quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Quando entramos em colapso?
Pode-se estranhar a pergunta, uma vez que ouvimos diariamente que a civilização tem avançado e que novas tecnologias nos trarão glórias ainda maiores. A segunda afirmação é questionável, pois todas as novidades trazem aspectos positivos e negativos, raramente devidamente ponderados. A primeira é puramente ideológica, pois não se define nem se mede o “avanço” de uma civilização.
Não obstante, são muitos os casos de antigas civilizações que colapsaram. Será que seus habitantes também e equivocadamente se autodenominavam sapiens? A crença de que “desta vez somos diferentes” é pura propaganda, como resume o dito popular: “quanto maior o pau maior o tombo”!
Eric Cline analisou o colapso simultâneo das “avançadas” civilizações da Idade do Bronze Recente: hititas, egípcios, Grécia micênica, cipriotas e várias outras, todas elas localizadas no mediterrâneo oriental e no que hoje chamamos oriente médio. Como o fato ocorreu no início do século XII AC, é impossível estabelecer uma razão única para explicar o colapso. As evidências arqueológicas mostram com clareza que o processo foi longo, violento e de grande sofrimento. Quais fatores levaram ao colapso?
Vários, cada um com diferentes pesos, conforme o analista. À época a região foi afetada por fortes terremotos, e razões ainda não esclarecidas interromperam a intensa globalização então vigentes, com comércio internacional e grande complexidade nas relações econômicas e políticas. Cartas trocadas – em idiomas há muito restritos a especialistas – entre diferentes faraós e reis mostram cooperação, disputa, alianças, traições, erros e acertos de estratégias comerciais e militares, evidenciando a intensa troca de produtos e ideias.
Outro fator importante foi – pasmem os incrédulos de hoje! – mudança climática! Sim, não só cartas de contemporâneos informavam da seca e da fome; registros de carbono e análises recentes de sedimentos de pólen em lagos e outras estruturas atestam a seca, ou melhor, a mega seca de décadas ocorrida então! Alguma dita “potência agrícola” atual, seja o Brasil, os EUA ou a Ucrânia, resistiria a uma seca de 20, 30 anos ou mais? Como ficaria o “agribusiness” diante de um tal fato? Mesmo sem seca ou mega seca nossas tecnologias e instituições não conseguem acabar com a fome; como se comportarão em tal calamidade? E como reagirá a população faminta?
Muitos dos fatores que levaram ao colapso repetem-se hoje, com maior ou menor força. Um deles é a visão limitada dos líderes, apontado por uns e questionado por outros. Já a civilização atual é dirigida por pessoas que só enxergam e agem em razão do próximo ciclo eleitoral – ou, no caso dos dirigentes corporativos, o resultado do trimestre. Assim, os arqueólogos do futuro, ao analisarem os escombros do nosso mais ou menos iminente colapso, saberão eles dar o devido peso à limitadíssima visão dos que nos governam?
Não obstante, são muitos os casos de antigas civilizações que colapsaram. Será que seus habitantes também e equivocadamente se autodenominavam sapiens? A crença de que “desta vez somos diferentes” é pura propaganda, como resume o dito popular: “quanto maior o pau maior o tombo”!
Eric Cline analisou o colapso simultâneo das “avançadas” civilizações da Idade do Bronze Recente: hititas, egípcios, Grécia micênica, cipriotas e várias outras, todas elas localizadas no mediterrâneo oriental e no que hoje chamamos oriente médio. Como o fato ocorreu no início do século XII AC, é impossível estabelecer uma razão única para explicar o colapso. As evidências arqueológicas mostram com clareza que o processo foi longo, violento e de grande sofrimento. Quais fatores levaram ao colapso?
Vários, cada um com diferentes pesos, conforme o analista. À época a região foi afetada por fortes terremotos, e razões ainda não esclarecidas interromperam a intensa globalização então vigentes, com comércio internacional e grande complexidade nas relações econômicas e políticas. Cartas trocadas – em idiomas há muito restritos a especialistas – entre diferentes faraós e reis mostram cooperação, disputa, alianças, traições, erros e acertos de estratégias comerciais e militares, evidenciando a intensa troca de produtos e ideias.
Outro fator importante foi – pasmem os incrédulos de hoje! – mudança climática! Sim, não só cartas de contemporâneos informavam da seca e da fome; registros de carbono e análises recentes de sedimentos de pólen em lagos e outras estruturas atestam a seca, ou melhor, a mega seca de décadas ocorrida então! Alguma dita “potência agrícola” atual, seja o Brasil, os EUA ou a Ucrânia, resistiria a uma seca de 20, 30 anos ou mais? Como ficaria o “agribusiness” diante de um tal fato? Mesmo sem seca ou mega seca nossas tecnologias e instituições não conseguem acabar com a fome; como se comportarão em tal calamidade? E como reagirá a população faminta?
Muitos dos fatores que levaram ao colapso repetem-se hoje, com maior ou menor força. Um deles é a visão limitada dos líderes, apontado por uns e questionado por outros. Já a civilização atual é dirigida por pessoas que só enxergam e agem em razão do próximo ciclo eleitoral – ou, no caso dos dirigentes corporativos, o resultado do trimestre. Assim, os arqueólogos do futuro, ao analisarem os escombros do nosso mais ou menos iminente colapso, saberão eles dar o devido peso à limitadíssima visão dos que nos governam?
Obscenidade governamental
Havia algo de obsceno no espetáculo de sua ostensiva ganância. Havia algo aterrorizante no rompimento da relação de confiança entre o povo e os representantes políticos que haviam eleito, o povo e o servidor público a quem pagavam para proteger seus direitos fundamentais
Morris West, " Do alto da montanha"
Morris West, " Do alto da montanha"
Em defesa do Estado
Sociedades civilizadas dependem das instituições. Quanto mais complexa a sociedade, mais vital são essas instituições. Instituições proporcionam estabilidade, previsibilidade e segurança. Empresas, escolas, universidades e tribunais são instituições. No entanto, as instituições mais importantes são as do Estado. É por isso que a ofensiva de Donald Trump contra o que seus apoiadores de forma enganosa chamam de “o Estado profundo” é tão perigosa. Alguns deles acreditam que o Estado deveria ser servil aos caprichos do grande líder. Outros acham que deveria estar a serviço dos mais ricos. Ambos esses lados concordam que a capacidade do Estado de atender às necessidades do grande público é de pouca importância. Esses pontos de vista são perigosos. Prenunciam autocracia, plutocracia e disfunção.
Em uma importante série de artigos, “Valuing the Deep State” (Valorizando o Estado profundo, em inglês), Francis Fukuyama, de Stanford, examina por que a evisceração do Estado se mostrará tão destrutiva. Fukuyama devotou grande parte dos últimos 20 anos para explicar que “um Estado de alta capacidade, profissional e impessoal, é crucial para o sucesso de qualquer sociedade”, inclusive, notavelmente, as democracias modernas liberais. Esse ponto de vista é abominado por muitos americanos: eles veem o Estado - ou simplesmente o “governo” - como o inimigo.
No entanto, qualquer um que tenha trabalhado na área de desenvolvimento econômico, como eu, sabe que, sem um serviço público neutro, competente e profissional, nada na sociedade realmente funciona. Quanto mais complexa e refinada uma sociedade e economia moderna se torna, mais isso é verdadeiro. Como Fukuyama observa acertadamente, o sucesso extraordinário das economias do Leste da Ásia se deve em grande medida ao fato de que eles entenderam como administrar esse Estado muito antes do que o Ocidente. Ainda mais relevante, ele argumenta que uma “democracia bem-sucedida [...] precisa de um Estado que seja restringido pelo Estado de Direito e pela prestação de contas democrática”.
Nos EUA, a criação de um Estado como esse começou em 1883, argumenta Fukuyama, com a Lei Pendleton, que criou a Comissão de Serviço Civil e estabeleceu critérios baseados no mérito para as contratações e as promoções no serviço federal. Isso é o que o governo Trump - ou, como rotula o historiador Timothy Snyder, o “governo Mump”, para dar o devido crédito ao papel singular desempenhado por Elon Musk - deseja derrubar.
Como explica Fukuyama, o sistema burocrático dos EUA está longe de ser perfeito. O problema, porém, não é, como argumentam os críticos de direita, o fato da delegação de decisões. Alguém imagina que decisões técnicas sobre a segurança das aeronaves ou dos medicamentos, os controles de poluentes perigosos ou a gestão do lixo nuclear deveria ser decidida, em seus detalhes, por parlamentares? Obviamente, decisões desse tipo precisam ser delegadas a especialistas qualificados. A noção de que, em vez disso, elas deveriam ser decididas por pessoas cuja principal qualificação é a lealdade cega ao grande chefe é absurda.
Você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos
A realidade é que essas “reformas” não têm nada a ver com tornar o governo mais eficiente. O objetivo é, na verdade, tornar “Mump” todo-poderoso. O jogo foi revelado pelo próprio J. D. Vance, segundo o qual, se Trump voltasse a vencer a presidência em 2024, ele deveria “demitir todos os burocratas de nível médio, todos os funcionários públicos do Estado administrativo, substituí-los por nossa gente [...]”. “E quando os tribunais te impedirem, apresente-se diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente da Suprema Corte de Justiça tomou sua decisão. Agora, deixe-o [tentar] aplicá-la’”. Até aí, portanto, chegou a noção de que os EUA são “um governo de leis, não de homens”. Isso é um golpe.
Esse esforço também não vai transformar as contas públicas. No acumulado do ano fiscal de 2025 até agora, 78% dos gastos federais foram feitos pela previdência social, saúde, defesa, segurança de renda, benefícios para veteranos e juros líquidos. Musk diz que a Doge pode economizar US$ 2 trilhões ao ano. Com gastos de 2024 na faixa de US$ 6,8 trilhões, isso parece absurdo.
Em suma, você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos, como Anne Applebaum observa, são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos. Os benefícios são claros: isso permitirá que os responsáveis usem os poderes do governo para processar “inimigos”, intimidar jornalistas, espalhar mentiras, ignorar a ciência e atacar governos estaduais e municipais que saiam da linha, se necessário à força. E quanto ao Estado de Direito? Vance já disse o que pensa dessa ideia. O objetivo, então, é transformar os EUA em uma ditadura plebiscitária, na qual o detentor do poder é rei. Essa revolução será compatível com eleições justas no futuro? É preciso ter dúvidas quanto a disso.
Afinal, grande parte de tudo isso será irreversível. Uma vez que a lealdade substitua a integridade e as mentiras substituam a verdade, o caminho de volta será longo. Uma vez que você demita servidores públicos competentes e honestos, com que facilidade você encontrará pessoas similares no futuro? Os serviços de inteligência, os de dados e os de análises científicas dos EUA eram referências mundiais. Quanto disso sobreviverá? Um dos testes para o emprego será se alguém aceita a mentira de que Trump venceu em 2020. Provavelmente, apenas concordarão os carreiristas e os fanáticos do movimento “Maga” (Make America Great Again).
Se o tipo de Estado elogiado por Fukuyama for substituído pelo que se pretende agora, é inevitável o surgimento de uma mistura venenosa de incompetência, predação e corrupção. Entre as características prejudiciais estará o que Daniel Kaufmann, pesquisador sênior da organização sem fins lucrativos Results for Development, chama de “captura do Estado” - a exploração do poder por aqueles que são capazes não apenas de dobrar as regras, mas de criá-las, para seu próprio benefício. Para um país de alta renda, os EUA já estão relativamente capturados. Isso, contudo, está prestes a piorar, agora que as regras de proteção à independência dos funcionários públicos estão por ser abolidas.
O que está acontecendo é destruição, não reforma. Não importa o que tenham dito a eles, os americanos comuns não se beneficiarão do caos. Mas sabemos quem vai se beneficiar.
Em uma importante série de artigos, “Valuing the Deep State” (Valorizando o Estado profundo, em inglês), Francis Fukuyama, de Stanford, examina por que a evisceração do Estado se mostrará tão destrutiva. Fukuyama devotou grande parte dos últimos 20 anos para explicar que “um Estado de alta capacidade, profissional e impessoal, é crucial para o sucesso de qualquer sociedade”, inclusive, notavelmente, as democracias modernas liberais. Esse ponto de vista é abominado por muitos americanos: eles veem o Estado - ou simplesmente o “governo” - como o inimigo.
No entanto, qualquer um que tenha trabalhado na área de desenvolvimento econômico, como eu, sabe que, sem um serviço público neutro, competente e profissional, nada na sociedade realmente funciona. Quanto mais complexa e refinada uma sociedade e economia moderna se torna, mais isso é verdadeiro. Como Fukuyama observa acertadamente, o sucesso extraordinário das economias do Leste da Ásia se deve em grande medida ao fato de que eles entenderam como administrar esse Estado muito antes do que o Ocidente. Ainda mais relevante, ele argumenta que uma “democracia bem-sucedida [...] precisa de um Estado que seja restringido pelo Estado de Direito e pela prestação de contas democrática”.
Nos EUA, a criação de um Estado como esse começou em 1883, argumenta Fukuyama, com a Lei Pendleton, que criou a Comissão de Serviço Civil e estabeleceu critérios baseados no mérito para as contratações e as promoções no serviço federal. Isso é o que o governo Trump - ou, como rotula o historiador Timothy Snyder, o “governo Mump”, para dar o devido crédito ao papel singular desempenhado por Elon Musk - deseja derrubar.
Como explica Fukuyama, o sistema burocrático dos EUA está longe de ser perfeito. O problema, porém, não é, como argumentam os críticos de direita, o fato da delegação de decisões. Alguém imagina que decisões técnicas sobre a segurança das aeronaves ou dos medicamentos, os controles de poluentes perigosos ou a gestão do lixo nuclear deveria ser decidida, em seus detalhes, por parlamentares? Obviamente, decisões desse tipo precisam ser delegadas a especialistas qualificados. A noção de que, em vez disso, elas deveriam ser decididas por pessoas cuja principal qualificação é a lealdade cega ao grande chefe é absurda.
Você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos
A realidade é que essas “reformas” não têm nada a ver com tornar o governo mais eficiente. O objetivo é, na verdade, tornar “Mump” todo-poderoso. O jogo foi revelado pelo próprio J. D. Vance, segundo o qual, se Trump voltasse a vencer a presidência em 2024, ele deveria “demitir todos os burocratas de nível médio, todos os funcionários públicos do Estado administrativo, substituí-los por nossa gente [...]”. “E quando os tribunais te impedirem, apresente-se diante do país, como Andrew Jackson fez, e diga: ‘O presidente da Suprema Corte de Justiça tomou sua decisão. Agora, deixe-o [tentar] aplicá-la’”. Até aí, portanto, chegou a noção de que os EUA são “um governo de leis, não de homens”. Isso é um golpe.
Esse esforço também não vai transformar as contas públicas. No acumulado do ano fiscal de 2025 até agora, 78% dos gastos federais foram feitos pela previdência social, saúde, defesa, segurança de renda, benefícios para veteranos e juros líquidos. Musk diz que a Doge pode economizar US$ 2 trilhões ao ano. Com gastos de 2024 na faixa de US$ 6,8 trilhões, isso parece absurdo.
Em suma, você não torna um sistema complexo mais “eficiente” cortando-o de forma aleatória. No entanto, você pode, sim, aterrorizar seus funcionários. Portanto, os verdadeiros objetivos, como Anne Applebaum observa, são a intimidação e a substituição de servidores públicos genuínos por discípulos. Os benefícios são claros: isso permitirá que os responsáveis usem os poderes do governo para processar “inimigos”, intimidar jornalistas, espalhar mentiras, ignorar a ciência e atacar governos estaduais e municipais que saiam da linha, se necessário à força. E quanto ao Estado de Direito? Vance já disse o que pensa dessa ideia. O objetivo, então, é transformar os EUA em uma ditadura plebiscitária, na qual o detentor do poder é rei. Essa revolução será compatível com eleições justas no futuro? É preciso ter dúvidas quanto a disso.
Afinal, grande parte de tudo isso será irreversível. Uma vez que a lealdade substitua a integridade e as mentiras substituam a verdade, o caminho de volta será longo. Uma vez que você demita servidores públicos competentes e honestos, com que facilidade você encontrará pessoas similares no futuro? Os serviços de inteligência, os de dados e os de análises científicas dos EUA eram referências mundiais. Quanto disso sobreviverá? Um dos testes para o emprego será se alguém aceita a mentira de que Trump venceu em 2020. Provavelmente, apenas concordarão os carreiristas e os fanáticos do movimento “Maga” (Make America Great Again).
Se o tipo de Estado elogiado por Fukuyama for substituído pelo que se pretende agora, é inevitável o surgimento de uma mistura venenosa de incompetência, predação e corrupção. Entre as características prejudiciais estará o que Daniel Kaufmann, pesquisador sênior da organização sem fins lucrativos Results for Development, chama de “captura do Estado” - a exploração do poder por aqueles que são capazes não apenas de dobrar as regras, mas de criá-las, para seu próprio benefício. Para um país de alta renda, os EUA já estão relativamente capturados. Isso, contudo, está prestes a piorar, agora que as regras de proteção à independência dos funcionários públicos estão por ser abolidas.
O que está acontecendo é destruição, não reforma. Não importa o que tenham dito a eles, os americanos comuns não se beneficiarão do caos. Mas sabemos quem vai se beneficiar.
Não em meu nome: contra a racialização da moralidade
Nas últimas semanas, tivemos uma amostra impressionante do que significa "dobrar a aposta" quando se trata das estratégias de assédio identitário. De costas quentes, agora que uma corte de Justiça afirmou que o racismo é o único crime exclusivo de uma raça –uma vez que só os brancos podem cometê-lo–, militantes identitários começam a se sentir confortáveis para dar uma justificativa biológica e genética à sua glorificação do ressentimento e aos seus atos de revanche.
Primeiro, veio o caso de Maria Rita Kehl, atacada por fazer uma crítica progressista ao peculiar gosto identitário pelo monopólio da fala autorizada, sobretudo quando se trata de veredictos e libelos de condenação. Foi desqualificada por associação genética. A conclusão da turba que a linchou foi que ela carrega um pecado imperdoável: um antepassado. Diferentemente do pecado original religioso, esse nunca será redimido; sua biologia a condena à condição perpétua de penitente.
Na semana seguinte, foi a vez de Walter Salles Jr., denunciado e condenado pelo pecado de nascer branco, portanto, pertencente à linhagem dos escravocratas. Quem o disse com todas as letras foi uma coluna publicada no jornal Estado de Minas. O artigo é um exercício explícito de racialização e essencialização moral. A autora sustenta que, ao olhar para o rosto do cineasta, enxerga apenas "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere" seus próprios ascendentes.
A lógica subjacente é a de que a moralidade e o caráter de um indivíduo podem ser inferidos de sua linhagem racial ou ancestral, estabelecendo uma equivalência automática entre a cor da pele de Salles, seus antepassados e uma culpa histórica impagável que, por isso mesmo, lhe pertence integralmente. Isso confere à autora o direito imediato e irrevogável de desprezá-lo.
A autora não vê um ser humano, mas um "herdeiro direto da desgraça", um representante não apenas dos escravocratas históricos, mas de toda uma raça e classe social beneficiária do racismo. A responsabilidade pela dor da autora não recai sobre sistemas e estruturas, mas sobre a identidade racial daquele indivíduo singular. Em outras palavras, a descendência biológica de uma pessoa se torna critério suficiente para julgá-la moralmente –exatamente o princípio que fundamenta todo pensamento racista.
Se tomarmos esse artigo como um exemplo do que o identitarismo tem produzido, identificamos claramente algumas de suas consequências mais problemáticas. Primeiro, a atribuição hereditária de culpa e moralidade. O artigo não julga indivíduos por suas ações, mas por suas origens raciais; lógica que historicamente foi utilizada para justificar discriminação e perseguição. Segundo, a demonização de um grupo com base na cor da pele. O indivíduo se resume aos seus traços fenotípicos e à sua ascendência, o que valida o princípio que sustentou a desumanização de grupos raciais no passado. Terceiro, o reforço de um binarismo racial que essencializa todos os conflitos sociais. O artigo apresenta um mundo rigidamente dividido entre opressores e oprimidos, fixos e organizados por raça, onde os indivíduos não valem pelo que fazem, mas pela linhagem racial a que pertencem.
Temos aqui uma versão da teoria da "raça infecta" ou "raça maldita". Salles seria um exemplar dessa raça moralmente degradada em todos os seus ascendentes e descendentes, merecedor, portanto, de todo o nojo, rancor e ressentimento. Cada indivíduo pertencente a essa raça exala o horrível odor da depravação moral de sua estirpe. Kehl e Salles são exemplares de uma raça, não pessoas.
O radicalismo, por mais nocivo que seja, tem uma característica notável em qualquer sociedade onde aparece e prospera: ele precisa ser alimentado. Primeiro, pela condescendência de quem tem legitimidade social, não é radical, mas simpatiza com "alguma coisa" que considera positiva no movimento. Depois, por quem pavimenta o caminho, justificando seus atos e, por fim, legalizando-o. E, nesse papel, professores, jornalistas e intelectuais têm se esmerado.
Tivesse recebido reprovação social em vez de justificativas, complacência e incentivos, dificilmente esse radicalismo teria chegado ao estágio de brutalidade social que, cedo ou tarde, todo extremismo costuma alcançar. Já passou da hora de cada democrata, progressista, pessoa que acredita em direitos humanos e respeito dizer que esse não é o caminho para construir uma sociedade aceitável.
E de afirmar, com todas as letras: "não em meu nome".
Primeiro, veio o caso de Maria Rita Kehl, atacada por fazer uma crítica progressista ao peculiar gosto identitário pelo monopólio da fala autorizada, sobretudo quando se trata de veredictos e libelos de condenação. Foi desqualificada por associação genética. A conclusão da turba que a linchou foi que ela carrega um pecado imperdoável: um antepassado. Diferentemente do pecado original religioso, esse nunca será redimido; sua biologia a condena à condição perpétua de penitente.
Na semana seguinte, foi a vez de Walter Salles Jr., denunciado e condenado pelo pecado de nascer branco, portanto, pertencente à linhagem dos escravocratas. Quem o disse com todas as letras foi uma coluna publicada no jornal Estado de Minas. O artigo é um exercício explícito de racialização e essencialização moral. A autora sustenta que, ao olhar para o rosto do cineasta, enxerga apenas "a descendência dos que torturaram, estupraram, açoitaram, mantiveram em cárcere" seus próprios ascendentes.
A lógica subjacente é a de que a moralidade e o caráter de um indivíduo podem ser inferidos de sua linhagem racial ou ancestral, estabelecendo uma equivalência automática entre a cor da pele de Salles, seus antepassados e uma culpa histórica impagável que, por isso mesmo, lhe pertence integralmente. Isso confere à autora o direito imediato e irrevogável de desprezá-lo.
A autora não vê um ser humano, mas um "herdeiro direto da desgraça", um representante não apenas dos escravocratas históricos, mas de toda uma raça e classe social beneficiária do racismo. A responsabilidade pela dor da autora não recai sobre sistemas e estruturas, mas sobre a identidade racial daquele indivíduo singular. Em outras palavras, a descendência biológica de uma pessoa se torna critério suficiente para julgá-la moralmente –exatamente o princípio que fundamenta todo pensamento racista.
Se tomarmos esse artigo como um exemplo do que o identitarismo tem produzido, identificamos claramente algumas de suas consequências mais problemáticas. Primeiro, a atribuição hereditária de culpa e moralidade. O artigo não julga indivíduos por suas ações, mas por suas origens raciais; lógica que historicamente foi utilizada para justificar discriminação e perseguição. Segundo, a demonização de um grupo com base na cor da pele. O indivíduo se resume aos seus traços fenotípicos e à sua ascendência, o que valida o princípio que sustentou a desumanização de grupos raciais no passado. Terceiro, o reforço de um binarismo racial que essencializa todos os conflitos sociais. O artigo apresenta um mundo rigidamente dividido entre opressores e oprimidos, fixos e organizados por raça, onde os indivíduos não valem pelo que fazem, mas pela linhagem racial a que pertencem.
Temos aqui uma versão da teoria da "raça infecta" ou "raça maldita". Salles seria um exemplar dessa raça moralmente degradada em todos os seus ascendentes e descendentes, merecedor, portanto, de todo o nojo, rancor e ressentimento. Cada indivíduo pertencente a essa raça exala o horrível odor da depravação moral de sua estirpe. Kehl e Salles são exemplares de uma raça, não pessoas.
O radicalismo, por mais nocivo que seja, tem uma característica notável em qualquer sociedade onde aparece e prospera: ele precisa ser alimentado. Primeiro, pela condescendência de quem tem legitimidade social, não é radical, mas simpatiza com "alguma coisa" que considera positiva no movimento. Depois, por quem pavimenta o caminho, justificando seus atos e, por fim, legalizando-o. E, nesse papel, professores, jornalistas e intelectuais têm se esmerado.
Tivesse recebido reprovação social em vez de justificativas, complacência e incentivos, dificilmente esse radicalismo teria chegado ao estágio de brutalidade social que, cedo ou tarde, todo extremismo costuma alcançar. Já passou da hora de cada democrata, progressista, pessoa que acredita em direitos humanos e respeito dizer que esse não é o caminho para construir uma sociedade aceitável.
E de afirmar, com todas as letras: "não em meu nome".
Como a mídia digital está (também) redefinindo a aprovação de Lula
Um debate interessante se estabeleceu no Brasil, com cientistas políticos tentando entender os baixos índices de aprovação do governo Lula. Pelo menos duas pesquisas importantes, Quaest e Datafolha, apresentaram índices de aprovação de 31%, em janeiro, e 24%, em fevereiro. Os números chamam a atenção em um contexto de relativa normalidade, sem uma grande crise política ou econômica, de fato, acontecendo.
A ciência política tem interpretado o fenômeno a partir de uma transformação histórica e como algo "estrutural", não de conjuntura. No passado, o apoio político era, em geral, explicado por questões econômicas, isto é, benefícios sociais e aumento da renda eram imediatamente transformados em altos índices de aprovação. Agora, há as questões pós-materiais ligadas às questões culturais e de identidade. No Brasil, o crescimento do protestantismo teria fortalecido a meritocracia e a responsabilidade individual, mudando a perspectiva sobre bens gerados pelo governo. O que antes era visto com gratidão, agora seria percebido como nada além de uma obrigação.
Do ponto de vista da comunicação política, gostaria de acrescentar outro elemento fundamental nessa equação: a transformação do ambiente midiático. A insatisfação sempre foi parte da democracia, mas sua organização e canalização se transformaram radicalmente com a ascensão da mídia digital. Antes, o jornalismo atuava como mediador da insatisfação, selecionando, enquadrando e direcionando as demandas populares. Agora, as mídias sociais e plataformas digitais permitem que a insatisfação flua de maneira mais autônoma, descentralizada e contínua.
Essa nova organização da insatisfação pode ajudar a entender por que a aprovação dos presidentes tem se tornado mais instável e, muitas vezes, mais baixa. Dados do Latinobarômetro mostram que a insatisfação com os governos é uma tendência consolidada na América Latina, onde a maioria dos presidentes enfrenta dificuldade em manter altos índices de aprovação e, principalmente, se reeleger. O tempo das "luas de mel" prolongadas com novos líderes parece ter acabado. Em países como Chile, Equador e Colômbia, presidentes recém-eleitos rapidamente enfrentaram grandes protestos e quedas de popularidade. Nos Estados Unidos, o fenômeno também se manifesta de forma evidente. Pela primeira vez na história moderna, dois presidentes consecutivos não conseguiram se reeleger: Donald Trump e Joe Biden. A popularidade de ambos os líderes foi impactada por um cenário de polarização intensa, amplificado pela dinâmica das mídias sociais.
Historicamente, presidentes no Brasil e nos Estados Unidos terminavam seus mandatos com taxas de aprovação relativamente altas. Dwight D. Eisenhower (59%), Ronald Reagan (63%) e Bill Clinton (66%) deixaram o cargo com forte apoio popular. No Brasil, tanto FHC quanto Lula mantiveram aprovações acima de 40% durante suas campanhas de reeleição. Em contraste, os presidentes na era digital lutam para manter a confiança do público. Donald Trump (34%) e Joe Biden (40%) terminaram com taxas de aprovação historicamente baixas nos EUA, enquanto Jair Bolsonaro no Brasil mal alcançou 38% em seu ano de reeleição, com taxas de desaprovação ultrapassando 50%. A mídia digital não apenas potencializa críticas e crises políticas, mas também redefine o que significa governar sob constante escrutínio público.
O Brasil se encaixa nesse padrão global de insatisfação elevada. A comparação com o passado sugere que os mesmos fatores que antes garantiam popularidade — como estabilidade econômica e benefícios sociais — já não são suficientes para manter altos índices de aprovação. Se o governo Lula enfrenta dificuldades mesmo sem uma grande crise econômica, isso está também relacionado à nova lógica da comunicação digital, que alimenta percepções de crise constante, acelera ciclos de indignação e reduz a paciência da sociedade com seus líderes.
O fenômeno da crescente insatisfação na era digital não significa necessariamente que a democracia esteja em risco, mas sugere que os padrões de governabilidade e popularidade precisam ser reavaliados. Em um ambiente onde a insatisfação não só é mais visível, mas também mais volátil e mobilizável, a política precisa encontrar novas formas de responder às demandas sociais sem depender exclusivamente de ciclos econômicos positivos. Caso contrário, veremos cada vez mais presidentes assumindo o cargo já desgastados, enfrentando aprovações baixas e dificuldades crescentes para manter o apoio popular.
A ciência política tem interpretado o fenômeno a partir de uma transformação histórica e como algo "estrutural", não de conjuntura. No passado, o apoio político era, em geral, explicado por questões econômicas, isto é, benefícios sociais e aumento da renda eram imediatamente transformados em altos índices de aprovação. Agora, há as questões pós-materiais ligadas às questões culturais e de identidade. No Brasil, o crescimento do protestantismo teria fortalecido a meritocracia e a responsabilidade individual, mudando a perspectiva sobre bens gerados pelo governo. O que antes era visto com gratidão, agora seria percebido como nada além de uma obrigação.
Do ponto de vista da comunicação política, gostaria de acrescentar outro elemento fundamental nessa equação: a transformação do ambiente midiático. A insatisfação sempre foi parte da democracia, mas sua organização e canalização se transformaram radicalmente com a ascensão da mídia digital. Antes, o jornalismo atuava como mediador da insatisfação, selecionando, enquadrando e direcionando as demandas populares. Agora, as mídias sociais e plataformas digitais permitem que a insatisfação flua de maneira mais autônoma, descentralizada e contínua.
Essa nova organização da insatisfação pode ajudar a entender por que a aprovação dos presidentes tem se tornado mais instável e, muitas vezes, mais baixa. Dados do Latinobarômetro mostram que a insatisfação com os governos é uma tendência consolidada na América Latina, onde a maioria dos presidentes enfrenta dificuldade em manter altos índices de aprovação e, principalmente, se reeleger. O tempo das "luas de mel" prolongadas com novos líderes parece ter acabado. Em países como Chile, Equador e Colômbia, presidentes recém-eleitos rapidamente enfrentaram grandes protestos e quedas de popularidade. Nos Estados Unidos, o fenômeno também se manifesta de forma evidente. Pela primeira vez na história moderna, dois presidentes consecutivos não conseguiram se reeleger: Donald Trump e Joe Biden. A popularidade de ambos os líderes foi impactada por um cenário de polarização intensa, amplificado pela dinâmica das mídias sociais.
Historicamente, presidentes no Brasil e nos Estados Unidos terminavam seus mandatos com taxas de aprovação relativamente altas. Dwight D. Eisenhower (59%), Ronald Reagan (63%) e Bill Clinton (66%) deixaram o cargo com forte apoio popular. No Brasil, tanto FHC quanto Lula mantiveram aprovações acima de 40% durante suas campanhas de reeleição. Em contraste, os presidentes na era digital lutam para manter a confiança do público. Donald Trump (34%) e Joe Biden (40%) terminaram com taxas de aprovação historicamente baixas nos EUA, enquanto Jair Bolsonaro no Brasil mal alcançou 38% em seu ano de reeleição, com taxas de desaprovação ultrapassando 50%. A mídia digital não apenas potencializa críticas e crises políticas, mas também redefine o que significa governar sob constante escrutínio público.
O Brasil se encaixa nesse padrão global de insatisfação elevada. A comparação com o passado sugere que os mesmos fatores que antes garantiam popularidade — como estabilidade econômica e benefícios sociais — já não são suficientes para manter altos índices de aprovação. Se o governo Lula enfrenta dificuldades mesmo sem uma grande crise econômica, isso está também relacionado à nova lógica da comunicação digital, que alimenta percepções de crise constante, acelera ciclos de indignação e reduz a paciência da sociedade com seus líderes.
O fenômeno da crescente insatisfação na era digital não significa necessariamente que a democracia esteja em risco, mas sugere que os padrões de governabilidade e popularidade precisam ser reavaliados. Em um ambiente onde a insatisfação não só é mais visível, mas também mais volátil e mobilizável, a política precisa encontrar novas formas de responder às demandas sociais sem depender exclusivamente de ciclos econômicos positivos. Caso contrário, veremos cada vez mais presidentes assumindo o cargo já desgastados, enfrentando aprovações baixas e dificuldades crescentes para manter o apoio popular.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
A guerra
A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
Como Trump está transformando os EUA na China dos anos 2000
Quando olho para a enxurrada de decretos e tarifas que o presidente Donald Trump emitiu desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos, tenho medo de estar assistindo à versão da vida real daquele comercial do Conselho de Planejadores Financeiros Certificados que tenta mostrar por que a especialização é realmente importante.
No comercial, um cirurgião entra em um quarto de hospital e conhece sua paciente. Primeiro, o médico a chama de Brenda e ela responde: "É Carol". Em seguida, o médico pergunta: "Então, em que perna estamos operando?" E ela responde: "Você quer dizer braço". O médico, então, tenta afastar sua preocupação dizendo: "Está tudo conectado".
Agora totalmente aterrorizada, a paciente finalmente pergunta ao cirurgião: "Tem certeza de que é um ortopedista?" O médico responde: "Na verdade, sou de Sagitário".
Perdoe meu ceticismo, mas tenho sérias dúvidas sobre o grau em que Trump e sua equipe de cirurgiões orçamentários realmente estudaram não apenas como implementar todos os cortes, tarifas, congelamentos e demissões que eles se apressaram em fazer, mas também os efeitos de longo prazo que eles terão sobre a governança, o comércio e os investimentos americanos como um todo.
De quem é o trabalho que estamos observando aqui? O de um cirurgião ou o de um sagitariano? Estamos vendo o desdobramento de um plano que foi testado e modelado durante meses, com todas as implicações totalmente compreendidas?
Ou o desdobramento de um guardanapo de papel do bar de Mar-a-Lago, com algumas ideias mal elaboradas esboçadas e, em seguida, uma discussão caótica entre Trump, seus assessores e lobistas sobre quais setores serão atingidos e quais serão poupados?
Vou optar pelo guardanapo. É difícil para mim dizer isso de uma maneira melhor do que um editorial do Wall Street Journal, normalmente pró-Trump, intitulado "A Guerra Comercial Mais Estúpida da História", que diz que "Trump imporá tarifas de 25% sobre o Canadá e o México sem nenhuma boa razão".
Mas as tarifas impulsivas de Trump —que ele parece anunciar e suspender por capricho— são sintomáticas de um desafio mais profundo para os fabricantes americanos sobre o qual quero escrever hoje: como as empresas americanas acompanham o ritmo da China nos setores do futuro, como inteligência artificial (IA), chips avançados, veículos elétricos, tecnologia limpa e carros autônomos, quando essas empresas estão constantemente sendo sacudidas por presidentes democratas e republicanos em um mundo em que precisam fazer apostas multibilionárias com cinco anos de antecedência. E elas precisam fazer essas apostas enquanto competem com a China, cujo regime acorda todos os dias e pergunta aos fabricantes "como posso ajudá-los?", além de "vamos ter uma visão de longo prazo juntos sobre como podemos vencer globalmente".
Para entender isso melhor, visitei a sede da Ford Motor em Dearborn, Michigan, na semana passada, para ver como a empresa está competindo com o rolo compressor de veículos elétricos da China. Quase metade das vendas de carros novos na China é de veículos elétricos a bateria ou híbridos elétricos plug-in, e suas empresas controlam cerca de 60% do mercado global desses modelos.
Isso se deve, em grande parte, ao fato de que Pequim fabrica as melhores baterias para carros do mundo, e qualquer montadora dos EUA que queira ser competitiva no setor de veículos elétricos hoje precisa da transferência de tecnologia de baterias chinesas.
Vou repetir um pouco mais devagar: para serem competitivas globalmente nos carros do futuro, as montadoras dos EUA precisam de transferência de tecnologia de baterias da China.
Estamos falando de uma inversão total em relação a 25 anos atrás, quando a China precisava de transferência de tecnologia da General Motors e da Ford para construir carros competitivos internacionalmente.
Esta é a história em poucas palavras. Atualmente, o setor automobilístico é totalmente global. Uma empresa como a Ford precisa equilibrar o desejo de seus clientes por motores de combustão tradicionais, híbridos plug-in ou veículos totalmente elétricos com recursos cada vez maiores de direção autônoma.
Mas ela precisa fazer isso em um mundo no qual a China fez uma grande aposta em veículos elétricos e está perfeitamente satisfeita em ignorar o mercado dos EUA por enquanto e vencer a Ford e outros fabricantes americanos no Brasil, na Indonésia, na Europa e na África.
Portanto, se a Ford ignorar totalmente o negócio de veículos elétricos, ela entregará o resto do mundo para a China —e corre o risco de acordar um dia, daqui a cinco anos, e descobrir que a maior parte do mundo está usando os veículos elétricos do país asiático— e ficará apenas com os EUA.
Para evitar esse desastre, a Ford, assim como outras montadoras americanas, aproveitou os incentivos oferecidos pelo governo Joe Biden para construir grandes fábricas de veículos elétricos e baterias em solo americano.
A Ford está quase concluindo o BlueOval Battery Park, de 1,7 milhão km2, em Marshall, Michigan, que deve iniciar a produção de baterias de fosfato de ferro e lítio (LFP) em 2026 para os seus veículos elétricos.
A instalação é de propriedade integral da montadora —um investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões—, mas as baterias que ela produzirá para seus veículos elétricos são baseadas na tecnologia LFP licenciada da gigante chinesa de baterias CATL. Espera-se que sejam criados cerca de 1.700 empregos. Teria sido mais, mas houve uma desaceleração nas vendas de veículos elétricos nos EUA devido à falta de estações de recarga.
A fábrica Marshall foi originalmente planejada para ser construída no México, mas devido aos incentivos de Biden, a Ford a transferiu para o Michigan —exatamente como o sistema deveria funcionar: Dar às nossas empresas automotivas créditos fiscais para produção e consumo até que o setor ganhe escala e possa sobreviver por conta própria. Exatamente o que a China faz.
Mas a Ford precisava de um parceiro chinês para as baterias. Atualmente, nenhum fabricante americano de baterias pode se equiparar às baterias CATL, que carregam mais rápido e vão mais longe.
"Atualmente, os carros estão se tornando dispositivos de transporte digital", disse o CEO da Ford, Jim Farley. E a China está dez anos à frente na fabricação das baterias para esses carros e na criação dessa experiência de direção digital completa, disse ele.
"Portanto, a maneira de competirmos com eles é obter acesso à sua propriedade intelectual da mesma forma que eles precisavam da nossa há 20 anos e, em seguida, usar nosso ecossistema inovador, a engenhosidade americana, nossa grande escala e nossa intimidade com o cliente para vencê-los globalmente. Esta será uma das corridas mais importantes para salvar nossa economia industrial."
Para isso, a Ford também está se preparando para começar a contratar funcionários para a fábrica BlueOval City que, ao preço de US$ 5,6 bilhões, com 14,6 km2, ela está concluindo na cidade de Stanton, no oeste do Tennessee.
O local inclui uma nova instalação de fabricação de veículos elétricos e baterias e um parque de fornecedores, e também oferecerá programas educacionais para "treinamento técnico, educação para trabalhadores já formados e programas de ensino fundamental e médio, incluindo experiências de aprendizagem baseadas no trabalho, com ênfase em Stem [sigla para ciência, tecnologia, engenharia e matemática em inglês]" para "preparar a próxima geração para construir o futuro do veículo elétrico nos EUA".
Parece um plano muito bom. Mas então Trump substituiu Biden no poder.
Pouco depois de tomar posse —e sem nenhuma consulta prévia à Ford ou, aparentemente, a qualquer outra montadora dos EUA— Trump revogou o decreto de Biden de 2021 que buscava garantir que metade de todos os veículos novos vendidos nos EUA até 2030 fossem elétricos.
O novo presidente também ordenou que a distribuição de fundos governamentais não utilizados para estações de recarga de veículos de um fundo de US$ 5 bilhões fossem suspensas e disse que estava considerando eliminar os créditos fiscais para veículos elétricos —justamente o que fez a Ford apostar maciçamente nessas duas novas fábricas.
Este é exatamente o tipo de pensamento míope de parar e começar que nos colocou nessa confusão em primeiro lugar. Meus compatriotas americanos, vocês sabem por que estamos tão atrasados em relação à China em relação às baterias para veículos elétricos? Por dois motivos. Primeiro, a China forma muito mais engenheiros elétricos e de automóveis do que nós. Em segundo lugar, os inovadores dos EUA inventaram a tecnologia revolucionária de baterias LFP da CATL para veículos elétricos, mas a cederam à China.
O jeito americano é: inventar, ignorar, dar um salto para frente com uma administração e depois dar um salto para trás com a próxima. É uma loucura total. Assim como as adjacências de aço, carvão, motores de combustão e trabalho manual criaram um efeito multiplicador no século 20, o ecossistema de veículos elétricos, IA, robótica, baterias avançadas, tecnologia limpa, sistemas de direção autônoma e trabalho mental digitalizado fará o mesmo no século 21. Se os EUA se ausentarem de qualquer parte desse ecossistema, serão deixados para trás.
As tarifas só fazem com que um país ganhe tempo para que suas empresas possam fazer as mudanças necessárias para competir sem muros. A estratégia de Trump é prejudicar as exportações de nossas montadoras com um muro de tarifas e, em seguida, atirar nas costas delas por trás do muro.
Se Trump tivesse bom senso, ele se diria a favor de todos os itens acima — carros a gasolina, híbridos plug-in, EVs totalmente elétricos e carros autônomos. Tudo o que deveria importar para ele é que os americanos comprassem produtos americanos.
Além disso, para garantir que os grandes fabricantes americanos de veículos elétricos pudessem ganhar escala, ele deveria usar o dinheiro das tarifas para fazer o que os "idiotas democratas progressistas" se recusaram a fazer: aprovar um projeto de lei para construir uma rede nacional de transmissão e uma rede de estações de carregamento rápido, para que qualquer pessoa que compre um veículo elétrico nunca precise se preocupar com viagens de longa distância.
É assim que se faz a grandeza dos EUA. Qualquer coisa menor do que isso é fingimento.
No comercial, um cirurgião entra em um quarto de hospital e conhece sua paciente. Primeiro, o médico a chama de Brenda e ela responde: "É Carol". Em seguida, o médico pergunta: "Então, em que perna estamos operando?" E ela responde: "Você quer dizer braço". O médico, então, tenta afastar sua preocupação dizendo: "Está tudo conectado".
Agora totalmente aterrorizada, a paciente finalmente pergunta ao cirurgião: "Tem certeza de que é um ortopedista?" O médico responde: "Na verdade, sou de Sagitário".
Perdoe meu ceticismo, mas tenho sérias dúvidas sobre o grau em que Trump e sua equipe de cirurgiões orçamentários realmente estudaram não apenas como implementar todos os cortes, tarifas, congelamentos e demissões que eles se apressaram em fazer, mas também os efeitos de longo prazo que eles terão sobre a governança, o comércio e os investimentos americanos como um todo.
De quem é o trabalho que estamos observando aqui? O de um cirurgião ou o de um sagitariano? Estamos vendo o desdobramento de um plano que foi testado e modelado durante meses, com todas as implicações totalmente compreendidas?
Ou o desdobramento de um guardanapo de papel do bar de Mar-a-Lago, com algumas ideias mal elaboradas esboçadas e, em seguida, uma discussão caótica entre Trump, seus assessores e lobistas sobre quais setores serão atingidos e quais serão poupados?
Vou optar pelo guardanapo. É difícil para mim dizer isso de uma maneira melhor do que um editorial do Wall Street Journal, normalmente pró-Trump, intitulado "A Guerra Comercial Mais Estúpida da História", que diz que "Trump imporá tarifas de 25% sobre o Canadá e o México sem nenhuma boa razão".
Mas as tarifas impulsivas de Trump —que ele parece anunciar e suspender por capricho— são sintomáticas de um desafio mais profundo para os fabricantes americanos sobre o qual quero escrever hoje: como as empresas americanas acompanham o ritmo da China nos setores do futuro, como inteligência artificial (IA), chips avançados, veículos elétricos, tecnologia limpa e carros autônomos, quando essas empresas estão constantemente sendo sacudidas por presidentes democratas e republicanos em um mundo em que precisam fazer apostas multibilionárias com cinco anos de antecedência. E elas precisam fazer essas apostas enquanto competem com a China, cujo regime acorda todos os dias e pergunta aos fabricantes "como posso ajudá-los?", além de "vamos ter uma visão de longo prazo juntos sobre como podemos vencer globalmente".
Para entender isso melhor, visitei a sede da Ford Motor em Dearborn, Michigan, na semana passada, para ver como a empresa está competindo com o rolo compressor de veículos elétricos da China. Quase metade das vendas de carros novos na China é de veículos elétricos a bateria ou híbridos elétricos plug-in, e suas empresas controlam cerca de 60% do mercado global desses modelos.
Isso se deve, em grande parte, ao fato de que Pequim fabrica as melhores baterias para carros do mundo, e qualquer montadora dos EUA que queira ser competitiva no setor de veículos elétricos hoje precisa da transferência de tecnologia de baterias chinesas.
Vou repetir um pouco mais devagar: para serem competitivas globalmente nos carros do futuro, as montadoras dos EUA precisam de transferência de tecnologia de baterias da China.
Estamos falando de uma inversão total em relação a 25 anos atrás, quando a China precisava de transferência de tecnologia da General Motors e da Ford para construir carros competitivos internacionalmente.
Esta é a história em poucas palavras. Atualmente, o setor automobilístico é totalmente global. Uma empresa como a Ford precisa equilibrar o desejo de seus clientes por motores de combustão tradicionais, híbridos plug-in ou veículos totalmente elétricos com recursos cada vez maiores de direção autônoma.
Mas ela precisa fazer isso em um mundo no qual a China fez uma grande aposta em veículos elétricos e está perfeitamente satisfeita em ignorar o mercado dos EUA por enquanto e vencer a Ford e outros fabricantes americanos no Brasil, na Indonésia, na Europa e na África.
Portanto, se a Ford ignorar totalmente o negócio de veículos elétricos, ela entregará o resto do mundo para a China —e corre o risco de acordar um dia, daqui a cinco anos, e descobrir que a maior parte do mundo está usando os veículos elétricos do país asiático— e ficará apenas com os EUA.
Para evitar esse desastre, a Ford, assim como outras montadoras americanas, aproveitou os incentivos oferecidos pelo governo Joe Biden para construir grandes fábricas de veículos elétricos e baterias em solo americano.
A Ford está quase concluindo o BlueOval Battery Park, de 1,7 milhão km2, em Marshall, Michigan, que deve iniciar a produção de baterias de fosfato de ferro e lítio (LFP) em 2026 para os seus veículos elétricos.
A instalação é de propriedade integral da montadora —um investimento de aproximadamente US$ 2 bilhões—, mas as baterias que ela produzirá para seus veículos elétricos são baseadas na tecnologia LFP licenciada da gigante chinesa de baterias CATL. Espera-se que sejam criados cerca de 1.700 empregos. Teria sido mais, mas houve uma desaceleração nas vendas de veículos elétricos nos EUA devido à falta de estações de recarga.
A fábrica Marshall foi originalmente planejada para ser construída no México, mas devido aos incentivos de Biden, a Ford a transferiu para o Michigan —exatamente como o sistema deveria funcionar: Dar às nossas empresas automotivas créditos fiscais para produção e consumo até que o setor ganhe escala e possa sobreviver por conta própria. Exatamente o que a China faz.
Mas a Ford precisava de um parceiro chinês para as baterias. Atualmente, nenhum fabricante americano de baterias pode se equiparar às baterias CATL, que carregam mais rápido e vão mais longe.
"Atualmente, os carros estão se tornando dispositivos de transporte digital", disse o CEO da Ford, Jim Farley. E a China está dez anos à frente na fabricação das baterias para esses carros e na criação dessa experiência de direção digital completa, disse ele.
"Portanto, a maneira de competirmos com eles é obter acesso à sua propriedade intelectual da mesma forma que eles precisavam da nossa há 20 anos e, em seguida, usar nosso ecossistema inovador, a engenhosidade americana, nossa grande escala e nossa intimidade com o cliente para vencê-los globalmente. Esta será uma das corridas mais importantes para salvar nossa economia industrial."
Para isso, a Ford também está se preparando para começar a contratar funcionários para a fábrica BlueOval City que, ao preço de US$ 5,6 bilhões, com 14,6 km2, ela está concluindo na cidade de Stanton, no oeste do Tennessee.
O local inclui uma nova instalação de fabricação de veículos elétricos e baterias e um parque de fornecedores, e também oferecerá programas educacionais para "treinamento técnico, educação para trabalhadores já formados e programas de ensino fundamental e médio, incluindo experiências de aprendizagem baseadas no trabalho, com ênfase em Stem [sigla para ciência, tecnologia, engenharia e matemática em inglês]" para "preparar a próxima geração para construir o futuro do veículo elétrico nos EUA".
Parece um plano muito bom. Mas então Trump substituiu Biden no poder.
Pouco depois de tomar posse —e sem nenhuma consulta prévia à Ford ou, aparentemente, a qualquer outra montadora dos EUA— Trump revogou o decreto de Biden de 2021 que buscava garantir que metade de todos os veículos novos vendidos nos EUA até 2030 fossem elétricos.
O novo presidente também ordenou que a distribuição de fundos governamentais não utilizados para estações de recarga de veículos de um fundo de US$ 5 bilhões fossem suspensas e disse que estava considerando eliminar os créditos fiscais para veículos elétricos —justamente o que fez a Ford apostar maciçamente nessas duas novas fábricas.
Este é exatamente o tipo de pensamento míope de parar e começar que nos colocou nessa confusão em primeiro lugar. Meus compatriotas americanos, vocês sabem por que estamos tão atrasados em relação à China em relação às baterias para veículos elétricos? Por dois motivos. Primeiro, a China forma muito mais engenheiros elétricos e de automóveis do que nós. Em segundo lugar, os inovadores dos EUA inventaram a tecnologia revolucionária de baterias LFP da CATL para veículos elétricos, mas a cederam à China.
O jeito americano é: inventar, ignorar, dar um salto para frente com uma administração e depois dar um salto para trás com a próxima. É uma loucura total. Assim como as adjacências de aço, carvão, motores de combustão e trabalho manual criaram um efeito multiplicador no século 20, o ecossistema de veículos elétricos, IA, robótica, baterias avançadas, tecnologia limpa, sistemas de direção autônoma e trabalho mental digitalizado fará o mesmo no século 21. Se os EUA se ausentarem de qualquer parte desse ecossistema, serão deixados para trás.
As tarifas só fazem com que um país ganhe tempo para que suas empresas possam fazer as mudanças necessárias para competir sem muros. A estratégia de Trump é prejudicar as exportações de nossas montadoras com um muro de tarifas e, em seguida, atirar nas costas delas por trás do muro.
Se Trump tivesse bom senso, ele se diria a favor de todos os itens acima — carros a gasolina, híbridos plug-in, EVs totalmente elétricos e carros autônomos. Tudo o que deveria importar para ele é que os americanos comprassem produtos americanos.
Além disso, para garantir que os grandes fabricantes americanos de veículos elétricos pudessem ganhar escala, ele deveria usar o dinheiro das tarifas para fazer o que os "idiotas democratas progressistas" se recusaram a fazer: aprovar um projeto de lei para construir uma rede nacional de transmissão e uma rede de estações de carregamento rápido, para que qualquer pessoa que compre um veículo elétrico nunca precise se preocupar com viagens de longa distância.
É assim que se faz a grandeza dos EUA. Qualquer coisa menor do que isso é fingimento.
Macho Man
O "Líder do mundo livre" uma vez se referiu a um presidente americano que simbolizava a influência global do país, o comprometimento com a democracia e a defesa dos direitos humanos. Os olhos semicerrados deste presidente = suspeita... lábios apertados = raiva, desaprovação... braços cruzados = hostilidade, hostilidade, tudo indica uma direção diferente e preocupante em casa e no exterior. O apelido emergente de Trump: homem-criança "Valentão do mundo livre".
POR FAVOR, ACEITE NOSSAS DESCULPAS MUNDO.
A futura ordem global com Donald Trump, o novo 'xerife'
As provocações e confrontos que caracterizaram as primeiras semanas do segundo governo Trump afetaram primeiro os países latino-americanos.
As consequências desse estilo de impor seus interesses já estão sendo sentidas na Europa e em outras partes do mundo, não apenas por meio das tarifas que estão sendo impostas, mas também pelo padrão ideológico que o governante em Washington está tentando impor ao mundo inteiro.
"Há um novo xerife na cidade" foi uma das frases que pontuaram o discurso do vice-presidente JD Vance na Conferência de Segurança de Munique no último fim de semana.
Além do fato de que essa metáfora soa um pouco estranha no contexto da história europeia do desenvolvimento do Estado de direito, ela reflete a fraca compreensão da complexidade das relações internacionais na nova administração em Washington.
Tudo se resume ao que tem sido discutido sob o conceito de "política do homem forte", uma prática que também encontrou muita ressonância em países latino-americanos, caracterizados por uma longa tradição de personalismos.
O que o presidente dos EUA e seus vice-marechals estão tentando apresentar é um retorno a décadas passadas, quando a ordem mundial podia ser facilmente controlada por um pequeno grupo de pessoas que tinham o controle de armas de destruição em massa. Agora, essa narrativa parece ter retornado, não apenas no Ocidente, mas em partes mais amplas do mundo, com base em uma ideologia populista e/ou autocrática.
Por outro lado, a experiência democrática, com seus processos mais lentos e complicados, mas especialmente limitada por instituições de freios e contrapesos, não encontra muito eco entre os eleitores, que exigem respostas imediatas e contundentes aos problemas existentes, seja a situação econômica, a criminalidade ou a própria migração.
A pessoa que parece mais propensa a dar essa resposta é o homem forte, que, como o presidente dos EUA, cria a ilusão de que, ao assinar alguns decretos, a realidade já foi mudada.
Na América Latina, há experiências semelhantes que geraram um discurso de “mão de ferro” para resolver problemas com medidas extraordinárias que se justificam com instrumentos drásticos e ilimitados em sua aplicação. Mas o que parece eficaz à primeira vista em nível local ou nacional não necessariamente tem os efeitos desejados em nível regional ou global.
No entanto, os mesmos "homens fortes", independentemente da sua cor ideológica, continuam a gerar a expectativa de que a simples vontade de um governante é suficiente para mudar as coisas. Enquanto os cidadãos acreditarem que os homens fortes são capazes de apresentar atalhos confiáveis para maior segurança e orgulho nacional, não se deve excluir que as maiores ameaças ainda estejam por vir na forma de colapsos das democracias existentes.
Esse padrão de "política de homem forte" é, de muitas maneiras e em múltiplos aspectos, um ambiente hostil para a UE, não apenas em termos de sua presença global, mas também em relação à sua tradicional aliança transatlântica, que agora é percebida não apenas como mais turbulenta, mas também mais fraca em termos de confiança mútua.
O mais desorientador é a substituição da busca contínua de consenso em nível internacional por uma "guerra cultural", cujos protagonistas não se encontram apenas no campo político republicano nos EUA, mas também na presença ideológica de Javier Milei e de muitos outros protagonistas desse estilo no mesmo território europeu.
Em vez disso, há ameaças aos membros do BRICS e outros organismos que poderiam facilitar a presença do Sul Global em nível internacional, o que poderia levar a uma nova marginalização nos tempos vindouros. Não apenas as ameaças de Trump à Colômbia e à República da África do Sul (que atualmente ocupa a presidência do G20) são prova de que as regras internacionais do direito internacional não são mais relevantes e podem ser substituídas pela força de vontade de uma parte contra as outras.
Os tempos benignos das regras e regimes internacionais dos últimos 30 anos já acabaram há muito tempo. Agora parece que chegou a hora de retomar o processo de "queda de braço" para afirmar os próprios interesses e estabelecer regras sensatas para a ordem global.
As consequências desse estilo de impor seus interesses já estão sendo sentidas na Europa e em outras partes do mundo, não apenas por meio das tarifas que estão sendo impostas, mas também pelo padrão ideológico que o governante em Washington está tentando impor ao mundo inteiro.
"Há um novo xerife na cidade" foi uma das frases que pontuaram o discurso do vice-presidente JD Vance na Conferência de Segurança de Munique no último fim de semana.
Além do fato de que essa metáfora soa um pouco estranha no contexto da história europeia do desenvolvimento do Estado de direito, ela reflete a fraca compreensão da complexidade das relações internacionais na nova administração em Washington.
Tudo se resume ao que tem sido discutido sob o conceito de "política do homem forte", uma prática que também encontrou muita ressonância em países latino-americanos, caracterizados por uma longa tradição de personalismos.
O que o presidente dos EUA e seus vice-marechals estão tentando apresentar é um retorno a décadas passadas, quando a ordem mundial podia ser facilmente controlada por um pequeno grupo de pessoas que tinham o controle de armas de destruição em massa. Agora, essa narrativa parece ter retornado, não apenas no Ocidente, mas em partes mais amplas do mundo, com base em uma ideologia populista e/ou autocrática.
Por outro lado, a experiência democrática, com seus processos mais lentos e complicados, mas especialmente limitada por instituições de freios e contrapesos, não encontra muito eco entre os eleitores, que exigem respostas imediatas e contundentes aos problemas existentes, seja a situação econômica, a criminalidade ou a própria migração.
A pessoa que parece mais propensa a dar essa resposta é o homem forte, que, como o presidente dos EUA, cria a ilusão de que, ao assinar alguns decretos, a realidade já foi mudada.
Na América Latina, há experiências semelhantes que geraram um discurso de “mão de ferro” para resolver problemas com medidas extraordinárias que se justificam com instrumentos drásticos e ilimitados em sua aplicação. Mas o que parece eficaz à primeira vista em nível local ou nacional não necessariamente tem os efeitos desejados em nível regional ou global.
No entanto, os mesmos "homens fortes", independentemente da sua cor ideológica, continuam a gerar a expectativa de que a simples vontade de um governante é suficiente para mudar as coisas. Enquanto os cidadãos acreditarem que os homens fortes são capazes de apresentar atalhos confiáveis para maior segurança e orgulho nacional, não se deve excluir que as maiores ameaças ainda estejam por vir na forma de colapsos das democracias existentes.
Esse padrão de "política de homem forte" é, de muitas maneiras e em múltiplos aspectos, um ambiente hostil para a UE, não apenas em termos de sua presença global, mas também em relação à sua tradicional aliança transatlântica, que agora é percebida não apenas como mais turbulenta, mas também mais fraca em termos de confiança mútua.
O mais desorientador é a substituição da busca contínua de consenso em nível internacional por uma "guerra cultural", cujos protagonistas não se encontram apenas no campo político republicano nos EUA, mas também na presença ideológica de Javier Milei e de muitos outros protagonistas desse estilo no mesmo território europeu.
Em vez disso, há ameaças aos membros do BRICS e outros organismos que poderiam facilitar a presença do Sul Global em nível internacional, o que poderia levar a uma nova marginalização nos tempos vindouros. Não apenas as ameaças de Trump à Colômbia e à República da África do Sul (que atualmente ocupa a presidência do G20) são prova de que as regras internacionais do direito internacional não são mais relevantes e podem ser substituídas pela força de vontade de uma parte contra as outras.
Os tempos benignos das regras e regimes internacionais dos últimos 30 anos já acabaram há muito tempo. Agora parece que chegou a hora de retomar o processo de "queda de braço" para afirmar os próprios interesses e estabelecer regras sensatas para a ordem global.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
Ando com vontade de construir um muro à prova de textões que são a derrota do iluminismo
“Não se deixe distrair. Não se deixe perturbar. Não fique paralisado, nem seja engolido pelo caos que o presidente Trump e seus aliados têm propositalmente criado com a quantidade e a velocidade das ordens executivas; pelo esforço em desmantelar o governo federal; pelos ataques performáticos aos imigrantes, às pessoas trans e ao próprio conceito de diversidade; pela exigência de que os demais países aceitem os Estados Unidos como seus senhores; e pela sensação vertiginosa de que a Casa Branca pode dizer ou fazer qualquer coisa a qualquer momento. O objetivo disso tudo é manter o país na defensiva para que o presidente Trump possa seguir adiante na sua busca pelo máximo poder executivo, e para que ninguém possa deter a agenda audaciosa, equivocada e frequentemente ilegal promovida pela sua administração. Pelo amor de Deus, não desligue.”
Esta foi a abertura do principal editorial do The New York Times do sábado passado. Se parece alarmista, é porque é mesmo; e ainda é pouco diante do que está acontecendo lá em cima.
Eu li e achei que era comigo. Eu sou essa pessoa que está farta, que não aguenta mais o ritmo e o caráter dos acontecimentos, que quer distância do mundo e quer se desligar de tudo — não só do governo Trump e de suas consequências, mas também, e sobretudo, do que acontece no Brasil, onde a cada segundo dia o governo faz alguma coisa para botar mais lenha na fogueira e onde o nível de ódio das redes sociais está chegando ao limite do insuportável.
Aliás: é curioso observar que o ódio, nas redes sociais, atende por hate.
O hate tem um ar de bom moço que o ódio não tem; o hate é chique, o hate permite que os haters possam manter uma distância conveniente do seu próprio veneno e não precisem encarar o fato desabonador de que são pessoas odiosas. Hate dá muito engajamento.
“Eu sou contra linchamento” escrevem os alecrins dourados — e tome hate hate hate, lincha lincha lincha. Essa semana sobrou até para uma xícara da Tania Bulhões, primeiro caso de porcelana cancelada de que tenho notícia.
O New York Times tem razão quando implora aos leitores que não desliguem, porque o mal vence habitualmente pelo cansaço; mas é difícil manter a guarda. Não há Rivotril que baste para quem quer pensar fora da caixa ou remar contra a maré num mundo em que apenas acompanhar o noticiário, em silêncio, já tem um custo emocional tão alto.
Ando com vontade de seguir o ideário do próprio Trump e de construir um muro de todo o tamanho. Não em concreto, óbvio, até porque a decoração da casa não comporta essas coisas, mas um bom muro metafórico à prova de notificações, tuítes, textões e vídeos virais de cinco segundos que são a derrota do iluminismo.
Ou talvez quem sabe a solução seja uma abordagem mais enxuta. Em vez de tentar acompanhar o caos, posso me disciplinar e tentar me dedicar a uma única treta por semana, como quem assina um serviço de streaming, mas só vê uma série de cada vez para não se perder. Uma desgraça por dia, sem maratonas. E, nos fins de semana, só programação leve — um escândalo político do outro lado do mundo, um barraco entre celebridades, uma treta gourmet envolvendo quibe de jaca ou pão de fermentação natural.
Cadê aquela xícara?
Cora Rónai
Esta foi a abertura do principal editorial do The New York Times do sábado passado. Se parece alarmista, é porque é mesmo; e ainda é pouco diante do que está acontecendo lá em cima.
Eu li e achei que era comigo. Eu sou essa pessoa que está farta, que não aguenta mais o ritmo e o caráter dos acontecimentos, que quer distância do mundo e quer se desligar de tudo — não só do governo Trump e de suas consequências, mas também, e sobretudo, do que acontece no Brasil, onde a cada segundo dia o governo faz alguma coisa para botar mais lenha na fogueira e onde o nível de ódio das redes sociais está chegando ao limite do insuportável.
Aliás: é curioso observar que o ódio, nas redes sociais, atende por hate.
O hate tem um ar de bom moço que o ódio não tem; o hate é chique, o hate permite que os haters possam manter uma distância conveniente do seu próprio veneno e não precisem encarar o fato desabonador de que são pessoas odiosas. Hate dá muito engajamento.
“Eu sou contra linchamento” escrevem os alecrins dourados — e tome hate hate hate, lincha lincha lincha. Essa semana sobrou até para uma xícara da Tania Bulhões, primeiro caso de porcelana cancelada de que tenho notícia.
O New York Times tem razão quando implora aos leitores que não desliguem, porque o mal vence habitualmente pelo cansaço; mas é difícil manter a guarda. Não há Rivotril que baste para quem quer pensar fora da caixa ou remar contra a maré num mundo em que apenas acompanhar o noticiário, em silêncio, já tem um custo emocional tão alto.
Ando com vontade de seguir o ideário do próprio Trump e de construir um muro de todo o tamanho. Não em concreto, óbvio, até porque a decoração da casa não comporta essas coisas, mas um bom muro metafórico à prova de notificações, tuítes, textões e vídeos virais de cinco segundos que são a derrota do iluminismo.
Ou talvez quem sabe a solução seja uma abordagem mais enxuta. Em vez de tentar acompanhar o caos, posso me disciplinar e tentar me dedicar a uma única treta por semana, como quem assina um serviço de streaming, mas só vê uma série de cada vez para não se perder. Uma desgraça por dia, sem maratonas. E, nos fins de semana, só programação leve — um escândalo político do outro lado do mundo, um barraco entre celebridades, uma treta gourmet envolvendo quibe de jaca ou pão de fermentação natural.
Cadê aquela xícara?
Cora Rónai
Se alguém não deve 'esquecer nem perdoar', são os palestinos
Uma imagem vale mais que mil palavras: Centenas de detentos e prisioneiros palestinos que foram soltos no sábado são vistos de joelhos, na prisão, vestindo camisetas brancas com uma Estrela de Davi azul e as palavras "não esqueceremos nem perdoaremos". Israel, portanto, os forçou a se tornarem bandeiras ambulantes do sionismo em sua forma mais desprezível. Na semana passada, foram pulseiras com uma mensagem semelhante: "O 'povo eterno' nunca esquece".
Gideão Levy
Gideão Levy
Em tempos de intolerância, a palavra não oficial é vista como ameaça
Sábado, 23 de junho de 1934. O telefone toca na casa do poeta Bóris Pasternak em Moscou. É a secretária de Josef Stálin, líder supremo da União Soviética pós-revolucionária. O camarada queria dar uma palavrinha. A histórica ligação registrada pela KGB durou cerca de três minutos, e as perguntas formuladas por Stálin vieram de chofre, sem introito:
— O que você acha de Mandelstam?
— O que se fala sobre a prisão dele nos círculos literários?
Stálin se referia à detenção, um mês antes, do também poeta Osip Mandelstam. Autor de um ácido poema contra o líder, Mandelstam o recitara privadamente para um grupo de 14 intelectuais amigos — entre eles, Pasternak. Este último admirava o colega modernista, porém considerava desnecessária e perigosa para todos a crítica a Stálin. Pego de surpresa, o autor de “Doutor Jivago” e posteriormente Nobel de Literatura (1958) conseguiu apenas articular uma resposta genérica sobre o estilo literário de cada um, resposta essa de que se arrependeria o resto da vida:
— Nós somos diferentes, Camarada Stalin. Ele é modernista, enquanto eu sou de outra tendência. Nada posso lhe dizer sobre Mandelstam — respondeu.
— Só isso? Esse é o máximo de lealdade que você demonstra a um amigo? Você é um péssimo camarada, Camarada Pasternak — retorquiu Stálin antes de desligar.
O escritor ainda tentou se reconectar com o ditador para fazer reparos. Em vão. Stálin perdera interesse. Já sabia o que queria. Ademais, o número de telefone criado pela KGB para essa única chamada já não mais existia.
Esse é o tema do livro “Um ditador na linha” (Cia. das Letras, 2024), em que o autor albanês Ismail Kadaré analisa múltiplas versões do telefonema para refletir sobre a relação entre poder e política, totalitarismo e liberdade de expressão, ditador e poeta. Além da fonte primária — a gravação feita pela KGB —, existem outras 12 versões baseadas na memória do que intelectuais russos da época — como Anna Akhmátova, Ilya Ehrenburg e Isaiah Berlin — ouviram do próprio Pasternak.
Por que evocar esse episódio agora? Porque os tempos andam bicudos, e nunca é demais lembrar quanto o mundo atual precisa de um mínimo de retidão moral e intelectual de cada bípede capaz de pensar para além do próprio nariz. No auge da Segunda Guerra Mundial, o escritor americano John Steinbeck garantia a seu editor que todas as bondades e heroísmos do mundo haveriam de ressurgir, apenas para ser novamente derrotados. “Não é que o mal vá vencer”, escreveu ele. “Isso nunca acontecerá, o mal apenas não morre.”
Em tempos de intolerância galopante, a palavra não oficial (seja ela falada, escrita, cantada ou pensada) é vista como ameaça. E, uma vez farejada, é preciso higienizá-la, por subversiva. Levantamento recente do jornal The Washington Post detectou 662 exemplos de alteração no vocabulário de 14 agências federais sob Donald Trump, alterando a comunicação em 8 mil sites do governo. A palavra “diversidade” foi banida, não terá substituto, na esperança, talvez, de assim fazer desaparecer também a comunidade LGBT+, as diferenças de gênero, raça e cor. “Mudança climática” agora atende pelo nome de “resiliência climática”. “Direitos Humanos”, “aumento de desigualdades”, “promoção de justiça social” ou “violação de direitos civis” já estão na linha de tiro. O ideal imaginado de uma América grande, branca e macho?
Já se escreveu aqui que palavras são acontecimentos, elas fazem coisas, mudam coisas, transformam tanto quem as pronuncia como quem as ouve. Governos autoritários ao longo da História sempre procuraram encurtar o vocabulário oficial, simplificar ao máximo as palavras de ordem, os diktats, ucasses ou as ordens executivas de agora.
Em seu livro sobre a emergência de novos autocratas (“Autocracia, Inc.”), a jornalista Anne Applebaum cita um memorando interno do Partido Comunista Chinês intitulado “Sobre o estado atual da esfera ideológica”. O documento de 2013 listava os principais perigos a ser enfrentados pelo presidente Xi Jinping. No topo da lista vinha a “democracia constitucional ocidental”, seguida por “direitos humanos universais”, “independência da mídia”, “independência judicial” e “participação cívica”.
Passados 15 anos desde a circulação desse documento, a China de Xi Jinping já pode se concentrar noutras preocupações, pois, na toada atual, é o próprio Trump que parece estar empenhado em enterrar a democracia constitucional tal qual a conhecemos.
O amanhã dessa distopia em curso nos foi exibido dias atrás em cena no Salão Oval da Casa Branca. De pé e à vontade, envergando boné, capote preto e camiseta, estava a criatura Elon Musk, centro das atenções. Vez por outra ele levantava do chão sua indócil cria de 4 anos, cujo nome de batismo é X Æ A-12, para acomodá-lo nos ombros. Sentado e algo acabrunhado estava o 47º presidente dos Estados Unidos. Novos tempos.
Dorrit Harazim
— O que você acha de Mandelstam?
— O que se fala sobre a prisão dele nos círculos literários?
Stálin se referia à detenção, um mês antes, do também poeta Osip Mandelstam. Autor de um ácido poema contra o líder, Mandelstam o recitara privadamente para um grupo de 14 intelectuais amigos — entre eles, Pasternak. Este último admirava o colega modernista, porém considerava desnecessária e perigosa para todos a crítica a Stálin. Pego de surpresa, o autor de “Doutor Jivago” e posteriormente Nobel de Literatura (1958) conseguiu apenas articular uma resposta genérica sobre o estilo literário de cada um, resposta essa de que se arrependeria o resto da vida:
— Nós somos diferentes, Camarada Stalin. Ele é modernista, enquanto eu sou de outra tendência. Nada posso lhe dizer sobre Mandelstam — respondeu.
— Só isso? Esse é o máximo de lealdade que você demonstra a um amigo? Você é um péssimo camarada, Camarada Pasternak — retorquiu Stálin antes de desligar.
O escritor ainda tentou se reconectar com o ditador para fazer reparos. Em vão. Stálin perdera interesse. Já sabia o que queria. Ademais, o número de telefone criado pela KGB para essa única chamada já não mais existia.
Esse é o tema do livro “Um ditador na linha” (Cia. das Letras, 2024), em que o autor albanês Ismail Kadaré analisa múltiplas versões do telefonema para refletir sobre a relação entre poder e política, totalitarismo e liberdade de expressão, ditador e poeta. Além da fonte primária — a gravação feita pela KGB —, existem outras 12 versões baseadas na memória do que intelectuais russos da época — como Anna Akhmátova, Ilya Ehrenburg e Isaiah Berlin — ouviram do próprio Pasternak.
Por que evocar esse episódio agora? Porque os tempos andam bicudos, e nunca é demais lembrar quanto o mundo atual precisa de um mínimo de retidão moral e intelectual de cada bípede capaz de pensar para além do próprio nariz. No auge da Segunda Guerra Mundial, o escritor americano John Steinbeck garantia a seu editor que todas as bondades e heroísmos do mundo haveriam de ressurgir, apenas para ser novamente derrotados. “Não é que o mal vá vencer”, escreveu ele. “Isso nunca acontecerá, o mal apenas não morre.”
Em tempos de intolerância galopante, a palavra não oficial (seja ela falada, escrita, cantada ou pensada) é vista como ameaça. E, uma vez farejada, é preciso higienizá-la, por subversiva. Levantamento recente do jornal The Washington Post detectou 662 exemplos de alteração no vocabulário de 14 agências federais sob Donald Trump, alterando a comunicação em 8 mil sites do governo. A palavra “diversidade” foi banida, não terá substituto, na esperança, talvez, de assim fazer desaparecer também a comunidade LGBT+, as diferenças de gênero, raça e cor. “Mudança climática” agora atende pelo nome de “resiliência climática”. “Direitos Humanos”, “aumento de desigualdades”, “promoção de justiça social” ou “violação de direitos civis” já estão na linha de tiro. O ideal imaginado de uma América grande, branca e macho?
Já se escreveu aqui que palavras são acontecimentos, elas fazem coisas, mudam coisas, transformam tanto quem as pronuncia como quem as ouve. Governos autoritários ao longo da História sempre procuraram encurtar o vocabulário oficial, simplificar ao máximo as palavras de ordem, os diktats, ucasses ou as ordens executivas de agora.
Em seu livro sobre a emergência de novos autocratas (“Autocracia, Inc.”), a jornalista Anne Applebaum cita um memorando interno do Partido Comunista Chinês intitulado “Sobre o estado atual da esfera ideológica”. O documento de 2013 listava os principais perigos a ser enfrentados pelo presidente Xi Jinping. No topo da lista vinha a “democracia constitucional ocidental”, seguida por “direitos humanos universais”, “independência da mídia”, “independência judicial” e “participação cívica”.
Passados 15 anos desde a circulação desse documento, a China de Xi Jinping já pode se concentrar noutras preocupações, pois, na toada atual, é o próprio Trump que parece estar empenhado em enterrar a democracia constitucional tal qual a conhecemos.
O amanhã dessa distopia em curso nos foi exibido dias atrás em cena no Salão Oval da Casa Branca. De pé e à vontade, envergando boné, capote preto e camiseta, estava a criatura Elon Musk, centro das atenções. Vez por outra ele levantava do chão sua indócil cria de 4 anos, cujo nome de batismo é X Æ A-12, para acomodá-lo nos ombros. Sentado e algo acabrunhado estava o 47º presidente dos Estados Unidos. Novos tempos.
Dorrit Harazim
Cápsula do tempo encontrada no planeta morto
Na primeira era, criamos deuses. Esculpimos-os em madeira; ainda havia madeira naquela época. Forjamos-os em metais brilhantes e os pintamos nas paredes dos templos. Eram deuses de muitos tipos, e deusas também. Às vezes eram cruéis e bebiam nosso sangue, mas também nos davam chuva e sol, ventos favoráveis, boas colheitas, animais férteis, muitos filhos. Um milhão de pássaros voavam sobre nós então, um milhão de peixes nadavam em nossos mares.
Nossos deuses tinham chifres em suas cabeças, ou luas, ou barbatanas, ou bicos de águia. Nós os chamávamos de Onipotentes, nós os chamávamos de Brilhante. Sabíamos que não éramos órfãos. Sentíamos o cheiro da terra e rolávamos nela; seus sucos corriam por nossos queixos.
2. Na segunda era, criamos o dinheiro. Esse dinheiro também era feito de metais brilhantes. Tinha duas faces: de um lado, uma cabeça decepada, a de um rei ou outra pessoa notável, do outro lado, algo mais, algo que nos daria conforto: um pássaro, um peixe, um animal peludo. Isso era tudo o que restava de nossos antigos deuses. O dinheiro era pequeno, e cada um de nós carregava um pouco dele todos os dias, o mais próximo possível da pele. Não podíamos comer esse dinheiro, usá-lo ou queimá-lo para nos aquecer; mas como que por mágica, ele podia ser transformado em tais coisas. O dinheiro era misterioso, e o admirávamos. Se você tivesse o suficiente, diziam, você seria capaz de voar.
Margaret Atwood
Dois em cada três israelitas abraçam a limpeza étnica. Pelo menos. Que fará a Europa?
Trump tirou a limpeza étnica do armário mal chegou à Casa Branca, e Israel está com ele. Não só Netanyahu, os seus avatares de extrema-direita e o espectro partidário em geral, mas também dois terços ou mais dos israelitas. É o que dizem as sondagens depois de o Presidente dos EUA anunciar uma “Riviera do Médio Oriente”, com a remoção dos palestinos de Gaza para sempre.
Na pesquisa do Canal 12 da TV israelita, 69% dos cidadãos apoiam o plano (apenas 18% se opõem a ele, 13% estão indecisos). Na pesquisa do Canal 13, o apoio é de 72%. Na pesquisa do Canal 14, sobe para 76%. Não há notícia de políticos israelitas se oporem. Até entre opositores do governo, o “plano” de Trump foi descrito como “interessante” ou “fora da caixa”. Esbarrei no título de um deputado (do Likud de Netanyahu) que seria contra realojar os palestinos no Egito e na Jordânia. Corri a ler: era contra realojar os palestinos… tão perto. Claro que entre a Groelândia e Elon Musk o céu não é o limite, vi até um cartoon com o foguetão a postos. Mas ainda nenhuma sondagem sobre Marte. Uma pesquisa do Jewish People Policy Institute pouco anterior à das TVs mostrou que 7 em cada 10 judeus israelitas querem “os árabes de Gaza realojados noutro país”. Aqui na Terra. Ainda.
Nos 80 anos da libertação de Auschwitz, o Estado fundado pelos sobreviventes do Holocausto apoia assim, largamente, a remoção de 2,3 milhões de palestinos. Chamando-lhe “emigração voluntária” ou “encorajamento à emigração”. Tal como chama “árabes” aos palestinos. Quando não “terroristas” ou “animais”.
Entretanto, nos EUA, 350 rabinos, intelectuais, artistas judeus compraram um anúncio de alto a baixo no New York Times de 13 de fevereiro: “Trump apelou à remoção de todos os palestinos de Gaza”, dizem em cima. Por baixo, uma caixa preta com grandes letras brancas a bold: “Judeus dizem NÃO à limpeza étnica!” E seis colunas de nomes (incluindo Naomi Klein, Tony Kushner, Joaquin Phoenix, Judith Butler). “O sonho de Hitler de tornar a Alemanha ‘Judenrein’, ‘limpa de judeus’ levou ao massacre do nosso povo”, resumiu o rabino Toba Spitzer. “Sabemos tão bem como qualquer pessoa a violência a que este tipo de fantasias leva.”
Onde está o anúncio equivalente em Israel? Onde estão os rabinos, os intelectuais, os artistas? E os médicos, os professores, os estudantes, os jovens, na sua grande maioria? Os letrados de Israel na mesma semana em que seis polícias de Jerusalém que não falavam inglês nem árabe fizeram um raide em duas lojas da Educational Bookshop, a mais amada livraria de Jerusalém Oriental Ocupada, onde, tal como milhares de leitores de todo o mundo, comprei incontáveis livros. E não só os polícias confiscaram mais de 100 livros em árabe ou inglês apenas porque tinham algum sinal da Palestina, como prenderam os irmãos livreiros Ahmed e Mahmoud Muna e fizeram-nos penar duas noites numa cadeia suja, apesar de uma multidão ter acorrido em protesto, incluindo diplomatas, e os israelitas (incluindo alguns na imprensa) que se tornaram menos do que uma minoria: a excepção.
Ali, aos pés das muralhas de Jerusalém, esse raide de domingo foi literalmente a polícia do Povo do Livro a atacar livros, vários espezinhados pelo chão. O que se segue? As brigadas do Fahrenheit 451? Fogueiras? Onde está o povo que durante séculos confiou nos livros o futuro, lendo-os, escrevendo-os? Que confiou neles para não morrer.
Eu tinha visto, não muito antes, o vídeo de uma biblioteca pública em Gaza destruída pelas bombas. Livros que se retiravam como pedaços de estuque, irreconhecíveis. Trazidos pouco a pouco por Mosab Abu Toha, um poeta que saiu de Gaza há meses e tem sido a (rara) voz palestina nas páginas da New Yorker, além dos poemas que publicou. Uma confiança na poesia, dita e escrita, e nos livros em geral, que vem das mais antigas tradições árabes e acompanha os palestinos como nunca desde a Nakba de 1948. Desde que isso se tornou parte da resistência: uma forma de estar vivo que não acaba.
Alexandra Lucas Coelho
Na pesquisa do Canal 12 da TV israelita, 69% dos cidadãos apoiam o plano (apenas 18% se opõem a ele, 13% estão indecisos). Na pesquisa do Canal 13, o apoio é de 72%. Na pesquisa do Canal 14, sobe para 76%. Não há notícia de políticos israelitas se oporem. Até entre opositores do governo, o “plano” de Trump foi descrito como “interessante” ou “fora da caixa”. Esbarrei no título de um deputado (do Likud de Netanyahu) que seria contra realojar os palestinos no Egito e na Jordânia. Corri a ler: era contra realojar os palestinos… tão perto. Claro que entre a Groelândia e Elon Musk o céu não é o limite, vi até um cartoon com o foguetão a postos. Mas ainda nenhuma sondagem sobre Marte. Uma pesquisa do Jewish People Policy Institute pouco anterior à das TVs mostrou que 7 em cada 10 judeus israelitas querem “os árabes de Gaza realojados noutro país”. Aqui na Terra. Ainda.
Nos 80 anos da libertação de Auschwitz, o Estado fundado pelos sobreviventes do Holocausto apoia assim, largamente, a remoção de 2,3 milhões de palestinos. Chamando-lhe “emigração voluntária” ou “encorajamento à emigração”. Tal como chama “árabes” aos palestinos. Quando não “terroristas” ou “animais”.
Entretanto, nos EUA, 350 rabinos, intelectuais, artistas judeus compraram um anúncio de alto a baixo no New York Times de 13 de fevereiro: “Trump apelou à remoção de todos os palestinos de Gaza”, dizem em cima. Por baixo, uma caixa preta com grandes letras brancas a bold: “Judeus dizem NÃO à limpeza étnica!” E seis colunas de nomes (incluindo Naomi Klein, Tony Kushner, Joaquin Phoenix, Judith Butler). “O sonho de Hitler de tornar a Alemanha ‘Judenrein’, ‘limpa de judeus’ levou ao massacre do nosso povo”, resumiu o rabino Toba Spitzer. “Sabemos tão bem como qualquer pessoa a violência a que este tipo de fantasias leva.”
Onde está o anúncio equivalente em Israel? Onde estão os rabinos, os intelectuais, os artistas? E os médicos, os professores, os estudantes, os jovens, na sua grande maioria? Os letrados de Israel na mesma semana em que seis polícias de Jerusalém que não falavam inglês nem árabe fizeram um raide em duas lojas da Educational Bookshop, a mais amada livraria de Jerusalém Oriental Ocupada, onde, tal como milhares de leitores de todo o mundo, comprei incontáveis livros. E não só os polícias confiscaram mais de 100 livros em árabe ou inglês apenas porque tinham algum sinal da Palestina, como prenderam os irmãos livreiros Ahmed e Mahmoud Muna e fizeram-nos penar duas noites numa cadeia suja, apesar de uma multidão ter acorrido em protesto, incluindo diplomatas, e os israelitas (incluindo alguns na imprensa) que se tornaram menos do que uma minoria: a excepção.
Ali, aos pés das muralhas de Jerusalém, esse raide de domingo foi literalmente a polícia do Povo do Livro a atacar livros, vários espezinhados pelo chão. O que se segue? As brigadas do Fahrenheit 451? Fogueiras? Onde está o povo que durante séculos confiou nos livros o futuro, lendo-os, escrevendo-os? Que confiou neles para não morrer.
Eu tinha visto, não muito antes, o vídeo de uma biblioteca pública em Gaza destruída pelas bombas. Livros que se retiravam como pedaços de estuque, irreconhecíveis. Trazidos pouco a pouco por Mosab Abu Toha, um poeta que saiu de Gaza há meses e tem sido a (rara) voz palestina nas páginas da New Yorker, além dos poemas que publicou. Uma confiança na poesia, dita e escrita, e nos livros em geral, que vem das mais antigas tradições árabes e acompanha os palestinos como nunca desde a Nakba de 1948. Desde que isso se tornou parte da resistência: uma forma de estar vivo que não acaba.
Alexandra Lucas Coelho
domingo, 16 de fevereiro de 2025
Matéria de que se faz democracia
Com um livro de memórias, Bill Gates vem a público para se dizer surpreso com a fragilidade da democracia norte-americana. Achava que fosse condição possível a qualquer país do mundo, menos ao seu. A declaração é de uma candura também surpreendente, vinda do bilionário, filantropo, fundador da Microsoft, alinhado entre os homens mais influentes do século. Mas relevante, porque espelha o sentimento de metade das pessoas que não votaram na ameaça a essa democracia. Inaugura a preocupação dos americanos de bom senso com a sua própria estabilidade institucional.
Um caminho simples para se compreender a cândida confiança nos alicerces democráticos da América é recorrer ao modo como isso é figurado no imaginário, matriz de crenças e convicções arraigadas. Com este foco, vale rever dramatizações de júris no cinema para identificar sketches ideológicos da democracia liberal em que a verdade na balança da Justiça parece transparecer na argumentação igualitária dos advogados, ponderada pelo juiz. Mas uma lógica utilitarista de negócios orienta (nos acordos) a redução de sentenças. E a garantia última de justiça é a Constituição, ratificada pela Bíblia. O "grand jury", tribunal de instrução, é um teatro ideológico, que faz igualdade, princípio ético constitucional, equivaler politicamente a liberdade, embora sejam conceitos diferentes.
A crer na encenação hollywoodiana, é nas delegacias e nos tribunais que se visibiliza a essência da república, uma igualdade pró-forma, cúmplice da escravidão e da discriminação dos não brancos, encoberta pela potência material. Já em 1938, Roosevelt temia: "Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país". Ou seja, o fascismo sempre esteve latente no senso comum.
Por isso, cresceu, reinventando-se no neofascismo moldado pela IA. A democracia vendida ao resto do mundo, quando não imposta por força militar, é como o quadro falso de um pintor, sem potência própria, sustentando numa bolha de ar as ilusões da cidadania americana. Agora, sinais de algo errado. Parece ter chegado ao ponto de saturação a forma social que abrigava no formalismo igualitário a formatação do simulacro de liberdade.
Noam Chomsky e outros críticos argutos sempre suspeitaram da corrida desenfreada para os extremos como um modo de encadeamento de coisas que só pode resultar em acontecimentos fatais. A ragilidade percebida por Gates é a fatalidade de um modelo em declínio, não ainda o estertor, mas um índice de sua inanidade. Democracia já é palavra incômoda, assim como diversidade e direitos humanos.
Donald Trump emerge da fossa moral cavada pela saturação. Criatura tóxica, impregna, inundando, espaços vulneráveis, afinado com Steve Bannon, que autodefine o seu método como "flood the zone with shit", isto é, "inundar a área com merda". A proposição expõe o bombardeio circense de ondas escatológicas sobre os cérebros da "parte errante" da população, imigrantes não brancos, minorias em busca de voz pública. Um hipercirco a ser levado a sério: Trump não é mero palhaço, é um elefante "shitting" no picadeiro. A estratégia de Bannon soa definitiva: sua é a matéria em que se transforma a democracia americana.
Um caminho simples para se compreender a cândida confiança nos alicerces democráticos da América é recorrer ao modo como isso é figurado no imaginário, matriz de crenças e convicções arraigadas. Com este foco, vale rever dramatizações de júris no cinema para identificar sketches ideológicos da democracia liberal em que a verdade na balança da Justiça parece transparecer na argumentação igualitária dos advogados, ponderada pelo juiz. Mas uma lógica utilitarista de negócios orienta (nos acordos) a redução de sentenças. E a garantia última de justiça é a Constituição, ratificada pela Bíblia. O "grand jury", tribunal de instrução, é um teatro ideológico, que faz igualdade, princípio ético constitucional, equivaler politicamente a liberdade, embora sejam conceitos diferentes.
A crer na encenação hollywoodiana, é nas delegacias e nos tribunais que se visibiliza a essência da república, uma igualdade pró-forma, cúmplice da escravidão e da discriminação dos não brancos, encoberta pela potência material. Já em 1938, Roosevelt temia: "Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país". Ou seja, o fascismo sempre esteve latente no senso comum.
Por isso, cresceu, reinventando-se no neofascismo moldado pela IA. A democracia vendida ao resto do mundo, quando não imposta por força militar, é como o quadro falso de um pintor, sem potência própria, sustentando numa bolha de ar as ilusões da cidadania americana. Agora, sinais de algo errado. Parece ter chegado ao ponto de saturação a forma social que abrigava no formalismo igualitário a formatação do simulacro de liberdade.
Noam Chomsky e outros críticos argutos sempre suspeitaram da corrida desenfreada para os extremos como um modo de encadeamento de coisas que só pode resultar em acontecimentos fatais. A ragilidade percebida por Gates é a fatalidade de um modelo em declínio, não ainda o estertor, mas um índice de sua inanidade. Democracia já é palavra incômoda, assim como diversidade e direitos humanos.
Donald Trump emerge da fossa moral cavada pela saturação. Criatura tóxica, impregna, inundando, espaços vulneráveis, afinado com Steve Bannon, que autodefine o seu método como "flood the zone with shit", isto é, "inundar a área com merda". A proposição expõe o bombardeio circense de ondas escatológicas sobre os cérebros da "parte errante" da população, imigrantes não brancos, minorias em busca de voz pública. Um hipercirco a ser levado a sério: Trump não é mero palhaço, é um elefante "shitting" no picadeiro. A estratégia de Bannon soa definitiva: sua é a matéria em que se transforma a democracia americana.
A mentira é a base da civilização moderna
É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc... A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. ...
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão paracer-se-à com a fome de luz?...
Teixeira de Pascoaes, "A Saudade e o Saudosismo"
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. ...
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão paracer-se-à com a fome de luz?...
Teixeira de Pascoaes, "A Saudade e o Saudosismo"
Suspensão da lei antissuborno dos EUA afeta América Latina
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu por 180 dias, para análise e possível modificação, uma lei que proíbe as empresas americanas de oferecerem propina a autoridades estrangeiras para obter acordos comerciais.
A Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA, na sigla em inglês) foi promulgada em 1977, após o escândalo de Watergate. Os EUA vêm aplicando-a vigorosamente contra o suborno há décadas.
A FCPA é fundamental, pois permite a investigação de corrupção em grandes grupos corporativos de todo o mundo que estão listados na bolsa de valores dos EUA, assim como em empresas que fazem negócios nos EUA e movimentam milhões de dólares.
"Os Estados Unidos têm uma aplicação de suas leis que frequentemente ultrapassa fronteiras devido ao seu papel na economia global e ao seu sistema bancário, onde é processado o maior número de transações do mundo", explica Cristián Francos, advogado de Washington especializado em anticorrupção e crimes financeiros complexos.
Francos menciona o caráter "exemplar" da FCPA dos EUA para outros países.
A Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA, na sigla em inglês) foi promulgada em 1977, após o escândalo de Watergate. Os EUA vêm aplicando-a vigorosamente contra o suborno há décadas.
A FCPA é fundamental, pois permite a investigação de corrupção em grandes grupos corporativos de todo o mundo que estão listados na bolsa de valores dos EUA, assim como em empresas que fazem negócios nos EUA e movimentam milhões de dólares.
"Os Estados Unidos têm uma aplicação de suas leis que frequentemente ultrapassa fronteiras devido ao seu papel na economia global e ao seu sistema bancário, onde é processado o maior número de transações do mundo", explica Cristián Francos, advogado de Washington especializado em anticorrupção e crimes financeiros complexos.
Francos menciona o caráter "exemplar" da FCPA dos EUA para outros países.
Para o advogado, a suspensão da lei vai "na direção errada", já que isso deve ter como efeito colateral o enfraquecimento de práticas anticorrupção nos países latino-americanos. "Porque durante esse período não haveria investigações dos EUA contra empresas que oferecem subornos", diz. E ainda não se sabe quais serão as consequências de uma emenda à FCPA ou de seu completo revogamento, acrescenta.
"Mais de 40 países têm leis inspiradas na FCPA, e os EUA têm sido líderes nessa questão, de modo que a medida de Trump tem um forte caráter simbólico", ressalta Jonas von Hoffmann, cientista político e pesquisador do Instituto Alemão para Estudos Globais e Locais (Giga, na sigla em inglês) em Hamburgo.
Segundo ele, a suspensão parece indicar que, para Trump, "o principal compromisso é com os negócios e com a competitividade dos Estados Unidos, e não com o combate à corrupção ou o fortalecimento do Estado de Direito".
"Essa lei é uma ferramenta central na luta contra o suborno transnacional, com um enorme impacto em todo o mundo. É uma lei que tem contribuído para promover um clima de maior integridade nos negócios, concorrência leal, e exerce um poder dissuasivo quando uma empresa cogita pagar um suborno", diz Luciana Torchiaro, responsável da Transparência Internacional para a América Latina e o Caribe. "Isso pode afetar a integridade geral dos negócios na região, desincentivando empresas e indivíduos a se comportarem de maneira ética", acrescenta.
Por outro lado, Francos enfatiza que "a lei não tem apenas um impacto muito positivo para as empresas dos EUA, mas também para as multinacionais de outros países".
Ele menciona o "caso emblemático" da Siemens, acusada de pagar bilhões em subornos no Brasil, na Argentina e no México. "Após uma investigação minuciosa do Departamento de Justiça, juntamente com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), foram detectadas práticas corruptas da Siemens em dezenas de países", lembra. A empresa acabou tendo que pagar altas multas.
Mais recentemente, o caso Odebrecht abalou a América Latina. A construtora brasileira pagou milhões de dólares a 12 governos latino-americanos para ganhar contratos de obras públicas, o que envolveu políticos e empresários, num esquema desvendado pela Operação Lava Jato.
"Tanto a Siemens quanto a Odebrecht tiveram que se submeter à lei americana", enfatiza Francos. "Porque havia algum ponto de conexão com os Estados Unidos."
Von Hoffmann lembra ainda que "grande parte das informações que temos sobre o quão sistemático foi o esquema de subornos no caso Odebrecht e quanto foi pago em cada país vem do julgamento da Odebrecht nos EUA".
Mais corrupção, mais violência e menos direitos humanos
"O impacto que o cancelamento dessa lei teria é muito grande, pois quando uma empresa paga propina, é para obter favores políticos ou um contrato; sem passar, por exemplo, por um processo de licitação ou controle ambiental", afirma Torchiaro. "Isso pode ter um impacto enorme sobre os direitos humanos, como vimos no caso da Odebrecht. No final das contas, as obras de infraestrutura que não são construídas, ou que são de má qualidade, afetam a todos e têm consequências ambientais drásticas", enfatiza.
"Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru apresentam baixa conformidade quando se trata de investigar e punir o suborno. E no caso do México, a conformidade é muito escassa", diz Torchiaro.
Francos explica que "historicamente, a FCPA foi aplicada, nos casos mais importantes, a empresas não americanas, e não foram as empresas americanas que perderam dinheiro, como Trump justifica a suspensão da lei".
Embora as leis anticorrupção na América Latina "continuem a ser aplicadas", von Hoffmann esclarece que "os recursos dos EUA têm sido frequentemente fundamentais para aumentar a eficácia da luta contra a corrupção".
"Se essa lei for cancelada, isso teria consequências muito graves para os cidadãos da América Latina e do mundo, pois aumentaria a corrupção na região", enfatiza Torchiaro. Isso poderia até colocar em risco a estabilidade internacional, prevê ela, citando um comunicado da Transparência Internacional publicado na terça-feira.
O motivo: "Países onde o nível de corrupção é mais alto tendem a ter mais conflitos, mais violência". Além disso, "o aumento do suborno transnacional incentivará os fluxos financeiros ilícitos, dinheiro sujo que não será investido na solução dos problemas das pessoas e enriquecerá alguns poucos".
"Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei"
De acordo com von Hoffmann, essa suspensão "abre a porta para o uso discricionário da lei, que é algo infelizmente muito conhecido na América Latina: 'Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei'".
"Acho que muitas das coisas que Trump está tentando fazer são imediatas e temporárias, e teremos que ver o quanto disso se manterá nos tribunais", avalia o advogado Francos. "Os EUA têm um sistema muito bom de freios e contrapesos, e espero que eles continuem funcionando."
Embora seja uma alternativa menos vinculante, "o cumprimento efetivo da Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra o suborno transnacional pelos países signatários poderia ser um vetor para mitigar os efeitos de um possível cancelamento dessa lei dos EUA", sugere Torchiaro.
Segundo ele, a suspensão parece indicar que, para Trump, "o principal compromisso é com os negócios e com a competitividade dos Estados Unidos, e não com o combate à corrupção ou o fortalecimento do Estado de Direito".
"Essa lei é uma ferramenta central na luta contra o suborno transnacional, com um enorme impacto em todo o mundo. É uma lei que tem contribuído para promover um clima de maior integridade nos negócios, concorrência leal, e exerce um poder dissuasivo quando uma empresa cogita pagar um suborno", diz Luciana Torchiaro, responsável da Transparência Internacional para a América Latina e o Caribe. "Isso pode afetar a integridade geral dos negócios na região, desincentivando empresas e indivíduos a se comportarem de maneira ética", acrescenta.
Por outro lado, Francos enfatiza que "a lei não tem apenas um impacto muito positivo para as empresas dos EUA, mas também para as multinacionais de outros países".
Ele menciona o "caso emblemático" da Siemens, acusada de pagar bilhões em subornos no Brasil, na Argentina e no México. "Após uma investigação minuciosa do Departamento de Justiça, juntamente com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), foram detectadas práticas corruptas da Siemens em dezenas de países", lembra. A empresa acabou tendo que pagar altas multas.
Mais recentemente, o caso Odebrecht abalou a América Latina. A construtora brasileira pagou milhões de dólares a 12 governos latino-americanos para ganhar contratos de obras públicas, o que envolveu políticos e empresários, num esquema desvendado pela Operação Lava Jato.
"Tanto a Siemens quanto a Odebrecht tiveram que se submeter à lei americana", enfatiza Francos. "Porque havia algum ponto de conexão com os Estados Unidos."
Von Hoffmann lembra ainda que "grande parte das informações que temos sobre o quão sistemático foi o esquema de subornos no caso Odebrecht e quanto foi pago em cada país vem do julgamento da Odebrecht nos EUA".
Mais corrupção, mais violência e menos direitos humanos
"O impacto que o cancelamento dessa lei teria é muito grande, pois quando uma empresa paga propina, é para obter favores políticos ou um contrato; sem passar, por exemplo, por um processo de licitação ou controle ambiental", afirma Torchiaro. "Isso pode ter um impacto enorme sobre os direitos humanos, como vimos no caso da Odebrecht. No final das contas, as obras de infraestrutura que não são construídas, ou que são de má qualidade, afetam a todos e têm consequências ambientais drásticas", enfatiza.
"Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru apresentam baixa conformidade quando se trata de investigar e punir o suborno. E no caso do México, a conformidade é muito escassa", diz Torchiaro.
Francos explica que "historicamente, a FCPA foi aplicada, nos casos mais importantes, a empresas não americanas, e não foram as empresas americanas que perderam dinheiro, como Trump justifica a suspensão da lei".
Embora as leis anticorrupção na América Latina "continuem a ser aplicadas", von Hoffmann esclarece que "os recursos dos EUA têm sido frequentemente fundamentais para aumentar a eficácia da luta contra a corrupção".
"Se essa lei for cancelada, isso teria consequências muito graves para os cidadãos da América Latina e do mundo, pois aumentaria a corrupção na região", enfatiza Torchiaro. Isso poderia até colocar em risco a estabilidade internacional, prevê ela, citando um comunicado da Transparência Internacional publicado na terça-feira.
O motivo: "Países onde o nível de corrupção é mais alto tendem a ter mais conflitos, mais violência". Além disso, "o aumento do suborno transnacional incentivará os fluxos financeiros ilícitos, dinheiro sujo que não será investido na solução dos problemas das pessoas e enriquecerá alguns poucos".
"Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei"
De acordo com von Hoffmann, essa suspensão "abre a porta para o uso discricionário da lei, que é algo infelizmente muito conhecido na América Latina: 'Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei'".
"Acho que muitas das coisas que Trump está tentando fazer são imediatas e temporárias, e teremos que ver o quanto disso se manterá nos tribunais", avalia o advogado Francos. "Os EUA têm um sistema muito bom de freios e contrapesos, e espero que eles continuem funcionando."
Embora seja uma alternativa menos vinculante, "o cumprimento efetivo da Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra o suborno transnacional pelos países signatários poderia ser um vetor para mitigar os efeitos de um possível cancelamento dessa lei dos EUA", sugere Torchiaro.
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