segunda-feira, 3 de junho de 2024

Não vendam nossas praias

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.


A ideia de privatizar existe noutros países. Mas não é nossa praia. A praia é o tipo de espaço de lazer essencial para os brasileiros, algo muito importante na definição do Rio e na integração de suas regiões urbanas.

Outro aspecto que torna a medida temerária, eu diria suicida, é o fato de estarmos em período de mudanças climáticas. Uma das consequências é a elevação do nível dos mares, algo que considero irreversível, uma vez que as geleiras já começam a derreter.

Quem tiver dúvida do poder do mar precisa visitar a praia de Atafona, no norte do Estado do Rio. Foi destruída completamente. O mar avança em Pernambuco (Boa Viagem, Paulista, Jaboatão) e provoca mudanças na Ilha de Itamaracá, ao lado do forte construído pelos holandeses. Em muitos casos, como em Santa Catarina, não podemos falar apenas de avanço do mar, mas sim de uma resposta à própria especulação imobiliária.

A lei que garante a propriedade da União sobre os terrenos de marinha foi baseada na maré de 1831. Imagino que essa referência talvez não seja mais tão segura nos tempos de aquecimento global. Isso quer dizer que as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação.

Um dos argumentos do senador Flávio Bolsonaro, relator da emenda constitucional que privatiza as praias, é que pobres como os habitantes da comunidade da Maré, no Rio, virarão proprietários. Mas a proposta nunca pensou nos pobres, apenas basicamente nas grandes empresas imobiliárias.

Logo no começo da pandemia, fui a Fernando de Noronha exatamente para colher a opinião dos moradores contra outro projeto do próprio Flávio Bolsonaro. Ele queria abrir a ilha para os cruzeiros internacionais, inundá-la de turistas estrangeiros, sem preocupação com a ausência de estrutura. Cheguei a concluir o programa com muitos depoimentos contrários à invasão dos cruzeiros, mas a pandemia acabou resolvendo o problema à sua maneira.

Os Bolsonaros parecem ter um Caribe na cabeça, sempre tentando materializá-lo, ora em Angra, ora em Noronha, ora no Nordeste. Esse avanço da especulação imobiliária nos dá a possibilidade de discutir a importância dos oceanos nas mudanças climáticas. O próprio El Niño, que pegou pesado neste ano, é um fenômeno que se forma na costa peruana.

Recentemente houve em Barcelona um encontro internacional para discutir a proteção aos oceanos. Numa das maiores conferências ambientais no fim do século passado, houve concordância de que a alteração das correntes marinhas seria o marco de que o aquecimento se tornaria irreversível.

Com tudo o que aprendi e estamos aprendendo em família, com uma filha dedicada aos oceanos, creio que não dramatizo ao avisar que o Brasil precisa ter cuidado com o mar, senão produzirá desastres que poderiam ser evitados, como tantos outros que produz em terra firme.

Em vez de privatizar praias, o país deveria ampliar suas áreas de proteção no próprio oceano, algo que a Austrália já começou a fazer. É preciso proteger os corais, evitar que o oceano se transforme numa lixeira e combater a pesca predatória, sobretudo de navios asiáticos que navegam com fábricas de enlatar peixes.

No momento em que o Rio Grande do Sul vive uma tragédia marcada por tempestades e ciclones, é preciso fazer ver aos congressistas que é hora de conter essa corrida por lucros fáceis, que só nos leva à autodestruição.
Fernando Gabeira 

Caso Sylt: racistas perderam a vergonha

O vídeo rodou o mundo todo. Nele, jovens ricos alemães se divertem no terraço de um bar, rindo e celebrando. A cena seria normal se eles não estivessem cantando os seguintes versos: "Alemanha para os alemães, estrangeiros fora!". Entusiasmado, um dos jovens faz o que parece ser um gesto nazista e uma imitação do bigode de Hitler. O vídeo foi gravado esse mês em um bar de luxo de uma famosa ilha que é conhecida por sua clientela rica e VIP: Sylt. A música é uma adaptação de uma canção inofensiva de amor, L'amour toujours, de Gigi D'Agostino.

A cena gerou um grande escândalo na Alemanha, obviamente. A polícia abriu uma investigação criminal e o caso foi lamentando pelo chanceler federal alemão, Olaf Scholz, que classificou o episódio como "inaceitável". Ótimo. Mas isso será suficiente para barrar uma "tendência" xenófoba que cada dia fica mais clara no país? Infelizmente, acho que não.


Depois dos jovens ricos racistas viralizarem na internet, soubemos que, no mesmo fim de semana em que o vídeo foi gravado e também em Sylt, uma mulher negra de 29 anos foi insultada e levou um soco. De acordo com a emissora alemã NDR, a polícia informou ainda que um episódio semelhante ao do bar ocorreu numa outra balada da ilha.

Ou seja, o caso está longe de ser isolado. A versão da música, segundo reportagem da NDR, circula no TikTok pelo menos desde dezembro de 2023 e vários casos de jovens cantando as palavras racistas já foram registrados na Alemanha e na Áustria.

Moro na Alemanha há quase dez anos e nunca tinha visto uma cena como essa. Não estou dizendo que não existiam neonazistas, claro que existiam. Mas ver pessoas cantando sorridentes esses slogans em uma festa, aos olhos de todos, é algo que eu realmente não podia imaginar. Será que eu era muito inocente? Pode ser. Mas os xenófobos também não eram tão "saidinhos".

"Os idiotas estão saindo do armário", escreveu o cientista político e ativista alemão Tadzio Müller. Sim, a impressão que dá é que na Alemanha, assim como em muitos outros países, os preconceituosos não estão mais com vergonha de externar suas visões xenófobas, racistas, homofóbicas e misóginas.

"A gente já viu isso antes", comentou um amigo brasileiro que também mora na Alemanha no X (o antigo Twitter), depois que eu compartilhei o vídeo dos racistas na rede social. Ele falava do Brasil a partir de 2017, 2018, quando o bolsonarismo mostrou a sua cara e muita gente passou a falar sem vergonha que sentia saudades da ditadura, a falar mal de gays, por aí vai. Ou seja, os preconceituosos saíram do armário.

Vendo a cena horrorosa de Sylt (assustadora principalmente para nós, estrangeiros que moram na Alemanha) lembrei de alguns episódios que aconteceram no Brasil há poucos anos, como o fato de pessoas falarem que sentiam saudades da ditadura militar e admirarem publicamente torturadores. Esse é o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que "dedicou" seu voto na noite do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff a Carlos Brilhante Ustra, um dos torturadores mais sanguinários da ditadura. Depois disso, muitos dos seus admiradores, inclusive seu filho Carlos Bolsonaro, usaram sem vergonha camisetas onde estava escrito: "Ustra vive!".

Entoar slogans neonazistas na Alemanha e falar que tem saudade da ditadura são coisas diferentes, mas o ódio e a falta de vergonha de fazer apologia a crimes é muito parecida.

Muitos amigos brasileiros perguntam preocupados o que vai acontecer com a Alemanha. Claro que ver essas cenas nos machucam e assustam. Mas uma coisa eu respondo com tranquilidade: apesar do crescimento das manifestações xenófobas, é praticamente impossível que o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD) faça parte do governo federal nos próximos anos. Isso porque o sistema político do país é o parlamentarismo de coalizão, o que significa que partidos devem fazer uma aliança que supere os 50% dos assentos parlamentares para governar. E existe no país o chamado Brandmauer, que significa "muro de contenção", ou seja, um acordo entre os principais partidos para isolar a AfD.

Além disso, o partido está envolvido em vários escândalos. No dia 14 de maio, por exemplo, um de seus maiores líderes, o deputado estadual da Turíngia Björn Höcke, foi condenado por uso de slogan nazista.

Em janeiro, milhares foram às ruas protestar contra o partido e o fascismo depois que uma reportagem mostrou que integrantes da AfD tinham se encontrado com outros extremistas para discutir um plano para expulsar milhares de estrangeiros da Alemanha. As manifestações deixaram ainda mais claro que seria uma péssima ideia (em todos os sentidos, até o eleitoral) um partido se associar à AfD.

Outra coisa que me tranquiliza: novas manifestações contra o fascismo e a xenofobia já estão marcadas em todo o país. Os xenófobos perderam a vergonha, mas ainda existe muita gente sempre pronta para gritar: "alle zusammen gegen den Faschismus" ("todos juntos contra o fascismo").

sábado, 1 de junho de 2024

Pensamento do Dia

 


As cidades e as águas


1.

A tragédia das inundações das cidades do Rio Grande do Sul nos lança com força a pergunta: quais são as manifestações da questão ambiental nas cidades e como entendê-las? O sofrimento das populações, em sua maioria urbanas, atingidas por um desastre desta monta clama por ação e também por reflexão. Afinal qual é a dimensão especificamente ambiental das cidades?

O entendimento corrente a este respeito parece ainda insuficiente. A dimensão ambiental do urbano, dizem alguns, estaria na presença da natureza na cidade. Esta natureza, normalmente associada ao rural, poderia ser observada também nas cidades. Ou então, dizem outros, trata-se apenas de um “ambiente construído”, pois, não sendo natural, o ambiente das cidades é puro artifício e a natureza seria relegada ao espaço do campo. Em ambos os casos, este tipo de resposta faz uma separação de domínios entre ambiente e sociedade ou, então, vê um ambiente cortado ao meio – parte natureza, parte artifício social.

Tentemos situar no tempo histórico a noção de ambiente urbano e sua gênese, procurando não separar ambiente e sociedade. Isto porque no campo, como nas cidades, o ambiente é sempre apropriado material e simbolicamente pelos diferentes atores sociais. Certos autores cuidam, ademais, de nos lembrar: trata-se de uma problemática construída em um momento histórico determinado. Foi apenas em um dado momento do conhecimento científico e do debate público que as paisagens, no campo como nas cidades, passaram a ser vistas sob uma nova ótica – ambiental; a “ecologia” dirigiu o olhar para o modo como são feitas as ligações entre as partes – entre plantas e solos, rios e margens, edificações e morros.

E, sobretudo, para as ligações entre os diferentes modos de usar rios, lagoas, solos, atmosfera etc. Seria preciso, por exemplo, nos dizem os especialistas, alargar o olhar sobre as cidades para abranger toda a bacia hidrográfica onde elas se inserem. A questão urbana foi, assim, sendo“ambientalizada” pela formulação de novas percepções e interpretações dos problemas urbanos, em particular pela atenção dada às ligações e impactos recíprocos entre as diferentes formas de ocupação dos espaços.

Não se trata, por outro lado, apenas da questão dos ecossistemas onde se inscrevem as cidades, mas do conjunto de ideias e concepções mediante as quais se foram construindo os problemas socioecológicos urbanos e seus modos de tratamento.

A noção de “ambientalização” surgiu, assim, para designar o modo pelos qual os atores sociais passaram a avaliar a pertinência e legitimidade das práticas de ocupação do espaço, classificando-as em ambientalmente danosas ou ambientalmente benignas.[ii] Assim foi que certos modos de apropriação e uso do espaço, nas cidades e fora delas, passaram a ser percebidos e apontados como geradores de impactos indesejáveis sobre as condições ecológicas de existência e trabalho de terceiros.

2.

E qual teria sido o histórico desta ambientalização da questão urbana? Sabemos que, em sua origem, a cidade moderna foi entendida como portadora de uma questão populacional. Os estatísticos que mediam os fatos urbanos, no século XIX, eram vistos como “técnicos de populações”. Eles apontavam o aglomerado populacional como responsável pelos males materiais e morais na cidade. Temas malthusianos invadiram então o debate público: a transpiração da cidade e a exalação de vapores em proveniência de uma grande quantidade de homens e animais eram vistos como problemas próprios aos bairros mais povoados.

Era nessas localidades, diziam eles, que se situavam as oficinas ruidosas e poluentes, as ditas patologias morais da criminalidade e da prostituição. A concentração populacional unificava as dimensões materiais e morais da recém conhecida expansão urbana. E mesmo quando os estatísticos verificavam uma distribuição desigual da taxa de mortalidade entre bairros, a relação quantitativa entre o número de indivíduos e o espaço ocupado pelo bairro era apontada como responsável pela desigualdade diante da morte – a atmosfera de massas, os miasmas, a falta de ar…

Não se incluía nas análises de então outros tipos de processos de concentração, além dos efeitos de aglomeração de gente: pouco se discutiu, por exemplo, a concentração de poder sobre o espaço urbano e seus recursos, como tampouco a concentração da capacidade de certos atores sociais afetarem – dentro e fora das cidades – os demais por via do impacto de suas práticas na fisíco-química atmosférica, nas águas, nos solos e sistemas vivos.

Enquanto o capitalismo foi criado juntamente com a privatização da terra, tornada, a partir de então, uma pseudomercadoria, apresenta-se a nós a pergunta seguinte: o que teria acontecido com os demais elementos de uso compartilhado como as águas e o ar? O historiador Alain Corbin dá elementos para caracterizar o que hoje podemos considerar uma dimensão ambiental avant la lettre do urbano: com relação aos males associados à grande indústria, prevaleceram, a partir de então, diz ele, o otimismo tecnológico e a naturalização da poluição.

O que passou a vigorar, nos usos sociais das águas e da atmosfera, foram relações de força; ou seja, o exercício da potência de certos proprietários disporem livremente dos espaços compartilhados por todos. Friedrich Engels, por sua vez, falava, de forma bem mais genérica, de uma capitalização de tudo: “os capitalistas se apropriam de tudo, enquanto, ao grande número, não resta senão a própria vida”.

A industrialização, dizem os historiadores, gerava ansiedades públicas. Ou seja, ela trazia consigo um problema político: o da prevalência de um determinado uso privado dos espaços não-mercantis do ar e das águas sobre os demais usos. Uma questão política que foi, porém, silenciada. Atos de força que foram naturalizados, despolitizados. Dada a nova escala de operação das práticas produtivas e a forma concentrada do exercício do poder de manejo dos espaços e recursos, criou-se uma divisão social desigual da capacidade das práticas espaciais se impactarem reciprocamente; no campo, nas cidades e, por certo, entre o campo e as cidades.

As práticas dominantes da grande indústria e da agricultura em grande escala impuseram, assim, de fato, seus usos privados aos espaços comuns do ar e dos cursos d´água, neles lançando os produtos não vendáveis da produção de mercadorias (resíduos, efluentes, emissões) ou, no caso da agricultura comercial, desmatando margens e compactando solos, impactando – e eventualmente comprometendo – o exercício de outras práticas espaciais não dominantes.

Podemos chamar essa configuração de uma “proto-ambientalidade” do capitalismo – ou seja um padrão “ambiental” próprio ao regime de acumulação de riqueza que começou a operar muito antes que uma questão ambiental propriamente dita tivesse sido formulada como um problema público. Certos autores fazem menção ao que teria sido uma “primeira política pública ambiental” europeia quando, em 1806, as manufaturas de Paris foram classificadas em categorias de “cômodas e incômodas”, umas sendo afastadas da aglomeração, outras toleradas.

Ora, tais medidas não davam propriamente tratamento às indústrias como fonte de poluição ambiental a ser restringida e regulada; as fábricas tornaram-se apenas objeto de políticas espaciais de localização dos incômodos.

3.

Saltemos um século: é nos anos 1960, que pudemos observar o surgimento de lutas sociais através das quais se fez a denúncia – como “males ambientais” – dos processos de dominação privada, de fato, dos espaços comuns, que vinha sendo praticada desde os primórdios do capitalismo; ou seja, a imposição, a cidadãos supostamente livres, do consumo forçado – via cursos d´água e atmosfera – de produtos invendáveis da produção mercantil: resíduos sólidos, efluentes líquidos e gasosos.

Questionamentos foram feitos igualmente ao manejo arbitrário das matas e cursos d´água pela grande agricultura químico-mecanizada, com suas consequências danosas para a alimentação, a biodiversidade e os solos. O que se buscou fazer então foi politizar um debate antes silenciado, iniciando um processo de ambientalização das lutas sociais que incluiu, por certo, questões urbanas.

Inicialmente, a partir dos movimentos sociais contraculturais de crítica ao consumismo e ao modelo agrícola monocultural que, vemos hoje, tem consequências dramáticas sobre bacias hidrográficas, com inundações de áreas urbanas, mediadas ou não por mudanças climáticas; em seguida, por instituições multilaterais, UNESCO, HABITAT e Banco Mundial, com a assim chamada “agenda marrom” relativa a uma ambientalização do saneamento; por fim, por governos, que criaram suas secretarias e ministérios de meio ambiente, em grande parte como resposta a movimentos sociais e pressões internacionais e com pouca incidência sobre as cidades, embora, mais recentemente, evocando a necessidade de adaptação das cidades às mudanças climáticas.

Mas, para além dos usos correntes do senso comum, que considera o ambiente urbano como a soma das questões do saneamento, da poluição do ar e da água, da impermeabilização e contaminação dos solos, em termos analíticos, poderíamos ainda perguntar: como se foi conceituando, de forma um pouco mais sistemática, a “dimensão ambiental do urbano”? Como foram sendo unificados processos aparentemente tão dispares?

Observando a literatura sobre meio ambiente urbano, verifica-se uma ampliação do debate convencional do urbano para aspectos físico-químicos e biológicos da configuração das cidades. Os autores que vieram animando este debate referem-se, via de regra: (a) ao modo como, nas cidades, se consome, transforma e deterioram os “bens coletivos, como água, ar, solo”; (b) ao fato que estes bens coletivos passaram a ser vistos como mediadores/transmissores de riscos de comprometimento das condições ecológicas da vida nas cidades, em função dos diferentes modos sociais de apropriação de que eles são objeto; (c) à necessidade de se considerar a diferenciação social no processo de mudança socioecológica: a saber, que os riscos urbanos são distribuídos desigualmente; o que favorece a um grupo social pode prejudicar a outro.

Assim, “a natureza urbanizada reuniria bens materiais e simbólicos atravessados por conflitos sociais urbanos em torno a seu controle, configurando padrões espaciais desigual de distribuição das amenidades e males ambientais”.

Articulando-se as considerações destes autores, a noção de “meio ambiente urbano” designaria o espaço de vigência de riscos urbanos associados aos modos de apropriação e consumo de bens coletivos como ar, água e solo, assim como elementos dos sistemas vivos portadores de microorganismos, vírus, bactérias etc., pelos quais certas práticas espaciais (em geral de empreendimentos capitalistas de grande impacto) afetam as práticas de terceiros (em geral grupos despossuídos e racializados), em contexto de padrões socialmente desiguais e conflituais de distribuição de danos e amenidades urbanas.

Estamos longe, portanto, dos simples efeitos populacionais aglomerativos do século XIX, mas, sim, confrontados aos efeitos indesejáveis de determinadas práticas espaciais desenvolvidas nas cidades ou fora delas, mas com impactos sobre elas.

4.

O governo do “ambiente urbano” remete, assim, à regulação política dos riscos desigualmente distribuídos decorrentes dos modos dominantes de apropriação dos espaços materiais compartilhados e não-mercantis da cidade ou fora das cidades, com consequências dentro delas. Não se trata, com efeito, somente da gestão de ecossistemas, mas da regulação de práticas espaciais e das disputas em torno à definição de quais delas são ou não portadoras de riscos e para quem.

A este propósito, é gritante a concomitância entre as cheias desastrosas nas cidades e a flexibilização de códigos florestais (o caso de Santa Catarina, em 2011, é disto emblemático), indicando a força do negacionismo aplicado a relações causais e à (des)responsabilização dos tomadores de decisões geradoras de riscos. Exemplo recente é o de um vereador do Rio Grande do Sul que culpou as árvores pelos deslizamentos de encostas, entre outros contrasensos.

Ou então a conhecida campanha de imprensa dizendo que as favelas deveriam ser removidas por sua definição como “problema ambiental” das cidades.[ix] Ora, a moradia precária é, na realidade, uma, entre muitas, das manifestações do padrão desigual de distribuição dos riscos ambientais urbanos. Evidências empíricas mostram, a propósito, a vigência de uma lógica discriminatória de localização de equipamentos portadores de risco, sendo as populações negras, indígenas e de baixa renda expostas, de forma mais que proporcional, a seus impactos ambientais, assim como às dinâmicas inigualitárias do mercado de terras, à distribuição desigual de infraestrutura de saneamento, ao insuficiente acesso a moradia segura etc.

As situações assim configuradas de desigualdade ambiental são aquelas, portanto, que exprimem processos de concentração do poder, por parte dos agentes das práticas espaciais dominantes, de impactar a terceiros – os promotores de práticas espaciais não dominantes – e de não serem por eles impactados. Por esta razão, as grandes corporações, inclusive as imobiliárias urbanas, justificam no plano discursivo, licenças ambientais pouco criteriosas, flexibilização de normas e regressão de direitos. Impactos danosos e riscos serão alocados sistematicamente, de forma mais que proporcional nos espaços ocupados por grupos sociais despossuídos.

Em paralelo, a condição de vulnerabilidade experimentada pelos grupos despossuídos e racializados resulta da subtração de suas condições de resistência à imposição de agravos, inclusive climáticos, quando vigoram relações desiguais de poder nas dinâmicas espaciais de localização e de mobilidade urbana. A condição de vulnerabilidade exprime, assim, o fato de o Estado deixar de assegurar proteção igual para todos os seus cidadãos – como defesa contra enchentes, ilhas de calor, deslizamentos etc.

Em debates acadêmicos em torno à definição do objeto de estudos da disciplina da História Ambiental, certos pesquisadores conclamaram seus colegas a não se ocuparem das cidades, por elas serem supostamente expressão da cultura, estranhas ao objeto natureza. Os defensores da pertinência do tema do ambiente urbano retrucaram, por sua vez, que seria impossível estudar a natureza sem levar em conta aquilo que há dois séculos representou seu maior desafio: a urbanização em massa e a industrialização.

Excluir a cidade como construção cultural, dizem eles, suporia, ademais, desconsiderar que as paisagens agrárias também o são.[x] Poderíamos acrescentar mais um argumento: a vigência de desigualdades ambientais na distribuição dos riscos urbanos indica que a gestão do ambiente das cidades é uma incontornável e específica questão política. Consequentemente, caso se queira garantir proteção ambiental para todos e evitar situações críticas como as que abalaram as cidades do Rio Grande do Sul, será preciso não apenas cuidar da manutenção das estruturas hidráulicas construídas ao longo dos cursos de água, mas também regular as práticas espaciais urbanas e extra-urbanas – no caso em pauta, da grande monocultura desmatadora – através de leis e normas que sejam resistentes aos esforços negacionistas de flexibilização, desmontagem e retrocesso.

Carta a uma jovem sobre o século XXI

Uma ideia não me saiu da cabeça desde que, na semana passada, ouvi uma mãe em situação de rua chamar sua filha. Andava pela avenida Paulista e via o cenário de crescimento da pobreza urbana que ganhou uma enorme magnitude a partir da pandemia - e da forma desastrosa que o Brasil lidou com ela. Não consegui compreender bem qual era o nome da menina, mas sonhei com a cena e no meu devaneio noturno ela se chamava Esperança. Daí em diante senti a necessidade de lhe falar sobre o presente nebuloso que gera um futuro incerto, quase um não futuro. Na minha impotência, o que me sobrou foi escrever uma carta:

“Querida Esperança,

Não tive tempo ou coragem para te conhecer direito. Mas a cena em que vi você com sua mãe nas ruas de São Paulo me fez pensar sobre o mundo que nos rodeia. Sei que sua vida é muito mais complicada do que a minha ou do que a de outras crianças, como a minha filha de 15 anos, que tem as oportunidades retiradas de um conjunto enorme de meninos e meninas brasileiras. Não conheço sua trajetória, nem posso avaliar em detalhes suas carências. O que tenho condições de falar é sobre o momento que passamos, tentando abrir alguma janela de esperança a quem tem esse nome e talvez tenha dificuldades de usufruir desse sentimento.

Há períodos na história em que o futuro se torna muito incerto e nebuloso. Até nos contos de fadas, a que nem sei se teve acesso, príncipes e princesas passam por maus bocados. E parece que o mundo está entrando num desses momentos, com a emergência de vários fatores que tornaram a vida mais perigosa e complexa no planeta. Gera-se um clima de triunfo dos pesadelos sobre os sonhos. Alguns chamam isso de distopia, que é o contrário do mundo ideal. Muita coisa ruim ou complicada está se espalhando, e a humanidade não está conseguindo sair desse buraco.

Os problemas atuais são imensos, mas não são incontornáveis, nem o desfecho está definido de antemão. Existe um espaço para alterar o rumo da história, e para fazermos isso é preciso conhecer quais são as principais barreiras e soluções para se construir um futuro melhor para todos. É preciso frisar esta expressão: um futuro melhor para todos. Porque o que está acontecendo hoje são duas coisas que dificultam esse ideal coletivo.

A primeira é o crescimento das desigualdades - de renda, racial, de escolaridade, de gênero e territorial. Sabe, Esperança, o mundo teve muitas melhoras para muita gente entre o fim do século XX e o começo do século XXI. Isso também ocorreu no Brasil a partir da redemocratização, com uma nova Constituição, que, pela primeira vez em nossa história, disse que todos somos iguais, e especialmente no período em que dois presidentes, Fernando Henrique e Lula, conseguiram ser muito bem-sucedidos num projeto de mudanças.

Claro que as diferenças sociais não deixaram de existir, mas elas se reduziram em muitos lugares, e em São Paulo havia menos população que vivia na rua do que há hoje. Se tivesse nascido um pouco antes, talvez você não tivesse que pedir junto com a sua mãe a sobra dos outros. Mais do que isso: havia a sensação de que poderíamos criar um país no século XXI que paulatinamente aumentaria as oportunidades para todo mundo. Esse sentimento se enfraqueceu nos últimos anos. De todo modo, não me sinto confortável nem feliz com o fato de que o futuro de muitos esteja cada vez mais distante das condições futuras de poucos.

Só que o século XXI trouxe um problema maior do que as desigualdades que marcam nossa história, porque agora todos podem entrar no mesmo barco da desesperança. O que está em jogo é o futuro do planeta, da humanidade como espécie. Tratamos muito mal a natureza nas últimas décadas. O relógio do descaso humano acelerou-se e o castigo vem na forma de desastres naturais cada vez mais frequentes. A tragédia inominável no Rio Grande do Sul é um exemplo do que pode vir pela frente. Lá, muita gente que tinha casa, comida e roupa lavada está em condições similares às que você e sua mãe conhecem muito bem: a tristeza das carências cotidianas e a imprevisibilidade sobre o dia de amanhã.

Não há mais tempo para brincarmos de deuses inconsequentes em relação ao meio ambiente. Tudo o que construímos durante séculos, usando nossa criatividade e suor, pode ser colocado em jogo. Grupos poderosos e líderes mentirosos têm evitado que comecemos um processo de defesa do planeta. Eles continuam dizendo que os desastres naturais sempre aconteceram. São os mesmos que culpam os pobres pela pobreza e gostariam que voltássemos ao tempo da escravidão, quando havia senhores e escravizados, e não direitos iguais para todos.

Talvez essas grandes questões estejam muito longe da sua dura realidade cotidiana, Esperança. Porém, os grandes problemas são a fonte das injustiças. Não sei se frequenta a escola, mas lá seria o lugar ideal para você aprender como superar nossas mazelas, tendo um olhar crítico sobre os erros dos seres humanos, como também sobre as possibilidades de correção. A educação é o melhor caminho para termos menos gente morando na rua, menos presídios, mais diálogo entre as pessoas que pensam diferente e mais chances de termos uma sociedade solidária.

Como um adulto que teve a sorte de ter tido oportunidades educacionais, mesmo que em escolas públicas da periferia de São Paulo, me sinto no dever de lhe contar quais são as incertezas do século XXI que tornam mais incerto o futuro para todos. Em primeiro lugar, no topo das preocupações, está a questão ambiental. Se não fizermos imediatamente a lição de casa para desacelerarmos a mudança climática, se não cuidarmos melhor das nossas florestas, rios e oceanos, e se, em suma, não tomarmos consciência de que nossos atos importam na regulação do planeta, há grandes chances de muita gente passar pela experiência de viver em escombros, e não nos lindos prédios que você, Esperança, admira ao viver nas ruas e não poder usufruir do conforto do lar.

Tal cenário pode parecer um exagero, como muitos poderiam retrucar. Mas, quem, honestamente, teria previsto há alguns meses que o Rio Grande do Sul viveria a situação em que está hoje? Na verdade, não temos ideia do que a natureza rebelada por nossas atitudes irresponsáveis pode fazer nos próximos anos. O futuro se tornou mais incerto do que em qualquer outra época da história.

O mundo também se tornou mais perigoso com a disputa das grandes potências e com os recentes conflitos na Ucrânia e nos territórios de Israel e Faixa de Gaza. A Europa, como berço da civilização ocidental, está em risco com o projeto expansionista russo. O conflito no Oriente Médio tem sido recorrente, mas ganhou um ar de crueldade recíproca que coloca em jogo a estabilidade da região e a crença de que tenhamos aprendido com os massacres do passado. Para piorar, as duas mais poderosas nações, Estados Unidos e China, entraram numa rota de colisão que pode nos levar a um conflito mundial, com proporções ainda desconhecidas.

A tecnologia é sempre admirada por todos nós, e você deve sonhar com os celulares dos que passam por ti em meio à carência material de sua situação de rua. Não se envergonhe disso, Esperança, porque quase todas as crianças e jovens são aficionadas por máquinas novas de comunicação e entretenimento. Entretanto, aquilo que deveria ter apenas um uso positivo tem gerado muitas preocupações e angústias. Duas são as principais. Uma é o uso cada vez mais frequente das redes sociais para produzir ódio e divisão entre as pessoas. Veja que triste: em meio a uma tragédia como a do Rio Grande do Sul, a internet foi utilizada para espalhar mentiras que atrapalham o auxílio dos que necessitam de ajuda. Alguns chamam isso de liberdade de expressão. Eu chamo isso de crueldade criminosa, um atentado contra a humanidade.

Outro temor trazido pela tecnologia no século XXI é a possibilidade, cada vez maior, de ela se tornar incontrolável pelos seres que a criaram. A veracidade das informações e a substituição dos homens pelas máquinas são duas enormes preocupações. Mentiras podem se tornar mais difíceis de serem combatidas e a autoria das ideias ficar mais obscura, atingindo a nossa grande liberdade que é a criatividade. Pior: milhões de empregos podem ser destruídos e, assim, talvez você tenha mais vizinhos de rua no futuro, tornando ainda mais selvagem a vida de quem não tem onde morar e o que comer.

Meu temor maior sobre o século XXI é o crescimento das desigualdades. Me assusta como meu círculo social aceita que uma menina como você, Esperança, possa viver com sua mãe numa condição indigna para um ser humano. E me amedronta ainda mais saber que, em vez de estarmos caminhando para resolver esse problema, talvez estejamos indo na rota contrária.

Não sei se a encontrarei ou se terei coragem de entregar essa carta. No fundo, espero que os que leiam lembrem de você como a expressão de muita gente que não tem um futuro pela frente. Se não posso resolver sozinho as suas carências, querida Esperança, continuarei lutando para melhorar, no que me cabe, o mundo que nos circunda. E não vou me esquecer de seu nome porque é ele que me guia mesmo nos piores dias”.

O conceito de moderno

O conceito de moderno é relativamente difuso nas ciências sociais. Surge em meados do século XIX, mais como uma manifestação de partes da população contra os então valores tradicionais ainda da Igreja e dos resquícios da Idade Média, na sua superação pela industrialização e o capitalismo. Na moda, estes conceitos são mais presentes, na sucessiva mudança de hábitos e costumes que diferenciam as classes e grupos sociais. Nas artes, principalmente na pintura, com Picasso e tantos outros, toma corporeidade devido à sua referência a um movimento bem específico e determinado no tempo. Assim como na literatura.

Nas ciências sociais, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman propõe o termo “modernidade líquida”, como o saldo que diferencia sociedades mais desenvolvidas de outras. O conceito de modernidade, entretanto, é altamente imbuído de juízo de valor, nem sempre eficaz ou preditivo de tendências.

Muitos conceituam a modernidade como aquilo que vem depois. Trata-se, entretanto, de termo, quando mal aplicado, infrutífero e até mesmo pernicioso, no que possa expressar tendências nefastas sob o manto da terminologia. Hitler e o nazismo teriam sido modernos por vir após a República de Weimar? Bolsonaro, quando aparece no Brasil, foi moderno ou retrógrado? Viktor Órban, o que representa? Seria moderno o futuro sombrio do apocalipse que se apresenta à crise ambiental?

Como disse Shakespeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. Não é o que vem depois que legisla sobre o que há de certo no amanhã.

Os Cães

– Mas, enfim, que pretendes fazer agora? perguntou-me o Quincas Borba, indo pôr a xícara vazia no parapeito de uma das janelas.

– Não sei; vou meter-me na Tijuca; fugir aos homens.

Estou envergonhado, aborrecido. Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e não sou nada.

– Nada! interrompeu-me o Quincas Borba com um gesto de indignação.

Para distrair-me, convidou-me a sair; saímos para os lados do Engenho Velho. Íamos a pé, filosofando as coisas.

Nunca me há de esquecer o benefício desse passeio, que me restituiu o sossego e a força. A palavra daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim que a língua filosófica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no calão do povo. Funda um jornal, disse-me ele, e “desmancha toda esta igrejinha”.

– Magnífica ideia! Vou fundar um jornal, vou escachá-los, vou...

– Lutar. Podes escachá-los ou não; o essencial é que lutes. Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.


Daí a pouco demos com uma briga de cães; fato que aos olhos de um homem vulgar não teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os cães. Eram dois. Notou que ao pé deles estava um osso, motivo da guerra, e não deixou de chamar a minha atenção para a circunstância de que o osso não tinha carne. Um simples osso nu. Os cães mordiam-se, rosnavam, com furor nos olhos... Quincas Borba meteu a bengala debaixo do braço, encostou o queixo no costão e parecia em êxtase.

– Que belo que isto é! dizia ele de quando em quando.

Quis arrancar-me dali, mas não pude; ele estava arraigado ao chão, e só continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e um dos cães, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficara sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande filósofo. Fez-me observar a beleza do espetáculo, relembrou o objeto da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia.

Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetáculo é mais grandioso; as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

O calor cozinha nossos miolos?

O clima tropical "amoleceu" os brasileiros, como sugeriu Albert Einstein em seus politicamente incorretos diários de viagem? O pai da Teoria da Relatividade foi aqui um gênio presciente ou apenas preconceituoso?

A viagem de Einstein à América do Sul ocorreu em 1925. À época não havia estudos rigorosos que pudessem amparar suas observações sobre os efeitos do clima na inteligência, de modo que o físico alemão apenas ecoava o determinismo geográfico de tons racistas que era moeda corrente à época.


Ocorre que, a partir de 1945, começam a surgir pesquisas que apontam efeitos negativos do calor sobre a cognição, não em caráter essencialista, do tipo que produziria povos irremediavelmente ignorantes, mas de forma aguda. O mesmo indivíduo tem performance melhor ou pior de acordo com a temperatura.

Valho-me aqui de informações constantes em "The Weight of Nature", de Clayton Page Aldern, livro que ainda vou resenhar, mas do qual já dou uma palhinha. No que provavelmente é o primeiro estudo controlado, Norman Mackworth mostrou que o desempenho de soldados da Real Força Aérea na transcrição de código Morse piorava nitidamente com o aumento dos termômetros. A partir dos 33ºC a diferença se tornava dramática.

Hoje há uma profusão de trabalhos nessa linha. Eles não só corroboram o vínculo como indicam que ele pode ser fonte de desigualdades. Na China, já se mostrou que estudantes das regiões mais quentes são injustamente penalizados no vestibular unificado do país, o "gaokao", que ocorre no verão.

Em Nova York, apenas dois terços das escolas públicas têm ar-condicionado. Obviamente, são as dos distritos mais pobres as que não têm. A climatização explica 5% da diferença de desempenho entre as crianças negras e não negras.

Não é coincidência que, quando questionado sobre o segredo do sucesso de Singapura, Lee Kuan Yew, o ditador que fundou o país, tenha respondido: ar-condicionado.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Pensamento do Dia

 


O país do faz de conta

O Estadão cumpre a missão que se espera de jornal engajado no debate dos graves problemas sociais. O editorial A tragédia das crianças pobres (17/4) recoloca em discussão o drama da infância carente ou abandonada. Deixou de apontar, porém, que não se trata de fenômeno recente. Arrasta-se há mais de 50 anos, como fruto da combinação de vários fatores, entre os quais a urbanização, o crescimento da população, a desagregação familiar.

O livro Geografia da Fome, de Josué de Castro, teve a primeira edição publicada em 1960. Lançou, secundando Os Sertões, de Euclides da Cunha, um contundente libelo contra a miséria. Custou ao autor a cassação dos direitos políticos e o exílio na França, em 1964.

Em 1975, por iniciativa do deputado Nelson Marchezan, a Câmara dos Deputados aprovou a criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o problema da criança e do menor carentes do Brasil. O relatório, publicado em 10/6/1976, é encontrado na internet. Revela a existência, entre 108 milhões de habitantes, dos quais 55,82% vivendo nas cidades, de 13,5 milhões de menores carentes e de 1,9 milhão de abandonados.


Em artigo publicado no livro A Velha Questão Sindical e Outros Temas (LTr Editora, São Paulo, 1995), registrei, a propósito da CPI, que “o relatório final nos cobriu de vergonha diante dos povos civilizados”. Escrevi, também, que para enfrentar o gravíssimo problema o Brasil, mais uma vez, recorria ao método faz de conta: “Faz de conta que as elites tomaram conhecimento do assunto; faz de conta que providências urgentes passam a ser adotadas; faz de conta que há uma fundação nacional incumbida dos menores; faz de conta que fundações estaduais se ocupam do mesmo problema; faz de conta que basta a aprovação de uma lei para que carentes e abandonados tenham educação e abrigo; faz de conta que o fracasso das medidas é devido à velha legislação; faz de conta que nova lei corrigirá as deficiências atribuídas à antiga; faz de conta que se cria um ministério do menor, e assim por diante (...)”.

Sensível ao tema, a Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988) determinou a proteção do Estado à família, à criança, ao adolescente, ao jovem e ao idoso (artigos 226230). Dispenso-me da reprodução dos dispositivos da Lei Fundamental. Registro, porém, o texto do artigo 227, para o qual é dever da família “assegurar à criança, ao adolescente, ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-lo a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n.º 8.069, de 1990, contém 267 artigos e respectivos parágrafos. Regulamentou os dispositivos constitucionais. Foi, à época, saudado como esperança para os desafios representados pelos menores carentes e abandonados. Os resultados, todavia, confirmam a imagem do país do faz de conta.

O editorial do Estadão mencionado no início deste artigo contém informações desalentadoras. Apoiado em estatísticas do IBGE, revela que, “segundo dados de 2022, quase metade das crianças brasileiras vive em situação da pobreza. São 49,9% das crianças de 0 a 5 anos e 48,5% das crianças de 6 a 14 anos enquadradas na linha de pobreza definida internacionalmente, isto é, US$ 2,15 por dia”. São aproximadamente 41,1 milhões, dos quais mais da metade vive com fome, não apenas de alimentos, mas, também, de carinho, de saúde, de educação, de esperanças positivas de vida.

No coração da cidade de São Paulo temos imagens dolorosas das condições de abandono de meninas e meninos. Podem ser vistos sós ou em grupos nas ruas e nas entradas de restaurantes de luxo, vendendo balas, pedindo ajuda em dinheiro, mendigando um pouco de comida.

A Constituição Cidadã, como a denominou o dr. Ulysses Guimarães, em outubro completará 36 anos de vigência. Não foi escrita por juristas. No plenário, prevaleceram os retóricos, empenhados em contaminá-la com fortes doses de utopias. Sucessivos governos ignoraram as advertências contidas no relatório da CPI dos carentes e abandonados de 1975. Não será demasiado transcrever o que diz o documento, ao tratar da desagregação familiar: “A causa mais próxima a condicionar a marginalização do menor é, sem dúvida alguma, a desagregação familiar, em decorrência da pobreza e da rápida mudança de valores”.

Encontrar recursos financeiros e humanos destinados a tentar resolver o problema angustiante e visível dos menores carentes e abandonados é o desafio inadiável da União, dos Estados, dos municípios. Os dados estão disponíveis para quem se interessar em consultá-los. Desde a redemocratização, pelo menos uma geração foi perdida. Os resultados são visíveis a olhos nus. Não há como ignorá-los.

Instrumento redutor

Porque é que a TV foi essa "caixinha que revolucionou o mundo"? Faço a pergunta e as respostas vêm em turbilhão. Fez de tudo um espectáculo, fez do longe o mais perto, promoveu o analfabetismo e o atraso mental. De um modo geral, desnaturou o homem. E sobretudo miniturizou-o, fazendo de tudo um pormenor, isturado ao quotidiano doméstico. Porque mesmo um filme ou peça de teatro ou até um espectáculo desportivo perdem a grandeza e metafísica de um largo espaço de uma comunidade humana.

Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a "caixa revolucionadora" ser um objecto entre os objectos de uma sala.

Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ser é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige a colaboração da memória, do entendimento e da imaginação.

A TV dispensa tudo. Uma simples frase como "o homem subiu a escada" exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. Mas ser homem simplesmente é muito trabalhoso. E o mais cómodo é ser suíno...
Vergílio Ferreira, "Escrever"

Quando a verdade vale mais que um salário ou posição

Com o avanço gradual e cada vez mais intenso das mudanças climáticas, água e fogo vêm gerando tragédias. Tragédias que, como temos visto, vêm se tornando campos férteis para a semeadura de mentiras.

Enquanto o Rio Grande do Sul enfrenta as consequências das enchentes deste mês, os australianos começam a se preparar, ainda em junho, para a estação de fogo nas florestas, evento que ocorre todo ano entre novembro e janeiro do ano seguinte.

Os fogos nas matas da Austrália acontecem há milhões de anos e contribuíram até mesmo para criar características próprias da fauna e da flora deste continente. Os incêndios mais destrutivos são precedidos por altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e ventos fortes. Estes três fatores encontram seu "prato-feito" nas florestas de eucaliptos – a maior parte do ano extremamente secas e sempre impregnadas de seu óleo natural.



No entanto, em seus mais de 60 mil anos vivendo nesta terra, os aborígenes desenvolveram meios de contornar ou evitar situações catastróficas. Nas últimas décadas, os ex-colonizadores europeus, ou os atuais governos dos Estados, acolheram velhas práticas dos povos originários e acabaram por adotar ou adaptar suas técnicas seculares. São as chamadas backburn, ou seja, as queimas preventivas, em áreas de maior risco. Esta queima é coordenada e feita em várias áreas pelos bombeiros rurais. Destes, 72.490 são voluntários. O orçamento de combate ao fogo é da ordem de 534 milhões de dólares por ano. E, naturalmente, bombeiros e polícia investigam as causas da maioria desses incêndios – que podem ter origem criminosa ou por descuido, embora muito raramente. Mesmo as populações das menores vilas no interior são informadas e adotam medidas para encarar esses eventos.

Os incêndios de novembro de 2019 a janeiro de 2020 foram os mais intensos e abrangentes já ocorridos aqui, e tiveram ampla cobertura internacional. No Estado de New South Wales, onde vivo, foram atingidos cinco e meio milhões de hectares, parte do total dos 243.000 quilômetros quadrados que arderam no país. Isto resultou na destruição de 2.779 casas e na morte de 34 pessoas.

A maioria da mídia australiana, consultando cientistas, meteorologistas, agrônomos e ecologistas foi quase unânime em reportar os fatos como uma evidência inegável e aterradora do aquecimento global. O "quase", acima, ficou por conta da organização News Corp Australia, de propriedade de Rupert Murdoch. Esse "quase" é para ser lido como: "de forma alguma", ou "muito pelo contrário".


Murdoch, nascido na Austrália e naturalizado norte-americano, é dono de um império de empresas, entre elas a Fox Corporation, The Wall Street Journal, HarperCollins e o The New York Post. As empresas americanas abertamente apoiaram George W. Bush e Donald Trump. A mim não incomoda a tendência política ou o negacionismo gerenciado e apregoado por Murdoch. É um direito dele. Ele possui ainda jornais na Inglaterra e é dono também de cerca de 65 por cento da mídia impressa e televisiva na Austrália.

Embora as polícias e os bombeiros estaduais não tenham encontrado nem um só caso de fogo intencional nos incêndios em questão, a News Corp Australia, segundo sua gerente financeira e comercial Emily Townsend, fez circular "uma campanha de informações falsas" apresentando uma "cobertura irresponsável e perigosa" da crise. Em e-mail dirigido ao chefe executivo Michael Miller, Emily diz que sentiu "severo impacto pela cobertura mentirosa dos incêndios que visou desviar a atenção da razão verdadeira dos incêndios – que é o aquecimento global – mudando o enfoque para incêndios premeditados".

Emily já vinha ocupando esse alto cargo executivo por cinco anos. Neste e-mail, ela prossegue: "As reportagens que vi no The Australian, The Daily Telegraph e no Herald Sun são não apenas irresponsáveis; são danosas para as comunidades. (...) Sinto até uma espécie de náusea porque, de certa forma – e no entender de alguns –, eu estive contribuindo para a disseminação desse negacionismo com respeito ao aquecimento global". E para terminar esse e-mail – através do qual ela formaliza a sua demissão da empresa –, ela confessa: "É injusta e inescrupulosa a forma como esta companhia vem agindo com relação ao aquecimento global".

Gestos corajosos como este de Emily me fazem lembrar que, mesmo em meio às maiores catástrofes – e dentre elas a do negacionismo climático –, ainda se pode encontrar profissionais que arriscam tudo a bem da exatidão daquilo que virá a ser notícia.
Marcus Cremonese

Humanidade derretida

Não sabia o que fazer para ajudar as pessoas que queimavam. Havia corpos desmembrados, carbonizados, crianças sem cabeça, corpos como se tivessem derretido
Ahmed Al-Rahl, 30 anos, testemunha do ataque aéreo de Israel aos palestinos abrigados em tendas, em Rafah

Quem mais perde com as derrotas do governo Lula no Congresso

Quem perde quando o Congresso, o mais reacionário da história do país desde o fim da ditadura militar há 39 anos, acaba com a saída temporária de presos para visitar as famílias em feriados e datas especiais? Em 95% dos casos, eles retornam aos presídios. Uma boa parte deles sequer ainda foi julgada.

O crime organizado agradece ao Congresso pelo que ele fez. É dessa mão de obra barata e sem esperança de redenção que lota os presídios que o crime organizado se alimenta em 25 dos 27 estados da Federação onde está presente e ativo. A medida é um incentivo a novas rebeliões com sequestros e mortes de agentes da ordem.

Quem perde quando o Congresso, dominado pelo Centrão em aliança com a extrema-direita bolsonarista, aprova o projeto de decreto legislativo que permite a instalação de clubes de tiro a pouca distância de escolas? E quem perde quando ele impede que seja criminalizada a distribuição de notícias falsas que atentam contra a democracia?

Jamais imaginei que viveria para ver deputados assomarem à tribuna da Câmara e defenderem o direito de mentir. Foi o que fez, por exemplo, a deputada Bia Kicis (PL-DF), uma bolsonarista raiz, quando disse:


“Infelizmente, a verdade é a seguinte: o mundo está cheio de mentirosos e mentir não é crime. Pode ser pecado, pode ser feio, pode ser imoral, mas mentira não é crime. Estão perseguindo, querendo cassar mentirosos, é isso?”

A deputada admite que mentir pode ser pecado, ser feio, ser imoral, mas reclama da eventual cassação de mandatos de políticos que disseminam mentiras. Foram mais de 300 votos a favor do direito de mentir no Congresso, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras Municipais e nas redes sociais. Como se mentir não fizesse mal.

Mentiras, ditas por quem foi eleito pelo povo que não elegeria um mentiroso confesso, podem matar. Lembrai-vos da pandemia da Covid. Quantas pessoas não morreram por terem dado ouvidos às mentiras do presidente da República sobre o uso de drogas ineficazes contra o vírus? Não foi por ignorância que ele mentiu.

Mentiras, ditas por personagens de relevo, podem estar na base de tentativas de golpes de Estado, sejam elas bem ou mal sucedidas. Não foi o que vimos com Trump ao incentivar a invasão do Capitólio por que lhe teriam roubado a reeleição? E aqui com Bolsonaro ao dizer, sem provas, que as urnas eletrônicas eram inseguras?

O governo Lula colheu, esta semana, no Congresso, essas e outras fragorosas derrotas, e tem culpa no cartório. Mas não foi ele quem mais perdeu com isso – foi o Brasil.

Meio milhão de cariocas passam fome

A insegurança alimentar grave é realidade em 7,9% das casas na capital fluminense. Em números absolutos, são 489 mil pessoas que passam fome. Cerca de 2 milhões de cariocas convivem com algum grau de insegurança alimentar (seja leve, moderada ou grave). Os dados inéditos fazem parte do I Inquérito sobre a Insegurança Alimentar no Município do Rio de Janeiro – o Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro.

A pesquisa revela ainda que o acesso à alimentação adequada se dá de forma desigual na geografia da capital fluminense. A Área de Planejamento (AE) 3 (Zona Norte sem a Grande Tijuca) é a mais atingida pela fome – ela se apresenta em 10,1% das casas. A fome é maior nos lares chefiados por pessoas negras (em 9,5% desses domicílios). Quando o estudo faz a análise por gênero, 8,3% das famílias comandadas por mulheres também não têm o que comer.

O Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro é uma parceria entre a Frente Parlamentar contra a Fome e a Miséria no Município do Rio de Janeiro da Câmara Municipal e o Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC/UFRJ). Com o lançamento do estudo, o Rio de Janeiro se torna a primeira cidade brasileira a mapear a insegurança alimentar e a fome em nível municipal.


Outros indicadores mostram que a falta de comida atinge 16,6% das famílias lideradas por pessoas com escolaridade mais baixa. A fome também atinge 18,3% das casas onde a pessoa de referência está desempregada, e em 34,7% dos domicílios com renda per capita mais baixa.

“O perfil da pessoa que passa fome no Rio acompanha as desigualdades nacionais. As famílias que têm insegurança alimentar grave têm a chefia feminina, que tenha pessoa preta ou parda, com menor escolaridade com fundamental incompleto, desempregado e famílias de menor renda, inferior a um quarto do salário mínimo per capita”, disse Rosana Salles-Costa, professora e pesquisadora do INJC/UFRJ.

As estatísticas foram coletadas entre novembro de 2023 e janeiro de 2024, a partir da realização de entrevistas em 2 mil domicílios das cinco APs do município. A segurança alimentar foi medida pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), que também é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"O Mapa da Fome do Rio é um importante legado da Frente Parlamentar Contra a Fome e a Miséria para a população carioca. Ele servirá de base para fornecer critérios técnicos para a implementação de políticas públicas, e com isso auxiliar na ampliação dos restaurantes populares, cozinhas comunitárias, banco de alimentos e demais instalações de programas de segurança alimentar", afirmou o vereador Dr. Marcos Paulo (PT), presidente da Frente Parlamentar Contra a Fome e a Miséria no Município do Rio de Janeiro.

O Mapa da Fome da Cidade do Rio de Janeiro revela que o percentual de fome no município é quase o dobro se comparado com o dado nacional recém-divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada em abril, a fome esteve presente em 4,1% das casas brasileiras. No estado do Rio de Janeiro, ainda segundo a PNAD, o percentual de 3,1% ressalta ainda mais a situação aguda da capital fluminense.
Políticas

O estudo analisa as políticas públicas e iniciativas – do governo ou da sociedade civil – que têm por objetivo assegurar o direito à alimentação saudável. Os três restaurantes populares municipais existentes (em Bonsucesso, Bangu e Campo Grande) atenderam a apenas 6,9% da população carioca. As cozinhas comunitárias e o programa Prato Feito Carioca foram acessados, de agosto a outubro de 2023, por apenas 2,1% dos moradores da cidade. As visitas às residências de agentes comunitários de saúde também têm se mostrado escassas: 56,5% da população no município relatou não ter recebido a visita nos últimos três meses.

O principal programa de segurança alimentar do município consiste no acompanhamento assistencial e nutricional em unidades de acolhimento (abrigos, hotéis e albergues noturnos) de adultos, crianças e adolescentes. Foram identificados 34 equipamentos públicos (que atendem a 1,5 mil pessoas), e cinco hotéis (com 500 hóspedes). Há apenas um albergue voltado para a população LGBTQIAP+, localizado na AP 1 (Centro e zona portuária). Na AP 2 (zona sul), há somente duas unidades de reinserção social, localizadas no Catete e em Laranjeiras.

“Para reverter esse quadro, é preciso ampliar os equipamentos públicos para essas pessoas em maior vulnerabilidade no acesso à alimentação, que seriam as cozinhas comunitárias cariocas como também os restaurantes populares. Em outra frente, é necessário aumentar a renda, melhorar a escolaridade e o emprego. Porque daí eu consigo reduzir a desigualdade e os níveis de insegurança alimentar”, disse Rosana Salles-Costa.

Já o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome divulga que no mês de maio de 2024, o município de Rio de Janeiro teve 572.512 famílias atendidas pelo Programa Bolsa Família, com 1.309.671 pessoas beneficiadas, e totalizando um investimento de R$ 377.886.157,00 e um benefício médio de R$ 660,60.
Insegurança hídrica

A insegurança hídrica também é avaliada pelo Mapa da Fome da capital carioca. O estudo revela que 15% dos lares cariocas não tiveram fornecimento regular de água ou sofreram com a falta de água potável. Dessas famílias, 27% se encontraram em situação de fome. As regiões mais afetadas pela escassez de recursos hídricos são Centro e zona portuária), com 24,3% e a zona norte sem a Grande Tijuca, com 21,7%.

“É urgente construir uma agenda de projetos de lei, políticas públicas, estratégias e outras ações. O número de cozinhas comunitárias e restaurantes populares, por exemplo, deve aumentar. São esses os espaços que asseguram a distribuição de refeições saudáveis e gratuitas ou com preços acessíveis em toda a cidade do Rio de Janeiro”, afirma o vereador Dr. Marcos Paulo.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Mundo sem rótulos


Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros rótulos, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo.

Pablo Neruda

Brasil, Canadá e Bangladesh: há semelhança?

Tão distintos, e tão parecidos! Pela maioria dos indicadores usuais – PIB e seu crescimento, IDH, esperança de vida, mortalidade infantil, etc. -, as regiões do título são muito diferentes uma da outra. No entanto, nessa nova era em que estamos, tornam-se cada vez mais semelhantes. O “desenvolvimento econômico” é o grande responsável por essa aproximação.

Por muitos anos, aqueles treinados em economia, como eu, foram instruídos na noção de que o dito “desenvolvimento econômico” traria, em síntese, mais e rica homogeneidade global! Por conseguinte, todos buscavam facilitar tal processo. A promessa era que o “desenvolvimento” traria melhorias no padrão de vida de todos. Em suma, a felicidade geral!

A ideia de buscar o desenvolvimento continua a ser perseguida por governantes à direita e a esquerda. E aonde essa busca nos tem levado?

No Canadá, em região não distante de Vancouver, restos carbonizados de árvores caem ao solo ao serem tocados, e esqueletos de postos de gasolina demonstram a ferocidade das queimadas ali ocorridas, cuja fumaça chegou à Baltimore, Barcelona, Berlim e além. Os incêndios queimaram área maior que Flórida e lançaram na atmosfera quase três vezes as emissões anuais do país!

Em Bangladesh, a água salobra “está em nossos rios e em nossas xícaras”, dizem habitantes de áreas costeiras, muitos dos quais, sem alternativa, cozinham com água contaminada, e em seguida sofrem doenças renais e outras! Uma estação de tratamento de água, construída em 2005 com a promessa de melhorar a vida de muitos e criar “emprego e renda”, está abandonada há anos, devido a custo elevado e brigas políticas. Apesar de privatizada, a unidade segue inoperante. A terceira maior cidade do pais, Khulna, já foi um centro de “desenvolvimento”, com moinhos, pujante indústria de pesca, estaleiros e outras atividades geradores de “emprego e renda”. Cheias frequentes, ciclones e ressacas marítimas deprimiram as fontes de água potável, com a intrusão de água do mar comprometendo a disponibilidade de água doce e as demais atividades.

Só na Europa, existem 1.200 barragens impedindo a migração de peixes. Estudo recente estima, desse 1970, mundialmente, uma queda de 80% – repita-se, 80%! – na população de peixes migratórios! A queda é ainda maior na América do Sul e no Caribe! Não apenas as barragens causam tal exaustão: também a poluição, o desvio das águas dos rios e a pesca predatória são responsáveis. Vale dizer, o “desenvolvimento econômico”!

No Rio Grande do Sul, ainda mais grave é a situação de mais de meio milhão de brasileiros; isso, num estado até recentemente tido como dos mais “desenvolvidos” do nosso país!!

E assim, de “desenvolvimento” em “desenvolvimento”, vamos criando desastres e comprometendo, mundo afora, as chances de nossos filhos e netos terem vidas saudáveis, com segurança.

No RGS, mais que “reconstruir”, é hora de construir de maneira diferente, tornando-se exemplo para toda a aldeia global, cujos habitantes estão, cada vez mais, ameaçados pelo “desenvolvimento”.

Quando a verdade vale mais que um salário ou posição

Enquanto o Rio Grande do Sul enfrenta as consequências das enchentes deste mês, os australianos começam a se preparar, ainda em junho, para a estação de fogo nas florestas, evento que ocorre todo ano entre novembro e janeiro do ano seguinte.

Os fogos nas matas da Austrália acontecem há milhões de anos e contribuíram até mesmo para criar características próprias da fauna e da flora deste continente. Os incêndios mais destrutivos são precedidos por altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e ventos fortes. Estes três fatores encontram seu "prato-feito" nas florestas de eucaliptos – a maior parte do ano extremamente secas e sempre impregnadas de seu óleo natural.


No entanto, em seus mais de 60 mil anos vivendo nesta terra, os aborígenes desenvolveram meios de contornar ou evitar situações catastróficas. Nas últimas décadas, os ex-colonizadores europeus, ou os atuais governos dos Estados, acolheram velhas práticas dos povos originários e acabaram por adotar ou adaptar suas técnicas seculares. São as chamadas backburn, ou seja, as queimas preventivas, em áreas de maior risco. Esta queima é coordenada e feita em várias áreas pelos bombeiros rurais. Destes, 72.490 são voluntários. O orçamento de combate ao fogo é da ordem de 534 milhões de dólares por ano. E, naturalmente, bombeiros e polícia investigam as causas da maioria desses incêndios – que podem ter origem criminosa ou por descuido, embora muito raramente. Mesmo as populações das menores vilas no interior são informadas e adotam medidas para encarar esses eventos.

Os incêndios de novembro de 2019 a janeiro de 2020 foram os mais intensos e abrangentes já ocorridos aqui, e tiveram ampla cobertura internacional. No Estado de New South Wales, onde vivo, foram atingidos cinco e meio milhões de hectares, parte do total dos 243.000 quilômetros quadrados que arderam no país. Isto resultou na destruição de 2.779 casas e na morte de 34 pessoas.

A maioria da mídia australiana, consultando cientistas, meteorologistas, agrônomos e ecologistas foi quase unânime em reportar os fatos como uma evidência inegável e aterradora do aquecimento global. O "quase", acima, ficou por conta da organização News Corp Australia, de propriedade de Rupert Murdoch. Esse "quase" é para ser lido como: "de forma alguma", ou "muito pelo contrário".

Murdoch, nascido na Austrália e naturalizado norte-americano, é dono de um império de empresas, entre elas a Fox Corporation, The Wall Street Journal, HarperCollins e o The New York Post. As empresas americanas abertamente apoiaram George W. Bush e Donald Trump. A mim não incomoda a tendência política ou o negacionismo gerenciado e apregoado por Murdoch. É um direito dele. Ele possui ainda jornais na Inglaterra e é dono também de cerca de 65 por cento da mídia impressa e televisiva na Austrália.

Embora as polícias e os bombeiros estaduais não tenham encontrado nem um só caso de fogo intencional nos incêndios em questão, a News Corp Australia, segundo sua gerente financeira e comercial Emily Townsend, fez circular "uma campanha de informações falsas" apresentando uma "cobertura irresponsável e perigosa" da crise. Em e-mail dirigido ao chefe executivo Michael Miller, Emily diz que sentiu "severo impacto pela cobertura mentirosa dos incêndios que visou desviar a atenção da razão verdadeira dos incêndios – que é o aquecimento global – mudando o enfoque para incêndios premeditados".

Emily já vinha ocupando esse alto cargo executivo por cinco anos. Neste e-mail, ela prossegue: "As reportagens que vi no The Australian, The Daily Telegraph e no Herald Sun são não apenas irresponsáveis; são danosas para as comunidades. (...) Sinto até uma espécie de náusea porque, de certa forma – e no entender de alguns –, eu estive contribuindo para a disseminação desse negacionismo com respeito ao aquecimento global". E para terminar esse e-mail – através do qual ela formaliza a sua demissão da empresa –, ela confessa: "É injusta e inescrupulosa a forma como esta companhia vem agindo com relação ao aquecimento global".

Gestos corajosos como este de Emily me fazem lembrar que, mesmo em meio às maiores catástrofes – e dentre elas a do negacionismo climático –, ainda se pode encontrar profissionais que arriscam tudo a bem da exatidão daquilo que virá a ser notícia.

Marcus Cremonese

terça-feira, 28 de maio de 2024

O horror e o terror moral, amigos de Israel na matança dos palestinos

A armadilha montada no extremo-sul da Faixa de Gaza para matar palestinos funcionou a contento do governo de Israel. Pelo menos 45 pessoas morreram queimadas e decapitadas em tendas onde Israel garantiu que elas estariam a salvo de bombardeios, e 250 escaparam feridas – a maioria das vítimas, mulheres, crianças e velhos. O horror, o horror!

A expressão “o horror, o horror” aparece pela primeira vez na literatura em Heart of Darkness, do escritor britânico de origem polonesa Joseph Conrad, no ano de 1899. São as palavras derradeiras de Kurtz, um traficante de marfim franco-inglês que se encontra fisicamente doente e, ao que tudo indica, igualmente insano.

No filme Apocalipse Now, lançado em 1979, o cineasta Francis Ford Coppola resgatou a expressão e a pôs na boca do Coronel Kurtz, das forças especiais dos Estados Unidos, vivido por Marlon Brando, que enlouquecera e se refugiou nas selvas do Camboja. A ação se passa na guerra do Vietnã e todos os personagens são militares.


Coube ao Capitão Willard (Martin Sheen) a tarefa de localizar e matar o coronel, o que ele faz. Mas antes de ser morto, o coronel lhe diz:

“Você tem o direito de me matar, mas não o de me julgar. É impossível pôr em palavras o necessário para quem desconhece o sentido do horror. Horror. Horror tem rosto e é preciso fazer amizade com o horror. O horror e o terror moral são seus amigos. Se não forem, então são inimigos a temer. São inimigos de verdade.”

Não peça a Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, que reconheça o horror das suas ações. Ele só vê o horror nas ações do grupo Hamas, que invadiu seu país em 7 de outubro do ano passado. Se visse também nas suas, não poderia chamar o Hamas de grupo terrorista para que Israel não fosse tachado de Estado terrorista.

Mais uma vez, o mundo chocou-se com o que aconteceu nas proximidades de Rafah, no extremo-sul da devastada Faixa de Gaza, e reagiu com indignação, a pedir o fim da guerra. Netanyahu limitou-se a declarar, contrafeito:

“Apesar dos nossos esforços máximos para não prejudicar os civis, infelizmente algo correu tragicamente errado”.

O mundo chocar-se não quer dizer grande coisa. Não mudará em nada a determinação dos dirigentes de Israel de ir em frente com a guerra que já matou mais de 36 mil palestinos civis e inocentes. Somente os Estados Unidos poderiam impor a Israel seu desejo de que a guerra terminasse, mas não o fará. Israel é seu braço armado na região.

Por mais que continue matando palestinos e árabes aqui e acolá, Israel já perdeu esta guerra. Não tem como derrotar o Hamas em definitivo, promessa repetida por Netanyahu a cada vez que é obrigado a se explicar. A Netanyahu só resta estender o fim do seu governo provocando o horror e o terror moral, seus diletos amigos.

Negar a crise do clima pode custar caro

Um oceano separa a catástrofe climática que atingiu o Rio Grande do Sul do comício do partido espanhol Vox, com lideranças da ultradireita internacional, como Javier Milei, realizado em Madri no domingo (19). A verdade, contudo, é que a distância entre esses dois eventos, um geográfico, outro político, é tão estreita que seria possível cruzar esse oceano com uma pinguela.

Isso porque no mesmo dia em que os principais nomes da extrema direita mundial reuniram-se na Espanha para reforçar, entre outras pautas, o negacionismo climático, os brasileiros - do outro lado do Atlântico - assistiam, estarrecidos, à fúria das águas arrastando carros, móveis, pessoas, animais, sobre cidades inundadas, um cenário de guerra, uma atmosfera de desespero e desalento. Tão longe, e tão perto.

Os dados mais recentes mostram que morreram 157 pessoas e quase 1 milhão de pessoas estão há quase um mês em abrigos públicos, ou na casa de parentes ou amigos. Mas é espantoso que o desastre tenha precedentes recentes, e nenhum governante tenha feito a lição de casa.

Se o Guaíba superou o nível de 5 metros, nas enchentes provocadas pelas chuvas de novembro (há seis meses), o lago/rio já havia acionado o alarme ao bater o recorde de ultrapassar 3 metros - o que não ocorria desde as cheias de 1941. Alguns dos municípios mais afetados neste mês, como Porto Alegre, Canoas e Eldorado do Sul, haviam sido inundados nas chuvas de novembro, embora não na mesma proporção.

A crise climática evidencia-se num cenário em que, enquanto as tempestades devastavam cidades no Rio Grande do Sul em novembro, uma onda de calor, com termômetros marcando 46o C, alastrava-se pelo restante do país. O próprio Rio Grande do Sul, antes de se ver debaixo d’água, amargou uma das estiagens mais severas nos três anos que antecederam as atuais enchentes.

São fatos que desafiam os negacionistas, como o presidente da Argentina, Javier Milei, chamado no comício do Vox de “estrela brilhante”. No país de Lionel Messi, a crise climática também deu sinais de alerta. As temperaturas alcançaram os 46º C, enquanto o volume de água de rios alimentados pela neve da Cordilheira dos Andes está diminuindo. E um inimigo antes reservado ao Brasil e ao Paraguai agora ameaça os argentinos: a dengue, que se manifesta nas altas temperaturas, como nos verões brasileiros.

Milei, entretanto, é um político que chamou o aquecimento global de “marxismo cultural”, fechou o Ministério do Meio Ambiente e resiste a vacinar a população contra a dengue.

Na mesma sintonia, o presidente do Vox, Santiago Abascal, acusa os socialistas de estarem sob ordens dos "ecologistas radicais" e fala em "religião climática".

E, recentemente, o ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou nas redes sociais que "problematização climática é desinformação".

No ato em Madri, Milei exortou a direita europeia a se unir contra o socialismo, e pediu votos para o Vox nas eleições para o parlamento europeu em 9 de junho. Os partidos ultraconservadores vivem uma onda de expansão. Em março, o partido Chega, de Portugal, do líder extremista André Ventura, cresceu de 12 cadeiras para 50 vagas no Congresso.

Nos últimos dois anos, a ultradireita passou a governar, ou integrar coalizões de governo, na Itália, Grécia, Suécia e Finlândia. França e Alemanha estão ameaçadas. Donald Trump pode retornar à Casa Branca, e o bolsonarismo segue com musculatura no Brasil.

A união da ultradireita é estratégica, e busca seguir um modelo implementado pela esquerda e centro-esquerda europeia na última década, mas que perdeu fôlego nos últimos anos. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou a prisão, ele fez um périplo internacional, e foi recepcionado pelas principais lideranças da centro-esquerda europeia, cujos partidos mantêm a aliança histórica com o PT. Em novembro de 2021, Lula nem era pré-candidato, e foi recebido pelo presidente da França, Emanuel Macron, pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, pelo futuro chanceler da Alemanha, Olaf Scholz (que era ministro de Finanças na ocasião), e discursou no Parlamento Europeu em Bruxelas, em evento promovido por congressistas do bloco social democrata, de centro-esquerda. Na contramão do negacionismo climático dos ultraconservadores, Lula defendeu a preservação do meio ambiente e a redução da desigualdade econômica.

A preocupação de cientistas atentos às mudanças climáticas é com o aumento da frequência e da duração desses episódios extremos. E como se não bastassem os alertas dos dados científicos para o agravamento desse quadro, os cientistas ainda são vítimas de desinformação nas redes sociais, onde são agredidos e achincalhados.

Mas há reações. Em fevereiro, o cientista americano e professor da Universidade da Pensilvânia Michael Mann venceu uma batalha judicial que se prolongava havia 12 anos contra blogueiros que o difamaram nas redes sociais. Segundo a revista “Nature”, um tribunal americano fixou contra os difamadores uma indenização por danos morais ao cientista no valor de US$ 1 milhão.

Não há mais nada de bom em nosso mundo?

Como jornalista preciso ler ou ouvir as últimas notícias do mundo assim que acordo. Quando as pessoas ao meu lado me perguntam sarcasticamente quais são as “boas notícias” do dia, entendo a ironia. E mais do que irônico é a constatação de que hoje no mundo tudo parece ser um desastre, sobretudo de violência, mas também de crise de valores, de despertar de velhos fascismos e de corrupção de democracias.

Teremos que voltar aos tempos dos jornais que só publicavam notícias boas e que acabavam fracassando? Também não é isso, mas talvez seja verdade que especialmente com a chegada das redes sociais e das novas tecnologias de divulgação de notícias, essa coceira inata pelo catastrófico, pelo negativo versus o negativo, está se tornando mais aguda, e às vezes até cientificamente positiva.. Quanto mais sangue, melhor. Quanto mais trágica a notícia, mais ela vende.

Porém, talvez estejamos equivocados ao acreditar que boas notícias, notícias que expandem a alma, exemplos de melhoria, desejos de paz e justiça, não vendem mais. Isto começa a parecer verdade, pois os grandes jornais, que estavam a ser contaminados pelas redes sociais com a sua truculência quotidiana, começam a regressar a uma informação positiva, luminosa, cultural, que oferece esperança. As pessoas começam a se cansar de tanta violência e novas doenças psicológicas crescem de forma assustadora.

Há alguns dias, a notícia do menino de 17 anos que matou o pai, a mãe e a irmã com a arma do pai, sem arrependimento, chocou o Brasil. Além de confessar o crime, disse impassivelmente à polícia que o repetiria se pudesse. Sim, mais um crime, mas a maior parte das informações tratava de detalhes sobre o ocorrido, sem se aprofundar nas possíveis motivações. Apenas um jornal lembrou que o menino havia sido “adotado”, sem aprofundar as reais causas.

E esse é um dos perigos da informação nestes tempos em que certos tipos de violência se multiplicam e os meios de comunicação não conseguem escondê-la. O que falta na maioria das vezes é uma análise que aprofunde as verdadeiras razões deste aumento da violência, seja familiar ou social, especialmente entre os adolescentes e que atinge tão fortemente as mulheres. E seja verdade ou não que principalmente entre os adolescentes, a principal causa da violência são os celulares que facilitam seu acesso a jogos e cenas de violência.

Segundo psicólogos e psiquiatras, o que pode estar falhando, porém, é a falta de diálogo nas escolas e faculdades entre educadores e familiares para uma melhor compreensão do aumento da violência entre os jovens. Pouco adianta dar a conhecer os factos sem tentar aprofundar as suas causas, sabendo que estamos num momento histórico de transição. Não sabemos ao certo onde e para quê, mas é inegável que o homo sapiens se vê assediado pela velocidade da transformação da vida social e pessoal. Basta pensar na confirmação dos novos gurus da inteligência artificial (IA) que imaginam máquinas que superam intelectualmente os humanos.

O que talvez nos falte a todos nesta mudança de época que ainda não sabemos onde nos poderá levar é a capacidade de compreender as diferenças, os problemas e os riscos a que a nova geração que ainda não viveu os horrores de uma guerra mundial, mas que tem de suportar, sem ajuda, a nova e imparável revolução digital com todos os seus prós e contras.

Assim como as guerras mundiais do passado deixaram abertas durante anos as feridas do corpo e da alma sofridas nos campos de batalha, é possível que as novas guerras tecnológicas, que também poderiam ser tão desastrosas quanto as guerras convencionais, deixem feridas abertas e difíceis de tratar.

Esta pequena reflexão sobre o aumento da violência entre os adolescentes impulsionado pelas novas guerras tecnológicas que por vezes perturbam o equilíbrio físico e, sobretudo, psicológico dos jovens – que é tão difícil para nós analisarmos – fez-me recordar a triste história de um jornalista colega quando, antes da fundação deste jornal, trabalhei na secção cultural da RAI, a poderosa televisão italiana.

Fui incumbido de preparar uma série de reportagens sobre “a solidão do homem moderno”, desde a do empresário de sucesso até a da prostituta que escondeu a sua profissão da família. Na equipe de seis pessoas que viajou pela Itália em busca de experiências de solidão para filmar, havia um jornalista mais velho encarregado de organizar as viagens. No primeiro dia em Milão, na hora do almoço num restaurante, ele me perguntou se poderia comer sozinho em uma mesa separada. Ele era extremamente tímido e parecia esconder algum problema íntimo e indescritível.

Ao longo dos 10 dias de viagem, ele continuou comendo em uma mesa só para ele. De volta a Roma, perguntei ao meu diretor na época se aquele colega tinha algum problema especial. Ele me disse que não sabia, mas que, por exemplo, nunca conversavam com a filha única com quem ele morava em casa, apenas por telefone quando ele vinha à emissora de televisão.


Eu não me acomodei. Ele era um companheiro magnífico e prestativo. Um dia perguntei-lhe, sem rodeios, mas delicadamente, por que ele queria ficar sozinho. Ele confiou em mim e contou-me a sua história: era, embora ninguém soubesse, um sobrevivente do campo nazi de Auschwitz, do qual conseguiu escapar. Ele me contou que uma das coisas que mais o horrorizou no campo de concentração era estar sempre junto, sem um minuto de solidão ou para se aliviar, e que desde então não podia estar acompanhado. Sua felicidade era a solidão. Conseguimos abrir um diálogo e até conheci a filha dele, com quem ele só falava por telefone.

Essa lembrança ao mesmo tempo terna e terrível vem à mente cada vez que uma nova onda de violência assola o mundo dos adolescentes, que se mutilam ou se suicidam sem que nos preocupemos muito em saber o porquê. Sem este trabalho que deveria ser multicultural, continuaremos a denunciar todos os dias as tragédias sangrentas perpetradas por jovens, incapazes de compreender as dobras feridas da sua alma. E aí temos uma responsabilidade, nós que exercemos a função de informar a sociedade e de analisar porque é que este rio de jovens, hoje, em todo o mundo, parece sofrer frequentemente os açoites da incompreensão daquilo que ferve nas suas almas feridas mesmo em flor.

Juan Arias