quinta-feira, 13 de junho de 2024

Ordem e desordem tributária

Viver é que vai virar pecado se proteína não entrar na cesta básica, cerveja for considerada menos álcool e o mantra “chegou na sua mão, andou de caminhão” perder o sentido pela associação do diesel com transgressão sanitária e ambiental. Enquanto o ministro vai a Roma convencer o papa de que tributos cobrados por César devem ser maiores do que os devidos a Deus, lembro o zelo da mãe de Manoel de Barros para com o filho sensível: “Menino, você vai carregar água na peneira a vida toda”. Imposto frágil com desculpa dá desordem à exceção.


O poeta do Pantanal não é um poeta à toa. Nunca escondeu não ter habilidade para clarezas, embora seja cristalina sua opinião de que a importância de uma coisa é medida pelo encantamento que a coisa produz em nós. Coisa meio difícil, reconheço, em país onde os rios correm para as nascentes. Má tradição quando a lei do imposto ousar definir que só rico deve comer carne, que cerveja é álcool leve e que é pecado ônibus e caminhão usarem o combustível disponível nas condições atuais dos motores do País. Realismo é imaginar pelo menos carne moída, asa de frango e tilápia na cesta básica. Mas realismo fantástico é ver o diesel barato vendido em lata nos Rock&Lolla&Country urbanos e suburbanos e a cerveja patrocinada servida em serpentina na bomba de gasolina.

Se democracia não é neologismo, o cheio pode ser vazio, melhor estimular o que não faz mal. O poeta ganhou prêmios inventando palavras e abastecendo o abandono de esperança. Compensa o infortúnio dos necessitados de proteína, transporte e abstinência sugerir que catástrofe é quando as coisas continuam como estão.

A maior porcaria é desejar sem ser preciso. O Brasil político, desnivelado pelas injustiças e o destino, só se sente protegido pela visão carnavalesca da justiça. Direitos, direitos, bradam juízes e procuradores, sem dizer que, inconscientemente, pedem é mais protetores dos direitos. Sem interesse em praticar o costume dos vencedores, o Brasil não vê o imposto como empréstimo da sociedade ao governo para realizar suas funções. O que exige consentimento e sensatez no uso do poder de tributar. E desconfiar do adulador com seu burro carregado de ouro.

Nenhuma isenção pode ser um desperdício, ou privilégio, uma insignificância. Mas, quando a situação não está decidida, pensando melhor, ainda há tempo de impedir o erro. Governar com múltiplos partidos vazios e não tendo o governo um centro de gravidade próprio, é impossível sintonizar suas decisões com a necessidade geral. Ainda mais quando populismos pontuais, muitos nadas, movem os Três Poderes. O Brasil precisa voltar a ser uma república compreensível. Boa oportunidade num governo de dois constituintes. Interromper a sina da Federação de Estados inimigos, cada um fazendo o que decide fazer. A União não é uma cômoda com 27 gavetas.

Melhor que nomear é aludir, diz o poeta. Que tal aceitar as recentes recomendações do Conselho Nacional de Saúde aos Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; presidências do Senado e da Câmara; Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária? Se nossa sociedade tem compromisso com o futuro, é bom saber que imposto seletivo não freia o malefício da soberba de chamar álcool de bebida leve. Bebida alcoólica é uma coisa só, alíquota única faz bem à saúde. A vantagem ainda é que o País vai arrecadar mais parando de pagar cerveja para todo mundo.

Parlamentares não devem ler nada que não exija esforço ou não exija nada. A vida são deveres. Legisladores, juízes e governantes não devem expressar com mordacidade ou de forma intensa demais sua emoção. Melhor também ficar alerta a natureza para enfrentar tributariamente, de forma não improvisada, tragédia desoladora como a que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. Não somos um país que mora no fim de um lugar qualquer.

É hedonismo demais permitir publicidade de cerveja a qualquer hora e lugar, visando a gente de qualquer idade. É dose, seduzir usuários, como tabaco da terra de Marlboro, para se tornarem social e tolerantemente responsáveis pela cifra que faz a cerveja monopólio de 90% do consumo de álcool no País. Organização e ordem é o sonho de uma boa reforma tributária que pode fazer o Estado deixar de apoiar o esdrúxulo costume alimentar do povo que tolera ver o álcool mais prestigiado do que a carne. Ora, se a carne não é coisa de pobre, e por isso não entra na cesta básica, é um ardil inverso dizer que cerveja não é coisa de álcool, para fazê-la barata.

A reforma tributária precisa também estar atenta à perda da razão da máxima do economista John Maynard Keynes, que dizia que no longo prazo estaremos todos mortos. Hoje, a equação é de que no longo prazo ainda estaremos todos vivos. Tributação justa faz a expectativa econômica se harmonizar com a expectativa de vida. Prisioneiro de escolhas limitadas, ninguém vai conseguir desbadalar o sino do mau costume. No Vaticano, Francisco deve ter alertado a Fernando Hadadd: ministro, sabemos que tudo o que acontece no mundo é vontade divina, mas, se der errado, quem vai levar a culpa é você.

O ataque de parlamentares à ciência e aos professores

Na última semana, fomos surpreendidos com o requerimento de uma audiência pública na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados que visa a questionar os resultados de pesquisas conduzidas pelo NetLab, nosso renomado laboratório da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. O requerimento leva professores à comissão com o objetivo de censurar a ciência no Brasil, criminalizando professores. Portanto esse não é um ataque apenas à UFRJ, mas a toda a comunidade acadêmica brasileira.

O laboratório é alvo de ataques devido à sua agenda de pesquisa, que aborda o problema da desinformação. As pesquisas do NetLab UFRJ, com especial atuação em questões socioambientais e golpes na internet, ganharam destaque nos principais noticiários da mídia brasileira no último mês devido à tragédia no Rio Grande do Sul, afetada por fake news para manipular a opinião pública e por golpes com pedidos de doações falsas — que desviaram ajuda das vítimas para enriquecimento ilícito de estelionatários. Além disso, o NetLab UFRJ tem se destacado ao longo dos anos pela produção de inúmeras pesquisas de valor incalculável para a sociedade, fornecendo evidências com metodologia científica que embasam políticas públicas e auxiliam gestores e autoridades em tomadas de decisões, motivo de grande orgulho para a UFRJ.

O principal questionamento do requerimento é o financiamento do laboratório com recursos públicos e de fundações filantrópicas para a realização de suas pesquisas. Ora, a maior parte da pesquisa gerada no Brasil depende de recursos públicos, e é desejável que assim seja.

Entretanto os recursos públicos para pesquisa são escassos diante das imensas demandas e desafios colocados ao desenvolvimento científico e tecnológico de ponta, especialmente para os que necessitam de processamento de grande volume de dados e exigem altos investimentos. Nesse sentido, aplaudimos todos os pesquisadores, laboratórios e instituições que conseguem complementar seus orçamentos apresentando projetos a fundos públicos e aos disputadíssimos financiamentos privados nacionais e internacionais de fundações filantrópicas, como faz o NetLab UFRJ.

Trata-se de um roteiro já conhecido e usado noutros países por atores antidemocráticos para censurar a ciência por meio de ações no Parlamento. Nesse caso, o objetivo é inibir os estudos sobre desinformação e pressionar os pesquisadores a desistir de seus temas de pesquisa em anos eleitorais. É justamente por conhecermos esse roteiro, que relembra os tempos mais sombrios da História de nosso país, que reafirmamos nosso compromisso com o ensino e a pesquisa independente. Declaramos que não nos deixaremos intimidar por manipulações e ameaças a nossa autonomia universitária, a nossa independência acadêmica e à liberdade de pesquisa, os pilares da universidade pública e uma conquista do Estado Democrático de Direito.

Não admitiremos censura à pesquisa científica, muito menos que criminalizem professores, pesquisadores e a comunidade acadêmica quando resultados de pesquisa desagradam. Nós, da UFRJ, seguiremos em nossa missão social de contribuir para a solução de problemas da nossa sociedade. Assim, conclamamos a população brasileira a permanecer vigilante em defesa da ciência livre, sem censura e com recursos necessários, fundamental para o desenvolvimento econômico, social e político de nosso país e para garantir a soberania nacional.
Roberto Medronho

terça-feira, 11 de junho de 2024

Pensamento do Dia

 


As perguntas a que Netanyahu não responde

Em Gaza, convém não pensar no amanhã. A ONU estima em 37 milhões de toneladas os escombros gerados nestes oito meses de bombardeios israelenses. Debaixo dessas montanhas de concreto, cimento, poeira e silêncio lunar, encontram-se os restos mortais de 10 mil palestinos soterrados. Somente o trabalho de remoção desse entulho encravado de corpos humanos deverá exigir até três anos de labuta.

— Há mais escombros aqui do que na Ucrânia — testemunhou Charles Birch, que chefia o trabalho de desativação de bombas não explodidas em Gaza, sob o guarda-chuva do Serviço de Ação contra Minas das Nações Unidas (UNMAS).

A empreitada de sua equipe será pesada, visto que até 10% de foguetes, bombas e mísseis disparados em conflitos modernos simplesmente não funcionam. Para a população civil de Gaza, que percorre escombros calçando chinelos de dedo e escava prédios desossados com as mãos, um perigo a mais no amanhã. Hoje, o enclave desamparado está repleto de crianças e adultos sem um, dois ou três membros.


Eram 2h da madrugada desta quarta-feira, dia 5, quando os cerca de 6 mil refugiados nas dependências da escola Al-Sardi, em Nuseirat, sul de Gaza, desceram a novo patamar de pavor: bombas despejadas por caças israelenses haviam acertado a escola em cheio. Foi um despertar para o inconcebível. Segundo a agência Reuters, 14 crianças e nove mulheres estavam entre as dezenas de mortos espraiados. Em resposta à rotineira grita mundial, um comunicado glacial do Exército de Israel. O bombardeio fora “um ataque preciso”, baseado em informações confiáveis dos serviços de inteligência — de 20 a 30 terroristas palestinos usavam o local como base operacional. O porta-voz acrescentou não estar ciente de quaisquer vítimas civis e disse que ele “seria muito, muito cauteloso ao aceitar qualquer coisa que o Hamas divulgue”.

Duas perguntas elementares: se os serviços de inteligência israelense são tão confiáveis assim, como desconheciam o abarrotamento de milhares de famílias palestinas na escola? Ou conheciam e desconsideraram o fato? Consta de qualquer manual de Direito Humanitário que “atacar ou usar edifícios da ONU para fins militares” é crime. Isso vale tanto para o Hamas, que se escuda em civis e faz uso militar de edifícios da ONU, como para o governo de Benjamin Netanyahu, que ataca, bombardeia com civis dentro e ainda se arroga razão.

A escola bombardeada é uma das 300 outras de Gaza administradas pela UNRWA, a agência da ONU de assistência humanitária aos refugiados da Palestina. Fechadas desde o início da guerra de retaliação israelense ao ataque sofrido em 7 de outubro, elas viraram abrigos para as massas de civis errantes, enxotados, desenraizados e sem chão. Como essas escolas são providas de painéis solares e usinas de dessalinização, tornaram-se um oásis para quem está à deriva. Sam Rose, diretor de planejamento da UNRWA, fez um relato contundente das cinco semanas que passou em Gaza.

— Normalizamos o horror — resumiu em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

A própria população civil de Gaza procura compartimentalizar o dia a dia, para se proteger da realidade.

Do ponto de vista político e militar, é compreensível que o governo de Israel descarte como desprovido de credibilidade qualquer dado fornecido pela administração do Hamas — mesmo quando sabe que o dado é próximo do real. Israel também procura desacreditar como fantasioso o “jornalismo na veia”, muitas vezes em tempo real, praticado por incansáveis repórteres palestinos de Gaza. E considera as organizações humanitárias ligadas à ONU como comprometidas com o inimigo. Cabe então explicar o motivo por que, até hoje, o governo de Benjamin Netanyahu não permitiu o acesso à zona de guerra de um único jornalista ou equipe profissional independente. Meses atrás, um ou outro repórter de CNN, BBC e outras mídias pôde realizar uma breve “visita ao front” estritamente controlada. Desde então, nem isso, o que resulta numa situação de censura à informação sem precedentes nos tempos modernos.

Para desalento de entidades como Repórteres Sem Fronteiras, a situação é alarmante. Mais de 92 jornalistas palestinos já morreram em Gaza desde o início da guerra (22 deles durante coberturas); trabalham com recursos mínimos, estão exaustos e pedem a colegas das grandes mídias ocidentais que venham atestar o horror.

É inevitável que um dia os portões de Gaza serão arrombados e as entranhas da História expostas. Talvez só então nos perguntaremos por que não impedimos tamanha desumanidade.

O mundo misterioso

Leila está nessa idade inquieta e luminosa em que a gente escreve, escreve e não acha editor. De uma novelazinha ultrarromântica e ao mesmo tempo com observações de tão aguda objetividade, que ela me deu para ler, não me saiu da memória esta linha: “... o aspecto acolhedor dos lares sem televisão...”

Mas não é isso mesmo? Agora é muito difícil nos encontrarmos com as pessoas presentes. É a Rádio... é a TV... é o Telestar... e o mais que for... E a gente nunca está onde se acha! Vivemos, sempre e sempre, em comunicação com uns distantes fantasmas.

Mas, deste lado, o que haverá?

Meu Deus! Como será uma alma deste mundo?!

Mário Quintana, "Caderno H"

Avalanche de trevas

Uma avalanche é feita do acúmulo de pequenas coisas, físicas ou mesmo morais, que convém esmiuçar para estimativa dos riscos. Foi assim obsceno, coisa de fazer tremer a compostura do espírito público, o prognóstico do governador paulista sobre escolas cívico-militares: daqueles alunos poderá surgir no futuro um novo Bozo. Não é, aliás, a primeira vez que se pode pensar em obscenidade como categoria aplicável a esse político. Foi como o jornal inglês "The Guardian" se referiu a uma das famigeradas motociatas em que ele, em plena pandemia, subiu na garupa presidencial.


Obscenidade, na acepção dada pela crítica pós-modernista da cultura, não faz referência à pornocultura, mas à ausência das mediações socialmente requeridas para a apresentação de fatos sensíveis da vida. É a cena crua, exibida sem véus. Algo pertinente aos tempos de estupidez sistêmica em que se rompem limites para proliferação de discursos alheios à verdade e ao consenso. Não se consultaram famílias para saber se elas confiariam seus filhos a uma escola que tivesse como bedel ou professor um misógino, homofóbico, fetichista armado, expulso do exército, cujo ídolo é o único torturador condenado pela Justiça brasileira. No entanto, o governador do estado mais opulento da federação pode declarar, sem qualquer mediação pedagógica ou comunitária, que a excelência educacional de jovens será aferida pelo padrão desse mesmo indivíduo,

"Os homens querem ser enganados", dizia Ernst Bloch (O Princípio Esperança), mas ainda havia abrigos contra a mentira. A obscenidade, entretanto, tipifica a falência da representação mediadora, portanto, da razoabilidade que lastreia bem ou mal as instituições. Entrou-se no ciclo radioativo do vazio de sentido. A regra do tudo dizer nas redes é obscena por seu anonimato. O mesmo acontece de viva voz, porém, quando uma autoridade anuncia candidamente a pais e mães que o futuro de seus filhos será moldado pelo binômio fascista das armas e do retrocesso ideológico. Acrescenta-se escola ao ecossistema digital da mentira.

Obscenamente, para muito além do que supunha a pedagogia de Émile Durkheim, equacionou-se o problema da disciplina: spray de pimenta e algemas. É o que já ocorre em escolas cívico-militares paulistas, agora avalizadas por lei. A famílias às voltas com naturais dificuldades de seus adolescentes, isso pode parecer de somenos. Mas é também matéria de avalanche moral, já pressentida.

Na mentalidade plástica do jovem, disciplina militarizada, ainda mais sem a finalidade institucional do exército, é manufatura de hostilidade à consciência civil e de enrijecimento humano na mobilidade social: pedagogia para autômatos, desinteligência degenerativa. A avalanche por vir será feita de trevas.

Uma reflexão sobre a desinformação

Como não sou muito de orar, vou dedicar esta coluna do dia de reflexão para, bem, precisamente, refletir sobre uma das questões mais importantes que afetam os processos eleitorais em meio mundo. É a desinformação, amigo. Sem informação fiável não há democracia, porque as pessoas não sabem em que estão a votar. Isto era óbvio no século passado – é por isso que a imprensa era chamada de quarto poder – mas meia dúzia de multimilionários de Silicon Valley dedicaram-se a erodir a velha ordem das coisas. E o mundo os acolheu de braços abertos e cérebro fechado. A ingenuidade com que várias gerações de “nativos digitais” engoliram a história de que os meios de comunicação tradicionais eram seus inimigos e que as redes iriam libertá-los desse confinamento foi uma catástrofe da qual não conseguimos escapar.

Tão previsivelmente como o cão de Pavlov, as mesmas redes que iriam emancipar o Homo sapiens do século XXI geraram os piores vírus que uma sociedade aberta pode enfrentar. Um surpreendente conjunto de espertinhos, pessoas ignorantes e – pior ainda – hordas anônimas com interesses não confessados receberam as redes como uma oportunidade formidável para propagar suas pequenas ideias e suas grandes falsidades. Com uma lentidão impressionante, os políticos europeus, e mesmo os norte-americanos, começaram a perceber a gravidade do problema que está debaixo dos seus narizes há 30 anos. Mas de qualquer forma, nunca é tarde para escapar de um buraco.

Infelizmente para os falsificadores e envenenadores políticos, a investigação sobre notícias falsas e desinformação está a tornar-se mais intensa. Isto não aconteceu graças aos gigantes californianos do setor, mas está a acontecer de qualquer forma, apesar deles. Acabamos de saber, por exemplo, que durante as eleições presidenciais que os Estados Unidos realizaram há quatro anos, 1% dos utilizadores do Twitter (agora X) espalharam 80% das notícias falsas.

E se a vice-presidente Kamala Harris brincasse sobre matar Donald Trump e Mike Pence, e se os votos republicanos tivessem sido desviados para Joe Biden e não sei quanto mais absurdos estavam envolvidos em 7% de todas as notícias políticas que circularam no Internet, mas eram quatro gatos. E os quatro gatos nem eram anônimos, porque eram sites como InfoWars e Gatewaypundit, que se dedicam profissionalmente a espalhar desinformação. Os cientistas não teriam dificuldade em identificar as 2.000 pessoas que envenenaram um em cada 20 utilizadores do Twitter. Na verdade, eles sabem que a maioria eram mulheres mais velhas, o que é um fato muito curioso, né? Eles também sabem que 64% são republicanos e 16% democratas. Ah, como os dados concordam com os teóricos da equidistância.

Todos dizemos frequentemente que a desinformação é um problema do nosso tempo, mas a verdade é que, neste caso específico, a solução seria o jardim de infância. Bastaria adotar alguns limites muito simples para o número de retuítes que um mesmo conteúdo pode ter. O usuário médio não se importaria com isso, mas o propagador de manipulações se importaria. Os magnatas do Vale do Silício sabem disso? Oh sim. Eles fizeram? Não. Se quisermos que o façam, terão de ser os nossos representantes políticos a forçá-los.

Não são apenas as eleições. A desinformação também é prejudicial no que diz respeito à vacinação, às alterações climáticas e à polarização social em geral. O problema pode ser resolvido, mas falta-nos a colaboração de um agente crucial: os bilionários da Califórnia. As fontes de envenenamento estão a tornar-se mais claras e continuar a proteger a sua “liberdade de expressão” e anonimato é uma posição que cada vez menos pessoas compreendem. Se você não é de orar, reflita.
Javier Sampedro

A libertação de 4 reféns israelenses custa a vida de 200 palestinos

O mundo ocidental não está nem aí se Israel mata de uma vez só mais de 200 palestinos numa operação militar para libertar quatro israelenses feitos reféns pelo grupo Hamas em 7 de outubro do ano passado. Ou melhor: os líderes das maiores potências do mundo ocidental não estão nem aí para o massacre, Israel celebra e os palestinos choram.

Aconteceu no campo de refugiados de Nuseirat, no coração da cidade semidestruída de Gaza. Os Estados Unidos, por meio do seu setor de inteligência, ajudaram Israel na operação. Em um comunicado oficial, Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional do presidente Joe Biden, limitou-se a dizer:

“Os Estados Unidos apoiam todos os esforços para garantir a libertação de reféns ainda detidos pelo Hamas, incluindo cidadãos americanos”.

A vice-presidente Kamala Harris, em discurso no jantar do Partido Democrata em Michigan, no sábado, comentou:

“Felizmente quatro reféns se reuniram com suas famílias esta noite. E lamentamos todas as vidas inocentes que foram perdidas em Gaza, incluindo aqueles tragicamente mortos hoje”.


Um manifestante pró palestino tentou perturbar Harris, que respondeu:

“Trabalhamos para pôr fim a este conflito de uma forma que garanta que Israel esteja seguro, traga para casa todos os reféns, acabe com o sofrimento do povo palestino e garanta que eles possam desfrutar do seu direito à autodeterminação, dignidade e liberdade. É hora de esta guerra acabar.”

Palavras ao vento, como sempre. E o direito de os palestinos terem seu Estado reconhecido? Um dia desses, Biden repetiu que é a favor, mas que isso depende de um entendimento entre os palestinos e Israel. E se não houver entendimento, como não houve até aqui desde que Israel foi criado em terras dos palestinos? Biden não responde.

O conflito entre Israel e os palestinos, que se arrasta desde 1948, não tem data para acabar. O capítulo mais recente, que já dura nove meses, começou quando o Hamas invadiu Israel, matou 1.200 pessoas e fez 250 reféns. Acredita-se que pelo menos 112 deles foram libertados pelo Hamas durante as negociações com Israel.

O número de civis mortos por Israel, a maioria mulheres, crianças e velhos, já passa de 37 mil. O ataque a Nuseirat foi apenas o terceiro resgate bem-sucedido de reféns da atual guerra. As famílias dos reféns saudaram o regresso dos quatro libertados, mas disseram que os militares sozinhos não poderiam trazer de volta todos os cativos. Defendem a suspensão da guerra.

Um porta-voz do Izz ad-Din al-Qassam, as brigadas armadas do Hamas, afirmou que alguns reféns foram mortos durante o ataque de Israel. Os quatro reféns libertados estavam saudáveis. Uma bomba guiada com precisão, a GBU-39, de fabricação americana, é a nova estrela da guerra. Dizem que ela só atinge alvos específicos. Seria uma bomba boazinha e justa.

“A questão é que mesmo usar uma arma menor ou uma arma guiada de precisão não significa que você não mate civis e não significa que todos os seus ataques sejam subitamente legais”, observa Brian Castner, um especialista em armas da Amnistia Internacional. É o que prova o ataque de Israel ao campo de refugiados de Nuseirat.

Vida que segue. Não. Mortandade que segue.
Ricardo Noblat

sábado, 8 de junho de 2024

Do mundo nada se leva

A tragédia gaúcha ao olho vivo

Escrevo de Porto Alegre, onde a vida se confunde com a hecatombe. Mais de dois terços do Rio Grande do Sul estiveram literalmente submersos por mais de 30 dias. Agora, em muitas localidades, nas cidades e nos campos, as águas baixaram, mas a enchente continua, mesmo em menor intensidade e extensão. Invadidos pelas águas, até hospitais estão sem funcionar. O aeroporto da capital gaúcha está totalmente alagado, da pista de pouso à estação de passageiros. E mais ainda: a inundação também soterrou, no sentido literal do verbo. Morros despencaram, soterrando o que encontravam pela frente – pessoas, residências, fábricas, árvores, plantações, animais, móveis e automóveis.

Dos objetos pessoais, como carteiras de identidade, fotografias familiares, títulos eleitorais e outros documentos, tudo desapareceu. Nos prédios que sobraram, a água invasora rachou as paredes.

O panorama é de guerra, mesmo sem bombardeios e canhões, como se a destruição da Ucrânia ou da Faixa de Gaza tivesse se instalado no sul do Brasil. Ou como se o terrorismo do Hamas tivesse mudado de fisionomia e adotado a forma de chuva.



Tudo é indescritível. Faltam adjetivos em nossa língua, ou em qualquer outro idioma, para descrever a situação e tudo o que se vê ao redor. A cidade de Eldorado, na área metropolitana, foi totalmente alagada e em todo o Rio Grande do Sul há mais de 150 mortos. O irônico em tudo é que “El Dorado” foi a denominação que, no século 16, os conquistadores europeus deram aos locais de minas de ouro nos territórios das Américas...

Ironia maior, porém, é que a 5 de junho celebrou-se o Dia Mundial do Meio Ambiente...

Todo esse horror, porém, foi compensado, em parte, pela solidariedade de diferentes setores da sociedade brasileira. Homens e mulheres se transformaram em trabalhadores voluntários, auxiliando os danificados. Boa parte deles era de outros Estados e pela primeira vez conhecia o sul do Brasil. Essa solidariedade espontânea chegou às escolas de São Paulo (e de outras cidades) e foi compartilhada por adolescentes ou até crianças, que recolheram garrafas de água potável para serem enviadas aos atingidos pelas enchentes.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) levou ao Rio Grande do Sul bombas de sucção e outros materiais similares, lá inexistentes. Bombeiros de distantes Estados, como Acre e Maranhão, lá estavam (ou continuam a estar) numa demonstração em tempo real de que somos uma só nação, unida até na desgraça.


A tragédia do sul do Brasil demonstrou que as mudanças climáticas não são uma simples tese de ambientalistas, mas, sim, uma realidade que se agrava pelo nosso desdém ao tratar a natureza como um estorvo. Continuamos (ou até incentivamos) a derrubar matas nativas, e até as reflorestadas, que atuam como reguladoras das chuvas e, por consequência, dos aguaceiros e enchentes. Tudo isso alternando-se com estiagens longas que afetam a agricultura.

Agora, uma das dramáticas consequências das enchentes no Rio Grande do Sul é a possibilidade de faltar arroz. O governo federal liberou a importação do cereal prevendo que falte em nossas refeições. Poderá também faltar ou escassear soja. Os estragos deixados pelas enchentes não afetaram apenas o setor agrícola e chegam também à indústria automobilística. O Sul é fabricante de peças essenciais à produção de automóveis e de caminhões.

À beira das poucas estradas não alagadas, improvisadas barracas de lona ou plástico servem de moradia a milhares de desalojados. Em várias cidades (especialmente na capital estadual) milhares de adultos e crianças estão recolhidos em improvisados abrigos. Lá, dormem e comem os alimentos preparados por voluntários.

As águas não são más nem assassinas. Têm força, porém. Se forem contínuas, exigem cuidados dos governantes, algo que evidentemente faltou agora no Sul. A prefeitura da capital gaúcha não conservou as comportas que separam a cidade das águas do Lago Guaíba. A chuvarada rompeu tudo, alagando totalmente a zona central. Nem sequer havia bombas de sucção.

Por outro lado, o governo do Estado alterou o pioneiro Código Estadual do Meio Ambiente, que serviu de modelo a outros Estados, e, assim, facilitou a hecatombe de agora. A alteração facilitava a construção de uma mina de carvão a céu aberto, à beira do caudaloso Rio Jacuí, que desemboca no imenso Lago Guaíba, que banha a capital gaúcha. A mobilização da opinião pública evitou a abertura da mina, que, se fosse construída, teria, com as enchentes de agora, transformado o Lago Guaíba numa pestilenta cloaca.

Existe, porém, o lado oculto e pernicioso que se autointitula reconstrução, mas que em realidade se dedica ao roubo ou à fraude. Nos alojamentos provisórios houve larápios e foi necessária a intervenção policial para evitar a continuidade do roubo. Em municípios do interior, funcionários das prefeituras superfaturaram em até 200% a compra de alimentos ou roupas para os desalojados pela enchente.

A tragédia só se explica, porém, pela crise climática.

A opção dos humanos: o planeta 4R

Estamos todos cientes de que este planeta é tudo o que temos. Continuando business as usual, o fim da civilização global fica cada dia mais próximo. A inércia mental e a ambição por mais “riqueza”, definida em quantidade e não em qualidade, predominam e comprometem a sobrevivência.

Um exemplo de inércia mental é continuar a falar em “civilização ocidental cristã”! Há muito nossa civilização deixou de ser ocidental e cristã, tornando-se global e vendilhona. Valores cristãos, islâmicos, judaicos, hinduístas e de outros credos foram substituídos pelo culto ao dinheiro. A cooperação minguou e a competição foi exacerbada. O “nós X eles” só se mantem em razão da busca por mais dinheiro por parte da indústria bélica e associados. Os problemas que afligem 100% da humanidade, e mais agudamente os 80% que continuam muito pobres, não podem ser resolvidos pelas ficções chamadas países. Há que superar, com urgência, a inércia que nos mantem presos a tais ficções e viciados em combustíveis fósseis.

Se quisermos evitar a extinção da (dita) civilização, teremos que mudar hábitos. A ideia do planeta 4R vai nessa direção. Trata-se de proposta do Climate Crisis Advisory Group – CCAG, especialistas na ciência do sistema terra. Vale dizer: Reduzir rapidamente as emissões de GEE, Remover o excesso de GEE da atmosfera, Recuperar os ecossistemas e ampliar a Resiliência local e global. O CCAG defende que os líderes do G20 liderem movimento nesse sentido, com os ricos do mundo ajudando a construir resiliência, o que significa melhor qualidade de vida, principalmente no Sul Global. Trata-se de grande oportunidade para o Brasil, atual presidente do G20. Será aproveitada?

Os desastres ambientais, decorrentes da emissão de GEE principalmente pelos humanos mais ricos, estão cada vez mais caros, em vidas e em materiais. Neste início de 06/24 há grave crise de água na cidade do México, onde até os ricos têm sofrido a falta do líquido; incêndios se espalham pelo Canadá, a Inglaterra teve a primavera mais quente jamais observada e, em Nova Dehli, temperaturas nos últimos dias chegaram a 52oC, causando mortes, sofrimento, perdas econômicas e distúrbios. A situação dos gaúchos nem precisa ser lembrada.

Na Inglaterra, há um movimento no sentido de centrar os debates eleitorais na questão climática. Aqui no Brasil também teremos eleições e a maioria da população se diz preocupada com a crise climática. Nestes trópicos onde quase todas as capitais estaduais carecem de planos para enfrentar emergências, assim como de políticas de uso do solo para garantir cidades mais frescas e resilientes, será que o tema será ao menos debatido?

Se quisermos ajudar a construir um planeta 4R, o que é essencial para que nossos filhos e netos tenham qualidade de vida, precisamos andar muito depressa nessa nova direção. Seria, também, uma maneira de atender aos anseios da maioria, já consciente e preocupada com seu presente e o futuro dos seus!
Eduardo Fernandez Silva

Desgoverno global

As catástrofes climáticas estão por toda a parte. Chegaram mais cedo do que a humanidade esperava e com fúria inaudita. Enchentes devastadoras e secas desertificantes vêm ocorrendo em todos os cantos do planeta. Pessoas morrem de calor na Índia e no Canadá. Furacões intensos destroçam territórios ­norte-americanos. A Alemanha e o Rio Grande do Sul enfrentam inundações assustadoras. Nenhum continente está isento de destruições.

Os pontos de não retorno em vários biomas avançam e as tendências entrópicas do meio ambiente como um todo se agravam diariamente. O mundo parece mover-se como um trem sem freios, em alta velocidade e rumo ao abismo. O grande risco para a humanidade e todas as espécies são as transformações em curso, a indicar tendências paradoxais, para o bem e para o mal. Algumas delas indicam possibilidades de soluções colaborativas. Outras acenam para soluções divergentes, trágicas e violentas. Infelizmente, as tendências destrutivas estão ganhando o jogo.


Algumas transformações apontam para um cenário apocalíptico. As principais, segundo numerosos especialistas, são as seguintes: agravamento da crise climática pela intensificação do novo período geológico do Antropoceno; caminhada rumo ao ponto da singularidade digital de 2045 (domínio das máquinas sobre os humanos); advento do transumanismo e de nova biopolítica com tendências desumanizadoras; um nova Guerra Fria entre potências do Ocidente e do Oriente; intensificação de conflitos armados regionais, como os da Ucrânia e Gaza; impacto dos grandes deslocamentos transnacionais (migrações de fome e escassez, de guerras e de refugiados ambientais); ameaça à sobrevivência das democracias pelo fortalecimento do extremismo de direita.

O problema é que não existem governos com capacidade para enfrentar as catástrofes climáticas, estancar as ações de depredação do meio ambiente e imprimir direção e sentido às transformações em curso. Com isso crescem as tendências de acirramento dos conflitos sociais, políticos, econômicos e militares, tanto internos quanto internacionais.

As tendências conflitivas assentam-se em três razões principais: 1. Os impactos das mudanças climáticas provocam escassez de recursos e isto desencadeará a luta por recursos diversos. 2. A salvação do meio ambiente planetário e da vida implicará mudanças drásticas em relação às quais haverá resistência de grupos econômicos e de Estados. Em determinadas circunstâncias, é provável ser necessário o uso da força para a contenção da crise e para alcançar os objetivos da sustentabilidade. 3. As medidas de mitigação dos efeitos catastróficos e os investimentos necessários para mudar os padrões de produção, de consumo, de vida urbana, de energia e das políticas públicas em geral exigirão somas estratosféricas. Ocorrerão grandes disputas para determinar quem pagará os custos dessas mudanças. As forças hegemônicas dos mercados e do capitalismo globalizado agem para socializar os prejuízos e privatizar os benefícios.

O atual cenário global não favorece o enfrentamento eficaz da crise ambiental nem é capaz de viabilizar um desenvolvimento sustentável no sentido forte do termo. Ao contrário, as catástrofes ambientais e as mudanças indicadas acima agravam a governabilidade global e interna.

Esse quadro de crise tem estimulado saídas particularistas e nacionalistas nos diversos países, favorecendo a competição em detrimento da colaboração. Isso reforça o descompromisso dos Estados com os acordos firmados nos fóruns internacionais. Os nacionalismos extremados de direita alimentam teorias negacionistas sobre as mudanças climáticas.

Por outro lado, a desmaterialização provocada pela economia digital aumenta a extraterritorialidade de atividades produtivas e comerciais, enfraquecendo a regulação nacional, provocando um domínio crescente do mercado financeiro e das plataformas digitais oligopolistas, aumentando o impacto das externalidades sobre as economias locais, fragilizando a regulação jurífica de justiça e de proteção ambiental e social. Essas circunstâncias deterioram a capacidade de coordenação das instituições multilaterais e das jurisdições internacionais e supranacionais.

A captura política dos Estados nacionais por grupos particularistas e depredadores é um enorme problema, agravado pelo crescimento dos movimentos de extrema-direita, que adotam políticas negacionistas e de desmonte das proteções sociais e ambientais. É necessário aumentar a consciência dos riscos sistêmicos e engajar a sociedade nesse debate. Somente com consciência social, organização e mobilização seremos capazes de deter esse trem sem freios que se move rumo ao abismo.

Nos desabituamos do trabalho de verificar

Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar—«É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há ação individual ou coletiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do fato, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.
Eça de Queirós, 'A Correspondência de Fradique Mendes'

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Pensamento do Dia


 

A sustentabilidade já era

As condições atuais são tão desfavoráveis aos humanos que a simples postura em defesa da sustentabilidade não tem mais o efeito que se imaginava há 30 ou 40 anos atrás. Não é mais suficiente. Por isso, Francisco Nilson Moreira está coberto de razão quando diz em seu Ted X ESMPU: “A sustentabilidade já era. Hoje temos que ser regenerativos”. E o Rio Grande do Sul está aí para provar.

Por milênios, os homo sapiens têm habitado a terra destruindo-a. Alguns, os menos informados, imaginam que tudo começou com a revolução industrial nas dobras dos séculos XVIII/XIX, como também imaginam que o movimento ambientalista começou com a Conferência de 1972 em Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano). Antes desta conferência, Rachel Carson já havia publicado Primavera Silenciosa, com enorme impacto sobre o nascente movimento ambientalista, e o mundo já conhecia a criação de áreas protegidas, o Brasil inclusive. Antes da revolução industrial, os Sapiens já haviam dizimado os Neandertais, enfraquecidos pelos fortes efeitos da era glacial na Eurásia, como também os megamamíferos, os mamutes, entre 50 e 10 mil anos atrás. Incluindo o Brasil, onde foram extintos os tigres dentes de sabre, as preguiças gigantes e os toxodontes, entre outros.

A revolução industrial com a adoção do modelo econômico baseado na reprodução ampliada e nos combustíveis fósseis acelerou exponencialmente o processo já existente, a destruição da fauna selvagem. E a expandiu à biodiversidade. Segundo David Attenborough, mais da metade do número de indivíduos dos vertebrados, sobretudo mamíferos, já foi extinta. E a outra o será em breve. A sociedade humana destruiu também a maior parte das florestas, incluindo, mais recentemente, as tropicais. Inspirada na grande ideologia do crescimento, aquela que perpassa regimes capitalistas e socialistas, a sociedade humana consome cada vez mais recursos naturais e emite gases de efeito estufa (GEE) para a atmosfera.


A invenção do desenvolvimento sustentável, nos anos 1980/1990, implicou múltiplos esforços de mudança, mas, por enquanto, inócuos. Os GEEs continuam a se acumular provocando o aquecimento global, e com ele, os seus efeitos nocivos largamente conhecidos.

Já estamos adentrando a meta da COP de 2015, em Paris: 1,5º C acima da temperatura média global de antes da revolução industrial. Se o mundo alcançar 3oC ingressaremos em um patamar catastrófico. E se formos a 5oC será um patamar desconhecido, ou seja, que não sabemos o que ocorrerá com o clima e seus eventos críticos, incluindo neste caso ameaças existenciais à humanidade.

As concentrações desses gases na atmosfera são frequentemente medidas em partes por milhão (ppm) ou partes por bilhão (ppb). Segundo os relatórios do IPCC, em 1990, a atmosfera continha cerca de 354 ppm de CO2; em 2000, cerca de 369 ppm; em 2010 - 389 ppm. Em 2024, cerca de 415 ppm. No caso do metano, a variação foi de 1.700 partes por bilhão (ppb), em 1990, para cerca de 1.870, atualmente. E, no caso do óxido nitroso (N2O), variou de cerca de 310 ppb para cerca de 333, em 2024. Ou seja, todas as medidas tomadas no mundo, sob o signo de criar um desenvolvimento sustentável, não diminuíram os gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Eles continuam aumentando, os eventos críticos climáticos tornam-se mais frequentes e intensos.

É de conhecimento público, com exceção dos negacionistas, que são as atividades humanas que produzem poluição, destroem a biodiversidade e provocam as mudanças climáticas (sugiro esgotamento de recursos não-renováveis). No entanto, estamos adentrando um período em que este fenômeno será superado: crescimento constante de eventos críticos climáticos, mais frequentes e mais intensos, que se farão independentemente das atividades econômicas dos humanos.

Como as mudanças climáticas tendem a ganhar vida própria, ou seja, independente das atividades humanas? Basicamente pelo círculo vicioso que está se formando entre o degelo dos Polos, que reduz o chamado efeito albedo (medida da proporção da radiação solar que é refletida de volta à atmosfera e ao espaço), a exposição do permafrost, que emite GEEs e o aumento da temperatura dos oceanos, somado à perda da vegetação e da biodiversidade.

As geleiras do mundo inteiro, particularmente dos polos, possuem a capacidade de refletir a radiação solar, evitando que a terra absorva o seu calor (efeito albedo). Na medida em que a terra se aquece, e ela tem se aquecido desde o século XIX com a industrialização, porém mais acentuadamente nas últimas três décadas, a terra perde superfície de gelo e, assim, reduz o efeito albedo. Com isso, o planeta tem que absorver uma maior quantidade de calor. A consequência da perda de superfície de gelo reflete-se, também, em outro aspecto: o ressurgimento do permafrost à luz do sol. Esta é a terra que está sob as geleiras, às vezes há milhões de anos, repleta de micróbios e germes ancestrais, mas sobretudo de CO2 e metano, dois dos mais poderosos gases de efeito estufa. Com isso, aumenta o acúmulo de GEE na atmosfera e a terra se aquece ainda mais. O que produz, por sua vez, mais degelo. Ao que se deveria acrescentar a redução da capacidade dos principais sumidouros de CO2: oceanos e cobertura vegetal. Os oceanos porque, com o aquecimento, perdem vida, sobretudo algas, e absorvem menos CO2. A cobertura vegetal, como no caso das florestas já foram em grande parte destruídas, e continuam a sê-las.

Em resumo: mesmo que os humanos cessassem hoje de emitir gases de efeito estufa, as mudanças climáticas, com seus eventos críticos continuariam, e de forma mais frequente e intensa. O aquecimento continuaria a se elevar, e não apenas, como diz Tomas Tarquínio, em belíssimo artigo aqui publicado, resultado dos gases já emitidos nas últimas décadas.

Neste sentido, Richards, Lupton e Allwood em artigo publicado na revista Climatic Change (2021), chamam a atenção, para o fato de que hoje “Há uma preocupação crescente de que as alterações climáticas representem um risco existencial para a humanidade”. Previsões similares, e mesmo mais graves, têm sido feitas constantemente por outros estudiosos das mudanças climáticas. O risco existencial se faz também presente junto a animais não-humanos.

Muitos cientistas evitam falar em desastre ou colapso. Em parte, pelas idiossincrasias próprias da cultura científica, sempre atrelada aos cuidados de objetividade, verificação e adequação à empiria, ou seja, aos fatos e experimentos. Um dos intelectuais mais brilhantes neste campo foi sem dúvida Jared Diamond, com seu famoso, e muito debatido internacionalmente, livro – Colapso. Como as sociedades escolhem o fracasso ou sucesso. Livro cujas partes mais interessantes rezam sobre as sociedades antigas: os Maias da América Central, os Rapa Nui da ilha de Pascoa, os Polinésios das Ilhas de Pitcairn e d’Henderson, os Anasazis do Novo México no sudoeste dos Estados Unidos e os Vikings da Groelândia.

Para Diamond, cinco são os fatores centrais na destruição dessas civilizações pretéritas: (i) destruição dos recursos naturais, (ii) mudanças climáticas, (iii) conflitos internos e externos, (iv) dependência de parceiros comerciais e (v) respostas inadequadas aos problemas ambientais. Fatores que em geral se retroalimentam.

Os cinco fatores causais do colapso, citados por Diamond, estão presentes de forma relevante em todos os casos, e igualmente presentes hoje, no mundo: (i) mais da metade da vegetação de florestas tropicais já foram destruídas e mais de 60% dos indivíduos da fauna selvagem, particularmente mamíferos; (ii) o aquecimento é um fato inconteste assim como o aumento da frequência e da intensidade dos eventos críticos; (iii) a polarização e, sobretudo, o negacionismo são os exemplos mais visíveis dos conflitos de risco; (iv) o mundo hoje é economicamente globalizado, e o que ocorre em um determinado país pode desorganizar cadeias produtivas globais como ocorreu com a invasão da Rússia na Ucrânia, e, finalmente, (v) as respostas mais evidentes para vencer o risco climático são largamente insuficientes. Os GEE se acumulam na atmosfera. A cada ano o mundo bate recorde de aquecimento. Tudo se conjuga para provocar a sexta extinção da vida no planeta, e com ela, os sapiens correm o risco de irem juntos.

Ora, no caminhar atual da carruagem, ou seja, se não forem tomadas medidas drásticas de mudanças nos defrontaremos, antes de 2050, com perda de vidas humanas aos milhões, senão bilhões. Enquanto isso, muitos políticos, governos e empresas tendem a escamotear o problema ou simplesmente negá-lo. Em plena tragédia climática do Rio Grande do Sul, o Congresso Nacional continua a aprovar medidas para reduzir as restrições à destruição da natureza no Brasil.

E a sociedade, como um todo, resiste à adoção de medidas radicais que, no entanto, com o aumento da frequência dos eventos críticos terão de ser tomadas, para não tornar a terra um lugar inabitável aos humanos. Se não tomarmos medidas radicais de mudança de rumo, como propugna Edgar Morin9, o Rio Grande do Sul será o Brasil de amanhã. E como diz Przeworski, “nossos filhos e netos morrerão ou queimados ou afogados”.


Sem medidas radicais de mudança, o ser matricida, que somos nós, será expulso da vida. Para regozijo de todos os seres vivos da terra. Por isso, sustentabilidade já era. Adentramos a fase de atividades regenerativas a começar da própria agricultura: é preciso reduzir a monocultura e o uso excessivo e mortal de pesticidas, estimular a agricultura orgânica e a agroecologia. É preciso recuperar a biodiversidade, ampliando áreas protegidas; parar de emitir gases de efeito estufa, com novas tecnologias e estímulo à economia de proximidade e à economia circular; reduzir o consumo dos ricos; findar com a obsolescência programada; reduzir as embalagens e adotar material reciclável; acelerar a transição energética, adotar um novo e radical sistema tributário, e mudar nossos hábitos e valores.

Não temos que pensar que “não tem mais jeito”, nem julgar que medidas paliativas resolverão o problema. Ainda temos tempo.

Porém para sobreviver, os humanos devem produzir uma metamorfose, como dizem Ulrich Becker e Edgar Morin, uma revolução não basta.
Elimar Pinheiro do Nascimento

O nacionalismo ameaça a ordem mundial

O próximo presidente dos Estados Unidos declara que seu país não cumprirá mais o compromisso assumido sob o tratado da Otan, de sair em defesa de um membro da organização. Os europeus não conseguem encontrar um substituto confiável. Temendo a ameaça de uma Rússia revanchista, alguns passam a ser leais à Rússia e à China. A Europa se dissolve.

Isso é plausível? Espero que não. Mesmo assim, por trás do pesadelo está a realidade. Estamos entrando em um período de ressurgimento do nacionalismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Como Oscar Wilde poderia ter observado: “Eleger Donald Trump presidente uma vez pode ser considerado um infortúnio, mas elegê-lo duas vezes parece descuido”. Sua volta indicaria algo muito perturbador sobre o estado da superpotência ocidental.

Robert Kagan, da Brookings Institution, observa em um podcast que fez comigo que a proximidade de Trump com o poder se deve a forças antiliberais poderosas. As implicações dessas atitudes para a democracia dos EUA são preocupantes. Mas essa preocupação não está limitada ao âmbito interno.


O “América em primeiro lugar” de Trump foi um slogan usado pelo aviador Charles Lindbergh em oposição ao apoio dos EUA ao Reino Unido na Segunda Guerra Mundial. Essa oposição só cessou depois que o ataque do Japão a Pearl Harbor em dezembro de 1941 forçou os EUA a entrarem na guerra.

Putin é inimigo da ordem europeia pacífica. A decisão de Pequim de apoiá-lo foi um divisor de águas. O Ocidente precisará se manter unido para se defender da competição da China. Mas Trump e seus imitadores na Europa tornariam tal parceria quase impossível

Lindbergh era um isolacionista. Na medida em que pode ser definido, Trump é um unilateralista não confiável. Mas, no contexto da guerra da Rússia na Ucrânia, esta pode não ser uma diferença crucial. Ele ajudaria, ou ele veria isso como “uma disputa num país distante, entre pessoas sobre as quais não sabemos nada”, nas notórias palavras de Neville Chamberlain sobre a Tchecoslováquia em 1938?

Por mais de um século a segurança da Europa dependeu da presença dos EUA. Infelizmente, depois da Primeira Guerra Mundial, o Senado repudiou a Liga das Nações e assim os EUA se retiraram. Isso levou ao ressurgimento da Alemanha como potência militar dominante no continente e assim à Segunda Guerra Mundial. Felizmente, os EUA continuaram empenhados na era do pós-guerra. Após o colapso da União Soviética em 1991, eles podem ter acreditado, de modo plausível, que deveriam se retirar novamente.

Mas agora, depois da invasão não provocada da Ucrânia pela Rússia, esse não pode ser o caso. A China, também cada vez mais vista pelos EUA como uma ameaça, está fornecendo um forte apoio moral e prático à Rússia, incluindo bens de dupla utilização valiosos para o prosseguimento de sua guerra. Mais uma vez isso justifica o compromisso. O que Trump faria? Esta poderá ser em breve uma questão relevante.

O colapso da ordem de segurança da Europa liderada pelos EUA teria repercussões globais. A derrota da Ucrânia certamente encorajaria a China em relação a Taiwan. Mas, além disso, as dúvidas sobre as garantias de segurança na Europa teriam implicações à credibilidade dessas garantias para o Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Por toda a Ásia, países tentariam se aproximar da China.

Infelizmente, a União Europeia também está ameaçada por nacionalistas, xenófobos e autoritários internos. Os partidos com essas atitudes deverão ampliar substancialmente sua presença nas eleições parlamentares europeias. Com o tempo, espera-se que mais deles chegarão ao poder: Marine Le Pen poderá até mesmo ser o próximo presidente da França. Quando se pensa nas dificuldades criadas apenas pelo putinismo de Viktor Orbán, as perspectivas são sombrias.

O nacionalismo também está refletido no afastamento do comércio liberal, que vem ganhando força no mundo todo. Trump teve um papel de liderança na legitimação do protecionismo durante o seu mandato. Biden fez o mesmo. A atual suspeita em relação ao comércio tem muitas causas: o aumento da competição da China na produção industrial; as interrupções nas cadeias de abastecimento após a pandemia de covid-19; a competição estratégica; a crença crescente na política industrial; e o repúdio à própria noção de multilateralismo, com a notável inclusão da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo Biden desenvolveu uma agenda relativamente sofisticada em torno da ideia de “reduzir os riscos” no comércio. Mas a ação está ficando mais brutal. Assim, os EUA impuseram tarifas de 100% sobre as importações de veículos elétricos da China, por uma mistura de motivações de segurança e política industrial. Em resposta, Trump disse que “eles também têm que fazer isso em outros veículos e precisam fazer isso com muitos outros produtos porque a China está comendo nosso almoço neste momento”. É altamente provável que, no poder, ele adote medidas agressivas contra as importações não só da China, mas de seus aliados.

A reviravolta no comércio já é profunda. Ao longo do período do pós-guerra, os EUA, influenciados pelas lembranças da década de 30 e os objetivos estratégicos do pós-guerra, promoveram o multilateralismo e as economias de mercado liberais. Há agora um entendimento cada vez mais bipartidário de que isso foi um erro grave. Embora o governo Biden deseje permanecer relativamente próximo de seus aliados, sua agenda, também, é de certa forma a “América em primeiro lugar”. Mas Trump é muito mais descaradamente nacionalista do que Biden.

Putin é um inimigo inequívoco de uma ordem europeia pacífica. A decisão da China de apoiá-lo foi, para mim, um divisor de águas. Mas quanto mais o mundo ocidental quiser se defender da competição da China, mais ele também precisará para se manter unido. O nacionalismo de Trump ou de seus imitadores na Europa tornaria tal cooperação quase impossível.

Mesmo na nossa era da competição estratégica, a cooperação com a China continua sendo essencial, especialmente em relação ao clima. O Ocidente também precisa responder mais generosamente às preocupações dos países em desenvolvimento e emergentes. Mas, acima de tudo, ele precisa sobreviver como uma comunidade de democracias liberais. Esta é uma necessidade moral e prática. Se o nacionalismo autoritário destruir isso, o Ocidente terá perdido a luta.

Em 1939, o poeta WH Auden escreveu sobre o que ele considerou uma “década má e desonesta”. Como parecerá a nossa em 2029? 

Vocês vão se arrepender disso

Se destruírem a Amazônia, o que será do mundo? O pensamento indígena me interessa há muito tempo. Cresci no Norte do Canadá. Então, quando diziam que os povos nativos haviam desaparecido, eu sabia que não era verdade. Os indígenas tinham mais poder quando os ingleses queriam se aliar a eles contra os franceses e vice-versa. Após o declínio do comércio de peles, fornecidas pelos nativos, colonos passaram a ser incentivados a invadir terras indígenas, impor suas leis e até matar búfalos para que os nativos não tivessem o que comer. Toda essa história está sendo desenterrada. Os indígenas podem nos ensinar como impedir que nossas utopias igualitárias se tornem ditaduras. Várias sociedades indígenas têm arranjos sociais igualitários em que as habilidades individuais também são premiadas.

Margaret Atwood

Palavras sobreviventes

Não há fita métrica que possa medir as perdas decorrentes de uma tragédia como a que ocorreu no Rio Grande Do Sul. A dor e o sofrimento igualam todas as catástrofes e expõem a fragilidade humana, de forma mais contundente, quando na identificação de suas causas, estão o descaso, o descuido, a ação predatória do ser humano.

A Natureza vive “eras” que, ao longo de milhares de anos, se transformam a partir mudanças climáticas, geológicas, independente da perturbação de fatores antrópicos. Porém, quando a ação predatória do homem corrompe o ritmo das mudanças estruturais, a resposta cobra o preço devastador da destruição.

O momento atual afeta severamente o clima e ameaça a integridade do Planeta. Os fatos vêm confirmando o que a ciência já alertou: o fenômeno da emergência climática em decorrência do aquecimento global.

Nascemos para ser viventes e não meros sobreviventes à própria audácia de desafiar os limites biofísicos da natureza. A cada tragédia, restam vítimas reais e potenciais. Enfermidades no corpo, marcas inapagáveis na alma e perdas com que passamos a conviver.

De outra parte, existe um tipo de morte e sonho que a sutil percepção de Ruy Castro mencionou, a do livro (coluna Palavras Submersas, Folha, edição de 22/05/24): “Se cada exemplar de um livro pode ser insubstituível, pelo que representou na vida de uma pessoa, imagine essa morte em massa de páginas talvez ainda não lidas. É duro constatar que o objeto em que se assentou o conhecimento humano nos últimos mil anos é tão frágil”.

Por coincidência, estava concluindo a leitura de FACA – Reflexões sobre um atentado de autoria de Salman Rushdie (Ed. Companhia da Letras. São Paulo, 2024, abril) nascido na Índia, Bombaim (1947), historiador, com formação no King´s College, Cambridge.

Em 1981, já era um autor consagrado ao receber o Prêmio Booker com o livro Os Filhos da Meia-Noite, ao qual se juntariam duas dezenas obras o que lhe valeria a classificação de 13º (2008) colocado pelo The Times entre os 50 maiores escritores britânicos e um processo movido por Indira Gandhi que se sentiu atacada pelo escritor.

De fato, a valiosa obra de Rushdie lhe garantiu uma numerosa premiação. Porém, a fama e a projeção internacional do autor obtiveram enorme dimensão histórica em razão da sanguinária intolerância do líder iraniano, aiatolá Ruhollah Khomeini que decretou (fatwa, em 14 fevereiro de 1989) sua execução sob a acusação de haver cometido o crime de abandono da fé islâmica, ao publicar o livro Versos Satânicos, cujo longo enredo revela os dilemas do imigrante entre desenraizamento e integração, no caso, à sociedade britânica. Segundo o autor “um simples romance antigo e não uma espécie de batata quente teológica”.

A partir de então, Salman passou a viver escondido e sob a proteção do serviço secreto inglês. É possível afirmar que o autor foi um dos cidadãos mais perseguidos do mundo pelo imperdoável delito que afronta as tiranias: a liberdade de expressão, nela contida a tolerância religiosa, pilares do regime democrático.

Os ditadores, tiranos, déspotas têm sede de sangue e detêm um arsenal de extermínio cruelmente utilizados na eliminação dos “inimigos” que defendem a liberdade da palavra, um crime imprescritível.

Decorridos 33 anos do fatwa, a tentativa de executar a cruenta sentença ocorreu dia 12 de agosto de 2022. Ao subir no palco do anfiteatro, do Instituto Chautauqua, condado do Estado de Nova York, quando daria uma palestra sobre a criação de espaços seguros nos EUA para escritores de outros lugares do mundo, Salman Rushdie sofreu um brutal atentado, assim descrito pela vítima: “Ainda vejo o momento em câmara lenta. Acompanho com os olhos o homem que corre, salta da plateia e avança até mim […] ergo a mão esquerda para me defender. Ele crava nela a faca. Depois de vários golpes, em meu pescoço, peito, olhos, em tudo. Sinto as pernas cederem e caio”.

A cena é de uma brutal ferocidade. Com o sugestivo nome de Hadi Matar, o fanático desferiu, em 27 segundos, mais de dez facadas, na vítima agonizante. A partir de então, exangue, Salman que não professa qualquer religião, ateu convicto, se deparou com uma luta de gigantes, o ano da morte e o anjo da vida, títulos que deu às duas partes em que dividiu o magnífico livro A Faca – Reflexões sobre um atentado. Sem perder o refinado senso de humor, mesmo em momentos críticos, afirmou que, embora não acreditasse em Deus, sua cura foi milagrosa.

Somente uma brilhante vocação literária, transformaria uma faca, dores severas, a beira do desconhecido, cicatrizes e a mutilação (perda do olho esquerdo) na ampliação do autoconhecimento, no significado terapêutico do tempo, na luz da ciência médica, na força do acolhimento solidário da amizade e, sobretudo, no amor desmedido da poeta, romancista, artista, sua mulher, Rachel Eliza Griffiths (1978).

Escrever o livro, “o desfecho”, foi a cura. O anjo da vida venceu, mas as únicas vitoriosas são as palavras sobreviventes aos impérios. Para o autor, a grande lição é tomar a liberdade de expressão como um fato consumado. Leitura emocionante!

Gustavo Krause

terça-feira, 4 de junho de 2024

Mudança política e mudança climática

Não é preciso ser um cientista para perceber que o clima em todas as regiões da terra está mudando e que estas mudanças põem em risco nosso modo de vida. Com o conhecimento que a humanidade adquiriu do fim do século XVIII até agora é possível distinguir com bastante acerto o que tem origem em causas naturais e o que é provocado pela ação do homem. Este conhecimento nos dá o poder de intervir nesses processos, para mitigá-los ou para nos adaptarmos às suas consequências.

Hoje, no Brasil ou em qualquer democracia, a política divide as pessoas em quase tudo e, como não poderia deixar de ser, divide também quanto à questão ambiental. Se ninguém pode em sã consciência negar o fato das mudanças climáticas, uma grande parte das pessoas prefere acreditar que elas não têm relação com a ação humana e, portanto, não tem cabimento políticas ambientais que custam caro. É um ponto de vista desesperado que, levado às últimas consequências, nos manterá passivos até que as mudanças se tornem irreversíveis.

Se o negacionismo é mais presente na direita política mais radical, não é infelizmente sua exclusividade. A esquerda, com suas agendas de soberania e de desenvolvimento a qualquer custo, sem falar nos ressentimentos coloniais, não é capaz de dar passos efetivos no combate à mudança do clima. Seu discurso é politicamente correto, mas na prática ela tem outras prioridades.


Uma pessoa razoável não pode ter dificuldade em perceber que a ação do homem é uma grande causadora das pressões que se abatem sobre o nosso ambiente. Até a revolução industrial a população humana foi sempre pequena para as dimensões da terra. No primeiro ano da era cristã a população mundial tem sido estimada em 188 milhões de pessoas e 1.800 anos depois estava perto de 1 bilhão, um crescimento de cinco vezes em 18 séculos. Pouco mais de dois séculos depois, somos hoje 9 bilhões de pessoas. Do tempo dos romanos até o final do século XVIII, o padrão de vida se manteve estagnado, sem pressão da produção e do consumo sobre os recursos da natureza. De 1.750 até hoje a renda de europeus e norte-americanos multiplicou-se por vinte vezes e a do mundo como um todo, quatorze vezes. A explosão demográfica multiplicada pela explosão da renda em pouco tempo, não tinha como não pressionar o ambiente natural em que vivemos.

Deter a mudança do clima vai exigir um esforço financeiro gigantesco dos países e para isso será indispensável a concordância e a adesão das suas populações. Além disso, será necessário um nível inédito de cooperação internacional. O movimento ambiental e o relativo engajamento dos principais governos nas discussões do clima coincidiu com o fim da União Soviética e o relaxamento das tensões geopolíticas. De lá para cá o mundo reconfigurou-se à base de novos antagonismos e as tensões geopolíticas voltaram a ser tão fortes quanto antes. O ambiente para a cooperação e a repartição justa dos custos da transição parece claramente sombrio.

Olhando para a frente com realismo é possível prever que os antagonismos geopolíticos não devem favorecer políticas ambientais nacionais de grande alcance, pois a palavra de ordem nas grandes potências e nos blocos econômicos é vencer a competição e prevalecer, qualquer que seja o custo. Os movimentos ambientalistas estão perdendo tração porque sempre preferiram atuar à margem das correntes políticas principais e agora enfrentam um isolamento.

Desde que a questão ambiental entrou na agenda dos governos e de parte das sociedades, muito progresso foi feito e muita coisa foi evitada. A preocupação ambiental, no entanto, é ainda uma pauta dos governos e das elites. Para que o combate às mudanças climáticas, com todos os seus custos e todos os seus sacrifícios, adquira a escala necessária, é preciso que as pessoas comuns sejam persuadidas. Para isto o discurso da ordem e do medo deve ser substituído por um discurso de esperança. Todos precisam acreditar que com a ciência e a política a mudança do clima é mais uma luta que os homens são capazes de vencer.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Pensamento do Dia

 


O Brasil faraônico

A lembrança vem rápida, puxada do baú das reminiscências. Nos meados dos anos 60, repórter iniciante do Jornal do Brasil, na época o mais admirado do país, desloquei-me à Sudene, na av. Dantas Barreto, em Recife, para cobrir a reunião mensal dos conselheiros do órgão, composta pelos 9 governadores da região e representantes de Ministérios.

Na ocasião, ouvi do então governador Alberto Silva (MDB-PI), a historinha: “o piauiense tem um complexo de inferioridade. Encontra uma pessoa desconhecida, jeito arrogante e metido à besta. O sujeito se apresenta, com nome e credenciais. E pergunta: o senhor é de onde? O piauiense, raiva na cara, fazendo um gesto com as duas mãos, como estivesse partindo para a briga, responde: “eu sou do Piauí, e daí?”.

O gesto de briga, na visão do governador e engenheiro, traduz o sentimento do piauiense de carregar um recalque: ser originário de um Estado, na época devastado pela pobreza, junto com o Maranhão, figurando no ranking como o ente federativo menos desenvolvido do país. O chiste era: os dois Estados, em um só território, teria o nome de “Piorão”.


Alberto Silva levava muito a sério o sentimento de seus compatriotas, a ponto de, em uma de suas gestões, ter cumprido a promessa de campanha eleitoral, de puxar Copacabana, o belo cartão postal do Rio de Janeiro, para Teresina, a capital. Criou a “Poticabana”, uma praia formada nas margens do rio Poti. Com ondas e tudo.

Para alegria dos piauienses, das crianças, principalmente, adquiriu nos Estados Unidos um equipamento para formação de ondas. A sensação de enfrentar ondas gigantes nas águas sujas e barrentas do rio Poti, nas proximidades de um hotel 5 estrelas, com o mesmo nome do rio, seria o toque de charme do empreendimento. Mas a alegria foi contida. No dia da inauguração, uma criança morreu afogada. Outras, quase. Veio a tristeza. A praia acabou, enterrada pela tragédia.

O fato é que a imitação, o gosto pela extravagância, o toque de esnobismo, enfim, a vontade de construir altares grandiosos fazem parte do ethos nacional. O complexo de vira-lata, imagem criada por Nelson Rodrigues para traduzir a inferioridade em que o brasileiro se coloca ante o mundo, produz, de outro lado, a cultura das coisas fabulosas, o jeito brasileiro de entrar na tumba de faraó.

Haja olhos para contemplar a arquitetura faraônica que se espraia pelo País na forma de construções suntuosas, edifícios majestosos, obras de desenhos arrojados e massas volumosas que causam estupefação. E secam os cofres.

O Brasil se habilita a ser um hábitat para abrigar o sono eterno dos faraós. As majestades nacionais se sentem motivadas a ganhar assento nos espaços do pharao-onis, termo do velho latim para significar “casa elevada”. O planalto brasiliense, imaginado por JK, é a morada dos faraós no século 21.

O fausto, a opulência, o resplendor, a exuberância se elevam nos espaços, sob o ditame inquestionável de que, se a obra for construída em Brasília, deverá receber o selo de Oscar Niemeyer e, por consequência, não sofrerá limites de gastos. Os faraós não olham para gastos. Para onde se olhe na Esplanada dos Ministérios e arredores, se enxergam tumbas resplandecentes. Muitas construídas sob a engenharia de bilhões. Não se pretende questionar a qualidade técnica e artística das monumentais obras de Brasília e de outras paragens.

A capital federal, seu criativo traçado e, de maneira mais abrangente, a própria arquitetura brasileira, ocupa lugar de destaque nos mais belos portfólios do planeta. A questão diz respeito aos princípios constitucionais da economicidade, moralidade e finalidade da administração pública. Que devem ser obedecidos a partir dos gestores lotados nos píncaros da administração pública. As sedes monumentais, apesar do encantamento que provocam, puxam as ondas do desperdício. Eis a pergunta recorrente: o custo da obra faz jus ao porte das tarefas do órgão?

Vejam o caso do TSE. O Tribunal Eleitoral é formado por sete ministros, três dos quais já integram o STF. Se os desníveis nos andares do edifício judiciário são alarmantes, imagine-se a situação catastrófica em outras áreas. Outras frentes do desperdício: perdemos 50% dos alimentos, perda estimada em R$ bilhões anuais, o que daria para alimentar 50 milhões de pessoas, evitar perda de 40% da água distribuída e 30% da energia elétrica. Os cálculos foram feitos há tempos pelo professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro José Abrantes, autor do livro Brasil, o País dos Desperdícios. Se a montanha de riquezas enfiadas no ralo pudesse ser preservada, o País estaria, há tempos, no ranking mais avançado das potências.

A que se deve isso? Primeiro, a uma cultura política plasmada no patrimonialismo, assim explicada: a res publica é entendida como coisa nossa, o dinheiro dos cofres do Tesouro tem fundo infinito, o Estado é um ente criado para garantir casa, alimento e bem-estar.

E quais seriam os caminhos mais curtos para diminuir o Produto Nacional Bruto do Esbanjamento (PNBE)? Ordem e disciplina nos gastos. Rigor no preceito constitucional da economicidade e moralidade. Uso racional do espaço público. Coordenação eficaz dos planos de obras. Qualificação e treinamento dos quadros funcionais. Elevação geral do nível educacional da população.

As vias, todas com sua importância no conjunto, se completam. No momento em que o mais modesto dos brasileiros conseguir decifrar a conta dos exageros nos umbrais da gastança, as distâncias entre os compartimentos da pirâmide serão menores e o Brasil, maior. Meta para mais de uma geração.

Não vendam nossas praias

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.


A ideia de privatizar existe noutros países. Mas não é nossa praia. A praia é o tipo de espaço de lazer essencial para os brasileiros, algo muito importante na definição do Rio e na integração de suas regiões urbanas.

Outro aspecto que torna a medida temerária, eu diria suicida, é o fato de estarmos em período de mudanças climáticas. Uma das consequências é a elevação do nível dos mares, algo que considero irreversível, uma vez que as geleiras já começam a derreter.

Quem tiver dúvida do poder do mar precisa visitar a praia de Atafona, no norte do Estado do Rio. Foi destruída completamente. O mar avança em Pernambuco (Boa Viagem, Paulista, Jaboatão) e provoca mudanças na Ilha de Itamaracá, ao lado do forte construído pelos holandeses. Em muitos casos, como em Santa Catarina, não podemos falar apenas de avanço do mar, mas sim de uma resposta à própria especulação imobiliária.

A lei que garante a propriedade da União sobre os terrenos de marinha foi baseada na maré de 1831. Imagino que essa referência talvez não seja mais tão segura nos tempos de aquecimento global. Isso quer dizer que as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação.

Um dos argumentos do senador Flávio Bolsonaro, relator da emenda constitucional que privatiza as praias, é que pobres como os habitantes da comunidade da Maré, no Rio, virarão proprietários. Mas a proposta nunca pensou nos pobres, apenas basicamente nas grandes empresas imobiliárias.

Logo no começo da pandemia, fui a Fernando de Noronha exatamente para colher a opinião dos moradores contra outro projeto do próprio Flávio Bolsonaro. Ele queria abrir a ilha para os cruzeiros internacionais, inundá-la de turistas estrangeiros, sem preocupação com a ausência de estrutura. Cheguei a concluir o programa com muitos depoimentos contrários à invasão dos cruzeiros, mas a pandemia acabou resolvendo o problema à sua maneira.

Os Bolsonaros parecem ter um Caribe na cabeça, sempre tentando materializá-lo, ora em Angra, ora em Noronha, ora no Nordeste. Esse avanço da especulação imobiliária nos dá a possibilidade de discutir a importância dos oceanos nas mudanças climáticas. O próprio El Niño, que pegou pesado neste ano, é um fenômeno que se forma na costa peruana.

Recentemente houve em Barcelona um encontro internacional para discutir a proteção aos oceanos. Numa das maiores conferências ambientais no fim do século passado, houve concordância de que a alteração das correntes marinhas seria o marco de que o aquecimento se tornaria irreversível.

Com tudo o que aprendi e estamos aprendendo em família, com uma filha dedicada aos oceanos, creio que não dramatizo ao avisar que o Brasil precisa ter cuidado com o mar, senão produzirá desastres que poderiam ser evitados, como tantos outros que produz em terra firme.

Em vez de privatizar praias, o país deveria ampliar suas áreas de proteção no próprio oceano, algo que a Austrália já começou a fazer. É preciso proteger os corais, evitar que o oceano se transforme numa lixeira e combater a pesca predatória, sobretudo de navios asiáticos que navegam com fábricas de enlatar peixes.

No momento em que o Rio Grande do Sul vive uma tragédia marcada por tempestades e ciclones, é preciso fazer ver aos congressistas que é hora de conter essa corrida por lucros fáceis, que só nos leva à autodestruição.
Fernando Gabeira 

Caso Sylt: racistas perderam a vergonha

O vídeo rodou o mundo todo. Nele, jovens ricos alemães se divertem no terraço de um bar, rindo e celebrando. A cena seria normal se eles não estivessem cantando os seguintes versos: "Alemanha para os alemães, estrangeiros fora!". Entusiasmado, um dos jovens faz o que parece ser um gesto nazista e uma imitação do bigode de Hitler. O vídeo foi gravado esse mês em um bar de luxo de uma famosa ilha que é conhecida por sua clientela rica e VIP: Sylt. A música é uma adaptação de uma canção inofensiva de amor, L'amour toujours, de Gigi D'Agostino.

A cena gerou um grande escândalo na Alemanha, obviamente. A polícia abriu uma investigação criminal e o caso foi lamentando pelo chanceler federal alemão, Olaf Scholz, que classificou o episódio como "inaceitável". Ótimo. Mas isso será suficiente para barrar uma "tendência" xenófoba que cada dia fica mais clara no país? Infelizmente, acho que não.


Depois dos jovens ricos racistas viralizarem na internet, soubemos que, no mesmo fim de semana em que o vídeo foi gravado e também em Sylt, uma mulher negra de 29 anos foi insultada e levou um soco. De acordo com a emissora alemã NDR, a polícia informou ainda que um episódio semelhante ao do bar ocorreu numa outra balada da ilha.

Ou seja, o caso está longe de ser isolado. A versão da música, segundo reportagem da NDR, circula no TikTok pelo menos desde dezembro de 2023 e vários casos de jovens cantando as palavras racistas já foram registrados na Alemanha e na Áustria.

Moro na Alemanha há quase dez anos e nunca tinha visto uma cena como essa. Não estou dizendo que não existiam neonazistas, claro que existiam. Mas ver pessoas cantando sorridentes esses slogans em uma festa, aos olhos de todos, é algo que eu realmente não podia imaginar. Será que eu era muito inocente? Pode ser. Mas os xenófobos também não eram tão "saidinhos".

"Os idiotas estão saindo do armário", escreveu o cientista político e ativista alemão Tadzio Müller. Sim, a impressão que dá é que na Alemanha, assim como em muitos outros países, os preconceituosos não estão mais com vergonha de externar suas visões xenófobas, racistas, homofóbicas e misóginas.

"A gente já viu isso antes", comentou um amigo brasileiro que também mora na Alemanha no X (o antigo Twitter), depois que eu compartilhei o vídeo dos racistas na rede social. Ele falava do Brasil a partir de 2017, 2018, quando o bolsonarismo mostrou a sua cara e muita gente passou a falar sem vergonha que sentia saudades da ditadura, a falar mal de gays, por aí vai. Ou seja, os preconceituosos saíram do armário.

Vendo a cena horrorosa de Sylt (assustadora principalmente para nós, estrangeiros que moram na Alemanha) lembrei de alguns episódios que aconteceram no Brasil há poucos anos, como o fato de pessoas falarem que sentiam saudades da ditadura militar e admirarem publicamente torturadores. Esse é o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que "dedicou" seu voto na noite do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff a Carlos Brilhante Ustra, um dos torturadores mais sanguinários da ditadura. Depois disso, muitos dos seus admiradores, inclusive seu filho Carlos Bolsonaro, usaram sem vergonha camisetas onde estava escrito: "Ustra vive!".

Entoar slogans neonazistas na Alemanha e falar que tem saudade da ditadura são coisas diferentes, mas o ódio e a falta de vergonha de fazer apologia a crimes é muito parecida.

Muitos amigos brasileiros perguntam preocupados o que vai acontecer com a Alemanha. Claro que ver essas cenas nos machucam e assustam. Mas uma coisa eu respondo com tranquilidade: apesar do crescimento das manifestações xenófobas, é praticamente impossível que o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha (AfD) faça parte do governo federal nos próximos anos. Isso porque o sistema político do país é o parlamentarismo de coalizão, o que significa que partidos devem fazer uma aliança que supere os 50% dos assentos parlamentares para governar. E existe no país o chamado Brandmauer, que significa "muro de contenção", ou seja, um acordo entre os principais partidos para isolar a AfD.

Além disso, o partido está envolvido em vários escândalos. No dia 14 de maio, por exemplo, um de seus maiores líderes, o deputado estadual da Turíngia Björn Höcke, foi condenado por uso de slogan nazista.

Em janeiro, milhares foram às ruas protestar contra o partido e o fascismo depois que uma reportagem mostrou que integrantes da AfD tinham se encontrado com outros extremistas para discutir um plano para expulsar milhares de estrangeiros da Alemanha. As manifestações deixaram ainda mais claro que seria uma péssima ideia (em todos os sentidos, até o eleitoral) um partido se associar à AfD.

Outra coisa que me tranquiliza: novas manifestações contra o fascismo e a xenofobia já estão marcadas em todo o país. Os xenófobos perderam a vergonha, mas ainda existe muita gente sempre pronta para gritar: "alle zusammen gegen den Faschismus" ("todos juntos contra o fascismo").