sexta-feira, 1 de novembro de 2024
Encontrando a jovem capturada em uma fotografia de detidos em Gaza
Um grupo de dezenas de homens de Gaza detidos retratados em suas roupas íntimas, durante o que parece ser uma verificação israelense de armas e sinais de quaisquer ligações com o Hamas. Eles estão sentados ou agachados, entre eles, uma garotinha pode ser vista. É difícil vê-la na multidão de homens. Ela é a pequena figura mais para trás.
Os soldados ordenaram que os homens ficassem só de cueca. Até mesmo alguns dos mais velhos. Eles olham para cima, para quem quer que esteja tirando a fotografia. É quase certo que seja um soldado israelense.
A imagem parece ter sido publicada primeiro na conta do Telegram de um jornalista com fontes fortes nas Forças de Defesa de Israel.
Os homens parecem abjetos, medrosos e exaustos. A garotinha, que foi notada na foto por um produtor da BBC, está olhando para longe. Talvez algo fora do campo de visão da câmera tenha chamado sua atenção. Ou talvez ela simplesmente não queira olhar para os soldados e suas armas.
Os militares disseram às pessoas para pararem aqui. Prédios explodidos por bombas se estendem à distância atrás deles. Eles estão verificando os homens, em busca de armas, documentos, qualquer sinal de que eles possam estar ligados ao Hamas.
Muitas vezes o sofrimento desta guerra é encontrado nos detalhes de vidas individuais. A presença da criança, sua expressão enquanto ela olha para longe, é um detalhe que coloca tantas perguntas.
Acima de tudo, quem era ela? O que aconteceu com ela? A foto foi tirada há uma semana.
Uma semana de centenas de mortos, muitos feridos e milhares desalojados de suas casas. Crianças morreram sob os escombros de ataques aéreos ou porque não havia remédios ou equipe médica para tratá-las.
Trabalhando com o programa BBC Arabic Gaza Today, começamos a procurar pela criança. Israel não permite que a BBC ou outra mídia internacional acesse Gaza para reportar de forma independente, então a BBC depende de uma rede confiável de jornalistas freelancers. Nossos colegas abordaram seus contatos com agências de ajuda no norte, mostrando a fotografia em lugares para onde os deslocados tinham fugido.
Em 48 horas, a notícia retornou. A mensagem no telefone dizia: “Nós a encontramos!”
Julia Abu Warda, de três anos, estava viva. Quando nosso jornalista chegou à família na Cidade de Gaza - para onde muitos de Jabalia fugiram - Julia estava com seu pai, avô e mãe.
Ela estava assistindo a um desenho animado de galinhas cantando, difícil de ouvir por causa do zumbido ameaçador de um drone israelense sobrevoando.
Julia ficou surpresa por, de repente, ser o centro das atenções de um estranho.
"Quem é você?", perguntou o pai, brincando.
"Jooliaa", ela respondeu, esticando a palavra para dar ênfase.
Julia Abu Warda, de três anos, senta-se no colo do pai, enquanto ele olha para baixo. Há uma expressão cautelosa em seus olhos castanhos. Ela está vestida com um suéter cor de pêssego, com o cabelo em dois coques amarrados com pompons azuis.
A BBC encontrou Julia e seu pai, Mohammed, na Cidade de Gaza
Julia estava fisicamente ilesa. Vestida com um suéter e jeans, seu cabelo em coques presos por faixas florais azuis brilhantes. Mas sua expressão era cautelosa.
Então Mohammed começou a contar a história por trás da fotografia.
Cinco vezes a família foi deslocada nos últimos 21 dias. Cada vez eles estavam fugindo de ataques aéreos e tiros.
No dia em que a foto foi tirada, eles ouviram um drone israelense transmitindo um aviso para evacuação.
Isso aconteceu no distrito de Al-Khalufa, onde as IDF estavam avançando contra o Hamas.
“Houve fogo de artilharia aleatório. Fomos em direção ao centro do campo de refugiados de Jabalia, na estrada para o posto de controle.”
A família levou suas roupas, algumas latas de comida enlatada e alguns pertences pessoais.
No começo, todos estavam juntos. O pai de Julia, sua mãe Amal, seu irmão de 15 meses Hamza, um avô, dois tios e um primo.
Mas no caos, Mohammed e Julia foram separados dos outros.
“Eu me separei da mãe dela por causa da multidão e de todos os pertences que carregávamos. Ela conseguiu sair, e eu fiquei no lugar”, disse Mohammed.
Pai e filha finalmente seguiram adiante com o fluxo de pessoas saindo. As ruas cheiravam a morte. “Vimos destruição e corpos espalhados no chão”, disse Mohammed. Não havia como impedir Julia de ver pelo menos um pouco disso. Depois de mais de um ano de guerra, as crianças se familiarizaram com a visão daqueles que morreram de mortes violentas.
O grupo chegou a um posto de controle israelense.
“Havia soldados nos tanques e soldados no chão. Eles se aproximaram das pessoas e começaram a atirar acima de suas cabeças. As pessoas estavam se empurrando durante o tiroteio.”
Os homens foram obrigados a se despir até ficarem de cueca. Este é um procedimento de rotina enquanto a IDF procura por armas escondidas ou homens-bomba. Mohammed diz que eles foram mantidos no posto de controle por seis a sete horas. Na fotografia, Julia parece calma. Mas seu pai se lembrou de sua angústia depois.
“Ela começou a gritar e me disse que queria a mãe dela.”
A família foi reunida. Os deslocados estão amontoados em pequenas áreas. Os laços familiares são fortes. As notícias correm rápido na Cidade de Gaza quando os parentes chegam de Jabalia. Julia foi confortada pelas pessoas que a amavam. Havia doces e batatas fritas, uma guloseima que estava guardada.
Então Mohammed revelou ao nosso colega o profundo trauma que Julia havia sofrido, antes daquele dia do voo de Jabalia para a Cidade de Gaza. Ela tinha um primo favorito. O nome dele era Yahya e ele tinha sete anos. Eles costumavam brincar juntos na rua. Cerca de duas semanas atrás, Yahya estava na rua quando os israelenses lançaram um ataque de drone. A criança foi morta.
“A vida costumava ser normal. Ela corria e brincava”, ele disse. “Mas agora, sempre que há bombardeio, ela aponta e diz, ‘avião!’ Enquanto estamos presos, ela olha para cima e aponta para o drone voando sobre nós.”
Julia esfrega um dos olhos com a mão enquanto se inclina contra o pai, que a segura no colo. Mohammed é um jovem de cabelos escuros e barba aparada. Eles estão sentados em uma cadeira de plástico, do lado de fora.
O primo favorito de Julia, Yahya, foi morto na rua em um ataque de drone israelense
De acordo com a Unicef, agência das Nações Unidas para a infância, 14.000 crianças foram mortas na guerra.
“Dia após dia, as crianças pagam o preço por uma guerra que não começaram”, disse o porta-voz da Unicef, Jonathan Crickx.
“A maioria das crianças que conheci perderam um ente querido em circunstâncias muitas vezes terríveis.”
A ONU estima que quase todas as crianças na Faixa de Gaza — quase um milhão — precisam de apoio à saúde mental.
É difícil chamar uma criança como Julia de sortuda. Quando você pensa no que ela viu e perdeu e onde ela está presa. Quem sabe o que retornará em sonhos e memórias nos próximos dias. Agora ela sabe que a vida pode acabar de forma terrivelmente repentina.
Sua sorte está na família que fará tudo o que for humanamente possível — diante de ataques aéreos, tiroteios, fome e doenças — para protegê-la.
Gaza é o horror que não pode ser negado
As manchetes mudaram para o Irã, mas Israel continua matando de fome, bombardeando e expulsando a população do norte de Gaza. Enquanto a sociedade israelense como um todo ativou seu modo de negação, as imagens horripilantes – e a política, as declarações e a realidade por trás delas – estão fazendo com que alguns israelenses protestem contra crimes de guerra, ou até mesmo pronunciem a palavra genocídio.
Dália Scheindlin
Dália Scheindlin
Voto obrigatório, um velho e carcomido senhor
A abstenção de quase 30% no país nas eleições municipais assustou muita gente e despertou no Tribunal Superior Eleitoral a necessidade de se fazer um estudo profundo para saber as razões dessa acentuada ausência do eleitor.
Se somadas as quantidades de sufrágios em branco e nulos, a conta beira os 40% e, em números absolutos, mostra que vários candidatos perderam para o não voto.
Pela relevância dos dados e das motivações implícitas, a recusa à participação ativa foi um dos assuntos mais comentados nos balanços dos chamados recados das urnas.
Rivalizou com o sucesso da centro-direita, o mau desempenho da esquerda, a força das emendas parlamentares na reeleição e a constatação de que Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) não mandam na vontade das pessoas, mais interessadas na administração das respectivas cidades do que na briga dos chefes das torcidas da política nacional.
A encomenda do TSE para se estudar a abstenção nos detalhes sem dúvida é muito útil, pois uma vez concluído o trabalho vai se poder abordar o assunto com precisão, sem chutes nem ilações que possam distorcer as conclusões.
Não é necessário, porém, ir às profundezas sociológicas das raízes do Brasil para se chegar a alguns dos porquês de parcela crescente do eleitorado fazer do voto obrigatório —regido por regras de 1965, na ditadura— quase uma letra morta, quando em outro tempo já foi preferência nacional.
A cada nova pesquisa sobre o tema, porém, o facultativo ganha terreno e já representa a maioria. Segundo levantamento do Datafolha de 2020, 56% são contrários à obrigatoriedade.
Outra consulta feita em agosto de 2024, na capital paulista, registrou índice de 52%. Agora em outubro 34% dos paulistanos disseram ao mesmo instituto que não teriam votado se não fossem obrigados. A abstenção segue o ritmo de crescimento; foi de 16,2% em 2000, quase metade do índice atual.
O que está havendo? Antes de falar sobre o descrédito na política e o comportamento dos partidos, vamos a outras hipóteses menos dramáticas para explicar: o aumento da população maior de 70 anos de idade, que não é obrigada a votar e a cada vez maior facilidade para se justificar ausência.
Sobre esse segundo ponto, um parêntese: por que tenho de dizer ao Estado onde estou no dia da votação ou lhe dar satisfação sobre uma decisão privada de não exercer um direito?
E aqui chegamos aos partidos e aos políticos que muitas vezes tampouco se obrigam a dar satisfações aos cidadãos. Assumem atitudes —notadamente nos períodos de entressafra eleitoral— de total indiferença ao que lhes diz a sociedade.
Acontece, por exemplo, quando aprovam fundo eleitoral de R$ 5 bilhões, anistiam as próprias dívidas e se articulam para afrouxar a Lei da Ficha Limpa aprovada na pressão por um projeto de iniciativa popular. Isso para citar casos mais recentes. Ao longo da história (só da redemocratização) há uma coleção deles.
Cada vez mais livres de cobranças, desobrigados de prestar contas sobre a folha corrida dos candidatos escolhidos para concorrer, montados numa dinheirama pública cujos eventuais ilícitos são objeto de anistia autoconcedida, as agremiações partidárias viraram ilhas voltadas para seus interesses.
Caso precisassem atuar como entidades de direito privado que são, indo à luta para amealhar recursos e empenhar esforços para conquistar o eleitorado, não tivessem a reserva de mercado do voto obrigatório provavelmente outros galos cantariam na política nacional.
O Brasil está na vanguarda no sistema eletrônico de votação e apuração. Não faz sentido nem combina com tais avanços que se mantenha na retaguarda na relação do Estado com o cidadão que, se estimulado, poderia se transformar num eleitor mais bem disposto a ir às urnas. Ou se ausentar sem precisar se justificar.
Se somadas as quantidades de sufrágios em branco e nulos, a conta beira os 40% e, em números absolutos, mostra que vários candidatos perderam para o não voto.
Pela relevância dos dados e das motivações implícitas, a recusa à participação ativa foi um dos assuntos mais comentados nos balanços dos chamados recados das urnas.
Rivalizou com o sucesso da centro-direita, o mau desempenho da esquerda, a força das emendas parlamentares na reeleição e a constatação de que Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) não mandam na vontade das pessoas, mais interessadas na administração das respectivas cidades do que na briga dos chefes das torcidas da política nacional.
A encomenda do TSE para se estudar a abstenção nos detalhes sem dúvida é muito útil, pois uma vez concluído o trabalho vai se poder abordar o assunto com precisão, sem chutes nem ilações que possam distorcer as conclusões.
Não é necessário, porém, ir às profundezas sociológicas das raízes do Brasil para se chegar a alguns dos porquês de parcela crescente do eleitorado fazer do voto obrigatório —regido por regras de 1965, na ditadura— quase uma letra morta, quando em outro tempo já foi preferência nacional.
A cada nova pesquisa sobre o tema, porém, o facultativo ganha terreno e já representa a maioria. Segundo levantamento do Datafolha de 2020, 56% são contrários à obrigatoriedade.
Outra consulta feita em agosto de 2024, na capital paulista, registrou índice de 52%. Agora em outubro 34% dos paulistanos disseram ao mesmo instituto que não teriam votado se não fossem obrigados. A abstenção segue o ritmo de crescimento; foi de 16,2% em 2000, quase metade do índice atual.
O que está havendo? Antes de falar sobre o descrédito na política e o comportamento dos partidos, vamos a outras hipóteses menos dramáticas para explicar: o aumento da população maior de 70 anos de idade, que não é obrigada a votar e a cada vez maior facilidade para se justificar ausência.
Sobre esse segundo ponto, um parêntese: por que tenho de dizer ao Estado onde estou no dia da votação ou lhe dar satisfação sobre uma decisão privada de não exercer um direito?
E aqui chegamos aos partidos e aos políticos que muitas vezes tampouco se obrigam a dar satisfações aos cidadãos. Assumem atitudes —notadamente nos períodos de entressafra eleitoral— de total indiferença ao que lhes diz a sociedade.
Acontece, por exemplo, quando aprovam fundo eleitoral de R$ 5 bilhões, anistiam as próprias dívidas e se articulam para afrouxar a Lei da Ficha Limpa aprovada na pressão por um projeto de iniciativa popular. Isso para citar casos mais recentes. Ao longo da história (só da redemocratização) há uma coleção deles.
Cada vez mais livres de cobranças, desobrigados de prestar contas sobre a folha corrida dos candidatos escolhidos para concorrer, montados numa dinheirama pública cujos eventuais ilícitos são objeto de anistia autoconcedida, as agremiações partidárias viraram ilhas voltadas para seus interesses.
Caso precisassem atuar como entidades de direito privado que são, indo à luta para amealhar recursos e empenhar esforços para conquistar o eleitorado, não tivessem a reserva de mercado do voto obrigatório provavelmente outros galos cantariam na política nacional.
O Brasil está na vanguarda no sistema eletrônico de votação e apuração. Não faz sentido nem combina com tais avanços que se mantenha na retaguarda na relação do Estado com o cidadão que, se estimulado, poderia se transformar num eleitor mais bem disposto a ir às urnas. Ou se ausentar sem precisar se justificar.
Um Mundo
É um sonho ou talvez só uma pausa
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo
António Ramos Rosa, "Acordes"
na penumbra. Esta massa obscura
que ela revolve nas águas são estrelas.
Entre aromas e cores, um barco de calcário
prossegue uma viagem imóvel num jardim.
Vejo a brancura entre os astros e os ramos.
Dir-se-ia que o ser respira e se deslumbra
e que tudo ascende sob um sopro silencioso.
Nenhum sentido mas os signos amam-se
e o brilho e o rumor formam um mundo
António Ramos Rosa, "Acordes"
Estudo alerta para riscos do aumento do lixo gerado pela IA
A crescente popularidade da inteligência artificial (IA) generativa deve resultar num aumento acelerado do lixo eletrônico ou e-lixo (e-waste), segundo estudo publicado na revista científica Nature Computational Science esta semana.
Os cientistas responsáveis pelo estudo calcularam que o e-lixo pode atingir um total de 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas métricas até 2030, ou mil vezes mais do o total produzido em 2023.
"Descobrimos que o e-lixo gerado pela IA generativa, particularmente grandes modelos de linguagem, pode aumentar drasticamente, com potencial de atingir até 2,5 milhões de toneladas por ano até 2030, se não se adotar nenhuma medida de redução de resíduos", disse Asaf Tzachor, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Reichman de Israel e coautor do estudo.
A pesquisa também oferece soluções para reduzir o lixo eletrônico, como estratégias para prolongar, reutilizar e reciclar hardware de IA generativa, que podem reduzir a geração residual entre 16% e 86%.
"Isso representa uma enorme oportunidade para reduzir o fluxo de resíduos, caso essas práticas sejam amplamente adotadas. Fica claro neste estudo que a natureza da crise do e-lixo é global, por isso é importante nos concentrarmos na gestão transfronteiriça do e-lixo", disse Saurabh Gupta, fundador da Earth5R, uma organização de sustentabilidade com sede na Índia. Ele não estava envolvido no estudo.
Toda vez que se joga fora um dispositivo eletrônico "desatualizado" ou quebrado, ele passa a ser considerado e-lixo. Podem ser computadores, smartphones, carregadores e cabos, brinquedos eletrônicos, automóveis e sistemas de servidores de grandes dimensões.
O e-lixo representa 70% do total de resíduos tóxicos produzidos em todo o mundo a cada ano, mas apenas 12,5% dele é reciclado. O contador em tempo real no portal de internet The World Counts mostra o quão rápido o e-lixo aumenta em todo o mundo.
"Reduzir o e-lixo é importante, porque o descarte inadequado gera liberação de materiais perigosos, como chumbo e mercúrio, que prejudicam os ecossistemas e a saúde humana", explica Gupta.
Os pesquisadores se concentraram no e-lixo produzido por algoritmos de IA generativa – os tipos de IA que geram textos, imagens, vídeos ou música a partir de grandes conjuntos de dados.
Estudos anteriores confirmaram a alta demanda de energia da IA. Estimativas do instituto de pesquisas SemiAnalysis sugerem que a IA poderá resultar em centros de dados que utilizam 4,5% da produção global de energia até 2030.
Segundo Tzachor, porém, não está tão claro quanto de e-lixo é produzido por programas de IA generativa, como o ChatGPT, incluindo todos os recursos computacionais necessários ao treinamento e uso de IA nos centros de dados.
Como a IA generativa depende de melhorias rápidas na infraestrutura de hardware e tecnologias de chip, há indícios de que ela gera mais e-lixo à medida que o hardware é atualizado ou substituído. "É muito mais fácil e econômico abordar os desafios do lixo eletrônico impostos pela IA agora, antes que eles cresçam para fora de controle", alerta Tzachor.
Os pesquisadores criaram um modelo para quantificar a escala do e-lixo nos centros de dados que dão suporte ao uso de modelos de IA generativa, como modelos de linguagem de grande porte (LLMs). Eles concluíram que o e-lixo pode atingir 5 milhões de toneladas por ano num cenário de crescimento acelerado da IA.
Mas, segundo Tzachor, essas estimativas são potencialmente modestas, devido à rápida transformação do ambiente de negócios da IA: "Fatores como restrições geopolíticas às importações de semicondutores e a rápida rotatividade de servidores podem intensificar a geração de e-lixo associado à IA generativa."
Ele observa ainda que o estudo incluiu apenas o e-lixo criado por sistemas de IA generativa, especificamente os grandes modelos de linguagem, e não outras formas de IA.
"O e-lixo do ecossistema de IA mais amplo é significativo. O estudo prevê que esse volume aumentará com a maior utilização da IA, criando um desafio ambiental que reunirá várias formas de inteligência artificial" aponta Gupta.
Necessidade de estratégias globais
O estudo estima que a implementação de estratégias de economia circular pode reduzir a geração de lixo eletrônico em 16% ou até 86%. Essas estratégias visam minimizar o desperdício e aumentar a eficiência do hardware de computadores.
Tzachor enumera três objetivos principais da estratégia: prolongar o uso do hardware para postergar a necessidade de novos equipamentos, reutilizar e remanufaturar componentes e extrair os materiais valiosos durante a reciclagem do hardware.
Gupta diz concordar plenamente com as conclusões do estudo: "A faixa de redução de 16% a 86% reflete o imenso potencial dessas estratégias, especialmente se apoiadas por políticas e amplamente implementadas em diferentes setores e regiões."
Segundo o especialista, sua organização, a Earth5R, já demonstrou quão eficazes podem ser as estratégias de economia circular: "Através de nossos programas de base e parcerias com empresas, já promovemos esforços locais de coleta e reciclagem de e-lixo que ajudam empresas e consumidores a gerir seus eletrônicos de forma sustentável."
Gupta enfatiza que o e-lixo é uma crise global requerendo estratégias de gestão equitativas e transfronteiriças para mitigar os danos ambientais e à saúde causados quando países ricos exportam seu lixo eletrônico para regiões de baixa renda.
Os cientistas responsáveis pelo estudo calcularam que o e-lixo pode atingir um total de 1,2 milhão a 5 milhões de toneladas métricas até 2030, ou mil vezes mais do o total produzido em 2023.
"Descobrimos que o e-lixo gerado pela IA generativa, particularmente grandes modelos de linguagem, pode aumentar drasticamente, com potencial de atingir até 2,5 milhões de toneladas por ano até 2030, se não se adotar nenhuma medida de redução de resíduos", disse Asaf Tzachor, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Reichman de Israel e coautor do estudo.
A pesquisa também oferece soluções para reduzir o lixo eletrônico, como estratégias para prolongar, reutilizar e reciclar hardware de IA generativa, que podem reduzir a geração residual entre 16% e 86%.
"Isso representa uma enorme oportunidade para reduzir o fluxo de resíduos, caso essas práticas sejam amplamente adotadas. Fica claro neste estudo que a natureza da crise do e-lixo é global, por isso é importante nos concentrarmos na gestão transfronteiriça do e-lixo", disse Saurabh Gupta, fundador da Earth5R, uma organização de sustentabilidade com sede na Índia. Ele não estava envolvido no estudo.
Toda vez que se joga fora um dispositivo eletrônico "desatualizado" ou quebrado, ele passa a ser considerado e-lixo. Podem ser computadores, smartphones, carregadores e cabos, brinquedos eletrônicos, automóveis e sistemas de servidores de grandes dimensões.
O e-lixo representa 70% do total de resíduos tóxicos produzidos em todo o mundo a cada ano, mas apenas 12,5% dele é reciclado. O contador em tempo real no portal de internet The World Counts mostra o quão rápido o e-lixo aumenta em todo o mundo.
"Reduzir o e-lixo é importante, porque o descarte inadequado gera liberação de materiais perigosos, como chumbo e mercúrio, que prejudicam os ecossistemas e a saúde humana", explica Gupta.
Os pesquisadores se concentraram no e-lixo produzido por algoritmos de IA generativa – os tipos de IA que geram textos, imagens, vídeos ou música a partir de grandes conjuntos de dados.
Estudos anteriores confirmaram a alta demanda de energia da IA. Estimativas do instituto de pesquisas SemiAnalysis sugerem que a IA poderá resultar em centros de dados que utilizam 4,5% da produção global de energia até 2030.
Segundo Tzachor, porém, não está tão claro quanto de e-lixo é produzido por programas de IA generativa, como o ChatGPT, incluindo todos os recursos computacionais necessários ao treinamento e uso de IA nos centros de dados.
Como a IA generativa depende de melhorias rápidas na infraestrutura de hardware e tecnologias de chip, há indícios de que ela gera mais e-lixo à medida que o hardware é atualizado ou substituído. "É muito mais fácil e econômico abordar os desafios do lixo eletrônico impostos pela IA agora, antes que eles cresçam para fora de controle", alerta Tzachor.
Os pesquisadores criaram um modelo para quantificar a escala do e-lixo nos centros de dados que dão suporte ao uso de modelos de IA generativa, como modelos de linguagem de grande porte (LLMs). Eles concluíram que o e-lixo pode atingir 5 milhões de toneladas por ano num cenário de crescimento acelerado da IA.
Mas, segundo Tzachor, essas estimativas são potencialmente modestas, devido à rápida transformação do ambiente de negócios da IA: "Fatores como restrições geopolíticas às importações de semicondutores e a rápida rotatividade de servidores podem intensificar a geração de e-lixo associado à IA generativa."
Ele observa ainda que o estudo incluiu apenas o e-lixo criado por sistemas de IA generativa, especificamente os grandes modelos de linguagem, e não outras formas de IA.
"O e-lixo do ecossistema de IA mais amplo é significativo. O estudo prevê que esse volume aumentará com a maior utilização da IA, criando um desafio ambiental que reunirá várias formas de inteligência artificial" aponta Gupta.
Necessidade de estratégias globais
O estudo estima que a implementação de estratégias de economia circular pode reduzir a geração de lixo eletrônico em 16% ou até 86%. Essas estratégias visam minimizar o desperdício e aumentar a eficiência do hardware de computadores.
Tzachor enumera três objetivos principais da estratégia: prolongar o uso do hardware para postergar a necessidade de novos equipamentos, reutilizar e remanufaturar componentes e extrair os materiais valiosos durante a reciclagem do hardware.
Gupta diz concordar plenamente com as conclusões do estudo: "A faixa de redução de 16% a 86% reflete o imenso potencial dessas estratégias, especialmente se apoiadas por políticas e amplamente implementadas em diferentes setores e regiões."
Segundo o especialista, sua organização, a Earth5R, já demonstrou quão eficazes podem ser as estratégias de economia circular: "Através de nossos programas de base e parcerias com empresas, já promovemos esforços locais de coleta e reciclagem de e-lixo que ajudam empresas e consumidores a gerir seus eletrônicos de forma sustentável."
Gupta enfatiza que o e-lixo é uma crise global requerendo estratégias de gestão equitativas e transfronteiriças para mitigar os danos ambientais e à saúde causados quando países ricos exportam seu lixo eletrônico para regiões de baixa renda.
O jornalista e o bilionário
Marty Baron, editor-executivo do Washington Post de 2013 a 2021, está “excepcionalmente desapomtado” com o dono do jornal, Jeff Bezos. Foi Bezos quem o levou para dirigir a redação ao comprar o jornal mais importante da capital americana (e um dos mais lidos do país), há onze anos.
Enquanto Baron comandou a redação do Post, tudo correu aparentemente bem entre o editor veterano e o bilionário da tecnologia digital transformado em empresário da imprensa tradicional (Bezos criou e continua a ser o dono da Amazon, a loja digital que começou como uma livraria e hoje é um supermercado global que vende de tudo e mais um pouco). Mas as coisas mudaram desde a semana passada.
Baron não se conforma com a decisão do jornal de não mais escolher um candidato a presidente dos Estados Unidos para endossar. A mudança vale já a partir da próxima eleição do dia 5 de novembro, disputada cabeça a cabeça pela democrata Kamala Harris e pelo republicano Donald Trump.
“Não fico mais chocado com facilidade estes dias (…), mas estou profundamente desapontado”, ele disse ao repórter Isaac Chotiner, da revista New Yorker, em entrevista publicada na sua versão online. Além de desapontado, Baron está preocupado com o significado, para o país, do que ele considera uma demonstração de fraqueza do proprietário de um jornal como o Washington Post.
Embora a decisão tenha sido anunciada há uma semana pelo executivo-chefe da empresa dona do jornal, a responsabilidade pela subida no muro vem sendo atribuída por fontes diversas ao próprio Bezos.
A editoria de opinião do Post já tinha pronto um editorial comunicando o endosso a Kamala Harris, quando chegou a decisão de cima; o Post não publicaria o editorial de apoio a Harris e informaria aos leitores que o jornal não vai mais endossar candidatos à Presidência dos Estados Unidos — nesta eleição e nas eleições futuras.
“Isso é covardia, e a democracia será a vítima”, Baron fulminou pela rede social X (ex-Twitter). Para o antigo editor do jornal, Trump interpretará a decisão como uma abertura para tentar intimidar o Post no futuro. O episódio demonstraria falta de espinha dorsal por parte de uma instituição de imprensa que se tornou famosa por sua coragem.
Aqui é preciso algum contexto. O Washington Post, para quem não lembra (ou nem era nascida na época), ganhou fama internacional ao denunciar o escândalo Watergate nos anos 70 do século 20 — a espionagem clandestina do comitê de campanha da oposição Democrata por arapongas desastrados a serviço dos Republicanos, o partido do então presidente Richard Nixon.
Antes desse episódio, o jornal era uma gazeta provinciana e pouco reconhecida fora de Washington. Mas o Post não cedeu à pressão do governo; enfrentou Nixon e o establishment conservador na defesa de seu direito de expor as malfeitorias eleitorais dos Republicanos.
O trabalho investigativo dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, com o respaldo do então editor-executivo Ben Bradlee e da publisher Katherine Graham, fez deles celebridades globais. As reportagens da dupla sobre o envolvimento de auxiliares próximos de Nixon com a espionagem ilegal resultaram numa investigação do Senado, na abertura de um processo de impeachment e, afinal, na renúncia de Nixon.
Meio século mais tarde, outro ex-editor do Post se diz à New Yorker “excepcionalmente desapontado” com as decisões do proprietário mais recente. Não é assim que se lida com o peso institucional de um grande jornal, e isso pode ter consequências negativas para a própria democracia americana.
“Qualquer pessoa que possua uma organização de mídia precisa estar disposto a resistir a pressões intensas”, Baron observa. “E Bezos já demonstrou que é capaz e disposto a fazer isso” (aqui, o ex-editor se refere a outros confrontos passados entre o Post e Donald Trump por causa de matérias publicadas que desagradaram ao ex-presidente; ele reconhece que, nesses casos mais pontuais, Bezos deu respaldo total à redação e não cedeu às pressões de Trump).
“Agora, o que me preocupa é que haja um sinal de fraqueza”, adverte Baron. E Trump, ele observa, ao perceber fraqueza, vai bater mais forte no futuro.
O lema do Washington Post de Jeff Bezos é Democracy Dies in Darkness (A Democracia Morre Na Escuridão, numa tradução livre). Está estampado na página online de cadastramento de novos leitores e assinantes.
As palavras do lema foram lembradas, nos últimos dias, entre os jornalistas e o público leitor dos Estados Unidos, que reagiram com espanto e indignação à decisão do Post de não endossar um candidato à presidência do país — o que é uma tradição por lá. Mas a surpresa talvez possa ser vista como uma confirmação irônica do slogan.
Dezenas de milhares de leitores cortaram suas assinaturas do Washington Post nos últimos dias; editorialistas e membros do conselho editorial renunciaram a seus postos; e o próprio Marty Baron, em entrevistas, apontou para uma contradição significativa. A decisão de desistir do endosso a um candidato foi tomada pelo Post na hora errada, em cima de uma eleição presidencial crucial e disputadíssima, sem debate interno e sem tempo para discussão prévia.
Uma decisão tomada no escuro, portanto (esta conclusão é do escriba destas mal-traçadas, não de Baron). O próprio Bezos, entretanto, reconheceu esse erro de momento numa nota assinada que publicou no Post como explicação e apelo a que acreditemos em seus altos princípios. Se Trump afinal levar essa eleição, na lei ou no grito, e começar a pôr em prática as barbaridades políticas sugeridas na campanha, vai ser inevitável lembrar que, nas eleições dos Estados Unidos de 2024, a democracia começou a morrer quando o Washington Post apagou a luz.
Enquanto Baron comandou a redação do Post, tudo correu aparentemente bem entre o editor veterano e o bilionário da tecnologia digital transformado em empresário da imprensa tradicional (Bezos criou e continua a ser o dono da Amazon, a loja digital que começou como uma livraria e hoje é um supermercado global que vende de tudo e mais um pouco). Mas as coisas mudaram desde a semana passada.
Baron não se conforma com a decisão do jornal de não mais escolher um candidato a presidente dos Estados Unidos para endossar. A mudança vale já a partir da próxima eleição do dia 5 de novembro, disputada cabeça a cabeça pela democrata Kamala Harris e pelo republicano Donald Trump.
“Não fico mais chocado com facilidade estes dias (…), mas estou profundamente desapontado”, ele disse ao repórter Isaac Chotiner, da revista New Yorker, em entrevista publicada na sua versão online. Além de desapontado, Baron está preocupado com o significado, para o país, do que ele considera uma demonstração de fraqueza do proprietário de um jornal como o Washington Post.
Embora a decisão tenha sido anunciada há uma semana pelo executivo-chefe da empresa dona do jornal, a responsabilidade pela subida no muro vem sendo atribuída por fontes diversas ao próprio Bezos.
A editoria de opinião do Post já tinha pronto um editorial comunicando o endosso a Kamala Harris, quando chegou a decisão de cima; o Post não publicaria o editorial de apoio a Harris e informaria aos leitores que o jornal não vai mais endossar candidatos à Presidência dos Estados Unidos — nesta eleição e nas eleições futuras.
“Isso é covardia, e a democracia será a vítima”, Baron fulminou pela rede social X (ex-Twitter). Para o antigo editor do jornal, Trump interpretará a decisão como uma abertura para tentar intimidar o Post no futuro. O episódio demonstraria falta de espinha dorsal por parte de uma instituição de imprensa que se tornou famosa por sua coragem.
Aqui é preciso algum contexto. O Washington Post, para quem não lembra (ou nem era nascida na época), ganhou fama internacional ao denunciar o escândalo Watergate nos anos 70 do século 20 — a espionagem clandestina do comitê de campanha da oposição Democrata por arapongas desastrados a serviço dos Republicanos, o partido do então presidente Richard Nixon.
Antes desse episódio, o jornal era uma gazeta provinciana e pouco reconhecida fora de Washington. Mas o Post não cedeu à pressão do governo; enfrentou Nixon e o establishment conservador na defesa de seu direito de expor as malfeitorias eleitorais dos Republicanos.
O trabalho investigativo dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, com o respaldo do então editor-executivo Ben Bradlee e da publisher Katherine Graham, fez deles celebridades globais. As reportagens da dupla sobre o envolvimento de auxiliares próximos de Nixon com a espionagem ilegal resultaram numa investigação do Senado, na abertura de um processo de impeachment e, afinal, na renúncia de Nixon.
Meio século mais tarde, outro ex-editor do Post se diz à New Yorker “excepcionalmente desapontado” com as decisões do proprietário mais recente. Não é assim que se lida com o peso institucional de um grande jornal, e isso pode ter consequências negativas para a própria democracia americana.
“Qualquer pessoa que possua uma organização de mídia precisa estar disposto a resistir a pressões intensas”, Baron observa. “E Bezos já demonstrou que é capaz e disposto a fazer isso” (aqui, o ex-editor se refere a outros confrontos passados entre o Post e Donald Trump por causa de matérias publicadas que desagradaram ao ex-presidente; ele reconhece que, nesses casos mais pontuais, Bezos deu respaldo total à redação e não cedeu às pressões de Trump).
“Agora, o que me preocupa é que haja um sinal de fraqueza”, adverte Baron. E Trump, ele observa, ao perceber fraqueza, vai bater mais forte no futuro.
O lema do Washington Post de Jeff Bezos é Democracy Dies in Darkness (A Democracia Morre Na Escuridão, numa tradução livre). Está estampado na página online de cadastramento de novos leitores e assinantes.
As palavras do lema foram lembradas, nos últimos dias, entre os jornalistas e o público leitor dos Estados Unidos, que reagiram com espanto e indignação à decisão do Post de não endossar um candidato à presidência do país — o que é uma tradição por lá. Mas a surpresa talvez possa ser vista como uma confirmação irônica do slogan.
Dezenas de milhares de leitores cortaram suas assinaturas do Washington Post nos últimos dias; editorialistas e membros do conselho editorial renunciaram a seus postos; e o próprio Marty Baron, em entrevistas, apontou para uma contradição significativa. A decisão de desistir do endosso a um candidato foi tomada pelo Post na hora errada, em cima de uma eleição presidencial crucial e disputadíssima, sem debate interno e sem tempo para discussão prévia.
Uma decisão tomada no escuro, portanto (esta conclusão é do escriba destas mal-traçadas, não de Baron). O próprio Bezos, entretanto, reconheceu esse erro de momento numa nota assinada que publicou no Post como explicação e apelo a que acreditemos em seus altos princípios. Se Trump afinal levar essa eleição, na lei ou no grito, e começar a pôr em prática as barbaridades políticas sugeridas na campanha, vai ser inevitável lembrar que, nas eleições dos Estados Unidos de 2024, a democracia começou a morrer quando o Washington Post apagou a luz.
quinta-feira, 31 de outubro de 2024
Heróis jornalistas de Gaza
“É trabalho deles nos trazer o que Israel não quer que vejamos”
Imagine, ou tente imaginar, ir trabalhar todos os dias quando seu trabalho é testemunhar a morte de perto.
Não a morte silenciosa do agente funerário, mas a morte sangrenta dos massacrados. Cadáveres, corpos feridos e corpos de crianças encharcadas de sangue sendo levados para hospitais enquanto seus parentes gritam em angústia e jogam os braços para o céu em busca de súplicas. Muitas vezes, apenas as partes dos corpos estão lá para serem encontradas.
Nesta semana, em Jabaliya, os corpos estavam se decompondo nas ruas sem que o repórter percebesse, enquanto ele falava com a câmera o mais calmamente possível.
Testemunhar esse inferno e reportá-lo é seu trabalho, dia após dia e mês após mês. Ao mesmo tempo, você tem que fazer o melhor para evitar ser morto, mas para reportar verdadeiramente, ser morto é o que você tem que arriscar. Enquanto você está nas ruas, sua família está em casa. Seu medo constante não é que eles não estejam seguros, porque você sabe que eles não estão. Ninguém está seguro. Seu medo é que o próximo ataque de míssil os mate também.
Você provavelmente pode sair de Gaza, mas não fará isso porque alguém tem que testemunhar e esse é seu papel. Todos os que sobrevivem testemunham, mas você e somente você tem a responsabilidade especial de contar ao mundo o que está acontecendo, e é por isso que você se torna um alvo especial para o inimigo, uma voz perigosa que precisa ser silenciada .
Desde 7 de outubro de 2023, mais de 130 dessas vozes em Gaza, entre quase 180 profissionais da mídia, foram silenciadas — silenciadas permanentemente. Quase todas são palestinas.
Jornalistas ocidentais não correm risco de serem mortos em Gaza porque eles não estão lá. O governo de Israel não os deixa entrar, então eles não podem reportar essa "guerra" (massacre diário de civis) e aparentemente eles não podem entrar pelo lado egípcio também.
Informar o mundo, portanto, recai quase exclusivamente sobre os ombros de jornalistas palestinos que trabalham para a Al Jazeera e veículos de notícias menores, alguns afiliados ao Fatah ou Hamas, incluindo Watan, Ajmal Radio, Palestine TV, WAFA, Al Shehab e a rede de notícias Al Aqsa. A RSF (Repórteres Sem Fronteiras) estima que pelo menos 32 jornalistas foram alvos e " mortos " (assassinados) por Israel desde 7 de outubro de 2023.
A lista inclui:
Rushdi al Sarraj, cofundador da Ain Media e jornalista freelancer, morto em um ataque com mísseis em 23 de outubro de 2023;
Samer Abudaqa, da Al Jazeera em árabe, morto em dezembro, com seu colega Wael al Dahdouh, chefe do escritório da Al Jazeera em Gaza, ferido;
Hamzah al-Dahdouh, filho de Wael, morto em um ataque de míssil em janeiro de 2024 (um ataque aéreo "aparente", relatou a Associated Press (AP), como se qualquer pessoa pudesse ser morta em um ataque aéreo "aparente"). A esposa, a filha, 7, o filho, 15, e outros oito parentes de Wael já haviam sido mortos em um ataque aéreo em 28 de outubro de 2023;
Abdallah Aljamal, que era um colaborador do Palestine Chronicle entre muitos outros veículos de notícias, morto em junho durante uma operação secreta no campo de refugiados de Nuseirat. A esposa de Abdallah, Fatima, foi morta na escada, indicando que os israelenses nem sabiam quem ela era quando atiraram nela. Invadindo o apartamento da família, eles mataram Abdallah e seu pai, um médico, de 74 anos, e feriram sua irmã Zainab.
Dezenas de pessoas nas ruas ao redor foram mortas em fogo de cobertura, que eventualmente incluiu ataques aéreos. As forças de ocupação mais tarde destruíram o prédio inteiro. As alegações israelenses de que três reféns estavam sendo mantidos no apartamento da família foram contestadas por outras fontes, que disseram que eles estavam sendo mantidos em outro lugar do prédio.
Ismail al-Ghoul, um repórter árabe da Al Jazeera e o cinegrafista Rami al Rifai, ambos mortos em julho em um ataque aéreo, junto com uma criança "não identificada", conforme relatado pela AP.
Estes são apenas alguns nomes dos 130, aos quais devem ser adicionados os nomes de jornalistas palestinos mortos ao longo dos anos em Gaza e na Cisjordânia, apenas alguns (notavelmente Shireen Abu Akleh, assassinado por um atirador na Cisjordânia em 2022) já foram relatados ou relatados em detalhes no ciclo de notícias ocidentais. Todos os jornalistas usam capacetes e jaquetas de imprensa, então podem ser identificados de perto.
Jornalistas também são alvos no Líbano. Em 13 de outubro de 2023, um grupo de sete jornalistas foi alvo perto da linha de armistício Líbano-Israel (a "fronteira"), mas a uma milha de distância de quaisquer hostilidades. Dois projéteis de tanque foram disparados, matando o correspondente da Reuters Issam Abdullah e ferindo gravemente a correspondente libanesa da AFP Christine Assi (sua perna foi posteriormente amputada). Os projéteis de tanque foram seguidos por tiros de metralhadora. Os israelenses sabiam que eles estavam lá e estavam dispostos a matar.
Os jornalistas em Gaza são frequentemente deslocados junto com todos os outros. Seus escritórios de imprensa são destruídos, suas famílias são ameaçadas ou mortas, alguns são presos e desaparecem com outros nas prisões de Israel.
Tudo isso é feito com total impunidade , junto com todos os outros crimes que Israel comete. Em janeiro, a RSF apresentou quatro queixas ao TPI, acusando Israel de cometer crimes de guerra contra jornalistas. Embora tenha sido garantido que algo seria feito, nada foi feito, o que não é surpreendente, visto que o TPI ainda não deu prosseguimento às acusações de crimes de guerra solicitadas pelo promotor-chefe Karim Khan contra Netanyahu e Gallant. O TPI também não se moveu mais de sua conclusão de janeiro de que Israel estava cometendo um genocídio "plausível" em Gaza.
Atirar no mensageiro é literalmente o que Israel está fazendo para interromper o fluxo de notícias de Gaza.
Dentro de suas próprias fronteiras (como membro da ONU, Israel é único como um estado que nunca declarou suas fronteiras), todas as notícias que saem são higienizadas primeiro pelo censor militar. As únicas notícias confiáveis sobre o que está acontecendo em Gaza estão saindo de Gaza, daí a campanha assassina lançada contra seus jornalistas.
Eles têm os mesmos problemas que todos os outros. Não há comida, água ou eletricidade suficientes e tristeza por familiares ou amigos mortos ou feridos, mas eles continuam a fazer seu trabalho, apesar do risco diário para suas próprias vidas.
Como o principal elo de notícias para o mundo exterior, os repórteres da Al Jazeera são os mais conhecidos. Eles são heróis à sua maneira.
Hani Mahmoud, Hind al Khoudary, Tareq Abu Azzoum, Moath al Kahlout e vários outros têm relatado essa guerra todos os dias há mais de um ano.
Eles estão vendo coisas que ninguém gostaria de ver, que ficam na mente quando entram e nunca mais saem, os corpos dilacerados de pessoas que conhecem e não conhecem, o material dos pesadelos da vida inteira.
Mantendo a calma, quase sempre, eles relatam dia após dia das ruas cobertas de corpos e partes de corpos, ou de fora dos hospitais, enquanto os corpos de crianças feridas ou mortas são carregados para dentro. Eles tiveram que olhar para as valas comuns e ver os corpos dos inocentes alinhados em suas mortalhas.
Nós, espectadores e leitores, não queremos testemunhar essas cenas horríveis mais do que eles, mas para saber o que está acontecendo, precisamos vê-las, mesmo que estremeçamos e desviemos o olhar porque a visão é insuportável.
É o trabalho deles nos trazer o que Israel não quer que vejamos. Que esses repórteres ainda tenham força para fazer isso depois de um ano sem quebrar (embora deva haver momentos em que eles cheguem perto) é extraordinário.
Jeremy Salt
Jornalista de TV mais amado de Israel explode prédio
Dany Cushmaro é provavelmente o jornalista de televisão mais conhecido em Israel. Como um dos âncoras e jornalistas amados do Canal 12 – o canal de notícias mais popular de Israel –, ele tem relatado a guerra entre Israel e Gaza desde as primeiras horas de 7 de outubro de 2023. Durante os primeiros dias, ele era identificável. Triste e confuso sobre como o Hamas conseguiu executar seu terrível ataque a civis israelenses, ele assumiu uma postura crítica, chamando a atenção do governo por sua falha em proteger os cidadãos em suas casas.
Mas como um viciado em adrenalina conhecido por seus despachos – involuntariamente cômicos – de sexta à noite em carros velozes e viagens de reportagens machistas em passeios de motocicleta pela Europa, Cushmaro se ajustou à guerra sem fim ao se incorporar ao exército israelense em Gaza e no Líbano. Ele rapidamente se transformou em uma parte útil da máquina de propaganda.
No fim de semana, o Canal 12 exibiu uma reportagem de 26 minutos de Cushmaro que terminou com ele recebendo a “honra” de apertar um botão que detonaria explosivos em um prédio na vila de Ayta ash Shab, no sul do Líbano. A alegria de Cushmaro é visível, mas caso alguém não tenha percebido, ele então sorri para a câmera e diz: “Não mexa com os judeus.”
Suas reportagens do campo de batalha sempre foram problemáticas e seriam um excelente material para professores de escolas de jornalismo que precisam de exemplos claros de “não jornalismo”. Nessas peças, Cushmaro parece apaixonado pelos oficiais das Forças de Defesa de Israel, fala sobre o quão orgulhoso ele está dos soldados israelenses, idolatra os sacrifícios que eles estão fazendo por seu país e descreve o quão agradável é ver uma área que antes representava uma ameaça a Israel transformada em ruínas.
Os moradores locais, sejam eles de Gaza ou libaneses, não existem nesse tipo de reportagem. Mas Cushmaro tende a mostrar a imagem deles como fanáticos religiosos, sanguinários e gananciosos que poderiam ter tido vidas maravilhosas e tranquilas, mas escolheram atacar o Israel inocente e trouxeram destruição sobre si mesmos. Em uma palavra, a reportagem de Cushmaro é propaganda. O fato de seu salário vir de uma empresa de mídia privada independente e não da IDF é apenas uma coincidência.
Cushmaro não está sozinho, é claro. A mídia israelense está cheia de propagandistas que se consideram jornalistas liberais e críticos. Enquanto o governo israelense reprime veículos de mídia como a Al Jazeera e a Al-Mayadeen , afiliada ao Hezbollah , jornalistas israelenses aplaudem das laterais, liderando o clamor contra a “propaganda estrangeira”.
Quando um oficial faz o elogio fúnebre de um soldado israelense morto contando uma história de como ele queimou uma casa em Gaza “só por diversão”, jornalistas israelenses coletiva e independentemente decidem não reportar sobre isso. Quando Israel coloca alvos nas costas de jornalistas palestinos que cobrem a guerra de Gaza, alegando que eles são colaboradores do Hamas, jornalistas israelenses não pedem provas. Eles pedem o botão e os explosivos.
Mas como um viciado em adrenalina conhecido por seus despachos – involuntariamente cômicos – de sexta à noite em carros velozes e viagens de reportagens machistas em passeios de motocicleta pela Europa, Cushmaro se ajustou à guerra sem fim ao se incorporar ao exército israelense em Gaza e no Líbano. Ele rapidamente se transformou em uma parte útil da máquina de propaganda.
No fim de semana, o Canal 12 exibiu uma reportagem de 26 minutos de Cushmaro que terminou com ele recebendo a “honra” de apertar um botão que detonaria explosivos em um prédio na vila de Ayta ash Shab, no sul do Líbano. A alegria de Cushmaro é visível, mas caso alguém não tenha percebido, ele então sorri para a câmera e diz: “Não mexa com os judeus.”
Suas reportagens do campo de batalha sempre foram problemáticas e seriam um excelente material para professores de escolas de jornalismo que precisam de exemplos claros de “não jornalismo”. Nessas peças, Cushmaro parece apaixonado pelos oficiais das Forças de Defesa de Israel, fala sobre o quão orgulhoso ele está dos soldados israelenses, idolatra os sacrifícios que eles estão fazendo por seu país e descreve o quão agradável é ver uma área que antes representava uma ameaça a Israel transformada em ruínas.
Os moradores locais, sejam eles de Gaza ou libaneses, não existem nesse tipo de reportagem. Mas Cushmaro tende a mostrar a imagem deles como fanáticos religiosos, sanguinários e gananciosos que poderiam ter tido vidas maravilhosas e tranquilas, mas escolheram atacar o Israel inocente e trouxeram destruição sobre si mesmos. Em uma palavra, a reportagem de Cushmaro é propaganda. O fato de seu salário vir de uma empresa de mídia privada independente e não da IDF é apenas uma coincidência.
Cushmaro não está sozinho, é claro. A mídia israelense está cheia de propagandistas que se consideram jornalistas liberais e críticos. Enquanto o governo israelense reprime veículos de mídia como a Al Jazeera e a Al-Mayadeen , afiliada ao Hezbollah , jornalistas israelenses aplaudem das laterais, liderando o clamor contra a “propaganda estrangeira”.
Quando um oficial faz o elogio fúnebre de um soldado israelense morto contando uma história de como ele queimou uma casa em Gaza “só por diversão”, jornalistas israelenses coletiva e independentemente decidem não reportar sobre isso. Quando Israel coloca alvos nas costas de jornalistas palestinos que cobrem a guerra de Gaza, alegando que eles são colaboradores do Hamas, jornalistas israelenses não pedem provas. Eles pedem o botão e os explosivos.
O algoritmo matou a sensatez
Énos momentos de crise que mais precisamos de ponderação, de raciocínio elaborado e, acima de tudo, de uma dose mínima de sensatez. A cabeça quente, como todos depressa aprendemos quando éramos novos, nunca é boa conselheira. E mesmo as decisões que pensamos tomar por instinto são, na verdade, ditadas por um acumulado de experiências ou de treino intensivo, que nos possibilitam agir com rapidez.
Vivemos, no entanto, no tempo em que apenas se privilegia o imediatismo e a reação rápida, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. O tempo em que, a qualquer momento, todos os assuntos são discutidos com o ardor enviesado e incendiário com que, desde há duas décadas, se convencionou que deviam ser os programas de televisão sobre futebol: duelos permanentes, com os intervenientes tantas vezes a roçarem o insulto descarado, em que a gritaria é norma, a interrupção é o truque mais usado e os argumentos são apresentados sem a mínima preocupação com a verdade, mas apenas para defender as cores do seu clube.
Este estilo de debate saltou do futebol para a política – às vezes, até com os mesmos protagonistas – e, de repente, com o impulso das redes sociais, acabou por contaminar todo o espaço público. Qualquer que seja o assunto, todas as pessoas acabam divididas entre as que estão a favor ou contra – como se a vida tivesse de ficar reduzida à escolha permanente entre “gosto” e “não gosto” inventada pelo Facebook. A polarização tornou-se a norma, com o confronto crispado entre ideias feitas e certezas absolutas a ser sempre privilegiado, em detrimento da reflexão e da busca de dados objetivos que ajudem a compreender ou a decifrar uma realidade complexa.
“A polarização é um modelo de negócio”, disse há pouco tempo Martin Baron, depois de se reformar do jornalismo, com algum desencanto assumido, após uma carreira extraordinária em que dirigiu com mestria três grandes instituições da imprensa americana: o The Washington Post, o Miami Herald e o The Boston Globe (onde ficou imortalizado no cinema em O Caso Spotlight). Percebe-se o seu ponto de vista: o confronto exacerbado, que procura provocar fúria, raiva e tensões entre o público, tornou-se a ferramenta mais usada para tentar captar audiências. Algumas técnicas ou estilos noticiosos que eram distintivos da chamada imprensa tabloide estão agora disseminados por todos os órgãos de comunicação social. E em tempo de crise e de quebra de confiança, a batalha pela atenção do espectador ou do leitor fica ainda mais à mercê dos ditames do algoritmo que, nas redes sociais, amplifica as polémicas e dá reconhecimento às maiores alarvidades. Com a consequência a que temos assistido: a cobertura jornalística dos temas importantes começa a ficar cada vez mais reduzida à discussão acalorada, e resumida a poucos pontos, entre figuras dos extremos opostos do espectro político. Ou seja, a polarização vai-se autoalimentando e, com ela, desaparece qualquer resquício de bom senso ou de sensatez que ainda pudesse existir – mas que nos faz tanta falta.
Os populistas são exímios no manejo desta técnica e usam-na, diariamente, como uma espécie de armadilha para tentar condicionar os temas em debate público. Como temos visto, qualquer que seja o pretexto, André Ventura convoca quase todos os dias os jornalistas para prestar declarações ou apresentar tomadas de posição, com a preocupação de ocupar qualquer espaço que esteja momentaneamente vazio nas televisões ou nas rádios. As intervenções são sempre em direto e, na maioria dos casos, com uma duração que a mensagem não justificava – até porque, quase sempre, se resume a um slogan com não mais do que meia dúzia de palavras.
Graças a diretos diários e acríticos, os populistas vão ganhando espaço e fomentando a polarização. De microfone sempre aberto, é-lhes permitido dizer as maiores falsidades e proferir as acusações mais graves, sem contraditório nem enquadramento. Ao aceitar esse papel, amorfo e absolutamente dependente da ditadura do algoritmo, o jornalismo acaba por perder credibilidade. E qualquer réstia daquilo que devia distingui-lo: informar com independência e sensatez.
Vivemos, no entanto, no tempo em que apenas se privilegia o imediatismo e a reação rápida, como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. O tempo em que, a qualquer momento, todos os assuntos são discutidos com o ardor enviesado e incendiário com que, desde há duas décadas, se convencionou que deviam ser os programas de televisão sobre futebol: duelos permanentes, com os intervenientes tantas vezes a roçarem o insulto descarado, em que a gritaria é norma, a interrupção é o truque mais usado e os argumentos são apresentados sem a mínima preocupação com a verdade, mas apenas para defender as cores do seu clube.
Este estilo de debate saltou do futebol para a política – às vezes, até com os mesmos protagonistas – e, de repente, com o impulso das redes sociais, acabou por contaminar todo o espaço público. Qualquer que seja o assunto, todas as pessoas acabam divididas entre as que estão a favor ou contra – como se a vida tivesse de ficar reduzida à escolha permanente entre “gosto” e “não gosto” inventada pelo Facebook. A polarização tornou-se a norma, com o confronto crispado entre ideias feitas e certezas absolutas a ser sempre privilegiado, em detrimento da reflexão e da busca de dados objetivos que ajudem a compreender ou a decifrar uma realidade complexa.
“A polarização é um modelo de negócio”, disse há pouco tempo Martin Baron, depois de se reformar do jornalismo, com algum desencanto assumido, após uma carreira extraordinária em que dirigiu com mestria três grandes instituições da imprensa americana: o The Washington Post, o Miami Herald e o The Boston Globe (onde ficou imortalizado no cinema em O Caso Spotlight). Percebe-se o seu ponto de vista: o confronto exacerbado, que procura provocar fúria, raiva e tensões entre o público, tornou-se a ferramenta mais usada para tentar captar audiências. Algumas técnicas ou estilos noticiosos que eram distintivos da chamada imprensa tabloide estão agora disseminados por todos os órgãos de comunicação social. E em tempo de crise e de quebra de confiança, a batalha pela atenção do espectador ou do leitor fica ainda mais à mercê dos ditames do algoritmo que, nas redes sociais, amplifica as polémicas e dá reconhecimento às maiores alarvidades. Com a consequência a que temos assistido: a cobertura jornalística dos temas importantes começa a ficar cada vez mais reduzida à discussão acalorada, e resumida a poucos pontos, entre figuras dos extremos opostos do espectro político. Ou seja, a polarização vai-se autoalimentando e, com ela, desaparece qualquer resquício de bom senso ou de sensatez que ainda pudesse existir – mas que nos faz tanta falta.
Os populistas são exímios no manejo desta técnica e usam-na, diariamente, como uma espécie de armadilha para tentar condicionar os temas em debate público. Como temos visto, qualquer que seja o pretexto, André Ventura convoca quase todos os dias os jornalistas para prestar declarações ou apresentar tomadas de posição, com a preocupação de ocupar qualquer espaço que esteja momentaneamente vazio nas televisões ou nas rádios. As intervenções são sempre em direto e, na maioria dos casos, com uma duração que a mensagem não justificava – até porque, quase sempre, se resume a um slogan com não mais do que meia dúzia de palavras.
Graças a diretos diários e acríticos, os populistas vão ganhando espaço e fomentando a polarização. De microfone sempre aberto, é-lhes permitido dizer as maiores falsidades e proferir as acusações mais graves, sem contraditório nem enquadramento. Ao aceitar esse papel, amorfo e absolutamente dependente da ditadura do algoritmo, o jornalismo acaba por perder credibilidade. E qualquer réstia daquilo que devia distingui-lo: informar com independência e sensatez.
Ainda não destruímos os fantoches
Cada vez que ouço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E, visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam com toda uma parte de sua vida e dos seus interesses chamados vitais.
Albert Camus
Albert Camus
Da democracia à 'demonocracia'
A democracia brasileira fica a dever quando comparada às de países como EUA, China, França, Inglaterra, Portugal, Suíça, Rússia e vários outros: nossa população elege menos representantes, nossos representantes respondem menos às necessidades e prioridades da população, e diferem em gênero, etnia, renda e patrimônio daqueles que supostamente representam. Vivemos no que podemos chamar uma – desculpem o neologismo – demonocracia, mais que numa democracia!
Muitos indagarão, com alguma razão: democracia chinesa, russa? Estes dois países têm eleições periódicas para escolher os dirigentes dos governos locais que, no Brasil, chamaríamos de vereadores e prefeitos. Isso basta para caracterizar uma democracia? Não, mas registra, sim, certo grau de influência dos eleitores sobre os governantes. Nessas duas nações os eleitores – todos os maiores de 18 anos residentes nos “municípios” – escolhem os “vereadores” mas não os “prefeitos”. Estes são escolhidos pelos “vereadores”, assim como nos EUA, na Inglaterra, na França e em Portugal. Que os eleitores não escolham os chefes dos executivos locais, portanto, não é sinal bastante para desqualificar um país como democracia. Aliás, nos EUA nem o presidente da república é escolhido pelo voto direto dos cidadãos, donde se conclui que o conceito de democracia é mesmo relativo.
Em todos os países citados a quantidade de eleitos, relativamente à população, é muito maior que no Brasil. Aqui, elegemos aproximadamente 70.000 pessoas, desde o presidente da república ao vereador; nos EUA, são mais de 500.000 eleitos; na China, o número passa de um milhão!
Em todos os países, as regras eleitorais, escritas e não escritas, têm enorme influência na definição de quem será eleito. Em muitos, as normas acabam por privilegiar pessoas com sociopatia, capazes de comentários e atos racistas, sexistas e outros crimes. Daí a ideia da demonocracia.
As campanhas eleitorais recentes, para escolher os dirigentes dos municípios brasileiros, revelaram personalidades que se enquadram na definição de sociopatia.
Pessoas com variados desvios de conduta se apresentaram aos eleitores, com nomes e propostas esdrúxulas ou vagas, em busca, principalmente, de poder e dinheiro, mais fáceis de obter nas malandragens entre o setor público e o privado do que em atividades regulares e legais. Claro, os salários e as benesses – inclusive foro privilegiado! – ao alcance dos que se elegem são atrativos adicionais.
Representar os eleitores? Para a maioria dos eleitos, apenas no discurso, como se revela pela distância existente entre eleitos e eleitores, no que diz respeito, como dito acima, à gênero, etnia, nível educacional, renda e patrimônio. Resulta, pois, em uma casta que governa para si, como evidenciado pela generalização, nos três níveis de governo, das emendas cash-back (pois parte dos recursos retorna aos bolsos dos eleitos), eufemisticamente chamadas emendas pix.
Resulta, pois, apesar da aparência de democracia, em um governo de demônios, a demonocracia!
Muitos indagarão, com alguma razão: democracia chinesa, russa? Estes dois países têm eleições periódicas para escolher os dirigentes dos governos locais que, no Brasil, chamaríamos de vereadores e prefeitos. Isso basta para caracterizar uma democracia? Não, mas registra, sim, certo grau de influência dos eleitores sobre os governantes. Nessas duas nações os eleitores – todos os maiores de 18 anos residentes nos “municípios” – escolhem os “vereadores” mas não os “prefeitos”. Estes são escolhidos pelos “vereadores”, assim como nos EUA, na Inglaterra, na França e em Portugal. Que os eleitores não escolham os chefes dos executivos locais, portanto, não é sinal bastante para desqualificar um país como democracia. Aliás, nos EUA nem o presidente da república é escolhido pelo voto direto dos cidadãos, donde se conclui que o conceito de democracia é mesmo relativo.
Em todos os países citados a quantidade de eleitos, relativamente à população, é muito maior que no Brasil. Aqui, elegemos aproximadamente 70.000 pessoas, desde o presidente da república ao vereador; nos EUA, são mais de 500.000 eleitos; na China, o número passa de um milhão!
Em todos os países, as regras eleitorais, escritas e não escritas, têm enorme influência na definição de quem será eleito. Em muitos, as normas acabam por privilegiar pessoas com sociopatia, capazes de comentários e atos racistas, sexistas e outros crimes. Daí a ideia da demonocracia.
As campanhas eleitorais recentes, para escolher os dirigentes dos municípios brasileiros, revelaram personalidades que se enquadram na definição de sociopatia.
Pessoas com variados desvios de conduta se apresentaram aos eleitores, com nomes e propostas esdrúxulas ou vagas, em busca, principalmente, de poder e dinheiro, mais fáceis de obter nas malandragens entre o setor público e o privado do que em atividades regulares e legais. Claro, os salários e as benesses – inclusive foro privilegiado! – ao alcance dos que se elegem são atrativos adicionais.
Representar os eleitores? Para a maioria dos eleitos, apenas no discurso, como se revela pela distância existente entre eleitos e eleitores, no que diz respeito, como dito acima, à gênero, etnia, nível educacional, renda e patrimônio. Resulta, pois, em uma casta que governa para si, como evidenciado pela generalização, nos três níveis de governo, das emendas cash-back (pois parte dos recursos retorna aos bolsos dos eleitos), eufemisticamente chamadas emendas pix.
Resulta, pois, apesar da aparência de democracia, em um governo de demônios, a demonocracia!
A guerra não acaba nunca
No dia 16 de janeiro de 1991 me reuni com amigos para ver televisão em torno de uma gigantesca Sony Trinitron de 32 polegadas. Havia uísque, que era o que se bebia na época, refrigerantes e água de coco. Havia também uma sensação que não sabíamos definir. Estávamos curiosos e tensos, conscientes de estarmos vivendo um momento histórico, uma espécie de angústia por antecipação.
Os repórteres da CNN falavam diretamente da cobertura de um hotel em Bagdá, reportando os primeiros ataques aéreos dos Estados Unidos e de seus aliados contra o Iraque. Era a Operação Tempestade no Deserto, uma resposta à invasão do Kuwait pelo exército iraquiano alguns meses antes (suas consequências se estendem até os nossos dias). Nunca antes uma guerra havia sido transmitida ao vivo, em tempo real, e não tínhamos certeza nem do que iríamos ver, nem de como deveríamos nos comportar: era o.k. servir os salgadinhos?
Hoje aquelas imagens fazem parte do nosso inconsciente coletivo — a noite verde cortada pelas bombas, os foguetes antiaéreos traçando curvas no céu como fogos de artifício macabros. Mais tarde, um dos repórteres lembrou que, antes mesmo das primeiras explosões, todos os cachorros da cidade começaram a latir.
Era aflitivo saber, do nosso conforto em Ipanema, que aquilo estava acontecendo de verdade, naquele instante, numa outra parte do planeta — nada “estava feito”, ou pronto, numa gaveta imutável do passado. Em tese alguém, em algum lugar, ainda poderia mudar o curso dos acontecimentos, para evitar que pessoas que estavam vivas quando ligamos a televisão tivessem sido varridas da face da Terra antes que precisássemos repor o gelo nos copos.
Depois de certo tempo, porém, as imagens revelaram-se também profundamente monótonas, como um videogame escuro, embaçado e não interativo — e a conversa tomou outros rumos, porque a vida é pequena e é perto.
Desde então, nunca mais houve um dia sem guerra.
De acordo com a tradição judaica, começou ontem o ano de 5784. É impossível, neste momento, encontrar qualquer sombra do otimismo que normalmente acompanha a virada de um calendário.
O Oriente Médio nunca passou por um momento mais sombrio, nem mesmo durante as Cruzadas, quando a matança, afinal, era artesanal, e não punha a Terra inteira em risco.
Não dá para imaginar que, tantos séculos depois, os destinos de milhões de pessoas ainda se encontrem nas mãos de uma dúzia de homens igualmente sanguinários, e igualmente despreparados para liderar.
Israel tem um governo assassino que só raciocina — se é que raciocina — em termos de guerra, e se confronta com um regime ainda mais obtuso e deletério em Teerã; mas quem está comemorando o ataque iraniano nas redes sociais não conhece História, e não faz ideia do que é viver numa teocracia islâmica.
Atravessar o ano de 5783 foi catastrófico emocionalmente, mesmo (e talvez sobretudo) para quem vive em 2024.
Israel pode ter dizimado o Hamas e o Hezbollah, mas a principal vítima da sua ferocidade é aquela parte da consciência comum da diáspora judaica que imaginava uma democracia digna do nome, um país justo e evoluído que saberia se portar mesmo diante das piores adversidades.
Está sendo duro conviver simultaneamente com o fim dessa ilusão, com a imensa ferida do 7 de Outubro e com a constatação de que o ódio aos judeus continua não só firme e forte, como saiu de vez do armário e virou tendência global.
Os repórteres da CNN falavam diretamente da cobertura de um hotel em Bagdá, reportando os primeiros ataques aéreos dos Estados Unidos e de seus aliados contra o Iraque. Era a Operação Tempestade no Deserto, uma resposta à invasão do Kuwait pelo exército iraquiano alguns meses antes (suas consequências se estendem até os nossos dias). Nunca antes uma guerra havia sido transmitida ao vivo, em tempo real, e não tínhamos certeza nem do que iríamos ver, nem de como deveríamos nos comportar: era o.k. servir os salgadinhos?
Hoje aquelas imagens fazem parte do nosso inconsciente coletivo — a noite verde cortada pelas bombas, os foguetes antiaéreos traçando curvas no céu como fogos de artifício macabros. Mais tarde, um dos repórteres lembrou que, antes mesmo das primeiras explosões, todos os cachorros da cidade começaram a latir.
Era aflitivo saber, do nosso conforto em Ipanema, que aquilo estava acontecendo de verdade, naquele instante, numa outra parte do planeta — nada “estava feito”, ou pronto, numa gaveta imutável do passado. Em tese alguém, em algum lugar, ainda poderia mudar o curso dos acontecimentos, para evitar que pessoas que estavam vivas quando ligamos a televisão tivessem sido varridas da face da Terra antes que precisássemos repor o gelo nos copos.
Depois de certo tempo, porém, as imagens revelaram-se também profundamente monótonas, como um videogame escuro, embaçado e não interativo — e a conversa tomou outros rumos, porque a vida é pequena e é perto.
Desde então, nunca mais houve um dia sem guerra.
__________
De acordo com a tradição judaica, começou ontem o ano de 5784. É impossível, neste momento, encontrar qualquer sombra do otimismo que normalmente acompanha a virada de um calendário.
O Oriente Médio nunca passou por um momento mais sombrio, nem mesmo durante as Cruzadas, quando a matança, afinal, era artesanal, e não punha a Terra inteira em risco.
Não dá para imaginar que, tantos séculos depois, os destinos de milhões de pessoas ainda se encontrem nas mãos de uma dúzia de homens igualmente sanguinários, e igualmente despreparados para liderar.
Israel tem um governo assassino que só raciocina — se é que raciocina — em termos de guerra, e se confronta com um regime ainda mais obtuso e deletério em Teerã; mas quem está comemorando o ataque iraniano nas redes sociais não conhece História, e não faz ideia do que é viver numa teocracia islâmica.
Atravessar o ano de 5783 foi catastrófico emocionalmente, mesmo (e talvez sobretudo) para quem vive em 2024.
Israel pode ter dizimado o Hamas e o Hezbollah, mas a principal vítima da sua ferocidade é aquela parte da consciência comum da diáspora judaica que imaginava uma democracia digna do nome, um país justo e evoluído que saberia se portar mesmo diante das piores adversidades.
Está sendo duro conviver simultaneamente com o fim dessa ilusão, com a imensa ferida do 7 de Outubro e com a constatação de que o ódio aos judeus continua não só firme e forte, como saiu de vez do armário e virou tendência global.
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
O triunfo dos imbecis
Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e bovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.
Giovanni Papini, "Relatório sobre os homens"
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas – os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e bovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.
Giovanni Papini, "Relatório sobre os homens"
Cadê a boa sociedade?
Está prestes a acontecer nos EUA o que aconteceu em Roma: corremos o risco de perder nossa República e terminar com um ditador. Pode acontecer na semana que vem. Está acontecendo em todo o mundo, é uma nova forma de estupidez que chamamos de fascismo.
Política é acúmulo de riqueza e poder. A discussão que eu proponho está acima disso, é sobre o que é uma boa sociedade.
Francis Ford Coppola, de 85 anos, lança no Brasil o filme "Megalóppolis"
Política é acúmulo de riqueza e poder. A discussão que eu proponho está acima disso, é sobre o que é uma boa sociedade.
Francis Ford Coppola, de 85 anos, lança no Brasil o filme "Megalóppolis"
Trump é o homem que queria ser rei
O que um segundo mandato de Donald Trump significaria para os EUA e o mundo? Os otimistas podem apontar para o que aconteceu da última vez: sua presidência, eles poderiam afirmar, foi cheia de alarde e fúria. Mas isso pouco significou. Ele governou de maneira mais convencional do que muitos temiam. Além disso, no fim, foi derrotado por Joe Biden e partiu. Partiu com má vontade, é verdade. Mas o que mais se poderia esperar? Ele partiu mesmo assim. Por que não seria parecido se ele conquistasse um segundo mandato, como sugerem as pesquisas?
Trump é especialista em promessas vazias. Em 2016, uma peça central de sua campanha foi o “muro” pelo qual o México pagaria. No fim, não houve muro, quanto mais qualquer dinheiro do México. Desta vez ele prometeu reunir e deportar até 11 milhões de estrangeiros em situação irregular. A operação necessária para isso seria imensamente cara e polêmica. De fato, como exatamente muitos milhões seriam deportados e para onde?
Mais absurda é a sugestão de Trump de que, ao elevar as tarifas, ele poderia eliminar o imposto de renda. Isso é um completo disparate. Segundo um artigo acadêmico de Kimberly Clausing e Maurice Obstfeld, mesmo uma tarifa de 50% - o máximo para maximizar a arrecadação - geraria menos de 40% da receita proveniente do imposto de renda. A perda líquida de receita tributária enfraqueceria o financiamento dos programas dos quais seus eleitores, em grande parte mais idosos, dependem.
Uma segunda presidência de Trump poderia ser ainda pior que a primeira. A Suprema Corte declarou que, em suas “funções oficiais”, o presidente está acima das leis criminais. Ele se sentiria justificado e estaria em busca de vingança
No entanto, uma segunda presidência de Trump poderia ser ainda pior que a primeira. Em 2016, ele foi como o cachorro que alcançou o carro. Em sua ignorância, ele acabou contratando pessoas que não compartilhavam de seus objetivos nem de seus interesses. Hoje, o Partido Republicano consiste de seguidores fiéis que aceitam o que o “grande líder” define como verdade, como ele fez em relação aos resultados da eleição de 2020. O “Projeto 2025”, da Heritage Foundation, também produziu planos para subjugar o governo federal, enquanto a Suprema Corte declarou que, em suas “funções oficiais”, o presidente está acima das leis criminais. Ele se sentiria justificado e estaria em busca de vingança.
O que isso poderia persuadir Trump a fazer? Ele poderia elevar os já enormes déficits fiscais dos EUA e pressionar o Federal Reserve a manter as taxas de juros baixas. Se conseguisse nomear seguidores fiéis para comandar o Departamento de Justiça, as agências de inteligência e o Internal Revenue Service [IRS, o fisco americano], ele poderia processar inimigos percebidos sem restrições. Poderia justificar essas ações como um “toma lá da cá” pelas várias acusações justificadas contra ele próprio. Ele supostamente perdoaria os insurgentes de 6 de janeiro de 2021, que tentaram evitar a certificação dos resultados da última eleição. Com o controle sobre as Forças Armadas, ele poderia declarar lei marcial livremente. Mais amplamente, ele poderia usar a estrutura do governo dos EUA para exercer controle sobre partes do país vistas como independentes demais.
No âmbito externo, ele poderia implementar sua guerra comercial com poucas restrições, inclusive contra o Canadá e o México. Como comandante-em-chefe, ele poderia tornar os compromissos da Otan irrelevantes, simplesmente indicando sua falta de disposição em enviar tropas para combate. Ele poderia, mais uma vez, se retirar de todos os compromissos climáticos em um momento ainda mais delicado. Ele poderia tornar muito mais difícil o funcionamento de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Ele poderia apoiar a extrema direita em toda a Europa. Ele poderia (e provavelmente iria) abandonar a Ucrânia.
Ao considerar todas as implicações para o mundo, é preciso distinguir os efeitos diretos dessas ações dos indiretos de seu retorno. Estes últimos seriam, acima de tudo, o encorajamento aos populistas de direita que buscam o poder, especialmente na Europa. Com os EUA, o grande bastião da democracia no século XX, sob controle autoritário, haveria uma oscilação no equilíbrio global contra a democracia liberal, não só em termos de poder, mas também em termos de credibilidade ideológica. Afinal, os EUA têm sido o modelo, embora imperfeito, para grande parte do mundo de uma ordem democrática governada por leis. A escolha de Trump pela segunda vez importaria muito.
Trump é no mínimo “fascista” e pode ser chamado de fascista de forma convincente. Em entrevistas ao “The New York Times”, John Kelly, ex-general dos fuzileiros navais dos EUA que foi seu chefe de gabinete por mais tempo, é citado como afirmando que em sua opinião, “Trump atendia à definição de fascista, governaria como um ditador se pudesse e não tinha entendimento da Constituição ou do conceito de Estado de Direito”. Além disso, Trump “nunca aceitava o fato de que não era o homem mais poderoso do mundo - e por poder, quero dizer a capacidade de fazer tudo o que ele quisesse, no momento em que quisesse”.
Para Timothy Snyder, um importante historiador das décadas de 30 e 40 na Europa, o fascismo é “um culto da vontade sobre a razão; é a vida dentro de uma Grande Mentira; é uma transformação da política em um culto a um líder que conta uma Grande Mentira e que é capaz de se estabelecer como a pessoa cuja vontade deve dominar a sociedade”.
A isso, acrescenta Anne Applebaum, outra especialista renomada, Trump descreveu seus adversários como “vermes”, mais uma vez uma característica da retórica fascista (e stalinista). As recentes “calúnias de sangue” sobre haitianos como comedores de animais de estimação se encaixam na difamação fascista de algumas pessoas como subumanas.
Os erros cometidos pelo governo Biden ajudam a explicar a popularidade de Trump, notavelmente sua incapacidade de controlar a imigração. Mesmo assim, é difícil entender o abandono dos princípios fundamentais do grande experimento americano de governo republicano. Grande parte do sucesso dele se deve aos precedentes criados por seu fundador, George Washington.
Como Tom Nichols observa na “The Atlantic”, Washington serviu como presidente por dois mandatos e depois foi para casa. Trump é o anti-Washington. Onde Washington era conhecido por sua probidade, Trump é conhecido pelo oposto.
Este é, então, um momento verdadeiramente decisivo.
Trump é especialista em promessas vazias. Em 2016, uma peça central de sua campanha foi o “muro” pelo qual o México pagaria. No fim, não houve muro, quanto mais qualquer dinheiro do México. Desta vez ele prometeu reunir e deportar até 11 milhões de estrangeiros em situação irregular. A operação necessária para isso seria imensamente cara e polêmica. De fato, como exatamente muitos milhões seriam deportados e para onde?
Mais absurda é a sugestão de Trump de que, ao elevar as tarifas, ele poderia eliminar o imposto de renda. Isso é um completo disparate. Segundo um artigo acadêmico de Kimberly Clausing e Maurice Obstfeld, mesmo uma tarifa de 50% - o máximo para maximizar a arrecadação - geraria menos de 40% da receita proveniente do imposto de renda. A perda líquida de receita tributária enfraqueceria o financiamento dos programas dos quais seus eleitores, em grande parte mais idosos, dependem.
Uma segunda presidência de Trump poderia ser ainda pior que a primeira. A Suprema Corte declarou que, em suas “funções oficiais”, o presidente está acima das leis criminais. Ele se sentiria justificado e estaria em busca de vingança
No entanto, uma segunda presidência de Trump poderia ser ainda pior que a primeira. Em 2016, ele foi como o cachorro que alcançou o carro. Em sua ignorância, ele acabou contratando pessoas que não compartilhavam de seus objetivos nem de seus interesses. Hoje, o Partido Republicano consiste de seguidores fiéis que aceitam o que o “grande líder” define como verdade, como ele fez em relação aos resultados da eleição de 2020. O “Projeto 2025”, da Heritage Foundation, também produziu planos para subjugar o governo federal, enquanto a Suprema Corte declarou que, em suas “funções oficiais”, o presidente está acima das leis criminais. Ele se sentiria justificado e estaria em busca de vingança.
O que isso poderia persuadir Trump a fazer? Ele poderia elevar os já enormes déficits fiscais dos EUA e pressionar o Federal Reserve a manter as taxas de juros baixas. Se conseguisse nomear seguidores fiéis para comandar o Departamento de Justiça, as agências de inteligência e o Internal Revenue Service [IRS, o fisco americano], ele poderia processar inimigos percebidos sem restrições. Poderia justificar essas ações como um “toma lá da cá” pelas várias acusações justificadas contra ele próprio. Ele supostamente perdoaria os insurgentes de 6 de janeiro de 2021, que tentaram evitar a certificação dos resultados da última eleição. Com o controle sobre as Forças Armadas, ele poderia declarar lei marcial livremente. Mais amplamente, ele poderia usar a estrutura do governo dos EUA para exercer controle sobre partes do país vistas como independentes demais.
No âmbito externo, ele poderia implementar sua guerra comercial com poucas restrições, inclusive contra o Canadá e o México. Como comandante-em-chefe, ele poderia tornar os compromissos da Otan irrelevantes, simplesmente indicando sua falta de disposição em enviar tropas para combate. Ele poderia, mais uma vez, se retirar de todos os compromissos climáticos em um momento ainda mais delicado. Ele poderia tornar muito mais difícil o funcionamento de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Ele poderia apoiar a extrema direita em toda a Europa. Ele poderia (e provavelmente iria) abandonar a Ucrânia.
Ao considerar todas as implicações para o mundo, é preciso distinguir os efeitos diretos dessas ações dos indiretos de seu retorno. Estes últimos seriam, acima de tudo, o encorajamento aos populistas de direita que buscam o poder, especialmente na Europa. Com os EUA, o grande bastião da democracia no século XX, sob controle autoritário, haveria uma oscilação no equilíbrio global contra a democracia liberal, não só em termos de poder, mas também em termos de credibilidade ideológica. Afinal, os EUA têm sido o modelo, embora imperfeito, para grande parte do mundo de uma ordem democrática governada por leis. A escolha de Trump pela segunda vez importaria muito.
Trump é no mínimo “fascista” e pode ser chamado de fascista de forma convincente. Em entrevistas ao “The New York Times”, John Kelly, ex-general dos fuzileiros navais dos EUA que foi seu chefe de gabinete por mais tempo, é citado como afirmando que em sua opinião, “Trump atendia à definição de fascista, governaria como um ditador se pudesse e não tinha entendimento da Constituição ou do conceito de Estado de Direito”. Além disso, Trump “nunca aceitava o fato de que não era o homem mais poderoso do mundo - e por poder, quero dizer a capacidade de fazer tudo o que ele quisesse, no momento em que quisesse”.
Para Timothy Snyder, um importante historiador das décadas de 30 e 40 na Europa, o fascismo é “um culto da vontade sobre a razão; é a vida dentro de uma Grande Mentira; é uma transformação da política em um culto a um líder que conta uma Grande Mentira e que é capaz de se estabelecer como a pessoa cuja vontade deve dominar a sociedade”.
A isso, acrescenta Anne Applebaum, outra especialista renomada, Trump descreveu seus adversários como “vermes”, mais uma vez uma característica da retórica fascista (e stalinista). As recentes “calúnias de sangue” sobre haitianos como comedores de animais de estimação se encaixam na difamação fascista de algumas pessoas como subumanas.
Os erros cometidos pelo governo Biden ajudam a explicar a popularidade de Trump, notavelmente sua incapacidade de controlar a imigração. Mesmo assim, é difícil entender o abandono dos princípios fundamentais do grande experimento americano de governo republicano. Grande parte do sucesso dele se deve aos precedentes criados por seu fundador, George Washington.
Como Tom Nichols observa na “The Atlantic”, Washington serviu como presidente por dois mandatos e depois foi para casa. Trump é o anti-Washington. Onde Washington era conhecido por sua probidade, Trump é conhecido pelo oposto.
Este é, então, um momento verdadeiramente decisivo.
Sonhar com anistia não fará mal a Bolsonaro, só o frustrará depois
Bolsonaro quer ser anistiado o mais rapidamente possível, como demonstrou ao desembarcar sem aviso no Congresso para conversar com líderes de partidos que ainda dizem apoiá-lo.
A Lusitana roda, o mundo gira, e Bolsonaro acha que o galo canta todos os dias para acordá-lo, e não porque o sol nasceu. Não se dá conta de que em breve o sol irá se pôr exclusivamente para ele.
A história do Brasil está pontilhada de anistias. Na segunda metade dos anos 1950, o então presidente Juscelino Kubitschek anistiou todos os militares que se rebelaram contra seu governo.
Quando instalaram a ditadura em 1964, os militares puniram com extremo rigor seus colegas de farda que se opuseram ao golpe em nome da legalidade. Que legalidade, coisa nenhuma!
Afinal, justificavam os golpistas, fora preciso suspender a democracia para poder salvá-la da ameaça comunista. E o processo de resgate da democracia se arrastaria por tenebrosos 21 anos.
A anistia ampla, geral e irrestrita cobrada pela oposição ao regime, não foi tão ampla, nem geral, nem irrestrita. E serviu acima de tudo para perdoar os crimes de sangue cometidos pelos militares.
Inimigos da ditadura foram presos, torturados, mortos, desapareceram, banidos do Brasil ou obrigados a se exilar. Os que sobreviveram voltaram com a anistia de 1979.
Os militares que torturaram, mataram, soltaram bombas e tentaram impedir o retorno da democracia, esses nada pagaram pelo que fizeram. Seus crimes sequer foram investigados.
A anistia que Bolsonaro defende é para os condenados e presos pela tentativa de golpe do 8 de janeiro, e para ele por tabela. Alega que não houve tentativa de golpe, apenas uma bagunça.
Os inconformados com a derrota do seu Messias, e no exercício do legítimo direito à liberdade de expressão, bateram à porta de quarteis a clamar por um golpe que invalidasse a eleição.
Clamar por um golpe não é crime, entende Bolsonaro. Invadir a Praça dos Três Poderes e depredar prédios públicos, até poderia ser classificado de crime, mas jamais contra a democracia.
Quanto a ele próprio, nem no Brasil estava. Assistiu tudo de longe e surpreso em um condomínio de Orlando, nos Estados Unidos. Se o tivessem consultado, certamente não autorizaria a bagunça.
A pressa de Bolsonaro com a anistia tem uma razão de ser – e não é a dor que sente por ver tantos correligionários presos, coitadinhos. Bolsonaro quer evitar ser julgado por novos crimes.
Inelegível até 2030, ele já está. Mas aproxima-se a hora de ser denunciado pelos crimes de roubo de joias e de atentado contra o Estado Democrático de Direito. Aí é que o bicho vai pegar.
Se o Congresso aprovasse a anistia que ele requer, Bolsonaro não seria denunciado e muito menos julgado, é o que ele imagina. E recuperaria os direitos políticos para candidatar-se em 2026.
Sonhar sai barato. E sonhar à falta de outra coisa para fazer, e com tudo pago pelo partido que lhe oferece abrigo e sustenta parte de sua família, não fará mal algum a Bolsonaro e ao seu rebanho.
Ricardo Noblat
A Lusitana roda, o mundo gira, e Bolsonaro acha que o galo canta todos os dias para acordá-lo, e não porque o sol nasceu. Não se dá conta de que em breve o sol irá se pôr exclusivamente para ele.
A história do Brasil está pontilhada de anistias. Na segunda metade dos anos 1950, o então presidente Juscelino Kubitschek anistiou todos os militares que se rebelaram contra seu governo.
Quando instalaram a ditadura em 1964, os militares puniram com extremo rigor seus colegas de farda que se opuseram ao golpe em nome da legalidade. Que legalidade, coisa nenhuma!
Afinal, justificavam os golpistas, fora preciso suspender a democracia para poder salvá-la da ameaça comunista. E o processo de resgate da democracia se arrastaria por tenebrosos 21 anos.
A anistia ampla, geral e irrestrita cobrada pela oposição ao regime, não foi tão ampla, nem geral, nem irrestrita. E serviu acima de tudo para perdoar os crimes de sangue cometidos pelos militares.
Inimigos da ditadura foram presos, torturados, mortos, desapareceram, banidos do Brasil ou obrigados a se exilar. Os que sobreviveram voltaram com a anistia de 1979.
Os militares que torturaram, mataram, soltaram bombas e tentaram impedir o retorno da democracia, esses nada pagaram pelo que fizeram. Seus crimes sequer foram investigados.
A anistia que Bolsonaro defende é para os condenados e presos pela tentativa de golpe do 8 de janeiro, e para ele por tabela. Alega que não houve tentativa de golpe, apenas uma bagunça.
Os inconformados com a derrota do seu Messias, e no exercício do legítimo direito à liberdade de expressão, bateram à porta de quarteis a clamar por um golpe que invalidasse a eleição.
Clamar por um golpe não é crime, entende Bolsonaro. Invadir a Praça dos Três Poderes e depredar prédios públicos, até poderia ser classificado de crime, mas jamais contra a democracia.
Quanto a ele próprio, nem no Brasil estava. Assistiu tudo de longe e surpreso em um condomínio de Orlando, nos Estados Unidos. Se o tivessem consultado, certamente não autorizaria a bagunça.
A pressa de Bolsonaro com a anistia tem uma razão de ser – e não é a dor que sente por ver tantos correligionários presos, coitadinhos. Bolsonaro quer evitar ser julgado por novos crimes.
Inelegível até 2030, ele já está. Mas aproxima-se a hora de ser denunciado pelos crimes de roubo de joias e de atentado contra o Estado Democrático de Direito. Aí é que o bicho vai pegar.
Se o Congresso aprovasse a anistia que ele requer, Bolsonaro não seria denunciado e muito menos julgado, é o que ele imagina. E recuperaria os direitos políticos para candidatar-se em 2026.
Sonhar sai barato. E sonhar à falta de outra coisa para fazer, e com tudo pago pelo partido que lhe oferece abrigo e sustenta parte de sua família, não fará mal algum a Bolsonaro e ao seu rebanho.
Ricardo Noblat
Incêndios convergentes
Em 2 de outubro, comemorou-se o dia da não-violência. A data é uma homenagem ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, que nasceu a 2 de outubro de 1869, na cidade de Porbandar, no Gujarat.
Sempre me incomodou tropeçar com a palavra violência na expressão “não-violência”. A inexistência de uma palavra simples, na maior parte das línguas, capaz de definir um pacifismo ativo, capaz de impor serenidade e devolver a lucidez aos conflitos, diz muito acerca das limitações morais do ser humano — ou, pelo menos, das limitações morais das civilizações geradas pela nossa espécie.
A história da Humanidade é uma história da violência. Tenho a certeza, contudo, de que em todas as épocas, em todas as sociedades humanas, terá havido pessoas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela ou Jesus Cristo, para as quais o recurso à violência traduz um colapso da inteligência, da Justiça e da racionalidade. Essas pessoas, por poucas que sejam, seguram os frágeis fios do nosso destino comum.
Enquanto os pacifistas comemoravam o dia da não-violência, a guerra entre Israel e os palestinos; entre Israel e o Líbano; entre Israel e o Irã, entrou numa fase ainda mais assustadora.
Poucas horas após o Irã ter atacado Israel com mísseis balísticos, sem consequências graves, o governo de Benjamin Netanyahu declarou Antônio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, persona non grata, proibindo a sua entrada no país. Imagino que Guterres, antigo dirigente do Partido Socialista português, um homem plácido, discreto, que até agora nunca fora capaz de despertar paixões fortes, tenha acolhido a notícia com certo orgulho. Ser atacado por alguém como Netanyahu é quase um prêmio.
Benjamin Netanyahu e Ali Khamenei são incêndios convergentes. O desvario de um alimenta e justifica o do outro. Há anos que Netanyahu ambicionava envolver o Irã num conflito de grandes proporções, arrastando para o mesmo o seu principal aliado — os EUA. Tudo indica que, finalmente, terá êxito. Uma guerra ampla convém a Netanyahu, que dessa forma consolidará a sua posição no poder, adiando os inúmeros problemas com a Justiça por acusações de corrupção. Milhares de pessoas estão morrendo para evitar a prisão de um único homem.
O conhecido jornalista israelense Gideon Levy alertou há poucos dias, numa entrevista ao canal Democracy Now!, para o crescente isolamento e enfraquecimento do seu país: “Toda essa mentalidade de bombardeio e bombardeio, que dura já um ano, recusando qualquer tipo de diplomacia, isso não garantirá a segurança de Israel, sem falar no preço que o outro lado está pagando. Mas mesmo a segurança de Israel não vai melhorar. Agora estamos em uma situação menos boa do que há um ano. Posso te dizer que, em Tel Aviv, estamos mais assustados do que há um ano.”
Mais de 500 mil judeus israelenses abandonaram o país desde o horrível massacre de 7 de outubro. Imagino que esses, os que estão saindo, serão aqueles que se opõem à atual dinâmica de violência. Vozes pacifistas, como a de Gideon Levy, são cada vez mais raras em Israel — embora tão necessárias. Temos pela frente dias muito sombrios.
Sempre me incomodou tropeçar com a palavra violência na expressão “não-violência”. A inexistência de uma palavra simples, na maior parte das línguas, capaz de definir um pacifismo ativo, capaz de impor serenidade e devolver a lucidez aos conflitos, diz muito acerca das limitações morais do ser humano — ou, pelo menos, das limitações morais das civilizações geradas pela nossa espécie.
A história da Humanidade é uma história da violência. Tenho a certeza, contudo, de que em todas as épocas, em todas as sociedades humanas, terá havido pessoas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela ou Jesus Cristo, para as quais o recurso à violência traduz um colapso da inteligência, da Justiça e da racionalidade. Essas pessoas, por poucas que sejam, seguram os frágeis fios do nosso destino comum.
Enquanto os pacifistas comemoravam o dia da não-violência, a guerra entre Israel e os palestinos; entre Israel e o Líbano; entre Israel e o Irã, entrou numa fase ainda mais assustadora.
Poucas horas após o Irã ter atacado Israel com mísseis balísticos, sem consequências graves, o governo de Benjamin Netanyahu declarou Antônio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, persona non grata, proibindo a sua entrada no país. Imagino que Guterres, antigo dirigente do Partido Socialista português, um homem plácido, discreto, que até agora nunca fora capaz de despertar paixões fortes, tenha acolhido a notícia com certo orgulho. Ser atacado por alguém como Netanyahu é quase um prêmio.
Benjamin Netanyahu e Ali Khamenei são incêndios convergentes. O desvario de um alimenta e justifica o do outro. Há anos que Netanyahu ambicionava envolver o Irã num conflito de grandes proporções, arrastando para o mesmo o seu principal aliado — os EUA. Tudo indica que, finalmente, terá êxito. Uma guerra ampla convém a Netanyahu, que dessa forma consolidará a sua posição no poder, adiando os inúmeros problemas com a Justiça por acusações de corrupção. Milhares de pessoas estão morrendo para evitar a prisão de um único homem.
O conhecido jornalista israelense Gideon Levy alertou há poucos dias, numa entrevista ao canal Democracy Now!, para o crescente isolamento e enfraquecimento do seu país: “Toda essa mentalidade de bombardeio e bombardeio, que dura já um ano, recusando qualquer tipo de diplomacia, isso não garantirá a segurança de Israel, sem falar no preço que o outro lado está pagando. Mas mesmo a segurança de Israel não vai melhorar. Agora estamos em uma situação menos boa do que há um ano. Posso te dizer que, em Tel Aviv, estamos mais assustados do que há um ano.”
Mais de 500 mil judeus israelenses abandonaram o país desde o horrível massacre de 7 de outubro. Imagino que esses, os que estão saindo, serão aqueles que se opõem à atual dinâmica de violência. Vozes pacifistas, como a de Gideon Levy, são cada vez mais raras em Israel — embora tão necessárias. Temos pela frente dias muito sombrios.
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