sábado, 26 de agosto de 2017

Junior, o dono do Pros que tapeou o gênio

O Brasil é um país gastador, perdulário. Se fosse uma empresa privada já teria falido várias vezes. Mas como é sustentado por contribuintes tolos e indolentes – que não reagem ao assalto aos cofres públicos – seus governantes gastam até o último centavo do tesouro e vivem de aumentar impostos. E o brasileiro vai no mesmo caminho. Ele ainda é aquele cara que grita da ponta da mesa de um restaurante: “Essa é minha, deixa que eu pago, faço questão”. Essa mania de gastar como se não existisse o dia seguinte é o que faz diariamente o governo como se fosse sempre o dono da farra. Vamos, aqui, dar exemplos de dois casos que mostram como alguns espertinhos ficam milionários com o nosso dinheiro e impunes depois de assaltarem os cofres públicos.

O primeiro caso a gente já conhece: os Batista receberam mais de 10 bilhões do BNDES para comprar empresas no estrangeiro que iriam gerar milhares de empregos lá fora. Uma parte dessa fortuna, como eles mesmo confessaram ao MP, foi destinada a comprar políticos e executivos de estatais aqui mesmo, no Brasil. Pois bem, os irmãos Batista estão protegidos pela imunidade jurídica, mas respondem a processos que, no futuro, podem levá-los à cadeia. Além disso, pelo acordo de delação com o Ministério Público, estão devolvendo os bilhões em suaves prestações mensais. Dos males, o menor.

O segundo caso é proporcionalmente pior, pois é dinheiro jogado fora, que não movimenta a economia nem gera emprego: os recursos destinados aos partidos políticos (quase R$ 1 bilhão de reais este ano). Vamos falar apenas de um, o mais estapafúrdio de todos eles. Mas antes, uma historieta: era uma vez um ex-vereador de Planaltina, em Goiás, que sempre sonhou que um dia seria dono de um partido, um dos negócios mais rentáveis da república. A partir desse sonho organizou um grupo, a quem prometeu dias prósperos e felizes, e incentivou motoristas de Vans, seus amigos, a recolher assinaturas dos passageiros para legitimar a legenda.

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E os desejos dele chegaram mais rápido do que imaginava. Em 2013, às vésperas da reeleição da Dilma, eis que suas aspirações se concretizam. O ex-vereador Eurípedes Júnior, finalmente, criou o Pros, um partido de aluguel que iria, quatro anos depois, fazer a felicidade da família dele e de seus amigos que o ajudaram a botar para funcionar a máquina mais fantástica de fazer dinheiro, de dar inveja ao saudoso Tio Patinhas. Pronto, gente, estava aberta a porta da esperança. O dinheiro, a partir daquele momento, chegaria às contas do Pros como se os sobrinhos do velho avarento tivessem aberto as torneiras do seu tanque de moedas.

Como presidente do Pros, aliás, da engenhoca, logo Eurípedes Junior virou um cara importante. Trouxe para dentro do partido os irmãos Gomes – Ciro e Cid Gomes – do Ceará. Foi açodado pela Dilma e logo estava em audiência com a presidente, que lhe ofereceu uma fortuna para ele vender o tempo de televisão da legenda. Em quatro anos já acumulava R$ 35 milhões nas contas da agremiação. Em 2014, elegeu 12 deputados federais e chegou a 21 representantes na Câmara. Hoje lhe restam apenas cinco.

Mas no sonho, o gênio da garrafa que o assessorava, limitou os seus pedidos. Ele pediu um avião, desejo logo realizado. Mas em vez de um, Junior comprou outro, o que teria contrariado o homem da garrafa. O primeiro é um helicóptero, modelo R-66, prefixo PP-CHF, adquirido ainda na caixa por R$ 2,8 milhões. E para que a aeronave não aterrizasse em uma casa modesta – sua antiga moradia -, ele gastou a bagatela de R$ 600 mil na reforma para combinar com o novo brinquedinho, e, agora, acumula R$ 5,4 milhões em imóveis. Junior é um cara esperto. Tão esperto que tapeou até o gênio, quando apareceu com outro o avião, um bimotor, para viagens um pouco mais longe, que não estava entre os seus pedidos.

Aí, para variar, Júnior teve um pesadelo. Nele, um grupo de homens de preto apareceu em seus delírios kafkianos e desconfiaram das negociatas dele à frente do partido, que tem R$ 14 milhões em caixa, e o questionaram. Os procuradores do Ministério Público o acusam de quatro crimes, mas o principal deles foi a venda da legenda por R$ 7 milhões a Dilma, segundo delação do diretor da Odebrecht, Alexandrino Alencar, em delação premiada ao MP. Esta semana, ao acordar sobressaltado, viu que o gênio, seu benfeitor, estava fora da garrafa. Aborrecido, ele tinha sumido. Júnior apelou, então, para os seus advogados para encomendar um habeas corpus preventivo que garantiria sua liberdade. Ele foi negado pela Justiça.

Junior, não dá para devolver o gênio à garrafa. Não sei se você sabe, mas para esses caras da garrafa só se faz um pedido.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017


Entre poder fazer e dever fazer

Sempre cuidadoso na escolha das palavras e moderado nas afirmações que faz, o presidente Michel Temer foi pouco feliz a certa altura da entrevista que concedeu, ontem, ao jornalista Kennedy Alencar no programa SBT Brasil.

Ao defender-se de críticas sobre encontros frequentes e em horas aparentemente impróprias que não constam de sua agenda oficial, Temer justificou:

- O presidente trabalha permanentemente e não tem local de trabalho. Eu converso com quem quiser, a hora que eu achar mais oportuna e onde eu quiser.

Como qualquer pessoa, o presidente pode de fato trabalhar além do expediente normal. E pode conversar com quem quiser, na hora que achar mais oportuna e no local que preferir. Mas não pode reclamar se seu comportamento for censurado.


Porque ele não é uma pessoa qualquer. É o servidor público número um do país. Todas as atenções se voltam para ele. Não está obrigado apenas a respeitar as leis e as normas que orientam a condução do cargo que ocupa. Deve servir de exemplo.

Como servidor, o presidente deve satisfações de cada um dos seus atos ao distinto público. Mais ainda quando alguns deles possam parecer suspeitos. Reunir-se, por exemplo, tarde da noite com um empresário em porão de palácio é um ato incomum.

O ato passou a ser suspeito porque o empresário, investigado por corrupção que mais tarde confessaria, foi admitido no palácio com falsa identidade, disse o que acabou registrado em gravação ruidosa e ouviu o que deixou mal o seu interlocutor.

Por que Temer reuniu-se às escondidas com a nova procuradora-geral da República nomeada por ele para suceder o procurador-geral que o denunciou por corrupção? Por que não o fez durante seu expediente normal de trabalho, à vista de todos?

Por que quase sempre é às escondidas, a salvo da curiosidade dos jornalistas, que costuma reunir-se com o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral que o julgou e absolveu recentemente por abuso de poder econômico?

Por que providenciou jarros de plantas para cercar a entrada principal do palácio onde mora de modo a impedir o registro de imagens dos seus visitantes? Por que escondê-los? Por que se esconder? O que pretende esconder? Do que tem medo?

No regime político sob o qual vivemos ninguém é mais poderoso que o presidente da República. Ninguém é mais escrutinado do que ele. Portanto, ninguém deve mais explicações do que ele.

Ricardo Noblat

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Inserido

Primeiro os desafios, depois os nomes

Em artigo anterior, apontei para a evidência de que agentes econômicos e políticos já mergulharam com tudo nas eleições de 2018, de um modo precipitado ainda que compreensível. Argumentei que há certa fissura no ar em torno do candidato ideal para ganhar a eleição presidencial, sem que se pondere, porém, se o tal do bom candidato seria também um bom presidente da República, caso viesse a ser eleito.

Por fim, apontei existir, ao meu ver, esse tipo de problema nas eventuais candidaturas do ex-presidente Lula (PT) e do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). São competitivos, sim, e satisfazem seus respectivos públicos, mas seriam as melhores opções para o governo, numa quadra histórica tão complexa como a que vivemos? Minha resposta tácita — ainda que não estivesse explícita — é que não.

Como de costume, apanhei dos dois lados: virtuais eleitores de um viram na crítica ao seu candidato o apoio ao outro. Os fãs de outro sentiram que havia nas entrelinhas do meu texto a desqualificação de seu ídolo. Faz parte e confesso que é minha zona de conforto; não tenho mesmo nenhum prazer em me vincular a torcidas ou a seitas.

Observar o jogo e comentá-lo, sem paixão, me agrada muito mais. E é meu ganha-pão. Já observei em outro espaço que sou como um açougueiro que enjoou de carne. Manipulo o produto, mas não consumo. E, longe do balcão, sequer o recomendo. Ingerir essas proteínas, e suas toxinas, da forma como bem entender, é problema de cada um, não meu. Mas, vamos em frente.

Millor
Minha preocupação maior vai na direção de que o país diminua seu grau de ansiedade e, portanto, a beligerância com que as pessoas têm se comportado em relação à política — não apenas no Brasil, é verdade. Chover no molhado é afirmar que há muita histeria nisso tudo e baixar a bola, buscando algum grau de racionalidade, é fundamental. Por isso, disse que era necessário que nos preocupemos, antes, com o melhor presidente e só depois com o melhor candidato.

Se viver em sociedade é uma condição inescapável, as disputas são também inevitáveis. O poder surge desse confronto de forças. É ele que define ganhadores e perdedores nesse jogo em que as pessoas são diferentes, suas visões de mundo distintas, e nem sempre haverá acordo e consenso sobre essa vida em sociedade.

A política, portanto, é o instrumento que a humanidade inventou para minimizar as perdas com essa disputa. Ela deveria ser compreendida como um apetrecho sutil, tão delicado quanto necessário com que os atores disputam, negociam — pactuam ou não — a convivência social e a posse, mesmo que momentânea, do poder. A democracia é as regras do jogo e define os limites da política. Por isso, a democracia é fundamental.

O país, portanto, deveria se preocupar com a democracia. Definir bem seus pressupostos e zelar por sua qualidade; não permitir desvios nem oportunismos de qualquer ordem. Sem isso, a política torna-se objeto de ilusão nas mãos de espertalhões, como os prestidigitadores que manipulam copinhos e bolinas e enganam passantes nas praças ao redor das catedrais. Isto torna a vida em sociedade insuportável. Daí o mau humor, a beligerância e a guerra de verdade.

O perigo de Charlottesville está em todo lugar. E um Donald Trump tropical, à esquerda ou à direita, só pode fazer materializá-lo por aqui também.

Neste momento, os partidos encontram-se destroçados e não há conjuntos políticos viáveis e capazes de reordenar o sistema de forma a recoloca-lo no seu devido e necessário eixo. Logo, será inevitável passar pela escolha de um nome capaz de cumprir tarefas fundamentais. Por isso, o país precisa preocupar-se com essas tarefas: antes, ponderar perfis políticos do que a capacidade de ilusão eleitoral de cada um. Simples assim. Conversemos sobre os desafios.

Carlos Melo

Quem paga e quem deve

Entre pobres e ricos, brancos e pretos, jovens e velhos, homens e mulheres, hoje os brasileiros se dividem principalmente entre os que trabalham para o Estado e os outros, que usam os seus serviços, compram os seus produtos e pagam os seus salários. Além dos privilégios abusivos de funcionários dos Três Poderes e das estatais, com o tempo, as categorias com maior poder de pressão política foram acumulando vantagens que se tornaram “direitos adquiridos”, um tabu brasileiro que perpetua injustiças contra a sociedade, que paga a conta.

Antes de ser xingado de “inimigo do serviço público”, é bom dizer que ele é fundamental para o país, a maioria dos funcionários é honesta e trabalhadora e se dedica a servir à sociedade... categorias como médicos, professores e policiais são muito mal remuneradas... burocratas ganham os maiores salários, carros, assessores, diárias e verbas de ostentação...

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Mas ministros da Corte Suprema nos Estados Unidos e o prefeito de Londres vão para o trabalho nos seus carros, ou de metrô. Congressistas também. No Brasil, o pior exemplo vem dos que recebem os mais altos salários do Estado e se espalha em cascata pelos Três Poderes. É a maior transferência de renda da nossa História — mas dos pobres para os ricos.

Os políticos cortejam os votos do funcionalismo municipal, estadual e federal e oferecem leis com vantagens e privilégios. Governos populistas inflam os cargos, nomeações e salários, mas não as qualificações, os serviços públicos não melhoram.

Hoje os empregados do Estado, pagos pelos impostos dos cidadão, se aposentam com o salário integral, muitas vezes com outras vantagens, enquanto a maioria dos trabalhadores do setor privado recebe um salário minimo. A conta desses privilégios de 10% dos cidadãos é paga pelo resto dos trabalhadores e pelo aumento da dívida pública. Não há Previdência que aguente. É essa cultura nefasta de privilégio e injustiça que divide o país entre nós e eles.

Parecem duas castas diferentes de cidadãos, não é? É uma afronta à Constituição, mas esse é um assunto que o governo e a oposição não querem discutir a sério.

Nelson Motta

Aperte o bolso: O calote vem aí

O próximo governo se sentirá seduzido, inevitavelmente, por um calote na dívida pública. O crescimento da dívida pública interna atingirá 100% do Produto Interno Bruto – PIB do Brasil, já na posse do próximo governo. A situação será insustentável, gerando uma completa ingovernabilidade.

Os bancos, hoje cartelizados em 5 grandes organizações, têm diminuído assustadoramente os empréstimos ao setor privado e vêm aumentando, em proporção inversa, a aplicação em títulos da dívida pública.

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Os países que recentemente entraram em default, como a Grécia, não causaram grandes impactos internos, pois sua dívida era sobretudo externa e em grande parte pulverizada, inclusive em bancos centrais, fundos mútuos e de pensão.

O caso do Brasil é essencialmente diverso. Um default nossa dívida interna implicará na falência do sistema, atingindo de grandes bancos a pessoas físicas, passando por family offices e afins.

Para evitarem uma corrida bancária, as grandes instituições bancárias terão, obrigatoriamente, que impedir seus clientes de efetuarem os saques de suas poupanças à vista ou a prazo.

Caso contrário, teremos uma situação ainda mais grave que a vivida pela Venezuela. Reformas já ou só restará o calote.
Luiz Cezar Fernandes, criador dos bancos Pactual e Garantia e sócio da corretora Grt Partners

Paisagem brasileira

Vista do Rio de Janeiro tomada de Santa Teresa, Nicolao Antonio Facchinetti

A máquina que move o desmatamento da Amazônia

Na lógica que move a destruição da Floresta Amazônica, ainda é raro encontrar histórias de transformação como a de Roberto Brito de Mendonça, de 43 anos. Foram necessários 100 anos para que se rompesse – por suas mãos – uma vocação que parecia natural na família: o desmatamento ilegal.

Aos 12 anos, iniciado pelo pai e o avô, derrubou sua primeira árvore, às margens do rio Negro, no Amazonas. Trinta anos depois, abandonou a motosserra – e a ilegalidade. "Eu era revoltado com o governo que nos pedia para preservar. Na minha ignorância, eu falava: ‘Não estou nem aí, quero aproveitar a floresta da forma que eu conheço'", conta Roberto, que dependia da madeira para sustentar a família.

A comunidade onde ele vive está dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro, no Amazonas, criada em 2008 para preservar a mata e o modo de vida das populações tradicionais. Com 103 mil hectares e 693 famílias espalhadas por 19 vilarejos, a unidade de conservação, no entanto, não está livre do risco.

"Hoje já temos a pressão de grandes fazendeiros migrando dos estados do Pará e Rondônia para o Amazonas, com grandes empresários fazendo investimentos", afirma Renê Luis de Oliveira, coordenador-geral de fiscalização ambiental do Ibama.

Criação ilegal de gado na Floresta do Jamanxim, Pará: tramita no Congresso projeto para reduzir proteção
Criação ilegal de gado na Floresta do Jamanxim (PA):
tramita no Congresso projeto para reduzir proteção
Em toda a Amazônia Legal, a sistemática do desmatamento segue um roteiro conhecido pelos fiscais: o invasor derruba a floresta em terra pública, vende madeira para se capitalizar, planta capim e coloca o gado. Mais tarde, as terras de interesse da agricultura dão lugar ao cultivo de soja, arroz e milho.

Em sobrevoos de fiscalização, é possível avistar áreas desmatadas sem qualquer construção –apenas os bois vigiam o terreno. "Os grileiros invadem esperando, um dia, a regularização fundiária de uma terra que é pública", afirma Oliveira.

O rebanho bovino na Amazônia Legal saltou de 37 milhões de cabeças em 1995, o que era equivalente a 23% do total nacional, para 85 milhões em 2016 – cerca de 40%. "A pecuária para a criação de gado é a atividade que mais contribui para o desmatamento na Amazônia, ocupando 65% da área desmatada", afirma o estudo recente do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Marlene Alves da Costa, uma das lideranças comunitárias na RDS Rio Negro, já precisou barrar invasores que queriam trazer gado para as terras. "Gado aqui é proibido. O que ainda acontece é o roubo de madeira. Cortam de dia, escondido, e levam embora à noite. Mas nós denunciamos", conta.

Os moradores tradicionais de Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Rondônia, não conseguiram o mesmo. Segundo o Ibama, trata-se de uma unidade de conservação mais desmatada do estado. "Fazendeiros tomaram conta. São mais de 50 mil cabeças de gado na reserva", relata Oliveira.

As áreas ocupadas por populações tradicionais, extrativistas, não barram os invasores. "É comum a gente verificar aliciamento desses povos dentro das reservas extrativistas e de uso sustentável. Eles acabam vendendo sua terra e, muitas vezes, são até afugentados pelos grandes proprietários", relata Oliveira. "É muito complexo".

As florestas públicas sem destinação são o alvo mais fácil para os grileiros e seus bois. "São 60 milhões de hectares de florestas não destinadas na Amazônia. São terras públicas que estão à mercê da grilagem", afirma Cristiane Mazzetti, especialista em Desmatamento Zero do Greenpeace. O tamanho da área em questão equivale a quase o dobro do território da Alemanha.

"Os povos da floresta são fundamentais para a conservação. Qualquer planejamento tem que levar em consideração as populações tradicionais, os indígenas, garantir o direito à terra e atividades econômicas que mantenham a floresta em pé", diz Mazzetti a favor do aumento das unidades de conservação.

A pecuária não entraria nesta lista. O controle dessa atividade, inclusive, virou prioridade para coibir a destruição do ecossistema. Em mais de um ano de investigação, o Ibama multou 14 frigoríficos que compraram produtos vindos de áreas desmatadas ilegalmente ou embargadas.

Mazzetti destaca ainda o peso da política: "É fundamental que o governo não aprove medidas que sigam na direção contrária. E o que a gente vê é o contrário: propostas discutidas no Congresso que dão a expectativa de redução de unidades de conservação, ou desafetação, o que acaba contribuindo com a invasão dessas áreas."

Após a aprovação da chamada MP da Grilagem (MP 759/16), tramita no Congresso o projeto que reduz a proteção na Floresta Nacional do Jamanxim, Pará. Na última quarta-feira, o governo federal publicou um decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na Amazônia. A reserva, criada em 1984, possui cerca de 47 mil quilômetros quadrados.

Embora o balanço divulgado pelo Imazon tenha apontado queda de 21% do desmatamento entre agosto de 2016 e julho de 2017, a situação não é de alívio. "A gente ainda está em 2017 muito aquém de onde deveríamos estar para dizer: ‘Estamos no rumo da eliminação do desmatamento e de cumprir as metas estabelecidas no Acordo de Paris'", comenta Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Para ele, Brasília erra ao mandar o seguinte recado: "Com a anistia do Código Florestal, da grilagem, de invasão de áreas protegidas, retirada de direitos de povos indígenas, flexibilização de leis ambientais, eles mostram que o crime florestal compensa."

Rittl dirige a crítica ao governo Temer e às concessões à bancada ruralista. "O chefe da bancada, inclusive, se esquece que a agricultura, que ele em tese defende, depende de água, que depende de floresta. Então preservar floresta nada mais é que assegurar um serviço ambiental para a produção agrícola nacional", comenta, sobre a entrevista concedida pelo deputado e chefe da bancada ruralista Nilson Leitão à DW Brasil. "Ele demonstrou ter uma visão muito míope sobre o papel das florestas."

Das margens do rio Negro, Roberto acompanha preocupado esses embates. O ex-desmatador, agora empreendedor, espera que nada atrapalhe sua nova vocação. Para ele, é a falta de conhecimento que atiça o instinto de destruição. "Passamos 100 anos para descobrir que a floresta tem valor", menciona, lembrando a história de sua família. "O meu sonho é que as pessoas locais tenham a mesma oportunidade. Porque é através das pessoas locais que a preservação vai começar."

Guarita para o achincalhe


O exemplo e o silêncio dos demais Ministros e da Corte não são mais suficientes. A eventual inação, infelizmente, funcionará como omissão
Associação Nacional dos Procuradores da República em carta aberta ao STF

Gilmar Mendes desmoralizou o Supremo, que está na obrigação de enquadrá-lo

Como diria Gonzaguinha, não dá mais para segurar. O ministro Gilmar Mendes tem se comportando de forma tão leviana, provocativa e amoral, que já não há alternativa. O Supremo Tribunal Federal tem de enquadrá-lo de alguma maneira, arranjar uma licença para tratamento de saúde ou algo assim, para retirá-lo de cena o mais rápido possível, antes que o ministro acabe com o que ainda resta de credibilidade da Suprema Corte, se é que ainda resta alguma coisa. O fato concreto é que Gilmar Mendes, com suas declarações e suas decisões, está desmoralizando o mais importante tribunal do país e levando a própria Justiça ao descrédito.

O mais interessante é que nem sempre ele agiu assim. No governo de Fernando Henrique Cardoso, quando ocupava o cargo de Advogado-Geral da União, Gilmar Mendes enviou uma carta a todos os ministros do Supremo, para lhes pedir que moderassem seus contatos com a imprensa e não dessem entrevistas sobre os processos em análise. Acredite se quiser, diria o genial desenhista Robert Ripley.



Pode-se dizer, sem medo de errar, que na História do Supremo, jamais existiu um ministro como Gilmar Mendes. Ou seja, o país está diante de ocorrências verdadeiramente insólitas, inéditas e inconsequentes. Seja falando ou votando, o ministro não se adapta ao perfil histórico dos integrantes do STF.

No decorrer de sua carreira na Magistratura, feita exclusivamente no Supremo, sem experiência anterior, Gilmar Mendes se tornou especialista em brechas na lei que possibilitassem habeas corpus para réus da elite criminal, como o banqueiro Daniel Dantas, o médico estuprador Roger Abdelmassi, o ex-deputado José Riva, considerado o maior ficha suja do país, o ministro José Dirceu, os empresários corruptores Eike Batista e Jacob Barata Fº, entre outros mais.

Sua audácia não conhece limites, a ponto de recentemente libertar um criminoso já condenado em segunda instância, em desprezo à atual jurisprudência do Supremo, firmada em duas votações em plenário.


Esquecido da carta que enviou ao ministros na Era FHC, nos últimos tempos Gilmar Mendes não tem demonstrado respeito pelos demais integrantes do Supremo, está pouco ligando para o decoro da nobre função. Já chamou Marco Aurélio Mello de “velhaco” e disse que ele deveria sofrer impeachment. Já classificou como “vergonhosa” uma decisão de Ricardo Lewandowski.

Em conversa com deputados, comentou uma decisão de Luiz Fux dizendo que o STF vive “momentos esquisitos” e “a toda hora é um surto decisório”. Recentemente, disse que Rodrigo Janot é “o procurador mais desclassificado de todos os tempos”.

Em decisão recente, escreveu que os procuradores da Lava Jato são “trêfegos barulhentos”. Em outra decisão, acusou o juiz federal Marcelo Bretas de praticar “coação ilegal” ao empresário corruptor Jacob Barata Filho e comparou o magistrado ao rabo de um cachorro.

 O mais grave é que Gilmar Mendes descumpre abertamente o Código de Processo Civil, a Lei Orgânica da Magistratura e o Regimento Interno do Supremo, pois jamais se considera suspeito para julgar amigos íntimos, como Michel Temer, e tem até funcionado como “consiglieri” do presidente envolvido em corrupção, vejam a que ponto chegou a promiscuidade institucional.

Como não houve reação do próprio Supremo, outros ministros passaram a se comportar assim, como Dias Tofolli e Ricardo Lewandowski, que também não se sentiram suspeitos para julgar e libertar amigos como os ex-ministros Paulo Bernardo e José Dirceu.

Mas as coisas mudam. Enfim a reação começou e esta semana Procuradoria-Geral da República arguiu a suspeição de Gilmar Mendes para julgar o empresário/compadre Barata e os membros da quadrilha dele. A Associação Nacional dos Procuradores da República também se manifestou e pediu aos ministros para “conter ação e comportamento” de Gilmar Mendes. Realmente, não dá mais para segurar.

Gente fora do mapa

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Naufrágio em Salvador, bebê não tinha colete salva-vidas (BA)

A esquerda, velha como é, já tem seus clichês comportamentais

Há muito me ocupo do que seria uma tipologia da esquerda contemporânea. Calma! Um dia chegarei a tipologia da direita, aguardo apenas um pouco porque essa, pelo menos entre nós brasileiros, apenas começa a se acomodar em clichês suficientes para formar uma tipologia minimamente científica. A esquerda, velha como é, já tem seus clichês comportamentais.

Primeiro, a clássica, que deixaria a esquerda pós-moderninha, criada nos campi das universidades, em pânico. Essa esquerda confessa suas taras: que morram todos os reacionários. Corrupção é uma ferramenta válida, desde que usada para o partido e a revolução. Multiculturalismo, e sua mania de parques temáticos étnicos, é coisa de gente riquinha besta, com medo de sangue. Essa é a esquerda que, de fato, teme dizer seu nome.

Quase extinta porque sonhou em destruir o capitalismo. E ninguém tem nada para botar no lugar do capitalismo sem por em risco seu próprio capital.

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Existe também a esquerda sindicalista. Essa, se retirada a metafísica social de redenção do "mundo do trabalho", é quase sempre formada de gente que adora a contribuição sindical obrigatória, nunca "trabalhou de fato", e enche as ruas com infelizes que ganham um lanche para fazer número. É bastante agressiva quando colocam em risco a sua renda paga pelos cofres públicos.

A esquerda dos "sem" e das vítimas está sempre cobrando algo da chamada "sociedade" -esse conceito vago, mas de grande utilidade retórica. Essa esquerda se alimenta do velho ressentimento humano, produzido em larga escala pelo capitalismo e seu método de produção de riqueza pela competição selvagem.

Há também a esquerda descendente dos hippies. Gente que quer mudar o mundo com a horta da varanda de sua casa e ainda acha o uso de drogas algo "questionador do sistema". Tem pouco dinheiro e se dedica a "arte e política".

Claro, a esquerda dos campi universitários é essencial. Composta de gente da classe média ou média alta, professores e alunos (os funcionários são, na sua maioria, ligados à esquerda sindical porque são mais pobres e nunca vão a congressos que discutem a desigualdade social), se constitui naquela que impacta a cultura e a opinião pública.

Gosta de tramar contra a desigualdade social comendo queijo e tomando vinho, quando não organizando festivais literários, de cinema ou teatro. Quando "prega", quase ninguém entende porque mistura jargão psicanalítico com um marxismo banhado numa jacuzzi cheia de óleos naturais para a pele e geleia "sugarless".

Não esqueçamos da esquerda de Hollywood e seus prêmios pautados por "race, class and gender", faturando milhões com super-heróis Marvel. Essa adora chorar em público.

A esquerda "sexual" é obcecada por suas idiossincrasias individuais que tentam transformar em pautas pedagógicas para crianças recém saídas do berço. Ligadas a essa, está toda a gama de pautas de gênero genéricas.

Há a esquerda dos "recursos humanos" e das palestras corporativas sobre capitalismo consciente. A mais aguada de todas, quase um marketing vagabundo. Usa expressões como "gestão do futuro" e "humanismo empresarial". Não gaste dinheiro com ela.

Também existe a esquerda da moçada que mora perto de onde trabalha e, por isso, confunde seu bairro com uma Amsterdã universal. Pode chegar suada no trabalho porque é dona do próprio negócio. São os "hackers urbanos", tem vocação para experimentalismo urbano e sonha com o Haddad como presidente dos EUA.

A multiculturalista só sobrevive quando tem muito investimento para deixar todas as culturas ali expostas num estado que agrade todo mundo que as visita.

Claro que não podemos esquecer da esquerda artística em geral, que delira com o politicamente correto e tem de si uma tal imagem de santidade política que deixaria Jesus envergonhado. Bienais de todos os tipos são seu templo.

E a "esquerda de mercado"? É a que sabe que para se vencer no mercado cultural deve-se gritar "Fora Temer!". E para não dizer que não falei de religião, existe a esquerda católica, essa mesma que domina o mercado da teologia. Amém.

Governo contrata mais 7 mil servidores neste ano

Apesar de todo discurso de austeridade, o governo federal continua aumentando o quadro de pessoal, segundo dados divulgados pelo Ministério do Planejamento nesta quinta-feira, 24. Pelos dados do Painel Estatístico de Pessoal (PEP), liberado sem nenhum alarde, a força de trabalho de servidores ativos do Executivo, excluindo os cedidos, colaboradores e estagiários, passou de 581.098 para 588.187 de janeiro a julho deste ano, ou seja, um aumento de 7.089 pessoas em sete meses.

Esse número é bem maior do que os 4,2 mil cargos extintos do grupo de Direção e Assessoramento Superior (DAS) recentemente pela pasta. “A política é não fazer mais concurso. Mas foram incorporados nesse período pessoas de concursos que estavam vigentes e que ainda estão em vigência e, por esse motivo, estão em andamento”, informa o Ministério do Planejamento, por meio de sua assessoria.

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Apenas em julho, foram adicionados à folha 1.728 servidores aprovados nos certames, conforme dados do PEP. O órgão informa também que boa parte desse aumento no quadro se deve à autorização, no ano passado, para as universidades federais nomearem aproximadamente 21 mil professores equivalentes. As instituições podem fazer as nomeações de acordo com a demanda de cada uma, sem que o Planejamento possa interferir nessas contratações.

Outro dado do Painel interativo chama a atenção: o total de servidores ativos, incluindo cargos comissionados, que chegou a 635 mil em julho. Esse montante, se somado com o pessoal aposentado e com os beneficiários do fundo de pensão, chega 1.270.516 pessoas, ou seja, um aumento de 3.646 sobre o contingente de abril. O Planejamento reconhece que, apesar das iniciativas para conter os gastos, evitar concursos e cortar cargos comissionados, os esforços não estão sendo suficientes para reduzir as despesas com pessoal, que somaram R$ 166,1 bilhões de janeiro a julho e, no acumulado do ano, devem superar o gasto de 2016 em R$ 26,7 bilhões.

O plano do semipresidente

Eles já foram mais discretos. Na segunda-feira, Michel Temer e Gilmar Mendes deflagraram uma nova operação casada. Num intervalo de poucas horas, os dois defenderam a mudança do regime de governo. O discurso agora é de que o país precisa do semipresidencialismo — um novo nome para o velho parlamentarismo, que os brasileiros já rejeitaram em dois plebiscitos.

“É uma coisa extremamente útil ao Brasil [o semipresidencialismo]. Minha experiência tem revelado que seria útil”, disse Temer, em Brasília. “É preciso que a gente separe as coisas de Estado das coisas de governo, e por isso me parece que o semipresidencialismo seria o melhor caminho”, afirmou Gilmar, em São Paulo.


Antes de assumir o poder, Temer loteou o futuro governo entre deputados e senadores que prometeram votar a favor do impeachment. Ele batizou o resultado das barganhas de semiparlamentarismo. Num exemplo de como o arranjo foi negociado, o presidente conheceu seu ministro do Trabalho, o deputado Ronaldo Nogueira, no dia da posse. Os dois foram apresentados por Roberto Jefferson, presidente do PTB.

Apesar de ter dado 57% dos ministérios a parlamentares, Temer assumiu como um superpresidente. No sétimo mês de governo, ele festejou “o maior índice de apoio que o Executivo federal teve ao longo dos tempos”. “É a maior base de sustentação que se tem no período da redemocratização”, endossou Eliseu Padilha.

A delação da JBS reduziu o peemedebista a um semipresidente. Ele se segurou na cadeira, mas perdeu força para sonhar com a reeleição. Hoje seu projeto mais ambicioso é concluir o mandato, escorado numa aliança entre o centrão e a fatia do PSDB que ainda obedece a Aécio Neves.

Com 5% de aprovação popular, Temer passou a pregar um regime que esvazia o papel do presidente da República. É um plano promissor para quem não dispõe de votos. Falta convencer os políticos que têm chance de chegar ao poder pelas urnas.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Feijoada partidária

Reforma, no Congresso, vira feijoada. É a receita para juntar pé de porco com distritão em uma panela só. A mistura não se propõe a melhorar o sabor do prato, mas tirar dos olhos do público os ingredientes menos palatáveis, ou mesmo intragáveis. Foi assim na trabalhista, é assim na política. Discute-se muito as bizarrices, e pouco a substância. Não raro, termina em indigestão quando chega a hora de o público engolir o resultado.

Alterar sistema de governo, fórmula eleitoral e financiamento de campanha, tudo ao mesmo tempo agora, não é jeito de aprimorar nada. É dissimulação: propõe-se o conserto do que não está quebrado enquanto decide-se o que importa em noitadas no Jaburu. Para privilegiar os legisladores em causa própria, tenta-se ludibriar o público com expressões desenhadas para vender carro usado como seminovo. Parlamentarismo vira semipresidencialismo.

A manobra é necessária porque os compradores rejeitaram por duas vezes a mercadoria com seu nome original, em 1963 e 1993. Derrotados na urna, os vendedores costumam culpar o cliente, que seria incapaz de alcançar a novidade de uma ideia tão velha quanto a presença no poder da família de um dos patrocinadores da proposta. O clã ocupa o plenário do Congresso desde quando Dom Pedro não era estátua, mas criança. Tutela é com eles.


O que está quebrado no sistema político brasileiro são os partidos: a facilidade com que podem ser criados, as muitas regalias que proporcionam, o obscurantismo de suas prestações de contas, o absolutismo de seus morubixabas e a falta de diversidade de suas estruturas. Não à toa, são as instituições mais mal vistas entre todas as avaliadas pela opinião pública.

É difícil serem mais autocráticos e incentivarem menos a participação dos filiados. Não fazem prévias para escolher candidatos – o cacicado federal decide quem vai aparecer na urna, quem vai receber dinheiro e não tem discussão. Mas não fica nisso. Intervém nos diretórios locais ao menor sinal de insubordinação e eterniza comissões provisórias para garantir que não haja chance de oposição interna. Os partidos têm donos.

Por conta disso, têm também a representatividade de um convescote familiar. O poder é herdado e muitos dos herdeiros vivem de alugá-lo. Se não é possível interferir na propriedade privada, pode-se ao menos tentar controlar as regras da locação partidária. Proibir coligações entre partidos nas eleições para deputado e vereador seria uma revolução em prestações.

Sem poder pegar carona na votação das maiores siglas, os candidatos dos partidos nanicos teriam dificuldade de atingir o mínimo de votos para se elegerem. Deputados e vereadores relutariam em trocar a legenda que os elegeu por um micropartido onde teriam mais regalias. O benefício não compensaria o risco.

Como resultado, a cada eleição diminuiria o número de partidos com representação na Câmara dos Deputados e nas Assembleias – em vez de aumentar. É o que mostram todas as simulações sobre o que teria ocorrido se a regra tivesse vigorado em pleitos passados.

Com menos partidos, os restantes seriam necessariamente maiores e, por tabela, mais heterogêneos. A disputa interna pelo poder seria mais acirrada. Ter inserção social seria uma necessidade.

Tão ou mais importante, as negociações do Legislativo com o Executivo seriam no atacado, não mais no varejo. Como a soma das partes é sempre maior do que o todo, por menos republicanos que fossem, elas sairiam, ainda assim, mais barato do que saem hoje. Revertendo o curso atual, o sistema tenderia à estabilidade. Bastaria cumprir as regras em vez de reinventá-las só porque perdeu-se algumas eleições.

O que há de corrupção no jeitinho brasileiro?

A crise fez muitos brasileiros questionarem o que há de corrupção em seu próprio dia a dia – se políticos e empresários envolvidos em escândalos estariam apenas repetindo, em maior escala, aquilo que já seria parte do cotidiano. Em discussão, o chamado "jeitinho", termo amplo que pode ser entendido positiva ou negativamente, e que, para alguns, é terreno fértil para a corrupção sistêmica.

Mas, para pesquisadores ouvidos pela DW Brasil, esta correlação precisa ser analisada com cautela, e é difícil determinar uma relação de causa e efeito. Enquanto para uns o jeitinho pode estar intimamente ligado à corrupção em larga escala, outros contestam o termo até como algo exclusivamente brasileiro.

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O historiador Sidney Chalhoub, da Universidade de Harvard, destaca a origem histórica do jeitinho, ligada à formação escravista da sociedade brasileira, numa época em que a única maneira de se conseguir algo era pedindo favores aos senhores de terra e escravos. Essa prática, em vez de desaparecer, perdurou e combinou-se com outras lógicas.

"O jeitinho e o favor estão no centro de como a corrupção se tornou sistêmica no país”, avalia Chalhoub. O historiador pondera, porém, a existência de leis e regulamentos impossíveis de serem cumpridos no Brasil. Nestes casos, o jeitinho seria uma questão de sobrevivência, por exemplo, para a grande parte da parcela da população que trabalha no mercado informal.

"Pessoas em situações de subordinação e dependência não têm alternativa para lidar às vezes com regras absurdas, por isso, tendo a reservar uma tolerância ao jeitinho para os oprimidos, que não criaram o sistema que os submete à necessidade de sobreviver nessa condição. Para empreiteiros, governos e juízes, o jeitinho não tem desculpa", opina.

O antropólogo Roberto DaMatta ressalta as inúmeras definições do jeitinho, que podem ser percebidas de maneira positiva ou negativa, dependendo da situação em que se inserem. "Esse lado negativo pode, porém, ser estendido tanto até se tornar corrupção”, acrescenta o professor da PUC do Rio de Janeiro.

Por essa diversidade, Da Matta afirma que é importante fazer uma distinção entre os inúmeros casos. "O jeitinho tem um espectro que vai de uma simpatia humana, que se reconhece no outro e abre uma exceção para esse outro em virtude de uma emergência ou condições de vida, a até arranjos de contratos especiais superfaturados de obras públicas concedidos para amigos e parentes, com objetivo de dividir lucros, o que é corrupção”, diz.

Para DaMatta, o grande problema é a aplicação jeitinho em situações e projetos que deveriam ser abordados com impessoalidade. "A corrupção ocorre quando a ética da família e das relações pessoais, visando obviamente o lucro de ambos, interfere em cargos que não deveriam ser dados por meio de simpatias, mas sim por mérito e competência”, acrescenta.

Já o sociólogo Sérgio Costa contesta o jeitinho como característica própria da sociedade brasileira. Para o pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, a interpretação e negociação de normas existentes ocorre em qualquer sociedade moderna, inclusive na Alemanha.

"As normas – sejam aquelas inscritas nos códigos sociais, sejam as definidas no corpo legal vigente – servem de orientação geral, mas só ganham concretude e efetividade quando são interpretadas e negociadas nas relações concretas”, argumenta.

Costa ressalta que a corrupção é diferente do jeitinho ao visar troca de vantagens e facilidades para a obtenção de benefícios próprios. Se por um lado a negociação de normas fortalece a coesão e solidariedade, avalia, a corrupção é nociva aos laços sociais por representar uma quebra de confiança.

"Não me parece que o jeitinho seja o pai da corrupção sistêmica. Enquanto o primeiro faz parte das relações interpessoais cotidianas e torna as normas algo experenciado e vivido, a corrupção tem lugar na interface entre política e economia e visa não negociar, mas violar as normas para distribuir recursos públicos, indevidamente, a atores privados”, conclui Costa.

O pesquisador Mads Damgaard, da Universidade de Copenhagen, também rejeita a relação entre jeitinho e corrupção. "Essa conexão é superficial e nociva, pois projeta uma imagem ou uma identidade de uma nação perpetuamente atolada na política de coronéis e no nepotismo. Essa percepção reprime mudanças sociais, induz a apatia e justifica casos de corrupção sistêmica e individual ao propor uma explicação cultural falha”, opina.

O especialista em estudos interculturais argumenta que o jeitinho categoriza várias situações diferentes, como flexibilidade de interpretação de normas sociais, transgressão de regras ou ainda a troca de favores pessoais e, por isso, não está convencido da utilidade de rotular ações com esse estereótipo, como percebe o termo.

"Estereótipos têm poderes enormes. No caso do jeitinho, ele funciona como desculpa, explicação e exceção, tudo ao mesmo tempo. Na minha opinião, questões de rede, laços fortes ou fracos, burocracia e discurso moral se confundem e se tornam confusas com essa rotulagem”, acrescenta Damgaard.

Para Bruno Brandão, da ONG Transparência Internacional, o jeitinho, ao mesmo tempo que abre espaço para atos de corrupção e a sua tolerância, é também uma maneira que pessoas encontram para sobreviver e superar obstáculos impostos por leis e instituições complexas e disfuncionais. Neste contexto, afirma, pode ser um elemento que estimula a criatividade.

O representante no Brasil da ONG especializada no combate à corrupção ressalta, no entanto, que é importante refletir sobre a relação entre jeitinho e corrupção, mas esse comportamento não deve ser resumido ao ato ilegal. O debate é fundamental para promover mudanças de práticas que abrem espaço para a corrupção.

"É preciso melhorar as nossas instituições para que elas imponham menos desafios e favoreçam um sistema de ordem, paz social e certezas, ao invés de incertezas, para que o cidadão brasileiro não tenha que se armar de jeitinhos para conduzir sua vida”, comenta Brandão.
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Paisagem brasileira

Porto de Vitória (1925), Antônio Garcia Bento 

Precisamos encurtar a distância quilométrica entre eleitor e eleito

Escrevo pensando nos políticos que têm mandato, mas sem deixar de reconhecer que somos nós que os escolhemos. Há, porém, outra verdade: o que interessa à maioria deles não interessa a seus representados – obviamente, por nossa culpa, por culpa deles e por culpa do atual sistema eleitoral. A distância quilométrica que separa os dois precisa ser encurtada. Ela compromete a liberdade. Só a atingiremos, em sua integralidade, por meio da política, e não de sua negação. A política, praticada com liberdade e respeito, é o caminho que leva à paz.

Padeço de doença crônica, provocada pelo vírus da esperança. Por isso, não arredo o pé dela um milímetro. Confio em dias melhores, mas consciente de que eles jamais virão de graça. Têm que ser conquistados. Nosso Congresso não difere muito dos que existem no mundo. Adoto, também, esta lição quando encaro o mundo e, sobretudo, os seres humanos: em primeiro lugar, aceito-os em sua diversidade; em segundo, tento compreendê-los; em terceiro, quando erram, apresento-lhes o perdão mútuo. Mas não está fácil agir assim com os políticos...

Claro que, na realidade, ao insistir comigo mesmo, minimamente, na prática do que estou dizendo, concentro-me em mim e em minhas crenças. Não é à toa que tento transmitir aos que me são caros (família, amigos etc.) esta preciosa lição: sonhem sempre e tentem ser honestos, nem que seja por esperteza. A honestidade não só é possível, como nos proporciona um futuro seguro. O sonho é nossa indestrutível morada. Matá-lo seria o maior de todos os homicídios. E quem o diz, com outras palavras, é o poeta Fernando Pessoa: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”.

O que digo aqui (reconheço, leitor), não passa de exercício de fé. A fé, qualquer delas, tem que ser exercitada. O mesmo acontece com a virtude. Ninguém se torna próximo dela se não a pratica em seu dia a dia. E isso, eu sei, não é, nunca foi, nem jamais será fácil.

Nada disso que estou a dizer até agora visita, em sua maioria, as cabeças de nossos representantes no Congresso Nacional. O que lhes interessa mesmo é sua sobrevivência no dia seguinte. A expressão “bem comum” não tem qualquer sentido. Utilizam-na, vez por outra, demagogicamente, em peças de propaganda. Por isso, não estão nem aí para a mãe de todas as reformas – a política. Ao contrário: querem-na do jeitinho que sempre foi.

E tudo isso por culpa só deles?

Já se divulgou, mas não resisto à repetição, o que declararam dois deputados na semana que passou sobre a indispensável (e adequada) reforma política. O primeiro deles, Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), foi muitíssimo claro quando afirmou que “a reforma política só está sendo feita por causa do financiamento. Foi por isso que começamos a discutir sistema eleitoral, voto em lista, distritão. Agora, tudo é para aprovar o fundo porque, sem ele, não tem dinheiro”.

Já o relator da reforma política, deputado Vicente Cândido (PT-SP), reconheceu, publicamente, que “aprovar uma reforma política para o ano seguinte é impossível porque o povo aqui (referindo-se ao Congresso) faz de tudo, menos passar a faca no próprio pescoço”.

Interessa pouco o arremedo de reforma política que vier. A imbatível arma do eleitor continuará em suas mãos – o voto livre e direto. Usemo-lo no ano que vem para transformarmos a cara deste país.

Nossa vez está chegando, leitor.

O círculo vicioso desonesto

Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de espírito caracterizado pelo "Pode ser assim, mas também de outro modo". Vivemos na época do boletim de voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o fato de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que pôr na mão dos chamados fatos um boletim de voto, para que eles escolham por nós.
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Este tempo é antifilosófico e cobarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história da nossa raça

Robert Musil (1880 - 1942) 

A Eletrobras é de quem mesmo?

O anúncio da privatização da Eletrobras foi recebido com fortes aplausos nos meios econômicos — o governo Temer cantou vitória — mas imediatamente apareceram as ressalvas políticas. Em Minas, líderes partidários, de todas as filiações, apoiam a desestatização desde que seja excluída Furnas, uma das subsidiárias da grande estatal. Já no Nordeste, o pessoal topa vender tudo, menos a Chesf. Ao Norte, os políticos querem reter no sistema estatal a Eletronorte.

Essas três subsidiárias reúnem 40 usinas geradoras de energia — as principais e maiores do sistema Eletrobras, tais como Santo Antônio (Furnas), Tucuruí (Eletronorte) e Belo Monte e Jirau (Chesf). Ou seja, se prevalecerem as restrições políticas, sobrará para privatização apenas a enorme dívida da Eletrobras.

Ora, quem comprará um passivo sem ativos? — perguntaria um ingênuo observador da cena brasileira.

Fácil, algum banco público, que tal o BNDES?

Não é brincadeira.

Vejam o caso da Cemig — que pertence ao governo de Minas e resistiu a todas as ondas de privatização até aqui. Há uma pendência entre os governos federal e mineiro sobre a propriedade de quatro usinas — mais uma das confusões originadas pela MP 579, aquela emitida pela então presidente Dilma em setembro de 2012.


O governo federal quer privatizar as quatro usinas e a equipe econômica já conta com uns R$ 10 bilhões para fechar as contas. Já a política de Minas, liderada pelo senador tucano Aécio Neves, neste caso em sólida união com o governador petista Fernando Pimentel, queria, primeiro, ficar com as usinas sem pagar nada. Agora, topa pagar um preço acertado, algo em torno dos R$ 6 bilhões, sem leilão, sem competição.

Mas a Cemig não tem dinheiro para isso, alegaram, também ingenuamente, os técnicos do setor elétrico. Mas o BNDES tem, respondem os políticos mineiros.

Resumindo, Minas quer comprar usinas federais com dinheiro federal.

Qual o argumento para essa restrição à privatização?

Da boca para fora, só um: Cemig e Furnas fazem parte da história, são patrimônio dos mineiros, assim como Chesf é história e patrimônio do Nordeste etc.

Outro ingênuo diria: se é patrimônio de Minas, então por que os mineiros não assumem as dívidas daquelas duas empresas, aliviando os bolsos dos contribuintes nacionais sempre chamados a pagar com impostos os buracos das estatais? Valeria também para os que se julgam donos da Chesf e Eletronorte — e assim por diante.

Mas chega de bobagem. Nem os estados têm esse dinheiro, nem os políticos estão interessados em assumir estatais enroscadas em dívidas.

O que eles querem é outra coisa. Querem ter controle sobre as empresas, e isso significa: indicar diretores e nomes para um monte de cargos espalhados por vários estados; escolher fornecedores; encaminhar contratos; e, claro, conseguir apoio de toda essa gente, dos lados público e privado, nas campanhas eleitorais.

Isso, sim, é história. O governo FHC (1995/2002) aplicou um imenso programa de privatização, mas não conseguiu tocar em Furnas, Chesf etc. O então presidente não conseguiu nem nomear diretores que queria para a Eletrobras. Havia intocáveis, conta, apoiados pelo conjunto dos partidos.

E assim segue, quer dizer, não segue. O PSDB apoia a tese da privatização. Mas o partido em Minas sustenta que Furnas e Cemig são casos diferentes. O DEM é privatista, mas não com a Chesf.

Foi essa cultura e essa história que trouxeram a esta situação: a Eletrobras tem em caixa R$ 8,9 bilhões e uma dívida de R$ 47,3 bilhões. Não é que falte dinheiro para investimentos. Falta para pagar credores. Só para a Petrobras, a Eletrobras deve R$ 16 bilhões. Comprou gás e não pagou.

É verdade que a parte final deste desarranjo se deve totalmente à ex-presidente Dilma. Mas ela não teria conseguido a proeza de bagunçar tudo e espalhar prejuízos se o sistema não fosse estatizado e inteiramente controlado politicamente. Bastou a ela tomar e/ou compartilhar a estatal com os políticos antigos (Sarney, Barbalho etc.) que a dominavam.

E teve a corrupção exposta pela Lava-Jato. Se faltava alguma coisa para condenar esse capitalismo de Estado, não falta mais. A privatização é o melhor caminho. Diria, o único caminho para ganhar produtividade.

Pena que tenha sido necessário passar por essa destruição de patrimônio público para chegar a uma ideia obvia. E é inacreditável que haja políticos lutando pelo que consideram o seu patrimônio, empurrando a dívida para os contribuintes.

Carlos Alberto Sardenberg

Eles não desistem nunca!

A decisão da Câmara dos Deputados de não criar um fundo de R$ 3,6 bilhões para financiar as campanhas eleitorais do próximo ano facilitou a aprovação pela Câmara de um fundo de R$ 3,6 bilhões ou de menos para financiar as campanhas eleitorais do próximo ano.

Contraditório? Explico.

Por se tratar de emenda à Constituição, a criação, agora, do fundo previsto na proposta de reforma política exigiria o mínimo de 304 votos favoráveis de um total de 513. Só um deputado, ontem, teve peito para votar a favor.

Caberá à Comissão de Orçamento da Câmara estipular um novo ou o mesmo valor de RS 3,6 bilhões para financiar as campanhas. Fará isso subtraindo verbas de outras áreas quando se debruçar sobre o orçamento da União para 2018.
O que a comissão decidir será submetido à votação do plenário da Câmara. Com uma brutal diferença: para que seja aprovado, basta que 257 deputados estejam no plenário. E basta que metade mais um deles concordem com a proposta da comissão.

Se preferir não criar um fundo específico para financiar as campanhas, a Comissão de Orçamento poderá se limitar a sugerir o aumento do volume de dinheiro destinado ao Fundo Partidário, aquele que já existe e que paga despesas dos partidos.

Viu como ficou mais fácil?

Descarte-se a hipótese de os políticos disputarem as próximas eleições com pouco dinheiro ou sem. Eles são tudo, menos bobos ou filantropos.

Imagem do Dia

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Deserto de Atacama (Chile)

O país está melhorando? Para quem?

Recebo o e-mail de uma amiga. Oferecia um apartamento de três quartos, avaliado em R$ 1,8 milhão, por apenas R$ 1 milhão. Negocião. Respondo: não tenho dinheiro para comprar. Um corretor do Rio de Janeiro, que me ofereceu um excelente ponto comercial há seis meses por R$ 3,5 milhões, escreve com nova proposta: R$ 2,9 milhões. Lamento, mas não posso. Um amigo foi, há um ano, para a França. Clandestino. Passou fome, mas trabalha em restaurante. Pinta paredes. Anunciou que voltaria ao país no final do mês. Acaba de desistir.

– Disseram que a coisa aí está brava.

Passeio pela região nobre dos Jardins, em São Paulo. É incrível o número de pontos comerciais desocupados. Antes, as pessoas se estapeavam para conseguir algum. Lojas fechadas. Grifes estrangeiras partindo. Mas abro o jornal e leio autoridades afirmarem que a situação está melhorando.


Minha percepção do mundo é pequena, restrita a amigos, conhecidos e falatórios. Não sou um instituto de pesquisa. Mas o dia a dia é doloroso. Um amigo não tem como pagar o plano de saúde da mãe, idosa. Se não pagar, ela ficará nas mãos da saúde pública. Sua expressão é aterrorizada. A classe média tem pavor da saúde pública. Entre os que ganham menos, obrigados a recorrer a ela, há histórias folclóricas. Como a da jovem grávida cujo exame pré-natal foi marcado para dali a dez meses. Óbvio, a criança nasceu antes. Mas isso porque o país está melhorando.

Obras públicas paradas. Foram construídos os pilares para o Veículo Leve sobre Rodas, em São Paulo, na Avenida Roberto Marinho, no caminho para o aeroporto de Guarulhos. O projeto era para a Copa, lembram-se? As enormes vigas estão abandonadas, sem explicação. No final da avenida, um canteiro de obras foi invadido por usuários de crack. Ninguém dá a menor satisfação. No Rio de Janeiro, a famosa ciclovia continua sem uso, desde que um pedaço dela caiu. Os responsáveis criaram uma ciclovia à beira-mar, no penhasco. E não calcularam que uma onda poderia bater e arrancar um pedaço. É piada? Não, um desastre. No Rio de Janeiro, como se sabe, não há verbas para pagar os salários dos funcionários públicos, sempre atrasados. Ah, sim. A culpa é dos aumentos concedidos por governos anteriores. Mas o país não estava melhorando?

Um professor universitário cuida da tia, aposentada. Pulava fino para dar conta das despesas com remédios e tudo mais. Estancaram o pagamento da aposentadoria da velha. O raciocínio é simples: jovens gritam e fazem manifestações. Velhos, encolhidos em um canto, não têm organização e condição física. Quem decide, resolve: danem-se os velhos. Simplesmente deixaram de pagar. O professor continuou segurando a situação, apertadíssimo. Dá aulas numa universidade carioca. Agora, não pagam seu salário tampouco. Tem de comparecer às aulas, para não ser exonerado. Quando há aulas. Recentemente, ao chegar, a faculdade estava às escuras: não havia pagado a conta de luz.

Eu, um simples cidadão, leio as pesquisas e me surpreendo: o país está melhorando! Há mais empregos com carteira assinada. Mais oportunidades de trabalho. Penso: devo estar no país errado. Esse, em lento ritmo de crescimento, mas crescimento, é o Brasil. Vamos ver. Entro no Google. Procuro um mapa. São Paulo é mesmo no Brasil? Verifico. É. Mas em qual Brasil? Nesse que dizem melhorar ou no das pessoas que sofrem com prejuízo atrás de prejuízo? Bem, no Brasil em que vivo há muita coisa linda. O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., está construindo muros verdes na Avenida 23 de Maio. São incríveis. Vai colocá-los em outros lugares dessa cidade cinzenta. Mas minha empregada, dois filhos, recebia duas latas de leite em pó por mês, por criança. Agora, é só uma. Mais uma vez, não critico ninguém. Não sei quem tomou diretamente a decisão sobre o leite. Gosto dos muros verdes.

Talvez eu esteja completamente errado e minha percepção seja só isto: uma sensação individual. Até falam em aumento de impostos. O governo deve imaginar que a sociedade aguenta, portanto. Que ganhamos o suficiente para pagar mais ao governo, além do que já gastamos com plano de saúde, escola particular. Falei em plano de saúde? Ah, sim. Você paga. Mas, no caso de uma operação grave, o médico costuma cobrar à parte. O plano paga pouco para ele, e a diferença sai do meu e do seu bolso.

E tem mais, muito mais. Mas o país está melhorando!!! Eu é que devo estar no lugar errado, ainda não entendi muito bem o que está acontecendo. Alguém pode me dizer onde fica esse novo Brasil?

A nossa guerra particular

Entro em um táxi, dois dias após o insano atentado terrorista que matou 15 pessoas na Espanha. No rádio, o locutor reporta as notícias mais recentes sobre o caso. O motorista puxa conversa. Diz: “Deve ser horrível morar num lugar assim, não é mesmo?” Eu pergunto, já sabendo o que vinha: “Assim como?” “Tão inseguro”, ele responde. Então, me irrito. No Brasil, temos agido desta maneira, como as crianças que, fechando os olhos, acreditam que eliminam a ameaça. Não se trata de ignorância, mas de alienação: não queremos encarar nossos problemas, pois, constatando-o, teríamos que nos mover para tentar resolvê-lo. E preferimos nos fingir de mortos. Literalmente.

A Espanha possui 46 milhões de habitantes e recebeu no ano passado 75,3 milhões de turistas, atividade que corresponde a 11% de seu Produto Interno Bruto. O que atrai as pessoas àquele país, além, claro, de paisagens deslumbrantes, cidades lindíssimas, museus fantásticos, comida excelente, transporte público de qualidade, é justamente a segurança. A Espanha tem uma taxa de homicídio baixíssima, cerca de 0,7% por 100 mil habitantes, mesmo com um desemprego rondando os 18% da população economicamente ativa.

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Só para compararmos, a taxa de homicídios no Brasil, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) referentes a 2015, é de 30,5 mortes por 100 mil habitantes – ou seja, 43 vezes maior que a da Espanha -, o que nos coloca em nono lugar no ranking dos países mais violentos do mundo. Isso significa que cerca de 60 mil brasileiros são assassinados todo ano, aos quais podemos acrescentar outros 37 mil que perdem a vida em acidentes de trânsito, modalidade em que ocupamos o quarto lugar no ranking mundial. Aqui, além de sinônimo de status social, o carro também é usado como arma.

A OMS afirma que um dos principais impulsionadores das taxas de homicídio no mundo é o acesso às armas. Segundo a Ong Small Arms Survey, no Brasil existiam, em 2016, cerca de 15 milhões de armas nas mãos de civis, algo como oito para cada 100 mil habitantes, o que nos coloca em sétimo lugar no ranking mundial. Segundo a pesquisa, há mais armamentos em poder de civis do que nas mãos de agentes legais. (Sem alarde, o presidente não eleito, Michel Temer, assinou um decreto, no dia 9 de maio, afrouxando as exigências do Estatuto do Desarmamento para agradar a Bancada da Bala, que, aliás, tem entre seus membros de destaque o deputado federal Jair Bolsonaro, estrela ascendente do fascismo nacional).

Atentados terroristas são realizados por pessoas dementes, cegas pela intolerância religiosa ou ideológica, que atacam alvos civis de forma alheatória e inesperada. Embora diferentes em suas motivações, os militantes dos grupos radicais islâmicos e os delinquentes brasileiros possuem o mesmo perfil: jovens das periferias, humilhados e ressentidos, que não têm nenhuma esperança de serem absorvidos pela coletividade. Desprezados, tornam-se facilmente manipuláveis, já que nada têm a perder – ou, na lógica perversa da sociedade do espetáculo, têm é a ganhar, nem que seja um minuto de atenção, o que é o bastante para quem passa a vida na invisibilidade.

Devemos sempre nos indignar e condenar os atentados terroristas, pois são atos covardes de mentes autoritárias. Mas não podemos ficar indiferentes ao que ocorre à nossa volta. Vivemos acossados pela violência. Perdemos o direito de ir e vir e nos tornamos reféns da ansiedade – pior, substituímos a solidariedade pelo cinismo. Ao motorista do taxi com que abri esse artigo poderia informar: todos os dias, apenas na cidade do Rio de Janeiro, são assassinadas 15 pessoas – ou seja, temos um atentado de Barcelona por dia somente na chamada Cidade Maravilhosa. A morte de Arthur Cosme de Melo, o bebê baleado ainda na barriga da mãe, ganha assim um sentido de metáfora do que acontece no Brasil contemporâneo: estamos condenando nossa população à morte antes mesmo do nascimento.

Estamos no caminho inverso da cidadania

Quem imaginar que os novos veículos - mais de 150 Corollas - da Polícia do Distrito Federal se prestam tão-somente à exposição, está redondamente enganado.

As viaturas, desde a semana passada, encontram-se postadas sobre os gramados e calçadas do Distrito Federal, em locais visivelmente proibidos para o estacionamento de qualquer veículo comum. Some-se isto o fato de que não se viu, pelo menos até agora, o DETRAN-DF, com sua eficiência e sanha arrecadatória, multar as viaturas da Polícia Militar.

Em episódio recente, mais precisamente no dia 11 deste mês, fui abordado pelo DETRAN-DF, em blitz surpresa, realizada no pavimento superior da Rodoviária, próximo ao Teatro Nacional. A invectiva se deu de modo hostil, como de resto é a prática dos Agentes de Trânsito, porquanto o pressuposto é que o condutor do veículo transmuta-se em bandido, sobretudo, pela pré-convicção do agente, embasado nos dados colhidos em seus aparelhos eletrônicos de consulta on-line, que aquele determinado veículo acumula infrações de trânsito, portanto, gerador de tributos não honrados pelo contribuinte, mormente, o IPVA.

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É cediço que mais de 1/3 da população do DF, proprietária de veículos, encontra-se em situação de inadimplência perante os órgãos de trânsito. Inversamente, mais de 50% ou mais das vias, placas, sinalizações, enfim, encontram-se inexistentes, senão em estados deploráveis. Orientação e educação para o trânsito praticamente é uma quimera, não obstante o código de trânsito estabeleça que do produto da arrecadação, tributos de tal natureza, um dado percentual, seja destinado a tal mister. Nada disso se vê nos tempos atuais, aliás, penso que nunca se viu em tempo algum.

Observa-se, em tais condições, o sentimento de prazer exalado pelo agente de trânsito do DETRAN-DF, quando atribui que sua abordagem fora vitoriosa. O ar de reprovação lançado ao condutor, à evidência dos dados em poder do agente, o impede o contribuinte/condutor de qualquer defesa naquela abordagem. Um verdadeiro exercício de poder em face do agora contribuinte subserviente que nada pode fazer, senão, sucumbir ao que for determinado naquele instante, sob o risco, inclusive, de o condutor, ele mesmo, também sair dali, igualmente preso, juntamente com o seu veículo apreendido. A sentença é proclamada e no mesmo momento executada! Não há maior poder potestativo do que o concedido aos agentes de trânsito do DETRAN-DF, ainda mais agora, com o porte de armas, instrumento de uso das forças armadas, irresponsavelmente deferidos aos gloriosos agendes do DETRAN-DF.

Reunidos em comboio, os veículos que foram abatidos, sobrevêm a melhor parte do espetáculo. Salvo os que irão guinchados, pelos caminhões do DETRAN-DF, ao custo de R$250,00 até o percurso de 15km - para além disso, acresce-se R$20,00 por quilometro – os demais postam-se em fila indiana, como que bandidos cabisbaixos e submetido à execração pública, todos, pois, conduzidos pelas esfuziantes viaturas do DETRAN-DF, com o alarde providencial, por meio dos cambiantes giroflex e manobras e interdições de trânsito para a passagem do comboio, como que a demonstrar o resultado da caça aos demais condutores, advertindo-os: você poderá ser o próximo.

A Grand Finale se dá quando se chega ao pátio de depósito, ou seja, na prisão. Ali, como num passe de mágica, os combativos agentes do DETRAN-DF se dispersam, somem, literalmente, porquanto, não há plateia e os condutores e seus veículos são instados a adentrar o pátio sujo e malconservado, eles mesmos a estacionarem os “presos” em brechas eventuais, vagas sem marcação, sem vistorias, recibos de depósito, orientações, absolutamente nada.

Surpresa maior ocorre no dia subsequente, quando o proprietário do veículo – apenas ele quem poderá fazê-lo – apressa-se em socorrer o encarcerado automóvel e surpreende-se para além da obrigação dos gravames, IPVA, multas, licenciamentos, e que tais e, mais além, uma “taxa” de depósito do veículo, R$40,00 por dia de cadeia, mais, pasmem, R$110,00 de vistoria, na retirada do veículo, não no ingresso, dessemelhante do exame de corpo de delito, realizado obrigatoriamente antes e depois do aprisionamento do sujeito, e, ainda, sim, ainda falta mais, uma outra sobretaxa, esdrúxula, denominada “valor de liberação”, no montante de R$40,00. Um acinte, um sortilégio, provavelmente gestado com o propósito, claro, explícito de arrecadação, incidente sobre aquele que, no mais das vezes, ainda não cumpriu sua obrigação tributária, mormente pelo enfrentamento da crise do Estado que submete seus contribuintes a situação vexaminosa, humilhante, vexatória, nos moldes acima narrados.

Pois bem, a que se presta toda a estória? A revelar que estamos no caminho inverso da cidadania, não que se queira justificar que o descumprimento das obrigações tributárias não seja passível de suas cobranças, absolutamente! Ademais, compete ao DETRAN o rigor da fiscalização, o zelo pelas vias, pela malha viária, pelos semáforos, pela orientação e educação no trânsito e outras atribuições de sua competência. A exigência do IPVA, que é tributo estadual, não se procede com a coação irresistível, é gravame que se cobra pela via judicial, com seus meios de defesa e inscrição do crédito em dívida ativa do ente público. O que há de se fiscalizar é o licenciamento do veículo, o que se há de verificar, são as condições de tramitação dos veículos na via pública, se se encontra em perfeito estado de funcionamento, se não causa risco à sociedade, enfim, se o condutor está apto e íntegro a conduzir o veículo, se as vias, como dito, se prestam a circulação, a sinalização, a orientação e educação para o trânsito. Nada disso se vê, nada disso importa. O que vale é a arrecadação desenfreada, a sanha avassaladora, o poder absoluto e a imposição exagerada. Nesse mister, ainda assim, o glorioso DETRAN-DF peca ao não multar as viaturas militares de que falamos no início, pois, embora expostas, praticam o toma lá, dá cá que tanto conhecemos, pois, os infratores, os agentes militares e seus reluzentes Corollas, são os delatores, os que transmitem os dados dos “criminosos” veículos, sempre por meio de seus dispositivos eletrônicos em rede, enquanto bandidos de carne e osso, estes sim, que deveriam ser alvo das galantes viaturas militares e seus oficiais condutores, grassam à solta, fazendo o que querem, praticando todos os tipos penais perante os cidadãos de Brasília.

André Braga

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

É possível ser juiz e compadre?

Quando morava entre os nacirema, recebi dois conselhos inesquecíveis. O primeiro veio de meu tutor harvardiano, Richard Moneygrand, quando me disse que eu deveria frequentar reuniões sociais acompanhado. Diante da minha surpresa, explanou: “É que vocês, intelectuais brasileiros, ungidos por dom-juanismo, têm o costume de não levar as suas mulheres às festas. Mas aqui — completou rindo — ninguém pensa em comer a mulher dos outros.”

Soube depois que Loucile Shell — a primeira das 11 ou 12 esposas de Dick — havia sido “cantada” por professores brasileiros seduzidos por seus olhos da cor do céu. Houve, inclusive, um boato de um caso de Lou com Eduardo Gato, um dos nossos mais insinuantes e engajados intelectuais, mas eu não estou aqui para fofocar.

Já o segundo conselho eu ouvi quando convidei uma secretária para jantar na minha casa e ela, polidamente, recusou. “Aqui, eis o meu conselho, disse-me um sisudo colega, a vida se ordena profissionalmente. Uma secretária não frequenta a casa de um professor!”

“A amizade não vence o papel profissional, neutralizando diferenças?”, perguntei.

“Não! Como manda o credo igualitário, o papel público deve disciplinar os sentimentos. A consciência do cargo tem primazia. Vocês acham que costumes podem ser modificados por leis; nós, ao contrário, confiamos mais nos nossos costumes do que no governo. Sem consciência dos papéis, não há ordem igualitária. A igualdade não depende somente do Estado, mas do Estado com (e não contra) a sociedade.”

Simpatizante da KKK, o colega passou mas o conselho ficou.

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O ministro do STF Gilmar Mendes faz uma pergunta capital: “Você acha que ser padrinho de casamento impede alguém de julgar um caso?”

O uso e o abuso dos elos pessoais no campo formal são o nosso problema central. Como mostro na minha obra, há um dilema entre muitas leis e pouca reflexão sociológica sobre o peso de uma ética da casa que é levada para o mundo impessoal da rua. Não é minha intenção julgar ou denunciar um julgador, mas ampliar, nos limites de um texto jornalístico, um problema central da sociologia de países que, como o Brasil, têm tentado adotar a agenda ideológica da democracia liberal.

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A questão do ministro nos abre para as ambiguidades do “você sabe com quem está falando?” e do “jeitinho”. Se você responder com um “não”, você presume que o juiz vai englobar — subtraindo — o padrinho. Mas se você ouvir sua mulher, parentes e amigos e, mais do que isso, rememorar sua biografia, você vai verificar que o “não” é muito complicado.

Num sistema relacional — uma estrutura na qual as relações são mais importantes do que os atores — o juiz solta o indiciado que é muito mais afilhado do que um cidadão sujeito da lei. Não é fácil ficar com a lei numa terra onde a lei é para inimigos; num sistema no qual se resiste a tudo, menos ao pedido de um amigo; e amor com amor se paga!

Como indivíduos-cidadãos, somos todos sujeitos da lei, mas os laços com certas pessoas relativizam o estatuto político-legal, fazendo com que a lei universal — essa clave mestra da democracia — torne-se um estorvo e seja ignorada, reprimida ou arrogantemente aviltada.

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A pergunta revela o conflito entre as forças explícitas dos cargos públicos — os juízes têm tido um papel crítico no exercício da democracia brasileira — ao lado do poder silencioso dos protocolos costumeiros investidos nos papéis de padrinho, pai, tio ou marido. Num caso, há um juramento público, e a nossa leitura pende mais para o lado dos direitos (do chamado “poder”) do que dos deveres (as obrigações e reponsabilidades) contidos nestes papéis. No outro, há apenas a atuação irrefletida do papel cujas obrigações não são explícitas. Como, então, decidir se seremos juízes ou padrinhos quando ambos os papéis têm o mesmo poder mobilizador num sistema elitista no qual tem prevalecido o “você sabe com quem está falando?” de quem tem autoridade?

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A intimidade e as simpatias dissolvem o formal e o legal num doce jeitinho, mas tal atitude tem consequências políticas. Aliás, um dos problemas mais complexos para uma sociedade tão elitista como a brasileira é que ela própria não tem consciência cabal das responsabilidades do seu elitismo. De fato, o nosso elitismo apenas sabe dos seus privilégios e só agora, às custas da Lava-Jato, de uma nova geração de agentes da Justiça e de uma crise bíblica, é que ela começa a se descobrir como tendo obrigações.

A pergunta do ministro é sintomática da ausência de uma ética pública. Valer dizer: de uma “ética política” porque é justo no mundo público que surgem os becos pelas quais escapolem legalmente compadres, parentes, correligionários e amigos.

Roberto DaMatta

2018 já chegou

Com fortes evidências de que o governo Temer não ata e nem mais desata, as atenções se deslocam para o campo eleitoral. As comunidades política e econômica só pensam no embate do ano que vem; para esses agentes, a eleição já começou; 2018 é hoje. Há muita ansiedade no ar, uma aflição em relação ao devir que, naturalmente, induz ao erro: busca-se, antes, o melhor candidato sem importar, porém, quem, afinal, seria melhor presidente. Há uma inversão de lógica: primeiro a imagem, depois a essência.

Abutres destroçam as vísceras de um país acorrentado à crise; é preciso criar consensos, reordenar forças e refazer o sistema. Mas, isto parece menos relevante ou urgente: mais importante é a agenda econômica, ainda que se despreze as dificuldades para implementá-la. Quem teria mais habilidade para lidar com o Congresso, enfrentar corporações; superar — sem destruir — a Lava Jato? Como promover transformações efetivas, na política e economia? Ninguém sabe porque ninguém pergunta.

Má conselheira, a ansiedade faz ouvidos de mercador aos apelos da razão: ''a pressa requer calma para não queimar etapas e pagar por erros que deixem tudo pior que no início''. A ponderação tem pouco charme; no baile do desassossego, ninguém tira a prudência para dançar. A precipitação é a guia dos amadores e a marreta, o chapéu do otário. O Brasil se repete a cada vinte e poucos anos — 1960, Jânio; 1989, Collor; 2018… Depois, não sabe onde tudo se perdeu.

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É nesse contexto que se busca o melhor candidato, o mais competitivo; seja ele Lula ou João Doria. São os preferidos de 9 em cada 10 operadores do curto prazo. O ex-presidente é a salvação do PT; o prefeito, do mercado. Possuem qualidades extraordinárias como candidatos: Doria está em campanha desde 2016; Lula, desde sempre. Comunicam-se bem para seus públicos e dividem opiniões tanto quanto o país está dividido. São nomes para o embate, não para a conciliação; farão grandes bancadas. Num país que namora o conflito, são música para ouvidos que buscam cantos de guerra.

Lula é conhecido, falemos do prefeito: extremamente sagaz, usa o figurino de ''não político''; desde cedo, percebeu o ambiente que despreza o velho e cultua o novo, mesmo que o desconheça. Encarna o justiceiro, capitaliza a crise, a ineficiência dos serviços públicos, a má fama dos políticos; brota do esgotamento do sistema. Empunha duas bandeiras: uma, econômica; outra, moral. Anti Lula, retira saldo das frustações, decepções e antipatias, dos excessos do PT. É habilidoso.

Alimentando a este anseio, João Doria mostra-se, com efeito, um candidato com gana. Seu cálculo é voltado à expansão objetiva do poder: quer mais e quer rápido; a cidade não lhe basta; como também não bastaria o estado. Predestinado ou não, seu foco é o país, onde fará prevalecer, de verdade, sua vontade. Chega ao paroxismo de uma força voluntariosa que não quer limites de compromissos e fidelidades.

Competitivo, o senso de oportunidade é seu soberano. Compreende que há constrangimentos, no PSDB: fossem adversários apenas José Serra ou Aécio Neves, não haveria meios pudores. Mas, Geraldo Alckmin, merece alguma cerimônia — tratamento de luxo que a etiqueta impõe ao afilhado. O prefeito prevê logo alcançar o segundo lugar nas pesquisas e tornar-se, assim, inevitável. Atropelando Jair Bolsonaro, será assimilado por toda a direita, ampliará então ao centro esmagando Alckmin, indo em direção a Lula.

Para isto, rasga os céus, cruza o Brasil, vocaliza um novo e os planos do setor privado, mas articula-se com o atraso que sempre colheu as sinecuras do Estado, como o DEM e o PMDB. Já foi adotado por esses setores de rara sensibilidade para o poder e mora nas apostas como alternativa para quem precisa sobreviver à crise do sistema como também aos fantasmas da Lava Jato. Michel Temer e Romero Jucá o recebem de braços abertos. O Brasil tem dessas coisas de ser o avesso do avesso do avesso.

Na sociedade líquida, Doria é realmente um fenômeno de adaptação às mudanças do século XXI, multimídia e alucinante. Marketing 24 horas por dia, é som, imagem e fúria. O vídeo em que envolveu Geraldo Alckmin — paralisado em seu sorriso amarelo — é coisa de mestre. Dos algoritmos de suas redes, explode para o mundo de verdade e hoje é realidade na política nacional. Nesse aspecto, é realmente moderno.

(Do outro lado da sala, Ciro Gomes espreita a tudo; espreita a Doria e a Lula. Está para o ex-presidente como prefeito está para Alckmin: na inviabilização de um, reside a viabilidade do outro. Tateia a conjuntura à procura de brechas; proativo e se expande também pelas redes de outros algoritmos. Vocaliza o anti status quo de Temer, tucanos e Doria; mas, não queima as mãos por Dilma, Lula ou pelo PT. Numa eleição de desaforados, haverá espaço para seu estilo desbocado. Ao seu tempo, será assunto para outro artigo.

Carlos Melo