quarta-feira, 14 de dezembro de 2022
Noite de terror em Brasília foi obra de profissionais da subversão
Se tem tromba de elefante, presas de elefante, orelhas de elefante, altura de elefante, vive em grupos como os elefantes e locomove-se como um deles, só pode ser um elefante, concorda?
O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Partido Popular, ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, discorda. Segundo ele, pode ser um “black bloc”.
Bolsonaristas acampados à porta do QG do Exército, em Brasília, alguns vestidos com a camisa amarela da Seleção, queimaram carros e ônibus no centro da cidade e depredaram prédios.
Mas não foram eles quem Nogueira viu em ação, foram os “black blocs”, anarquistas e integrantes de movimentos que costumam se juntar para protestar com violência contra o que os incomoda.
Nogueira escreveu no Twitter:
“Eles têm cara de Black Blocs, jeito de Black Blocs, fúria de Black Blocs, cheiro de Black Blocs e violência dos Black Blocs, que não existiram durante todo o governo Bolsonaro. Será coincidência ou a volta deles?”
A última aparição dos “black blocs” por estas bandas foi em junho de 2013, quando engrossaram as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus que quase derrubaram o governo Dilma.
Naquela ocasião, ouvi de Eduardo Paes, então prefeito do Rio: “Fomos salvos pelos “black blocs”. Se não fossem eles, os protestos aumentariam e os governos poderiam ser levados de roldão”.
Nogueira não sabe o que fala, mas sabe o que quer dizer: isentar de culpa pela baderna os bolsonaristas golpistas e sugerir que grupos de anarquistas infiltrados e a serviço do PT foram os culpados.
O que aconteceu em Brasília na noite da última segunda-feira, estendeu-se pela madrugada da terça e poderá se repetir até a posse de Lula, foi obra de agentes profissionais da subversão.
Por que as polícias do Distrito Federal não prenderam nenhum? Porque não era para prender, ora. Porque muitos são militares da ativa e da reserva ou parentes do que chamam de “família militar”.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do governo do Distrito Federal justificou:
“A SSP/DF destaca que, para redução dos danos e para evitar uma escalada ainda maior dos ânimos, a ação da Polícia Militar se concentrou na dispersão dos manifestantes”.
Enquanto o centro de Brasília pegava fogo, Anderson Torres, ministro da Justiça, jantava. Nogueira disse que cenas como aquelas nunca “existiram durante todo o governo Bolsonaro”. Oi!
O governo Bolsonaro deixou de existir? Quem é o presidente do Brasil até o último minuto do próximo dia 31? Quem ordenou a abertura dos portões do Palácio da Alvorada na noite do domingo?
Os bolsonaristas foram avisados antes da meia-noite do domingo que os portões estavam abertos para quem quisesse acampar nos jardins do palácio, e centenas deles rumaram para lá.
Foram bem tratados ao longo da segunda-feira. Não lhes faltou comida providenciada por Michelle Bolsonaro. No fim da tarde, em rápida aparição, Bolsonaro saudou-os em silêncio.
Enquanto eles voltavam para a porta do QG do Exército, Bolsonaro recepcionou o blogueiro Oswaldo Eustáquio que, com medo de ser preso, pediu refúgio no palácio. Se ainda está lá, não se sabe.
Apenas 5 horas separam o histórico discurso feito pelo ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, no ato da diplomação de Lula, do início da baderna.
No discurso, o ministro prometeu punir todos os que antes, durante e depois das eleições atentaram contra a democracia. A resposta planejada nas trevas foi dada de imediato.
O senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Partido Popular, ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro, discorda. Segundo ele, pode ser um “black bloc”.
Bolsonaristas acampados à porta do QG do Exército, em Brasília, alguns vestidos com a camisa amarela da Seleção, queimaram carros e ônibus no centro da cidade e depredaram prédios.
Mas não foram eles quem Nogueira viu em ação, foram os “black blocs”, anarquistas e integrantes de movimentos que costumam se juntar para protestar com violência contra o que os incomoda.
Nogueira escreveu no Twitter:
“Eles têm cara de Black Blocs, jeito de Black Blocs, fúria de Black Blocs, cheiro de Black Blocs e violência dos Black Blocs, que não existiram durante todo o governo Bolsonaro. Será coincidência ou a volta deles?”
A última aparição dos “black blocs” por estas bandas foi em junho de 2013, quando engrossaram as manifestações contra o aumento das passagens de ônibus que quase derrubaram o governo Dilma.
Naquela ocasião, ouvi de Eduardo Paes, então prefeito do Rio: “Fomos salvos pelos “black blocs”. Se não fossem eles, os protestos aumentariam e os governos poderiam ser levados de roldão”.
Nogueira não sabe o que fala, mas sabe o que quer dizer: isentar de culpa pela baderna os bolsonaristas golpistas e sugerir que grupos de anarquistas infiltrados e a serviço do PT foram os culpados.
O que aconteceu em Brasília na noite da última segunda-feira, estendeu-se pela madrugada da terça e poderá se repetir até a posse de Lula, foi obra de agentes profissionais da subversão.
Por que as polícias do Distrito Federal não prenderam nenhum? Porque não era para prender, ora. Porque muitos são militares da ativa e da reserva ou parentes do que chamam de “família militar”.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do governo do Distrito Federal justificou:
“A SSP/DF destaca que, para redução dos danos e para evitar uma escalada ainda maior dos ânimos, a ação da Polícia Militar se concentrou na dispersão dos manifestantes”.
Enquanto o centro de Brasília pegava fogo, Anderson Torres, ministro da Justiça, jantava. Nogueira disse que cenas como aquelas nunca “existiram durante todo o governo Bolsonaro”. Oi!
O governo Bolsonaro deixou de existir? Quem é o presidente do Brasil até o último minuto do próximo dia 31? Quem ordenou a abertura dos portões do Palácio da Alvorada na noite do domingo?
Os bolsonaristas foram avisados antes da meia-noite do domingo que os portões estavam abertos para quem quisesse acampar nos jardins do palácio, e centenas deles rumaram para lá.
Foram bem tratados ao longo da segunda-feira. Não lhes faltou comida providenciada por Michelle Bolsonaro. No fim da tarde, em rápida aparição, Bolsonaro saudou-os em silêncio.
Enquanto eles voltavam para a porta do QG do Exército, Bolsonaro recepcionou o blogueiro Oswaldo Eustáquio que, com medo de ser preso, pediu refúgio no palácio. Se ainda está lá, não se sabe.
Apenas 5 horas separam o histórico discurso feito pelo ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, no ato da diplomação de Lula, do início da baderna.
No discurso, o ministro prometeu punir todos os que antes, durante e depois das eleições atentaram contra a democracia. A resposta planejada nas trevas foi dada de imediato.
Apesar dos violentos e seu vandalismo, a democracia segue seu curso
O vandalismo dos bolsonaristas inconformados com a prisão de um xavante bolsonarista, baderneiro — supostamente convertido ao Evangelho e oficiado pastor quando estava preso por tráfico de drogas —, na noite de segunda-feira, em Brasília, sinaliza muitas coisas, mas não a força suficiente para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Sua diplomação pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre Moraes, que determinou a prisão preventiva do índio renegado por sua tribo e a soldo de um fazendeiro do interior paulista, demonstrou que a democracia segue seu curso, com suas pompas e ritos, que consagram o nosso Estado democrático de direito.
O sociólogo Manuel Castells, ministro de Universidades da Espanha — discípulo de Alain Touraine, Michel Foucault e Jürgen Habermas —, destaca que a democracia se constrói em torno de relações de poder social que vão se adaptando à evolução, mas sempre acaba por privilegiar o poder que já está cristalizado nas instituições. E com o poder cristalizado ficando cada vez mais poderoso, mais difícil fica de eliminá-lo ou combatê-lo. Isso acaba por desencorajar a criação de novas representações políticas ao fazer com que o cenário político se mostre cada vez mais dominado por grandes partidos, enraizados há mais tempo.
Partindo dessa premissa, podemos constatar que o tsunami eleitoral de 2018, que levou Bolsonaro ao poder, ao mesmo tempo em que foi resultado do descolamento dos partidos da sociedade, por seu cretinismo parlamentar (que nada mais é do que a defesa dos interesse próprios dos políticos e não das ideias e eleitores que lhes deram origem), representou a derrota dos movimentos cívicos que emergiram da crise do governo Dilma Rousseff em 2013. Esses movimentos não conseguiram dar origem a uma alternativa de poder de caráter liberal. Esvaziados, sua base social foi capturada pelo bolsonarismo, um movimento assumidamente reacionário, cuja atuação reproduz a velha extrema-direita da crise política e da radicalização dos anos 1930.
Agora estamos diante de um novo ciclo, em que o presidente Jair Bolsonaro, líder carismático desses movimentos, perdeu as eleições para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fundador e líder do maior partido de origem operária da história do país, num processo de polarização esquerda versus direita que precisa ser ultrapassado, mas se retroalimenta. Entretanto, há uma diferença fundamental entre Lula e Bolsonaro: o primeiro tem um partido com experiência política e eleitoral, e o segundo, não; lidera uma militância fanatizada e organizada à margem dos partidos que lhe deram governabilidade.
Diria Castells, quem paga esse pato é a sociedade, que se vê longe do sistema político, ao mesmo tempo em que o processo de renovação e evolução política do país fica tolhido pelos partidos dominantes. Mas não sejamos maniqueístas, o outro lado dessa moeda é o fortalecimento das instituições políticas, ainda que por uma "partidocracia". Assim, a virulência verbal e vandalismo dos bolsonaristas-raiz são preocupantes, desnudam a mentalidade fascista de suas lideranças, porém, ao mesmo tempo, revelam um certo desespero diante da força das instituições e do curso da democracia.
A bagunça ocorrida em Brasília no dia da diplomação de Lula estava escrita nas estrelas. Foi orquestrada e mostra as intenções dos grupos golpistas que permanecem à porta dos quartéis, com propósito de impedir a posse do presidente eleito. Mas esse tipo de ação serve também para isolá-los e pôr uma saia justa nos aliados de Bolsonaro que se passam por liberais e flertam com o autoritarismo, bem como as autoridades de segurança cujos serviços de informação sabem o que está se passando. Como um novo ciclo que se abre, esses grupos de extrema-direita, com sinal trocado, se deparam com as mesmas dificuldades dos movimentos cívicos que não conseguiram se integrar ao processo político institucional e se esvaziaram como força eleitoral. A chave do que está ocorrendo é o Centrão.
O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a propósito do momento em que estamos vivendo, numa conversa política entre amigos na segunda-feira, fez uma observação fundamental: precisamos separar a extrema-direita bolsonarista do Centrão ao analisar a força de Bolsonaro. Segundo ele, a sobrevivência dos políticos do Centrão depende da relação com o governo, e não da liderança de Bolsonaro. Por isso mesmo, a construção da governabilidade de Lula passa pela institucionalidade da política, e não pelo confronto nas ruas. Esse seria o jogo dos violentos. Complemento: quando Churchill disse que “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras formas que foram experimentadas de tempos em tempos”, estava se referindo à capacidade de a democracia liberal do Ocidente sobreviver às crises que ela própria engendra. Foi mais ou menos o que ouvi de um general no Comando Militar do Planalto às vésperas do 7 de setembro do ano passado: “A democracia é barulhenta, mas tem instituições fortes”.
Em tempo: o presidente Jair Bolsonaro está chocando o ovo de uma serpente natimorta. A correlação de forças políticas, com a derrota eleitoral, está se alterando, porque o governo é a forma mais concentrada de poder e o aparelho burocrático-administrativo já gravita em torno do novo presidente da República e das forças que o apoiam. Os bolsões de resistência no Estado são localizados e estão sendo desnudados, principalmente na área da segurança pública. O que houve em Brasília foi omissão e conivência com os baderneiros, mesmo assim, diante da escalada, chegou uma hora em que a repressão aos manifestantes teve que ser adotada. Não houve prisões de vândalos na segunda-feira, mas serão inevitáveis.
O sociólogo Manuel Castells, ministro de Universidades da Espanha — discípulo de Alain Touraine, Michel Foucault e Jürgen Habermas —, destaca que a democracia se constrói em torno de relações de poder social que vão se adaptando à evolução, mas sempre acaba por privilegiar o poder que já está cristalizado nas instituições. E com o poder cristalizado ficando cada vez mais poderoso, mais difícil fica de eliminá-lo ou combatê-lo. Isso acaba por desencorajar a criação de novas representações políticas ao fazer com que o cenário político se mostre cada vez mais dominado por grandes partidos, enraizados há mais tempo.
Partindo dessa premissa, podemos constatar que o tsunami eleitoral de 2018, que levou Bolsonaro ao poder, ao mesmo tempo em que foi resultado do descolamento dos partidos da sociedade, por seu cretinismo parlamentar (que nada mais é do que a defesa dos interesse próprios dos políticos e não das ideias e eleitores que lhes deram origem), representou a derrota dos movimentos cívicos que emergiram da crise do governo Dilma Rousseff em 2013. Esses movimentos não conseguiram dar origem a uma alternativa de poder de caráter liberal. Esvaziados, sua base social foi capturada pelo bolsonarismo, um movimento assumidamente reacionário, cuja atuação reproduz a velha extrema-direita da crise política e da radicalização dos anos 1930.
Agora estamos diante de um novo ciclo, em que o presidente Jair Bolsonaro, líder carismático desses movimentos, perdeu as eleições para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fundador e líder do maior partido de origem operária da história do país, num processo de polarização esquerda versus direita que precisa ser ultrapassado, mas se retroalimenta. Entretanto, há uma diferença fundamental entre Lula e Bolsonaro: o primeiro tem um partido com experiência política e eleitoral, e o segundo, não; lidera uma militância fanatizada e organizada à margem dos partidos que lhe deram governabilidade.
Diria Castells, quem paga esse pato é a sociedade, que se vê longe do sistema político, ao mesmo tempo em que o processo de renovação e evolução política do país fica tolhido pelos partidos dominantes. Mas não sejamos maniqueístas, o outro lado dessa moeda é o fortalecimento das instituições políticas, ainda que por uma "partidocracia". Assim, a virulência verbal e vandalismo dos bolsonaristas-raiz são preocupantes, desnudam a mentalidade fascista de suas lideranças, porém, ao mesmo tempo, revelam um certo desespero diante da força das instituições e do curso da democracia.
A bagunça ocorrida em Brasília no dia da diplomação de Lula estava escrita nas estrelas. Foi orquestrada e mostra as intenções dos grupos golpistas que permanecem à porta dos quartéis, com propósito de impedir a posse do presidente eleito. Mas esse tipo de ação serve também para isolá-los e pôr uma saia justa nos aliados de Bolsonaro que se passam por liberais e flertam com o autoritarismo, bem como as autoridades de segurança cujos serviços de informação sabem o que está se passando. Como um novo ciclo que se abre, esses grupos de extrema-direita, com sinal trocado, se deparam com as mesmas dificuldades dos movimentos cívicos que não conseguiram se integrar ao processo político institucional e se esvaziaram como força eleitoral. A chave do que está ocorrendo é o Centrão.
O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a propósito do momento em que estamos vivendo, numa conversa política entre amigos na segunda-feira, fez uma observação fundamental: precisamos separar a extrema-direita bolsonarista do Centrão ao analisar a força de Bolsonaro. Segundo ele, a sobrevivência dos políticos do Centrão depende da relação com o governo, e não da liderança de Bolsonaro. Por isso mesmo, a construção da governabilidade de Lula passa pela institucionalidade da política, e não pelo confronto nas ruas. Esse seria o jogo dos violentos. Complemento: quando Churchill disse que “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras formas que foram experimentadas de tempos em tempos”, estava se referindo à capacidade de a democracia liberal do Ocidente sobreviver às crises que ela própria engendra. Foi mais ou menos o que ouvi de um general no Comando Militar do Planalto às vésperas do 7 de setembro do ano passado: “A democracia é barulhenta, mas tem instituições fortes”.
Em tempo: o presidente Jair Bolsonaro está chocando o ovo de uma serpente natimorta. A correlação de forças políticas, com a derrota eleitoral, está se alterando, porque o governo é a forma mais concentrada de poder e o aparelho burocrático-administrativo já gravita em torno do novo presidente da República e das forças que o apoiam. Os bolsões de resistência no Estado são localizados e estão sendo desnudados, principalmente na área da segurança pública. O que houve em Brasília foi omissão e conivência com os baderneiros, mesmo assim, diante da escalada, chegou uma hora em que a repressão aos manifestantes teve que ser adotada. Não houve prisões de vândalos na segunda-feira, mas serão inevitáveis.
Locomotiva enferrujada
Olhemos para essa imagem: uma locomotiva puxando uma fileira de carros do trem, cada qual desfraldando uma bandeira, sendo a primeira a que mostra homens e mulheres escolhendo seus representantes nos foros parlamentares e nas cadeiras de comando do poder executivo. Outra imagem: um gráfico com países de elevado produto nacional bruto (soma de todas as suas riquezas), liderando o rol de Nações com melhor índice de desenvolvimento humano e, ao final do desenho, territórios devastados por doenças, fome, violência, mortalidade, barbárie.
Nas duas ilustrações, a mesma leitura: a alavanca que puxa as Nações democráticas e promove o bem-estar das massas é a Educação. Trata-se do escudo que protege os países. A arma usada na tão aclamada revolução das mentes. O exército capaz de transformar territórios assolados por ignorância em prósperas Nações. A força que impulsiona avanços. O motor que faz girar a roda civilizatória. A engrenagem que une os parafusos do progresso. A maquinaria que gera harmonia social. Em suma, o fator responsável pelo Produto Nacional Bruto da Felicidade dos habitantes do planeta.
Contemplemos, agora, nossas plagas tropicais, nessa quadra em que mais de mil pessoas trabalham no chamado “governo de transição”, identificando carências e demandas a serem processadas na administração que terá início em 1º de janeiro de 2023. Diante de números e situações, algumas descritas adiante, a conclusão certamente apontará para esta hipótese: o Brasil carece de uma revolução na área educacional. O presidente eleito Lula da Silva realizará esse empreendimento? Modesto conselho: ensine, presidente, o pescador a pescar. Invista numa nova locomotiva para puxar os trens do desenvolvimento. Escolha a Educação como prioridade número um de seu governo. Medite sobre o quadro.
Há cerca de 48 milhões de pessoas matriculadas no ensino básico. Dados de 2020. O ensino básico, nesse caso, abrange da creche ao ensino médio, incluindo a educação de jovens e adultos. Milhares de alunos, porém, concluem a quarta série sem saber ler nem escrever, muito menos fazer contas. E mais: 35 milhões de brasileiros são até capazes de ler, mas não conseguem entender o significado das palavras. São os analfabetos funcionais. A continuar nesse passo, o Brasil estará condenado a rastejar na sombra de Países que elegem a educação como base do edifício civilizatório, sendo exemplos Reino Unido, Finlândia, Suécia, Canadá, Japão e Coréia do Sul. Os dados negativos se acumulam. Extratos do PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – dão conta de que, entre 2015 e 2019, o país perdeu 46 milhões de leitores. Um desastre. Apenas 50% dos brasileiros têm o hábito de ler.
A crise da educação básica é um fio esgarçado que prende o País à teia do atraso. Discurso sobre a melhoria da qualidade do ensino é o que não falta na boca de governantes e de educadores. Dinheiro? Acabam limpando os recursos da educação. E enchendo os potes de orçamentos secretos. A lei obriga Estados e Municípios a investirem em educação 25% de seus orçamentos, enquanto à União cabe aplicar, no mínimo, 18%. A lei não é cumprida? Nosso país “faz de conta”. E mais: o Brasil possui uma rede social imensa, a maior de todos os tempos. Urge perguntar: a educação não integra a rede? Por que a economia tem poucos recursos para investir na enferrujada locomotiva educacional? O que falta para se fazer a “revolução” na sala de aula? É triste constatar que a parede de frente da nossa cultura é de areia sem cimento, uma “cultura de fachada”.
A aula-padrão quadrada, lousa, giz e saliva perdem eficácia diante de cognições mais sensíveis à estética. Somos um País mais ligado à imagem do que à leitura. O fato é que a escola pública, modelo de qualidade em países como a Inglaterra é, entre nós, a cara do obsoletismo: desaparelhada, sujeita à violência, professores ausentes, parcos salários, gestão improvisada, falta de assessoramento pedagógico. As autonomias se esfacelam diante dos ataques aos orçamentos educacionais. Nesse fim de ano, universidades federais não têm dinheiro nem para pagar a coleta de lixo.
O Brasil precisa instalar uma nova escola, integrada ao tempo e ao espaço, capaz de construir pontes entre aluno e seu meio. Uma escola de formação para a vida. Como podem os meios de comunicação de massa oferecer sua contribuição? Recheando suas grades com propostas renovadoras na área da cultura e da educação. A TV Cultura de São Paulo é um bom exemplo. Tem arriscado na seara de uma nova linguagem para atrair crianças e adolescentes. Mas dispõe de parcos recursos. E luta com vigor para revigorar sua autonomia. Em suma, a TV aberta pode ajudar com programas voltados para uma escola pública compatível com as demandas da sociedade, proporcionando abordagens que incorporem as novas fronteiras do conhecimento.
Por último, uma reflexão. Norberto Bobbio já alertava que “certos governantes preferem cidadãos passivos a ativos.” Aqueles são depósitos de votos a seu favor. Equivalem a carneiros comendo capim no pasto. Já os cidadãos ativos filtram a água contaminada. O país clama por uma cidadania ativa, participante, inclusiva, seiva produzida por magistrais educadores como Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro.
O Brasil pode esperar por uma educação pública de qualidade? Resposta: muito difícil atingir essa meta no curto prazo. Falta vontade política. A educação acaba sendo moeda de troca.
Nas duas ilustrações, a mesma leitura: a alavanca que puxa as Nações democráticas e promove o bem-estar das massas é a Educação. Trata-se do escudo que protege os países. A arma usada na tão aclamada revolução das mentes. O exército capaz de transformar territórios assolados por ignorância em prósperas Nações. A força que impulsiona avanços. O motor que faz girar a roda civilizatória. A engrenagem que une os parafusos do progresso. A maquinaria que gera harmonia social. Em suma, o fator responsável pelo Produto Nacional Bruto da Felicidade dos habitantes do planeta.
Contemplemos, agora, nossas plagas tropicais, nessa quadra em que mais de mil pessoas trabalham no chamado “governo de transição”, identificando carências e demandas a serem processadas na administração que terá início em 1º de janeiro de 2023. Diante de números e situações, algumas descritas adiante, a conclusão certamente apontará para esta hipótese: o Brasil carece de uma revolução na área educacional. O presidente eleito Lula da Silva realizará esse empreendimento? Modesto conselho: ensine, presidente, o pescador a pescar. Invista numa nova locomotiva para puxar os trens do desenvolvimento. Escolha a Educação como prioridade número um de seu governo. Medite sobre o quadro.
Há cerca de 48 milhões de pessoas matriculadas no ensino básico. Dados de 2020. O ensino básico, nesse caso, abrange da creche ao ensino médio, incluindo a educação de jovens e adultos. Milhares de alunos, porém, concluem a quarta série sem saber ler nem escrever, muito menos fazer contas. E mais: 35 milhões de brasileiros são até capazes de ler, mas não conseguem entender o significado das palavras. São os analfabetos funcionais. A continuar nesse passo, o Brasil estará condenado a rastejar na sombra de Países que elegem a educação como base do edifício civilizatório, sendo exemplos Reino Unido, Finlândia, Suécia, Canadá, Japão e Coréia do Sul. Os dados negativos se acumulam. Extratos do PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – dão conta de que, entre 2015 e 2019, o país perdeu 46 milhões de leitores. Um desastre. Apenas 50% dos brasileiros têm o hábito de ler.
A crise da educação básica é um fio esgarçado que prende o País à teia do atraso. Discurso sobre a melhoria da qualidade do ensino é o que não falta na boca de governantes e de educadores. Dinheiro? Acabam limpando os recursos da educação. E enchendo os potes de orçamentos secretos. A lei obriga Estados e Municípios a investirem em educação 25% de seus orçamentos, enquanto à União cabe aplicar, no mínimo, 18%. A lei não é cumprida? Nosso país “faz de conta”. E mais: o Brasil possui uma rede social imensa, a maior de todos os tempos. Urge perguntar: a educação não integra a rede? Por que a economia tem poucos recursos para investir na enferrujada locomotiva educacional? O que falta para se fazer a “revolução” na sala de aula? É triste constatar que a parede de frente da nossa cultura é de areia sem cimento, uma “cultura de fachada”.
A aula-padrão quadrada, lousa, giz e saliva perdem eficácia diante de cognições mais sensíveis à estética. Somos um País mais ligado à imagem do que à leitura. O fato é que a escola pública, modelo de qualidade em países como a Inglaterra é, entre nós, a cara do obsoletismo: desaparelhada, sujeita à violência, professores ausentes, parcos salários, gestão improvisada, falta de assessoramento pedagógico. As autonomias se esfacelam diante dos ataques aos orçamentos educacionais. Nesse fim de ano, universidades federais não têm dinheiro nem para pagar a coleta de lixo.
O Brasil precisa instalar uma nova escola, integrada ao tempo e ao espaço, capaz de construir pontes entre aluno e seu meio. Uma escola de formação para a vida. Como podem os meios de comunicação de massa oferecer sua contribuição? Recheando suas grades com propostas renovadoras na área da cultura e da educação. A TV Cultura de São Paulo é um bom exemplo. Tem arriscado na seara de uma nova linguagem para atrair crianças e adolescentes. Mas dispõe de parcos recursos. E luta com vigor para revigorar sua autonomia. Em suma, a TV aberta pode ajudar com programas voltados para uma escola pública compatível com as demandas da sociedade, proporcionando abordagens que incorporem as novas fronteiras do conhecimento.
Por último, uma reflexão. Norberto Bobbio já alertava que “certos governantes preferem cidadãos passivos a ativos.” Aqueles são depósitos de votos a seu favor. Equivalem a carneiros comendo capim no pasto. Já os cidadãos ativos filtram a água contaminada. O país clama por uma cidadania ativa, participante, inclusiva, seiva produzida por magistrais educadores como Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro.
O Brasil pode esperar por uma educação pública de qualidade? Resposta: muito difícil atingir essa meta no curto prazo. Falta vontade política. A educação acaba sendo moeda de troca.
Capitular, jamais!
Quando a barbárie triunfa, não é graças à força dos bárbaros, mas à capitulação dos civilizados.Antonio Muñoz Molina
Atos extremistas buscam instigar o caos como método
Qual o efeito dos atos extremistas de 12 de dezembro para o futuro do bolsonarismo? Para responder a esta pergunta, é necessário lembrar que este não é um acontecimento isolado nem tampouco se iniciou após o resultado da eleição presidencial. Os atos ocorridos em Brasília são mais uma etapa do processo de radicalização da extrema direita no Brasil. Nos últimos dois anos, bolsonaristas têm realizado exercícios constantes e coordenados de mobilização de insurgência. O marco deste processo ocorreu em março de 2020, quando Jair Bolsonaro e seus apoiadores passaram a atacar os governadores e o Supremo Tribunal Federal (STF), em atos que passaram a ser chamados de “manifestações antidemocráticas”.
Nos últimos dois anos, as motociatas foram o exercício para as mobilizações de insurgência. Com essa guinada em direção à radicalização, o bolsonarismo deixou para trás a agenda que o elegeu. Em 2018, a campanha bolsonarista foi centrada na figura do “cidadão de bem”, mobilizado, principalmente, pelo discurso anticorrupção. A partir de 2020, o bolsonarismo passou a recrutar o “patriota”, a versão mais radical e violenta em comparação com o “cidadão de bem”. Esta mudança se deu em consonância com uma tendência global das extremas direitas, cuja forma de atuar passa pelo uso de estratégias de terrorismo doméstico, a exemplo da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, após a derrota de Donald Trump.
Com o apelo crescente para a participação de manifestantes considerados “patriotas”, aqueles considerados “fracos” vão perdendo destaque, relevância e prestígio dentro dos movimentos e dos grupos bolsonaristas. Em contrapartida, ganham proeminência apenas os que detêm maior habilidade com o uso da força e da violência, seja ela retórica, seja ela física. E as lideranças desses atos passam a ser mais prestigiadas cada vez que avançam no seu “extremismo estratégico” contra as instituições democráticas.
Esses atos buscam instigar o caos como método. É uma forma de gerar situações cada vez mais extremas nas quais os líderes desses movimentos são investigados, presos, ou se tornam “vítimas” do “sistema” (alvos de prisões e investigações no âmbito do Supremo). Com isso, o bolsonarismo ao mesmo tempo que passa a mobilizar um número cada vez menor de apoiadores também avança no seu processo de radicalização.
Nos últimos dois anos, as motociatas foram o exercício para as mobilizações de insurgência. Com essa guinada em direção à radicalização, o bolsonarismo deixou para trás a agenda que o elegeu. Em 2018, a campanha bolsonarista foi centrada na figura do “cidadão de bem”, mobilizado, principalmente, pelo discurso anticorrupção. A partir de 2020, o bolsonarismo passou a recrutar o “patriota”, a versão mais radical e violenta em comparação com o “cidadão de bem”. Esta mudança se deu em consonância com uma tendência global das extremas direitas, cuja forma de atuar passa pelo uso de estratégias de terrorismo doméstico, a exemplo da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, após a derrota de Donald Trump.
Com o apelo crescente para a participação de manifestantes considerados “patriotas”, aqueles considerados “fracos” vão perdendo destaque, relevância e prestígio dentro dos movimentos e dos grupos bolsonaristas. Em contrapartida, ganham proeminência apenas os que detêm maior habilidade com o uso da força e da violência, seja ela retórica, seja ela física. E as lideranças desses atos passam a ser mais prestigiadas cada vez que avançam no seu “extremismo estratégico” contra as instituições democráticas.
Esses atos buscam instigar o caos como método. É uma forma de gerar situações cada vez mais extremas nas quais os líderes desses movimentos são investigados, presos, ou se tornam “vítimas” do “sistema” (alvos de prisões e investigações no âmbito do Supremo). Com isso, o bolsonarismo ao mesmo tempo que passa a mobilizar um número cada vez menor de apoiadores também avança no seu processo de radicalização.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
Liberdade consentida
Ouvi essa história em primeira mão. Em 1972, um colegial matando aula na praia de Ipanema tocava em sua flautinha doce, moda na época, uma música que estava estudando: o Hino Nacional. Às primeiras notas, uma sombra surgiu ao seu lado. Era um homem de certa idade, óculos Ray-Ban, cabelo à escovinha e cara fechada. "Por que está tocando o Hino, garoto?", rugiu. "Está querendo provocar?". Militar, claro. Em plenos anos Médici, o Hino Nacional, tocado obrigatoriamente nas escolas e repartições, era sagrado. Um garoto ensaiando-o baixinho na praia só podia ser provocação.
Enquanto isso, a poucos metros dali, em meio às dunas formadas pela areia despejada na praia para a construção de um emissário submarino, a turma do cinema, teatro, poesia, música popular e agregados fazia a sua revolução de sexo, drogas, rock ‘n roll, cabelo, comida natural, astrologia e demais itens da contracultura. Era a "república independente do Píer", que existiu de 1970 a 1973 e teve como musa sua mais ilustre frequentadora: Gal Costa. Daí, as "dunas da Gal".
Há pouco, a morte de Gal trouxe de volta a memória daquele tempo e não faltaram artigos românticos na imprensa falando das dunas como "um oásis de liberdade", um eterno verão, em que era proibido proibir. Só não perguntaram como foi possível toda aquela liberdade na fase mais dura da ditadura.
É uma pergunta a se fazer aos militares daqueles anos. Pelo visto, ocupados com censurar, prender, torturar, matar e sumir com os que os combatiam de arma na mão, eles achavam besteira perder tempo com um pessoal só a fim de queimar um fuminho e que pregava fazer amor, não guerra —muito menos guerrilha.
Por acaso, na mesma época, os militares estavam dando toda espécie de apoio, assessoria e até financiamento a uma nova mania: os motéis. Com o povo na horizontal ou no maior barato, era mais fácil passar a boiada.
Enquanto isso, a poucos metros dali, em meio às dunas formadas pela areia despejada na praia para a construção de um emissário submarino, a turma do cinema, teatro, poesia, música popular e agregados fazia a sua revolução de sexo, drogas, rock ‘n roll, cabelo, comida natural, astrologia e demais itens da contracultura. Era a "república independente do Píer", que existiu de 1970 a 1973 e teve como musa sua mais ilustre frequentadora: Gal Costa. Daí, as "dunas da Gal".
Há pouco, a morte de Gal trouxe de volta a memória daquele tempo e não faltaram artigos românticos na imprensa falando das dunas como "um oásis de liberdade", um eterno verão, em que era proibido proibir. Só não perguntaram como foi possível toda aquela liberdade na fase mais dura da ditadura.
É uma pergunta a se fazer aos militares daqueles anos. Pelo visto, ocupados com censurar, prender, torturar, matar e sumir com os que os combatiam de arma na mão, eles achavam besteira perder tempo com um pessoal só a fim de queimar um fuminho e que pregava fazer amor, não guerra —muito menos guerrilha.
Por acaso, na mesma época, os militares estavam dando toda espécie de apoio, assessoria e até financiamento a uma nova mania: os motéis. Com o povo na horizontal ou no maior barato, era mais fácil passar a boiada.
O mundo paralelo dos que não respeitam a própria bandeira que vestem
Nunca se viu algo igual às micaretas bolsonaristas dispersas há mais de mês pelo Sul-Sudeste do País: chacrinhas sebastianistas, a clamar pela volta da ditadura militar, entre outras quimeras abomináveis, como a anulação do pleito que levou o ídolo da seita à derrocada nas urnas, a prisão de ministros, e até mesmo o impedimento da posse de Lula.
Vi a pantomima dos patriotários neofascistas apenas pela internet. Onde eu circulo elas não acampam, e portanto não se expõem a chacotas, aguaceiros e outras doenças além do fanatismo. Nossos telenoticiosos, sabiamente, não lhes dão bola. Estrangeiros ainda riram de algumas imagens inusitadamente absurdas, com os bozoloides implorando a pneus, ETs e às forças armadas que nos livrem de imaginários demônios e recuperem o que afinal já temos – liberdade e democracia – e eles, paradoxalmente, almejam destruir.
Não sei direito o que são, se apenas ingênuos e boçais, se agentes provocadores ideologicamente identificados com a ultradireita, vadios sexualmente descompensados ou baderneiros com pulsão de morte. Suspeito que já constituam uma nova subespécie de homo sapiens: o homo zapiens, mentalmente limitado pela dieta de fake news e teorias conspiratórias de que se empanturram pelas redes sociais.
Embrulhados no “lábaro estrelado”, suas palavras de ordem insurrecionais, suas ameaças (“É guerra!”) e seus refrões (“Deus! Pátria! Família! Liberdade!”) já têm cerca de um século de vacuidade e bolor. Proferidas com o erre retroflexo caipira, perdem todo o vigor que o alemão e o italiano lhes asseguravam.
Curioso por entender um pouco mais do comportamento desses vivandeiros golpistas, consultei o estudo de Michael Shermer sobre os motivos que levam seres racionais a acreditar no irracional, Conspiracy: Why the Rational Believe the Irrational. Aprendi o que pude e não foi muito. O assunto é complexo e em seu índice remissivo Jesus, Maomé, Noé, Nero, Hitler, Freud e QAnon têm lugar cativo.
Sim, Nero. O quinto César protagonizou uma das mais antigas teorias da conspiração. No incêndio que praticamente reduziu Roma a um monte de cinzas, 1958 anos atrás, Nero jogou a culpa nos cristãos, inaugurando um ardil diversionista que os nazistas ressuscitariam ao incendiarem o Reichstag e os milicos daqui no malogrado atentado do Riocentro, ambos ardilosamente atribuídos a subversivos comunistas.
Os soviéticos ainda estavam longe do poder quando na Rússia czarista surgiu e difundiu-se a “mãe” de todas as teorias conspiratórias do século passado, os apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, dando conta da dominação do mundo pelos judeus. Dessa fraudulenta cascata Hitler extraiu sua bíblia ideológica, Minha Luta, e a partir dela criou o nazismo, este sim, não o comunismo, um fantasma mais do que à espreita.
Já suportamos duas ditaduras justificadas pela paranoia anticomunista, também a seiva de tantos outros golpes de Estado e processos inquisitoriais cujo exemplo mais notório continua sendo o macarthismo. Não é de se estranhar que os patriotários do Bolsonaristão tenham ideia fixa no “perigo vermelho”. Sem ele, o presidente prestes a ir embora não teria sido eleito. Nem, por conseguinte, seu vice, que, dia desses, voltou a insistir naquela lorota de que, no levante comunista de 1935, soldados do Exército foram “covardemente assassinados enquanto dormiam”, falsidade jamais comprovada pelos estudiosos do período. E uma de nossas maiores contribuições ao futuro "Livro Guinness de Fake News Históricas".
Vi a pantomima dos patriotários neofascistas apenas pela internet. Onde eu circulo elas não acampam, e portanto não se expõem a chacotas, aguaceiros e outras doenças além do fanatismo. Nossos telenoticiosos, sabiamente, não lhes dão bola. Estrangeiros ainda riram de algumas imagens inusitadamente absurdas, com os bozoloides implorando a pneus, ETs e às forças armadas que nos livrem de imaginários demônios e recuperem o que afinal já temos – liberdade e democracia – e eles, paradoxalmente, almejam destruir.
Não sei direito o que são, se apenas ingênuos e boçais, se agentes provocadores ideologicamente identificados com a ultradireita, vadios sexualmente descompensados ou baderneiros com pulsão de morte. Suspeito que já constituam uma nova subespécie de homo sapiens: o homo zapiens, mentalmente limitado pela dieta de fake news e teorias conspiratórias de que se empanturram pelas redes sociais.
Embrulhados no “lábaro estrelado”, suas palavras de ordem insurrecionais, suas ameaças (“É guerra!”) e seus refrões (“Deus! Pátria! Família! Liberdade!”) já têm cerca de um século de vacuidade e bolor. Proferidas com o erre retroflexo caipira, perdem todo o vigor que o alemão e o italiano lhes asseguravam.
Curioso por entender um pouco mais do comportamento desses vivandeiros golpistas, consultei o estudo de Michael Shermer sobre os motivos que levam seres racionais a acreditar no irracional, Conspiracy: Why the Rational Believe the Irrational. Aprendi o que pude e não foi muito. O assunto é complexo e em seu índice remissivo Jesus, Maomé, Noé, Nero, Hitler, Freud e QAnon têm lugar cativo.
Sim, Nero. O quinto César protagonizou uma das mais antigas teorias da conspiração. No incêndio que praticamente reduziu Roma a um monte de cinzas, 1958 anos atrás, Nero jogou a culpa nos cristãos, inaugurando um ardil diversionista que os nazistas ressuscitariam ao incendiarem o Reichstag e os milicos daqui no malogrado atentado do Riocentro, ambos ardilosamente atribuídos a subversivos comunistas.
Os soviéticos ainda estavam longe do poder quando na Rússia czarista surgiu e difundiu-se a “mãe” de todas as teorias conspiratórias do século passado, os apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, dando conta da dominação do mundo pelos judeus. Dessa fraudulenta cascata Hitler extraiu sua bíblia ideológica, Minha Luta, e a partir dela criou o nazismo, este sim, não o comunismo, um fantasma mais do que à espreita.
Já suportamos duas ditaduras justificadas pela paranoia anticomunista, também a seiva de tantos outros golpes de Estado e processos inquisitoriais cujo exemplo mais notório continua sendo o macarthismo. Não é de se estranhar que os patriotários do Bolsonaristão tenham ideia fixa no “perigo vermelho”. Sem ele, o presidente prestes a ir embora não teria sido eleito. Nem, por conseguinte, seu vice, que, dia desses, voltou a insistir naquela lorota de que, no levante comunista de 1935, soldados do Exército foram “covardemente assassinados enquanto dormiam”, falsidade jamais comprovada pelos estudiosos do período. E uma de nossas maiores contribuições ao futuro "Livro Guinness de Fake News Históricas".
O racista que denunciou um genocídio
Numa aula em que contou sobre como foi realizar a tradução para o alemão do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, o professor Berthold Zilly disse que teve receio de como seria a reação dos leitores do seu país, escaldados com a tragédia do Holocausto, ao se depararem com um livro que, logo na primeira página, abria falando em “esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes”.
O temor do professor se mostrou infundado, já que a versão alemã do livro, publicada em 1994, acabou sendo bem recebida pela crítica local. Foi na condição de tradutor celebrado que Zilly deu a aula que vi na adolescência, em 1997, durante uma edição da Semana Euclidiana, evento de estudos sobre a obra de Euclides da Cunha realizado anualmente em São José do Rio Pardo (SP), onde nasci. A afirmação do professor alemão ficou na minha cabeça desde então e penso que diz muito sobre o Brasil de ontem, hoje e sempre que uma das obras literárias mais celebradas do país, que em dezembro de 2022 completa 120 anos, esteja repleta de declarações tão racistas que um de seus tradutores tenha pensado duas vezes antes de verter esses trechos para a língua de um povo que até hoje carrega a culpa de ter sido responsável por um dos maiores genocídios da história.
E diz muito sobre o Brasil que esse mesmo livro, escrito por um militar branco que acreditava na vitória inevitável de uma civilização moderna de inspiração europeia sobre o atraso representado por povos racializados, tenha se tornado uma das mais poderosas denúncias sobre os monstros gerados pelo sonho dessa mesma civilização, um retrato da violência praticada pelas elites brasileiras em nome de um projeto modernizador.
Por isso, nesse momento de rescaldo do governo Jair Bolsonaro, que expôs com uma clareza rara o quanto o ódio de classe, raça e gênero está presente entre nós e como estamos longe de ser o povo pacífico e cordial que a branquitude durante muito tempo acreditou que fôssemos, pode ser uma boa ideia aproveitar o aniversário de Os Sertões para retornar a um dos livros que melhor retratou, inclusive em suas contradições, as dimensões da violência brasileira.
Um livro esquecido pelas fogueiras
Pensando no quanto de racismo existe no texto euclidiano, chama atenção que Os Sertões ainda não tenha sido posto para queimar nas fogueiras dos debates sempre inflamados das redes sociais. Mesmo a escolha de Euclides da Cunha como autor homenageado da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2019, foi recebida quase sem controvérsias — com exceção de algumas vozes dissonantes, como as dos escritores Marilene Felinto e Dodô Azevedo. Curiosamente, a homenageada do ano seguinte, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, recebeu uma onda de questionamentos muito maior, por causa do conteúdo de cartas pessoais em que a autora defendia o golpe de 1964. Se algumas cartas, que nem faziam parte da obra literária de Bishop, puderam gerar tantas e tão duras críticas, é de se estranhar que o debate que hoje busca derrubar homenagens, em pedra ou em palavras, a figuras da branquitude ligadas ao legado da escravidão ou do autoritarismo, tenha até hoje poupado uma obra como Os Sertões.
Afinal, é um livro que afirma com todas as letras a superioridade da raça branca sobre todas as demais e a necessidade de evitar a mestiçagem, já que a mistura de seres superiores e inferiores estaria destinada a produzir indivíduos “desequilibrados”, sempre em busca de embranquecer sua descendência por meio de “cruzamentos que apaguem na sua prole o estigma da fronte escurecida”, uma vez que “a raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos”. Com declarações como essas, não é de se estranhar que Euclides da Cunha ainda não tenha se tornado um alvo de repúdio tanto quanto Bishop, Gilberto Freyre ou Monteiro Lobato?
Penso em duas explicações. Uma, talvez um tanto pessimista, é a de que talvez Euclides não seja mais odiado apenas por ser pouco lido. Publicado em 1902, Os Sertões foi elaborado numa linguagem que, mesmo para a época, já soava cheia de “termos técnicos, de um boleio de frase como quer que seja arrevesado, de arcaísmos e sobretudo de neologismos, de expressões obsoletas ou raras”, como observou o crítico literário José Veríssimo na época do lançamento. É um daqueles livros que costuma repelir leitores desavisados. Uma vez que o leitor ultrapasse a barreira da linguagem estranha, que mistura ciência e literatura, vai se ver jogado numa guerra feroz de contradições — e aí levanto uma segunda hipótese para Euclides não ter ainda entrado na lista de autores cujas estátuas devem ser derrubadas. É que o autor faz tantas afirmações opostas, uma em seguida da outra, que mesmo a sua visão racista, afirmada de maneira aparentemente inequívoca em diversas páginas, é constantemente desmentida em meio ao turbilhão da narrativa que Euclides constrói em seguida. É muito mais simples aplicar o rótulo de racista às obras de Lobato, ou mesmo de Freyre, que apresentam uma visão de mundo exposta de modo claro e coerente, do que ao livro de Euclides da Cunha, todo feito de antíteses e contradições.
Na raiz dessas contradições, que fazem de Os Sertões um livro tão único, estava a posição social de Euclides da Cunha. Os Sertões é uma obra que faz a denúncia de um crime, escrita por um autor que pertencia de corpo e alma ao grupo dos assassinos.
Nascido em 1866, em Cantagalo, no Rio de Janeiro, Euclides da Cunha foi um defensor ardoroso da República desde a juventude. Em 1888, quando estudava na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, então capital federal, protagonizou um protesto contra a monarquia, ao atirar um sabre aos pés do ministro da Guerra do imperador Dom Pedro II. O gesto rebelde — e solitário — em favor da República o obrigou a deixar o Exército. No ano seguinte, após os militares derrubarem o governo monárquico e proclamarem a República, Euclides pode ser reintegrado e concluir os estudos na Escola Superior de Guerra. Atuou como engenheiro e jornalista, abandonando a farda em 1896.
No ano seguinte, participou do debate público em torno do assunto que dominava todas as conversas na capital do país: as notícias sobre uma suposta rebelião monarquista instalada no arraial de Canudos, no interior da Bahia, comandado pelo líder religioso Antônio Conselheiro. Os “jagunços” de Canudos, como eram chamados, já haviam rechaçado três expedições do Exército enviadas contra eles, o que espalhou o pânico entre as elites do Sudeste e deu origem a todo tipo de boataria. Em No Calor da Hora: A Guerra de Canudos nos Jornais, a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão mostra que Canudos foi retratada pelos jornais da época com um nível de desinformação digno dos dos atuais grupos de Whatsapp. Entre as mamadeiras de piroca que os jornais publicavam como se fossem notícias, estavam as informações de que os rebelados de Canudos usariam armamento de último tipo e teriam ligações com grupos monarquistas estrangeiros, instalados em Nova York, Paris e Buenos Aires, com o objetivo de derrubar a recém proclamada República brasileira.
A respeito de Canudos, Euclides publicou dois artigos no jornal O Estado de S.Paulo, que não diferiam da maneira como a maioria dos jornalistas tratava o tema. Com o título A Nossa Vendeia, os artigos comparavam Canudos com uma rebelião levada a cabo pela aliança entre nobres e camponeses da região de Vendeia, na França, contra a Revolução Francesa, no século XVIII, e concluía dizendo: “A República sairá triunfante desta última prova”.
Para Euclides, a vitória inevitável da República era como um dado científico, assentado na crença positivista de que a história seguia um caminho evolutivo natural. A elite intelectual branca da qual Euclides fazia parte via a República como uma oportunidade para o Brasil se tornar uma nação moderna, aos moldes europeus. Após se livrar da escravidão e dos reis que nos prendiam ao atraso, o país agora rumava para o futuro, com apoio de seus militares, a quem deveria caber um papel decisivo na atividade política. Num tempo em que o racismo tinha status de verdade científica, um passo importante rumo à modernidade, defendida por praticamente todos os intelectuais, era o branqueamento da população por meio do fluxo migratório de europeus. Dentro de uma visão determinista, esse plano era encarado como um processo histórico inevitável. Uma vez que a história anda para a frente, era o destino da República e da civilização, brancas e de inspiração europeia, triunfarem sobre os povos e costumes de raças inferiores. “Estamos condenados à civilização: ou progredimos ou desaparecemos”, escreveria Euclides, anos mais tarde, numa conhecida passagem do seu livro Os Sertões. Símbolo do atraso e da barbárie, Canudos estava destinada a desaparecer.
Convidado a atuar como correspondente do Estadão em Canudos, Euclides foi até o sertão baiano conhecer de perto o triunfo dos belos ideais da República que ele celebrava. Sua proximidade com o Exército era tanto ideológica como física: o jornalista viajou em companhia do ministro da Guerra, comissionado como seu adido, acompanhando a quarta expedição militar enviada contra o arraial de Canudos. O que viu no campo de batalha, porém, mudou a vida de Euclides da Cunha. Descobriu que os canudenses não eram os perigosos monarquistas que ameaçavam sua querida República, mas uma gente pobre que apenas lutava pela própria sobrevivência, combatendo com coragem milhares de militares enviados até ali para destruí-los sem qualquer motivo justificável. E que o Exército da República, portadora do sonho de civilização almejado pela intelectualidade da época, era responsável pela verdadeira barbárie do conflito.
As carnificinas cometidas pelo Exército apareceram nas reportagens de alguns dos repórteres que cobriam o conflito, apesar da censura prévia imposta pelos militares. Eram narradas sem escândalo pelos jornalistas. “A hora em que partimos vimo-los seguir para a caatinga, a fim de receberem a gravata vermelha. O leitor sabe o que significa esta gravata vermelha? A morte”, escreveu, com naturalidade, Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, sobre a degola de prisioneiros. Alguns repórteres se identificavam tanto com o lado dos militares que chegavam a declarar simpatia pela matança de mulheres e crianças em incêndios provocados por dinamites do Exército. “E o incêndio lavrava desesperado e violento, devorando com suas labaredas, casas, homens, mulheres e crianças, nada poupando, nada respeitando. (…) E assim passaram-se uns 50 minutos de uma expectativa ansiosa, de um desespero simpático para nós e de agonia para eles, os relapsos da lei e de ordem, os desagregados da sociedade”, descreve Favila Nunes, da Gazeta de Notícias.
A rebelião chegou ao fim em outubro de 1897, quando o valoroso Exército brasileiro matou até o último combatente, degolou todos os prisioneiros, arrasou o arraial com querosene e dinamite e levou mulheres e crianças que sobraram para serem dadas de presente ou vendidas como trabalhadoras domésticas para pessoas de bem. Estima-se que o massacre tenha deixado 25 mil mortos, o que faria de Canudos um dos maiores assassinatos em massa cometidos por um governo contra seu próprio povo na América Latina.
Se não chegou a defender em suas reportagens as matanças cometidas pelos militares, Euclides também não as denunciou. Seus textos de correspondente omitiram os abusos cometidos pelos militares, não se sabe se por decisão própria ou por efeito da censura militar sobre os repórteres correspondentes. Levou cinco anos para o jornalista relatar os crimes cometidos pela República em Canudos, por meio do livro Os Sertões, que publicou em dezembro de 1902. Era o seu “livro vingador”, como Euclides o chamava.
Uma obra contraditória desde a primeira página. Logo após o trecho em que enuncia a regra universal e inevitável do esmagamento das raças fracas pelas fortes, que tanto incomodaria o seu tradutor alemão nove décadas depois, o autor afirma que, embora a destruição de Canudos pela civilização republicana tenha seguido essa norma universal, “foi, na significação integral da palavra, um crime”. De cara, delineia o principal embate do livro. Do seu lugar de fala de homem branco, republicano, urbano, habitante do litoral, ex-militar e fruto de uma educação europeizada, Euclides enxergava o mundo por meio de instrumentos ideológicos que eram incapazes de darem conta do que havia visto no sertão de Canudos. O escrúpulo jornalístico de Euclides o levou a descrever os fatos como haviam se apresentado a ele e a denunciar todo o horror que havia apurado, mas não conseguiu abrir mão do racismo científico tão em moda na época, e que havia sido criado justamente para justificar o imperialismo, a escravidão e a prática de massacres como o de Canudos.
Obrigado pelo seu senso de pesquisador e repórter a contar como foi o massacre de Canudos, mas incapaz de abandonar a visão de mundo racista que essa mesma narrativa desmentia, Euclides abre mão de qualquer tentativa de síntese e faz da contradição a base da sua obra. Ao mesmo tempo em que lamenta o desequilíbrio gerado pela mestiçagem no país reclama da falta de “unidade de raça” entre os brasileiros, destaca a força dos habitantes do sertão (“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”), a quem chama de “rocha viva da nossa raça” e que transforma nos heróis de seu livro. Já os militares, também mestiços, porém representantes da civilização branca, racional e científica em que Euclides acreditava, vão se revelar, no campo de batalha, tão fanatizados quanto seus inimigos:
Pior. Os mais chocantes atos de selvageria retratados no livro não são praticados pelos canudenses, mas pelos representantes armados da República, como a degola de prisioneiros, que, agora sim, Euclides descreve em detalhes.
Chegando à primeira canhada encoberta, realizava-se uma cena vulgar. Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.
Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido…
Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.
Sem nunca abrir mão do próprio racismo e da crença positivista na República e na civilização, Euclides faz de Os Sertões uma poderosa denúncia sobre os crimes provocadas em nome de tudo o que acreditava. Como afirma Walnice Nogueira Galvão:
“A verdade é impossível: a verdade do livro está em suas contradições. A ideias vão e voltam, o argumento que se expõe num dado passo é seguido de seu contrário, logo depois ou centenas de páginas adiante. Tudo isso mostra, no seu movimento de vaivém, a impossibilidade vivida pela inteligência brasileira de entender o fenômeno e de tomar um e um só partido. Essa dificuldade é de ontem e é de hoje. O livro narra o movimento da inteligência, que, no caso, é de seu autor, em demanda da sínteses impossível reveladora da verdade.”
Uma acusação sem acusados
Não há qualquer ambiguidade ou contradição, porém, quando Euclides da Cunha afirma que a campanha de Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime”. Suas vítimas? A população de Canudos. Seus algozes? Bom, aí a coisa fica um pouco mais complicada.
Euclides em nenhum momento indica os responsáveis pelo crime que denuncia. O presidente da República, Prudente de Morais, responsável em última instância pelo massacre, e que havia feito a promessa de que “em Canudos não ficará pedra sobre pedra”, nem ao menos é mencionado no livro. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que comandou as operações do Exército no local, é mencionado de passagem, descrito como “um homem frio, eivado de um ceticismo tranquilo e inofensivo”.
O autor do crime denunciado em Os Sertões é um sujeito coletivo e sem nome, referido na primeira pessoa do plural: “Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados… Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador — a bala”. Além de vago, é um sujeito que não tem consciência do mal que praticou: “tivemos na ação um papel de mercenários inconscientes”. É verdade que não se trata apenas de um plural majestático usado em nome da modéstia. Há algo, sim, de autocrítica, nesse uso do “nós”, especialmente se a gente pensar no papel de Euclides da Cunha como republicano, ex-militar e autor de “A Nossa Vendeia”. Seja como for, escrevendo da elite branca para a elite branca, sem a menor pretensão de ser lido para além desse círculo, Euclides estava dizendo aos seus leitores: todos nós somos culpados.
E, quando todos são, ninguém é.
A postura do “livro vingador” de Euclides contrasta com outra denúncia realizada por um escritor, três meses após o massacre de Canudos, do outro lado do Atlântico: a carta aberta enviada ao presidente da República pelo autor francês Émile Zola, em que denunciava o antissemitismo do Exército francês contra o oficial judeu Alfred Dreyfus, injustamente acusado de traição e espionagem. Publicado na primeira página do jornal L’Aurore, em 13 de janeiro de 1898, sob o título em letras garrafais “Eu acuso”, a carta se encerrava com oito parágrafos começados por essas duas palavras, em que Zola nomeia cada um dos oficiais responsáveis pela injustiça.
Ao denunciar o “caso Dreyfus”, Zola se tornou o protótipo do intelectual europeu dedicado a lutar por causas sociais. Na mesma época, Os Sertões fez de Euclides da Cunha um protótipo de intelectual branco à brasileira, com consequências bem mais tranquilas para sua vida. Enquanto Eu acuso fez Zola ser condenado por difamação e obrigado a se exilar na Inglaterra, Os Sertões transformou Euclides da Cunha em uma celebridade literária instantânea, elogiado por todos os críticos, que em menos de um ano entrou para o Instituto Histórico e Geográfico Nacional e para a Academia Brasileira de Letras. Tanto que, em 1909, quando foi morto ao tentar assassinar o amante da sua esposa, a opinião pública em peso ficou ao lado de Euclides, embora o responsável pela sua morte, o militar Dilermando de Assis, tivesse claramente agido em legítima defesa.
“Não gosto do clima de festa”, diria Mano Brown, e é de fato muito estranho pensar no clima de celebração com que Os Sertões foi recebido, por conta dos méritos literários da obra. “Com tudo isso, nem é tanto de admirar a tramitação rápida do canto do bode expiatório entoado pelo verdugo para o bode exultório em que se tornou o livro e, com ele, seu autor”, aponta Walnice Nogueira Galvão. Retrato de um genocídio, Os Sertões virou um motivo de comemoração. O massacre de Canudos virou algo a ser celebrado por conta do talento artístico de Euclides, sem qualquer consequência real para os seus algozes. O livro não foi capaz de motivar uma única investigação, nem mesmo um processo administrativo. Parece que nem era essa a intenção do autor, que nunca mencionou se ressentir da ausência de impactos reais de sua denúncia. Afinal, Euclides estava apontando o dedo para pessoas que eram como ele. Tudo indica que a intenção do “livro vingador” era apenas fazer com que a elite branca se sentisse um pouco culpada pelo crime que havia cometido: não era o caso de punir alguém de verdade.
Principal alvo da denúncia de Os Sertões, os militares nunca se desculparam pelo que fizeram em Canudos. Ao contrário. A Polícia Militar do Estado de São Paulo, força reserva e auxiliar do Exército, faz questão de celebrar uma suposta ligação mítica com os autores do massacre, tanto em um Monumento aos Heróis de Canudos, instalado no Quartel da Luz, no centro da capital paulista, como em seu Brasão de Armas, adornado com 18 estrelas que homenageiam ações de militares em momentos históricos variados, a maioria em golpes e ataques a movimentos sociais. O massacre de Canudos é homenageado pela 8ª estrela. O golpe de 1964, pela 18ª.
Levou décadas para que Os Sertões recebesse as primeiras resposta por parte dos militares, geralmente em textos contidos, respeitosos e sem traço de autocrítica. Uma resposta mais dura veio em 1958, com livro A verdade sobre “Os Sertões” (análise reivindicatória da Campanha de Canudos), de Dante de Melo, publicado pela Biblioteca do Exército. Mesmo escrito mais de meio século depois, o livro-resposta do militar consegue ser mais racista do que qualquer página de Euclides da Cunha. Veja só esse trecho em que Dante sugere que Euclides teria escrito um livro muito diferente se os canudenses houvessem vencido o conflito e que até o poeta Castro Alves teria ficado contra a abolição da escravidão se conhecesse o comportamento dos negros das favelas cariocas dos dias atuais.
Se a 4ª Expedição resultasse no fracasso das anteriores, ou se entravasse ela em situação indecisa como esteve a pique de acontecer, e a conflagração sertaneja se estendesse, alentando a força moral do monarquismo assim fortalecido; se, de volta de Canudos, Euclides da Cunha ficasse para escrever seu livro, enquanto no interior continuassem a resistência fanática espalhada e crescente, outro, muito outro por certo teria sido o tom e o teor de “Os Sertões”.
Assim também o cantar de Castro Alves, se hoje viesse à vida e criado fosse assistindo à liberdade solta em que se exercitam o nosso negroide comum e o negro das favelas cariocas, geralmente labrego e repontão.
Que sentimentos despertariam as gafieiras e futebolices, as molecadas ou a chavasqueira de tanto malandroide fula, gandaieiro por tineta, ou mazombo por força de mefíticos recalques?…
Certo ficaria indiferente o genial condoreiro, se não orientasse à ré da direção tomada, a proa do seu estro.
Sem nunca ter recebido qualquer acusação pelos crimes de Canudos, o Exército pode seguir ignorando críticas e por fim celebrando sua atuação no episódio. O mesmo comportamento que os militares adotariam ao longo dos séculos seguintes, cometendo crimes e sendo anistiados por eles. Prudente de Morais também teve sorte: o primeiro presidente civil do Brasil costuma ser chamado de muita coisa, até de “Abraham Lincoln brasileiro”, mas poucos se lembrariam de chamá-lo de genocida ou de colocar sua figura ao lado de governantes como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner ou Jorge Videla, apesar de seu governo ter comandado um dos maiores massacres da história latino-americana. E ainda tem gente que acredita em “julgamento da história”.
Nesse sentido, a trajetória Os Sertões, com sua acusação sem acusados, se filia à tradição conciliatória das elites, que sempre anistia os crimes dos que estão por cima, enquanto promove massacres e genocídios contra os de baixo. Ao mesmo tempo, como parte de mais uma das contradições que são sua marca, o livro se destaca, entre as obras dos autores da branquitude que se dedicaram a buscar “interpretar o Brasil”, como a que melhor retratou o caráter genocida do projeto de país executado por essas elites.
No coração das trevas
Nos últimos quatro anos, muita gente se perguntou que desvio ocorreu na história do Brasil para desembocar em um movimento de extrema-direita que celebra a violência com tanto orgulho que parece refletir o lema “Viva la muerte” dos fascistas espanhóis. A violência, contudo, sempre foi um traço estrutural da sociedade brasileira, por mais que a intelectualidade branca preferisse ignorá-la.
Dos autores famosos por suas obras que buscavam compreender o Brasil, poucos se deram conta disso, mas é porque escreviam a partir do conforto de suas vivências nos lugares tranquilos do privilégio branco. Interpretando o país a partir da sua condição de filho influente da elite cafeeira paulista, Paulo Prado enxergava no Brasil um país anêmico, a quem faltava o sangue de uma guerra ou de uma revolução para poder evoluir — ignorando o quanto de sangue negro e indígena derramado havia nessa história. Gilberto Freyre, por sua vez, ao pensar na questão racial cercado de empregados negros, dóceis e uniformizados, na sua bela casa no bairro nobre de Apicucos, no Recife, como aponta a jornalista Fabiana Moraes, só podia concluir que o Brasil vivia uma linda “democracia étnica”.
Diferente de todos esses, contudo, Euclides da Cunha baseou sua interpretação do Brasil não na sua realidade de homem branco, mas no mergulho que fez no “coração das trevas” de um massacre comandado nos sertões pela elite de que fazia parte, em nomes de ideais que também eram os seus.
Os conflitos que vemos em Os Sertões — a gente pobre massacrada por homens fardados, a destruição de vidas provocada em nome de uma ideia de modernização implantada de cima para baixo, a heróica resistência dos pobres contra o massacre cotidiano, o racismo, o culto à morte — permanecem muito atuais porque são os mesmos que a gente denuncia na Ponte Jornalismo. Todos os dias, falamos de policiais militares, orgulhosos herdeiros simbólicos dos matadores de Canudos, cometendo massacres nos territórios chamados de favelas, uma palavra que se espalhou pelo Brasil justamente a partir do conflito ocorrido no sertão baiano. É que, com o fim da guerra, muitos soldados temporários que o Estado usou para fazer seu trabalho sujo em Canudos se viram sem salário nem moradia e acabaram erguendo barracos improvisados no Morro da Providência, na então capital federal do Rio de Janeiro, e apelidaram o lugar de favela, pela semelhança com um monte chamado de Morro da Favela, que havia junto ao arraial baiano onde haviam combatido.
E permanece muito atual, ainda, a perplexidade, na forma de vertigem, que acomete o narrador ao final de Os Sertões, quando falha ao tentar descrever os momentos finais de Canudos.
Fechemos este livro.
É a vertigem de quem se depara com a realidade do genocídio e não encontra em suas teorias, crenças ou vivências nada capaz de explicar tanto derramamento de sangue. A perplexidade de Euclides da Cunha com a violência da República é a mesma de quem olha para o Brasil de hoje, democrático e republicano, e constata que o Estado segue matando nas favelas atuais do mesmo jeito que fazia junto ao Morro da Favela em Canudos, com a mesma crueldade e igual garantia de impunidade.
O temor do professor se mostrou infundado, já que a versão alemã do livro, publicada em 1994, acabou sendo bem recebida pela crítica local. Foi na condição de tradutor celebrado que Zilly deu a aula que vi na adolescência, em 1997, durante uma edição da Semana Euclidiana, evento de estudos sobre a obra de Euclides da Cunha realizado anualmente em São José do Rio Pardo (SP), onde nasci. A afirmação do professor alemão ficou na minha cabeça desde então e penso que diz muito sobre o Brasil de ontem, hoje e sempre que uma das obras literárias mais celebradas do país, que em dezembro de 2022 completa 120 anos, esteja repleta de declarações tão racistas que um de seus tradutores tenha pensado duas vezes antes de verter esses trechos para a língua de um povo que até hoje carrega a culpa de ter sido responsável por um dos maiores genocídios da história.
E diz muito sobre o Brasil que esse mesmo livro, escrito por um militar branco que acreditava na vitória inevitável de uma civilização moderna de inspiração europeia sobre o atraso representado por povos racializados, tenha se tornado uma das mais poderosas denúncias sobre os monstros gerados pelo sonho dessa mesma civilização, um retrato da violência praticada pelas elites brasileiras em nome de um projeto modernizador.
Por isso, nesse momento de rescaldo do governo Jair Bolsonaro, que expôs com uma clareza rara o quanto o ódio de classe, raça e gênero está presente entre nós e como estamos longe de ser o povo pacífico e cordial que a branquitude durante muito tempo acreditou que fôssemos, pode ser uma boa ideia aproveitar o aniversário de Os Sertões para retornar a um dos livros que melhor retratou, inclusive em suas contradições, as dimensões da violência brasileira.
Um livro esquecido pelas fogueiras
Pensando no quanto de racismo existe no texto euclidiano, chama atenção que Os Sertões ainda não tenha sido posto para queimar nas fogueiras dos debates sempre inflamados das redes sociais. Mesmo a escolha de Euclides da Cunha como autor homenageado da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2019, foi recebida quase sem controvérsias — com exceção de algumas vozes dissonantes, como as dos escritores Marilene Felinto e Dodô Azevedo. Curiosamente, a homenageada do ano seguinte, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, recebeu uma onda de questionamentos muito maior, por causa do conteúdo de cartas pessoais em que a autora defendia o golpe de 1964. Se algumas cartas, que nem faziam parte da obra literária de Bishop, puderam gerar tantas e tão duras críticas, é de se estranhar que o debate que hoje busca derrubar homenagens, em pedra ou em palavras, a figuras da branquitude ligadas ao legado da escravidão ou do autoritarismo, tenha até hoje poupado uma obra como Os Sertões.
Afinal, é um livro que afirma com todas as letras a superioridade da raça branca sobre todas as demais e a necessidade de evitar a mestiçagem, já que a mistura de seres superiores e inferiores estaria destinada a produzir indivíduos “desequilibrados”, sempre em busca de embranquecer sua descendência por meio de “cruzamentos que apaguem na sua prole o estigma da fronte escurecida”, uma vez que “a raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos”. Com declarações como essas, não é de se estranhar que Euclides da Cunha ainda não tenha se tornado um alvo de repúdio tanto quanto Bishop, Gilberto Freyre ou Monteiro Lobato?
Penso em duas explicações. Uma, talvez um tanto pessimista, é a de que talvez Euclides não seja mais odiado apenas por ser pouco lido. Publicado em 1902, Os Sertões foi elaborado numa linguagem que, mesmo para a época, já soava cheia de “termos técnicos, de um boleio de frase como quer que seja arrevesado, de arcaísmos e sobretudo de neologismos, de expressões obsoletas ou raras”, como observou o crítico literário José Veríssimo na época do lançamento. É um daqueles livros que costuma repelir leitores desavisados. Uma vez que o leitor ultrapasse a barreira da linguagem estranha, que mistura ciência e literatura, vai se ver jogado numa guerra feroz de contradições — e aí levanto uma segunda hipótese para Euclides não ter ainda entrado na lista de autores cujas estátuas devem ser derrubadas. É que o autor faz tantas afirmações opostas, uma em seguida da outra, que mesmo a sua visão racista, afirmada de maneira aparentemente inequívoca em diversas páginas, é constantemente desmentida em meio ao turbilhão da narrativa que Euclides constrói em seguida. É muito mais simples aplicar o rótulo de racista às obras de Lobato, ou mesmo de Freyre, que apresentam uma visão de mundo exposta de modo claro e coerente, do que ao livro de Euclides da Cunha, todo feito de antíteses e contradições.
Na raiz dessas contradições, que fazem de Os Sertões um livro tão único, estava a posição social de Euclides da Cunha. Os Sertões é uma obra que faz a denúncia de um crime, escrita por um autor que pertencia de corpo e alma ao grupo dos assassinos.
Nascido em 1866, em Cantagalo, no Rio de Janeiro, Euclides da Cunha foi um defensor ardoroso da República desde a juventude. Em 1888, quando estudava na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, então capital federal, protagonizou um protesto contra a monarquia, ao atirar um sabre aos pés do ministro da Guerra do imperador Dom Pedro II. O gesto rebelde — e solitário — em favor da República o obrigou a deixar o Exército. No ano seguinte, após os militares derrubarem o governo monárquico e proclamarem a República, Euclides pode ser reintegrado e concluir os estudos na Escola Superior de Guerra. Atuou como engenheiro e jornalista, abandonando a farda em 1896.
No ano seguinte, participou do debate público em torno do assunto que dominava todas as conversas na capital do país: as notícias sobre uma suposta rebelião monarquista instalada no arraial de Canudos, no interior da Bahia, comandado pelo líder religioso Antônio Conselheiro. Os “jagunços” de Canudos, como eram chamados, já haviam rechaçado três expedições do Exército enviadas contra eles, o que espalhou o pânico entre as elites do Sudeste e deu origem a todo tipo de boataria. Em No Calor da Hora: A Guerra de Canudos nos Jornais, a pesquisadora Walnice Nogueira Galvão mostra que Canudos foi retratada pelos jornais da época com um nível de desinformação digno dos dos atuais grupos de Whatsapp. Entre as mamadeiras de piroca que os jornais publicavam como se fossem notícias, estavam as informações de que os rebelados de Canudos usariam armamento de último tipo e teriam ligações com grupos monarquistas estrangeiros, instalados em Nova York, Paris e Buenos Aires, com o objetivo de derrubar a recém proclamada República brasileira.
A respeito de Canudos, Euclides publicou dois artigos no jornal O Estado de S.Paulo, que não diferiam da maneira como a maioria dos jornalistas tratava o tema. Com o título A Nossa Vendeia, os artigos comparavam Canudos com uma rebelião levada a cabo pela aliança entre nobres e camponeses da região de Vendeia, na França, contra a Revolução Francesa, no século XVIII, e concluía dizendo: “A República sairá triunfante desta última prova”.
Para Euclides, a vitória inevitável da República era como um dado científico, assentado na crença positivista de que a história seguia um caminho evolutivo natural. A elite intelectual branca da qual Euclides fazia parte via a República como uma oportunidade para o Brasil se tornar uma nação moderna, aos moldes europeus. Após se livrar da escravidão e dos reis que nos prendiam ao atraso, o país agora rumava para o futuro, com apoio de seus militares, a quem deveria caber um papel decisivo na atividade política. Num tempo em que o racismo tinha status de verdade científica, um passo importante rumo à modernidade, defendida por praticamente todos os intelectuais, era o branqueamento da população por meio do fluxo migratório de europeus. Dentro de uma visão determinista, esse plano era encarado como um processo histórico inevitável. Uma vez que a história anda para a frente, era o destino da República e da civilização, brancas e de inspiração europeia, triunfarem sobre os povos e costumes de raças inferiores. “Estamos condenados à civilização: ou progredimos ou desaparecemos”, escreveria Euclides, anos mais tarde, numa conhecida passagem do seu livro Os Sertões. Símbolo do atraso e da barbárie, Canudos estava destinada a desaparecer.
Convidado a atuar como correspondente do Estadão em Canudos, Euclides foi até o sertão baiano conhecer de perto o triunfo dos belos ideais da República que ele celebrava. Sua proximidade com o Exército era tanto ideológica como física: o jornalista viajou em companhia do ministro da Guerra, comissionado como seu adido, acompanhando a quarta expedição militar enviada contra o arraial de Canudos. O que viu no campo de batalha, porém, mudou a vida de Euclides da Cunha. Descobriu que os canudenses não eram os perigosos monarquistas que ameaçavam sua querida República, mas uma gente pobre que apenas lutava pela própria sobrevivência, combatendo com coragem milhares de militares enviados até ali para destruí-los sem qualquer motivo justificável. E que o Exército da República, portadora do sonho de civilização almejado pela intelectualidade da época, era responsável pela verdadeira barbárie do conflito.
As carnificinas cometidas pelo Exército apareceram nas reportagens de alguns dos repórteres que cobriam o conflito, apesar da censura prévia imposta pelos militares. Eram narradas sem escândalo pelos jornalistas. “A hora em que partimos vimo-los seguir para a caatinga, a fim de receberem a gravata vermelha. O leitor sabe o que significa esta gravata vermelha? A morte”, escreveu, com naturalidade, Lelis Piedade, do Jornal de Notícias, sobre a degola de prisioneiros. Alguns repórteres se identificavam tanto com o lado dos militares que chegavam a declarar simpatia pela matança de mulheres e crianças em incêndios provocados por dinamites do Exército. “E o incêndio lavrava desesperado e violento, devorando com suas labaredas, casas, homens, mulheres e crianças, nada poupando, nada respeitando. (…) E assim passaram-se uns 50 minutos de uma expectativa ansiosa, de um desespero simpático para nós e de agonia para eles, os relapsos da lei e de ordem, os desagregados da sociedade”, descreve Favila Nunes, da Gazeta de Notícias.
A rebelião chegou ao fim em outubro de 1897, quando o valoroso Exército brasileiro matou até o último combatente, degolou todos os prisioneiros, arrasou o arraial com querosene e dinamite e levou mulheres e crianças que sobraram para serem dadas de presente ou vendidas como trabalhadoras domésticas para pessoas de bem. Estima-se que o massacre tenha deixado 25 mil mortos, o que faria de Canudos um dos maiores assassinatos em massa cometidos por um governo contra seu próprio povo na América Latina.
Se não chegou a defender em suas reportagens as matanças cometidas pelos militares, Euclides também não as denunciou. Seus textos de correspondente omitiram os abusos cometidos pelos militares, não se sabe se por decisão própria ou por efeito da censura militar sobre os repórteres correspondentes. Levou cinco anos para o jornalista relatar os crimes cometidos pela República em Canudos, por meio do livro Os Sertões, que publicou em dezembro de 1902. Era o seu “livro vingador”, como Euclides o chamava.
Uma obra contraditória desde a primeira página. Logo após o trecho em que enuncia a regra universal e inevitável do esmagamento das raças fracas pelas fortes, que tanto incomodaria o seu tradutor alemão nove décadas depois, o autor afirma que, embora a destruição de Canudos pela civilização republicana tenha seguido essa norma universal, “foi, na significação integral da palavra, um crime”. De cara, delineia o principal embate do livro. Do seu lugar de fala de homem branco, republicano, urbano, habitante do litoral, ex-militar e fruto de uma educação europeizada, Euclides enxergava o mundo por meio de instrumentos ideológicos que eram incapazes de darem conta do que havia visto no sertão de Canudos. O escrúpulo jornalístico de Euclides o levou a descrever os fatos como haviam se apresentado a ele e a denunciar todo o horror que havia apurado, mas não conseguiu abrir mão do racismo científico tão em moda na época, e que havia sido criado justamente para justificar o imperialismo, a escravidão e a prática de massacres como o de Canudos.
Obrigado pelo seu senso de pesquisador e repórter a contar como foi o massacre de Canudos, mas incapaz de abandonar a visão de mundo racista que essa mesma narrativa desmentia, Euclides abre mão de qualquer tentativa de síntese e faz da contradição a base da sua obra. Ao mesmo tempo em que lamenta o desequilíbrio gerado pela mestiçagem no país reclama da falta de “unidade de raça” entre os brasileiros, destaca a força dos habitantes do sertão (“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”), a quem chama de “rocha viva da nossa raça” e que transforma nos heróis de seu livro. Já os militares, também mestiços, porém representantes da civilização branca, racional e científica em que Euclides acreditava, vão se revelar, no campo de batalha, tão fanatizados quanto seus inimigos:
“A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória — com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagroso…”
Pior. Os mais chocantes atos de selvageria retratados no livro não são praticados pelos canudenses, mas pelos representantes armados da República, como a degola de prisioneiros, que, agora sim, Euclides descreve em detalhes.
Chegando à primeira canhada encoberta, realizava-se uma cena vulgar. Os soldados impunham invariavelmente à vítima um viva à República, que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.
Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido…
Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.
Sem nunca abrir mão do próprio racismo e da crença positivista na República e na civilização, Euclides faz de Os Sertões uma poderosa denúncia sobre os crimes provocadas em nome de tudo o que acreditava. Como afirma Walnice Nogueira Galvão:
“A verdade é impossível: a verdade do livro está em suas contradições. A ideias vão e voltam, o argumento que se expõe num dado passo é seguido de seu contrário, logo depois ou centenas de páginas adiante. Tudo isso mostra, no seu movimento de vaivém, a impossibilidade vivida pela inteligência brasileira de entender o fenômeno e de tomar um e um só partido. Essa dificuldade é de ontem e é de hoje. O livro narra o movimento da inteligência, que, no caso, é de seu autor, em demanda da sínteses impossível reveladora da verdade.”
Uma acusação sem acusados
Não há qualquer ambiguidade ou contradição, porém, quando Euclides da Cunha afirma que a campanha de Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime”. Suas vítimas? A população de Canudos. Seus algozes? Bom, aí a coisa fica um pouco mais complicada.
Euclides em nenhum momento indica os responsáveis pelo crime que denuncia. O presidente da República, Prudente de Morais, responsável em última instância pelo massacre, e que havia feito a promessa de que “em Canudos não ficará pedra sobre pedra”, nem ao menos é mencionado no livro. O ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt, que comandou as operações do Exército no local, é mencionado de passagem, descrito como “um homem frio, eivado de um ceticismo tranquilo e inofensivo”.
O autor do crime denunciado em Os Sertões é um sujeito coletivo e sem nome, referido na primeira pessoa do plural: “Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados… Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador — a bala”. Além de vago, é um sujeito que não tem consciência do mal que praticou: “tivemos na ação um papel de mercenários inconscientes”. É verdade que não se trata apenas de um plural majestático usado em nome da modéstia. Há algo, sim, de autocrítica, nesse uso do “nós”, especialmente se a gente pensar no papel de Euclides da Cunha como republicano, ex-militar e autor de “A Nossa Vendeia”. Seja como for, escrevendo da elite branca para a elite branca, sem a menor pretensão de ser lido para além desse círculo, Euclides estava dizendo aos seus leitores: todos nós somos culpados.
E, quando todos são, ninguém é.
A postura do “livro vingador” de Euclides contrasta com outra denúncia realizada por um escritor, três meses após o massacre de Canudos, do outro lado do Atlântico: a carta aberta enviada ao presidente da República pelo autor francês Émile Zola, em que denunciava o antissemitismo do Exército francês contra o oficial judeu Alfred Dreyfus, injustamente acusado de traição e espionagem. Publicado na primeira página do jornal L’Aurore, em 13 de janeiro de 1898, sob o título em letras garrafais “Eu acuso”, a carta se encerrava com oito parágrafos começados por essas duas palavras, em que Zola nomeia cada um dos oficiais responsáveis pela injustiça.
Ao denunciar o “caso Dreyfus”, Zola se tornou o protótipo do intelectual europeu dedicado a lutar por causas sociais. Na mesma época, Os Sertões fez de Euclides da Cunha um protótipo de intelectual branco à brasileira, com consequências bem mais tranquilas para sua vida. Enquanto Eu acuso fez Zola ser condenado por difamação e obrigado a se exilar na Inglaterra, Os Sertões transformou Euclides da Cunha em uma celebridade literária instantânea, elogiado por todos os críticos, que em menos de um ano entrou para o Instituto Histórico e Geográfico Nacional e para a Academia Brasileira de Letras. Tanto que, em 1909, quando foi morto ao tentar assassinar o amante da sua esposa, a opinião pública em peso ficou ao lado de Euclides, embora o responsável pela sua morte, o militar Dilermando de Assis, tivesse claramente agido em legítima defesa.
“Não gosto do clima de festa”, diria Mano Brown, e é de fato muito estranho pensar no clima de celebração com que Os Sertões foi recebido, por conta dos méritos literários da obra. “Com tudo isso, nem é tanto de admirar a tramitação rápida do canto do bode expiatório entoado pelo verdugo para o bode exultório em que se tornou o livro e, com ele, seu autor”, aponta Walnice Nogueira Galvão. Retrato de um genocídio, Os Sertões virou um motivo de comemoração. O massacre de Canudos virou algo a ser celebrado por conta do talento artístico de Euclides, sem qualquer consequência real para os seus algozes. O livro não foi capaz de motivar uma única investigação, nem mesmo um processo administrativo. Parece que nem era essa a intenção do autor, que nunca mencionou se ressentir da ausência de impactos reais de sua denúncia. Afinal, Euclides estava apontando o dedo para pessoas que eram como ele. Tudo indica que a intenção do “livro vingador” era apenas fazer com que a elite branca se sentisse um pouco culpada pelo crime que havia cometido: não era o caso de punir alguém de verdade.
Principal alvo da denúncia de Os Sertões, os militares nunca se desculparam pelo que fizeram em Canudos. Ao contrário. A Polícia Militar do Estado de São Paulo, força reserva e auxiliar do Exército, faz questão de celebrar uma suposta ligação mítica com os autores do massacre, tanto em um Monumento aos Heróis de Canudos, instalado no Quartel da Luz, no centro da capital paulista, como em seu Brasão de Armas, adornado com 18 estrelas que homenageiam ações de militares em momentos históricos variados, a maioria em golpes e ataques a movimentos sociais. O massacre de Canudos é homenageado pela 8ª estrela. O golpe de 1964, pela 18ª.
Levou décadas para que Os Sertões recebesse as primeiras resposta por parte dos militares, geralmente em textos contidos, respeitosos e sem traço de autocrítica. Uma resposta mais dura veio em 1958, com livro A verdade sobre “Os Sertões” (análise reivindicatória da Campanha de Canudos), de Dante de Melo, publicado pela Biblioteca do Exército. Mesmo escrito mais de meio século depois, o livro-resposta do militar consegue ser mais racista do que qualquer página de Euclides da Cunha. Veja só esse trecho em que Dante sugere que Euclides teria escrito um livro muito diferente se os canudenses houvessem vencido o conflito e que até o poeta Castro Alves teria ficado contra a abolição da escravidão se conhecesse o comportamento dos negros das favelas cariocas dos dias atuais.
Se a 4ª Expedição resultasse no fracasso das anteriores, ou se entravasse ela em situação indecisa como esteve a pique de acontecer, e a conflagração sertaneja se estendesse, alentando a força moral do monarquismo assim fortalecido; se, de volta de Canudos, Euclides da Cunha ficasse para escrever seu livro, enquanto no interior continuassem a resistência fanática espalhada e crescente, outro, muito outro por certo teria sido o tom e o teor de “Os Sertões”.
Assim também o cantar de Castro Alves, se hoje viesse à vida e criado fosse assistindo à liberdade solta em que se exercitam o nosso negroide comum e o negro das favelas cariocas, geralmente labrego e repontão.
Que sentimentos despertariam as gafieiras e futebolices, as molecadas ou a chavasqueira de tanto malandroide fula, gandaieiro por tineta, ou mazombo por força de mefíticos recalques?…
Certo ficaria indiferente o genial condoreiro, se não orientasse à ré da direção tomada, a proa do seu estro.
Sem nunca ter recebido qualquer acusação pelos crimes de Canudos, o Exército pode seguir ignorando críticas e por fim celebrando sua atuação no episódio. O mesmo comportamento que os militares adotariam ao longo dos séculos seguintes, cometendo crimes e sendo anistiados por eles. Prudente de Morais também teve sorte: o primeiro presidente civil do Brasil costuma ser chamado de muita coisa, até de “Abraham Lincoln brasileiro”, mas poucos se lembrariam de chamá-lo de genocida ou de colocar sua figura ao lado de governantes como Augusto Pinochet, Alfredo Stroessner ou Jorge Videla, apesar de seu governo ter comandado um dos maiores massacres da história latino-americana. E ainda tem gente que acredita em “julgamento da história”.
Nesse sentido, a trajetória Os Sertões, com sua acusação sem acusados, se filia à tradição conciliatória das elites, que sempre anistia os crimes dos que estão por cima, enquanto promove massacres e genocídios contra os de baixo. Ao mesmo tempo, como parte de mais uma das contradições que são sua marca, o livro se destaca, entre as obras dos autores da branquitude que se dedicaram a buscar “interpretar o Brasil”, como a que melhor retratou o caráter genocida do projeto de país executado por essas elites.
No coração das trevas
Nos últimos quatro anos, muita gente se perguntou que desvio ocorreu na história do Brasil para desembocar em um movimento de extrema-direita que celebra a violência com tanto orgulho que parece refletir o lema “Viva la muerte” dos fascistas espanhóis. A violência, contudo, sempre foi um traço estrutural da sociedade brasileira, por mais que a intelectualidade branca preferisse ignorá-la.
Dos autores famosos por suas obras que buscavam compreender o Brasil, poucos se deram conta disso, mas é porque escreviam a partir do conforto de suas vivências nos lugares tranquilos do privilégio branco. Interpretando o país a partir da sua condição de filho influente da elite cafeeira paulista, Paulo Prado enxergava no Brasil um país anêmico, a quem faltava o sangue de uma guerra ou de uma revolução para poder evoluir — ignorando o quanto de sangue negro e indígena derramado havia nessa história. Gilberto Freyre, por sua vez, ao pensar na questão racial cercado de empregados negros, dóceis e uniformizados, na sua bela casa no bairro nobre de Apicucos, no Recife, como aponta a jornalista Fabiana Moraes, só podia concluir que o Brasil vivia uma linda “democracia étnica”.
Diferente de todos esses, contudo, Euclides da Cunha baseou sua interpretação do Brasil não na sua realidade de homem branco, mas no mergulho que fez no “coração das trevas” de um massacre comandado nos sertões pela elite de que fazia parte, em nomes de ideais que também eram os seus.
Os conflitos que vemos em Os Sertões — a gente pobre massacrada por homens fardados, a destruição de vidas provocada em nome de uma ideia de modernização implantada de cima para baixo, a heróica resistência dos pobres contra o massacre cotidiano, o racismo, o culto à morte — permanecem muito atuais porque são os mesmos que a gente denuncia na Ponte Jornalismo. Todos os dias, falamos de policiais militares, orgulhosos herdeiros simbólicos dos matadores de Canudos, cometendo massacres nos territórios chamados de favelas, uma palavra que se espalhou pelo Brasil justamente a partir do conflito ocorrido no sertão baiano. É que, com o fim da guerra, muitos soldados temporários que o Estado usou para fazer seu trabalho sujo em Canudos se viram sem salário nem moradia e acabaram erguendo barracos improvisados no Morro da Providência, na então capital federal do Rio de Janeiro, e apelidaram o lugar de favela, pela semelhança com um monte chamado de Morro da Favela, que havia junto ao arraial baiano onde haviam combatido.
E permanece muito atual, ainda, a perplexidade, na forma de vertigem, que acomete o narrador ao final de Os Sertões, quando falha ao tentar descrever os momentos finais de Canudos.
Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.
Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem…
É a vertigem de quem se depara com a realidade do genocídio e não encontra em suas teorias, crenças ou vivências nada capaz de explicar tanto derramamento de sangue. A perplexidade de Euclides da Cunha com a violência da República é a mesma de quem olha para o Brasil de hoje, democrático e republicano, e constata que o Estado segue matando nas favelas atuais do mesmo jeito que fazia junto ao Morro da Favela em Canudos, com a mesma crueldade e igual garantia de impunidade.
Chega ao fim o reinado da primeira família presidencial brasileira
O primeiro diploma superior que Lula recebeu na vida foi de presidente da República em 2002. O segundo, em 2006, de presidente. E o terceiro, logo mais à tarde, outra vez de presidente da República. Ele diz que não será candidato à reeleição daqui a quatro anos. Mas se fizer um bom governo, poderá ser.
O de hoje é o segundo dos três atos magnos do rito democrático no Brasil. O primeiro aconteceu em 30 de outubro passado, quando foi eleito no segundo turno o 39º presidente da República do Brasil. Lula ganhou com 50,9% dos votos válidos. O terceiro ato magno será no próximo dia 1º de janeiro quando ele tomará posse.
Desde a redemocratização do país em 1985, somente um presidente negou-se a transferir a faixa ao seu sucessor, escafedendo-se pela porta dos fundos do Palácio do Planalto – João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último do ciclo dos generais da ditadura militar de 64 que suprimiu a democracia por 21 anos.
A democracia foi suprimida sob a esfarrapada desculpa de que o comunismo a ameaçava. O presidente eleito Tancredo Neves baixou ao hospital na véspera de ser empossado. Figueiredo recusou-se a passar a faixa ao vice, José Sarney, porque não gostava dele. Na verdade, foi embora por uma porta lateral.
Filhote da ditadura, afastado do Exército por ter planejado atentados terroristas a quartéis, Bolsonaro quer repetir o gesto de Figueiredo que não fez nenhuma diferença para Sarney. O general recolheu-se ao seu sítio em Petrópolis, reformado de graça por empreiteiras que prestaram serviços ao governo.
Bolsonaro terá melhor sorte: a seu pedido, o PL, partido ao qual se filiou para disputar a reeleição, pagará o aluguel da mansão onde ele pretende morar em Brasília, a montagem de um amplo escritório de trabalho, e suas despesas com viagens. Figueiredo pediu para ser esquecido, e foi. Bolsonaro quer ser lembrado.
Figueiredo deve ser lembrado por três importantes decisões que tomou: deu continuidade à abertura política inaugurada por seu antecessor, o general Ernesto Geisel; proclamou a anistia que permitiu a volta ao país de exilados políticos; e respeitou o resultado da eleição pelo Congresso da dupla Tancredo-Sarney.
Pelo que Bolsonaro quer ser lembrado? Por legar um país com o triplo das armas que tinha no início de 2019? Por receitar cloroquina contra uma pandemia que matou quase 700 mil brasileiros? Por enfraquecer a democracia como nenhum presidente o fez? Por estimular um golpe às vésperas de sair?
O Brasil escapou de uma nova era de obscurantismo ao impedir a reeleição de Bolsonaro. Como estaríamos a essa altura? Com ele a cobrar do Congresso o expurgo de ministros do Supremo Tribunal Federal? “O patriotismo é o último refúgio do patife”, disse no século XVIII o poeta e ensaísta inglês Samuel Johnson.
Na semana passada, ao quebrar um silêncio de quase 40 dias, Bolsonaro exaltou os golpistas acampados à porta de quartéis à espera da fala das armas. Depois, ao chorar abraçado a um menino e diante de devotos que cantavam o Hino Nacional, Bolsonaro não chorou pelo Brasil, mas por ele mesmo e seus filhos.
Chega ao fim o turbulento reinado da primeira família presidencial brasileira, capítulo imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições.
O de hoje é o segundo dos três atos magnos do rito democrático no Brasil. O primeiro aconteceu em 30 de outubro passado, quando foi eleito no segundo turno o 39º presidente da República do Brasil. Lula ganhou com 50,9% dos votos válidos. O terceiro ato magno será no próximo dia 1º de janeiro quando ele tomará posse.
Desde a redemocratização do país em 1985, somente um presidente negou-se a transferir a faixa ao seu sucessor, escafedendo-se pela porta dos fundos do Palácio do Planalto – João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último do ciclo dos generais da ditadura militar de 64 que suprimiu a democracia por 21 anos.
A democracia foi suprimida sob a esfarrapada desculpa de que o comunismo a ameaçava. O presidente eleito Tancredo Neves baixou ao hospital na véspera de ser empossado. Figueiredo recusou-se a passar a faixa ao vice, José Sarney, porque não gostava dele. Na verdade, foi embora por uma porta lateral.
Filhote da ditadura, afastado do Exército por ter planejado atentados terroristas a quartéis, Bolsonaro quer repetir o gesto de Figueiredo que não fez nenhuma diferença para Sarney. O general recolheu-se ao seu sítio em Petrópolis, reformado de graça por empreiteiras que prestaram serviços ao governo.
Bolsonaro terá melhor sorte: a seu pedido, o PL, partido ao qual se filiou para disputar a reeleição, pagará o aluguel da mansão onde ele pretende morar em Brasília, a montagem de um amplo escritório de trabalho, e suas despesas com viagens. Figueiredo pediu para ser esquecido, e foi. Bolsonaro quer ser lembrado.
Figueiredo deve ser lembrado por três importantes decisões que tomou: deu continuidade à abertura política inaugurada por seu antecessor, o general Ernesto Geisel; proclamou a anistia que permitiu a volta ao país de exilados políticos; e respeitou o resultado da eleição pelo Congresso da dupla Tancredo-Sarney.
Pelo que Bolsonaro quer ser lembrado? Por legar um país com o triplo das armas que tinha no início de 2019? Por receitar cloroquina contra uma pandemia que matou quase 700 mil brasileiros? Por enfraquecer a democracia como nenhum presidente o fez? Por estimular um golpe às vésperas de sair?
O Brasil escapou de uma nova era de obscurantismo ao impedir a reeleição de Bolsonaro. Como estaríamos a essa altura? Com ele a cobrar do Congresso o expurgo de ministros do Supremo Tribunal Federal? “O patriotismo é o último refúgio do patife”, disse no século XVIII o poeta e ensaísta inglês Samuel Johnson.
Na semana passada, ao quebrar um silêncio de quase 40 dias, Bolsonaro exaltou os golpistas acampados à porta de quartéis à espera da fala das armas. Depois, ao chorar abraçado a um menino e diante de devotos que cantavam o Hino Nacional, Bolsonaro não chorou pelo Brasil, mas por ele mesmo e seus filhos.
Chega ao fim o turbulento reinado da primeira família presidencial brasileira, capítulo imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições.
sábado, 10 de dezembro de 2022
O estranho espetáculo dos bolsonaristas
Um amigo meu, dono de um condomínio horizontal, disse que não dorme desde as eleições porque tem certeza de que o condomínio dele será invadido e seus lotes serão tomados para o assentamento dos menos favorecidos. Transtornado, ele acredita piamente nisto. No Paraná, um grupo entoa o hino nacional para um pneu, de caminhão. No Pernambuco, um manifestante se agarra na frente de um caminhão para tentar impedir o seu percurso. Em Santa Catarina, infantes estendem os braços em uma alusão nazista na esperança sabe-se lá do quê. No Rio Grande do Sul, manifestantes apontam seus celulares para os céus com mensagens de SOS, no anseio de que luzes não identificadas em Porto Alegre sejam Ovnis que venham salvar o país sabe-se lá do quê. Na frente dos quarteis, grupos se aglomeram pedindo intervenção militar, inócua atitude, posto ser o Exército, em sua maioria, legalista. Alguns assassinatos de cunho político se vão, vidas que se vão pelo nada do amanhã. Que país é esse? Este é o Brasil?
Em Pesquisas Mundiais da Sensus, o Brasil é avaliado positivamente por 74% como um país bom para se viver, alegre e hospitaleiro para 89% da população mundial. O que aconteceu por aqui?
Qual legado Bolsonaro deixou? Na economia, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6 trilhões. Somente 25% acham que seu governo estava no rumo. Mais de 60% da população desaprova a política que foi conduzida na saúde, educação, meio ambiente, relações internacionais. Não muito deixou.
Bolsonaro tem por base as classes medias iliteratas, base social do fascismo, tão bem descrito nos trabalhos de Hannah Arendt. Este grupo, antes sem voz na sociedade, se soltou das amarras tradicionais para a violência, pautados que são pelo mal exemplo de seu líder. Acham que podem fazer o que quiserem, na ofensa e agressão contínua a cidadãos e personalidades nas ruas, restaurantes, hotéis, estádios, aeroportos. Enquanto isto, seus líderes urgem para compor com o novo governo, na tentativa do resguardo de suas pessoas físicas e quem sabe a manutenção de seus privilégios.
Ainda, mais bizarro que possa parecer, parte dos bolsonaristas torcem hoje contra a seleção brasileira, sabe-se lá por quê. Como cita Roberto Damatta em” O que faz do brasil, Brasil!”, o primeiro Brasil com b minúsculo da questão social, e o segundo com B maiúsculo do nosso ufanismo, no Brasil a música, o futebol e o carnaval são símbolos de nossa cultura, que nos igualam e nos unem em uma amalgama social. Torcer contra a seleção brasileira é agredir os nossos valores. Na Mitologia Grega, não se deve abrir a Caixa de Pandora, onde estão contidos todos os males que afligem a humanidade. Bolsonaro deteriorou a economia e atacou a cultura ao mesmo tempo, o que foi fatal para os seus propósitos políticos. Bolsonaro liberta a violência e o ódio, verdadeiro legado de sua existência.
Tempos estranhos.
Em Pesquisas Mundiais da Sensus, o Brasil é avaliado positivamente por 74% como um país bom para se viver, alegre e hospitaleiro para 89% da população mundial. O que aconteceu por aqui?
Qual legado Bolsonaro deixou? Na economia, o PIB caiu de US$ 1,9 trilhões para US$ 1,6 trilhões. Somente 25% acham que seu governo estava no rumo. Mais de 60% da população desaprova a política que foi conduzida na saúde, educação, meio ambiente, relações internacionais. Não muito deixou.
Bolsonaro tem por base as classes medias iliteratas, base social do fascismo, tão bem descrito nos trabalhos de Hannah Arendt. Este grupo, antes sem voz na sociedade, se soltou das amarras tradicionais para a violência, pautados que são pelo mal exemplo de seu líder. Acham que podem fazer o que quiserem, na ofensa e agressão contínua a cidadãos e personalidades nas ruas, restaurantes, hotéis, estádios, aeroportos. Enquanto isto, seus líderes urgem para compor com o novo governo, na tentativa do resguardo de suas pessoas físicas e quem sabe a manutenção de seus privilégios.
Ainda, mais bizarro que possa parecer, parte dos bolsonaristas torcem hoje contra a seleção brasileira, sabe-se lá por quê. Como cita Roberto Damatta em” O que faz do brasil, Brasil!”, o primeiro Brasil com b minúsculo da questão social, e o segundo com B maiúsculo do nosso ufanismo, no Brasil a música, o futebol e o carnaval são símbolos de nossa cultura, que nos igualam e nos unem em uma amalgama social. Torcer contra a seleção brasileira é agredir os nossos valores. Na Mitologia Grega, não se deve abrir a Caixa de Pandora, onde estão contidos todos os males que afligem a humanidade. Bolsonaro deteriorou a economia e atacou a cultura ao mesmo tempo, o que foi fatal para os seus propósitos políticos. Bolsonaro liberta a violência e o ódio, verdadeiro legado de sua existência.
Tempos estranhos.
O segredo da volta por cima
"Entre o Exército e o militarismo, vai um despenhadeiro. O militarismo é a canceração do Exército. Está para o Exército como o clericalismo para a religião, o demagogismo para o governo popular, o egoísmo para o eu. O militarismo pode trazer vantagens a militares esquecidos do voto profissional. Mas, para o Exército, é o descrédito, a ruína, o ódio público. Ora, a política no Exército leva fatalmente ao militarismo. Entre o Exército e a política se deve, portanto, levantar a mais alta muralha."
Quem disse isso? Um solerte esquerdista? Não —Rui Barbosa, em 21 de junho de 1893, no Jornal do Brasil. Se vivesse em nosso tempo, o baiano ficaria estarrecido ao ver como o Exército brasileiro entregou-se a um presidente que militarizou a política e politizou as Forças Armadas a grau jamais concebido. E, mais incrível, como esse presidente foi um elemento que, entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, era persona non gratissima na corporação —militar expulso por terrorismo e, já como político, proibido por ela de entrar nos quartéis.
O longo caminho de Jair Bolsonaro para reverter tamanho opróbrio e tornar-se chefe supremo dessas mesmas Forças Armadas, com poder para acoelhar generais, tratá-los como recrutas e insuflá-los ao golpismo, está no livro "Poder Camuflado", de Fabio Victor, de que falei aqui na quinta-feira. Os detalhes de como isso se deu não cabem neste espaço. É ler para crer como um sujeito aparentemente tão tosco pôs a seus pés homens que se pretendem estudiosos, responsáveis e justos.
Talvez Bolsonaro não fosse tão tosco. Talvez tenha aprendido a ler a cabeça dos militares que, no passado, estabanadamente desafiara. Talvez os tenha convencido de que, no poder, botaria em prática as ideias deles. Talvez por isso os militares passassem a ver nele o messias cuja volta esperavam.
Não tem como errar. Todas as opções acima estão corretas.
Quem disse isso? Um solerte esquerdista? Não —Rui Barbosa, em 21 de junho de 1893, no Jornal do Brasil. Se vivesse em nosso tempo, o baiano ficaria estarrecido ao ver como o Exército brasileiro entregou-se a um presidente que militarizou a política e politizou as Forças Armadas a grau jamais concebido. E, mais incrível, como esse presidente foi um elemento que, entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, era persona non gratissima na corporação —militar expulso por terrorismo e, já como político, proibido por ela de entrar nos quartéis.
O longo caminho de Jair Bolsonaro para reverter tamanho opróbrio e tornar-se chefe supremo dessas mesmas Forças Armadas, com poder para acoelhar generais, tratá-los como recrutas e insuflá-los ao golpismo, está no livro "Poder Camuflado", de Fabio Victor, de que falei aqui na quinta-feira. Os detalhes de como isso se deu não cabem neste espaço. É ler para crer como um sujeito aparentemente tão tosco pôs a seus pés homens que se pretendem estudiosos, responsáveis e justos.
Talvez Bolsonaro não fosse tão tosco. Talvez tenha aprendido a ler a cabeça dos militares que, no passado, estabanadamente desafiara. Talvez os tenha convencido de que, no poder, botaria em prática as ideias deles. Talvez por isso os militares passassem a ver nele o messias cuja volta esperavam.
Não tem como errar. Todas as opções acima estão corretas.
A máquina está crescendo
O homem foi programado por Deus para resolver problemas. Mas começou a criá-los em vez de resolvê-los. A máquina foi programada pelo homem para resolver os problemas que ele criou. Mas ela, a máquina, está começando também a criar problemas que desorientam e engolem o homem. A máquina continua crescendo. Está enorme. A ponto de que talvez o homem deixe de ser uma organização humana. E como perfeição de ser criado, só existirá a máquina. Deus criou um problema para si próprio. Ele terminará destruindo a máquina e recomeçando pela ignorância do homem diante da maçã. Ou o homem será um triste antepassado da máquina; melhor o mistério do paraíso.
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
Clarice Lispector, "Todas as crônicas"
Os idiotas da objetividade
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte viase impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.
Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.
Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.
Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.
Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam.
Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord By ron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.
Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.
E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.
Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul). Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.
O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura.
Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.
Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.
O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembrame aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.
E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.
Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.
Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação.
Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação.
Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.
Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam.
Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord By ron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.
Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.
E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.
Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul). Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.
O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura.
Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy.
Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.
O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembrame aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.
E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez.
Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.
Nelson Rodrigues
A meritocracia, de Confúcio a Sandel
Tzu-chang perguntou a Confúcio: “Como um cavalheiro deve ser para que digam que ele conseguiu distinguir-se?”. O Mestre disse: “Que diabos você quer dizer com ‘distinguir-se’?”.
Tzu-chang respondeu: “O que tenho em mente é um homem que tem certeza de ser conhecido, sirva ele em um reino ou em uma família nobre”. O Mestre disse: “Isso é ser conhecido, não se distinguir. O termo ‘distinguir-se’ descreve um homem que é correto por natureza e que gosta do que é certo, sensível às palavras das outras pessoas e observador da expressão nos rostos delas e que sempre se preocupa em ser modesto. Por outro lado, o termo ‘ser conhecido’ descreve um homem que não tem dúvidas de que é benevolente, quando tudo o que ele está fazendo é mostrar uma fachada de benevolência que não condiz com suas ações”.
Ao palmilhar os caminhos de Confúcio, o norte-americano Michael J. Sandel, em seu livro “A Tirania do Mérito”, vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar um rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também - especialmente - quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal”.
Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concreta dos indivíduos-habitantes das sociedades contemporâneas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.
A busca pelo enriquecimento, pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência na sociedade de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios.
Sandel reconhece que, em sua configuração atual, as sociedades escancaram a incapacidade de entregar o que prometem aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social promovida pela transformação tecnológica e pela migração dos empregos para as regiões de baixos salários.
A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos-utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc.
Aqui caberia recorrer a Freud para tratar do narcisismo dos ressentidos. Sigmund observa: “O narcisista parece ter realmente retirado sua libido das pessoas e das coisas no mundo exterior, sem tê-las substituído por outras em sua fantasia. Qual é o destino da libido retirada dos objetos na esquizofrenia? A megalomania, característica desses estados, indica a resposta... A libido subtraída do mundo exterior foi trazida para dentro do eu, emergindo assim um estado ao qual podemos dar o nome de narcisismo”.
Minhas deambulações curiosas me levaram à leitura do artigo dos psicanalistas Camila de Araujo Reinert e Matias Strass burger: “Um, Nenhum, Cem Mil” - Uma breve compreensão do narcisismo em Green através de um personagem literário de Pirandello e de um caso clínico”. Green é o psicanalista André Green, considerado um dos mais criativos herdeiros de Sigmund Freud. O artigo traz uma epígrafe copiada do Livro III das metamorfoses de Ovídio, o grande poeta romano.
“O adolescente (Narciso), cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, atraído pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão, contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde. Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se”.
Na aurora do século XXI, Elisabeth Roudinesco ausculta os rumores narcísicos cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas?
O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?”. O avanço exasperado da “quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos.
Tzu-chang respondeu: “O que tenho em mente é um homem que tem certeza de ser conhecido, sirva ele em um reino ou em uma família nobre”. O Mestre disse: “Isso é ser conhecido, não se distinguir. O termo ‘distinguir-se’ descreve um homem que é correto por natureza e que gosta do que é certo, sensível às palavras das outras pessoas e observador da expressão nos rostos delas e que sempre se preocupa em ser modesto. Por outro lado, o termo ‘ser conhecido’ descreve um homem que não tem dúvidas de que é benevolente, quando tudo o que ele está fazendo é mostrar uma fachada de benevolência que não condiz com suas ações”.
Ao palmilhar os caminhos de Confúcio, o norte-americano Michael J. Sandel, em seu livro “A Tirania do Mérito”, vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar um rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também - especialmente - quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal”.
Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concreta dos indivíduos-habitantes das sociedades contemporâneas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.
A busca pelo enriquecimento, pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência na sociedade de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios.
Sandel reconhece que, em sua configuração atual, as sociedades escancaram a incapacidade de entregar o que prometem aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social promovida pela transformação tecnológica e pela migração dos empregos para as regiões de baixos salários.
A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos-utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc.
Aqui caberia recorrer a Freud para tratar do narcisismo dos ressentidos. Sigmund observa: “O narcisista parece ter realmente retirado sua libido das pessoas e das coisas no mundo exterior, sem tê-las substituído por outras em sua fantasia. Qual é o destino da libido retirada dos objetos na esquizofrenia? A megalomania, característica desses estados, indica a resposta... A libido subtraída do mundo exterior foi trazida para dentro do eu, emergindo assim um estado ao qual podemos dar o nome de narcisismo”.
Minhas deambulações curiosas me levaram à leitura do artigo dos psicanalistas Camila de Araujo Reinert e Matias Strass burger: “Um, Nenhum, Cem Mil” - Uma breve compreensão do narcisismo em Green através de um personagem literário de Pirandello e de um caso clínico”. Green é o psicanalista André Green, considerado um dos mais criativos herdeiros de Sigmund Freud. O artigo traz uma epígrafe copiada do Livro III das metamorfoses de Ovídio, o grande poeta romano.
“O adolescente (Narciso), cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, atraído pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão, contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde. Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se”.
Na aurora do século XXI, Elisabeth Roudinesco ausculta os rumores narcísicos cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas?
O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?”. O avanço exasperado da “quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos.
Como enfrentar o surgimento da nova extrema direita?
Cada vez mais o mundo gira em uníssono. Tudo acaba sendo universal, a começar pela política. Vemos, por exemplo, o ressurgimento da nova extrema-direita com as suas várias matizes, não excluindo as de matiz nazi e fascista. Começou como algo isolado e até antiquado, mas logo tomou forma e incendiou o planeta. E já está chegando a todos os cantos.
Pensar que esse novo fenômeno que preocupa a todos pode se limitar a alguns países é pura utopia. Veio para ficar e se multiplicar como um vírus. Aqui no Brasil, essa nova direita dominou tudo com graves consequências, não só políticas, mas também econômicas, que levaram 30 milhões a passar fome.
Lula, o novo presidente que em semanas tomará posse como chefe de Estado, entendeu isso de imediato com a acuidade política que o caracteriza. Ele reconheceu que em seu terceiro mandato as coisas vão ser diferentes do que no passado, já que a extrema-direita de Bolsonaro continuará não se conformando com a derrota e fará de tudo para impedi-lo de governar. Desta vez, não se trata de uma simples mudança de poder, mas de ter que enfrentar aqueles que negam os valores da democracia, demonizam as liberdades e perseguem os valores democráticos.
A questão que os analistas políticos dos continentes onde esta nova extrema direita está se enraizando começam a enfrentar é como lidar com ela, já que ela se apresenta como uma nova bactéria resistente a todos os seus antídotos. Talvez estejamos diante de algo novo e ainda não decifrado. De nada adiantaria enfrentá-lo com força e até agradaria seus anfitriões e seguidores , amantes da violência e do olho por olho. Para essa nova ultradireita, o discurso do diálogo soa obsoleto. Ela prefere o confronto e até a violência. A coisa do diálogo soa como algo de outros tempos desprezíveis.
Em meio à preocupação com esta ascensão repentina da extrema direita mundial – com seus líderes medíocres sob todos os pontos de vista, mas corajosos e que acreditam firmemente na violência-, os analistas políticos começam a estudar qual poderia ser o melhor antídoto contra esta nova praga política que está a envenenar a própria essência da democracia, que é o diálogo, a liberdade e o pluralismo de ideias.
Alguns dizem que ainda não existe, como em outros momentos da história, um verdadeiro profeta capaz de entender o novo fenômeno político e analisá-lo em sua própria essência, pois nada, nem mesmo na natureza, nasce por acaso.
É verdade que a obra How Democracies Die , de Steven Lewitsky e Daniel Zibblatt, aborda com inteligência a questão das democracias ameaçadas pelo novo populismo. No entanto, desde então as coisas mudaram rapidamente e a nova ultradireita escapou aos cânones do passado. Estamos diante de um fenômeno novo que só conseguiremos entender e enfrentar se aceitarmos que é uma forma inédita de atacar as próprias raízes dos valores da liberdade.
O caso do bolsonarismo no Brasil, talvez mais do que o do trumpismo nos Estados Unidos, poderia servir para tentar entender a possível “novidade” dessa nova direita radical e extrema, violenta e alérgica a todas as liberdades e inovações oferecidas pelos tempos modernos, e isso supõe a antipolítica em estado puro.
Dito isto, o que ainda não foi abordado com seriedade é por que esse fenômeno nasceu agora e com tanta força que parece um incêndio difícil de apagar. Sem dúvida, muito disso está diretamente relacionado à crise, também global, dos valores da democracia e da política como tal que, para dizer em palavras simples, que todos entendem, empobreceu e deixou de ser uma maneira de organizar de forma justa e plural o modo de convivência e organização da sociedade e dos povos, para se tornar aos olhos de todos um negócio econômico e de privilégios pessoais. Entra-se na política, ou assim parece, para ganho pessoal, um jogo feito à luz do sol e que já não embaraça quem se vale dele.
Essa mercantilização da política e o abuso dela para ganho pessoal não é mais escondido, é visível para todos e é feito até no nível do Congresso Nacional, como acaba de acontecer aqui no Brasil com o vergonhoso e descarado “orçamento secreto”, graças ao qual os deputados recebem milhões de um fundo para aplicar em obras com fins claramente eleitorais. E é secreto porque ninguém deve saber quem recebe e quanto. O STF está tentando anular esse orçamento e até Lula já admitiu que se continuasse em vigor teria que contar com ele se quisesse governar.
Essa situação de degeneração da democracia que permanece como uma noz vazia de seu verdadeiro significado inicial poderia explicar por que existem milhões de pessoas, hoje, em todos os países que votam na nova extrema direita não porque sejam fascistas, inimigos da liberdade, violentos por natureza ou desconhecem as novidades que a ciência está preparando. Muitos o fazem, como já aconteceu aqui no Brasil, não porque sejam naturalmente contrários às liberdades. É algo mais.
Analisando o resultado das últimas eleições brasileiras que levaram à vitória de Lula , o que espanta é que houve milhões de pessoas que, mesmo sabendo das violentas aberrações de Bolsonaro e da desolação que ele criou no país, votaram nele novamente .
O que começa a ficar claro é que há milhões de pessoas no mundo, talvez desinformadas, que se sentem envergonhadas e indignadas com os usos e abusos cometidos por políticos ditos democráticos, não raras vezes com a conivência da própria justiça que participa da mesma festa. Isso leva as pessoas mais simples a dizerem com desdém que “todos são iguais”.
Não o são, mas é verdade que o crescimento da nova extrema-direita começa a surgir como resposta ao descrédito universal em que caíram os verdadeiros valores da democracia e das liberdades individuais e coletivas. Essas pessoas, desanimadas, manifestam seus piores instintos de violência.
São aqueles instintos que todos carregamos conosco desde o surgimento do Homo sapiens e diante dos quais somente os valores da cultura, do diálogo e da solidariedade universal podem servir de dique seguro contra a onda de violência, de todos os matizes, que ameaça nosso pequeno planeta invisível e acaba envenenando nossa convivência.
Pensar que esse novo fenômeno que preocupa a todos pode se limitar a alguns países é pura utopia. Veio para ficar e se multiplicar como um vírus. Aqui no Brasil, essa nova direita dominou tudo com graves consequências, não só políticas, mas também econômicas, que levaram 30 milhões a passar fome.
Lula, o novo presidente que em semanas tomará posse como chefe de Estado, entendeu isso de imediato com a acuidade política que o caracteriza. Ele reconheceu que em seu terceiro mandato as coisas vão ser diferentes do que no passado, já que a extrema-direita de Bolsonaro continuará não se conformando com a derrota e fará de tudo para impedi-lo de governar. Desta vez, não se trata de uma simples mudança de poder, mas de ter que enfrentar aqueles que negam os valores da democracia, demonizam as liberdades e perseguem os valores democráticos.
A questão que os analistas políticos dos continentes onde esta nova extrema direita está se enraizando começam a enfrentar é como lidar com ela, já que ela se apresenta como uma nova bactéria resistente a todos os seus antídotos. Talvez estejamos diante de algo novo e ainda não decifrado. De nada adiantaria enfrentá-lo com força e até agradaria seus anfitriões e seguidores , amantes da violência e do olho por olho. Para essa nova ultradireita, o discurso do diálogo soa obsoleto. Ela prefere o confronto e até a violência. A coisa do diálogo soa como algo de outros tempos desprezíveis.
Em meio à preocupação com esta ascensão repentina da extrema direita mundial – com seus líderes medíocres sob todos os pontos de vista, mas corajosos e que acreditam firmemente na violência-, os analistas políticos começam a estudar qual poderia ser o melhor antídoto contra esta nova praga política que está a envenenar a própria essência da democracia, que é o diálogo, a liberdade e o pluralismo de ideias.
Alguns dizem que ainda não existe, como em outros momentos da história, um verdadeiro profeta capaz de entender o novo fenômeno político e analisá-lo em sua própria essência, pois nada, nem mesmo na natureza, nasce por acaso.
É verdade que a obra How Democracies Die , de Steven Lewitsky e Daniel Zibblatt, aborda com inteligência a questão das democracias ameaçadas pelo novo populismo. No entanto, desde então as coisas mudaram rapidamente e a nova ultradireita escapou aos cânones do passado. Estamos diante de um fenômeno novo que só conseguiremos entender e enfrentar se aceitarmos que é uma forma inédita de atacar as próprias raízes dos valores da liberdade.
O caso do bolsonarismo no Brasil, talvez mais do que o do trumpismo nos Estados Unidos, poderia servir para tentar entender a possível “novidade” dessa nova direita radical e extrema, violenta e alérgica a todas as liberdades e inovações oferecidas pelos tempos modernos, e isso supõe a antipolítica em estado puro.
Dito isto, o que ainda não foi abordado com seriedade é por que esse fenômeno nasceu agora e com tanta força que parece um incêndio difícil de apagar. Sem dúvida, muito disso está diretamente relacionado à crise, também global, dos valores da democracia e da política como tal que, para dizer em palavras simples, que todos entendem, empobreceu e deixou de ser uma maneira de organizar de forma justa e plural o modo de convivência e organização da sociedade e dos povos, para se tornar aos olhos de todos um negócio econômico e de privilégios pessoais. Entra-se na política, ou assim parece, para ganho pessoal, um jogo feito à luz do sol e que já não embaraça quem se vale dele.
Essa mercantilização da política e o abuso dela para ganho pessoal não é mais escondido, é visível para todos e é feito até no nível do Congresso Nacional, como acaba de acontecer aqui no Brasil com o vergonhoso e descarado “orçamento secreto”, graças ao qual os deputados recebem milhões de um fundo para aplicar em obras com fins claramente eleitorais. E é secreto porque ninguém deve saber quem recebe e quanto. O STF está tentando anular esse orçamento e até Lula já admitiu que se continuasse em vigor teria que contar com ele se quisesse governar.
Essa situação de degeneração da democracia que permanece como uma noz vazia de seu verdadeiro significado inicial poderia explicar por que existem milhões de pessoas, hoje, em todos os países que votam na nova extrema direita não porque sejam fascistas, inimigos da liberdade, violentos por natureza ou desconhecem as novidades que a ciência está preparando. Muitos o fazem, como já aconteceu aqui no Brasil, não porque sejam naturalmente contrários às liberdades. É algo mais.
Analisando o resultado das últimas eleições brasileiras que levaram à vitória de Lula , o que espanta é que houve milhões de pessoas que, mesmo sabendo das violentas aberrações de Bolsonaro e da desolação que ele criou no país, votaram nele novamente .
O que começa a ficar claro é que há milhões de pessoas no mundo, talvez desinformadas, que se sentem envergonhadas e indignadas com os usos e abusos cometidos por políticos ditos democráticos, não raras vezes com a conivência da própria justiça que participa da mesma festa. Isso leva as pessoas mais simples a dizerem com desdém que “todos são iguais”.
Não o são, mas é verdade que o crescimento da nova extrema-direita começa a surgir como resposta ao descrédito universal em que caíram os verdadeiros valores da democracia e das liberdades individuais e coletivas. Essas pessoas, desanimadas, manifestam seus piores instintos de violência.
São aqueles instintos que todos carregamos conosco desde o surgimento do Homo sapiens e diante dos quais somente os valores da cultura, do diálogo e da solidariedade universal podem servir de dique seguro contra a onda de violência, de todos os matizes, que ameaça nosso pequeno planeta invisível e acaba envenenando nossa convivência.
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