais popular. Mas por que não fazer eu mesmo o trabalho? Lembro-me de que há uns dez anos sofri uma queda no banheiro de um hotel em Porto Velho. Não reparei no degrau e caí de costas. Senti dores incríveis por muitas noites e trabalhei no sacrifício, a câmera parecia uma peça de chumbo.

Os idosos muitas vezes têm problemas de equilíbrio, déficit de visão. Nesse caso, a casa torna-se uma perigosa armadilha. Precisa ser revista em todos os cômodos: tapetes enrolados, cadeiras sem braço, móveis ameaçadores. O banheiro, então, é um espaço escorregadio, e é preciso instalar barras para que se apoiem.

Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% das pessoas com mais de 80 anos sofrem quedas. A situação é um pouco melhor entre os de 70 anos, mas não muito: 32% sofrem quedas.

Quando se olham os números mais amplos do SUS, observa-se que o custo de internação de idosos por queda é bastante alto. Pouco mais de 1,5 milhão de casos no país custaram quase R$ 2,5 bilhões ao sistema.

É um problema mundial, como mostra o próprio relatório da OMS. É preciso atacar os fatores ambientais, como os que mencionei, a casa como uma espécie de armadilha, mas também os fatores comportamentais, como exercícios leves, boa nutrição e sono, além da supressão de tabaco e álcool.

A queda é considerada a terceira causa de morte entre os idosos. No Brasil, o número de óbitos praticamente dobrou entre 2013 e 2022. Eram 4.816, passaram para 9.592. Esse aumento acontece porque a população está envelhecendo, mas também porque a subnotificação caiu. Os fatores que determinam as quedas são os mesmos: perda da massa muscular, problemas de equilíbrio, visão precária. É preciso acrescentar que não há grande debate sobre políticas públicas que atenuem o problema.

A queda do presidente, pelo menos, ensejou uma crônica, mas quem sabe o Ministério da Saúde não aproveita a oportunidade para fazer uma campanha?

Na ausência de políticas públicas, a própria família precisa ampliar sua atenção. Quando as condições físicas decaem com as cognitivas, a situação torna-se mais delicada. Não só caímos da nossa própria altura, como podemos cair da cama. Poucos se dão conta das inúmeras possibilidades de queda, embora saibamos que, para cair, basta estar de pé.

Talvez o Brasil subestime esses temas porque sempre se considerou um país de jovens e não percebeu que a realidade já não permite mais essa ilusão.

A guerra


A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

O grau menos zero da política

People Have the Power, cantava Patti Smith em 1988, altura em que não havia dúvida quanto a quem eram as pessoas e, sobretudo, a que se referia quando falava de poder.

Hoje começamos a ter fundadas dúvidas em relação a este “povo” e à sua capacidade de, no meio de tantas ações de marketing, informação, desinformação, Inteligência Artificial e outras manobras cibernéticas, ser quem mais ordena.

Quando Ray Bradbury escreveu Fahrenheit 451, mal sabia quão perto estava da realidade, ao falar da Tirania da Minoria.

A sua distopia parecia ser algo longínquo, quase improvável e no entanto assistimos nos últimos tempos a uma verdadeira manipulação das massas por minorias com agendas próprias, subordinadas a interesses económicos globais, ou, como no caso português mais à nossa escala, interesses meramente individuais ou corporativos quanto baste.


Assumir que é possível manipular eleições através das redes sociais, da contra informação ou até da IA, deveria deixar-nos aterrorizados porquanto o que pensávamos ser um objectivo alcançado – uma pessoa , um voto, uma vontade – é a utopia vigente.

Deveria obrigar-nos a repensar o modelo e o modo de nos organizarmos enquanto sociedade. Mas a realidade é que vivemos um tempo sem lideres!

Um tempo em que o poder acaba nas mãos de senhores da guerra, grupos económicos, religiosos que nada têm a ver com política, na verdadeira acessão do termo, na fórmula que Aristóteles enunciou.

Talvez tenhamos já remetido a noção de “política” e de “ políticos” para o reduto dos mitos, onde unicórnios não são mais cavalos alados mas grandes e novas empresas surgidas em tempo record.

Talvez sejamos apenas meia dúzia de velhos do Restelo a chamar a atenção para que a República vai completamente nua e nem o cabelo lhe tapa as “ vergonhas”. Antes as exibe como troféu.

Talvez…

Mas onde iremos parar com um Mundo sem estadistas, sem projectos humanistas e colectivos? Onde iremos parar quando se recrutam dirigentes ao mais alto nível nas fileiras das mocidades partidárias, transvestidas de agências de emprego garantido? Onde iremos parar sem vozes com peso, com um passado, com visão de futuro abrangente?

Temo bem que, no caso português e com a nossa tendência ancestral de importar as modas “ lá de fora” acabemos como os EUA.

A duas semanas das eleições mais importantes para o chamado Mundo Livre (?) e quando pensamos que já vimos tudo, eis que alguém tem a ideia fantástica de comprar, sem pejo ou subterfugio, o voto do eleitor comum.

Numa Roda da Sorte eleitoral, sorteia-se um milhão de dólares. É esse om preço da cidadania, da consciência política, do voto que custou sangue e lágrimas para se tornar universal. Um milhão de dólares é muito dinheiro! E se cada homem tem um preço, caso a moda pegue , por cá, e com a crise económica que vivemos desde os tempos de D. Afonso Henriques, a coisa é capaz de se fazer por cem mil euros e alguns trocos.

Está claro que dentro da cabinete de voto a decisão é de cada um e não é possível controlar se de facto o milhão foi ou não bem empegue.

Bem não é possível para já, pois há até quem, a um outro nível, considere legitimo o voto por e-mail e o voto electrónico, muito embora evite a grande abstenção, pode ser perigoso caso não seja firmemente controlado!

Acho sempre imensa graça aos nossos políticos quando afirmam publicamente que em política não vale tudo. Por norma são declarações feitas após tudo ter valido num jogo político qualquer.

Mas mesmo assim e como sempre, os EUA batem-nos aos pontos e colocam a Europa e o Mundo numa jogada praticamente de xeque mate internacional.

Não morro de amores pela Kamala e não considero que o mérito seja uma questão de género ou etnia. Mas entre dois males o menor, pois que Trump será, não tenho qualquer dúvida, o carrasco que decapitará uma Europa sem liderança, sem estadistas, sem rumo.

Com Trump não tenho qualquer dúvida que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia acabará em 24 horas com a capitulação da primeira e a vitória e o alargamento territorial da segunda.

Como também não me surpreende que no Médio Oriente o conflito termine rapidamente e em força com Israel a ocupar toda a zona e a deixar uma faixa de no man’s land de forma a criar um perímetro de segurança.

Quanto à Europa que não se soube construir como alternativa e modelo de intervenção internacional, será cada vez mais irrelevante, como é já a outro nível a Organização das Nações Unidas.

O grau zero da política é aquilo a que um grande amigo meu, muito jovem, dizia há dias desgostoso e desiludido com tudo isto: Arrasar tudo e pôr galinhas.

Se calhar têm mais cérebro que alguns de nós que continuamos a picar o chão em busca duma minhoca gorda.

Por que ser máquina?

Resumos de resumos, resumos de resumos de resumos. Política? Uma coluna, duas frases, uma manchete! Depois, no ar, tudo se dissolve! A mente humana entra em turbilhão sob as mãos dos editores, exploradores, locutores de rádio, tão depressa que a centrífuga joga fora todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo!

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

Ray Bradbury, "Fahrenheit 451"

A capa é verde, mesmo que digam que é vermelha

Uma professora de Filosofia está em frente a um anfiteatro cheio de universitários. Quando lhes mostra uma capa de cartolina e lhes pergunta de que cor é, todos respondem que é verde. A professora pede, então, aos alunos que, caso alguém chegue atrasado àquela aula e ela volte a perguntar a cor da capa, respondam que é vermelha. Pouco depois, entra um retardatário. A professora pergunta a vários alunos, um por um, de que cor é a capa. “Vermelha”, repetem, um após outro, perante o olhar incrédulo do estudante que chegou atrasado e se vai virando para trás, confuso com as respostas. Porém, quando chega a sua vez de responder, nem hesita: “É vermelha”, diz.

Na cena da série catalã Merlí, a professora usa a resposta para demonstrar a que ponto somos suscetíveis à pressão que exercem sobre nós as opiniões dos outros, “mesmo no que se refere à perceção física”. E explica como Nietzsche divide o mundo entre os que seguem os seus próprios desejos, impossíveis de dominar, e os que seguem os outros, fracos e sujeitos às vontades dos que os rodeiam.


“Não se preocupe. Este é o pão nosso de cada dia”, diz a mulher com um ar condescendente ao estudante embaraçado. “Somos muito submissos e acabamos por aceitar as ideias da maioria. Até na Alemanha, as pessoas foram capazes de acreditar no que repetia a propaganda nazi. Já dizia Kant, com toda a sua amargura, que o ser o humano é o único animal que precisa de um amo para viver”.

Na série, o aluno justifica-se, dizendo que a pergunta lhe pareceu um jogo e que se wlimitou a replicar a resposta que lhe parecia certa, tendo em conta o que tinham dito os outros. Na verdade, o maior perigo não está em quem repete, sem convicção, o que diz a maioria, embora esse seja um problema cada vez maior. O risco que enfrentamos está na forma como há cada vez mais pessoas capazes de acreditar convictamente que a capa de cartolina verde é vermelha.

O viés cognitivo é descrito como um erro de pensamento. Uma falha que ocorre quando o nosso cérebro segue um atalho, respondendo a um padrão conhecido. Vemos não o que lá está, mas o que nos parece provável que esteja, tendo em conta as nossas experiências passadas e crenças.

A forma como vemos o mundo é, em grande medida, construída a partir de vivências, mas também da valorização que fazemos dos relatos que ouvimos. Quem nos conta a história é uma parte importante de como a vamos ouvir. A autoridade que atribuímos às fontes tem também muito que ver com a forma como essas fontes validam ou não as nossas próprias conceções. E é aí que entra aquele que tem sido o maior catalisador da polarização das nossas sociedades: o insondável algoritmo.

O algoritmo traz até nós ideias com as quais acredita que vamos ter afinidade. Mas, como se move também pela capacidade de gerar reações, essas ideias são quase sempre envoltas num manto de emotividade capaz de acionar o grande motor de reação que é a indignação. E o problema é que a indignação é uma droga dura. Obriga a doses cada vez mais elevadas para gerar o mesmo efeito.

O resultado são grupos de pessoas unidas por emoções descontroladas, juntas em crenças que se vão reforçando mutuamente. Incapazes de pôr em causa a forma como pensam. Muitas vezes sem sequer ter acesso a ideias que ponham em causa a forma como pensam.

Como jornalista lido muitas vezes com isto. As pessoas assumem uma determinada versão. E eu insisto, uma e outra vez, acumulando dados, citando fontes, acrescentando descrições e imagens. É exasperantemente rara a vez em que alguém muda de opinião depois de confrontado com uma notícia escrita segundo as regras de contraditório e verificação, com fontes identificadas e elementos que a sustentam. No máximo, consigo um sorriso com reticências, que deixa no ar a dúvida e não é um sinal de adesão. E isto, claro, quando se consegue convencer um leitor a ir para lá do título, que essa é já em si uma vitória para quem escreve.

O meu trabalho é escrever que a capa de cartolina é verde. Não porque eu digo que é verde, mas porque o método jornalístico que sigo permite concluir que é verde. Não sei quantas pessoas acreditam ainda na importância de ter um jornalista a escrever que a capa de cartolina é verde. Não sei quantas estarão disponíveis para aceitar que é verde depois de ter sido induzidas a acreditar que era vermelha. Mas foi para isto que escolhi esta profissão.

Foram muitas as vezes em que escrevi que a capa de cartolina era verde e isso ajudou a aumentar o número de pessoas que a viam dessa cor. Noutras, falhei. Mas não vou desistir. A capa de cartolina é verde.

Tarcísio de Freitas, um governador inocente e sem malícia

Foi assim em 1989, na véspera do dia da primeira eleição direta para presidente em segundo turno (Collor x Lula) depois do fim da ditadura militar de 64: a polícia paulista informou que os sequestradores do empresário Abílio Diniz, recém-libertado, eram ligados ao PT, e que camisetas e cartazes do partido haviam sido encontrados no local onde Diniz esteve preso.

A notícia espalhou-se pelo país por meio de jornais e de emissoras de rádio. O ministro da Justiça desmentiu-a. Mas quanto a mentira custou a Lula em número de votos, não se sabe, nunca se soube. Como nunca se saberá quantos votos poderá ter perdido Guilherme Boulos (PSOL) com a notícia de que setores do crime organizado recomendaram o voto nele para prefeito de São Paulo.

O portador da notícia foi o governador Tarcísio de Freitas, bolsonarista de quatro costados que posa de direita civilizada. Segundo a Folha de São Paulo, ele não apresentou provas do que disse. Mas nem a Folha, nem outros veículos de comunicação, se negaram a publicá-la. A licença para ferir ou matar agora é assim: você escreve “sem apresentar provas”, e passa a notícia adiante.


Aconteceu em 2018 com o kit-gay que beneficiou Bolsonaro na reta final do segundo turno contra Fernando Haddad (PT). Não lembro de termos nos referido a ele como “suposto kit-gay”. Antes de publicar, cabe à imprensa, supostamente séria, investigar uma suposta mentira ou uma eventual verdade. O kit-gay foi uma mentira como tantas outras publicadas à época.

Deu-se crédito a supostos comunicados de facções criminosas só porque um governador de Estado os divulgou. Os ditos comunicados foram apreendidos em setembro. A justiça de São Paulo não foi informada a respeito, nem a Polícia Federal. Mas indagado sobre a existência dos comunicados sem assinatura, cuja autoria sua polícia sequer investigou, Tarcísio falou sobre eles.

O que pretendeu com isso? Favorecer seu candidato a prefeito de São Paulo e prejudicar Boulos? Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição, não precisava de tal ajuda. Estava a poucas horas de ser reeleito, e Tarcísio sabia. Diante da má repercussão do seu gesto, Tarcísio disse que lhe faltou “malícia”, “experiência” e desculpou-se. Tadinho dele. Aprendendo com as lições que a vida lhe oferece.

O que fará a justiça? Nada, ora. Quanto aos habituais cúmplices de mentiras que caracterizam abuso de poder entre outros crimes, esses dirão, como já começaram a dizer desde ontem para salvar a própria face, que terá sido algo “muito grave” caso se confirme que a manobra sórdida de Tarcísio teve o claro propósito de influir nos resultados da eleição. Como se prova uma intenção?

Viva, pois, a democracia, a imprensa responsável, a justiça que se finge de cega quando lhe é conveniente e o direito à mentira assegurado pela Constituição.

domingo, 27 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Crimes de guerra em Gaza

Salvação

Quando as últimas moléculas de liberdade se escondiam na poesia, as pessoas sufocadas pela repressão procuravam-nas, encontravam-nas e respiravam-nas para sobreviver

Ana Blandiana, poeta premiada com o Princesa de Astúrias

A liberdade afetiva das escravizadas

A preta Umbelina não saía de casa fazia quase um ano. João, escravizado pelo padre Oliveira, alimentava pelas ruas da cidade gaúcha de Cachoeiro do Sul o boato de assassiná-la. Vingaria sua honra ferida, mesmo que sua vida findasse na forca. No dia 19 de dezembro de 1851, Umbelina foi buscar um barril de água na fonte. Embalava medo. Em frente à marcenaria deu-se o encontro. João a agrediu. Umbelina caiu atordoada. O homem fugiu.

O motivo da violência: Umbelina rejeitou João e terminou a relação. Tinha um novo amor. O escravizado amargurado tentou reconquistá-la com presentes e dinheiro. Nova recusa e uma acusação, a mulher deduziu que os regalos eram roubados. João contou para todos que Umbelina aceitou o dinheiro e juntou-se com outro. O conflito foi parar na Justiça.

Como se desenrolavam as relações amorosas entre escravizados? Nossa primeira resposta vem do artigo “Mulheres escravizadas e relacionamentos afetivos: pensando projetos amorosos e as masculinidades negras a partir da interseccionalidade”, de Marina Camilo Haack, doutora em História Social na USP, publicada na Revista Em tempo De Histórias, da Unb (Universidade de Brasília).

O tema gênero e escravidão vem ganhando cada vez mais espaço na pós-graduação. A intenção é desfazer estereótipos, preconceitos e dar nitidez às imagens das mulheres no período, enxergando resistências e acordos, sem jamais esquecer o contexto de violência e exploração de seus corpos.

Além dos serviços domésticos, algumas escravizadas tinham o direito à rua, fazendo compras ou trabalhando em quitandas, lavando as roupas nos rios. Essa certa mobilidade oferecia os perigos dos abusos sexuais e roubos, mas permitia a presença em diferentes espaços, “possibilitou firmar parcerias, laços de amizade e solidariedades que ultrapassavam os limites da propriedade, ter parceiros afetivos, sexuais e desenvolver relações mais “simétricas”. Assim, algumas mulheres conseguiam escolher seus parceiros. Assim, construiu-se o estereótipo supersexualizado da mulher negra, já que essa liberdade era inaceitável para a “honra” do branco europeu e seus casamentos arranjados entre famílias.

O trabalho de Haack utiliza processos criminais como fonte de pesquisa. Entre mortes e agressões em uma sociedade patriarcal, tenta encontrar pistas das teias afetivas dessas mulheres. Os crimes passionais entre escravizados estavam relacionados às rupturas de relacionamentos ou na defesa da vida da parceira(o).

Indignada com as ameaças a Umbelina, no dia 22 de dezembro de 1851 a escravizadora Inocência Maria Pacheco entregou uma petição ao delegado municipal de Cachoeiro do Sul. Por empatia ou sororidade? Pelo prejuízo. Por causa de João, não podia utilizar os serviços da preta adequadamente. A sentença foi de 100 açoites. Com a atuação de um advogado e do padre, a pena diminuiu para 20 açoites e um ferro atado ao pescoço por um mês.

Se ao menos ...

O que está acontecendo com os palestinos agora é nada menos que um Holocausto. E sim, estou usando a palavra deliberadamente — porque até mesmo os sobreviventes do Holocausto estão chamando assim. Pessoas que viveram as piores atrocidades do século XX estão olhando para o que está acontecendo em Gaza e vendo os mesmos horrores se desenrolarem. Anistia Internacional, Human Rights Watch, o Tribunal Penal Internacional — todos disseram a mesma coisa: isso é genocídio, pura e simplesmente. Mas as autoridades israelenses e seu coro de apoiadores continuam rejeitando esses termos — eles ainda insistem que este é um conflito local normal. A evidência está bem na nossa frente gritando que isso não é. Uma olhada no TikTok ou no Twitter, e você se depara com imagens de revirar o estômago das IDF e seus soldados, praticamente ostentando seus crimes.

Não vamos medir palavras aqui. A IDF foi acusada de crimes de guerra que parecem saídos de um pesadelo — prisioneiros estuprados até a morte, médicos deliberadamente alvejados com drones, jornalistas mortos por atiradores, campos de refugiados bombardeados até o esquecimento, hospitais e escolas destruídos, pessoas inocentes assassinadas. E só para torcer a faca, eles transformaram o Holocausto em uma arma, usando o sofrimento indizível dos judeus nas mãos dos nazistas como um escudo para silenciar qualquer um que ouse criticá-los. Você não pode inventar essas coisas. Agora, a ONU diz que Israel está ameaçando matar de fome o norte de Gaza. Passamos do manual de guerra para a definição de aniquilação em massa.

Mas aqui estamos nós, fingindo que isso é apenas mais um "conflito normal". Não é. A história não será gentil com aqueles que ficaram parados e não disseram nada. Isso é genocídio. Isso é um Holocausto.
Daniel Medina (EUA), cartunista autor da ilustração

'O Exterminador do Futuro' previu nossos medos sobre inteligência artificial

Em um episódio da série da HBO Silicon Valley, Thomas Middleditch (Richard Hendricks) está explicando sua plataforma de machine learning (aprendizado automatizado) Pied Piper para participantes de um grupo focal, quando um deles inevitavelmente a compara ao filme O Exterminador do Futuro, de James Cameron, de 1984.

"Não, não, não", insiste o exasperado Middleditch.

"Posso garantir que não há nenhuma situação do tipo Skynet aqui. Não, o Pied Piper não vai se tornar senciente e tentar dominar o mundo."

Tarde demais. Ele perdeu a atenção dos participantes.

Com robôs assassinos e um sistema de inteligência artificial (IA) rebelde, chamado Skynet, O Exterminador do Futuro se tornou sinônimo do espectro de uma IA que se volta contra seus criadores humanos.

Os editores de imagens ilustram rotineiramente artigos sobre inteligência artificial com a caveira cromada do ciborgue assassino T-800 do filme. O roboticista Ronald Arkin usou trechos do filme durante uma palestra de advertência de 2013 chamada "Como NÃO construir um Exterminador do Futuro".


Mas o filme divide opiniões. O filósofo Nick Bostrom, cujo livro Superinteligência, de 2014, popularizou o risco existencial da "IA desalinhada" (inteligência artificial que não está alinhada com os valores e bem-estar humanos), admitiu que sua esposa o "provoca em relação ao Exterminador do Futuro, e o exército de robôs".

Em seu livro The Road to Conscious Machines ("O Caminho para Máquinas Conscientes", em tradução livre), o pesquisador de IA Michael Woolridge dedica um capítulo inteiro a reclamar sobre "a narrativa do Exterminador do Futuro relacionada à IA".

Há filmes influentes mais recentes, e mais plausíveis, sobre inteligência artificial, incluindo Ex Machina e Ela, mas quando se trata dos perigos da tecnologia, O Exterminador do Futuro reina supremo 40 anos após seu lançamento.

"É quase, de uma forma engraçada, mais pertinente agora do que quando foi lançado", disse Cameron ao site The Ringer sobre o filme e sua sequência de 1991, "porque a IA agora é uma coisa real com a qual temos que lidar — e, na época, era uma fantasia."

Essa é uma grande conquista para um filme que, na verdade, não está particularmente interessado na inteligência artificial.

Antes de mais nada, é um thriller simples e sinistro sobre um "homem" imparável que persegue uma mulher assustada, mas habilidosa. O T-800 é um assassino implacável, nos moldes do personagem Michael Myers, de Halloween. Cameron o chamou de "filme de ficção científica de terror".

Em segundo lugar, é um filme de viagem no tempo sobre o tema "destino x livre arbítrio", como disse Cameron.

A premissa rapidamente resumida é que, em algum momento entre 1984 e 2029, os EUA confiaram todo o seu sistema de defesa à Skynet. Um dia, a Skynet ganhou superinteligência — uma mente própria —, e deu início a uma guerra nuclear global.

Os sobreviventes da humanidade travaram então uma rebelião de décadas contra o exército de ciborgues da Skynet.

Em 2029, a resistência humana está à beira da vitória graças à liderança de John Connor, e a Skynet envia um T-800 (Arnold Schwarzenegger) para o ano de 1984, com a missão de matar a futura mãe de John, Sarah (Linda Hamilton), antes que ela engravide.

A resistência responde com o envio de Kyle Reese (Michael Biehn) para deter o T-800 — e salvar Sarah. Em um desses paradoxos de loop temporal que os espectadores não devem prestar muita atenção, Kyle se envolve com Sarah, e acaba se tornando o pai de John. O futuro é salvo.

O Exterminador do Futuro é, então, um thriller, uma história de amor, uma reflexão sobre o livre-arbítrio com viagem no tempo e uma sátira sobre nossa dependência da tecnologia. É anticorporativo, antiguerra, antiarmas e, em grande parte, antimáquina.

A tecnologia, de secretárias eletrônicas a walkmans, está envolvida quando as pessoas são mortas no filme. Mas tem muito pouco a dizer sobre a inteligência artificial propriamente dita.

O Exterminador do Futuro se tornaria um filme extremamente lucrativo, arrecadando US$ 78,4 milhões diante de um orçamento de US$ 6,4 milhões, mas Cameron não tinha expectativa de criar uma referência cultural.

Ele escreveu o roteiro em um hotel decadente em Roma, em 1982, após ser demitido do seu primeiro trabalho como diretor, em Piranha 2: Assassinas Voadoras; e sua produtora, Gale Ann Hurd, só conseguiu arrecadar um orçamento de US$ 6,4 milhões.

O ator principal, um ex-fisiculturista de talento duvidoso, não tinha grandes expectativas. Schwarzenegger contou a um amigo sobre "um filme de m... que estava fazendo, vai levar algumas semanas".

O próprio Cameron esperava que O Exterminador do Futuro fosse "massacrado" nas bilheterias pelos dois épicos de ficção científica daquele outono: Duna, de David Lynch, e 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, de Peter Hyams, uma sequência logo esquecida de 2001 - Uma Odisseia no Espaço.

Há uma sincronicidade interessante aqui: não só O Exterminador do Futuro superou o desempenho de 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, como a Skynet suplantou o computador assassino HAL 9000 de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, como a imagem dominante da inteligência artificial ​​que se rebela.

Muito antes do campo da IA existir, seus perigos potenciais se manifestaram na forma do robô criado por Karel Čapek em sua peça RUR, de 1921, e foram popularizados pelo filme Metrópolis, de Fritz Lang, de 1927.

Em seu excelente livro sobre O Exterminador do Futuro, da série de Clássicos Modernos do Instituto de Cinema Britânico (BFI, na sigla em inglês), Sean French sugere que a cena mais memorável do filme — o T-800 saindo das chamas, com seu esqueleto metálico exposto, após seu revestimento de carne ter derretido — foi uma referência ao robô queimado em Metrópolis.

Na década de 1920, era óbvio que a inteligência artificial andaria e falaria, como o monstro de Frankenstein. A popularidade dos robôs letais levou o escritor de ficção científica Isaac Asimov a elaborar, em 1942, as "três leis da robótica": a primeira tentativa de definir a inteligência artificial ética.

No mundo real, o campo da inteligência artificial começou oficialmente em 1956, durante um curso de verão na Universidade de Dartmouth, organizado pelos cientistas da computação John McCarthy (que cunhou o termo) e Marvin Minsky.

A ambição deles era desenvolver máquinas que pudessem pensar como seres humanos, mas isso se mostrou muito mais difícil do que eles imaginavam.

A história da inteligência artificial ​​é marcada por altos e baixos, as chamadas "primaveras" e "invernos" da IA. As promessas alucinantes atraem atenção, financiamento e talentos; mas sua falha em se concretizar faz com que todos esses três elementos entrem em colapso.

O boom da década de 1960, antes de a dimensão dos obstáculos técnicos se tornar aparente, é conhecido como a Era de Ouro da IA. O hype extravagante sobre "cérebros eletrônicos" entusiasmou o diretor Stanley Kubrick e o escritor Arthur C. Clarke, que incorporou a IA em 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968, na forma de HAL 9000.

O nome (sigla em inglês para "Computador Algorítmico Heuristicamente Programado") foi dado pelo próprio Minsky, contratado como consultor por Kubrick. Os olhos vermelhos do T-800 são, sem dúvida, uma homenagem a HAL — ter assistido a 2001: Uma Odisseia no Espaço na infância, colocou Cameron na trajetória para se tornar cineasta.

Daniel Crevier, um historiador especializado em IA, comparou a situação de HAL (computador mal programado que dá errado) com a do Colossus (computador que se torna uma nova forma de vida semelhante a um deus), do livro homônimo de DF Jones, de 1966.

No romance de Jones, o governo dos EUA confia de forma imprudente todo seu maquinário de defesa ao supercomputador. O Colossus adquire senciência, une forças com sua contraparte soviética e chantageia a humanidade para que se submeta a uma ditadura tecnológica: renda-se ou enfrente a aniquilação nuclear. O Colossus é um protótipo da Skynet.

Nem HAL nem Colossus tinham — ou precisavam — de corpos. A brilhante inovação de Cameron foi combinar o computador fora de controle (Skynet) com o ciborgue assassino (T-800).

O T-800 é uma forma de IA com propósito único que é capaz de aprender com seu ambiente, resolver problemas, executar tarefas físicas sofisticadas e imitar vozes, mas tem dificuldade para manter uma conversa. A Skynet, ao que parece, pode fazer tudo, menos se mover.

A Skynet foi um produto da segunda primavera da IA. Enquanto Cameron escrevia o roteiro, o cientista da computação britânico-canadense Geoffrey Hinton estava repensando e revitalizando a pesquisa sobre a abordagem de rede neural para IA: modelar a inteligência da máquina com base nos neurônios do cérebro humano. A Skynet é uma IA de rede neural.

Hinton, que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Física, recentemente se tornou um pessimista em relação à IA ("Minha intuição é: estamos fritos. Este é o verdadeiro fim da história"), mas, de acordo com um perfil preparado pela revista New Yorker, ele gostou de O Exterminador do Futuro em 1984: "Não o incomodava que a Skynet... fosse uma rede neural; ele ficou satisfeito em ver a tecnologia retratada como promissora".

O nome Skynet também pode ter sido uma alusão ao programa Guerra nas Estrelas, o sonho fracassado do presidente americano Ronald Reagan de criar um escudo antinuclear ao redor dos EUA com lasers baseados no espaço. Felizmente para o futuro da franquia, também ecoou inadvertidamente a internet — palavra que existia em 1984, mas só começou a ser amplamente usada a partir da década de 1990.

Os nomes amalgamados de novas startups ambiciosas, como IntelliCorp, Syntelligence e TeKnowledge, possivelmente inspiraram Cameron a transformar o nome original da criadora da Skynet, Cyber Dynamics Corporation, em Cyberdyne Systems.

Ao assistir novamente ao filme O Exterminador do Futuro, é surpreendente descobrir que a palavra Skynet é pronunciada apenas duas vezes.

De acordo com o personagem Kyle Reese, ela era: "Nova. Poderosa. Conectada a tudo, confiável para executar tudo. Dizem que ficou inteligente... uma nova ordem de inteligência. Então, viu todas as pessoas como uma ameaça, não apenas as do outro lado. Decidiu nosso destino em um microssegundo... extermínio".

O interesse do filme em relação à IA para por aí. Como Cameron sempre disse, os filmes de O Exterminador do Futuro são, na verdade, sobre pessoas, e não sobre máquinas.

A sequência de sucesso O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final, de 1991, preencheu um pouco a história. Ela surge de outro paradoxo temporal: a unidade central de processamento e o braço direito do Exterminador original sobreviveram à sua destruição, e permitiram que o cientista Miles Bennett Dyson (Joe Morton), da Cyberdyne, desenvolvesse a Skynet.

A missão dos heróis agora não é apenas salvar John Connor, de 10 anos, do ciborgue T-1000 que viaja no tempo, mas destruir a Skynet em seu berço digital.

Em O Exterminador do Futuro 2, um ciborgue T-800 na forma de Schwarzenegger é o protetor, em vez de caçador — e, portanto, o portador da seguinte explicação:

"O sistema entra em operação em 4 de agosto de 1997. Decisões humanas são removidas da defesa estratégica. A Skynet começa a aprender, a uma taxa geométrica. Ela se torna autoconsciente às 2h14, horário do leste (nos EUA), em 29 de agosto. Em pânico, eles tentam desligá-la."

A Skynet revida lançando mísseis nucleares na Rússia, sabendo que o contra-ataque vai devastar os EUA. Três bilhões de pessoas morrem em 24 horas: no Dia do Julgamento Final.

Este é um relato fundamentalmente diferente do de Reese. No primeiro filme, a Skynet interpreta sua programação de forma exagerada, considerando toda a humanidade uma ameaça. No segundo, ela está agindo por interesse próprio. A contradição não incomoda a maioria dos espectadores, mas ilustra uma divergência crucial sobre o risco existencial da IA.

É provável que um leigo imagine a IA desalinhada como rebelde e malévola. Mas especialistas como Nick Bostrom insistem que o perigo real está na programação descuidada.

Pense na vassoura do aprendiz de feiticeiro em Fantasia, da Disney: um dispositivo que segue obedientemente suas instruções a extremos desastrosos.

O segundo tipo de IA não é humano o suficiente, carece de bom senso e julgamento moral. O primeiro é humano demais — egoísta, ressentido, sedento de poder. Ambos poderiam, em teoria, ser genocidas.

O Exterminador do Futuro, portanto, tanto ajuda quanto atrapalha nosso entendimento da inteligência artificial: o que significa para uma máquina "pensar", e como isso pode dar terrivelmente errado.

Muitos pesquisadores de IA se ressentem da obsessão pelo filme O Exterminador do Futuro por exagerar o risco existencial da tecnologia ​​em detrimento de perigos mais imediatos, como desemprego em massa, desinformação e armas autônomas.

"Primeiramente, ele faz com que a gente se preocupe com coisas com as quais provavelmente não precisamos nos preocupar", escreve Michael Woolridge.

"Mas, em segundo lugar, desvia a atenção das questões levantadas pela IA com as quais deveríamos nos preocupar."

Cameron revelou à revista Empire que está planejando um novo filme do Exterminador do Futuro que vai descartar toda a bagagem narrativa da franquia, mas manter a ideia central de humanos “impotentes” contra a IA.

Se isso acontecer, será fascinante ver o que o diretor tem a dizer sobre a inteligência artificial, agora que é algo sobre o que conversamos — e nos preocupamos — todos os dias.

Talvez a mensagem mais útil de O Exterminador do Futuro para pesquisadores de IA seja a de "destino x livre arbítrio": as decisões humanas determinam os resultados. Nada é inevitável.

sábado, 26 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Sobre humanidade

Marjane Satrapi, iraniana refugiada em França, conta em quadrinhos sua juventude marcada pela revolução e pela guerra no Irã, na série “Persépolis”, saga que milhões de cópias e foi traduzida para mais de cem idiomas. Satrapi recebeu esta semana o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em Oviedo (Espanha). Este foi o discurso de agradecimento;

Em primeiro lugar, queria expressar a minha profunda gratidão por este prémio extraordinário que me concederam.

E agora, já que é disso que estamos falando, vamos falar da humanidade.

Entre o que os biólogos chamam de animais autênticos, ou seja, mamíferos, o homem é o único que mata a sua fêmea. E qualificamos esse ato como bestial, já que nenhum outro animal, fora de nós, o comete. Isso é humanidade.

Mas também há humanos que perdem a vida às mãos dos seus torturadores para proteger os seus semelhantes, não para os denunciar, e sei muito bem do que estou a falar. Isso também é chamado de humanidade.


Há os membros da orquestra que tocam uma sinfonia e nos dão a forma mais pura de beleza, e há aqueles que orquestram guerras e que, por cada cem litros de sangue derramado, recebem uma nova medalha.

E aplaudimos uns aos outros com o mesmo fervor.

Com isso quero lhe dizer que não tenho uma visão idealizada da humanidade e que eu, em mim, vivencio essa dualidade. Aceito tanto a minha violência como a minha benevolência, esperando sempre que esta prevaleça sobre a primeira.

Durante muito tempo acreditei que a chave para qualquer ser humano viver com dignidade, para que nunca sofresse brutalidade ou humilhação por causa do seu sexo, da sua etnia ou da sua cor, era a educação. Mas Goebbels não tinha doutorado em filosofia? O Dr. Mengele não fez o Juramento de Hipócrates?

Estaremos errados quando definimos educação? Talvez antes de educar os nossos filhos para terem sucesso económico e social, devêssemos ensinar-lhes que o verdadeiro sucesso reside acima de tudo no humanismo.

Que o que permitiu ao homem colocar-se acima de todos os seres vivos foi ele ter criado sociedades; e uma sociedade só existe porque - ao contrário de um animal que está condenado a morrer quando quebra uma perna - nós cuidamos dos nossos semelhantes. Nós os carregamos em nossos ombros e os colocamos em segurança.

O homem sozinho não sobrevive na natureza. Só sobrevive juntando-se a outros e criando sociedades. E a condição sine qua non para conseguir isso é a empatia.

Talvez na educação, em vez de ensinarmos os nossos filhos a aprender tudo de cor e a recitar como papagaios, devêssemos ensinar-lhes ética, civilidade e, acima de tudo, compaixão e bondade. E garanto que não sou daqueles que dão a outra face. Por um tapa recebido eu devolveria dez, mas procuro nunca ser aquele que acerta o primeiro.

E, por fim, lerei para vocês um poema de Saadi, um grande poeta iraniano do século XIII:

O ser humano faz parte do mesmo corpo,
e tem a mesma origem.
Quando a vida causa dor a um membro
os outros não descansam.
Você que é indiferente ao sofrimento dos outros,
Você não merece ser chamado humano.

Obrigado por me ouvir e à humanidade em sua totalidade.

Israel perdeu a inocência

Ao contrário de vários escritos sobre a recente guerra no Médio-Oriente priorizando, por vezes algo doentiamente, ‘o estado ao que as coisas chegaram’, não é propósito neste artigo tecer considerandos críticos sobre a razia que vai ocorrendo contra povo palestiniano na Faixa de Gaza, por obra do Governo de Benjamin Netanyahu ( t.c.p. “Bibi”).

A tónica é avaliar a credibilidade ética de um Estado e, por tabela, de todo um estrato populacional (exceções aparte), ao qual historicamente se tem atribuído foros de ‘povo eleito’. Urge sublinhar a este respeito que semitismo diz respeito tanto a árabes como a judeus, pois, em termos bíblicos, ambos descendem de Abraão (os árabes – descendentes de Ismael, 1º filho de Abraão, nascido da escrava Agar, e os judeus – descendentes de Isaac, 2º filho de Abraão, nascido da esposa Sara).

A Resolução 181 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS/ONU) de 28 de novembro de 1947 intitula-se Plano de partilha de Palestina em um Estado Árabe e um Estado Judeu com união económica e regime especial para Jerusalém. Em apreço estava uma reivindicação anterior, bem ou mal assente na ideia-força de que o povo judaico tinha o direito a um espaço em terra palestina. Assim nasceram os alicerces do que hoje conhecemos como o Estado de Israel. O seu reconhecimento viria a ser impulsionado pela tragédia genocida dos cerca de 6 milhões de judeus no Holocausto levado a cabo pelo nazismo alemão. A sua vez, o previsto Estado palestiniano, ficaria a marcar passo, fruto de confluência de três circunstâncias diferenciadas: a oposição dos Estados Árabes à existência de um Estado Judaico, a firmeza do sionismo em sentido contrário e a inexistência de uma unidade palestina visando a constituição de um Estado próprio, o que só viria a conhecer a luz do dia em 1964 com a OLP (Organização de Libertação de Palestina) sob a liderança de Yasser Arafat.

De então para cá, a questão Israel-Palestina viria a conhecer uma vasta gama de acontecimentos, sendo de destacar os dois Acordos de Oslo (1993). Porém, o seu deturpado cumprimento veio a viabilizar a prática de Colonatos Israelitas, traduzidos na anexação de terrenos palestinianos e inerente expulsão dos habitantes destes. Deste procedimento resultaria um acréscimo territorial israelita superior a 22% quando comparado com os 56% da terra palestina que a Resolução havia alocado aos judeus. A Resolução 2334 do CS/ONU(2016) afirmou a ilegalidade dos colonatos (‘settlements’) israelitas em território palestiniano ocupado, incluindo os de Jerusalém Oriental tendo em conta as fronteiras de 1967.


Voltando à atualidade, não se pode dizer, por isso, que Israel esteja inocente de tudo quanto se está passar na Faixa de Gaza. Estivesse em funcionamento um Estado de Palestina e, porventura, no dizer do Professor Yuval Noah Harari na Universidade de Te-Aviv, “os israelitas (não) estariam a pagar o preço pelos seus anos de arrogância, durante os quais os seus governos e muitos israelitas comuns sentiram que eram muito mais fortes do que os palestinianos” (Público 12.10.2023, pgs 5).

É puramente quimérico estar-se a negar a existência do Estado de Israel de pleno direito. Fazê-lo seria um retrocesso da história, como estar a interrogar sobre as realidades existenciais dos EUA ou duma Austrália. A história não espera por nós, mas nós fazemos parte dela. É o avanço da civilização que o exige. Houve historicamente ocupações e usurpações de terras que a realidade consagrou como definitivas com o passar do tempo – uma espécie de usucapião histórico político. Foi a época de deslocação e fixação definitivas de povos dos séculos transatos. Mas se a história não retrocede, podem evitar-se os seus erros e abusos para o futuro. Daí que, no presente – 2º metade do seculo XX e XXI – a ocupação forçada de terras alheias qualifica-se, nem mais nem menos, como usurpação por falta de qualquer título de legitimidade. E qualquer ideia de facto consumado ou prescrição jurídica é afastada, dada a permanente contestação e repúdio a que a ONU vota tais colonatos. Neste domínio, e nesta parte, a lei internacional e a nacional regem-se pelos mesmos princípios.

Ora, é patente que os palestinianos não estão num processo de luta ou de guerra de libertação face ao Estado de Israel já que ninguém pode ser prisioneiro na sua própria casa. É tão simples quanto isto. Por isso, se não tem justificação o barbarismo do ato pratico pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, também certo é que nada pode justificar a barbárie cometida pelas Forças Armadas Israelitas, sob o comando do Governo de Benjamim Netanyahu. Neste quadro, não podem deixar de merecer o mais veemente e profundo repúdio a posição dos políticos americanos e europeus, que sob a cobertura das sua angélicas posturas políticas, acabam por patrocinar, fomentar e sustentar a continuação desta barbárie sob a capa de que estão a defender a liberdade e a democracia.

Não está em causa o direito ao exercício de autodefesa contra a investida do Hamas. A boa hermenêutica jurídica (nacional ou internacional) exige, porém, que a mesma seja exercida num imediatismo razoável e seja proporcional. Ora o que está a acontecer até ao presente, pelo menos até à data deste escrito, é uma deliberada e programada eliminação física de dezenas de milhares de palestinianos civis, a destruição de edifícios, hospitais e escolas do ativo, eliminação física de crianças e idosos em campo de refugiados e a deslocação territorial de mais de um milhão de pessoas carentes de alimentação e de saúde.

Posto isto, o que dizer de Israel? A razão apresentada para este procedimento é de que os combatentes do Hamas se escudam nos hospitais, nas escolas e misturam-se no meio da população. É …. vá daí, elimina-se tudo e todos. Certo, porém, é que a máscara caiu, o Kipá merece mais respeito e de pouco valem as “fantasias messiânicas”, as ortodoxias estéreis ou as lamentações junto ao muro, não o de apartheid da Cisjordânia, mas o de lamentações.

Israel é tido como um país bastante avançado e desenvolvido no contexto do Médio Oriente, dispondo de uns serviços secretos ultra-eficientes e havendo mesmo notícias que algumas das suas ações militares tem já dispositivo instrumental operado por Inteligência Artificial. Neste contexto, é pertinente a indignação quanto à grandiosidade de umas Forças Armadas que para desarticular um grupo armado demonstra não ter capacidade para os individualizar do resto da população tendo, para tanto, necessidade de dizimar mais de 40.000 civis para além de milhares de feridos! Neste afã de ataque e destruição não é de pôr de parte que estas forças possam ter atingido os 6 reféns israelitas.

Como se referiu, não está em causa o direito de autodefesa por parte de Israel. A legitima autodefesa pressupõe que a parte que a alega não crie situações de insustentabilidade que levem a parte contrária a reagir. Dito ‘alio modo’, o ‘auto-defendente’ não pode gerar contextos para depois, com base nestes, invocar este instituto. Nestes termos, a alegada autodefesa por Israel esgotou-se na resposta à intervenção de 7 de Outubro do Hamas pelo seu imediatismo e por tal ocorrer no seu território (não contemplando os excessos cometidos e que continuam a cometer-se em Gaza).

Mas, Israel parece estar a tentar contornar todo o contexto político, procurando estender a sua autodefesa a toda a problemática do conflito israelo-palestino em jeito de uma guerra. “Numa guerra, se um lado é mau, não significa que o outro seja bom……Basta ser guerra para não ter lados bons” (Eduardo Aqualusa – VISÃO 31 e Março de 2012, pgs 96). É aqui que perde toda a sua inocência e assinala a má-fé que rege o seu estofo ético histórico e político. Assumindo-se um Estado democrático, assente não numa Constituição escrita, mas em Leis Fundamentais avulsas, viu em 1 de setembro deste ano o seu Supremo Tribunal determinar a suspensão de uma greve geral “por motivos políticos” (ou seria, suspensão ‘por motivos políticos’ uma greve geral?)

A continuada política de colonatos ilegais por terras palestinianas, com a consequente expulsão dos donos das casas e das terras, sob a complacência das autoridades, nomeadamente dos tribunais, a conivência da população israelita neste processo e a perseguição de cidadãos palestinianos que rondam as dezenas de milhares – prática esta que tem vindo a ser condenada por n Resoluções das Nações Unidas, (organismo do qual Israel faz parte), mas que tem sido obstinadamente desrespeitadas demonstra ser a principal e basilar razão material deste conflito. Um tal comportamento poderia justificar a expulsão de Israel da ONU, porém a solução seria contraproducente, pois deixar o Estado de Israel ainda mais em roda livre, agravando o estatuto de “rogue-country” que já aparenta ser. Com qualificar um ‘leader’ político que tenta desacreditar a ONU, por o seu secretário-geral criticar veementemente Israel pela eliminação física e indiscriminada de uma população, já quase equiparada a um genocídio e desrespeita a decisão do Tribunal Internacional de Justiça de 19 de julho, por configurar a presença de Israel em território ocupado palestiniano como ilegal e apelando à imediata suspensão de construção de colonatos?

Dando o merecido crédito e respeito às recentes manifestações do povo israelita, a verdade é que Netanyahu foi eleito três vezes para primeiro-ministro, com a agravante de ser bem evidente que desta vez beneficiava do declarado apoio do setor ultraortodoxo do sionismo. Afere-se assim, que uma parte significativa do eleitor israelita tem a sua quota parte de responsabilidade no que esta a acontecer. A questão dos “reféns”, apesar da sua gravidade, assume neste âmbito a natureza de um “falso problema”, salvo se se entender que a vida de um refém israelita vale mais que a vida de 100 palestinianos!

Tudo leva a crer que a questão mediata se relaciona com o fanatismo e/ou chauvinismo doutrinário. A frase “religião é o ópio do povo” parece ter aqui toda a pertinência, de parte a parte, não no sentido da sua eliminação ou superação, mas como um ‘prius’, um agente intolerante de convivência entre povos e Nações, apelidando-se de “Estados religiosos”. A eliminação desta confusa mancomunação política/religião passa por uma abordagem conciliatória entre os responsáveis das religiões mais tradicionais. É de saudar por isso a Declaração Conjunta de Isteqlal de Jacarta – agosto 2024 – subscrita pelo Papa Francisco e o Grande Imã Nasaruddin Umar, ao reconhecer a existência de “valores comuns a todas as religiões para “derrotar a cultura de violência e de indiferença.

Numa altura em que, pelo mundo fora, se clama cada vez com mais ressonância por uma maior solidariedade e humanismo entre os povos e nesta dinâmica uma generalizada repulsa pelas atrocidades de que o povo palestiniano é vítima, eis que surge a deliberação da Assembleia Geral da ONU de 18 de setembro, votada por uma maioria de 2/3 dos seus membros (124, quando a ONU tem 193 membros), no sentido de exigir que Israel ponha termo à sua presença ilegal em Gaza, na Cisjordânia ocupada e Jerusalém Oriental, a cessação de novos colunatos, a restituição de terras e propriedades usurpadas e o regresso de palestinianos deslocados, no prazo de um ano.

Um prazo, diga-se de passagem, algo dilatado para Israel continuar com as suas investidas, havendo por isso quem interrogue pela não utilização do dispositivo de intervenção da Força Militar de Paz da ONU no caso presente, postura que contrasta com a prontidão com que agiu noutras paragens como o Ruanda, Kosovo e outros.

Os EUA foram um dos 14 países que votou contra a deliberação. Assumido que as constantes visitas de Anthony Blinken ao Médio Oriente não são de recreio, as mesmas mais se revestem de vendedor de promessas angélicas, permitindo incessantes adiamentos para a solução do conflito, sempre propícias para as Forças Armadas continuarem com as atrocidades (os tais 10% do acordo que ainda falta atingir) e a propulsão da indústria armamentista.

Do contexto gerado, há três situações desastrosas a temer e que despontam no horizonte: o sofrimento e dizimação do povo palestiniano, um crescente antissemitismo israelita e o alastramento de uma guerra generalizada pelo Médio Oriente.

Quo Vadis Israel?

Os munícipes que não reclamam

Na gestão em que se dedicaria a equilibrar as contas do município, enfrentar o desperdício e a ineficiência na administração, extinguir favores a compadres, pôr fim às extorsões que afligiam os mais pobres e, o mais inconveniente, relatar de forma clara e honesta o que fez e o que não conseguiu fazer durante o mandato, o prefeito de Palmeira dos Índios escreve, após o primeiro ano de trabalho: “Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura (...) dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”.

O prefeito impopular, bem como o dono da autoavaliação seca, irônica e sobretudo literária, era Graciliano Ramos. O futuro romancista administrou Palmeira dos Índios, próxima a sua cidade natal, Quebrangulo, de janeiro de 1928 a abril de 1930, e no começo de cada ano escreveu relatórios de prestação de contas ao Conselho Municipal e ao governo de Alagoas. Desde aquela época os balanços da prefeitura chamaram a atenção da imprensa pela qualidade literária, e agora estão reunidos no livro O Prefeito Escritor: Dois Retratos de uma Administração (Record, 2024).


A leitura de texto tão burocrático, “com algarismos e prosa de guarda-livros”, interessa quase cem anos depois em primeiro lugar pelo que se pode antever do estilo do autor de Vidas Secas, já elogiado pelos contemporâneos dos relatórios. Em um trecho sobre os custos da administração, por exemplo, o prefeito escreve: “E lá se vão mais de trinta contos gastos sem uma varredela nas ruas, um golpe de picareta nas estradas, um professor, mesmo ruim, na Brecha ou no Anum”. Aos leitores atuais de Graciliano, interessa também o aspecto biográfico dos documentos, que ajudam a compreender o pensamento do homem que se tornaria preso político mais tarde. Por fim, para um público mais amplo, a leitura dos balanços interessa hoje porque muitos dos problemas que o prefeito escritor teve de lidar na Palmeira dos Índios do fim da década de 1920 o Brasil ainda enfrenta, como o patrimonialismo e o clientelismo.

No começo do mandato, diz um documento, o prefeito encontrou obstáculos dentro e fora da prefeitura: “Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro”. A dificuldade de arrecadação do município, o que o autor explica por serem todos, prefeitos e contribuintes, mais ou menos compadres, foi um dos desafios em que Graciliano teve sucesso durante a gestão, marcada pelo aumento da receita, mas também pela impopularidade.

Austero com uns, incluindo amigos e familiares, o prefeito registrou gastos com serviços públicos sanitários e de instrução, investiu nos subúrbios e aliviou a arrecadação dos mais pobres, estabelecendo “a equidade que torna o imposto suportável”. “Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcarme.” Quanto aos prestadores de serviço da prefeitura, se não foram valorizados pelo gestor, ao menos constam nos relatórios exemplos de indignação com as remunerações pagas a eles (“uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis”).

O corte de gastos nem sempre era possível, como no contrato para o fornecimento de energia elétrica firmado em outra gestão, no qual a cidade pagava “até a luz da Lua”. “Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras”, graceja o prefeito. Se era obra importante mas prorrogável, ele adiava, a exemplo da construção do cemitério novo: “Os mortos esperarão mais um tempo. São os munícipes que não reclamam”. E enterrava os recursos na conservação.

“Aí está, em traços largos, o estado em que se encontra a Prefeitura de Palmeira do Índios”, conclui o prefeito no primeiro relatório. Do interior de Alagoas, os documentos chegaram até o editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, que imaginou que quem escreve um relatório de prestação de contas com tamanha graça deveria ter um romance na gaveta. E tinha mesmo. Caetés, o primeiro livro de Graciliano Ramos, foi escrito durante a gestão, e saiu pela editora de Schmidt em 1933. O romance, aliás, se passa em Palmeira dos Índios, e tem como protagonista um guarda-livros que deseja ser escritor e fazer parte da elite social da cidade.

Como uma obra literária inacabada, Graciliano não terminou o mandato, mas seus relatórios deixam reflexões sobre o papel do prefeito, esse cargo cada vez mais esquecido em relação às pautas de política nacional que dominam as conversas nos ônibus e padarias, mas fundamental para o lugar onde a vida acontece, ou seja, o município.

Matando-lhe “o bicho do ouvido”, as reclamações fizeram parte do começo ao fim da gestão do escritor, inclusive colaborando para a renúncia. Mas a indiferença da população à política local não ajudaria Graciliano a construir uma cidade mais próspera e justa. Pelo contrário, o prefeito escreve: “Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão”. A apatia política, em vez disso, tende a buscar soluções tão fáceis quanto falsas, não se importando em destruir o que não afeta mais. É melhor que reclamem.