segunda-feira, 29 de julho de 2024

A ilusão brasileia

O país onde se nasce enseja uma visão utópica. Não há isenção na hora de defini-lo. Abordo o Brasil com cuidados. Acerto e me equivoco. Mas pouco importa. Quem acertaria lidando com um país que ostenta tal magnitude, com um território que ao sobrevoá-lo corre-se o risco de se pensar no Caribe, mas ainda se está dentro de suas fronteiras. E que a despeito desta desmedida, não sofre turbulências linguísticas. Com o privilégio de ser mestiço. No corpo e na memória sincrética. Uma mestiçagem que vai além dos corpos, pois tingiu a alma e devora as entranhas da sua cultura, que é insidiosa e esplêndida, como deve ser.

O Brasil é um amálgama de todos seres e saberes. Entre tantas etnias, somos fundamentalmente ibéricos, filhos da imaginação portuguesa e espanhola. Herdeiros de um universo impregnado de ficção, do faz-de-conta, de peculiar noção de realidade. De uma realidade que, concebida como uma invenção pessoal, cada qual narra segundo seus desígnios. Propensos nós, por conta de uma vocação individualista, a opor-se aos projetos coletivos, às organizações sociais programadas para durar. Com exceção talvez da construção acelerada da capital Brasília, que corresponde às pirâmides do Egito.

O realismo átrio é pautado em geral por forte dose de fantasia. Assim, inventar como fantasiar fazem parte da índole social. Daí agradar-nos aparentar o que não somos, exibir o que nos falta, simular a posse de bens que não temos; pedimos emprestados ao vizinho. Como consequência, proclamamos, eufóricos, que somos amigos do rei, do presidente, comensal do prefeito da cidade. E para ostentar um valor que não temos, tiramos com facilidade do bolso do colete um nome famoso, insinuando intimidade com ele.

Esta dança de aparência e exibição há muito instalou-se entre nós. Somos cortesãos com gosto. O poder é o mel das nossas vidas. Originou-se de variadas etnias, mas especialmente da península ibérica, e prosperou na alma brasileira antes de existirmos como nação. Um comportamento social que nos leva a inquirir sobre a nossa gênese.

Até mesmo os intérpretes brasileiros, que se aventuraram a definir nossa índole brasileira, que tão bem espelha a nossa conduta pública e privada, não puderam assegurar-nos de que linhagem originamo-nos, e o que nos une e nos separa. Ou excursionar com as mãos apalpando o horizonte o que é puramente do âmbito do mistério. Ou mesmo dizerem com exatidão onde se resguarda a matriz do nosso ser. Dizerem por meio das vozes canônicas e populares o que significava ser brasileiro ao longo do século XIX ou não se reconhecer brasileiro nas turbulências do século XXI.

Acaso ser brasileiro, um desígnio que cobre o território nacional, do norte ao sul, portanto oito milhões de quilômetros quadrados, é simplesmente nascer dentro deste território, ou mesmo a beira do oceano Atlântico, já que somos donos das duzentas milhas marítimas? É nascer em um lugar molhado ou seco, que não se vê no mapa nem com lupa? Uma aldeia à margem da civilização, que a mãe, após parir o filho, inventou para assegurar-lhe que embora tivesse vindo ao mundo em um grotão era um brasileiro? Enquanto enchia-lhe a cabeça com devaneios, lendas, narrativas, afim de garantir-lhe certidão de nascimento e humanidade.

Ser brasileiro então é termos epiderme e alma mestiças, resultantes das andanças humanas pelo mundo? Apresentar-se às autoridades municiado do documentos onde está consignada a filiação? Como nome dos pais, data de nascimento, dados enfim que se incorporam a estatística e controlam a cidadania? De que etnia procede seu cabelo, se é fino, encrespado, enquanto o nariz tem narinas dilatadas, de origem bantu, e outros o apêndice curvado para indicar procedência semítica. Etnias que de nada servem aos brasileiros, vale mesmo é ser parte de todas as tribos, proclamar-se filho das andanças humanas pelo mundo.

Acaso ser brasileiro é ter idiossincrasias similares, paixões que se igualam, temperamentos que acenam com a mesma bandeira nacional onde está inscrito o dístico Ordem e Progresso? Nordestinos que padecem da sede e sulistas que se perdem nos pampas, tomando chimarrão como se fossem argentinos?
É-se brasileiro pela língua que se fala no lar, na cama, na via pública? Independente do sotaque que cada região ostenta. Um anasalado, outro mais gutural, outro mais afunilado. Mas cada sotaque soando como música aos ouvidos de quem se emociona com a fragmentação das características. Uma língua vinda de Portugal há mais de quinhentos anos. E que se tornou a língua dos quebrantos, dos desejos eróticos, da eloquência parlamentar, dos sentimentos recônditos. A língua dos amantes e da poesia. Mas também dos guerreiros, dos corruptos que hoje são tantos no território nacional, sobretudo na capital do país, dos ditadores que foram expulsos a partir da implantação democrática em 1988, dos vândalos, dos supliciados de outrora e dos que ainda padecem nas mãos dos que têm poder. Também dos astuciosos, mentirosos, dos falsos donos das palavras, dos doutrinários inescrupulosos que nos tempos atuais, da tribuna da capital, nos ludibriam a pretexto de nos servir. A língua dos vencedores, dos pecadores. Dos que pedem perdão sabendo que incorrerão de novo na mesma culpa.

Há tantas maneiras de ser brasileiro. É rir confrontado com o ridículo que atribuímos ao vizinho como causador da situação constrangedora. Rir para que apreciem o nosso humor. É chorar quando a dor é pública e o nosso pranto prova a excelência do nosso caráter, como somos sensíveis diante da dor alheia. É abraçar quem sofre como se a manifestação de pesar assegurasse ao outro que seríamos eternamente solidários.

Ser brasileiro é dilacerar as cordas vocais na hora do gol, como modo de levarmos a ilusão para casa e com ela enfrentar a semana entrante a despeito do transporte, das dívidas que se acumulam, da educação precária dos filhos, da moradia que um temporal derruba matando dois ou três familiares. É beber a cerveja que o vulgo e a emoção chamam de loura gelada, como se estivessem se referindo quem sabe à loira Marilyn Monroe, criando com a garrafa um vínculo erótico. De forma que busquemos similitudes em torno da mesa e transfiramos para mais tarde as divergências que nos apartem. Já que convém esquecer que são escassos os recursos que nos une. É dizer piadas que atraiam a plateia de vizinhos, tendo como sujeito da nossa crueldade alguém que era necessário castigar. Um gay, por exemplo, um travesti, uma prostituta. Não há piedade em qualquer nação.

Aparentamos, então, ser cervantinos, somos brasileiros como quando abraçamos quem está próximo, o vizinho na hora do gol que decide a partida, fortalecidos pela esperança de vencer os embates da semana entrante. Como quando, emotivos e vulgares, sorvemos a cerveja que cristaliza similitudes em torno da mesa e transfere para o futuro as divergências que ora nos apartam.

Ser brasileiro é aceitar o mistério, convencido de que sendo Deus brasileiro, cabe-lhe solucionar os nossos conflitos. É saber que o Brasil é nossa morada e alojamento dos nossos mortos, e que nada nos faltará. Nem teto, nem a sopa fumegante. A vida supre-nos com sol, sal, alegria e a esperança dos dias vindouros.

Afinal, nos trópicos brasileiros as colheitas se multiplicam como nas bodas de Canaã. É a terra que Pero Vaz de Caminha, em 1500, assegurou ao rei Dom Manuel, em Lisboa, que aqui o que se plantasse, vingaria. Assim nasceram as bananas da infância junto com o fausto do verbo da língua lusa portuguesa. Para nós, cidadãos, é uma espécie de paraíso que bonifica a memória tanto com lembranças como com o esquecimento. Pois temos a propriedade de esquecer o que convém apagar. Também a transcendência, a despeito dos cultos sincréticos, e Deus estar em todos os lugares, não prospera e o enigma não é respeitado. Não há, pois, vocação filosófica, como os alemães. E por conta da força da intriga e da iminência da metáfora, somos voltados para a ficção e para a poesia.

A memória, contudo, que os brasileiros cultivam, corresponde à matéria que guardamos do mundo. Como consequência, para sermos brasileiro, somos gregos, romanos, árabes, hebreus, africanos, orientais. Somos parte essencial das civilizações que aportaram nesta terra onde afloram a abundância, a alegria, a traição, a ingenuidade, o triunfo do bem e do mal, a ilusão, a melancolia. Atributos todos nutridos pelo feijão preto bem temperado, o arroz soltinho, o bolo de fubá, o bife acebolado, e os anjos feitos de açúcar e gema de ovo que enfeitam a paisagem atlântica e sertaneja.

No Brasil, ao longo dos séculos, surgiram narrativas astutas e mentirosas que pautam a nossa história. Heróis e malfeitores, de estirpes emaranhadas. Outrora abominados, hoje reverenciados. Quem se interessa pelo julgamento da história? Mas personagens afinados com as torpezas e as inquietudes do seu tempo. Acomodados à sombra da mangueira que resiste aos anos, enquanto dedilhavam as cordas do violão e do coração.

Berço de heróis e marinheiros, neste litoral os saveiros da imaginação cruzaram os mares, instalaram culturas feitas das sobras alheias. Quem aqui nasceu, ou aqui aportou, fincou no peito brasileiro bandeiras, hábitos, linguagem, loucas demências.

É necessário, portanto, que ao viajar para o Brasil, o estrangeiro se apresse em dominar sua história, suas leis que, conquanto promulgadas, dão margem a interpretações múltiplas, coteje se o tema do seu interesse se harmoniza entre os diversos poderes públicos de Brasília. Se de verdade é o paraíso fiscal em que sonhou investir seu capital volátil, uma pretensão que contraria nossos interesses associados ao real desenvolvimento econômico do país. Sobretudo convém auscultar os sentimentos do brasileiro, sua simpatia, sua astúcia, a vocação com que altera as regras da vida e do mercado econômico. De como no meio de qualquer processo altera leis e diretrizes. De como ganha um tempo que, para o investidor, constitui um prejuízo, mesmo que as autoridades não saibam o que fazer com o tempo que guardou. Convém, sim, sondar o coração do brasileiro, que se reparte entre a família e os amores clandestinos, através da leitura dos intérpretes da pátria, dos ficcionistas, dos poetas. Deles emana a leitura que lhes dará o detalhe, a medida, as substâncias do ser brasileiro. A exegeses que vai fundo a genealogia dos afetos. Que tentou chegar perto deste coração brasileiro. Talvez se deslumbre com este povo singular, que trata o cotidiano com admirável leveza. E que a despeito de carnavalizar a realidade, também ostenta sintomas de melancolia.

É necessário saber e levar em conta, diariamente, de que nasceu no Rio de Janeiro em 1828, durante o Segundo Reinado, o escritor Machado de Assis, com nome de batismo Joaquim, cujo determinismo falhou ao não prever a própria grandeza. E de cuja obra surge o verbo que nos define e concede à nação um destino solar e a alvorada de cada dia.

Amigos, sejam todos bem-vindos a esta terra amada.
Nélida Piñon

‘Pós-judeus’, identidade e trauma

Em novo livro, intelectuais judeus buscam resgatar um sentido emancipatório da judaicidade, cada vez mais silenciado por um Estado israelense militarizado que se coloca como guardião de uma história secular de perseguição. A partir desse caso dramático, "O Judeu Pós-judeu" reflete sobre os limites e os riscos de perspectivas que recorrem às noções de identidade e trauma social para lidar politicamente com legados de opressão

"Em certos momentos, face a acontecimentos públicos, sabemos que devemos recusar [...]. Há uma razão que não aceitamos, há uma aparência de razoabilidade que nos causa horror, há uma oferta de acordo e de conciliação que não mais escutaremos."

Essa é uma afirmação de Maurice Blanchot que abre "O Judeu Pós-judeu: Judaicidade e Etnocracia" (n-1 edições), de Bentzi Laor e Peter Pál Pelbart. Ela expressa nitidamente a natureza desse livro recém-lançado, tão singular quanto necessário.

A escrita da obra nasce de uma recusa. Dois intelectuais judeus, um morando no Brasil —conhecido como um dos grandes nomes da filosofia nacional, leitor rigoroso de Deleuze, Foucault, Nietzsche, editor com intervenções políticas maiores nesses últimos anos— e outro morando em Israel —dividindo seu tempo como engenheiro com atuação no setor de alta tecnologia e ativista ligado a ONGs de defesa de palestinos.

Dois intelectuais que decidem usar sua capacidade analítica e sua memória histórica para recusar o horror de ver o nome de seu pertencimento comunitário usado para nomear a indiferença à violência do massacre.


O livro, nesse sentido, não é apenas fruto de um gesto de recusa. Ele também nasce de um desejo de resgatar um sentido emancipatório da experiência da judaicidade, presente nessa impressionante tradição messiânica herética que vai de Franz Rosenzweig a Walter Benjamin e Jacques Derrida, entre outros, mas que aparece atualmente cada vez mais distante e silenciada. Tema esse também presente em trabalhos maiores de outro intelectual vinculado a tal messianismo herético: Michael Löwy.

Daí o par presente no subtítulo do livro, "judaicidade e etnocracia". Ele expressa o desejo de se compreender como legatário de uma história de "sofrimento, perseguição, exílio, fuga, sobrevivência" sem que tal legado se consolide na defesa de uma etnocracia que usará a experiência do trauma social para justificar a militarização da sociedade e práticas de apartheid, além da violência contra palestinos e palestinas descrita, perante a Corte Internacional de Justiça, como genocidária.

Há semanas, vimos países como a França escaparem por pouco de serem, neste exato momento, governados por um partido de extrema direita com vínculos orgânicos com o colaboracionismo da República de Vichy, com o colonialismo e com discursos e práticas abertamente racistas, xenófobas e supremacistas.

Não será um sintoma menor ver esse mesmo partido mobilizar o discurso do antissemitismo contra seus adversários de esquerda, em larga medida simplesmente comprometidos com a causa palestina, e receber apoio aberto de setores expressivos da comunidade judaica de seu país. Como se, para esses setores, estivéssemos diante de um "mal menor".

Haverá, contudo, quem se pergunte como foi possível essa inversão que faz da extrema direita mundial aliada objetiva das políticas hegemônicas na sociedade israelense contemporânea, seja ela figurada em Marine Le Pen, Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Aqueles que lerem o livro de Laor e Pelbart, em vez de seguir esse caminho macabro que vemos em analistas políticos brasileiros que procuram normalizar a extrema direita, podem encontrar uma importante reflexão a esse respeito.

A tese dos autores é que o risco desse alinhamento com a extrema direita era uma possibilidade sempre presente no projeto de constituição do Estado de Israel e sua permeabilidade a acordos com forças teológico-políticas que visavam consolidar um horizonte de etnocracia por meio daquilo que o livro chama de "combinação explosiva entre halachá (a lei religiosa) e o Estado".

Forças essas que voltam hoje como operadores centrais do jogo político, o que coloca questões importantes sobre a permeabilidade de nossas "democracias ocidentais" ao horizonte teológico-político.

No entanto, longe de apenas servir para a descrição de um caso específico e dramático, o livro aponta para um problema ainda mais estrutural que diz respeito aos riscos e limites dos usos de noções como identidade e trauma social no campo da política contemporânea, principalmente quando esses usos são mobilizados para a justificação da existência de um Estado.

Por isso, o livro de Laor e Pelbart é um documento fundamental para refletirmos sobre outras perspectivas políticas que, a partir da experiência concreta da opressão, creem encontrar refúgio e horizonte de luta mobilizando continuamente a identidade e a fidelidade ao trauma irreparável.

De fato, a afirmação da identidade pode inicialmente aparecer como modo de defesa contra experiências de violência e vulnerabilidade. Ela permite a consolidação da partilha da memória dos traumas sofridos, a construção de espaços de identificação e de luto.

A identidade, porém tem dois tempos. Há sempre o risco de ela paulatinamente se tornar um dispositivo de imunização, principalmente quando gerida pela figura de um Estado que se coloca como guardião do trauma coletivo. Pois, nesse caso, tudo se passa como se o Estado começasse a dizer: "Fomos violentados uma vez, ninguém velou por nós, temos pois todo o direito de utilizar o que for necessário para garantir nossa inviolabilidade e segurança contra todos os que apareçam colocando novamente em risco nossa integridade".

Pode-se dizer que essa é uma premissa que constitui o direito de defesa próprio a todo e qualquer Estado no mundo, mas seria o caso de lembrar, no caso da história recente israelense, que nenhum direito de defesa significa direito de massacre, que há um elemento importante a ser levado em conta quando a experiência do massacre sistemático do outro produz em mim apenas a pura indiferença e insensibilidade, além do desejo de definir quem irá ocupar minhas fronteiras.

Seria também o caso de se perguntar se o argumento do direito de defesa continua a valer quando recebo reações vindas de um território que ocupei ilegalmente durante mais de 50 anos, ignorando de forma soberana toda e qualquer lei internacional que me obriga à desocupação imediata.

Daí uma colocação tão central como esta que encontramos no livro: "Coabitar não é uma escolha, mas sim uma condição da vida política. Os eventos posteriores a 7 de outubro indicam que Israel quer decidir qual população não deve lhe fazer fronteira, e já está em curso um movimento que reivindica a remoção da população de Gaza [...]. Isso nada tem a ver com defesa, mas com despossessão".

Ou seja, a transformação do Estado em guardião do trauma social impede a consolidação de uma disposição genérica que aponte para uma solidariedade indiscriminada com toda situação de violência semelhante àquela sofrida, independentemente de quem seja agora o oprimido. Ela impede a compreensão de que o sujeito capaz de guardar o trauma social não é o Estado, mas algo como uma comunidade por vir, cujos limites ignoram as fronteiras e permitem um verdadeiro internacionalismo monádico capaz de se implicar de forma real com a alteridade e com a multiplicidade das vozes de suas dores.

Nesse sentido, o que "O Judeu Pós-judeu" mostra é como situações históricas concretas fornecem a oportunidade para a realização de horizontes de criação política. Criação daquilo que não estamos dispostos a abandonar, mesmo que apareça no presente como mera utopia.

A condição diaspórica e nômade da judaicidade, sua errância e desterritorialização históricas são transformadas pelos autores, seguindo reflexões de Hannah Arendt e Judith Butler, em armas contra a consolidação de uma identidade guerreira e militarizada, cada vez mais forte entre nós.

Elas são a potência a ser recuperada para a consolidação de uma política pós-identitária que ansiamos, que sentimos como uma latência dramática, continuamente silenciada por aqueles que aprenderam a mobilizar os medos sociais no interior de uma sociedade capitalista em crise profunda e que tenta sobreviver alimentando a ideia de que devemos aceitar que não há lugar para todos, que melhor vale lutar para ser o grupo restrito que irá atravessar o dilúvio.

A noção de um judeu pós-judeu mostra como a reflexão, vivenciada dramaticamente pela subjetividade, sobre o desconforto diante das desventuras da identidade, mas também sobre a fidelidade ao pertencimento a uma história soterrada pelo presente é uma força de abertura de futuros.

A mesma força que já levou um dia Isaac Deutscher a afirmar: "Religião? Sou ateu. Nacionalismo judaico? Sou um internacionalista. Em nenhum sentido, portanto, sou judeu. Contudo, sou judeu pela força de minha solidariedade incondicional com os perseguidos e exterminados. Sou judeu porque sinto a tragédia judaica como minha tragédia; porque sinto o pulso da história judaica".

Como lembram os autores, essa é uma força utópica que extrapola o destino singular de um povo.

Certidão de nascimento da Democracia


A maioria dos que até este momento pronunciaram discursos neste lugar fez o elogio deste costume antigo de honrar, ante o povo, aqueles soldados que morreram na guerra, mas a mim parece-me que as solenes exéquias que publicamente celebramos hoje são o maior elogio daqueles que, pelo seu heroísmo, as mereceram.

E também me parece que não se deva deixar à palavra de um só homem falar das virtudes e do heroísmo de tão bons soldados, nem tampouco acreditar no que se diga, quer seja um bom ou mau orador, pois é difícil expressar-se com justiça e moderar os elogios ao referir coisas das quais se pode ter apenas uma ligeira sombra da verdade.

Porque, se o que ouve foi testemunha dos acontecimentos e quer bem àquele de quem se fala, sempre acredita que o elogio é insuficiente em razão do que ele deseja e do que sabe, ao contrário, ao que o desconhece, impulsionado pela inveja, parece que há exagero no que supera a sua própria natureza.

Os elogios pronunciados em favor de outro podem ser suportados somente na medida em que se crê a si mesmo capaz de realizar das mesmas ações. O que nos supera excita a inveja e, além disso, a desconfiança.

Entretanto, já que os nossos antepassados admitiram e aprovaram este costume, eu devo também submeter-me a ele e tratar de satisfazer da melhor maneira possível os desejos e sentimentos de cada um de vós.

Começarei, pois, a elogiar os nossos antepassados. Pois é justo e equitativo render homenagem à recordação.

Esta região, habitada sem interrupção por gente da mesma raça, passou de mão em mão até hoje, guardando sempre a sua liberdade, graças ao seu esforço. E se aqueles antepassados merecem o nosso elogio, muito mais o merecem os nossos pais. À herança que receberam juntaram, ao preço do seu trabalho e dos seus desvelos, o poder que possuímos, que nos legaram. Nós o aumentamos. E no vigor da idade ainda alargamos esse domínio, abastecendo a cidade de todas as coisas necessárias, tanto na paz como na guerra.

Nada direi das proezas e façanhas guerreiras que nos permitiram alcançar a situação presente, nem da valentia que nós e os nossos antepassados demonstramos defendendo-nos dos ataques dos bárbaros ou dos gregos. Todos as conheceis e por isso não vos vou falar delas. Mas a prudência e arte que nos possibilitaram chegar a esse resultado, a natureza das instituições políticas e os costumes que nos trouxeram este prestígio, é necessário que sejam ressalvados antes de tudo. Depois, continuarei com o elogio aos nossos mortos.

Porque me parece que nas atuais circunstâncias é oportuno trazer â memória estas coisas e que será proveitoso que as ouçam tanto os cidadãos como os forasteiros que se reuniram, hoje, aqui.

A nossa constituição política não segue as leis de outras cidades, antes lhes serve de exemplo. O nosso governo chama-se democracia, porque a administração serve aos interesses da maioria e não de uma minoria.

De acordo com as nossas leis, somos todos iguais no que se refere aos negócios privados. Quanto à participação na sua vida pública, porém, cada qual obtém a consideração de acordo com os seus méritos e mais importante é o valor pessoal que a classe a que se pertence; isto quer dizer que ninguém sente o obstáculo da sua pobreza ou da condição social inferior, quando o seu valor o capacite a prestar serviços à cidade.

No que corresponde à República, pois, governamos livremente e, ainda, nas relações que mantemos diariamente com os nossos aliados e vizinhos, não nos irritamos porque ajam à sua maneira, nem consideramos como uma humilhação os seus prazeres e alegrias que, apesar de não nos produzir danos materiais, nos causam pesar e tristeza, ainda que sempre tratemos de dissimulá-los.

Ao mesmo tempo em que não temos receio nas nossas relações particulares, domina-nos o temor de infringir as leis da República; obedecemos aos magistrados e às regras que defendem os oprimidos e mesmo que não estejam editadas, a todas aquelas que atraem sobre quem as viola o desprezo de todos.

Para amenizar o trabalho, procuramos muitos recreios para a alma; instituímos jogos e festas que se sucedem a cada ano; e diversões que diariamente nos proporcionam deleite e diminuem a tristeza. A grandeza e a importância da nossa cidade atraem os tesouros de outras terras, de modo que não só desfrutamos dos nossos produtos como daqueles do universo inteiro.

No que se refere à guerra, somos muito diferentes dos nossos inimigos porque permitimos que a nossa cidade esteja aberta a todas as gentes e nações, sem vedar nem proibir a qualquer pessoa que adquira informes e conhecimentos, ainda que a sua revelação possa ser proveitosa aos nossos adversários; pois confiamos tanto em preparativos e estratégias como no nosso ânimo e vigor na ação.

Outros, no que se refere à educação, acostumam, mediante um treino fatigante desde criança, a sua potência viril; nós, apesar da nossa forma de viver, não somos menos ousados e valentes para afrontar o perigo quando a necessidade o exige. Boa prova disso é que os lacedemónios [espartanos] jamais se atreveram a entrar na nossa terra sem que estejam acompanhados de todos os aliados; enquanto nós, sem ajuda nenhuma, fizemos incursões no território dos nossos vizinhos e muitas vezes, sem grandes dificuldades, derrotamos em país estrangeiro adversários que defendiam os seus próprios lares.

Nenhum dos nossos inimigos se atreveu a atacar-nos quando reunimos todas as nossas forças, tanto por causa da nossa experiência nas coisas do mar, como pelos muitos destacamentos que temos em diversos lugares do nosso território.

Se por acaso os nossos inimigos derrotam alguma vez um destacamento dos nossos, se jactam de nos haver vencido a todos e se, pelo contrário, os derrota uma parte das nossas tropas, dizem que foram atacados por todo o nosso exército.

E efetivamente preferimos o repouso e o sossego quando não estamos obrigados, por necessidade, ao exercício de trabalhos penosos e, também, ao exercício dos bons costumes, a viver sempre com o temor das leis; de forma que não nos expomos ao perigo quando podemos viver tranquilos e seguros, preferindo a força da lei ao ardor da valentia.

Temos a vantagem de não nos preocupar com as contrariedades futuras. Quando chegam estas, enfrentamo-las com boa têmpera, como os que sempre estiveram acostumados com elas.

Por estas razões e muitas mais ainda, a nossa cidade é digna de admiração. Ao mesmo tempo em que amamos simplesmente a beleza, temos uma forte predileção pelo estudo. Usamos a riqueza para a acção, mais que como motivo de orgulho, e não nos importa confessar a pobreza, somente considerando vergonhoso não tratar de evitá-la.

Por outro lado, todos nos preocupamos de igual modo com os assuntos privados e públicos da pátria, que se referem ao bem comum ou privado, e gentes de diferentes ofícios se preocupam também com as coisas públicas.

Nós consideramos o cidadão que se mostra estranho ou indiferente à política como um inútil à sociedade e à República.

Decidimos por nós mesmos todos os assuntos sobre os quais fazemos, antes, um estudo exato: não acreditamos que o discurso entrave a acção; o que nos parece prejudicial é que as questões não se esclareçam, antecipadamente, pela discussão.

Por isto nos distinguimos, porque sabemos empreender as coisas juntando a audácia à reflexão, mais que qualquer outro povo.

Os demais, algumas vezes por ignorância, são mais ousados do que o que requer a razão, e alguns, por querer fundamentar tudo em raciocínios, são lentos na execução.

Seria justo ter por valorosos aqueles que, ainda conhecendo exactamente as dificuldades e vantagens da vida, não recusam o perigo.

No que se refere à generosidade, também somos diferentes dos demais, porque procuramos fazer amigos, dispensando-lhes benefícios ao invés de recebê-los, pois o que faz um favor a outro está em melhor condição do que quem o recebe para conservar a sua amizade e benevolência, enquanto o favorecido sabe que há-de devolver o favor, não como se fizesse um benefício mas como se pagasse uma dívida. Também somos os únicos em usar a magnificência e liberalidade com os nossos amigos e não tanto por cálculo da conveniência como pela confiança que a liberdade dá.

Numa palavra, afirmo que a nossa cidade é, em conjunto, a escola da Grécia, e creio que os cidadãos são capazes de conseguir uma completa personalidade para administrar e dirigir perfeitamente outras gentes, em qualquer aspecto.

E tudo isto não é um exagero retórico, ditado pelas circunstâncias, mas a verdade mesma; o poderio que conquistamos com estas qualidades o demonstra.

Atenas possui mais fama que as demais. É a única cidade que não dá motivos de rancor aos seus inimigos pelos danos que lhes inflige, nem desprezo aos seus súbditos pela indignidade dos seus governantes. Esta grandeza é demonstrada por importantes testemunhos é de uma maneira definitiva para nós e para os nossos descendentes. Eles terão uma grande admiração por nós sem que tenhamos necessidade dos elogios de um Homero, nem de qualquer outro, para adornar os nossos feitos com elogios poéticos, capazes de seduzir mas cuja ficção contradiz a realidade das coisas.

É sabido que, graças ao nosso esforço e ousadia, conseguimos que aterra e o mar por inteiro fossem acessíveis à nossa audácia, deixando em toda a parte monumentos eternos das derrotas infligidas aos nossos inimigos e das nossas vitórias.

Esta é a cidade, pois, que com razão estes homens não quiseram deixar que fosse manchada e pela qual morreram valorosamente no combate; os nossos descendentes estão dispostos a sofrer tudo para assegurar a sua defesa.

Por estas razões me estendi a falar da nossa cidade já que queria demonstrar-lhes que não lutamos pelo mesmo que os outros, mas por algo tão grande que nada o iguala, e também para que o elogio dos homens objecto do nosso discurso fosse claro e veraz. Terminei, já, com a parte principal. A glória da República deve-se ao valor desses soldados e de outros homens semelhantes. Os seus actos estão à altura da sua reputação e existem poucos gregos dos quais se possa dizer o mesmo.

No meu entender, nada demonstra melhor o valor de um homem que este final, que entre os jovens é um indício e uma confirmação entre os velhos.

Com efeito, aqueles que não podem prestar outro serviço à República é justo que se mostrem valorosos na guerra, pois apagaram o mal com o bem e os seus serviços públicos compensaram de sobra os equívocos da sua vida privada. Nenhum deles se deixou seduzir pelas riquezas ao ponto de preferir os defeitos ao seu dever, nem tão-pouco nenhum deixou de se expor ao perigo com a esperança de escapar da pobreza e fazer-se rico, convencidos de que era preciso o castigo do inimigo ao gozo destes bens, e visando este risco como o mais admirável, quiseram afrontá-lo para castigar o inimigo e fazer-se dignos destas honras.

Tiveram confiança neles mesmos no momento da batalha e ao encontrar-se ante o perigo, sustentados pela esperança ante a incerteza do êxito. Preferiram buscar a sua salvação na destruição do inimigo, e antes na morte que no covarde abandono; assim escaparam à desonra e perderam a vida.

No azar de um instante nos deixaram, alcançando o mais alto cume da glória e não a baixa recordação do seu medo.

Dessa forma é que se mostraram filhos dignos da cidade. Os sobreviventes devem fazer todo o possível para conseguir uma melhor sorte, mas devem-se mostrar ao mesmo tempo intrépidos contra os seus inimigos, considerando que não se podem limitar às palavras de um discurso toda a utilidade e proveito.

Também seria ocioso enumerar diante de gente tão perfeitamente informada, como o sois vós, todos os esforços dirigidos à defesa do país. Quanto maior lhes pareça o poder da cidade, mais deveis pensar que existiram homens valorosos, que souberam praticar a audácia como sentimento de um dever e se conduzir com honra durante toda a vida.

E se bem que o sucesso nem sempre tenha correspondido aos seus esforços, não quiseram privar Atenas do seu valor e sacrificaram a sua virtude como o mais nobre tributo, fazendo o sacrifício da sua vida e adquirindo, cada um por sua parte, uma glória imortal que lhes deu a sepultura com honra.

E esta terra onde agora descansam não é tanto como a recordação imortal sempre renovada e enfocada em discursos e comemorações. Os homens eminentes têm por túmulo a terra inteira.

O que atrai a atenção para eles não são somente as inscrições funerárias gravadas na pedra; quer na sua pátria, quer nos países mais longínquos, a sua memória persiste, apesar dos epitáfios, conservada no pensamento e não nos monumentos.

Invejai, pois, a sua sorte, dizei que a liberdade se confunde com a felicidade e o valor com a liberdade e não olheis com desprezo os perigos da guerra. Não penseis que os maus e os covardes, que não têm esperança de melhor sorte, são mais razoáveis em guardar a sua vida que aqueles cuja existência está exposta ao perigo e que se aventurara? a passar da boa à má fortuna e que, se fracassam, verão a sua sorte completamente transformada. Pois para um homem sábio e prudente é mais doloroso a covardia que uma morte enfrentada com valor e animada pela esperança comum.

Assim, não me compadeço pela sorte dos pais que estão presentes, limitar-me-ei a consolá-los. Eles sabem, eles que cresceram entre as vicissitudes da vida, que a ventura só é para os que obtêm, como seus filhos, ó fim o mais glorioso ou, como eles, o luto o mais honroso e para os quais o termo da vida é a medida da felicidade.

Sei muito bem o quanto é difícil persuadir-vos. Ante a felicidade dos demais, felicidade de que haveis gozado, chegareis em muitos momentos a recordar a memória dos vossos desaparecidos. Sofremos menos quando nos privamos de bens dos quais não aproveitamos do que com a perda daqueles aos quais estamos habituados. É preciso, pois, sofrer pacientemente e se consolar com a esperança de ter outros filhos, vós aos quais a idade ainda o permite. Os novos filhos substituirão na família os que não existem mais; e a cidade ganhará uma vantagem dupla: a sua população não diminuirá e a segurança estará garantida, pois os que entregam seus filhos ao perigo pelo bem da República, como o fizeram os que perderam os seus nesta guerra, inspiram mais confiança que os que não fazem.

Agora, cumpre que cada um se retire, uma vez que chorou na hora dos desaparecidos.

Os que não têm esta esperança, recordem a sorte que tiveram gozando de uma vida que na sua maior parte foi feliz; o resto será curto; que a glória dos vossos console a vossa dor; só o amor da glória não envelhece e, com o passar da idade, o prazer não consiste, como pretendem alguns, em amontoar riquezas, mas em inspirar respeito.

E vós, filhos e irmãos destes mortos, pensai a que vos obriga o seu valor e heroísmo. Não há homem que não elogie a virtude e o esforço dos que morreram. A vós, apesar dos vossos méritos, será muito difícil alcançar o seu mesmo nível, e não digamos superá-lo. Porque entre os vivos, o desejo da emulação provoca sempre a inveja, enquanto todos elogiam e honram os que morrem.

Também farei menção às mulheres que ficaram viúvas, expressando o meu pensamento numa breve exortação: toda a sua glória consiste em não mostrar-se inferiores à sua natureza e que se fale delas o menos possível entre as gentes, tanto no seu bem como no seu mal.

Terminarei. Conforme as leis, as minhas palavras expressaram o que me pareceu útil. Quanto às honras reais, foram elas rendidas em parte aos que aqui jazem, mais honrados pelas suas obras do que pelas minhas frases.

Doravante, os seus filhos, se são menores, serão educados até à adolescência, correndo os gastos a cargo da República. Uma coroa é oferecida pela cidade a fim de homenagear as vítimas destas batalhas e seus sobreviventes, pois os povos que recompensam a virtude com magníficos prémios obtêm também os melhores cidadãos.
Péricles (Atenas, 430 a C.)

Que inveja de Maduro não deve estar sentindo Bolsonaro

À época, deputado federal pela segunda vez, Jair Messias Bolsonaro, afastado do Exército por indisciplina e conduta antiética, celebrou a eleição para presidente da Venezuela do coronel Hugo Chávez, que governaria o país por 14 anos, de 1999 até sua morte em 2013.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro disse:

“Chávez é uma esperança para a América Latina e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo. Ele não é anticomunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que o meio militar”.

Também disse que Chávez remetia a Castelo Branco, primeiro presidente do Brasil durante a ditadura militar, entre 1964 e 1967: “Acho que ele vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força. Só espero que a oposição não descambe para a guerrilha, como fez aqui”.


A esta hora, que inveja Bolsonaro não deve estar sentindo de Nicolás Maduro, que sucedeu a Chávez, governa a Venezuela há 11 anos, e que no início da madrugada de hoje, com 80% dos votos apurados por um Conselho Eleitoral sob seu controle, foi declarado reeleito para um novo mandato de seis anos.

Não governa: com o apoio dos militares, Maduro desgoverna a Venezuela que já perdeu 20% de sua população, em fuga por falta de empregos, remédios e de condições mínimas para levar uma vida decente. Bolsonaro bem que tentou, mas não conseguiu se eternizar no poder como Maduro. Daí a inveja.

A levar-se em conta o que apontaram as pesquisas de intenção de voto realizadas até sábado, Maduro seria derrotado com folga pelo candidato da oposição, o diplomata Edmundo González Urrutia. As pesquisas subestimaram a força da máquina do chavismo especializada em repressão e fraudes.

Há duas maneiras de contar votos na Venezuela: uma digital, executada pelo órgão eleitoral do país liderado por um aliado de Maduro; e a outra em papel impresso feita por cada máquina de votação nos locais de votação. A contagem em papel serve para certificar se a contagem digital está correta.

Mas este ano, em zonas eleitorais-chave, seus responsáveis se recusaram a entregar as contagens em papel aos fiscais de partidos. Este foi o caso em uma das maiores estações de votação em Caracas, a escola Rafael Napoleon Baute, e na segunda maior cidade da Venezuela, Maracaibo.

Quando os apoiadores do candidato da oposição no Liceo Andrés Bello, em Caracas, reclamaram de terem sido impedidos de acessar a contagem de votos em papel, uma gangue de pelo menos 150 apoiadores de Maduro, em motocicletas, chegou gritando cânticos pró-governo.

Um repórter do Washington Post viu os homens, encapuzados e vestidos de preto, começarem a socar e chutar aqueles do lado de fora do centro de votação, ferindo várias pessoas. “Viva Nicolás”, eles gritaram. Episódios como esse se repetiram em vários pontos do país e foram relatados por testemunhas.

“O fascismo na Venezuela, terra de Bolívar e Chávez, não passará. Nem hoje nem nunca”, assegurou Maduro no primeiro pronunciamento após o anúncio de sua vitória. Os presidentes de Cuba, Nicarágua, Bolívia e Honduras, ligados ao chavismo, logo se apressaram em parabenizá-lo.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, não: cobrou a apresentação dos relatórios de contagens dos votos em papel. Até o momento em que escrevo, o governo brasileiro segue calado.

domingo, 28 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


Venezuela, entre a ditadura que segue e a democracia que volta


Haverá um banho de votos na Venezuela se a oposição à ditadura de Nicolás Maduro ganhar hoje a eleição presidencial com uma larga vantagem. Haverá um banho de sangue caso Maduro perca e não reconheça a derrota de imediato.

Maduro voltou, ontem, a falar em banho de sangue, desta vez ao reunir-se em Caracas com embaixadores de outros países, entre eles o do Brasil. Culpou de antemão o “imperialismo americano” por um eventual banho de sangue e disse:

“Não há possibilidade de que eu não vença. Não poderão evitar o que está no ‘pacto secreto dos livros celestiais’, previsto para o futuro do nosso país. Os piores tempos ficaram para trás.”

Está nas mãos dos militares, sócios de Maduro desde a morte do coronel Hugo Chávez há 11 anos, evitar o banho de sangue. Basta que eles declarem que o presidente eleito, seja qual for, tomará posse. A dúvida é se farão isso.

As pesquisas de intenção de voto apontam o favoritismo do candidato da oposição, o diplomata Edmundo González Urrutia, com 20 pontos percentuais à frente de Maduro. Mas pouca gente em Caracas acredita que isso seja possível.


Uma vitória de Urritia deverá ser por uma estreita margem de votos. É verdade que a seu favor, Urritia tem o desejo imenso de mudanças dos venezuelanos e a realidade de um país falido, onde a inflação bate recorde e a miséria campeia.

Contra Urritia, porém, move-se a gigantesca e bem azeitada máquina do chavismo que manda no país há 25 anos em parceria com os militares. Maduro sabe como fraudar uma eleição porque já fraudou mais de uma.

As Forças Armadas venezuelanas contam com cerca de 115 mil militares no serviço ativo e 8 mil na reserva. Dos 34 ministérios do governo Maduro, 12 são dirigidos por militares. Petróleo, mineração e comércio são áreas controladas por eles.

Segundo agências americanas antidrogas, os militares também comandam a narco via de escoamento de cocaína pelo rio Orinoco. Aos olhos do governo dos Estados Unidos, Maduro é suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas.

Por fome, falta de empregos e remédios, 8 milhões de venezuelanos fugiram da Venezuela. Dada às restrições criadas pelo governo, menos de 70 mil deles poderão votar no exterior. O próximo presidente só tomará posse em janeiro.

É nesse vácuo de seis meses que poderá acontecer muita coisa se Maduro não renovar seu mandato. A autoridade máxima eleitoral da Venezuela anunciará o nome do vencedor por volta das 7 horas desta segunda-feira, horário de Brasília.

A IA pode nos salvar ou pode construir vírus para nos matar

Aqui está uma pechincha das mais assustadoras: por menos de US$ 100.000, agora pode ser possível usar inteligência artificial para desenvolver um vírus que pode matar milhões de pessoas.

Essa é a conclusão de Jason Matheny, presidente da RAND Corporation, um think tank que estuda questões de segurança e outros assuntos.

“Não custaria mais criar um patógeno capaz de matar centenas de milhões de pessoas do que um patógeno capaz de matar apenas centenas de milhares de pessoas”, Matheny me disse.


Em contraste, ele observou que poderia custar bilhões de dólares para produzir uma nova vacina ou antiviral em resposta.

Contei a Matheny que eu era chefe do escritório do The Times em Tóquio quando um culto religioso chamado Aum Shinrikyo usou armas químicas e biológicas em ataques terroristas, incluindo um em 1995 que matou 13 pessoas no metrô de Tóquio. "Eles seriam capazes de causar ordens de magnitude a mais de dano" hoje, disse Matheny.

Sou membro de longa data do Aspen Strategy Group, uma organização bipartidária que explora questões de segurança global, e nossa reunião anual deste mês focou em inteligência artificial. É por isso que Matheny e outros especialistas se juntaram a nós — e depois nos assustaram.

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No início dos anos 2000, alguns de nós nos preocupamos com a reintrodução da varíola como uma arma biológica se o vírus fosse roubado dos laboratórios em Atlanta e na região de Novosibirsk, na Rússia, que retêm o vírus desde que a doença foi erradicada. Mas com a biologia sintética, agora ele não teria que ser roubado.

Alguns anos atrás, uma equipe de pesquisa criou um primo do vírus da varíola, a varíola equina, em seis meses por US$ 100.000, e com a IA poderia ser mais fácil e barato refinar o vírus.

Uma razão pela qual as armas biológicas não têm sido muito usadas é que elas podem ter um efeito bumerangue. Se a Rússia liberasse um vírus na Ucrânia, ele poderia se espalhar para a Rússia. Mas um general chinês aposentado levantou a possibilidade de uma guerra biológica que tenha como alvo raças ou etnias específicas (provavelmente de forma imperfeita), o que tornaria as armas biológicas muito mais úteis. Alternativamente, pode ser possível desenvolver um vírus que mataria ou incapacitaria uma pessoa específica, como um presidente ou embaixador problemático, se alguém tivesse obtido o DNA dessa pessoa em um jantar ou recepção.

As avaliações de pesquisas sobre alvos étnicos feitas pela China são confidenciais, mas podem ser o motivo pelo qual o Departamento de Defesa dos EUA disse que a ameaça mais importante de longo prazo da guerra biológica vem da China.

A IA também tem um lado mais esperançoso, é claro. Ela traz a promessa de melhorar a educação, reduzir acidentes automobilísticos, curar cânceres e desenvolver novos fármacos milagrosos.

Um dos benefícios mais conhecidos está no dobramento de proteínas , que pode levar a avanços revolucionários no tratamento médico. Os cientistas costumavam passar anos ou décadas descobrindo as formas de proteínas individuais, e então uma iniciativa do Google chamada AlphaFold foi introduzida, que podia prever as formas em minutos. "É o Google Maps para a biologia", Kent Walker, presidente de assuntos globais do Google, me disse.

Desde então, cientistas têm usado versões atualizadas do AlphaFold para trabalhar em produtos farmacêuticos, incluindo uma vacina contra a malária, uma das maiores causas de morte de humanos ao longo da história.

Portanto, não está claro se a IA nos salvará ou nos matará primeiro.

Cientistas há anos exploram como a IA pode dominar a guerra, com drones autônomos ou robôs programados para encontrar e eliminar alvos instantaneamente. A guerra pode vir a envolver robôs lutando contra robôs.

Assassinos robóticos serão impiedosos no sentido literal, mas não necessariamente serão particularmente brutais. Eles não estuprarão e também podem ser menos propensos do que soldados humanos à fúria que leva a massacres e torturas.

Uma grande incerteza é a extensão e o momento das perdas de empregos — para motoristas de caminhão, advogados e talvez até mesmo programadores — que poderiam amplificar a agitação social. Uma geração atrás, as autoridades americanas estavam alheias à maneira como o comércio com a China custaria empregos nas fábricas e aparentemente levaria a uma explosão de mortes por desespero e à ascensão do populismo de direita. Que possamos fazer melhor na gestão da interrupção econômica da IA

Um motivo para minha cautela com a IA é que, embora eu veja a promessa dela, os últimos 20 anos têm sido um lembrete da capacidade da tecnologia de oprimir. Os smartphones eram deslumbrantes — e peço desculpas se você estiver lendo isso no seu telefone — mas há evidências que os vinculam à deterioração da saúde mental dos jovens. Um ensaio clínico randomizado publicado neste mês descobriu que crianças que desistiram de seus smartphones desfrutaram de bem-estar melhorado.

Ditadores se beneficiaram de novas tecnologias. Liu Xiaobo, o dissidente chinês que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, pensou que “a internet é um presente de Deus para o povo chinês”. Não foi bem assim: Liu morreu sob custódia chinesa, e a China usou IA para aumentar a vigilância e apertar os parafusos dos cidadãos.

A IA também pode facilitar a manipulação de pessoas, de maneiras que lembram Orwell. Um estudo divulgado este ano descobriu que quando o Chat GPT-4 tinha acesso a informações básicas sobre as pessoas com quem interagia, era cerca de 80% mais provável persuadir alguém do que um humano com os mesmos dados. O Congresso estava certo em se preocupar com a manipulação da opinião pública pelo algoritmo TikTok.

Tudo isso ressalta por que é essencial que os Estados Unidos mantenham sua liderança em inteligência artificial. Por mais que possamos ter receio de pisar fundo no acelerador, esta não é uma competição na qual é OK ser o segundo colocado em relação à China.

O presidente Biden está no topo disso, e os limites que ele colocou no acesso da China aos chips de computador mais avançados ajudarão a preservar nossa liderança. O governo Biden recrutou pessoas de primeira linha do setor privado para pensar nessas questões e emitiu uma importante ordem executiva no ano passado sobre segurança de IA, mas também precisaremos desenvolver novos sistemas nos próximos anos para melhorar a governança.

Eu escrevi sobre imagens e vídeos nus deepfake gerados por IA , e a irresponsabilidade tanto das empresas deepfake quanto dos principais mecanismos de busca que direcionam tráfego para sites deepfake. E empresas de tecnologia têm usado periodicamente imunidades para evitar responsabilização por promover a exploração sexual de crianças. Nada disso inspira confiança nas habilidades dessas empresas de se autogovernarem de forma responsável.

“Nós nunca tivemos uma circunstância em que a tecnologia mais perigosa e mais impactante residisse inteiramente no setor privado”, disse Susan Rice, que foi conselheira de segurança nacional do presidente Barack Obama. “Não pode ser que as empresas de tecnologia no Vale do Silício decidam o destino da nossa segurança nacional e talvez o destino do mundo sem restrições.”

Acho que está certo. Gerenciar a IA sem sufocá-la será um dos nossos grandes desafios, à medida que adotamos talvez a tecnologia mais revolucionária desde que Prometheus nos trouxe o fogo.

O acordão tem DNA

Pesquisa recente, "a cara da democracia", revela uma surpreendente sobreposição de opiniões por parte de eleitores lulistas e bolsonaristas. Mas passa ao largo da máscara elitista dessa face, a pletora dos acordos secretos de poder que põem em segundo plano as leis republicanas. A imprensa tem chamado isso de "acordão": uma miríade de arranjos políticos, judiciários e empresariais para anular condenações, liberar fraudadores do erário, isentar generais do golpismo. São muitas as "sangrias" a se estancar.


Talvez a exposição moral disso tudo ainda surpreenda parte da consciência civil. Mas dificilmente o senso comum. Este já pressentia que a roubalheira seria contornada pela correlação de forças que dirige o sistema. Pressentimento é o que a academia chamaria de episteme do comum, isto é, o saber nascido da experiência dos costumes e do cotidiano nas ruas.

Uma dessas formas epistêmicas provém da comunidade afro-litúrgica, outro tipo de reflexão sobre o mundo. Nesse universo, palavra-chave é "acerto", a negociação inerente aos modos de coexistência entre os entes vivos do planeta. É o conceito de um popular acordo profundo, análogo ao desenvolvido pelo filósofo baiano João Carlos Salles, em torno de uma erudita "gramática dos acordos profundos" (em "Gatos, Peixes & Elefantes"). Tudo se pactua por regras de linguagem. Até mesmo a fé se define como confiança no acerto simbólico entre homens e divindades.

Vem daí o primado das regras, sempre concretas, partilhadas pelo comum. Deveria valer para toda a sociedade. Se leis não são mediadas por regras conhecidas de todos, decai por um lado a legitimidade democrática e cresce por outro o descrédito popular na administração da vida social.

Sem regras públicas, na surdina dos acordos fisiológicos em torno das emendas parlamentares, esquerda burocrático-partidária e direita são rótulos distintos apenas para fins eleitorais. Ambas fecham os olhos ao retorno do "petrolão" e à blindagem da Câmara, hoje sindicato do coronelismo eleitoral, na sua mutação em câmara de horrores.

Quanto ao cardinalato togado, se velou para evitar a erosão da fachada democrática do país pela vertigem fascista, agora, em meio a acordos conciliatórios e à promiscuidade das libações internacionais, zela mais pelo DNA patrimonialista da República do que pela Constituição.

Acordão não tem de fato nada a ver com o acerto simbólico da vida comum, é um tapa-olho na cara da democracia. Nem é sequer coisa nova: à imagem do besouro rola-bosta, que carrega às costas o mesmo velho entulho, é o eterno retorno do pacto extrativista, de que o povo sempre esteve excluído.

Agora vai! Finalmente, temos Kamala Harris

Nos anos 1970, em um restaurante no Rio, Fernanda Montenegro sentou-se casualmente ao lado de uma mesa de americanos. Com ela, seu filho Claudio, ainda garoto. Os americanos falavam alto. Claudio perguntou a Fernanda: "Mamãe, eles são de verdade ou é só no filme?". Claudio tinha razão de duvidar. Com os americanos, nunca podemos ter certeza. A começar pelo cinema que eles faziam nos anos dourados. Nada era o que parecia ser.


Em plena 2ª Guerra, John Wayne e Errol Flynn interpretavam supersoldados dizimando nazistas. Logo eles que, na vida real, não foram à guerra e nunca vestiram uma farda —e, no futuro, o biógrafo Charles Higham acusaria Flynn de ter sido informante para os alemães. Jerry Lewis, um dos cômicos mais amados do mundo, era intragável como pessoa, segundo opinião unânime em Hollywood. Já Boris Karloff, o maior monstro do cinema, era um doce —educado, gentilíssimo, botava presentes de Natal para as crianças na porta de seus vizinhos no Edifício Dakota, onde morava.

Rita Hayworth não tinha testa —ganhou uma à custa de eletrólise. Marlene Dietrich teve os sisos e molares arrancados para ficar com o rosto afilado. Victor Mature, que fez Sansão em "Sansão e Dalila" (1949), morria de medo do leão dopado que tinha de enfrentar em cena. E Humphrey Bogart, Gary Cooper, John Wayne, James Stewart, Fred Astaire e Gene Kelly usavam peruca.

Nos filmes clássicos americanos, as cenas externas noturnas eram filmadas de dia, com a chamada "noite americana". Ninguém fazia a barba até o fim —limpava a espuma com a toalha e já estava impecavelmente barbeado. Ninguém terminava uma refeição —era sempre interrompido e tinha de abandonar a mesa. Nas pancadarias no saloon, com espelhos partidos e socos a granel, ninguém saía de mão ou queixo quebrado.

E que bom que, finalmente, temos Kamala Harris. Ela é de verdade ou os EUA são só no filme?
Ruy Castro

sábado, 27 de julho de 2024

Pensamento do Dia

 


Anatomia da vertigem política

Em 1835, Alexis de Tocqueville, um aristocrata e grande escritor francês, teve uma ideia deveras inovadora. Tornou-se, como direi, o primeiro cientista político moderno, observando de perto os fatos que o intrigavam, colhendo informações e fazendo entrevistas, com o objetivo de responder a uma indagação que até hoje nos atormenta. Queria entender por que o sistema político dos Estados Unidos evoluía firmemente no sentido de uma democracia pacífica, progressista e competitiva, enquanto na Europa, excetuada a Inglaterra, nem os países mais importantes pareciam capazes de se livrar de suas tradições dinásticas e autoritárias. Mesmo sua França natal, que fez a maior revolução dos tempos modernos, quase sucumbiu a um regime de terror, o que só não aconteceu graças à ação militar de Napoleão Bonaparte, que preservou muitos ganhos do processo revolucionário, mas implantou um sistema de governo que só após a 2.ª Guerra Mundial se firmou como uma democracia de alto desempenho.



A chave da interpretação proposta por Tocqueville no clássico A Democracia na América foi o que ele denominou “arte da associação”. Não custa acrescentar que Tocqueville lá esteve durante o período conhecido como “democracia jacksoniana”, assim designada pelo importante impulso democratizante que lhe deu o presidente Andrew Jackson, eleito em 1828. A arte de confiar nos outros e com eles colaborar já começara a se delinear havia mais de um século, quando as 13 colônias, que ainda eram propriedade da Inglaterra, mostravam-se ciosas de sua autonomia e insistiam em organizar como lhes aprouvesse os negócios que somente a elas diziam respeito.

Ora, se a “arte da associação” foi um fator tão importante, vem-me à mente uma ideia que o leitor talvez considere estapafúrdia: a importância da neve. Numa região ou país cujo inverno se caracteriza por nevascas terríveis, vizinhos que ontem se detestavam, na manhã de amanhã, estarão se ajudando mutuamente na remoção daquele enorme entulho que logo se transformará em gelo, pois do contrário não conseguirão tirar da garagem o carro (ou seu equivalente naqueles tempos distantes). No fundo da alma, poderão detestar o quanto quiserem, mas a neve era um fato que os obrigava a “dar um tempo”. Algo semelhante se passou no Brasil semanas atrás, por ocasião da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. De repente começamos a ver pela televisão comoventes cenas de cooperação, fato que nós, brasileiros, nunca tínhamos visto.

Contudo, o paralelo com os Estados Unidos precisa ser tomado com cautela. Não é que desconheçamos por completo a arte da associação. O problema são os usos que dela fazemos. O que nos reúne é muito mais o desejo de tomar uma cerveja e comentar os resultados do futebol. Mais que isso: às vezes grupos se organizam, arrendam quatro ou cinco ônibus e lá vão, batucando e cantarolando, assistir a um jogo noutro Estado, ou para assistir ao Rock in Rio. Ou seja, nossos episódios associativos carecem totalmente de referências à vida pública, ou àquilo que Aristóteles denominou bem comum. Xingar os Três Poderes sediados em Brasília todos nós adoramos, mas falta-nos paciência para calcular na ponta do lápis quanto pagamos em impostos, quanto falta para a arrecadação empatar com a despesa, ou quanto e como o governo gasta em educação, saúde e saneamento.

Fato é que, embora não tenhamos neve e enchentes devastadoras sejam raras, a comparação com a América do Norte requer cautela centenas de vezes maior. Muitos tormentos provêm da natureza, mas os piores são provavelmente os que nós mesmos engendramos, mercê de nosso desleixo, de nossa preguiça e de nossa estupidez. Como todos se lembram, Jano, o deus romano do tempo, dos primórdios e das transições, tinha duas faces, o que lhe permitia enxergar o passado e o futuro ao mesmo tempo. O olhar retrospectivo indicavalhe a prudência, ou seja, o que fizemos de certo ou errado, e o que precisamos fazer melhor da próxima vez. Aqui já temos matéria para nos associarmos assiduamente. O olhar prospectivo dava-lhe coragem e determinação, mas alertava-o contra as pedras que encontraria pelo caminho, alertando-lhe para a necessidade do tirocínio, da coragem e da determinação. 


No Brasil, só os muito obtusos ignoram que uma séria crise provavelmente nos atingirá dentro de duas ou três décadas, graças à chamada “armadilha do baixo crescimento”. Com a classe política e os partidos políticos que hoje possuímos, e a possível reeleição de Lula da Silva, é fácil inferir que tal crise poderá ser pior que o necessário. Somos, como é sabido, abundantes em tudo, inclusive em arrogância. A perspectiva acima alinhada significa que insistiremos na pretensão econômica que nós acompanhamos desde a Revolução de 1930: a de querer crescer somente com recursos públicos e com uma economia fechada, abominando o mercado e nos lixando para a indispensável criação de um ambiente sadio para os negócios.

Conciliações no STF fragilizam luta por justiça climática

A Justiça Federal do Amazonas proferiu na última semana duas importantes decisões no contexto de emergência climática em que estamos vivendo. Na primeira delas, um fazendeiro foi condenado pela derrubada ilegal e queima de mais de 5.600 hectares de floresta amazônica.

No segundo caso, a Justiça Federal suspendeu liminarmente a licença prévia concedida durante o governo Jair Bolsonaro (PL) para asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, por não ter levado em consideração dados técnicos sobre o impacto ambiental da obra sobre um território amazônico da dimensão do estado de São Paulo.


Nesse quadro de litígio climático, também deve se destacar decisão do Tribunal de Justiça de Rondônia, que suspendeu a extinção de 11 Unidades de Conservação, autorizada pela Assembleia Legislativa daquele estado, sob pressão dos latifundiários.

De acordo com o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o aquecimento de 1,1°C, induzido por atividades humanas, vem desencadeando transformações dramáticas no clima de todo o planeta. No último domingo, 21 de julho, o planeta viveu o dia mais quente registrado na história, conforme dados do observatório climático europeu Copernicus.

Fenômenos climáticos extremos, como as inundações no Rio Grande do Sul, que deixou centenas de milhares de pessoas desabrigadas, têm se tornado cada vez mais recorrentes, com forte impacto sobre a população, especialmente sobre aquelas que vivem em áreas mais vulneráveis e dispõem de menos recursos para se adaptar aos efeitos do aquecimento global.

Nesse sentido, não estamos vivendo mais um período de mudança, transição ou risco climático, mas de emergência climática. Isso impõe uma profunda mudança de comportamento, tanto do poder público quanto do setor privado, se quisermos evitar ou mitigar mais e maiores desastres.

A responsabilidade pela geração de gases de efeito estufa, que promovem o aquecimento global, recai predominantemente sobre os países do Hemisfério Norte e sobre a China, que empregaram e ainda empregam intensamente combustíveis fósseis na base de seu processo produtivo.

A parte que cabe ao Brasil no agravamento da emergência climática está associada ao desmatamento. A derrubada da floresta não apenas suprime a vegetação que remove carbono da atmosfera, como também promove a emissão bruta de gás carbônico decorrente das queimadas. O desmatamento altera ainda o regime de chuvas e a umidade do ar, com forte impacto sobre a agricultura e a vida nos grandes centros urbanos.

Daí a importância das referidas decisões judiciais, neste momento. Além de punir aqueles que ilegalmente derrubam as florestas, dissuadindo o comportamento predatório, também visam barrar iniciativas públicas que flexibilizam a legislação ambiental, legalizam atividades de desflorestamento ou retiram a proteção de áreas ambientais ou terras indígenas, que constituem os principais mecanismos de preservação das florestas no Brasil.

Na contramão desse movimento por justiça climática, temos testemunhado preocupantes iniciativas no âmbito do STF, ao promover processos de conciliação de conflitos fundiários envolvendo terras indígenas.

Essas iniciativas apontam para o risco de flexibilização de "direitos originários", "inalienáveis", "indisponíveis" e "imprescritíveis" dos povos indígenas sobre suas terras (artigo 231 CF), o que é constitucionalmente inaceitável; estão sendo usadas como pretexto para novas invasões de terras indígenas; e, por fim, ampliam as ameaças ao nosso patrimônio ambiental. Daí porque, em tempos de emergência climática, essas conciliações deveriam ser suspensas.

'Uma morte lenta': a vida de Gaza vivem ao lado de lixo podre e roedores

Asmahan al-Masri e 15 parentes vivem em um acampamento em Khan Younis, a poucos metros de pilhas de lixo

Do outro lado da Faixa de Gaza, em uma paisagem recentemente transformada pela guerra, montanhas de lixo fedorento representam sérios perigos à saúde e ao meio ambiente.

“Nunca vivemos perto de lixo antes”, diz Asmahan al-Masri, uma mulher deslocada, originalmente de Beit Hanoun, no norte, cuja casa agora é um terreno baldio em Khan Younis.

“Eu choro como qualquer outra avó choraria por seus netos estarem doentes e com sarna. Isso é como uma morte lenta. Não há dignidade.”

Em oito meses, estima-se que mais de 330.400 toneladas de resíduos sólidos tenham se acumulado no território palestino, de acordo com a ONU e agências humanitárias que trabalham com saneamento.

Dezesseis membros da família Masri compartilham uma tenda em um acampamento perto da Universidade de al-Aqsa com nuvens de moscas e, às vezes, cobras. Cães vadios podem vagar ameaçadoramente por perto. Todos os moradores reclamam do fedor constante.

“O cheiro é muito perturbador. Eu mantenho a porta da minha barraca aberta para poder respirar um pouco de ar, mas não há ar”, diz Asmahan. “Só o cheiro de lixo.”

O desespero em Gaza está a forçar muitos, como Mohamed, a procurar algo para comer, usar ou vender.


Algumas das mais de um milhão de pessoas que fugiram recentemente da ofensiva militar de Israel na cidade de Rafah, no sul do país, foram forçadas a viver em áreas abertas que já haviam sido transformadas em depósitos temporários de lixo.

“Procuramos em todos os lugares por um lugar adequado, mas somos 18 pessoas com nossos filhos e netos, e não conseguimos encontrar outro lugar onde pudéssemos ficar juntos”, diz Ali Nasser, que recentemente se mudou de sua casa em Rafah para o acampamento da Universidade de Al-Aqsa.

“A viagem até aqui nos custou mais de 1.000 shekels (US$ 268; £ 212) e agora nossas finanças estão destruídas. Não temos empregos, nem renda, e então somos forçados a viver nessa situação terrível. Sofremos de vômitos, diarreia e coceira constante na pele.”

"Não há ar", diz Asmahan, "apenas o cheiro do lixo"

Antes da guerra, anos de bloqueio imposto por Israel e Egito a Gaza, que era governada pelo Hamas, colocaram uma pressão severa em serviços básicos, como o descarte de resíduos.

As rígidas restrições sobre o que poderia entrar no território, segundo Israel, por motivos de segurança, significavam que não havia caminhões de lixo suficientes, faltava equipamento para separar e reciclar o lixo doméstico e para descartá-lo corretamente.

Desde os ataques mortais liderados pelo Hamas em 7 de outubro, o exército israelense bloqueou o acesso à área da fronteira, que é onde os dois principais aterros sanitários de Gaza estão localizados. Um em Juhr al-Dik atendia anteriormente o norte, e outro, em al-Fukhari, atendia as áreas central e sul.

“Estamos vendo uma crise de gestão de resíduos em Gaza, que piorou muito nos últimos meses”, diz Sam Rose, diretor de planejamento da agência da ONU para refugiados palestinos, a Unrwa.

Os moradores de Gaza enfrentam o risco de doenças devido à acumulação de águas residuais perto de abrigos improvisados

Imagens de mídia social compiladas pela BBC Verify mostram que lixões temporários cresceram conforme as pessoas fugiam em ondas para diferentes cidades. A BBC Verify autenticou esses locais na Cidade de Gaza, Khan Younis e Rafah de fevereiro a junho deste ano.

Uma análise de satélite feita pela BBC Verify já havia esclarecido outro aspecto dos problemas de saneamento, mostrando que metade dos locais de tratamento de água e esgoto de Gaza foram danificados ou destruídos desde que Israel iniciou sua ação militar contra o Hamas.

“Você vê enormes poças de lodo cinza-marrom ao redor das quais as pessoas estão vivendo porque não têm escolha, e você vê grandes pilhas de lixo. Ou isso é deixado do lado de fora das casas das pessoas ou, em alguns lugares, as pessoas foram forçadas a se mudar para perto dos aterros temporários que foram instalados”, diz o Sr. Rose.

“As pessoas estão literalmente vivendo no meio do lixo.”

O deslocamento em massa de pessoas sobrecarregou as autoridades locais, muitas vezes lidando com instalações danificadas por causa do bombardeio israelense em andamento. Elas reclamam da falta de pessoal, equipamento e caminhões de lixo, bem como de combustível para operá-los.

No município de Khan Younis, um funcionário, Omar Matar, lamenta as condições terríveis enfrentadas por aqueles que agora vivem perto da Universidade de al-Aqsa.

“Esses despejos aleatórios não atendem aos padrões de saúde e ambientais. Eles não impedem a propagação de odores, insetos e roedores”, ele diz.

“Eles foram criados anteriormente como uma medida de emergência por causa do fechamento do aterro sanitário de Sofa [em al-Fukhari], até que uma solução seja encontrada com instituições internacionais para transportar os resíduos para lá”, explica.

Um porta-voz do órgão militar israelense, Cogat, me disse que estava analisando diversas soluções diferentes para o problema do lixo em Gaza.

O campus da universidade de al-Aqsa, em Gaza, foi transformado em um aterro sanitário temporário em Khan Younis

O Programa de Desenvolvimento da ONU diz que recentemente esteve envolvido na coleta de 47.000 toneladas de lixo do centro e sul de Gaza e que distribuiu 80.000 litros de combustível para o esforço de limpeza. Mas muito mais precisa ser feito.

Agora que as temperaturas do verão estão subindo, há novos alertas de agências de ajuda humanitária sobre os riscos à saúde representados por tanto lixo.

No entanto, o desespero leva muitos moradores de Gaza a correr riscos extras: procurar algo para comer, usar ou vender.

“Nós nos acostumamos com o cheiro. Todos os dias viemos aqui juntos para procurar caixas de papelão e outras coisas que podemos queimar para fazer fogueiras”, diz Mohammed, um dos garotos de um grupo que vasculha um depósito de lixo perto de Deir al-Balah, pois ele está cheio de resíduos de embalagens de ajuda e esforços rudimentares para limpar locais atingidos por ataques aéreos israelenses.

Mazad Abu Mila, um homem deslocado de Beit Lahia, diz que está procurando sucata que possa usar para construir uma fornalha.

“Deixamos todo o nosso dinheiro para trás, nossas lojas, nossos carros, nosso gado, nossas casas. Tudo foi deixado. Esta é a coisa mais perigosa para a nossa saúde. Eu nunca teria ido a um depósito de lixo antes, mas agora, todo mundo está vindo para cá.”

Fugir a fingir

Fugir é cada vez mais difícil mas é cada vez mais necessário.

É bom fingir que se está a fugir, que não se pode ficar em casa nem ir a lugares previsíveis, onde se pode ser apanhado.

Ir ao cinema é sempre uma fuga. É pena não haver escuridão total. Mas há horários em que se consegue estar sozinho a ver um filme.

Há lugares perto de onde vivemos - ou, melhor ainda, longe - aonde nunca fomos. É bom ser-se turista numa terra que ninguém visita.

É bom saber que ninguém nos pode localizar. Localizar está para a liberdade como conservar para as sardinhas.


Os fugitivos são, por definição - e não só nos filmes de Nicholas Ray - felizes. Fugir é bom. As responsabilidades, de que toda a gente está sempre a falar, são más para nós. Nem sequer são boas para os outros.

Fugir sem ter razão para fugir é um acto libertador de cobardia criativa. O medo é, tal como a preguiça e todas as espécies (sem distinção) de egoísmo, uma manifestação da mais elevada inteligência.

"Fica-te", dizem os escravos que absorveram os interesses dos esclavagistas. "Deixa-te ficar; contenta-te com o que tens; enfrenta aquilo que tens para enfrentar", aconselham os carrascos já derrotados da liberdade.

Os escravos verdadeiros fugiam mesmo quando corriam o risco de morrer. Que se há-de dizer dos escravos figurativos de hoje em dia que, quando fogem, só correm o risco de viver?

Desliguem-se os telemóveis. Mudem-se as coordenadas. Confundam-se as tentativas de contacto. Fugir é cada vez mais difícil mas é cada vez mais necessário.

Fujamos já!

Miguel Esteves Cardoso

Deus e o diabo na terra do Estado laico

Deus pode até estar em todos os lugares, mas em nenhum é tão onipresente como na política.

Bolsonaro O tinha como cabo eleitoral, encabeçando uma versão revista e recauchutada da Santíssima Trindade: “Deus, pátria e família” — sendo a pátria a crucificada, e a família seu próprio clã. Ainda que o Brasil estivesse acima de tudo, Deus estava acima de todos. Tão acima que, apesar de onisciente, não perceberia as rachadinhas, o comportamento criminoso durante a pandemia, a devastação ambiental, a venda das joias, a incitação ao golpe e uma penca de outros pecados passíveis de penitência bem maior que dois pais-nossos e quatro ave-marias.

Como quem acende uma vela para si mesmo e outra para o diabo, Deus não tem preconceito ideológico nem desampara quem o procure. Lula garante que sua volta ao poder foi coisa d’Ele — cometendo a heresia do machismo linguístico ao chama-lO de “o homem lá de cima” (linguagem neutra, só no discurso escrito, né?).


— Vocês votarem em mim foi ato de fé, de coragem, que um milagre estava para acontecer nesse país — declarou, com um olho na Bíblia e outro na urna. — Deus não é mentira; é a verdade, e não pode usar em vão como eles usam todo santo dia — completou, usando o nome em vão, como faz todo santo dia.

Políticos sabem que, numa democracia, só o voto salva — e o caminho mais curto para a salvação passa pela oferenda, pelo dízimo, pelo confessionário. Há mais ateus num avião em queda livre que em campanha eleitoral. Que o digam Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso.

Sarney (rico governador do estado mais pobre do país, chefe de um governo pródigo em nepotismo e corrupção) proibiu a exibição de “Je vous salue, Marie” (de Jean-Luc Godard) “para assegurar o direito de respeito à fé da maioria da população brasileira” — e mandou que Deus fosse louvado em todas as cédulas (uma excrescência que corre o risco de jamais ser revogada).

Ter cidadania brasileira não impede que Deus preste serviços fora daqui. Sua mão teria ajudado Maradona a fazer um gol decisivo nas quartas de final contra a Inglaterra, na Copa de 1986. E, segundo Donald Trump, foi Ele quem “evitou que o impensável acontecesse“ no atentado de 13/7. A mão divina não deve ser mais a mesma, porque a bala ainda pegou de raspão.

Nas hostes infernais da oposição ao Todo-Poderoso, os tinhosos, cabruncos e capirotos ganharam a companhia de duas novas entidades malignas: fascistas e comunistas.

— Temos um mal pela frente, um capeta que quer implantar o comunismo no nosso Brasil — vociferou um.

— Com Boulos eleito, poderemos dizer que nunca mais os fascistas vão governar essa cidade e esse país — ululou o outro.

Além dos políticos, há mais uma categoria que tem certeza da inexistência de Deus. São os charlatães, que exploram a boa-fé alheia com “milagres” encenados para arrancar o dízimo — ou, como João de Deus, obter favores sexuais. Eles não se arriscariam a arder no mármore do inferno por toda a eternidade, pagando pelos pecados da ganância, da soberba, da fraude, da luxúria se temessem a hora da verdade no Dia do Juízo.

Se Deus é um delírio, como O definiu Richard Dawkins, o Brasil ainda deve demorar um pouco para sair do surto. Quem melhor escreveu a respeito foi o compositor Chico César:

— Essa gente é o diabo e faz da vida de Deus um inferno.

Não só da d’Ele. Da nossa também.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Precisa-se de justiça


Precisamos de um senso de justiça, mas precisamos também de senso comum, de imaginação, de uma capacidade profunda de imaginar o outro, às vezes de nos colocarmos na pele do outro. Precisamos da capacidade racional de nos comprometer e, às vezes, de fazer sacrifícios e concessões.
Amós Oz

Viva Kamala Harris!

Uma das vantagens de viver num país pequeno ao qual ninguém liga nenhuma é podermos ser irresponsáveis.

Quando falamos das eleições americanas, por exemplo, temos a certeza de que a nossa influência sobre os eleitores americanos é absolutamente zero.

Logo, podemos dizer os disparates que quisermos, que daí não vem mal ao mundo: somos só portuguesinhos de peito cheio a fingir que ainda mandam no mundo, quais periquitos vaidosos, a perorar sobre a nova água-de-colónia do patrão.


Digo isto antes de oferecer as minhas perorações sobre Kamala Harris porque nada é mais divertido do que ler os comentadores portugueses a escrever como se fosse a prosa deles a impedir a Casa Branca de colapsar. Não há nada mais hilariante do que uma nulidade a levar-se a sério.

Pelo que vi, gosto muito de Kamala Harris. Os americanos de quem eu não gosto não gostam dela pelas razões que me levam a gostar dela.

Para já, ri-se muito. É o riso de quem gosta de se rir. Ri-se sinceramente e, sobretudo, rise quando não se deveria rir, o que é um sinal de liberdade.

Beija o marido na boca, mesmo que estejam milhões de pessoas a ver. Isto é o mesmo que se rir. Mostra que não tem duas caras. Não é condescendente: não pensa que é preciso ter cuidado com o povo.

Quando fala em público, pensa em voz alta. Tenta dizer coisas profundas e, quando falha, volta à carga na próxima ocasião. A espontaneidade tornou-se tão rara que já ninguém a reconhece.

Gosta de música boa – de Mingus, por exemplo – e não tenta contrabalançar o bom gosto dela com exemplos popularuchos. Kamala Harris pode ou não ser brat (e a música de Charli XCX pode não ser grande coisa), mas, pelo menos, não faz de conta que adora as cantilenas robóticas de Taylor Swift.

Kamala Harris é uma burguesa de bom gosto. A mãe era oncologista e investigadora, o pai é historiador e professor universitário.

Parece ser uma pessoa feliz.

Se os americanos não gostam dela, o problema não é de Kamala Harris.

É deles.

Mercado é o quarto poder na anarcodemocracia digital

O apagão ocorrido no universo da internet na semana passada veio confirmar que a ideia de que o mundo digital é uma espécie de paraíso da democracia plena não passa de um mito. Um erro cometido por uma única megacorporação de informática chamada CrowdStrike bastou derrubar sistemas privados e governamentais em vários países. A pisada na bola dessa empresa (com nome digno daquelas operações secretas dos filmes de espionagem) ocorreu durante um upgrade em um serviço que prestava à Microsoft.


Dito de outra forma, centenas de milhares de cidadãos mundo afora tiveram suspensos por muitas horas os seus direitos de ir e vir, de se comunicarem, de acessarem saúde, educação, trabalho e consumo. Se tal pandemônio pode ocorrer por falha involuntária de apenas uma empresa, será que alguma organização ou indivíduo não conseguiria fazer o mesmo deliberadamente?

Nesse ponto é preciso chamar a atenção para o aspecto crucial, de natureza política, que normalmente passa despercebido na atuação desse tipo de corporação tecnológica com alcance global. Elas têm se tornado verdadeiras donas da democracia, da verdade e até mesmo das diferentes expressões do direito. Apesar do seu colossal alcance público, são empresas privadas, que têm dono, mas controlam as redes sociais, aplicativos, internet, sistemas operacionais de computadores e celulares. enquanto prestadores de serviços, acessam inclusive o sistema financeiro, as agências de inteligência, segurança pública e o setor de defesa. Tudo agora turbinado por inteligência artificial e machine learning.

As autoridades reguladoras e legislativas têm demonstrado dificuldade em acompanhar a velocidade de desenvolvimento das tecnologias que transcendem fronteiras. Se, por um lado, os erros (e as vontades) desses novos atores globais podem afetar até o funcionamento das democracias, por outro lado, falta capacidade ao sistema de “freios e contrapesos democráticos” de enfrentar esses excessos adequadamente.

Podemos dizer que a caduquice dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (ou de qualquer governança multilateral) nesse tema abre espaço para que o próprio mercado assuma uma posição de Quarto Poder Moderador na arena global dos negócios digitais.

Foi justamente o que aconteceu esta semana em reação ao apagão provocado pela CrowdStrike. Imediatamente, ainda na manhã seguinte ao apagão, na abertura do pré-market da Bolsa de Nova York, os mercados já haviam derrubado o preço das ações da empresa em quase 20%, e continuam em baixa esta semana, enquanto as ações da sua concorrente SentinelOne subiam 10%.

Enquanto isso, passado uma semana desse incidente com escala planetária, o Congresso americano não havia feito mais do que convidar a CrowdStrike para “prestar informações” sobre o apagão.

Nada contra as companhias digitais. Pelo contrário, elas representam um avanço tecnológico com potencial de transformar para melhor a sociedade, os governos e os negócios em uma escala formidável. No entanto, isso não dispensa o Estado e a sociedade civil das suas atribuições como garantidores dos interesses individuais e coletivos, bem como dos princípios democráticos.

Antevendo o passado em que estamos vivendo.

Em março de 2022 reli o "Turning Back the Clock", de Umberto Eco (Vintage Books, 2008). O livro é uma coleção de artigos e ensaios em que ele analisa o que chamou, no sub-título, de "hot wars and media populism".

Um desses artigos, de julho de 2003, publicado no L'Espresso, prendeu minha atenção. Neste, Eco comenta uma tentativa de Berlusconi, de "retirar a legitimidade do sistema judiciário italiano". Berlusconi era então primeiro-ministro, pela segunda vez (2001-06). Em tom de desafio, ele disse que "já que foi eleito pelo povo" ele não aceitaria "ser julgado por alguém que alcançou aquele posto no judiciário graças apenas à sua qualificação profissional".

Ora – prossegue Eco –, "se levarmos a sério esse raciocínio, eu não posso concordar em ter uma operação de apendicite feita por um cirurgião, ou mandar meus filhos para a escola – e poderia até mesmo resistir a uma ordem de prisão por um policial; porque essas pessoas são autorizadas a executar suas funções devido às suas qualificações profissionais e não por eleição popular."


Quase duas décadas depois, em janeiro desse 2022, li nos jornais brasileiros que o então presidente "desobedeceu a uma determinação do presidente do Supremo Tribunal Eleitoral e não compareceu à sede da Polícia Federal para prestar depoimento no inquérito que apurava um vazamento de investigação sobre ataque de hacker a urnas eletrônicas". Isso apesar da sua "atuação direta, voluntária e consciente" na quebra daquele sigilo, conforme termos da investigação. Ele se colocava acima da lei porque o povo (e Deus, segundo ele) foi quem o colocou no comando.

Chamou-me a atenção, neste ponto, o conceito de "povo", ou de "eleição popular". Berlusconi, falecido em 2023, era dono da maior rede de empresas de comunicação da massa na Itália. E nos seus dias de primeiro-ministro a internet apenas engatinhava. Hoje, plataformas de redes sociais atingem mais pessoas – e mais diretamente, através do celular – do que as telas gigantescas das TVs.

Para Eco, "como uma entidade única, natural, congregando as mesmas vontades, sentimentos ou valores morais, o povo não existe". Segundo ele, o que existe são grupos de cidadãos, com suas crenças, princípios e mesmo idéias diferentes. Assim torna-se mais correto dizer que um presidente (ou qualquer outro representante) foi eleito pela maioria dos votos dos "cidadãos", do que dizer simplesmente que ele foi eleito "pelo povo".

Dentro desse enfoque, se "povo" não existe, os populistas (hoje, como de praxe) sempre tentam (e geralmente conseguem...) criar – segundo Eco – "uma imagem virtual de vontade popular".

A palavra virtual, embora usada naquele texto de 2003, ganha dimensão nova nos dias de hoje. A televisão torna-se obsoleta diante das redes sociais. Afora ideologia, envolvimento e compromissos comerciais, as emissoras de televisão, em países democráticos, são sujeitas a certas formas de controle, normas legais a serem observadas. Já uma plataforma digital se torna uma ferramenta poderosa – quase não controlada, de custo baratíssimo, quase nulo – para a implementação e manutenção do populismo.

Outro fator, as técnicas de venda, me chama a atenção. Uma delas, muito usada, é "ser vítima de perseguição". Funcionou, naquele ano, como um escudo para o então presidente do Brasil, razão pela qual ele decidiu não atender ao chamado de um juiz federal.

Trago aqui um outro ponto que não estava no contexto da Itália, pelos idos de 2003: o uso da fé, o uso das religiões – quanto mais dogmática, melhor – para manter no cabresto esse tal "povo virtual" citado por Umberto Eco. Esse povo, alimentado pelo que vem das redes sociais, obedece ao que vem dos seus dirigentes, de forma cega, pré-medieval até, ignorando erros desses mesmos dirigentes – sejam eles falhas acidentais ou crimes premeditados.

Eco acerta de novo lá no título do livro: o populismo, avançando hoje a passos largos, é uma força gigantesca que vem contribuindo para atrasar o relógio da história.