Na pesquisa do Canal 12 da TV israelita, 69% dos cidadãos apoiam o plano (apenas 18% se opõem a ele, 13% estão indecisos). Na pesquisa do Canal 13, o apoio é de 72%. Na pesquisa do Canal 14, sobe para 76%. Não há notícia de políticos israelitas se oporem. Até entre opositores do governo, o “plano” de Trump foi descrito como “interessante” ou “fora da caixa”. Esbarrei no título de um deputado (do Likud de Netanyahu) que seria contra realojar os palestinos no Egito e na Jordânia. Corri a ler: era contra realojar os palestinos… tão perto. Claro que entre a Groelândia e Elon Musk o céu não é o limite, vi até um cartoon com o foguetão a postos. Mas ainda nenhuma sondagem sobre Marte. Uma pesquisa do Jewish People Policy Institute pouco anterior à das TVs mostrou que 7 em cada 10 judeus israelitas querem “os árabes de Gaza realojados noutro país”. Aqui na Terra. Ainda.
Nos 80 anos da libertação de Auschwitz, o Estado fundado pelos sobreviventes do Holocausto apoia assim, largamente, a remoção de 2,3 milhões de palestinos. Chamando-lhe “emigração voluntária” ou “encorajamento à emigração”. Tal como chama “árabes” aos palestinos. Quando não “terroristas” ou “animais”.
Entretanto, nos EUA, 350 rabinos, intelectuais, artistas judeus compraram um anúncio de alto a baixo no New York Times de 13 de fevereiro: “Trump apelou à remoção de todos os palestinos de Gaza”, dizem em cima. Por baixo, uma caixa preta com grandes letras brancas a bold: “Judeus dizem NÃO à limpeza étnica!” E seis colunas de nomes (incluindo Naomi Klein, Tony Kushner, Joaquin Phoenix, Judith Butler). “O sonho de Hitler de tornar a Alemanha ‘Judenrein’, ‘limpa de judeus’ levou ao massacre do nosso povo”, resumiu o rabino Toba Spitzer. “Sabemos tão bem como qualquer pessoa a violência a que este tipo de fantasias leva.”
Onde está o anúncio equivalente em Israel? Onde estão os rabinos, os intelectuais, os artistas? E os médicos, os professores, os estudantes, os jovens, na sua grande maioria? Os letrados de Israel na mesma semana em que seis polícias de Jerusalém que não falavam inglês nem árabe fizeram um raide em duas lojas da Educational Bookshop, a mais amada livraria de Jerusalém Oriental Ocupada, onde, tal como milhares de leitores de todo o mundo, comprei incontáveis livros. E não só os polícias confiscaram mais de 100 livros em árabe ou inglês apenas porque tinham algum sinal da Palestina, como prenderam os irmãos livreiros Ahmed e Mahmoud Muna e fizeram-nos penar duas noites numa cadeia suja, apesar de uma multidão ter acorrido em protesto, incluindo diplomatas, e os israelitas (incluindo alguns na imprensa) que se tornaram menos do que uma minoria: a excepção.
Ali, aos pés das muralhas de Jerusalém, esse raide de domingo foi literalmente a polícia do Povo do Livro a atacar livros, vários espezinhados pelo chão. O que se segue? As brigadas do Fahrenheit 451? Fogueiras? Onde está o povo que durante séculos confiou nos livros o futuro, lendo-os, escrevendo-os? Que confiou neles para não morrer.
Eu tinha visto, não muito antes, o vídeo de uma biblioteca pública em Gaza destruída pelas bombas. Livros que se retiravam como pedaços de estuque, irreconhecíveis. Trazidos pouco a pouco por Mosab Abu Toha, um poeta que saiu de Gaza há meses e tem sido a (rara) voz palestina nas páginas da New Yorker, além dos poemas que publicou. Uma confiança na poesia, dita e escrita, e nos livros em geral, que vem das mais antigas tradições árabes e acompanha os palestinos como nunca desde a Nakba de 1948. Desde que isso se tornou parte da resistência: uma forma de estar vivo que não acaba.
Alexandra Lucas Coelho
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