quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os pecados capitais de Dilma


Gula

Dilma emagreceu 20 quilos no período de pouco mais de um ano e emagreceu o país ao fazê-lo mergulhar na pior recessão econômica de sua história desde os anos 30 do século passado. Nem por isso deixou de atentar contra o pecado da gula.

Presidente algum, nem mesmo os da ditadura de 64, se empenhou tanto em concentrar o poder como Dilma o fez. Seu apetite era insaciável. Confiou em poucos auxiliares. E mesmo desses costumava duvidar quando lhe diziam o que não queria ouvir. “Não, você não entende de nada disso”, gritava se a opinião de um a contrariasse.

Dilma jamais inspirou ternura ou respeito entre os que a cercavam. Inspirava temor. Certa vez, de tão assustada com o que ela lhe disse, uma ministra da área social fez pipi na calça.

Um executivo de empresa moderna delega poderes, estabelece metas e cobra resultados. Dilma cobrou resultados sem delegar suficientes poderes. Foi uma gerente à moda antiga e, como tal, ineficiente.

Na organização de esquerda na qual militou nos anos 70, ganhou fama como tarefeira. Fazia o que lhe mandavam. E só se distinguiu por isso.

Avareza

Ganha um fim de semana com Dilma no Palácio da Alvorada quem apontar uma dezena de pessoas alvos de elogios feitos por ela.

Risque a palavra elogio do vocabulário capenga de Dilma.

O que move gente, o que a leva a superar limitações, é o reconhecimento. Sem ele não se consegue desempenho acima da média.

A maioria dos ministros escolhidos por Dilma destacou-se por sua mediocridade ou falta de iniciativa. Mas mesmo os que não eram medíocres, acabaram se igualando aos demais por falta de incentivo.

Fernando Haddad, atual prefeito de São Paulo, largou o Ministério da Educação. Nelson Jobim, o Ministério da Defesa para não ter que brigar com Dilma. O ex-ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, resignou-se a tocar um ministério com nomes indicados por Dilma para os cargos mais estratégicos. Aproveitou o tempo disponível para fazer negócios e se dar bem. É hoje investigado pela Lava-Jato.

Luxúria

O desejo egoísta por todo o prazer corporal e material está longe de marcar o desempenho de Dilma como presidente. Mas o desejo de sentir-se superior em relação aos seus semelhantes é também uma forma de luxúria, e desse mal ela padeceu.

Enquanto foi ministra de Lula, comportou-se face a ele como uma humilde cumpridora de ordens. Uma vez, acertou-se com Geddel Vieira Lima, então ministro da Integração Nacional, sobre o trecho por onde deveria começar a transposição das águas do rio São Francisco. Depois, ela o acompanhou à uma reunião com Lula. Ouviu Geddel dissertar sobre as vantagens do trecho escolhido, mas calou-se quando Lula discordou. Então passou a defender o ponto de vista de Lula.

A necessidade de afirmação de Dilma agravou-se tão logo ela foi eleita para suceder Lula. Exigiu, a partir dali, ser tratada como “presidenta”. Jamais furtou-se a humilhar os que somente tolerava. Expulsou um general do elevador privativo do Palácio do Planalto. Fez chorar José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras. E deixou em pânico o jardineiro do Alvorada ao culpá-lo pela bicada de uma ema no cachorro que ela ganhara de presente do ex-ministro José Dirceu.

Ira

Um dos ministros do governo inicial de Dilma deu-se ao prazer de anotar os frequentes surtos de ira que a acometia. Quando já colecionava 16 episódios em dois anos, abdicou do trabalho. Os surtos haviam se banalizado. Alguns se tornaram famosos em 13 anos de governos do PT.

Dilma era ministra das Minas e Energia e recebia um deputado da oposição quando Erenice Guerra e um assessor irromperam em seu gabinete. Erenice limitou-se a estender um papel para Dilma, que depois de lê-lo, explodiu: “Esses caras estão pensando o quê? Que vão botar aqui?” – e apontou para a própria bunda. “Aqui, nem a ditatura pôs”. Tão logo Erenice e o assessor saíram, Dilma começou a gargalhar. Virou-se para o deputado e disse: “Essa gente tem de ser tratada assim”. Picou o papel e retomou a conversa.

Como presidente, Dilma protagonizou o que ficaria conhecido como “A guerra dos cabides”. Irritada com a arrumação do seu guarda-roupa no Alvorada, começou a jogar cabides em Jane, a camareira. Que reagiu jogando cabides nela. Jane acabou demitida, mas depois presenteada com outro emprego em troca do seu silêncio.

Inveja

Quem se acha não inveja seus semelhantes. A não ser que reconheça que pelo menos um deles possa lhe ser superior.

A inveja de Lula responde por uma série de atritos que Dilma teve com ele, prejudicando seus governos. No primeiro, logo de saída, ela quis mostrar que não seria tolerante como Lula fora com suspeitos de corrupção. Nascia, ali, a “faxineira ética”, capaz de demitir sete ministros em menos de um ano. Nos anos seguintes, aconselhada por Lula, ela readmitiu alguns e empregou representantes dos outros para garantir apoio à sua reeleição. A faxineira ética teve vida curta.

Havia um pacto não escrito firmado por ela com Lula que permitiria o retorno dele à presidência em 2014. Dona Marisa, mulher de Lula, jamais perdoou Dilma por ter passado seu marido para trás. Dilma é mulher de confronto. Lula só confronta da boca para fora. Ela ganhou a parada, mas, por pouco, não perdeu a eleição para Aécio Neves, candidato do PSDB. Ganhou, também, a mágoa de Lula para sempre. “Eu errei, não deveria ter escolhido essa mulher”, repete ele à exaustão.

Preguiça

De dar longos expedientes, certamente não. De ler relatórios e de anotá-los, também não. De meter-se em tudo, inclusive no que não deveria, tampouco. A preguiça de Dilma, talvez a forma mais perversa de preguiça, foi de ouvir, de conversar, de trocar ideias, de conviver com pessoas.

Dilma é uma mulher solitária e atormentada por seus demônios. Amava o pai. Não se dava bem com a mãe, e ainda não se dá. Considera a filha “insuportável”, como uma vez confessou. A mãe mora com ela no Alvorada. Mas antes morava com o ex-marido de Dilma em Porto Alegre.

Quando a Câmara aprovou o impeachment, o ministro Jaques Wagner sugeriu a Dilma que telefonasse para cada um dos 137 deputados que haviam votado contra. Seria um gesto simpático. Wagner entregou a Dilma a lista dos 137 com pelo menos dois ou três números de telefone de cada um. Destacou quatro telefonistas para fazerem as ligações. Dilma não quis.

O vice Michel Temer telefonou para quase todos os 367 deputados que votaram a favor do impeachment. Muitas razões explicam a queda de Dilma, mas talvez a principal seja o fato de ela não gostar de ninguém e de ninguém gostar dela.

Soberba


A vaidade é o pecado preferido do carismático personagem vivido por Al Pacino no filme “Advogado do Diabo”. A soberba talvez tenha sido o pecado preferido de Dilma. Por soberba, ela desprezou os políticos em geral, e a maioria deles em particular. Evitou aproximar-se deles. Evitou recebê-los. Tratou-os como cargas que era obrigada a carregar. Ao então deputado Paulo Rocha (PT-PA), referindo-se à sua atividade na Câmara, uma vez ela observou: “Não sei como você suporta isso”. Há mais de três anos que o ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pede para ser recebido por ela – sem sucesso.

Diante do risco de a Lava-Jato bater à sua porta antes da reeleição, Dilma divulgou uma nota que afastava qualquer culpa dela, mas que deixava Lula exposto à suspeita de que a roubalheira na Petrobras fora obra dele, sim. Pode ter sido. Mas pode ter sido de Dilma também.

Por mais que a soberba a impeça de reconhecer, ela e Lula estarão ligados para sempre pela história do país. Para o bem ou para o mal. Hoje, são as conveniências, apenas elas, que os fazem encenar uma parceria que já se desfez.

País do surreal

Essa crise só é compreensível por causa do nosso surrealismo, que é essa diferença entre a realidade do Brasil e o que se descreve como sendo o Brasil.
Jorge Mautner
Charge O Tempo 10/05

O bambolê que não foi usado por Dilma na Presidência

Quando Dilma Rousseff foi escolhida candidata de Lula em 2010, todos sabiam que ela era profundamente inábil politicamente. Sabiam, também, que não tinha jogo de cintura, a ponto de o deputado Henrique Eduardo Alves, então líder do PMDB, ter-lhe presenteado com um bambolê, para que praticasse.

Muitos acreditavam que Lula, seu padrinho e mentor, poderia compensar as grotescas deficiências de Dilma. Não foi o que aconteceu. A presidente consumiu o capital político do chefe e o próprio com imensa rapidez. E passou a vagar à deriva no espaço político.

Ela só não perdeu as eleições em 2014 por causa de uma campanha equivocada de Aécio Neves, mal votado em sua própria base eleitoral, Minas Gerais, e pela imensa fragilidade de Marina Silva no período da campanha em que era competitiva. Funcionou, também, a dialética do medo. Tão criticada pela esquerda e largamente empregada por ela na campanha, sob a orientação do marqueteiro João Santana. Sem falar na estratégia de negar a realidade da derrocada econômica que estava à vista desde 2013, conforme diagnóstico repetido por nove entre dez economistas formadores de opinião.

Nesta semana, de forma melancólica, Dilma Rousseff deixará o governo para não voltar. Sua saída não deixará saudades. Obviamente, aqueles milhares que foram se perpetuando em cargos de confiança vão sentir falta dos bons tempos. Muitos jamais ganharão o mesmo que recebiam em suas funções públicas e perderão o status conquistado há 13 anos. Centenas de ONGs, que também vivem penduradas nos cofres públicos, vão sentir saudades desse lugar confortável da máquina pública que desfrutaram supondo que fosse para sempre.

A imensa maioria da sociedade, porém, não sentirá saudades e, rapidamente, esquecerá a era Dilma. Para eles, a presidente já vai tarde. Seus últimos dias foram tristes, imersos em crises variadas. O mais inacreditável de tudo é que não foi por falta de aviso. Aliados avisaram que muita coisa estava errada. Os sinais de descaminho do governo já eram evidentes em 2013. A contabilidade destrutiva e a caótica pilotagem política eram mais do que evidentes.

Recente reportagem de Leandra Peres no jornal “Valor Econômico” descreveu em detalhes, por meio de depoimentos, a ruinosa política fiscal conduzida por Arno Augustin na Secretaria do Tesouro, executando formulação da presidente, com quem nutria perfeita identidade ideológica.

Os erros se avolumaram com a vitória em 2014. Naquele momento, Dilma e seu entorno acreditaram que mandariam no Congresso. Aloizio Mercadante, o guru de então, liderou uma reforma ministerial inócua e uma luta inglória contra Eduardo Cunha. Jamais conseguiram conter as sucessivas rebeliões nem estabelecer um padrão de relacionamento. Um a um, os aliados foram abandonando a presidente. Seu fim é melancólico como ex-presidente da mais poderosa das democracias ocidentais.

O presidente do Brasil, seja ele quem for, controla um Orçamento de R$ 1,4 trilhão; manda em 50% do sistema financeiro nacional; nomeia mais de 30 mil cargos de confiança; usa e abusa de medidas provisórias; concentra um poder extraordinário; e maneja um amplo painel de controle. Trata-se de uma equação de primeiro grau – se não for tolo, o presidente do Brasil terá todos os instrumentos nos campos da economia e da política para impor sua vontade e assegurar a governabilidade. Caso contrário, o resultado será mais do que previsível.

Três sílabas e R$ 1 bilhão

Apaga-se o velho governo entre manhas e artimanhas, como as ofertas sedutoras ao presidente interino da Câmara que o estimularam a ridicularizar a Casa que comanda, ao tentar “anular” uma decisão tomada há 23 dias por um colégio de 511 deputados, em ritual definido pelo Supremo, e já repassada ao Senado.

O processo de impeachment, é útil lembrar, começou pelo voto de 72% da Câmara, na acachapante maioria de 367 deputados. A esquálida base governista somou 137 votos, sequer alcançou 27% dos presentes.

Essa “brincadeira com a democracia”, na qualificação do presidente do Senado, teve as digitais do advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo. O principal resultado foi expor como tresloucado seu agente na Câmara, o deputado Waldir Maranhão, que, acusado de abuso de poder, agora deve enfrentar um processo de destituição ou cassação de mandato.

O antigo governo submerge em tumulto, sob o olhar sorridente da presidente Dilma Rousseff e a súbita afonia de Lula.

A nova administração ainda não ascendeu. Pelas vacilações do vice Michel Temer, expostas na semana passada, corre risco de emergir prisioneira de um modo arcaico de fazer política, cujo réquiem vem sendo entoado por multidões nas ruas, há três anos, e a exumação avança nos inquéritos sobre corrupção nas empresas estatais.

A tensão atual é um derivativo da travessia para mudanças impostas à geração de políticos como Lula, Dilma e Temer. Sobram evidências da marcha na transição do convívio coletivo com a impunidade do esbulho dos cofres públicos, em privilégio de poucas e ineficientes empresas, para uma sociedade disposta a premiar com recursos coletivos a iniciativa privada focada na subsistência da competição no mercado.

Nessa perspectiva, ganha relevância o “pedido de desculpas ao povo brasileiro” anunciado ontem pelo grupo Andrade Gutierrez: “Reconhecemos que erros graves foram cometidos e, ao contrário de negá-los, estamos assumindo-os publicamente. Entretanto, um pedido de desculpas, por si só, não basta: é preciso aprender com os erros praticados e, principalmente, atuar firmemente para que não voltem a ocorrer.”

Às três sílabas da palavra (“desculpas”), adicionou o compromisso de indenização de R$ 1 bilhão ao Estado. O valor equivale a US$ 272 milhões, pelo câmbio de ontem, e corresponde a 13,5% da receita líquida da empreiteira. Garante seu lugar entre as dez corporações globais mais penalizadas desde 2008, logo abaixo da francesa Techinp (US$ 338 milhões), acima da japonesa JGC (US$ 218 milhões) e da alemã Daimler (US$ 185 milhões).

Acionistas e executivos da Andrade Gutierrez fizeram a coisa certa, na trilha aberta pela concorrente Camargo Corrêa, primeira entre empreiteiras acusadas nos inquéritos sobre corrupção a aceitar um compromisso judicial para mudar de forma radical as relações com políticos, partidos e governos.

A Andrade Gutierrez diz acreditar que “a Operação Lava-Jato poderá servir como um catalisador para profundas mudanças culturais, que transformem o modo de fazer negócios no país”.

É ótima notícia num ambiente tumultuado por um governo que há muito perdeu a bússola e agora fenece por inanição política.

José Casado

Um pela outra sem querermos volta

A gente sabe como começa mas não sabe como acaba. A votação pelos senadores pela admissibilidade do impeachment da presidente Dilma tem seu início marcado para a manhã de hoje, mas vai durar até de noite, ignorando-se se entrará pela madrugada de amanhã. Pelo menos 60 oradores estão inscritos, a maioria favorável ao início do processo. Uma vez colhidos os votos, tudo indica que Madame estará afastada do exercício de suas funções por 180 dias, quando se dará o julgamento das acusações que pesam sobre ela. Condenada, estará fora do jogo político, sendo que Michel Temer, ocupando interinamente as funções presidenciais a partir de amanhã, assumirá em definitivo até o final do mandato, a 31 de dezembro de 2018. Caso, é óbvio, não sobrevenham surpresas, dessas a que quase nos acostumamos.

Dilma dedetizacao e decoradora mesa gabinete presidente Temer.psd

Devemos estar preparados para conturbações e inusitados que, aliás, já entraram ontem em sua fase mais aguda, como manifestações de toda ordem, no país inteiro. Rodovias tem sido interrompidas, ruas e praças ocupadas, entreveros variados entre partidários da presidente Dilma e seus adversários.

Vexame igual raríssimas vezes tem ocorrido na República, fazendo prenunciar que nada se normalizará daqui para a frente. O Brasil está dividido, ao contrário do Congresso, onde prevalece a tendência antigoverno. O ideal seria que a população ficasse à margem, mas as emoções espontâneas ou fabricadas fazem prever o contrário. O resultado é que o Brasil vive um de seus piores momentos, destacando-se a crise econômica acima e além da crise política.

A hesitação do ainda vice-presidente Michel Temer em compor seu ministério e, especialmente, em definir seu programa de governo, só f az aumentar as agruras nacionais. Não dá para calcular quanto andamos para trás em termos de crescimento, esperança e previsões. Muito menos de miséria e desilusão.

Continuamos aguardando a virada do jogo, mas a conclusão é de que só com mudanças profundas nas estruturas institucionais e políticas. A corrupção, apesar de combatida, dá a impressão de ter aumentado. Há quem suponha que apenas com imediatas eleições gerais será possível reverter o quadro, mas o perigo será trocarmos seis por meia dúzia, como já vai acontecer na Esplanada dos Ministérios.

Pelo menos a reforma econômica faz-se imprescindível, mas do que mais se fala é da troca das garantias trabalhistas pela “livre” negociação entre patrões e empregados, da desvinculação do salário mínimo da justiça social, do aumento de impostos e do aumento do desemprego. Não há possibilidade de união nacional, já que nenhuma categoria admite abrir mão de seus privilégios e regalias. A classe política, em vez de encontrar e buscar soluções, mais se aferra às suas vantagens. A classe trabalhadora não encontra forças para sustentar antigas conquistas e as elites parecem prestes a ampliar suas benesses.

Em suma, se os horizontes parecem cada vez mais nebulosos, continuamos à espera de milagres, inexistentes em meio à desesperança. Entre Dilma e Temer, damos um pela outra e não queremos volta.

Douto Michel, leia mestre Graça. Não se deixe levar pelos fisiológicos

Graciliano Ramos dizia, com muita propriedade, que a “a arte de escrever é cortar”. Se Temer transportar a sabedoria do escritor para a sua futura administração, certamente começaria o governo sem traumas. Não dá mais para manter uma máquina de governo inchada, sacrificando o contribuinte que paga cada vez mais impostos para sustentar milhares de pessoas em cargos comissionados, além de mais de trinta ministérios aparelhados por partidos políticos de eficiência duvidosa. O escritor alagoano levou ao pé da letra o que alardeava ser um bom texto, enxuto e objetivo como servidor público. Quando esteve à frente da prefeitura de Palmeira dos Índios deixou para a posteridade o relatório da sua administração que o levou a ser descoberto como um dos maiores escritores brasileiros do Século XX: cortou despesas, acabou com a corrupção, o fisiologismo e enxugou a máquina para governar com eficiência.

Se Temer quiser conhecer de austeridade administrativa não custa nada, nas horas de folga, folhear algumas páginas do livro “Viventes das Alagoas”, onde vai encontrar o relatório que Graciliano enviou para o governo da época falando das suas obras, dos custos e do uso do dinheiro público. Evidentemente que esse conselho não se aplicaria jamais a presidente que sai, confessadamente ignorante e distante das boas leituras. Dilma vai passar para a história – se passar, é claro – como um objeto decorativo de uma presidência da república. Só não será totalmente esquecida, porque os livros vão falar dela como uma presidente banida do cargo pelo povo brasileiro.

É, mas vamos ao futuro, porque do presente já não se fala mais. A indecisão de Michel Temer em reduzir o número de ministérios é um vacilo que o povo brasileiro vai cobrar caro. Se ele for realmente atender a todos os políticos fisiológicos e a todos os partidos de aluguel, não precisa ser nenhum expert em política para profetizar que o governo já começa errado. Ao Brasil, com a sua economia em frangalhos, já não se permite deixar que o povo fique em segundo plano numa mudança de governo.

O novo presidente tem a obrigação de pensar mais nos trabalhadores que tiveram seus salários corroídos pela inflação, pensar nos 12 milhões de desempregados que o PT largou na rua da amargura, pensar no combate a corrupção apoiando a Polícia Federal e o Ministério Público, pensar na educação e na saúde, setores destroçados pela política de aparelhamento petista e pensar mais nessa nova geração que do Brasil só conhece a palavra corrupção. Enfim, Temer precisa, com urgência, se despoluir do fisiologismo partidário para governar olhando para o futuro.

É inadmissível que a máquina pública atravanque o desenvolvimento do país. O Estado não pode ser ele apenas a locomotiva econômica, o único gerador de emprego. O Brasil precisa, isso sim, desburocratizar a administração, incentivar as médias, pequenas e microempresas geradoras de emprego. Abrir as portas para o mercado externo e interno; incentivar os empresários a produzir; reduzir os juros cavalares que sacrificam o trabalhador; taxar os lucros dos bancos que, com a nova tecnologia, deixaram de ser empregadores em alta escala; limpar, limpar mesmo a administração pública acabando com a maioria dos cargos comissionados, extinguindo boa parte dos ministérios; e fiscalizando com seriedade as obras que, infelizmente, ainda estão nas mãos dos empreiteiros envolvidos na Operação Lava Jato.

Michel Temer precisa tomar medidas moralizadoras e saneadoras para devolver a confiança e autoestima à população brasileira. Se não fizer isso logo nos primeiros dias de governo, dará pretexto para os petistas corruptos se mobilizarem e pedir a sua cabeça orientando as centrais sindicais à greve e à mobilização popular, porque, de todos os partidos, o PT ainda é o único que tem uma base organizada pelas centrais sindicais, famigeradas organizações de pelegos que vivem às custas do estado.

Por isso, doutor Michel, sem querer ser chato, gostaria de sugerir novamente a Vossa Excelência que lesse, sem muito compromisso, o relatório de Graciliano Ramos. Quem sabe se o comportamento dos nossos governantes não teria sido traçado há mais de meio século por um matuto genuíno e genial com as letras lá das bandas de Quebrangulo. Doutor Michel, a solução para os nossos problemas, não está no estrangeiro, mas aqui pertinho de nós. É só conhecer mais um pouco a inteligência de alguns dos nossos homens públicos.

Não deram exemplo

Não importa a reivindicação ou a justiça histórica e social, o que verdadeiramente importa é que em algum lugar deve se começar o exemplo. A lição para Dilma e Lula é que, apesar de terem feito o impossível para impulsionar sua revolução, caíram no erro de imitar, permitir e contribuir com o enredo daquela ditadura da corrupção que os precedeu, com uma série de escândalos desde o caso Mensalão até a Lava Jato que acabou por devorá-los
Antonio Navalón, "Carnaval em maio"

O golpe inexistente e o planejado pelo PT

Ao longo das últimas semanas tive oportunidade de observar a conduta da tropa de choque petista na Câmara e no Senado durante as longas etapas de deliberação sobre o impeachment da presidente Dilma. Havia duas linhas paralelas de atuação e ambas convergiam para aquela câmera que dava publicidade às infindáveis sessões. A primeira das linhas de defesa do governo repetia, à nossa fadiga, que assistíamos a um "golpe". A segunda pretendia, com gritos, tumultos, questões de ordem e contestações, evitar que fossem mencionados outros crimes não constantes do processo. Desses não poderíamos ouvir falar. O PT insistentemente varria seu lixo para debaixo do tapete.

Quem são os agentes do "golpe" que o PT insistentemente denuncia? Vamos a eles:
1. a população brasileira, que aos milhões saiu às ruas para sacudir as instituições de sua inércia;
2. os autores de dezenas de requerimentos de impeachment que, ao longo de 2015, foram transformados por Eduardo Cunha em moeda de negociação para salvar a própria pele;
3. os signatários do requerimento finalmente escolhido para prosseguir, subscrito, entre outros, por um fundador do PT e, não por acaso, o que reduzia a apenas dois os muitos crimes de responsabilidade praticados pelo governo (opção que muito contrariou a Dra. Janaína Paschoal, como ela fez questão de deixar bem claro);
4. o Tribunal de Contas da União, que por seus técnicos e pela unanimidade de seus ministros rejeitou as contas e apontou os crimes de responsabilidade ao Congresso Nacional;
5. o Supremo Tribunal Federal, que definiu minuciosamente o moroso rito a ser seguido pelas duas casas do Congresso em sua deliberação;
6. a Câmara dos Deputados, que em duas etapas e por quase três quartos de seus membros votou pela admissibilidade do processo;
7. o Senado Federal, que na próxima quarta-feira, por grande maioria de seus membros, salvo contratempo, acolherá a denúncia e dará início ao processo público de julgamento da presidente.


É a todos esses que a presidente e sua tropa de choque se referem quando insistem no discurso do golpe, cuja única utilidade é legitimar as ações efetivamente golpistas que se sucederão e para as quais estão sendo motivadas as milícias a serviço do partido e do governo. Não é mesmo, Gilberto Carvalho? Não basta terem, através de uma organização criminosa, assim designada pelo Procurador Geral da República, conduzido o país à mais caótica situação dos últimos 80 anos. É preciso, por todos os meios, impedir que ele se recupere.

Assim, de um lado, temos um processo transparente, fundamentado, dispondo de amplo apoio popular e congressual, contando com reiterado reconhecimento judicial. De outro, as motivações e condutas golpistas do governo, como essa traquinagem inventada pela AGU com a cumplicidade do presidente interino da Câmara dos Deputados, que ronrona fidelidade nos ouvidos do governo pedindo cafuné.

Percival Puggina

12 lições do Manual para Político Honesto

Aproveitando que teremos eleições este ano, resolvi colaborar com os candidatos de todos os partidos criando um pequeno manual de conduta do político honesto.

Recomendo a aplicação integral do que está aqui prescrito sob pena de não surtir efeito.

Não crie leis que criam crimes que sem essas leis não seriam crimes jamais por não violarem direitos de ninguém. Se tiver que criar leis, que essas sejam objetivas, prospectivas, iguais para todos, claras, simples, de maneira a serem compreendidas por qualquer um e que estejam limitadas a defender os direitos individuais à vida, à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade, como cada indivíduo preferir para si;

Não crie privilégios para alguém quando esses privilégios, necessariamente, somente poderão ser oferecidos se os privilegiados, ou o próprio governo, tiver que violar direitos de alguém;

Não crie impostos porque impostos são uma violação de direitos e o governo não tem isenção moral para violar os direitos de ninguém. Pelo contrário, o governo tem a obrigação moral de proteger os direitos individuais de todos;

Não crie gastos que não possam ser pagos pelo que for angariado dos usuários do governo através do pagamento espontâneo de taxas e doações;

Elimine todo e qualquer tipo de lei que viole os direitos das pessoas, seja com relação à vida, à liberdade e à propriedade que elas possuem;

Não viva da política, viva de um trabalho produtivo. A política não cria valor. Ela pode no máximo transferir tais valores de uma mão para outra. Sempre que os valores produzidos por alguém forem transferidos para terceiros através de um ato violento promovido por uma lei instituída por um político, pelo menos um valor estará sendo destruído, o da justiça.

Impeça que o governo se imiscua na economia, na educação, na geração de ideias (cultura) e na ciência. Economia, educação, cultura e ciência são atividades baseadas no uso da razão e são diretamente dependentes do grau de liberdade experimentado pela sociedade. O governo, pelo contrário, tem a sua natureza diretamente relacionada com a coerção, com o uso da força. Coerção e uso da força são ações destrutivas, exatamente o oposto do que economia, educação, cultura e ciência têm como propósito, a criação de valor.

Não leve em consideração quantas pessoas terão vantagens com suas propostas legislativas. Considere apenas que, se alguém, mesmo um único indivíduo, tiver seus direitos individuais violados, então sua proposta é imoral e ilegítima, não devendo ser levada adiante;

Considere que nenhum grupo pode ter direitos superiores aos direitos que cada indivíduo do grupo possui isoladamente. E que ninguém num grupo tem direitos inferiores ou superiores aos direitos de qualquer outro membro do grupo.

Direitos e privilégios são coisas diferentes. Quando alguém adquire direito sobre algo que não é seu, através de uma ação violenta, está adquirindo um privilégio ilegítimo, um ganho imerecido e injustificado. Direitos só existem quando somos proprietários daquilo que efetivamente nos pertence, seja a nossa vida, seja a nossa liberdade ou seja a propriedade que adquirimos legitimamente, através da sua criação, produção, troca por algo que já se tinha ou por doação voluntária feita por alguém.


Se você quer participar da política, entenda claramente que fazer política não é comprometer suas convicções éticas, cedendo aos apelos daqueles que querem violar direitos, em vez de preservá-los. Se você cede ao mal, você é um mau político. Político bom é aquele que defende o bem, a verdade e o que é moralmente correto, de forma intransigente e inegociável. Um político do bem não está na política para transigir com quem defende o mal. Pelo contrário! Um político do bem está na política para impedir que o mal prospere.

Finalmente, já que você insiste em atuar na política, faça da sua atuação uma defesa intransigente da livre iniciativa e da propriedade privada. Não apenas na retórica. Proponha a privatização de tudo que for estatal: empresas, instituições, imóveis, serviços. Enfim, tudo! Quando sobrar apenas a justiça e a polícia, e você ainda quiser ser um político servindo à sociedade, demita-se do cargo para o qual foi eleito e torne-se um juiz ou um policial a serviço da defesa dos direitos individuais.

Se você não seguir algum desses itens, tenha certeza que você acabará sendo mais do que um político, você acabará sendo um bandido como qualquer bandido que viola os direitos individuais.

Resposta certa para pergunta errada

A maioria das polêmicas sobre saúde não se refere a fatos. Dificilmente, haverá discordâncias sobre a menor expectativa de vida de populações expostas a piores condições de vida. O dissenso é se as desigualdades de adoecer e morrer refletem inferioridade biológica, estimulam ou decorrem de déficits culturais ou injustiças sociais. O pau quebra porque diferentes perspectivas de observação, percepção sobre problemas de saúde, quais são e como se conectam causas e efeitos acompanham-se de propostas e ações simétricas ao diagnóstico para resolvê-las.

Problemas de saúde nem sempre estão ao alcance de escalas físicas visíveis ao olho nu, não são desencadeados apenas dentro dos corpos biológicos, o “corpo” social estabelece padrões de morbi-mortalidade que modificam características inatas. Dependendo da explicação, o número elevado de assassinatos de jovens negros pode ser considerado estatística para a Justiça criminal ou informação de saúde pública. As consequências para a ação são a coibição e o aumento da probabilidade de prevenção. Certamente, ambas alternativas são necessárias. Mas, não basta combiná-las na retórica. Estudos, trabalho técnico e participação social são vitais para que políticas sociais não se transfigurem em trocas de favores.

Saúde relaciona-se diretamente com vidas concretas, gerações históricas. A predileção para jogar com acaso e contingência é um recurso dos deuses e figuras míticas. O destino e a sorte não têm a última palavra quando se conhecem teorias e métodos que permitem às sociedades aumentar as chances para que a todos seja assegurada uma vida saudável e digna. Dizer que está se politizando a saúde como se ignorar a política não fosse em si uma tomada de posição ou misturar no papel um pouco de público com muito privado não garante bons resultados. A responsabilidade de cientistas, pesquisadores e políticos é estudar e buscar soluções para problemas relevantes.

A crise econômica mundial de 2008 não é um álibi genérico. As causas da falta de vacina e penicilina nas unidades de saúde, fechamento de enfermarias, leitos, maternidades públicas em um país que constitucionalmente tem SUS são intoleráveis. Estamos indo para trás, a “travessia” para a melhoria da saúde de qualquer governo deveria ser séria e racional.

A proposta programática para a saúde de Michel Temer é um plágio da plataforma de Aécio Neves. Porém, deve-se conceder o devido desconto ao gesto. Os programas para a saúde dos mais diferentes partidos apresentados em períodos eleitorais distintos são quase primos-irmãos. Portanto, o reparo não é a semelhança do parentesco, e sim a desatenção dos copistas à situação objetiva da saúde em 2016. A montagem de acordos com empresários, entidades médicas e especialistas em saúde pública realizada pelo PSDB em 2014 perdeu a validade.

O modelo “SUS etéreo”, um fantasma bonzinho que teima em permanecer entre os vivos e parcerias público-privadas corporificadas em organizações sociais e em outros formatos de transferência de recursos públicos para grupos privados deu errado. As organizações sociais foram protagonistas das denúncias e comprovações de corrupção e empresas de planos de saúde citadas em delações. A privatização pode ou não ser a resposta certa para a pergunta sobre aumento de competitividade em áreas que transacionam mercadorias. Contudo, saúde e mercado nunca colaram bem. Mesmo um jargão aparentemente inteligente como investir na saúde não decolou. Saúde não pode ser vendida, nem estocada. A adoção de estilos de vida saudáveis ou compra de planos privados que deveriam atenuar gastos assistenciais catastróficos das famílias não significa retorno em saúde.

Tem discurso que pode convencer, mas nada explica. Propor a livre concorrência, afirmar a ineficiência das instituições públicas, aludindo sempre ao bom funcionamento do mercado e à falência do SUS, mas ironicamente elaborar e impor esquemas regulatórios aos governos não são atitudes de quem se preocupa com saúde. A banha da cobra, uma das mais populares mezinhas para o tratamento de diversas maleitas baseia-se em uma das regras da medicina tradicional: animais assustadores e perigosos seriam fontes de tratamentos poderosos. A metáfora continua fazendo sentido, mas o óleo de cobra perdeu valor medicinal. A moderna saúde pública contribuiu para alterar as probabilidades de sofrer, adoecer e morrer em determinadas condições e idade. Portanto, é preciso que as ações de saúde sejam conscientes, coordenadas e informadas por conhecimentos científicos.

A disputa não é entre a ciência e a política. Sistemas de saúde em sociedades democráticas são inerentemente politicamente orientados. Mas a extensão do controle político-partidário e dos lobbies varia e determina se os orçamentos públicos serão destinados para a saúde ou a imposturas. A interrogação sobre a agressividade da serpente deve ser respondida positivamente. No entanto, a pergunta sobre o que fazer com a saúde e quem o fará não admite como solução a transformação da área em depósito de ferozes organizações e parlamentares envolvidos na Lava-Jato. Comprovadamente, políticas e programas de saúde podem reduzir ou incrementar desigualdades. Caracterizar evidências, teorias e fatores de sustentação de políticas de saúde no médio e longo prazo como insignificantes e valorizar apenas a força dos interesses particulares e mercantis tornam a própria condição humana insignificante.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Dilma compôs seu réquiem em Belo Monte

Na quinta-feira, 5 de maio, Raimunda desligou a TV na casa da periferia de Altamira, no Pará. O noticiário local começava a transmitir a inauguração da usina hidrelétrica de Belo Monte por Dilma Rousseff (PT). Era um gesto pequeno, o de desligar o botão da TV. Era o esforço de Raimunda para proteger João da voz da presidente. Deitado na rede, sem movimento nas pernas, ele já não é capaz de proteger a si mesmo. Em Belo Monte, Dilma discursava, ovacionada por uma claque de movimentos sociais, denunciando o “golpe” para tirá-la do poder. Mas a palavra final sobre o legado da presidente não será do Congresso. O réquiem de Dilma Rousseff, no tempo da História, é o silêncio de João da Silva.

No aeroporto de Altamira, Liviane, uma das sete filhas de João e de Raimunda, erguia um cartaz: “De mulher para mulher. Dilma – você me deixou órfã de pai vivo”.

Dilma Rousseff não viu. Ela deu apenas uns poucos passos em terra. Em seguida pegou um helicóptero para o território seguro da hidrelétrica de Belo Monte. A presidente sobrevoou a cidade e o rio. Mas era no chão que o drama se desenrolava.

Se João tivesse escutado o discurso de Dilma, ele saberia qual foi a palavra escolhida pela presidente para definir Belo Monte:

– Essa usina é do tamanho desse povo. É grandiosa. É uma usina grandiosa. A melhor forma de descrever Belo Monte é essa palavra: grandiosa.

As palavras, João descobriu há pouco mais de um ano, podem matar. É por isso que ele não consegue escutar nem “Norte Energia”, a empresa concessionária que materializou a usina no amazônico Xingu. Nem “Belo Monte”. Nem “Dilma Rousseff”. E ninguém conhecerá sua opinião sobre o adjetivo escolhido pela presidente: “grandiosa”.

Quando sua filha escreve, no cartaz que Dilma não leu, que é órfã de pai vivo, ela conta de uma morte que começou em 23 de março de 2015. João era um dos milhares de atingidos por Belo Monte. Ele vivia com Raimunda numa ilha do Xingu, a Barriguda. Nas palavras da Norte Energia e do governo federal, ele era um dos milhares de “removidos”. Mas as palavras não são as mesmas para todos.

Para João, ele foi “expulso”. Naquela data, ele e Raimunda estavam no escritório da empresa esperando o veredicto. João, que trabalhava desde os oito anos de idade, e só na ilha encontrara um lugar sem fome, acreditava receber um valor que lhe permitisse recomeçar a vida, mais uma vez. Mas o preposto da empresa foi taxativo: 23 mil reais. João percebeu ali que, aos 63 anos, estava condenado à miséria. No momento da revelação, ele quis matar o dono das palavras que o esfaqueavam. Mas João da Silva não é homem que mata. Paralisou por inteiro. A fala, as pernas. E teve de ser carregado para fora do escritório. Foi naquele momento que João começou a morrer. Para Raimunda e as filhas, foi naquele momento que João começou a ser “assassinado”.

Mais tarde, quando recuperou as palavras e voltou a dar alguns passos, bem devagar, João disse:

– Se eu fizesse um dano com um grande, um grande lá de dentro, talvez melhorasse para os outros. Eu sacrificava a minha vida, mas a dos outros melhorava. (...) O país brasileiro não tem justiça.

Quando disse isso, João ainda podia escutar as palavras. Agora, já não pode. Em breve, saberemos por quê. Como as três palavras se tornaram proibidas para ele, João não pôde ouvir o que Dilma Rousseff afirmou em seguida:

– Sabemos que essa usina foi objeto de controvérsias. Muito mais pelo desconhecimento do que pelo fato de ela ser uma usina com problemas. As pessoas desconheciam o que era Belo Monte.

Se João não estivesse proibido de escutar, teria ouvido que pessoas como ele “desconhecem” Belo Monte. O que isso faria com João?

O que Dilma Rousseff define como “controvérsias” seriam as 25 ações movidas pelo Ministério Público Federal, uma delas acusando o Estado e a Norte Energia pelo etnocídio – morte cultural – de povos indígenas? Ou a controvérsia seria a mesada de 30 mil reais em mercadorias que as aldeias atingidas receberam por dois anos da empresa, como se o Brasil estivesse fixado no ano de 1500, ao trocar vida por espelhinhos? Ou o aumento de 127% da desnutrição infantil nas aldeias neste período? Ou os milhares de atingidos abandonados em total desamparo pelo seu governo, “negociando” diretamente com a Norte Energia, já que a Defensoria Pública da União só conseguiu alcançar Altamira quando a obra já estava perto da conclusão? Ou todos aqueles que assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler, mas que os condenavam ao desterro?

Talvez não. É possível que “as controvérsias” citadas pela presidente sejam as delações premiadas de executivos de empreiteiras no curso da Operação Lava Jato. Como dirigentes da Andrade Gutierrez, que teriam afirmado a existência de propinas no valor de 150 milhões de reais vindas de Belo Monte para financiamento de campanhas do PT e do PMDB. Dilma Rousseff não especificou o que entendia por “controvérsias”.

É possível afirmar que a presidente desconhece João. Se o conhecesse, e ele ainda pudesse usar as palavras proibidas, Dilma Rousseff saberia que João da Silva conhece Belo Monte. E que sua mulher, Raimunda da Silva, conhece inclusive o perfume de Belo Monte. Para ela, Belo Monte tem cheiro de queimado. Em 31 de agosto de 2015, a Norte Energia botou fogo na casa deles. Quando Raimunda alcançou a ilha para retirar seus pertences, encontrou cinzas. Um técnico da Norte Energia já tinha dito que a casa dela não era uma casa, mas um “tapiri”. Raimunda sabe que as palavras violentam. E reagiu: “Na sua linguagem ela pode ser tudo isso aí, moço. Mas, na minha, é minha casa. E eu me sentia bem nela, viu?”.

Dilma Rousseff desconhece João da Silva, mas ele a conhece tanto que não pode escutar o seu nome, ou sua voz. Se pudesse, João ouviria mais uma parte do discurso da presidente.

– Quero dizer que esse empreendimento de Belo Monte me orgulha muito pelo que ele produziu de ganhos sociais e ambientais.

No momento em que Dilma discursava, quatro crianças indígenas já tinham morrido de gripe no período de dois dias, entre 29 e 30 de abril. É importante lembrar de seus nomes em tão curta vida: Kinai Parakanã, 1 ano; Irey Xikrin, sete meses; Kropiti Xikrin, 11 meses; Kokoprekti Xikrin, 1 mês e 22 dias. Em documento datado de 1 de maio, o Distrito Sanitário Especial Indígena de Altamira relata a gravidade do surto de síndrome gripal nas aldeias, com a ocorrência de diarreia, especialmente para as crianças de até cinco anos. Assim como a deficiência da estrutura para combater a ameaça à saúde indígena. Mostra também que o quadro se agravou após as comemorações relativas ao Dia do Índio, em Altamira, quando aldeias que ainda não haviam sido atingidas foram contaminadas após a volta dos indígenas da cidade. Naquela semana, a Norte Energia promoveu o I Festival de Cultura Indígena Asurini e Araweté, com a presença de dezenas de pessoas dessas etnias. O surto de gripe em curso foi ignorado nos festejos. As homenagens ameaçam virar morte.

Meias palavras não bastam

Se os sinais de que falta determinação a Temer para não iniciar sua trajetória por onde Dilma acabou a dela vinham pondo nuvens no horizonte, a manobra do STF contra Eduardo Cunha, como de hábito, empurrou para um pouco mais longe a margem do brejo da incerteza em que vamos atolados.

Cunha é o que o Brasil inteiro sabe que é. Mas só metade disso é mencionado em voz alta neste país onde coragem política e honestidade intelectual são mais escassos que água no deserto e, cada vez mais, a única diferença entre os culpados por mamar em privilégios que custam a miséria em que este país está e/ou roubar ostensivamente o dinheiro apartado “para mitigá-la” está em por ou não tudo isso também a serviço de uma conspiração contra a alternância no poder.

Chegou a incomodar muito um Brasil à beira do afogamento a perspectiva de Cunha se vir a tornar presidente na ausência do vice. Mas o caso ficou “resolvido” pela constatação de que, havendo lei que proíbe réus de ocupar a Presidência, o impedimento era ponto pacífico. A outra metade do que o Brasil inteiro sabe que Cunha é mas ninguém tem coragem de afirmar em voz alta, é “o bandido certo, no lugar certo, na hora certa”, ou seja, como o ex-deputado Roberto Jefferson notou com pleno conhecimento de causa no Roda Viva, só ele está à altura do jogo sujo do PT e seus “laranjas” do PSOL e do PC do B para fazer deste país uma imensa Venezuela. Não é por acaso que apesar da perseverança no crime Dilma e ele escapem sempre por entre os dedos tanto da lei penal quanto da política. É que jogam com as mesmas armas, a mesma ausência de limites e o mesmo tipo de vendilhão de “governabilidade”. Só que, pela primeira vez na história deste país, apareceu alguem que usa truques sujos com mais competência que o PT. PSDB e cia. são meninas de colégio de freira perto desse pessoal. A verdade cristalina que precisa ser afirmada claramente, portanto, é que tudo que hoje se sabe sobre Cunha só foi exposto porque ele estava ganhando a parada contra o PT e não porque tenha em sua ficha qualquer coisa que o deslustre mais que todos os petistas presos e por prender ou os renan calheiros da vida atras dos quais o PT se escuda.

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Ao atropelar Teori Zavaski que guardava há quase seis meses queixa da PGR contra Cunha a espera de que findasse a contenda no Legislativo em que o Judiciário não devia e nem legalmente podia se meter na noite de quarta-feira, 4, Lewandowski forçou-o a atribuir à ação uma subita “urgência”. O resto “o tempo da política e da mídia” fizeram, como Lewandowski sinalizou ao nega-lo antes que se lhe perguntasse, gerando liminar vazada exclusivamente em adjetivos, sem base técnica que a sustente ou qualquer lei ou esboço de tratamento às consequências que vai produzir. E lá vai um Brasil requerendo reformas pesadas e urgentes de volta para os braços de uma Câmara com 29 “donos” soltos.

O STF que patrocinou a manobra, recorde-se, é o mesmo que, atirou o país às piranhas da “governabilidade” em 2006 quando derrubou a cláusula de barreira dos partidos em 5% dos votos nacionais e 2% em 9 estados arrancada a duras penas do Congresso. Aplicada teria tirado do páreo 22 dos 29 partidos então inscritos no TSE já no 2º governo Lula. Mas a viabilização da política não era o que o PT tinha em vista. Bem ao contrário. De lá para cá, ao atribuir parcelas do Fundo Partidário a cada deputado eleito, junto com o tempo de TV, o STF fixou um “valor nominal” para cada uma dessas “mercadorias”. Na expectativa de minar toda forma de resistência organizada ao seu projeto hegemômico, Lula e o PT, com os préstimos do STF, construíram, portanto, milímetro por milímetro o caos político que está a um passo de destruir o Brasil enquanto saqueavam o Estado para executá-lo.

Declarada a “inconstitucionalidade” de por ordem no bordel da política partidária arrematada pela recente decisão do mesmo STF de submeter os plenários da Câmara e do Senado às “lideranças” em detrimento das maiorias para por o impeachment de volta nas mãos de Leonardo Picciani, o Rei das Pedras da Cidade Olímpica, par perfeito de Renan Calheiros, o “goleiro” do impeachment plantado no Senado, das quais o voto do plenário o tinha tirado, o sucesso das operações comerciais do lulopetismo com vistas ao poder eterno passou a depender, como notou o ministro Dias Toffolli, único a denunciar o penúltimo golpe do STF no sistema representativo brasileiro, de “dialogar” suficientemente com 15 indivíduos num colegiado de 28.

Não funcionou para barrar o impeachment por enquanto, mas essa história ainda não acabou…

O resultado geral é que tudo isso completou a obra de inviabilização do Brasil iniciada com a Constituição de 1988 que, ao consagrar o privilégio outorgado pela baixa política como “direito adquirido” criou a moeda básica com que mestre Lula tratou de comprar seu esquema absoluto de poder contratando a desarrumação absoluta das finanças públicas que a Lei de Responsabilidade Fiscal pisoteada por Dilma conseguiu deter por alguns anos.

O resultado é que não tem jeito simples de consertar o que fizeram com o Brasil. Vai doer. Vai demorar. E muito. A descrição didática de como chegamos a isso, bilhão por bilhão, ainda que evitando o tom revanchista, é parte indescartável do mapa da saída. O tamanho da crise e da dor do povo serão os únicos trunfos de Temer. É a ele e só a ele que um governo de salvação nacional tem de se dirigir com a verdade, nada mais que a verdade, e muito, muito didatismo, negociando ao vivo cada costura política do processo. Se convencer o povo da sinceridade de seu diagnóstico e de seus propósitos, mostrando onde foi parar e para onde deveria retornar o dinheiro desviado da sustentação da economia nacional para a sustentação de um esquema de poder, o Congresso virá atras e estará transferida a quem atrapalhar queira o risco de postar-se à frente das saídas que a multidão dos desesperados comprar como as possíveis.

Eça e Machado nos previram

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Não há princípio que não seja desmentido nem instituição que não seja escarnecida. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos, abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta a cada dia. A agiotagem explora o juro. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. O número de escolas é dramático. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. Não é uma existência; é uma expiação. Diz-se por toda parte: ‘O país está perdido!’(...) Por isso, aqui começamos a apontar o que podemos chamar de ‘o progresso da decadência’.


Não fui eu quem escreveu isso. Foi José Maria da Eça de Queiroz, em 1871. Esta era a introdução de “As Farpas”, que lançou com Ramalho Ortigão, ainda em Coimbra. Tinha pouco mais de 20 anos quando começou a esculachar em panfletos a mediocridade portuguesa no século XIX, que nos legou esta herança lamentável aqui em casa. Nada mais parecido conosco. Tudo que explode hoje já despontava há cem anos aqui e em Portugal, do qual somos uma xerox administrativa.

Esses textos de Eça, reunidos sob o título de “Uma Campanha Alegre”, foram justamente os primeiros que me caíram na mão. Fiquei deslumbrado com a crítica social e de costumes. Não sabia que isso existia – eu era um menino. Creio que minha vida de jornalista de TV, rádio e jornal foi remotamente influenciada por ele. Eça me dava a alma viva do século XIX, atacando a estupidez endêmica, os sebastianistas de secretaria, os burocratas pulhas, os políticos demagogos, a burrice épica de um Pacheco ou do conde de Abranhos – que fartura! Era uma sociologia ficcional de nosso destino de fracassados. Até hoje, quando vejo a TV Câmara ou a TV Senado, aquelas ricas jazidas de imbecilidades, vendo as caras, frases e gravatas, eu ainda penso: “Será que esses caras aí nunca leram Eça de Queiroz?” Não. Nada. Eles navegam intocados em sua vaidade estúpida, em sua impávida escrotidão.

Eça seria um grande cronista do momento no Brasil. O mundo ficou claro, por meio das personagens de Eça. Ali estavam explicados os arrepios de horror diante do teatrinho pequeno-burguês do Brasil. Já imaginaram como Eça descreveria as dezenas de caras “lombrosianas” que sujaram nossas TVs na hora da votação? Machado de Assis também descreveu a mesquinhez de nossa vida política. Mas Machado era mais sutil na descrição de nossos malfeitos de época. Eça era propositadamente mais “grosso”, digamos.

Entre Machado de Assis e Eça de Queiroz, sempre preferi o português a nosso grande mulato. “Ah... porque o Machado é bem mais sutil!...”, diz-se, comparando-se, por exemplo, Capitu à Luísa do “Primo Basílio” (que o próprio Machado, ciumento, acusou de plágio da “Eugenie Grandet”). “Aaah!... porque o Machado tem mais níveis de significação, mais complexidade psicológica etc.”. É verdade. Hoje, eu também acho. O grande Machado atingiu subtons que Eça nem tentou, por escolha. Machado é mais inglês (Sterne, Dickens); Eça é saído das costelas de Balzac e Zola e funda uma literatura caricatural contra as perdidas ilusões ibéricas, com um riso deslavado, com uma proposital “falta de sutileza” que resulta depois finíssima. Eça cria um realismo quase carnavalizado, sem anseios de transcendência. Machado é mais “nauseado”. Deixa-se envolver por um pessimismo que o claro riso de Eça recusa. O “tipo” eciano não tem grande “complexidade”; mas isso talvez seja o que nossa mediocridade social merece. Ele não cria personagens com uma psicologia sofisticada. Para ele, somos mesmo “tipos”. Como em seu neto Nelson Rodrigues, há nele uma superficialidade “profunda”, muito atual neste tempo em que os valores idealizados caíram no chão. Eça é um escritor político.

Quando comecei a ler Eça, minha vida mudou. Era como se toda a névoa confusa da infância, minha família difícil de entender, vagas tias, rezas, tristes salas de jantar, secos padres jesuítas, tivesse subitamente se dissipado. O primo Basílio chegava com sua vaidade brutal e encarnava os cafajestes brasileiros, o padre Amaro me decifrava a tristeza sexual das clausuras do Colégio Jesuíta, o conselheiro Acácio era a burrice solene de professores e políticos, Damaso Salcêde espelhava centenas de mediocridades gorduchas, Gonçalo Ramirez era o frágil caráter de hesitantes como eu. E vinha Thomaz de Alencar com sua literatice melancólica, vinha o banqueiro Cohen, esperto e corno, flutuava no ar o cheiro enjoado da Titi Patrocínio da “Relíquia”, sem falar no supremo frisson do famoso “minette” do primo Basílio na “Bovary” Luísa. Já imaginaram que circo de caricaturas Eça faria do adunco focinho de Cunha, do Lobão de negros cabelos, do Delcídio de brancos cabelos, da “vaselínica” figura de Renan de novos cabelos, do incorrigível Collor, do jaquetão do Sarney, dos olhinhos do Cerveró e tantas outras carantonhas? Nossos olhos estão mais críticos.

Esse homem foi a maior paixão de minha vida. Com ele aprendi tudo: minha pobre escritura, o ritmo de seu texto, a importância do humor, do sarcasmo e muito sobre nossa ridícula loucura ibérica.

Eu amava-o tanto que – acreditem – me postava na porta do colégio na hora da saída para ver passar um homenzinho da vizinhança ali de Botafogo que era um sósia de Eça. Quem seria? Um bancário, um contador, quem? Tinha o rosto enfezado por um fígado ruim (como o Eça), que lhe franzia a boca num escárnio risonho. Tinha a mesma pastinha de cabelo sobre a testa curta, o olho rútilo, o mesmo bigode, o gogozinho de pássaro, os braços de cegonha, a palidez biliosa. Só lhe faltava o monóculo cravado no olho irônico. Vê-lo passar me encantava como diante de um ressuscitado. Em vez de correr atrás de meninas, eu fazia isso. Pode?

Dois momentos constrangedores

O ministério inteiro dos notáveis estava perfilado na sala ao lado do gabinete presidencial quando o primeiro-secretário da Câmara atravessou, a pé, a Praça dos Três Poderes, para levar ao presidente Fernando Collor a comunicação de que estava afastado do poder por 180 dias. O chefe do governo, com dignidade, chamou o ministro da Justiça, Célio Borja, para testemunhar sua assinatura no comunicado. Dirigiu-se então para a rampa do palácio do Planalto, de onde acompanhado pela esposa embarcou num helicóptero da FAB para sua residência particular. Uma amarga solenidade, mas impecável e cheia de significado.

Na noite de amanhã ou quinta-feira, bem cedo, irá repetir-se o episódio? Vinte anos atrás as manifestações populares de apoio ao afastamento do presidente foram por ele enfrentadas com altivez, seguindo-se depois a posse de Itamar Franco, cujo curto pronunciamento foi marcado pela esperança de que os benefícios da civilização e da cultura viessem a se estender a todos os brasileiros.

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O senador encarregado de participar a Dilma o seu afastamento temporário cumprirá a obrigação em escassos momentos, mas Madame, como receberá o comunicado? Imagina-se que cercada pelo seu gabinete pessoal, mas jamais com o ministério ao lado. A maioria dos ministros escafedeu-se, fugindo da solidariedade necessária. Muitos estarão presentes na posse imediata de Michel Temer, de olho na composição do novo ministério.

Como à ainda presidente se destinará o palácio da Alvorada para o interregno, a pequena distância com o palácio do Planalto não se cumprirá pelo ar. Pequena caravana de limusines cobrirá o percurso, isso se a comunicação não acontecer na própria residência oficial.

Dois momentos constrangedores, de significado comum, mas o de agora vazio de conteúdo. A História só se repete como farsa. Assim como se previa que Collor não voltaria após os 180 dias de suspensão, da mesma forma se imagina que Madame não retornará. As causas são as mesmas: arrogância no desempenho das funções, presunção, truculência e falta de cuidados para com o Congresso, além de acusações de irregularidades no exercício do poder.

A partir de quinta-feira, começam as diferenças. Michel Temer ainda oscila entre as decisões a tomar. Hesita quanto a formar um ministério de notáveis e um bando de urubus impostos pelos partidos sequiosos de usufruir o poder.

A República à mercê do jogo político

A democracia brasileira é conduzida ao bel-prazer daqueles que dão as cartas no jogo político, e se isso ainda não estava claro, ficou explícito após a decisão do presidente interino da Câmara dos Deputados de anular a votação do impeachment de Dilma Rousseff na casa.

O processo foi acolhido pela Câmara dos Deputados sob a regência de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que declarou guerra ao governo quando passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. Assim, Cunha fez o impeachment avançar de forma acelerada e inexorável, e quando o processo já não estava mais em suas mãos, foi afastado da presidência da Câmara e de seu mandato como deputado, por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de usar o cargo para impedir investigações contra ele.


Charge (Foto: Amarildo)

E, apenas dois dias úteis após a saída de Cunha, seu substituto, o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), vira o processo do avesso e anula a votação do dia 17 de abril. Seu principal argumento é que os partidos não poderiam ter interferido no voto dos parlamentares. Ele tem razões pessoais para se queixar dessa prática, pois sofreu retaliação de seu partido por ter votado contra o impeachment.

E todo esse tumulto não deve passar de um susto. Na prática, nada muda. O Senado já anunciou que vai manter o cronograma do impeachment, com votação prevista para esta quarta-feira (11/5). E mesmo que a votação na Câmara venha a ser anulada, uma segunda votação provavelmente teria o mesmo resultado, isto é, a decisão de Maranhão apenas protela o processo.

Tanto os argumentos para a abertura do processo de impeachment quanto para a anulação da votação são fracos e parecem apenas servir de pretexto para satisfazer interesses próprios. Independentemente de se concordar ou não com o processo de impeachment, o que assusta é os rumos da República estarem à mercê das vontades de políticos deste ou daquele grupo.

O que assusta é um processo tão importante como o afastamento de um presidente da República não transcorrer de forma objetiva, neutra e juridicamente fundamentada, mas estar sujeito aos ânimos de quem esteja sentado numa posição-chave, seja um aliado ou um opositor do governo.

E isso dá uma resposta clara àqueles que se perguntam se as instituições democráticas brasileiras são maduras. A resposta é não.

Francis França, editora-chefe da DW Brasil

Waldir Maranhão é o haraquiri do modelo podre

A situação do Brasil não está para otimismo. Mesmo assim, uma das frases mais ouvidas do momento é a seguinte: “As instituições estão funcionando.” Será? Há um quê de delírio nessa afirmação. A presença do deputado Waldir Maranhão no comando da Câmara é a penúltima evidência da alucinação coletiva.

Alguém que, em meio à descoberta de que o petrolão é um mensalão hipertrofiado, diante da evidência de que o Estado é saqueado pelos esquemas que o controlam, seduzido pela tese de que o PMDB é o mal menor, informado de que a linha sucessória da Presidência da República está apinhada de malfeitores, desalentado pela constatação de que Waldir Maranhão é o melhor que a Câmara tem a oferecer depois que o STF afastou Eduardo Cunha, ainda consegue conviver com a ideia de que as instituições funcionam ou é um cínico ou é um cego.

O delírio é contagioso. Muito elogiado pela eloquência com que defende Dilma Rousseff no processo do impeachment, o advogado-geral José Eduardo Cardozo convenceu-se de que é uma espécie de Fred Astaire do Direito. Assim como o astro do cinema que dançava até com vassouras, Cardozo imaginou que poderia tirar para dançar Waldir Maranhão, uma espécie de cabide humano que reproduz as ideias que lhe penduram no cérebro baldio.

O resultado da contradança foi o despacho que o mandachuva interino da Câmara assinou para anular a votação em que 367 deputados aprovaram a continuidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. O acinte durou menos de 24 horas. Anunciada pela manhã, a anulação foi ignorada por Renan Calheiros no meio da tarde e revogada no final da noite. Depois de expor o Brasil ao ridículo em âmbito planetário, o cabide se autodesmoralizou com dois documentos. Num, anulou a anulação do impeachment. Noutro, comunicou o rodopio a Renan (veja abaixo os documentos).

Waldir Maranhão deixou Cardozo sozinho no salão depois que seu partido, o PP, ameaçou expulsá-lo. Lambuzada no óleo queimado da Petrobras, a legenda está na bica de ser premiada no provável governo de Michel Temer com a presidência da Caixa Econômica e dois ministérios graúdos — Saúde e Agricultura. E não admite que um filiado com miolos de cabide coloque em risco os negócios.

A anulação do impeachment não foi o primeiro surto de Waldir Maranhão. Ele especializou-se em anular decisões do Conselho de Ética da Câmara, retardando a tramitação do pedido de cassação de Eduardo Cunha, perto de completar aniversário de seis meses. Cada vez que o personagem dá uma de cachorro louco há vergonha em pelo menos 428 consciências. Foi com essa quantidade de votos que o impensável elegeu-se vice-presidente da Câmara. Poucas vezes um desastre político teve tantos cúmplices disfarçados —83,4% dos 513 deputados com assento no plenário da Câmara precisam explicar por que votaram tão mal tão bem.

Ainda não surgiu melhor definição para democracia do que a tirada de Churchill: é o pior regime imaginável com exceção de todos os outros. Com o luxuoso auxílio do Planalto, o Congresso parece empenhado em dar razão a todos os que pregam as alternativas piores. A presença de Waldir Maranhão na direção da Câmara como alternativa a Eduardo Cunha não é obra do acaso. É como se o modelo político brasileiro, apodrecido, tentasse um haraquiri.

Dilma, golpista, faz do cargo privada

Palácio do Planalto não é casa da mãe Joana, auditório do PT ou salão de prostíbulo. A "ocupação" dessa segunda-feira com a camarilha petista, é mais uma esculhambação com o país orquestrada por Dilma Rousseff. Como fechou os olhos aos assaltos aos cofres públicos pelos companheiros petistas, a senhora honesta também não vê a invasão do palácio, propriedade do Brasil, não sua ou de organizações sociais. Até se regala em ter súditos tão fiéis a bom soldo para festejar esse poder de uma rainha louca.

Se não fosse estar sendo acusada das pedaladas fiscais, ainda à beira de deixar a presidência, Dilma comete um crime em flagrante delito ao permitir que hordas mercenárias tome de assalto o palácio.


A defesa do Planalto não é patriotada. Representa o poder máximo de um país. Invasões de palácios só se realizam em golpes. Em lugar nenhum do mundo, mesmo sob ditaduras, palácios presidenciais ou reais serão desrespeitados por bagunceiros, sob a cumplicidade de um chefe de Estado. Seja Barack Obama ou Kim-Jon Il, mesmo que entre suas paredes se trame miséira para o povo, o palácio do Poder representa o respeito que se dá à própria nação e ao representante que lá está.

O gesto de Dilma, ao reiteradamente permitir que o palácio seja palco de suas representações, configura o máximo desrespeito ao país. É o incentivo a que pilantras mascarados de democratas, sem nenhuma representação popular, instalem o caos a favor de uma petralhada corrupta, desonesta e medíocre.

Se tanto alardeia que o impeachment é golpe, deveria ser expulsa a pontapés do palácio só por promover as tais manifestações naquele prédio. E não seria pena máxima, porque não se faz de um prédio de todos um circo de uns poucos canalhas.

Dilma assina a biografia de seus últimos dias no governo como usurpadora e golpista. Está fazendo o diabo como prometeu na campanha para assegurar o continuísmo do desastre. E extrapola todo o respeito que a própria presidência tem que ter com o público. Faz do cargo uma privada para todos os seus desvarios. Merece o que está colhendo.

Desespero ultrapassa limite

Charge (Foto: Miguel)
Se vende a imagem de que sairia “lutando” e “com dignidade”, conforme seus assessores espalharam à medida em que seu afastamento se tornou inexorável, Dilma Rousseff apelou a uma farsa perigosa em sua última tentativa de manter-se na cadeira.


Usar o inacreditável Waldir Maranhão como marionete de uma artimanha jurídica que parece ter curtíssima validade e alto poder de disrupção demonstra que o desespero da petista ultrapassou o limite do direito ao esperneio.

O dólar disparou e a Bolsa de Valores despencou, para ficar nos sinais mais evidentes e superficiais da confusão armada. Mas o que fica é algo pior para a imagem do país: o flerte com a baderna institucional.

Pelas informações iniciais da Mesa da Câmara, parece não haver como um recurso desses prosperar, por soberano o plenário.

Fora o óbvio: dizer que 367 deputados votaram contra Dilma com um cabresto imposto pela orientação partidária é despropositado. Há muito a criticar no comportamento dos parlamentares naquele dia 17 de abril, mas certamente ninguém votou com uma arma na cabeça.

Como agravante, Dilma se fez de desentendida em discurso no começo da tarde. Se há alguma tentativa de golpe no país, como choramingam os petistas, ele passa por esse tipo de ação contra a normalidade institucional.

Por estarmos numa República que insiste em sua vocação bananeira, tudo parece possível, e novamente o Supremo Tribunal Federal deverá ser instado a imiscuir-se em questões de outro Poder – desta vez por culpa de um terceiro, o Executivo.

Nessas horas ganha atualidade a famosa frase de um embaixador brasileiro em Paris que é atribuída incorretamente ao presidente francês Charles de Gaulle: o Brasil não é um país sério.
Igor Gielow

Fazendo sua parte

Ao invés de reclamar que os outros não catam lixo, eu mesmo recolho detritos. Não reclamo que o mundo está mal no que diz respeito ao meio ambiente. Eu planto e cuido das minhas árvores
Domingos Pellegrini