sábado, 19 de outubro de 2024

É possível resistir às big techs?

Uma das crenças que costuma percorrer as mentes no Vale do Silício é a da inevitabilidade da tecnologia, ou seja, a ideia de que o progresso acontecerá invariavelmente e que parte de seu impacto será inescapável. É como se o risco da inteligência artificial um dia eliminar milhares de empregos fosse um caminho sem volta. Ou como se o domínio de uma megaempresa que acaba por sufocar pequenos empresários seja uma “disrupção” inquestionável.

O que une Mark Coeckelbergh, professor de Filosofia e Tecnologia da Universidade de Viena, na Áustria, e o escritor Danny Caine, dono de uma livraria em uma pequena cidade americana, é justamente a contraposição a essa suposta irreversibilidade do ritmo (e da forma) que rege o avanço dos algoritmos na sociedade.

Os dois estiveram juntos pela primeira vez na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na quinta-feira. Com uma programação mais quente este ano, a 22ª edição do evento pela primeira vez incluiu na programação oficial uma mesa sobre dados e inteligência artificial, com o nome sugestivo de "Dormindo com o inimigo".

Autor de quinze livros de não-ficção no campo da filosofia da tecnologia, Coeckelbergh estuda as implicações éticas da IA muito antes do mundo voltar os olhos ao tema com o lançamento do ChatGPT, em 2022. Ele é pesquisador da Rede Mundial de Tecnologia (WTN) e membro do grupo de especialistas que aconselha a Comissão Europeia sobre Inteligência Artificial.

Dono da Raven, uma livraria independente em Lawrence, no Kansas, Caine tem atuado há anos em defesa dos pequenos comerciantes nos Estados Unidos, e se tornou uma das vozes mais importantes do país em uma espécie de ativismo anti-Amazon. No Brasil, lançou "Como resistir à Amazon e por quê" (Editora Elefante) no ano passado. A obra expõe as entranhas da gigante varejista que tem negócios de comércio eletrônico, IA, logística, segurança, nuvem e entretenimento.


Apesar de atuarem em áreas distintas, ambos refletem sobre como a tecnologia, alavancada pelo poder das grandes corporações, impacta a sociedade. E quais são as saídas para que efeitos colaterais negativos sejam tratados.

Se as IAs estão fadadas a serem cada vez mais parte da vida cotidiana, questões éticas importantes vão precisar ser enfrentadas, argumenta Coeckelbergh no livro “Robôs, Inteligência Artificial e Ética”, lançado no início deste ano pela Ubu

"Quem é responsável pelos danos da tecnologia quando seres humanos delegam decisões à IA?", questiona o pesquisador no livro. E se o custo de um sistema com bom desempenho é a falta de transparência, devemos usá-lo indistintamente?, pergunta ele em outro trecho.

Publicada no Brasil no início deste ano, mas escrita em 2020, a obra foca em dilemas éticos da IA pré-explosão dos sistemas generativos, como o ChatGPT. O filósofo belga radicado na Áustria explora questões como a responsabilidade moral de decisões tomadas por inteligências artificiais em situações críticas.

Um exemplo é o caso de um carro autônomo que precisa decidir entre diferentes cenários de risco que podem resultar em um acidente. Se salvar a vida do passageiro implica em colocar em risco um pedestre, qual escolha a IA, um sistema que não foi programado para ter um moral, deve fazer?

Quando algo dá errado, é difícil determinar se a inteligência artificial ou outro componente do sistema é o responsável, ressalta o pesquisador. Um desafio adicional é a "caixa-preta" por trás dessas decisões. São processos tão complexos quando opacos, e até mesmo programadores têm dificuldade de explicar exatamente o que levou a determinado resultado, diz ele.

— Esse problema é ainda mais acentuado no caso desses grandes modelos de linguagem (os LLMs, que são os "cérebros" que alimentam ChatGPT e outros). — diz Coeckelbergh, ao GLOBO. —Se essa tecnologia for usada em governos, por exemplo, para decidir sobre o bem-estar das pessoas ou em seguradoras, para decidir sobre pedidos de sinistros, ela poderá fazer coisas que nem o usuário nem o desenvolvedor poderiam prever.

O autor defende que mostrar como essas tecnologias funcionam é uma forma de capacitá-las a tomar decisões mais conscientes e evitar a dependência cega em sistemas automatizados.

Em “Como resistir à Amazon e por quê", Caine está interessado em "caixas-pretas". Mais especificamente, em expor como a maior varejista digital do mundo trabalha por trás das entregas rápidas e preços baixíssimos no mercado americano. O exemplo que abre o livro é do preço de livros. Um best-seller que está nas prateleiras da Raven está à venda por US$ 26. Na Amazon, pode ser comprado por US$ 9,59. Mas esse mesmo exemplar é vendido pela editora a livraria por US$ 14.

Como a Amazon pode oferecê-lo por um preço mais baixo do que o das próprias editoras o fazem para as livrarias? A empresa de Jeff Bezos pode se dar ao luxo de vender livros com prejuízo porque compensa as perdas com os lucros de outros serviços, como o Prime, lembra ele. A gigante também otimiza estratégias com a coleta de dados dos consumidores (inclusive a partir da Alexa) e com controle de parte do marketplace (a Amazon é tanto plataforma para vendedores como vendedora, o que significa que ela compete com os próprios negócios que estão lá)

— Seus algoritmos podem ser treinados com base nas compras dos consumidores, e isso é muito mais valioso para a Amazon do que os poucos livros que eles venderiam pelo preço cheio. E eles competem no próprio marketplace. Então, é como num jogo de futebol, em que são ao mesmo tempo árbitro e jogador — diz Caine.

O livreiro acrescenta que, nos Estados Unidos, o controle da Amazon sobre o mercado de livros é tão vasto que a empresa acaba por influenciar o que é publicado e como. Se um livro não tiver chance de sucesso na plataforma, uma editora pode ficar menos propensa a publicá-lo, diz.

Caine também aponta outro problema: a proliferação de livros gerados por IA na Kindle Store, que tem "inundado" a plataforma com títulos de baixa qualidade. Esses livros, muitas vezes criados rapidamente, aproveitam a popularidade de temas, autores ou gêneros em alta para "driblar" os algoritmos e aparecerem para os leitores. Isso não apenas confunde o consumidor, mas também torna ainda mais difícil para autores legítimos e livrarias independentes competirem de maneira justa, avalia.

Coeckelbergh diz que as discussões entre os bilionários da tecnologia sobre a possibilidade de a IA um dia superar a mente humana — com a criação da chamada Inteligência Artificial Geral (AIG) — são uma distração dos impactos reais e imediatos que esses sistemas vêm gerando, como a distorção no mercado editorial.

Sobre a entrada dos algoritmos na área, ele lembra ainda que há uma questão sobre o significado da criatividade em um contexto em que máquinas são capazes de reproduzir a linguagem.

— As máquinas, em última análise, se alimentam da criatividade humana como vampiros. Mas mesmo que simulem a criatividade, acabam presas em ciclos baseados em dados do passado. O que os humanos fazem de verdadeiramente novo está enraizado em nossa subjetividade. Mas acho que as pessoas nas humanidades estão sendo desafiadas a isso: o que significa para mim, como escritor, se essas tecnologias também melhorarem?— questiona.

O pesquisador não propõe a interrupção do desenvolvimento da IA, assim como Caine não sugere que as pessoas simplesmente boicotem a Amazon como forma de resistência.

— Não estou dizendo para as pessoas não apoiarem a Amazon. Estou muito mais interessado em dizer: apoie os pequenos negócios na sua comunidade, porque eles vão perceber a diferença. Até mesmo uma única venda de livro pode ser a diferença entre um dia lucrativo e um dia não lucrativo para a livraria — afirma o escritor, que também acredita em uma regulação antimonopolista como caminho para reduzir as distorções no mercado

Para os dilemas éticos que envolvem a IA, Coeckelbergh destaca a necessidade de três pilares: a regulação internacional, uma educação sobre tecnologia e a conscientização crítica dos consumidores da inteligência artificial, em um esforço conjunto que não deixe as decisões apenas na mão das big techs.

—Temos que forçar essas empresas influentes a serem mais éticas e jogarem pelas regras que acreditamos serem boas para as pessoas. E nós, humanos, talvez tenhamos que aprender a moldar nossa vida e a nós mesmos de forma mais consciente, e isso significa ter capacidade de pensar criticamente sobre a nossa relação com a tecnologia.

É preciso descobrir por que o planeta tem pulsão destrutiva

O filósofo Heidegger vasculhou a obra de Freud e não encontrou nenhuma explicação dele na escolha da palavra “análise” para nomear seu trabalho. Então descobriu que o poeta Homero, que viveu na Grécia Antiga, foi quem primeiro usou o termo no segundo livro da Odisseia, para descrever o que Penélope fazia todas as noites: ela desmontava o tecido que fizera durante o dia. Em grego, “análise” significa desfazer uma trama, soltar, libertar alguém da prisão e até desmontar os pedaços de uma construção.

A etimologia do termo “análise” é formidável para ilustrar aquilo a que se destina, tanto nos labirintos do sintoma do indivíduo quanto nos da cultura: revelar e desfazer a trama inconsciente ou irrefreável que os causa. Não é difícil imaginar sujeitos que não conseguem se livrar de atitudes, vícios e repetições que, não obstante, os prejudicam. Torna-se cada vez mais patente a dificuldade de reverter a violência das guerras e o rumo do aquecimento global, com a deterioração climática e seus efeitos — como os incêndios pelo mundo.


Se o desafio que enfrentamos consiste na missão quase impossível de desfazer a trama econômica, social e política que produz o risco de catástrofe, como nos libertar dessa prisão e desmontar a máquina destrutiva que o progresso material e tecnológico construiu — na crença absurda de que a suposta inesgotável natureza está à disposição apenas para nos servir? Na verdade, não me situo entre os que consideram inevitável o desastre climático, uma nova guerra mundial ou a emergência de outra grave pandemia. Mas é inquietante observar na atualidade a crescente onda pessimista nessa direção.

Talvez porque nunca tenha ocorrido, como nos últimos anos, uma invasão tão intensa de graves acontecimentos assolando a subjetividade das pessoas. Além do mais, está tudo conectado em tempo real. A confiança nas pulsões de vida e na capacidade humana de reverter seu impulso à autodestruição parece diluir-se ante uma época cínica e caótica, em que é inédito o arsenal — de armas, de ódio e de negacionismo — à disposição de uma destrutividade que parece contratar um time invencível.

doriA formidável expansão tecnológica e científica vem se revelando inversamente proporcional à paradoxal regressão civilizatória. Estamos de novo diante de questões que julgávamos ultrapassadas, o que expõe a força das infiltrações subterrâneas que atacam a ética, a democracia, a paz e o respeito entre povos e nações. Tudo se parece com a metáfora que surgiu de um debate entre os filósofos Peter Sloterdijk e Alain Finkielkraut sobre o que é compreender a contemporaneidade: um olhar para um céu cheio de estrelas que já desapareceram, mas cujos brilhos — ou trevas — continuam chegando até nós.

Filósofos e artistas captam sinais e antecipam o desastre. Paul Klee fez uma gravura, em que Walter Benjamin se inspirou, para criar o conceito de anjo da História: uma figura assustada, com as mãos se defendendo da tragédia para a qual o futuro nos arrastaria. A gravura hoje está no Museu de Israel, em Jerusalém. O próprio Benjamin escreveu “Aviso de incêndio”, sobre as graves ameaças de um progresso descontrolado. Sloterdijk fez livro sobre o arrependimento de Prometeu: o ladrão do fogo divino ficaria decepcionado com o que fizeram de sua dádiva. Antes dele, Hans Jonas se referiu ao perigo de um Prometeu desacorrentado e clamou por uma ética que, por meio de freios voluntários, impedisse o poder dos homens de se converter numa desgraça para si mesmos. Antes da série de incêndios, Giorgio Agamben lançou a distopia “Quando a casa queima”. As cidades, as ruas e as casas estão ardendo em chamas:

— Vivemos num mundo que está queimando, mas não sabemos.

Não?

Resta o desafio de desfazer nossa própria trama, desmontar o manto sombrio que vimos tecendo ao longo do que — de forma arrogante —chamamos de progresso. Freud disse que a função da análise é tornar consciente o que não era. Tal função tem hoje o caráter de urgência.

'Exterminem todas as bestas'. As crianças também

Tenho à minha frente o raio-x do crânio de uma criança pequena. Vê-se nitidamente uma bala. Apontada para baixo em direção à nuca. Sinto uma náusea. Acabei de deixar os meus filhos na escola e, enquanto bebo um café, vejo as imagens partilhadas com o The New York Times por uma médica, chamada Mimi Syed, que trabalhou em Gaza entre 8 de agosto e 5 de setembro. É fisicamente doloroso ler os relatos compilados para o jornal por um outro médico, Feroze Sidhwa, sobre o que se passa nos hospitais da Palestina. Mas não posso desviar os olhos. Não podemos desviar os olhos.

Feroze Sidhwa já foi voluntário na Ucrânia e no Haiti. Mas nada o preparou para o que viu em Gaza. Durante quase todos os dias em que esteve na Palestina, viu entrarem pelas urgências crianças pequenas alvejadas na cabeça ou no peito. “Na altura, assumi que isto devia ser obra de um soldado particularmente sádico a lutar nas redondezas. Mas, depois de regressar a casa [nos Estados Unidos], conheci um médico que tinha trabalhado noutro hospital em Gaza dois meses antes de mim”. Nesse encontro, Sidhwa partilhou o seu choque perante a quantidade de crianças que vira baleadas na cabeça. “Sim, eu vi o mesmo. Todos os dias que lá estive”, respondeu o outro médico.

A resposta e a forma como a Palestina se tornou um buraco negro para a informação, graças às restrições cada vez maiores ao trabalho dos jornalistas naquela zona, fez com que Feroze Sidhwa fosse à procura de outros médicos que, como ele, tivessem estado a trabalhar na região e estivessem dispostos a partilhar o que viram. Falou com 65, dos quais 57 aceitaram contar as suas histórias, identificando-se, enquanto oito pediram anonimato “ou por ainda terem familiares em Gaza ou na Cisjordânia ou por temerem sofrer retaliações nos seus locais de trabalho”.


O que se segue são páginas e páginas de histórias que me deixaram atordoada. Falam de crianças que pedem para morrer, meninos a quem são feitas amputações sem analgésicos e não vertem uma lágrima, médicos que numa única noite recebem seis crianças com idades entre os cinco e os 12 anos cada uma delas com uma bala na cabeça ou uma bebé de 18 meses também com o crânio desfeito por um tiro.

“Vi muitas crianças. Na minha experiência o ferimento era quase sempre na cabeça”, diz o Dr. Ndal Farah. “Um dia, quando estava nas urgências, vi uma criança de três anos e outra de cinco, cada uma com um tiro na cabeça. Quando perguntei o que se tinha passado, o pai e o irmão disseram que tinham ouvido dizer que Israel estava a retirar de Khan Younis e resolveram voltar para ver se tinha sobrado alguma coisa da sua casa. Havia, contaram, um sniper à espera, que baleou as duas crianças”, relata o Dr. Khawaja Ikram.

O pessoal médico que esteve em Gaza fala de fome extrema, de mães incapazes de amamentar os filhos por estarem desidratadas e subnutridas que imploram por leite de fórmula que não existe, de operações feitas com material reutilizado sem qualquer esterilização, de médicos e enfermeiros que não têm sequer como lavar as mãos. Há um buraco que se me abre no peito enquanto leio estes relatos.

Vem-me à cabeça o título do livro sobre colonialismo do sueco Sven Lindqvist, que é ao mesmo tempo um grito de desumanidade e um resumo de um projeto político. “Exterminem todas as bestas”. É uma frase que Lindqvist vai buscar ao romance de Joseph Conrad O Coração das Trevas, escrito em 1899, numa altura em que a colonização era apresentada como um programa de progresso e civilização.

O grau de extermínio e crueldade de que são capazes colonizadores e nazis só é suportável depois de se desumanizarem as suas vítimas. E isso é verdade em qualquer época histórica. Só depois de olharmos para os outros como “bestas” os podemos aniquilar, convencidos até de que o fazemos por um bem maior. E esse é um mecanismo que conhecemos bem e que podemos compreender.

O que é absolutamente incompreensível para mim é a forma como as democracias liberais ocidentais estão a fingir que não veem o que se passa na Palestina. Não é que não ignorem também os horrores do Saara Ocidental, do Sudão ou de outros pontos do globo. Mas Gaza é, apesar de tudo, um horror que desfila perante os nossos olhos indiferentes todos os dias. E escolhemos ignorar.

“Não é de informação que carecemos. O que nos falta é a coragem para compreender o que sabemos e tirar conclusões”, escreveu Sven Lindqvist, que morreu em 2019.

Uma das conclusões que mais me inquieta é a sentença de morte que estamos a escrever à democracia. A política convive com um certo grau de hipocrisia a que em jargão diplomático se chama realpolitik, mas o sistema em que vivemos não sobreviverá à escalada da desumanização, à destruição da mais básica decência, à aniquilação de direitos que consagrámos na lei depois dos horrores do Holocausto nazi.

E, se durante muito anos, convivemos com massacres e horrores fora do mundo ocidental, o globo encolheu hoje a tal ponto que é impossível que essa barbárie não nos contamine a todos. Nós somos os bárbaros. Sempre fomos. Mas seremos também as bestas. Hoje, são os filhos de Gaza com as cabeças desfeitas por balas. Amanhã serão os nossos. Estamos a abrir o caminho para isso.

'Tive que demolir minha casa por ordem de Israel'

Andando em meio às ruínas do que costumava ser sua casa, Ahmad Musa al-Qumbar, de 29 anos, diz que sempre temeu que um dia as autoridades da cidade de Jerusalém viessem atrás dele.

O palestino casado e pai de quatro filhos construiu uma modesta casa de apenas um pavimento há sete anos, em terras de sua propriedade e onde sua família vive há gerações.

Mas Ahmad nunca teve autorização oficial para construir.

Ele mora no distrito de Jabal Mukaber, em Jerusalém Oriental. Com vista para a Cidade Velha e seus muitos monumentos religiosos históricos, trata-se de uma das partes mais densamente povoadas e fortemente disputadas da região.

O distrito foi tomado por Israel da Jordânia na guerra do Oriente Médio de 1967 e depois anexado, mas é internacionalmente amplamente considerado território palestino.

O controle de Jerusalém é uma das questões mais controversas do conflito de décadas. Os palestinos reivindicam oficialmente Jerusalém Oriental como sua capital, enquanto Israel considera toda a cidade sua capital.

“Quem” tem permissão para construir e “onde” é grande parte do conflito.

Har Homa é um dos maiores e polêmicos
 assentamentos judeus em Jerusalém Oriental

E o ritmo com que casas palestinas estão sendo demolidas na Jerusalém Oriental ocupada quase dobrou desde o início do conflito em Gaza, dizem grupos de direitos humanos e organizações de monitoramento. As demolições são ordenadas pela autoridade municipal de Israel, que diz que muitas construções, como a de Ahmad, foram erguidas de forma ilegal, sem permissão.

Uma ONG, Ir Amim, diz que “sob o disfarce da guerra”, Israel está “deslocando os palestinos à força de suas casas e da cidade”.

“Eu tive que demolir minha casa após ser alvo de penalidades pela polícia e pelos tribunais israelenses”, conta Ahmad nos escombros do que costumava ser sua cozinha.

“Eu não poderia pagar as multas e correr o risco de perder coisas como plano de saúde e o seguro das crianças. Claro, recorremos ao tribunal, mas eles se recusaram.”

Como muitos na mesma situação, Ahmad contratou ele mesmo, a contragosto, máquinas pesadas para derrubar sua casa. E conta que as autoridades da cidade de Jerusalém teriam cobrado o equivalente a US$ 100 mil se tivessem sido elas a realizar o serviço.

O que talvez tenha tornado tudo ainda mais doloroso - destruir o trabalho de sua família e o futuro de seus filhos com as próprias mãos.

Quase todas as tentativas de solicitar permissão de planejamento feitas por famílias palestinas em Jerusalém Oriental são negadas pelas autoridades israelenses. E famílias em crescimento dizem não ter escolha a não ser construir ilegalmente e enfrentar as possíveis consequências - multas enormes e ordens de demolição.

Alguns dizem que a lei e os tribunais estão sendo deliberadamente usados para suprimir o crescimento e as ambições palestinas.

“Essas comunidades palestinas pedem permissão, e entre 95% e 99% dos pedidos são negados”, diz Shay Parnes, porta-voz da organização israelense de direitos humanos B'Tselem.

“Isso vem acontecendo há anos”, continua Parnes.

“Às vezes eles usam motivos de segurança para justificar, mas é sempre sob parte do mesmo processo de expulsar palestinos... porque a lei é diferente para diferentes comunidades que vivem lado a lado na mesma cidade.”

No lado ocidental predominantemente judaico da cidade, o que costumava ser um horizonte de edifícios de pedra branca relativamente baixos mudou drasticamente nos últimos anos. A construção está em ritmo acelerado.. Os guindastes operam praticamente 24 horas por dia, 7 dias por semana, com novos arranha-céus residenciais e comerciais subindo e aquele lado de Jerusalém se expandindo.

A construção também é intensa em algumas áreas de Jerusalém Oriental em que a terra foi reivindicada por Israel para dar lugar aos assentamentos judaicos. Em Har Homa, estima-se que 25.000 pessoas agora vivem em casas novas, em terras formalmente expropriadas por Israel em 1991.

Do outro lado da estrada estão as aldeias palestinas de Umm Tuba e Sur Baher, onde muitas instalações públicas são claramente inferiores às de Har Homa.

Em forte contraste com o trabalho de construção do outro lado da rodovia, várias casas foram demolidas à força por aqui nos últimos anos, no que a Anistia Internacional descreve como “uma violação flagrante do direito internacional e parte de um padrão sistemático das autoridades israelenses para deslocar os palestinos à força”.

A situação é semelhante no assentamento de Gilo, que se expande rapidamente no que é considerado internacionalmente como Jerusalém Oriental ocupada, enquanto, argumenta-se, aos subúrbios palestinos vizinhos não é permitido crescer no mesmo ritmo.

A comunidade internacional considera os assentamentos israelenses em Jerusalém Oriental ilegais sob o direito internacional, mas o governo israelense contesta. Israel também nega que as demolições fazem parte da política deliberada de discriminação que ganhou ritmo coberta pela distração acusada pela guerra em Gaza.

Em um comunicado, o município de Jerusalém disse que as acusações eram “absolutamente falsas” e que tinha apoio local para “grandes planos de construção em quase todas as áreas de Jerusalém Oriental”.

Os planos “visam dar opções para a expansão do bairro, abordar a questão generalizada da construção ilegal e designar áreas para a construção de estruturas de serviço municipal”, acrescentou.

Mas não é difícil encontrar exemplos de onde as ordens de demolição israelenses contra casas palestinas estão sendo aplicadas em Jerusalém Oriental.

No subúrbio de Silwan, logo abaixo da Cidade Velha, encontramos outra casa palestina em ruínas. Lutfiyah al-Wahidi diz que o anexo havia sido construído para a família de seu filho há mais de uma década, mas agora as autoridades vieram atrás.

“Mesmo que ergamos apenas um tijolo, as autoridades vêm e o demolem. Como nossa casa os prejudicou? É em terra na qual duvido que as autoridades tenham interesse.”

A avó diz que pagou milhares de dólares em multas judiciais ao longo dos anos em vã tentativa de manter a propriedade.

“Meu filho tem uma família de seis pessoas com apenas um provedor. Que mal eles estão fazendo? Ainda querem demoli-la”, diz ela, com sua família ainda maior e dispersa por outras partes da cidade.

Em uma análise compreensiva, a organização Ir Amim descobriu que, desde a eclosão da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023, "houve uma grande aceleração na promoção e liberação de novos planos de assentamento em Jerusalém Oriental e um aumento dramático na taxa de demolições de casas palestinas".

"O governo israelense está claramente explorando a guerra para criar mais fatos", continua.

Estima-se que haja pelo menos 20.000 pedidos de demolição pendentes em Jerusalém Oriental - pedidos que não têm limite de validade.

Especialistas também dizem, no documento, que desde 7 de outubro, membros de extrema-direita do governo de Benjamin Netanyahu e do Município de Jerusalém ficaram mais seguros para expressar publicamente sua intenção de ver mais casas judaicas construídas em terras ocupadas ou contestadas.

E embora os palestinos, como as famílias de Ahmad e Lutfiyah, ficam visivelmente com mais medo de perder suas casas, eles insistem que ficarão e, eventualmente, reconstruirão suas vidas aqui em Jerusalém Oriental.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O mundo em Tempos loucos

Décadas atrás, Hollywood fez sucesso com comédia chamada “Deu a louca no mundo”. Hoje, a loucura instalada entre nossos dirigentes não faz rir!

Acelerar um veículo que se dirige a precipício é atitude louca, ou “apenas” suicida? E se o veículo estiver cheio de gente? Então, além de louca e suicida é também assassina. E se antes da borda há fogo e o veículo leva pólvora e outros detonadores muito mais potentes? Além dos adjetivos acima, é também insensatez. É a retomada da marcha da insensatez, o processo, ocorrido tantas vezes na história, que leva dirigentes a tomarem decisões contrárias ao próprio interesse, e também às necessidades dos povos que comandam.

A marcha da insensatez, na história, foi alimentada por noções pré-concebidas, pela negação de evidências, por disputas de egos, pela recusa a buscar alternativas, entre outros fatores, e levou a bilhões de mortes!


Atualmente, a insensatez está potencializada pelos algoritmos que, no fundo, são papagaios que repetem e amplificam o que encontram nos textos com que são treinados. Vale dizer, principalmente o publicado na parte da imprensa considerada “amiga”, assim como nas polarizantes e antissociais Redes Sociais. Textos científicos revisados não estão entre as principais fontes das as “IAs”, mesmo porque são em mínima quantidade (comparativamente aos zilhões de posts leigos na internet)! Não obstante essa falha básica, cresce o poder da IA ou, mais precisamente, daqueles que controlam seu desenvolvimento e seu uso. O estado de Israel, em sua atual fúria assassina, tem usado a IA para identificar e matar aqueles que a própria IA entende como inimigos. Fica a pergunta: com tanta fake news na infosfera, será que os algoritmos conseguem identificá-las e separar o joio do trigo?

O cenário se complica porque não só os que nos dirigem ficaram loucos; também perderam a razão aqueles que sonham substituí-los e seguidores acríticos de ambos. Até o clima amalucou, dizem alguns, com a chuva virando dilúvio e a estiagem se tornando seca excepcional. Estas, segundo o “Monitor das Secas”, levam à “perda de cultura e pastagens excepcionais e generalizadas; escassez de água nos reservatórios, córregos e poços, criando situações de emergência”. E os loucos dirigentes querem continuar acelerando no mesmo rumo que nos leva a este abismo de secas excepcionais e dilúvios bíblicos! A Agência Internacional de Energia recém afirmou que o planeta caminha para 2,4oC de aquecimento!

Há alternativas. A razão, no sentido de ausência de loucura, clama para que sejam preferidas à continuidade da aceleração dos processos que alguns chamam de “desenvolvimento”, mas que, embora nos aproximem cada vez mais do abismo, não conseguem resolver as agruras da maioria. É verdade que tais outros caminhos fazem com que certos grupos poderosos percam poder. Por exemplo, a indústria do petróleo e da alimentação ultraprocessada, entre outras.

Não é desmiolado continuar a subsidiar essas atividades e esquecer os males que causam e, cada vez mais, causarão?

A volta em sacos


Na ONU, eu entendi que Netanyahu não pretende trazer os reféns de volta. Ele prefere que eles retornem em sacos para cadáveres
Danny Elgarat, cujo irmão Itzhak Elgarat foi sequestrado de sua casa no Kibbutz Nir Oz, está em greve de fome há 17 dias

'Fora-da-lei'

Israel foi barbaramente atacado e tem direito à sua legítima defesa. Sobre isso, não há dúvida. Mas a legítima defesa não é uma vingança. Tem regras definidas pelo direito internacional. Primeiro, a necessidade e a proporcionalidade da resposta: o uso da força não é ilimitado e deve ser proporcional. E a legitimidade dos objetivos não justifica a desproporcionalidade dos meios.

Ora, a brutalidade da resposta israelita deslegitima a legitimidade da sua autodefesa. Segundo, a retaliação deve concentrar-se sobre os alvos militares e salvaguardar as populações civis. Escolas, hospitais e edifícios residenciais dificilmente podem ser considerados alvos militares. E bombardeios em zonas densamente povoadas e ataques a bairros residenciais não podem deixar de provocar vítimas civis, entre elas muitas crianças. Sabemos que é suposto os militantes das organizações terroristas estarem escondidos nessas zonas, mas haveria certamente outro tipo de operações militares que alvejam os operacionais sem atingir, indiscriminadamente, os civis inocentes.


A destruição militar de uma organização terrorista não pode justificar a punição coletiva de um povo. Em Gaza, como agora no Líbano, a destruição física é devastadora, a crise humanitária é de enormes proporções, há milhões de refugiados e milhares de mortos de civis. No direito internacional, o direito da guerra fixa os limites do uso da força e o direito humanitário o tratamento devido aos não combatentes. Israel não cumpre nem um nem outro. Vive à margem das Convenções de Genebra e, por muito que custe dizê-lo, comporta-se como um “fora-da-lei”. O ataque à operação de paz da ONU no Líbano (UNIFIL) é só mais um episódio desse padrão de comportamento à margem do direito internacional.

A UNIFIL foi estabelecida em 1978, depois da primeira invasão do Líbano por Israel. Era uma força de interposição e tinha um triplo objetivo: confirmar a retirada israelita; ajudar o Governo libanês a restaurar a autoridade na zona; e garantir a segurança e a paz. Em 1982, Israel invade uma segunda vez o Líbano e, até ao termo da invasão, em 1985, a UNIFIL não só fica atrás das linhas israelitas como perde a função de interposição e fica limitada à assistência humanitária. Em 2006, depois da terceira invasão israelita, a resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU não só reforça a força militar como alarga o mandato da missão: manutenção da paz e segurança; confirmação da retirada israelita; assistência no desarmamento e desmobilização das milícias e proteção das populações civis.

Como é óbvio, a UNIFIL não foi um sucesso. Não evitou uma quarta invasão de Israel, como não evitou o reforço político e militar do Hezbollah. Mas tem desempenhado uma função importante de proteção e assistência humanitária às populações.

Na condução das operações militares de invasão, Israel vê a UNIFIL como um empecilho e tem pressionado para a sua retirada. Em tom de poucos amigos, Netanyahu avisou ao secretário-geral da ONU para retirar as suas tropas. Ora, acontece que nem a UNIFIL está ao serviço da estratégia israelita, nem o secretário-geral tem poderes para retirar as tropas. A missão foi estabelecida pelo Conselho de Segurança e só o Conselho de Segurança tem poderes para isso. E, certamente, não o fará. Assim, Israel decidiu remover o empecilho e avançou contra uma base militar da UNIFIL num contexto em que já foram feridos vinte capacetes azuis.

Mas este não é um ato isolado. Faz parte de uma já longa campanha contra as Nações Unidas. E não se trata apenas da violação pura e simples das resoluções da ONU sobre os territórios ocupados. Da UNIFIL ou do Alto Comissariado para os Refugiados. Trata-se dos ataques recorrentes aos órgãos judiciais das Nações Unidas: o Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional que têm acusado os dirigentes israelitas da ocupação ilegal dos territórios palestinos e da condução da guerra em Gaza. Trata-se do ataque ostensivo e desproporcionado contra o secretário-geral, declarando-o “persona non grata”. Declaração que, aliás, não se lhe aplica, porque a Convenção de Viena que a prevê aplica-se aos Estados, mas não às organizações internacionais.

Trata-se, enfim, de um padrão de comportamento “fora da lei”. Muitas vezes, a pretexto da defesa do Ocidente. Não, não é. Os EUA e a Europa têm de perceber que não se trata da defesa do Ocidente. Pelo contrário, põe em causa a autoridade moral do Ocidente. A que ainda lhe resta.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Pensamento do Dia



O planeta das peúgas rotas

Caros amigos:

Referi a ideia de má ou boa sorte como algo que mata a capacidade empreendedora, como algo que consolida o espírito de vítima. Referi esse convite constante para pensarmos que, para melhorar o mundo, a única coisa que nos resta é pedir, lamentar e reclamar.

Faço uma outra confidência. A empresa em que trabalho abriu um concurso para jovens que fizessem inquéritos nos bairros de Maputo. Concorreram centenas de jovens e parecia claro que as duas dezenas que conseguiram o lugar o defenderiam com unhas e dentes.

Logo no primeiro ensaio, porém, uma meia dúzia se apresentou cheia de queixas e reivindicações: que não podiam trabalhar ao sol, que o trabalho era muito cansativo e necessitavam de mais repouso, que precisavam de um subsídio para comprar chapéus e sombreiros… Este espírito, meus amigos, é o de uma nação doente. Um país em que os jovens pedem antes de dar qualquer coisa, é um país que pode ter hipotecado o seu futuro.

O que eu noto é que, a par de uma abnegação ilimitada, nós sofremos ainda do complexo de que merecemos mais que os outros porque sofremos no passado. “A História está em dívida conosco”, é isso que pensamos. Mas a História está em dívida com todos e não paga a ninguém. Não houve povo que não sofresse, em algum momento, terríveis martírios e prejuízos. Nações inteiras foram reduzidas a escombros e renasceram por causa do trabalho e esforço de gerações. O nosso próprio país foi capaz de se afastar das cinzas da guerra. Invocar o passado para que se tenha pena de nós e ficar à espera que alguém nos compense é pura ilusão.


A lógica é, afinal, uma extensão do individual para o colectivo. Como sobrevivemos pessoalmente à custa de favores, pedimos ao mundo que nos conceda privilégios e compensações especiais. Esse posicionamento de vítimas a quem o mundo tem de pagar uma dívida sucede como nação e como cidadãos. A verdade é esta: nunca nos darão essas condições. Ou nós as conquistamos ou nunca chegaremos lá. O valor de Lurdes Mutola deriva de ela ter vencido todo um historial de dificuldades. Imaginemos que Lurdes Mutola, em lugar de treinar a sério, faria a exigência de partir uns metros à frente das suas adversárias, argumentando que era pobre e vinha de um país martirizado. Mesmo que ela ganhasse, a sua vitória deixaria de ter qualquer valor. O exemplo parece ridículo mas refere o exercício de coitadismo que praticamos vezes sem conta. A solução para o desfavorecido não é pedir favores. É lutar mais do que os outros. E lutar sobretudo por um mundo onde não seja preciso mais favores.

Um outro buraco nas nossas peúgas (este é um buraco do tamanho da própria peúga) é a nossa tendência para culpabilizar os outros pelos nossos próprios erros. Perdemos o emprego não porque faltamos consecutivamente sem justificação. Perdemos a namorada (ou namorado) não porque amamos pouco e mal. Reprovamos no exame, mas não foi nunca por falta de preparação. Esses deslizes são por nós explicados pela evocação de demônios cuja existência é profundamente cômoda. A construção de diabos é, afinal, um investimento a prazo: a nossa consciência pode dormir à sombra dessas ilusões.

Esta não é uma doença exclusivamente nossa. Nos dias de hoje, estamos assistindo a um dramático exemplo dessa fabricação de fantasmas: diariamente no Iraque se matam civis inocentes em nome de Deus, em nome da luta contra um demônio que são os outros, de outra crença. José Saramago disse: “Matar em nome de Deus faz desse Deus um assassino”.

E regressamos à questão da pessoa humana. Ao longo da História, as operações de agressão aos outros começam curiosamente por despessoalizar esses mesmos outros. Por assim dizer, esses — os inimigos — não são pessoas humanas como nós. A primeira operação na guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã não foi de ordem militar. Foi de ordem psicológica e consistiu em desumanizar os vietnamitas. Eles já não eram humanos: eram “amarelos”, eram seres de outra natureza sobre os quais não haveria problema de ética em lançar bombas, o agente laranja e napalm.

O genocídio no Ruanda foi aqui perto e não muito distante no tempo.

Comunidades que conviviam em harmonia foram manipuladas por elites criminosas ao ponto de se ter cometido o maior massacre da História contemporânea. Se antes de 1994 perguntássemos a um tutsi ou a um hutu se acreditava que aquilo poderia acontecer no seu país eles declarariam que isso era inimaginável. Mas sucedeu. E sucedeu porque a capacidade de produzir demônios é ainda muito grande nos nossos países. Quanto mais pobre é um país maior é a capacidade de se destruir a si mesmo.

A partir de abril de 1994 e durante cem dias consecutivos mais de 800 mil tutsis foram assassinados pelos seus compatriotas hutus. Machados e catanas foram usados para chacinar 10 mil pessoas por dia, o que dá uma média de dez pessoas por minuto. Nunca na História humana se matou tanto em tão pouco tempo. Toda esta violência foi possível porque se tinha trabalhado para provar, uma vez mais, que os outros não eram pessoas humanas. O termo escolhido pela propaganda hutu para falar dos tutsis era cockroaches, baratas. A matança estava assim isenta de qualquer objecção moral, estava-se matando insectos e não pessoas humanas, compatriotas falando a mesma língua e vivendo a mesma cultura.

No vizinho Zimbábue, o discurso da unidade que marcou o início de uma sociedade multirracial foi, de súbito, alterado para uma agressão marcadamente racista. O vice-presidente do Zimbábue, Joseph Msika, num comício na cidade de Bulawayo disse textualmente: “Os brancos não são seres humanos”. Ele apenas estava repetindo o que Robert Mugabe já havia proclamado. E eu cito as palavras de Mugabe: “O que odiamos nos brancos não é a sua pele mas o demônio que emana deles”. Os dirigentes da Z anu tinham-se distinguido, poucos anos antes, como defensores de uma nação multirracial. O que tinha mudado? Mudara o jogo de forças. A ambição pelo poder provoca mudanças surpreendentes nas pessoas e nos partidos.

Estamos certos de que, em Moçambique, essas nuvens sombrias são distantes e pouco prováveis de alguma vez acontecerem. Esse é um motivo de orgulho no presente e de confiança no futuro. Mas esta certeza necessita de que não esqueçamos as lições de uma história que é também a nossa.


Pediram-me que falasse da pessoa humana. É um universo vasto, sem limites, do qual ninguém se pode dizer especialista. Fui forçado a escolher uma pequena parcela dessa tela infinita. Falei deste mal que é a demissão das nossas responsabilidades, da deserção das nossas capacidades. Falei da dependência de um modo de vida, em que tudo se consegue por favores, por cunhas e benesses. Falei de tudo isto porque o sistema bancário é profundamente vulnerável e permeável a este tipo de situações.

A nossa verdadeira questão enquanto nação é sermos capazes de produzir mais riqueza. Mas não confundirmos riqueza com dinheiro fácil. Certa vez fiz uma intervenção sobre essa obsessão de enriquecer rapidamente e de qualquer maneira. Fui atacado pelo argumento demagógico de que eu não queria ver moçambicanos ricos. Termino hoje reiterando aquilo que sempre defendi.

O meu anseio não é apenas ver moçambicanos ricos no verdadeiro sentido da palavra riqueza. O meu anseio é ver todos os moçambicanos partilhando de uma mesma riqueza. Só essa riqueza nos fará mais pessoas e mais humanos.
Mia Couto, Encontro sobre Pessoa Humana na Conferência no Millenium BIM (2008)

Israel usa estratégia 'render-se ou morrer de fome' em Gaza

A última invasão militar israelense em Jabalia, no norte de Gaza, não poderia ser mais catastrófica para os moradores, que já lidam com os bombardeios e as dificuldades da guerra entre Israel e Hamas há mais de um ano.

"Aqui é perigoso. Ninguém pode se mover. É arriscado e inseguro. Eles nos pediram para sair, mas não havia tempo. De repente, a área estava cercada e sob fogo", disse Mohammed, que não quis dar seu sobrenome, por telefone.

Há quase duas semanas, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) lançaram uma nova ofensiva terrestre no campo de refugiados de Jabalia e ordenaram que as pessoas deixassem a área, mais uma vez. As IDF disseram que a inteligência israelense detectou esforços do Hamas, o grupo radical que comanda o enclave, para se restabelecer e se reagrupar na área.

Os palestinos e as Nações Unidas temem que a última invasão seja parte de uma implementação mais ampla de uma estratégia de "render-se ou morrer de fome" por parte de Israel, para deslocar à força os residentes do norte e isolar essa região de Gaza – planos que o governo israelense nega.

"O Exército israelense parece estar isolando completamente o norte de Gaza do resto da Faixa de Gaza", disse o Escritório de Direitos Humanos da ONU em comunicado.


Mohammed, 41 anos, disse que sua esposa e três filhos estavam visitando parentes na vizinha Cidade de Gaza, quando tanques avançaram, e os ataques aéreos se intensificaram em Jabalia. Ele pediu para que ficassem por lá.

"Meus vizinhos e eu ficamos próximos uns dos outros, tentando compartilhar o que restou de comida e água. Não sei quanto tempo isso vai durar", disse.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) estima que 50 mil pessoas foram deslocadas de Jabalia nas últimas duas semanas, enquanto outras permanecem presas em suas casas devido aos fortes combates ao redor. De acordo com a OCHA, cerca de 84% do território está sob "ordem de evacuação" pelos militares israelenses.

No início do mês, o Exército israelense publicou um mapa mostrando novas ordens de evacuação em várias áreas da Faixa de Gaza, incluindo Beit Hanoun, Jabalia e Beit Lahiya, no norte do enclave. Moradores foram instados a sair imediatamente usando a rota Salah al-Din, uma das principais estradas do norte ao sul, para uma "zona humanitária" designada – uma área superlotada no sul de Gaza que carece de serviços básicos e que também foi alvo de Israel no passado.

Mas muitos estão cansados de serem deslocados e parecem buscar abrigo no norte de Gaza em meio ao aumento dos bombardeios e combates. Aya Tawfik, uma enfermeira voluntária, fugiu com seus irmãos e seu pai de Jabalia para Sheikh Radwan, um bairro no norte da Cidade de Gaza.

"Não queremos ir para o sul", disse Tawfik à DW por mensagem de texto. "As condições são difíceis. Não queremos viver em uma barraca, e lá também há bombardeios e mortes."

Ela descreveu a situação em Jabalia como "aterrorizante", pois os combates também se aproximaram da área onde sua família está agora.

"Estamos hospedados em uma casa perto da nova área de evacuação. Podemos ouvir as explosões, os sons de tanques e drones acima de nós. Não sabemos se podemos ficar aqui ou não", disse Tawfik, acrescentando que as pessoas estavam constantemente se deslocando em busca de segurança.

Os serviços de emergência de Gaza afirmam que não podem se deslocar em áreas de combates pesados e têm que deixar pedidos de ajuda sem resposta.

"É um grande risco para a segurança dos paramédicos e da defesa civil chegar perto dessas áreas", disse Fares Afana, chefe dos serviços de ambulância no norte de Gaza. "Há um grande número de feridos e há mártires [cadáveres] espalhados pelas ruas."

A OCHA estima que pelo menos 400 mil pessoas permanecem no norte de Gaza, inclusive na Cidade de Gaza, a maior do território. Apesar das repetidas ordens militares desde o ano passado para que partissem para o sul, há diversas razões para os que decidiram ficar.

Alguns estão cuidando de parentes idosos e doentes. Outros simplesmente se recusam a ser arrancados de suas casas ou se sentem inseguros para ir a qualquer lugar sob a constante ameaça de ataques aéreos. Muitas famílias estão separadas e espalhadas por toda Gaza.

Tanto Mohammed quanto Aya Tawfik temem que nunca mais possam voltar para casa, no norte de Gaza. O pequeno território agora é dividido pelo corredor Netzarim, uma nova estrada controlada por Israel que vai de leste a oeste, no centro de Gaza. Os moradores dizem que a estrada tornou quase impossível o retorno ao norte.

O Ministério do Interior de Gaza, dirigido pelo Hamas, instruiu os civis a ignorarem o aviso para se deslocarem para outras áreas no norte da Faixa e a evitarem ir para o sul. O Exército israelense afirmou, em comunicado na segunda-feira (14/10), que militantes do Hamas estavam impedindo ativamente algumas pessoas de sair.

Os últimos movimentos militares e as ordens de evacuação levaram à especulação entre palestinos, a imprensa e organizações de ajuda humanitária de que o governo israelense está implementando gradualmente no norte de Gaza uma estratégia de "render-se ou morrer de fome", também conhecida como "plano do general".

O plano foi proposto por um grupo de oficiais superiores reformados, liderados pelo major-general aposentado Giora Eiland, ex-conselheiro de segurança nacional. De acordo com relatos da mídia israelense, o gabinete israelense discutiu recentemente várias opções, mas ainda não está claro se alguma delas foi adotada.

A estratégia teria o objetivo de forçar o Hamas e seu líder, Yahya Sinwar, a se renderem, ao pressionar a população remanescente no norte. Há muito tempo, Israel acusa o Hamas e outros grupos militantes de se esconderem entre a população. De acordo com o plano, civis seriam obrigados a sair por corredores de evacuação no sul de Gaza, e a parte norte seria formalmente isolada. Qualquer pessoa que permanecesse seria considerada um combatente inimigo, e todos os suprimentos seriam bloqueados, em um cerco completo.

O jornal israelense de esquerda Haaretz noticiou nesta semana que altos funcionários da defesa indicaram que a liderança política do país está pressionando pela anexação de partes da Faixa de Gaza. Isso ocorre em meio a novos pedidos de políticos e ministros de ultradireita para o reassentamento em Gaza.

Grupos de ultradireita anunciaram uma grande reunião nos próximos dias para "treinar" o reassentamento em Gaza. No entanto, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu negou qualquer plano para permitir a entrada de colonos israelenses no território palestino.

Embora não esteja claro se os militares adotaram algum componente do plano em sua invasão atual, autoridades das Nações Unidas soaram o alarme.

"Desde 1º de outubro, as autoridades israelenses têm cortado cada vez mais o acesso a suprimentos essenciais no norte de Gaza", disse Muhannad Hadi, coordenador humanitário para o Território Palestino Ocupado, em um comunicado no domingo. A declaração acrescentou que as operações militares forçaram o fechamento de padarias, postos médicos e abrigos, enquanto "hospitais registraram um fluxo de feridos por trauma".

Para pessoas como Tawfik, sobreviver a essa última incursão israelense é tudo o que importa. "Essa invasão é mais difícil do que a anterior", disse. "Não temos mais energia. Estamos completamente exaustos. Estamos lutando constantemente para nos mantermos vivos e não enlouquecer."
Tania Krämer

Destruir, o mandamento

O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes

George Orwell

Usando o Manual de Gaza no Líbano

Perpetuar mentiras israelenses é perigoso, não apenas porque dizer a verdade é uma virtude, mas também porque palavras matam, e reportagens desonestas podem, de fato, justificar o genocídio.

A versão oficial do exército israelense sobre o motivo de ter atacado áreas civis durante o intenso e mortal bombardeio de 20 de setembro no sul do Líbano é que os libaneses estão escondendo lançadores de mísseis de longo alcance em suas próprias casas.

Esta explicação oficial do exército israelense tinha como objetivo justificar a morte de 492 pessoas e o ferimento de 1.645 em um único dia de ataques israelenses.

Esta explicação pronta para servir nos acompanhará durante toda a guerra israelense no Líbano, não importa o tempo que leve. A mídia israelense agora está citando pesadamente essas alegações e, por extensão, a mídia dos EUA e ocidental estão seguindo o exemplo.


Tenha isso em mente ao refletir sobre declarações anteriores feitas pelo presidente israelense Isaac Herzog em 13 de outubro, quando ele argumentou que não há civis em Gaza e que "há uma nação inteira lá fora que é responsável".

Israel faz isso em todas as guerras que lança contra qualquer nação palestina ou árabe. Em vez de remover civis e infraestruturas civis de seu banco de alvos, ele imediatamente transforma a população civil nos principais alvos de sua guerra.

Uma rápida olhada no número de civis mortos na guerra e no genocídio em andamento em Gaza deveria ser suficiente para demonstrar que Israel tem como alvo pessoas comuns como algo natural.

De acordo com o Ministério da Saúde Palestino em Gaza, crianças e mulheres constituem a maior porcentagem de vítimas da guerra, 69 por cento . Se levarmos em conta o número de homens adultos que foram mortos — um número que inclui médicos, paramédicos, trabalhadores da defesa civil e várias outras categorias — ficará óbvio que a vasta maioria de todas as vítimas de Gaza são civis.

Somente a mídia israelense e seus aliados no Ocidente continuam a encontrar justificativas para o motivo pelo qual civis palestinos, e agora libaneses, estão sendo mortos em grande número.

Compare as duas declarações a seguir, que receberam muita atenção na mídia, do porta-voz militar israelense Daniel Hagari, sobre Gaza e o Líbano.

“O Hamas usa sistematicamente hospitais para travar guerras e usa consistentemente o povo de Gaza como escudos humanos”, disse Hagari em 25 de março.

Então, “a sede terrorista do Hezbollah foi construída intencionalmente sob prédios residenciais no coração de Beirute, como parte da estratégia do Hezbollah de usar escudos humanos”, disse ele em 27 de setembro.

Para aqueles que estão dando o benefício da dúvida a Hagari, basta rever o que aconteceu em Gaza no ano passado.

Por exemplo, Israel alegou que o massacre do Hospital Batista Al-Ahli não foi obra sua, e que foi um foguete palestino que matou quase 500 refugiados deslocados e feriu centenas de outros em 17 de outubro.

Todas as evidências, incluindo investigações de grupos de direitos humanos muito respeitados, concluíram o oposto. Ainda assim, no entanto, as falsas alegações israelenses receberam muita cobertura na mídia.

O episódio do Hospital Batista foi repetido inúmeras vezes. Na verdade, as mentiras começaram em 7 de outubro, não em 17 de outubro, quando Israel fez alegações sobre bebês decapitados e estupro em massa. Embora muito disso tenha sido provado conclusivamente como errado, alguns na mídia e autoridades pró-Israel continuam a falar disso como um fato comprovado.

E embora nenhuma sede do Hamas tenha sido encontrada sob o Hospital Al-Shifa, as alegações israelenses infundadas continuam a ser repetidas como se fossem toda a verdade.

A mesma lógica está sendo aplicada agora ao Líbano, onde Israel alega que não tem civis como alvos e, quando civis são mortos, são os próprios libaneses que devem ser culpados por supostamente usar civis como escudos humanos.

O manual de Gaza é agora o manual do Líbano. Claro, muitos estão jogando junto, não porque sejam irracionais ou incapazes de chegar a conclusões adequadas com base nas evidências óbvias. Eles fazem isso porque são parte da narrativa israelense, não contadores de histórias neutros ou repórteres honestos.

Até mesmo a BBC faz parte dessa narrativa, pois usa as alegações israelenses como ponto de partida para qualquer conversa sobre a Palestina ou o Líbano. Por exemplo, "Israel disse que realizou uma onda de ataques preventivos no sul do Líbano para frustrar um ataque de foguetes e drones em larga escala pelo Hezbollah", informou a BBC em 26 de agosto.

Israel consegue escapar impune de suas mentiras sobre os assassinatos em massa em Gaza, e agora, infelizmente, no Líbano, porque a propaganda israelense é bem-vinda, na verdade, abraçada por autoridades e jornalistas ocidentais.

Assim, quando o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, descreveu os ataques aéreos de 20 de setembro no Líbano como “justiça feita”, ele estava indicando à grande mídia que sua cobertura deveria permanecer comprometida com essa avaliação oficial.

Imagine a indignação se a situação fosse invertida, como milhares de civis israelenses sendo massacrados em suas próprias casas por bombas libanesas. Não haveria necessidade de elaborar sobre as reações da mídia dos EUA ou ocidental, pois isso deveria ser óbvio para qualquer um que esteja prestando atenção.

O Líbano é um estado árabe soberano. Gaza é um território ocupado, e seu povo é protegido sob a Quarta Convenção de Genebra. Nem as vidas libanesas nem palestinas são sem valor, e seu assassinato em massa não deve ser permitido por nenhuma razão, especialmente com base em mentiras absolutas comunicadas por um porta-voz militar israelense.

Perpetuar mentiras israelenses é perigoso, não apenas porque dizer a verdade é uma virtude, mas também porque palavras matam, e reportagens desonestas podem, de fato, justificar o genocídio.
Ramzy Baroud, editor do The Palestine Chronicle

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Formamos guerreiros políticos, não democratas

Há mais de 30 anos, a cada semestre recebo uma nova turma de alunos de 20 e poucos anos. Sou professor de comunicação política e, como a realidade tem sido nosso melhor laboratório, discutimos frequentemente a turbulenta e alucinada política nacional.

Em uma dessas conversas, sobre a radicalização do debate político no país, uma estudante reagiu com ceticismo ao meu julgamento, indagando com sinceridade: "Mas política não é sempre guerra e polarização?". Como outros alunos imediatamente concordassem, comecei a explicar que não é bem assim.

As sociedades democráticas são, sim, espaços de divergência, mas não de conflito aberto. A política envolve negociação e compromisso, e certo grau de consenso é essencial para projetos políticos comuns. O nível de intolerância, polarização e dogmatismo que atingimos recentemente não é inevitável, mas resultado de escolhas que fazemos como sociedade.


Como olhos e sorrisos, entre céticos e surpresos, acompanharam a minha explicação, o surpreendido fui eu. Como é que jovens, que estão apenas começando a entender a política de forma madura, mas já mais engajados do que gerações anteriores, normalizaram atitudes que praticamente inviabilizam o país e tornam nossa democracia mais vulnerável?

A resposta é simples, basta fazer as contas. Em 2013, quando o Brasil entrou em surto político, esses alunos tinham entre oito e nove anos. Quando a extrema direita começou a crescer no mundo, eles tinham 11 ou 12. Quando Bolsonaro assumiu, completavam 15 anos. Como poderiam ter outra noção de normalidade política se, desde que se entendem por gente, só viram conflitos abertos entre grupos que se comportam como facções, sectarismo, dogmatismo, ódio autorizado e a luta pela superioridade moral?

São pelo menos 11 anos em que a mensagem política dominante é: "Estamos em guerra, escolha um lado e lute pela sua sobrevivência". Formamos uma geração inteira de guerreiros e depois queremos que eles negociem democraticamente diferenças, usem razão e boa vontade para mediar divergências, entendam que chegar a compromissos com adversários e engolir alguns sapos em nome da tolerância são valores da democracia?

Meninos e meninas mal acordam para a política e extremistas de direita, progressistas identitários e radicais de esquerda lhes enfiam um fuzil na mão: "Vocês agora são guerreiros da justiça, identifiquem seus inimigos, atirem primeiro, argumentem depois". E, claro, todo o conhecimento de que precisam será entregue por transfusão digital, já mastigadinho por líderes e influenciadores tribais; é só engolir. Não é muito: dez dogmas condensam toda a crença necessária para formar um bom soldadinho político ou, com tintas mais nobres, um ativista empenhado em fazer do mundo um lugar melhor.

Além da fragmentação ideológica e do ódio entre grupos, a nova geração logo descobre que o slogan dos anos 60, "o pessoal é político", se materializou por completo. Todas as dimensões da vida são consideradas questões políticas em pé de igualdade com as discussões sobre políticas públicas ou questões de Estado. A distinção moderna entre o íntimo, o privado e o público desapareceu. Tudo voltou a ser público, até a intimidade. Principalmente ela.

Se tudo é política e política é guerra, todo mundo é militante e todo militante é um combatente. Se for militar, que venha armado.

Em um quadro como esse, como esperar que tolerância, pluralismo e respeito ao melhor argumento ainda sejam valores para essa nova geração?

Vocês não imaginam a aflição dos alunos quando proponho que o Brasil político seja visto como uma sala de aula, onde metade da turma não suporta a outra metade e aprendeu que precisa odiá-la do fundo do coração, mas, mesmo assim, ninguém vai sair. E agora? É possível conviver com quem você considera fascista, transfóbico, machista, gayzista, feminazi, comunista, ultraconservador ou esquerdista?

Para alguns, isso soa como o inferno, mas é o início da democracia. Mas como convencê-los desse fato se até agora aprenderam que o lado que tem razão, o próprio lado, tem o direito de ficar sozinho na sala e que o mundo não será justo até que isso aconteça?

Como ensinar essa geração a sair do abismo em que a colocamos se a litania que aprenderam a recitar todos os dias repete, como prece: "O inimigo não se normaliza, se odeia", "o outro lado deve ser convertido ou destruído", "se temos razão, não há que escutar o outro lado", "se ameaça a minha existência, eu serei resistência"?

Formamos guerreiros políticos, não democratas.

Céu e inferno

 Katharsis, Orozco

Para satisfazer otimistas e pessimistas, podemos concluir dizendo que estamos no limiar do céu e do inferno, movendo-nos nervosamente dos portões de um para a antessala do outro. A história ainda não se decidiu sobre nosso destino, e uma série de coincidências ainda pode nos colocar em uma ou outra direção.

Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"

Guerras, clima, covid e dívidas travam esforços antipobreza

Um relatório do Banco Mundial divulgado nesta terça-feira afirma que, prevalecendo as tendências atuais, o mundo levará mais de três décadas para melhorar as condições de vida de quase 700 milhões que vivem em situação de pobreza extrema no mundo.

No relatório Pobreza, prosperidade e planeta 2024, o Banco Mundial avalia que os grandes revezes dos últimos anos – guerras, crise climática, endividamento e a pandemia de covid-19 – tornaram inatingíveis as metas das Nações Unidas de pôr fim à pobreza extrema até 2030. É considerado em pobreza extrema quem vive com menos de 2,15 dólares (R$ 12,14) por dia.


A taxa de pobreza global caiu de 38% em 1990, para 8,5% em 2024, em grande parte devido ao rápido crescimento econômico na China, Por outro lado, , a taxa de progresso está estagnada desde 2019. A expectativa é que até 2030 esse dado diminua apenas modestamente, para 7,3%.

A pobreza extrema permaneceu concentrada em países com crescimento econômico historicamente baixo e altos níveis de fragilidade, muitos dos quais na África Subsaariana.

"A redução da pobreza global diminuiu até quase parar, com o período entre 2020 e 2030 prestes a se tornar uma década perdida", revela o relatório.

O diretor-gerente chefe do Banco Mundial, Axel van Trotsenburg, observou que, após décadas de progresso, o mundo enfrenta "graves retrocessos na luta contra a pobreza global, devido aos desafios interligados que incluem crescimento econômico lento, pandemia, dívida alta, conflitos e fragilidade, e choques climáticos."

"Precisamos de um manual de desenvolvimento fundamentalmente novo, se quisermos realmente melhorar a vida e os meios de subsistência humana e proteger nosso planeta", disse Trotsenburg.

De acordo com o estudo, seria necessário mais de um século para o mundo atingir o objetivo ainda mais ambicioso de aumentar as rendas para mais de 6,85 dólares por dia, considerados como o limite de pobreza para países de renda média alta como Brasil, Argentina e China, cuja renda per capita está entre 4.466 e 13.845 dólares por ano.

Quase a metade da população mundial – 3,5 bilhões ou 44% – vive com menos de 6,85 dólares por dia. Segundo o relatório, o contingente nesse patamar de pobreza pouco mudou desde 1990, em razão do crescimento populacional.

Pobreza, prosperidade e planeta 2024 ressalta que também houve poucos avanços em termos de redução da desigualdade. Ao mesmo tempo que o número de países com diferenças particularmente grandes entre ricos e pobres havia diminuído de 66 para 49 na última década, dos habitantes de países com alto nível de desigualdade permaneceu inalterada, em 22%. A maior parte de deles estão na América Latina, Caribe e África Subsaariana.

"Quase uma em cada cinco pessoas no mundo está propensa a enfrentar um impacto climático grave em sua vida, do qual teria dificuldade para se recuperar. Na África Subsaariana, quase todos os expostos a eventos climáticos extremos estarão sob risco de sofrer perdas de bem-estar devido a sua vulnerabilidade", afirma o Banco Mundial.

Além disso: "A futura redução da pobreza demanda um crescimento econômico menos intensivo em termos de emissões de carbono do que no passado."

Aquilo que eles não querem que se saiba

Retomo a reflexão com que terminei a newsletter da última semana: para um crente das teorias da conspiração, perdido nas suas paranoias, a maquinação que realmente se desenrola à frente dos seus olhos será a última em que irá reparar.

Pensemos num cenário digno da mais distópica obra de ficção científica. O homem mais rico do mundo controla a maior constelação de satélites do planeta, capaz de enviar e receber dados dos locais mais recônditos do globo. De caminho, está também cada vez mais perto de ter uma posição monopolista no acesso ao espaço, através da sua empresa aeroespacial.

Cá por terra, outra empresa sua fabrica e comercializa automóveis elétricos conectados à Internet, opera a sua própria rede de abastecimento, aventura-se na exploração do futuro dos transportes coletivos e promete agora robôs humanoides, capazes de substituir um trabalhador, para daqui a um par de anos.


Outra companhia sua explora o tão promissor quanto intrigante mundo da inteligência artificial. E outra das suas empresas desenvolve e testa já implantes em cérebros humanos.

O homem mais rico do mundo controla também a rede social mais influente do mundo (não a das dancinhas virais, mas aquela que políticos de todo o mundo privilegiam para chegar ao público), manipulando-a para elevar vozes amigas, censurando notícias e tópicos desagradáveis, e transformando-a no seu megafone particular, forçando quem o segue e quem não o segue a ler os seus escritos e piadas. É que o homem mais rico do mundo é também o mais sedento de atenção e elogio.

Por vezes, um qualquer país chateia-o porque alguém escreveu na sua rede social uma daquelas coisas que são desagradáveis, e pede-lhe para apagar o escrito e denunciar o seu autor. O homem mais rico do mundo, que quer ser conhecido como um corajoso combatente pela liberdade de expressão, começa por fazer um número de indignação em público mas acaba sempre por ceder discretamente aos pedidos nacionais, sejam de países vagamente democráticos ou de ditaduras descaradas. Há que pensar na abertura ou manutenção de importantes mercados para as suas empresas.

Mas todo este poder não basta ao homem mais rico do mundo, que se atira agora à conquista da capital do país mais rico do mundo. Nascido fora do dito país, está constitucionalmente impedido de o presidir. Decide então apoiar um candidato presidencial, aparecendo com ele em palco num comício financiando comités que por ele fazem campanha, e transformando a tal rede social num permanente tempo de antena a seu favor. E o candidato, esse, até já lhe prometeu um lugar no Governo, num oportunamente abstrato comité de controlo da despesa, porque não há almoços grátis.

Na rede social do homem mais rico do mundo, a realidade é manipulada para ajudar o seu candidato a vencer as eleições. Diz-se que a economia do país está muito má, quando não está assim tão má. Que nunca houve tanto crime, quando este até está em queda. E que quase todos os males da nação são culpa dos estrangeiros, quando a verdade é sempre mais complexa. O homem mais rico do mundo também veio do estrangeiro, mas transformou-se, entretanto, num xenófobo no país que o acolheu.

Diz-se muitas outras coisas incríveis nessa rede social, como que os estrangeiros andam a roubar cães e gatos para os comer, ou que os socorristas que tentam auxiliar as populações atingidas por furacões gastaram o dinheiro todo com os imigrantes. Ou, pior ainda, que os socorristas estão a prender e a matar pessoas para as impedir de votar.

Diz-se também que o candidato do homem mais rico do mundo, também ele bastante rico, é o candidato dos trabalhadores, dos desfavorecidos, das vítimas dos outros ricos e poderosos. E partilham-se imagens e vídeos gerados por ferramentas de inteligência artificial para dar vida ao que não existe, para ilustrar a narrativa.

Na rede social do homem mais rico do mundo, quem tenta desmentir ou corrigir os disparates é atacado por uma turba de crédulos – que até podem não acreditar sempre no que leem, mas que dizem que se não aconteceu, caramba, podia muito bem ter acontecido. É que o homem mais rico do mundo avisou que não se pode confiar nos políticos, nos jornalistas, nos cientistas, nos meteorologistas, nos médicos ou em qualquer outra figura outrora investida de alguma autoridade. Só ele e os seus amigos é que são de confiança.

Uma história assim, sobre dinheiro e poder, sobre implantes cerebrais, 7000 satélites, robôs humanoides, algoritmos manipulados e uma eleição comprada, podia ter tudo para ser um sucesso entre os amantes das conspirações. Mas falta-lhe um ingrediente-chave: o secretismo, o fator “aquilo que eles não querem que se saiba”, o friozinho na barriga de quem julga ter desvendado um mistério nas profundezas do YouTube.

É que esta história acontece às claras. Tão às claras que escapa a quem vive de rosto mergulhado no visor do celular e prefere acreditar em cabalas de canibais pedófilos, em chips injetados por vacinas, em antenas 5G que matam pessoas, em elites que nos querem obrigar a comer insectos e em minorias que nos querem substituir por estrangeiros.

Vendo bem, até parece que essas historietas foram criadas para distrair alguém, não é?

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


O poderoso chefão

É mais proveitoso para o detentor do poder se suas vítimas são inimigos; de qualquer modo, os amigos produzem resultado semelhante. Em nome de virtudes varonis, exigirá o mais difícil, o impossível, de seus súditos. Não lhe importa que estes sucumbam na execução da tarefa. É capaz de convencê-los de que é uma honra fazê-lo por ele. Através de rapinagens, cujo produto permite-lhes de início desfrutar, ele os ata a si. Servir-se-á então da voz de comando, a qual foi como que talhada para seus objetivos (não podemos, contudo, encetar aqui uma discussão detalhada dessa voz de comando, que é de extrema importância). É assim que, se entende do que faz, fará deles massas belicosas, incutindo-lhes ideias sobre a existência de tantos inimigos perigosos que, por fim, seus seguidores não poderão mais abandonar a massa de guerra que compõem.


Mas a real intenção de um verdadeiro detentor do poder é tão grotesca quanto inacreditável: ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que ninguém sobreviva a ele. Quer furtar-se à morte a todo custo; assim, não deve haver ninguém, absolutamente ninguém, que possa matá-lo. Jamais se sentirá seguro enquanto homens, quaisquer que sejam, continuarem existindo. Mesmo seu corpo de guarda, que o protege dos inimigos, pode voltar-se contra ele. Não é difícil provar que sempre teme secretamente aqueles a quem dá ordens. Sempre o assalta, também, o medo dos que lhe estão mais próximos.

Elias Canetti, "A consciência das palavras"

Emissões de metano da carne e lacticínios rivaliza com 100 maiores empresas de combustíveis fósseis

Um novo relatório publicado pelo Greenpeace Nórdico estimou que as emissões de metano de 29 empresas do setor da carne e lacticínios rivalizam com as das 100 maiores empresas mundiais do setor dos combustíveis fósseis para a emissão do gás. E aponta que mudanças sistemáticas na produção e no consumo em países de renda média e alta poderiam proporcionar um efeito de arrefecimento significativo até 2050, com alguns resultados positivos já em 2030.

Em contrapartida, se não for regulamentado, a projeção é que o setor de produção de carne e lacticínios, sozinho, aqueça o mundo em mais 0,32°C até 2050. As novas projeções baseiam-se no cenário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) para uma trajetória de manutenção do ritmo atual de produção até 2050.

Atualmente, os cinco maiores emissores de metano do setor da carne e lacticínios são JBS, Marfrig, Minerva, Cargill e Dairy Farmers da América, segundo o relatório. As emissões dessas empresas superam as emissões combinadas de metano dos grandes gigantes dos combustíveis fósseis como a ExxonMobil, Shell, Total Energies, Chevron e BP.


A produção global de carne e lacticínios é impulsionada por uma série de grandes empresas e segue crescendo como se não existisse amanhã. No Brasil, pastagens ocupam cerca de  90% da área desmatada na Amazônia até 2023, segundo o Mapbiomas, e o relatório do Greenpeace Nórdico mostrou como as emissões de metano da pecuária rivalizam com as da indústria de combustíveis fósseis (para metano).

Segundo o relatório, a JBS, o maior produtor de carne do mundo, e conhecida por seu péssimo histórico de envolvimento com o desmatamento, é responsável por mais emissões de metano do que a ExxonMobil e Shell juntas. De fato, a empresa ocuparia o 5º lugar em comparação com as maiores empresas emissoras de metano no setor de fósseis.

Mudanças na forma e intensidade da produção de carne e laticínios é um passo crucial para mitigar as emissões de metano e desacelerar o aquecimento global – e a maneira mais eficaz de fazer isso é fazer a transição para um sistema de produção de alimentos que seja muito mais justo para nós, os animais e o planeta. 

Portanto, precisamos cortar o metano tanto das grandes empresas de criação de animais, como das grandes empresas petrolíferas. Embora a diminuição das emissões de metano possa reduzir o ritmo do aquecimento global, segue sendo essencial eliminar gradualmente a emissão de CO2 , produzido em grande parte devido ao uso de combustíveis fósseis. Só assim poderemos para lidar com o caos climático e estabilizar o clima. 

O agronegócio, que inclui a indústria de carnes e laticínios, vem deixando um rasto de destruição em todo o planeta, contribuindo fortemente para a crise climática, sendo as emissões de metano uma parte significativa do problema. Na questão do clima, o setor agropecuário precisa ser visto também como parte do problema, e ser chamado a reduzir drasticamente suas emissões. 

Neste sentido, governos ao redor do mundo (incluindo o Brasil) devem: a) atuar a partir de leis e metas oficiais para reduzir as emissões da agropecuária, incluindo o gás metano; b)obrigar as empresas a reportar publicamente sobre suas emissões; c) introduzir políticas para reduzir o consumo exagerado de proteína animal incentivando dietas mais sustentáveis, d) fomentar uma transição ecológica justa, e dentre as ações, deve estar o redirecionamento de fundos.

A dança da chuva

Era uma vez um nativo, à bordo do seu carrinho, às margens da estrada Manaus-Manacapuru, vendo um esquadrão de bombeiros assistindo, todos perplexos, à floresta amazônica começar a pegar fogo… sozinha! “Combustão espontânea?”, gritou um bombeiro. “Isso só acontece em filmes!”, disse outro. Mas ali estava ela, a floresta um dia chamada de úmida, agora se incendiando do nada. Os bombeiros, impotentes, sugeriram ligar para as universidades. “Precisamos da ajuda científica in-ter-na-ci-o-nal!” Um pesquisador respondeu: “Se tivermos mais dois verões assim, nem restará floresta para nós estudarmos!” O esquadrão, atônito, concordou. Restava apenas torcer, orar e fazer a Dança da Chuva, dos índios americanos….

E não me venham com a velha lenga-lenga de que o caboclo está tocando fogo para plantar ou fazer campo pra gado.

A floresta, antes conhecida por sua umidade constante e por abrigar uma biodiversidade incomparável, agora está se tornando mais seca a cada ano, com temperaturas mais altas e uma redução alarmante nos índices de chuva. As árvores, que antes eram um dos maiores sumidouros de carbono do planeta, estão agora vulneráveis a incêndios frequentes, muitas vezes iniciados por atividades humanas, mas que, dadas as condições atuais, parecem surgir de forma quase mágica. A “combustão espontânea” da floresta, embora seja um termo figurado, representa bem o que muitos cientistas têm alertado: a Amazônia pode estar caminhando para um ponto de não retorno.


O esquadrão de bombeiros à beira da estrada, atônito, representa a nossa impotência diante desse cenário. Eles estão ali, mas não sabem como agir. Afinal, como combater um incêndio que parece brotar da própria terra? No fundo, eles sabem que a solução não está apenas na água e nas mangueiras, mas nas mãos dos cientistas e na colaboração internacional para entender e mitigar as causas desse desastre ambiental.

A situação atual da Amazônia requer ação imediata e uma mobilização massiva da comunidade científica internacional. É imperativo colocar os institutos de pesquisa para trabalhar. Precisamos de soluções baseadas em ciência e tecnologia, e isso só será possível com a união de universidades e centros de pesquisa do Brasil e do mundo. Instituições com grande poder de pesquisa, como as universidades federais e estaduais do país, além de centros internacionais de excelência, devem ser envolvidas nesse esforço.

Os cientistas precisam investigar as mudanças climáticas que estão intensificando a seca na Amazônia e aumentar o monitoramento sobre o uso da terra. O desmatamento desenfreado, a conversão de áreas florestais em pastagens e a extração ilegal de madeira são fatores que tornam a floresta ainda mais vulnerável ao fogo. A presença de grandes áreas desmatadas cria uma espécie de “efeito dominó”, onde incêndios florestais se espalham com maior facilidade, devastando o que resta de mata nativa. E, no ritmo em que estamos, a Amazônia pode não resistir a mais dez verões severos como os que temos enfrentado. No Amazonas, o programa “COMPANHEIROS DAS AMÉRICAS”, em que o Amazonas é o estado irmão do Tennessee, as duas universidades estaduais poderiam começar uma colaboração, pois o know-how do estado americano, em barragens e plantações de várzeas, é um dos maiores do mundo.

Além da questão climática, há também a falta de fiscalização e políticas públicas efetivas que inibam a destruição da floresta. Sem controle, os incêndios — espontâneos ou não — continuarão a se proliferar. Um ponto crucial é a necessidade de criar mecanismos eficazes de prevenção de incêndios e educação ambiental para as populações locais e os produtores rurais.

As universidades brasileiras, com sua vasta capacidade de pesquisa, são um ativo inestimável nesse processo. Contudo, precisamos também de ajuda externa. As parcerias com universidades estrangeiras, especialmente aquelas especializadas em clima e biomas tropicais, podem trazer novas tecnologias e abordagens inovadoras para salvar a floresta. A cooperação internacional é essencial, porque a Amazônia não é só brasileira — ela é patrimônio da humanidade.

Se não agirmos agora, a floresta amazônica pode se transformar, em poucos anos, de um santuário exuberante em um deserto carbonizado. A situação pode até parecer absurda, como um esquadrão de bombeiros assistindo impotente à “combustão espontânea” da floresta, mas não podemos subestimar os sinais de alerta que a natureza nos envia. Se continuarmos negligenciando a Amazônia, ela realmente poderá começar a “pegar fogo do nada”, e nesse momento, não haverá: nem curupira, nem bombeiro, nem mangueira, nem ciência capaz de reverter o estrago.

A floresta, esse bebê abandonado, precisa de cuidados urgentes, e nós, como sociedade, devemos nos unir para impedir que o futuro da Amazônia seja um triste conto de cinzas.

Guerras sem paz

1.O Irão não sabe quando será atacado por Israel, em resposta aos 200 mísseis que lançou no início de Outubro e que poderiam ter causado milhares de mortos, não fosse a Cúpula de Ferro israelita. Uma coisa Teerão sabe: os americanos vão enviar uma bateria de mísseis antibalísticos THAAD, e, para abreviar razões, seguirão com cerca de uma centena de soldados americanos para operar o sistema. Por aqui já se adivinha que o ataque estará para breve. O sistema THAAD é composto por várias partes, incluindo um lançador, interceptores (mísseis), radar e uma unidade de controlo de combate. A bateria tem 6 lançadores, o que significa que 48 mísseis estão disponíveis para cada interceptação, e uma equipa muito experiente consegue recarregar em 30 minutos. Acrescentada mais esta camada defensiva à Cúpula, só falta a ordem final do primeiro-ministro israelita. Aqui há várias guerras.


2. A 21 dias das eleições presidenciais americanas, mantém-se tudo em aberto. Kamala continua com vantagem na intenção de voto a nível nacional, mas Trump está a consolidar a primeira posição em estados decisivos para o Colégio Eleitoral. Ao dia de hoje, Trump está em melhor situação do que estava em 2016 e em 2020. O ex-presidente foi à Califórnia fazer um comício gigante, só para irritar Kamala no seu próprio estado, tradicionalmente democrata. Há preocupação pelo mundo fora: um presidente em último mandato pode fazer (quase) tudo o que lhe passa pela cabeça, e a de Trump está em permanente curto-circuito. Se é que existe. Se é que tem alguma coisa lá dentro. Aqui não há paz.