sábado, 10 de fevereiro de 2024
O banimento dos idosos
É compreensível que seja difícil explicar essa anomalia social. Em parte porque a busca das causas prováveis tende a ser a das mais simples, mais óbvias ainda que menos prováveis, não as invisíveis.
Chama atenção que diferentes estudos sobre moradores de rua tendam a identificar como causa de sua situação de abandono os chamados defeitos de caráter, como alcoolismo e droga. Ou seja, nessa perspectiva, a culpa é da vítima.
O que, na verdade, nada explica. É muito mais fácil culpar o frágil pelos problemas sociais que protagoniza do que buscar causas, e não culpas, na própria estrutura social e em suas disfunções, num país em que as irracionalidades da economia se expressam como anomia social.
As sociedades são relacionais, tramas de causas recíprocas, tanto no que dá certo quanto no que dá errado, tanto em relação ao rico quanto em relação ao pobre. No caso de São Paulo, na chamada cracolândia, a incidência da marginalização decorrente do uso de drogas sugere o protagonismo da classe média. Observei isso na cracolândia da rua Helvétia, há alguns anos.
Caso em que se pode levantar a hipótese legítima de que o viciado desses ajuntamentos é alguém que busca a sociabilidade coletiva da rua porque é ela não excludente.
Ela se dá fora dos mecanismos de controle social dos diferentes grupos sociais de pertencimento e de referência. Como a família e a vizinhança e outros grupos de orientação social comunitária e afetiva.
Pessoas repelidas e reprimidas pela sociabilidade individualista dos agrupamentos formais, societários, os do indivíduo e não os da pessoa. Os do sujeito da cultura da produção lucrativa e não os da cultura do afeto.
As dificuldades do morador de rua para permanecer na sociabilidade da família parecem provir do fato de que a família em boa parte se tornou complemento e instrumento do sistema produtivo e lucrativo, isto é, da racionalidade econômica e não mais exclusivamente da afetividade social.
Sociologicamente, efeitos socialmente desorganizadores da vida em família, em muitos casos, não contam com a reação afetiva, compensatória e reintegradora do grupo familiar. Em boa parte porque os laços de família estão significativamente mediados e abalados pelo primado de relações de interesse.
A afetividade familista permanece na estrutura familiar, especialmente dos mais velhos em relação aos mais novos. E só residualmente presente, porque no sentido oposto e negativo, antissocial, dos mais novos em relação aos mais velhos. Avós tendem a ser muito mais generosos no acolhimento e proteção a netos e filhos do que os mais novos em relação aos mais velhos.
Isso tem muito a ver com as cada vez mais limitadas condições de vida das famílias. Com o chamado arrocho salarial dos anos iniciais da ditadura militar, o salário de duas pessoas em cada família tornou-se necessário para cobrir o que antes um único salário cobria. Aqui, isso tornou-se estrutural. Essa dificuldade desenvolveu um egoísmo peculiar nas gerações mais jovens, em começo de vida adulta, mesmo na família.
Mas não só nem principalmente isso. O sistema econômico, cada vez mais, tem transformado o trabalhador em matéria-prima da produção ao privá-lo dos meios de sua própria reprodução social, ao consumi-lo. E nele negar o meio de realização do capital. É um equívoco político supor que, na teoria das classes sociais, o trabalhador se explica apenas pela produção e não, também, pelo consumo de bens e serviços, condição da reprodução do capital.
É significativo que em São Paulo, o estado mais rico, estejam 40% dos idosos moradores de rua do Brasil. Entre as anomalias e contradições do sistema econômico brasileiro está a do banimento de seres humanos para os espaços de deterioração social, como os define Lewis Mumford.
O idoso de rua é o ser humano que chegou ao limite da procura de reintegração no mercado de trabalho. Da crescente dificuldade para conseguir emprego, o tempo cada vez maior de desemprego entre um emprego e outro define o ritmo da dessocialização do idoso no grupo familiar e na sociabilidade do trabalho, os vínculos sociais cotidianos mutilados pelo desemprego.
Sobram-lhe a necessidade de ressocialização para um modo de vida, um cotidiano marginal e não integrativo, na referência social dos grupos de rua a do viver de restos, ele próprio reduzido a resto da condição humana.
Sempre tragédias
O sistema esvazia nossa memória, ou enche a nossa memória de lixo, e assim nos ensina a repetir a história em vez de fazê-la. As tragédias se repetem como farsas, anunciava a célebre profecia. Mas entre nós, é pior: as tragédias se repetem como tragédias.Eduardo Galeano
A trama da desatenção
Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.
Sabemos muito bem dos meios usados para esse fim, todos os desfrutamos diariamente — aliás, acertaram em cheio, nos oferecendo preencher a incurável falta que nos habita. Não temos consciência de que aspectos a trama nos impede de enxergar e pensar, e esse é um dos êxitos de sua ação. Ela se alia a nosso dispositivo inato de negação da realidade frustrante. As questões podem ser as mais íntimas do ser, familiares, ou também as mais próximas da sociedade, da política e do planeta. E tais questões se agravam à medida que aumenta a desatenção individual e coletiva. A grande esperteza da conspiração é nos convencer, enquanto isso, de que seus meios foram feitos para aumentar o entretenimento, o conhecimento, a democracia e a comunicação.
Enquanto acreditamos que tudo se resume a essa dimensão positiva, a boiada da pulsão inata destrutiva vai passando e carrega consigo a deterioração da civilização que se infiltra de forma sorrateira. Ela expande a barbárie das guerras, agrava os riscos climáticos, produz soluções políticas com líderes extremos, em meio a conflitos sociais e disparidade de renda cada vez maior. Entre os mais lúcidos, cresce de forma assustadora o sentimento de que não é possível fazer nada — muito menos escrever alguma coisa. A máquina do mundo roda guiada por mãos invisíveis, com engrenagens anônimas, desígnios sinistros autônomos que já escaparam do alcance voluntário, mesmo de seus criadores e das esferas de maior poder.
O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista e utilitário ocupa o lugar que outrora era do romantismo. Salve-se quem puder nesta feira moderna. Aqui, o convite é sensual, e a distância já morreu — numa livre citação da profética música do saudoso Som Imaginário. E a curiosa contradição é que, numa sociedade cada vez mais dispersa e desatenta, que tudo esquece, os indivíduos ainda lutem, na esfera mundana — às vezes de forma desesperada —, por conquistar atenção e lembrança, mesmo que seja por aqueles 15 segundos fugidios de fama. Mas a cultura da desatenção, da ausência de foco e do esquecimento de tantas questões cruciais de uma sociedade provoca nos sujeitos desnorteados o sentimento de desamparo e orfandade. A História já mostrou qual é o risco político desse virtual cenário.
A polarização política e a polarização social
O fato é real, recente, ao pé-da-letra. Vale cotejá-lo com um outro, relativo ao zap-grupo, também declaradamente bolsonarista, de uma mesma profissão pública. Um deles posta uma mensagem segundo a qual importante figura da República teria sido flagrada com cocaína. Ninguém acredita, porém. Não é verossímil para o perfil em questão. Depois de alguma ponderação, o autor admite ser fofoca. Arremata: "Mas daria uma excelente fake news".
Os episódios estão ligados por um grau peculiar de complexidade. O primeiro, benigno pela singeleza da confirmação, é ao mesmo tempo contundente pela admissão lógica de que trafega numa esfera oposta ao bem, mas com excepcional isenção própria. O segundo parte de autodeclarados liberais econômicos, respeitáveis em público, porém com inequívoca malignidade em seu caldeirão privado de veneno emocional: um bunker de linchadores virtuais.
É provável que o wokismo, transformado em terrorismo intelectual do politicamente correto, gere um ressentimento exasperado em frações de classe de leitura escassa, passageiras de ego-trips. Confundindo com política o avanço de um novo tipo de controle social por normatizações moralizadoras, abrem-se à fascistização das redes. Haverá quem possa se expressar em termos racionais. Mas o gozo vertiginoso da fake news consiste em surfar na onda irrefletida da ignorância e do falseamento.
Apesar do voto implícito, não é mesmo de política que se trata. Eleitoralismo é hoje a fibrose do corpo social, problema de saúde cívica. Não faz sentido ser bolsonarista, é como dizer "eu sou o que já era". Ou seja, jornal de ontem, agarrado a nome como a um balão murcho, resto de uma festa (da Selma?) que deu chabu. Senão, identidade de bolha, fixada num polo sem geografia humana. Daí uma comoção primitiva, pré-política, aparentemente inconsequente.
Mas cada indivíduo é um mínimo múltiplo comum: um é multi. O vizinho talvez acredite pertencer a outra espécie humana, aspirante a algo ausente no horizonte social. Afinal, o próprio governo acaba de anunciar um plano de industrialização com metas "aspiracionais", sabe-se lá o que seja isso. Já o zap-grupo, entubado na máquina da mentira, o que demanda mesmo é oxigenação cívico-cultural.
Quem matou Karl Marx
Enquanto isso, na América Latina o debate foi abafado durante a epidemia de ditaduras ao longo de três décadas, recobrando o fôlego nos anos 1980 com a redemocratização da maior parte dos governos da região.
Nessa época, mundo afora, pensadores progressistas deram destaque ao agravamento abissal da desigualdade de renda e concentração de riqueza, alavancado pela globalização financeira e produtiva da economia e turbinado por um consumismo insaciável.
Na verdade, o assunto da pobreza como expressão da injustiça social já era debatido desde o final do século XVIII, associado principalmente às formas de exploração do trabalho e ao imperialismo internacional, que aqui e ali resultaram ora em revoltas sociais, ora na humanização do capitalismo liberal. Em 1912 o matemático italiano Conrado Gini anunciou seu Índice de Gini, que media a distância entre pobres e ricos.
As duas guerras mundiais embolaram o meio de campo dessa discussão, que ainda enfrentou resistências políticas expressivas durante a chamada guerra fria. Contudo, o debate da desigualdade social chegaria à virada do milênio de vento em popa. Exemplo disso, é a publicação do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, idealizado pelo indiano Amartya Sen nos anos 1990.
O século XXI chegou repleto de esperança e novas ideias. O Fórum Social Mundial estava no auge, com suas edições em Porto Alegre atraindo palestrantes como o pensador Noam Chomsky e o recém-eleito presidente Lula. Autores como Boaventura Sousa Santos, Viviane Forrester, Naomi Klein e Paul Singer pregavam que outro mundo era possível. Manifestações como a batalha de Seattle e outras na Europa contra a OMC davam o tom o movimento antiglobalização.
No entanto, numa direção oposta, o atendado de 11 de setembro contra as torres do WTC desencadeou a guerra ao terror, reeditando uma espécie de macarthismo (no estilo quem não estiver com o capitalismo está contra ele), muito bem representado pelas invasões do Iraque e do Afeganistão e as execuções de Bin Laden dentro do Paquistão e do general iraniano Soleimani em Bagdá.
O efeito foi como um balde de água fria nos movimentos, ativistas e organizações que atuavam no enfrentamento das desigualdades sociais, que tocavam na ferida aberta das diferenças sociopolíticas entre os países do norte e do sul do mundo, o que poderia ameaçar ainda mais a liderança geopolítica dos países ricos naquele período.
Nesse cenário, desencadeou-se uma fragmentação das causas sociais em temas diversos, como aquecimento global, opção de gênero, direito à cidade, raça e cor, segurança alimentar, justiça climática, entre outros.
Sem desconsiderar a importância desses enfoques para o desenvolvimento humano e a sustentabilidade da natureza, é preciso retomar o foco primordial sobre a questão política central de todos esses problemas da humanidade, seja como causa, seja como consequência: a desigualdade social.
E agora, Jair?
E agora, Jair?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, Jair?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, Jair?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, Jair?
E agora, Jair?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
Jair, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, Jair!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, Jair!
Jair, para onde?
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
A delícia de ser roubado
Depois de mais um suplício num restaurante caríssimo, a sondar a ementa com um detector de metais, a ver se localizo um tesouro que não se consiga estragar, fitei os olhos do empregado a quem me estava a queixar e vi a resposta: é impossível respeitar quem paga tanto para comer mal.
Respeitam-nos mais nos restaurantes baratos, onde a única coisa difícil de encontrar é a margem de lucro.
Estamos ali para comer bem e o facto de pagarmos pouco por esse serviço não é chamado para o caso. Pelo contrário, amigo: já que só tenho isto para gastar no almoço, ao menos que almoce bem, porra!
Outro nome que dão a esse entusiasmo é “fome” e também a fome dá vontade de comer. Vê-se um pobre a comer e fica-se com a ideia de que estamos na presença da última refeição do século XXI. E lá se vai a dieta.
Vai-se a restaurantes caríssimos por todas as razões excepto comer bem. Uma delas é fingir que não se liga nada à comida: não somos nenhuns animais.
Ser-se desprezado pelos empregados faz parte do prazer. Demonstra fidalguia ser-se odiado por quem nos serve o jantar. É normal que a faca de trinchar o assado faça lembrar a guilhotina. Não há nada a fazer senão ter pena dos pobres desgraçados que nasceram para ser servos da gleba.
Se passarmos a vida a comer comida feita por quem nos odeia, tudo o que for feito com mera indiferença sabe-nos como maná. Querer comer bem num restaurante caríssimo é como ir ver um filme de Dreyer à espera de rir. A comida é apenas um pretexto para pagar uma fortuna, na companhia de outros afortunados.
Mais vale ir almoçado.
Instituições funcionam como uma fossa entupida
Além de defeitos de base, por beneficiar quem tem mais poder ou sustentar hierarquias nefastas, o funcionamento das instituições se tornou ainda pior desde 2013, lama da qual não saímos.
Basta dar uma olhada no noticiário para notar várias instituições funcionando como uma fossa séptica entupida.
A Polícia Federal deu uma batida na casa e em escritórios do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) e de agentes da PF, suspeitos de montarem um centro de espionagem na Abin, a serviço dos Bolsonaro.
Por causa disso e algo mais, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, maior partido da Câmara, chamou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), de "frouxo".
Costa Neto, velho corrupto, ora bolsonarista, reclama que Pacheco não defende parlamentares de avanços do Supremo, queixa que é um ponto programático do parlamento negocista desde a Lava Jato, um dos motivos do levante contra Dilma Rousseff e mote de projetos de manietar o Judiciário.
A queixinha pega bem no Congresso também porque, de fato, o Supremo faz década e meia mete os pés pelas mãos, em patadas da esquerda à direita; politizou-se por iniciativa própria e com a ajuda de presidentes da República —há bancadas políticas no STF.
É um mafuá institucional.
Reportagens desta Folha têm mostrado como a cúpula militar e a do sistema de Justiça (Judiciário e Ministério Público) abocanham fatia desproporcional e despropositada dos fundos públicos por meio de salários, aposentadorias e pensões exorbitantes e gordos de penduricalhos.
Pacheco, aliás, quer inflar ainda mais os dinheiros do pessoal do sistema de Justiça.
Aqui, uma instituição informal está funcionando. Até onde a vista alcança, desde quando começou a se formar uma burocracia estatal profissional, nos anos 1930 e 1940, as classes médias altas ou altas dão um jeito de legitimar a extração de renda do Estado com a conversa de que precisam de compensação legítima pelos serviços prestados à ordem ou ao progresso nacional.
Precisam, sim, mas a conta foi muito além da que pode pagar este país pobre. Essa instituição informal perverte a instituição do serviço público, que precisa de reforma.
Por falar em rendas estatais, considerem-se as políticas industriais, ditas desenvolvimentistas. A maior parte da esquerda brasileira é engraçada. Faz 70 anos e lá vai fumaça, se dedica a promover a "burguesia nacional" ou apelidos sucedâneos mais modernos.
Muita fortuna foi engordada dos anos 1950 aos 1990 com proteção tarifária, juros de pai para filho, subsídios diretos ou taxas de câmbio amigas, tudo em nome do "desenvolvimento nacional". É um tanto menos agora, mas ainda é. Nunca privatizaram os sócios da Fiesp.
Essa esquerda mal fala de creche e escola para criança pobre, de SUS ou de contribuições da universidade para fomentar a pesquisa para o "desenvolvimento nacional", universidade bancada com dinheiro público e autônoma além da conta.
Logo depois de aparecer a nova política industrial, que até dá para discutir, o governo diz que quer ajudar a indústria naval e criar um fundo de socorro para companhias aéreas falidas.
Com base em quê? Em qual estudo? Qual instituição relativamente autônoma vai controlar o custo, a eficácia e os beneficiários da nova política de desenvolvimento, para não falar da inauguração desse novo hospital de empresas? Não existe uma instituição específica para colocar um cabresto nos favores para empresas e cobrar resultados.
O mau funcionamento do país é institucionalizado.
Há Homens e homens
Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis.
Bertolt Brecht
A voz da pós-informação
No século 17, o moralista francês La Bruyère descomplicava a questão: "O contrário das notícias que correm costuma ser a verdade" ("le contraire des bruits qui courent, c´est souvent la vérité"). Tempo depois, a lógica pediu a palavra. O inglês Conan Doyle pôs na boca de seu Sherlock Holmes que "quando se elimina o impossível, o que fica, por mais improvável, é a verdade."
Com La Bruyère, notícia era ruído, longe da verossimilhança que a imprensa moderna elevaria a regra profissional. Factoide e boato foram logicamente descartáveis, mas sem abominação moral. A famosa e falsa narrativa radiofônica de invasão alienígena, eticamente condenável, não impediu Orson Welles de despontar para a glória.
A questão atual, complexa como digerir um elefante, não se resolve por fact-checking, um mata-formigas. Falsificam-se as próprias checagens. Problema mesmo é a naturalização do fluxo artificial, em que mentiras e deep-fake são linguagem de outra realidade, superposta ao real-histórico. Na rede, a substância do que se diz não pertence à consciência psicológica, mas à potência lógica da máquina, que a ultrapassa. Verdade é de menos, basta a aderência tátil do sujeito.
O que vigora na empiria científica, assim como no senso comum ilustrado, é a verdade positivista dos fatos. De certo modo, entretanto, a rede refaz o mundinho de La Bruyère, onde bastaria colocar-se a contrário dos rumores para encontrar um evento moralmente plausível.
Hoje, é insuportável a desigual realidade externa, da qual se tenta fugir. Os fatos exaurem a consciência comum, fazendo da mentira droga de escape. Verdade é fumaça offline, cara ao espírito liberal, mas reclame hipócrita na politicagem eleitoral.
Desinformação não é mais palavra-chave: o tempo é de pós-informação, o mais puro e obsceno controle social. Não há limites para a inteligência artificial generativa. Já é banal desconstruir a coerência factual pela fragmentação dos acontecimentos, redefinindo notícia como uma fogueira emocional que cada adicto está livre para alimentar na mídia social com seu pedaço de lenha moral.
Saber que informação online é o caos do sentido ao menos relativiza o falatório, em favor de contramedidas cívicas. Na real, Moraes cobra a regulamentação das redes, Lula derruba as grades da praça.
O preço do desenvolvimento predatório na Amazônia
Esperada com entusiasmo pelo agronegócio, a Ferrogrão é um exemplo clássico dos projetos de infraestrutura que geram danos ambientais e violações de direitos. A ferrovia, que promete impulsionar o escoamento de grãos com um corredor de 933 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso, e Miritituba, no Pará, impactará 48 áreas protegidas, entre terras indígenas e unidades de conservação, e pode levar o Brasil a renunciar à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual é signatário.
O padre e ativista José Boeing, membro do Núcleo de Direitos Humanos e Incidência da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), chama atenção para o modelo de desenvolvimento adotado na região, que desconsidera a natureza e a cultura dos povos da Amazônia. “Essa ferrovia vai formar um corredor de exportação que só trará benefícios para o agronegócio. E o agronegócio não é sustentável”, afirma.
Estão previstos para a região inúmeros projetos minero-metalúrgicos, petroquímicos, hidrelétricos, hidrovias e ferrovias que não priorizam o respeito ao meio ambiente e aos povos e comunidades tradicionais. Essa é disputa entre dois modelos de desenvolvimento: o predatório e o socioambiental, segundo o bispo de Roraima e presidente da Repam, Dom Evaristo Pascoal Splengler. O primeiro, das grandes corporações e do poder financeiro, busca o lucro por meio da exploração exaustiva dos recursos da região. O segundo, considera a convivência harmoniosa com a floresta e os povos originários.
Para padre Dário Bossi, missionário e assessor da Rede Igreja e Mineração, a Amazônia sempre foi considerada como uma terra a ser conquistada e ocupada. “Amazônia foi pensada de fora para dentro, com grandes projetos considerados desenvolvimento, caracterizados pelo viés do extrativismo predatório: retirar matérias prima como látex, madeira, ouro, outros minérios, petróleo, gás, água, os quais necessitam de grandes infraestruturas para o escoamento dos produtos e de mão de obra barata”.
O missionário alerta que as obras de infraestrutura na Amazônia são criadas para atender demandas e produzir riqueza para fora da região, enquanto resta para os povos amazônicos os prejuízos sociais, ambientais e econômicos. “Infelizmente é uma Amazônia pensada de fora para dentro, onde os territórios sagrados, os bens comuns da natureza, a fauna e a flora e a manutenção da vida dos povos da floresta estão em constante ameaça por conta da expansão desses grandes projetos econômicos”, conclui.
O último relatório da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada, divulgado em 2019, apontou que 68% das terras indígenas e áreas naturais protegidas estão sob pressão de estradas, mineração, barragens, perfuração de petróleo, incêndios e desmatamento.
O levantamento citado mostrou que, dos 6.345 territórios indígenas localizados nos nove países amazônicos pesquisados (Brasil, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), 2.042 (32%) estão ameaçados ou pressionados por dois tipos de projetos de infraestrutura, enquanto 2.548 (41%) estão ameaçados ou pressionados por pelo menos um. Apenas 8% não estão em situação de ameaça ou pressão.
O procurador regional da República e assessor da Repam, Felício Pontes, afirma que o primeiro problema desses grandes projetos é que eles não levam em consideração os grupos e comunidades impactadas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que determina a realização da consulta prévia, livre e informada aos povos atingidos. “Se a consulta fosse realizada, problemas já seriam equacionados antes do início das obras, porque já sabíamos pelas pessoas que moram lá algumas consequências desses projetos que não são normalmente mencionados no Estudo de Impacto Ambiental”, destaca.
“Os projetos afetam como um todo a região, em alguns lugares, por exemplo, no caso de Belo Monte, já estamos vivenciando o ecocídio da volta grande do Xingu. A hidrelétrica mata o próprio ecossistema com a possibilidade de extinção de espécies de peixes e isso traz uma consequência terrível para essas comunidades”, conta o procurador.
Ele cita outros projetos que afetam a região, como é o caso das rodovias, que impactam no desmatamento na Amazônia e no próprio clima do planeta. “Nós já sabemos e é cientificamente comprovado que as estradas são os maiores vetores de desmatamento na Amazônia e isso atinge também aqueles que dependem da floresta para sobreviver”, afirma.
O rastro de destruição começa antes mesmo das obras, pois essas iniciativas costumam valorizar as terras e chamar atenção da especulação imobiliária. “Quando esses projetos são realizados existe uma especulação imobiliária, uma migração que em alguns lugares em até dois anos, a população local dobra. Então você imagina numa cidade em que não existe infraestrutura suficiente para dar conta da população existente no local, em termos de saúde e educação, e essa cidade vê a sua população dobrando rapidamente”, explica Felício.
À medida que se intensificam as pressões na Amazônia, fica claro o preço que se paga pelo “desenvolvimento”, pois a lógica desses grandes projetos leva a impactos ambientais irreversíveis, apresentando grandes mudanças socioambientais, o que inclui o aumento da pobreza, o deslocamento forçado de famílias, a violência e o surto de doenças.
A solução está na promoção das práticas sustentáveis, na fiscalização e aplicação das leis ambientais e no apoio de alternativas econômicas que valorizem a proteção da biodiversidade e dos ecossistemas. A adoção de medidas eficazes, a conscientização global e o compromisso com a sustentabilidade são fundamentais para assegurar que a Amazônia continue desempenhando seu papel vital na manutenção do equilíbrio ambiental.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024
A forretice dos ricos
Este era particularmente forreta. É verdade que me ofereceu um livro, mas era um livro escrito por ele e, mal mo passou para as mãos, pôs-se a discursar sobre quanto custaria num alfarrabista, por estar esgotado e cheio de reproduções caríssimas.
Eis o que apanhei da conversa: sim, os ricos são forretas. Mas isso de ser forreta é coisa de pobre — segundo os ricos.
Um forreta, para um rico, é o que o pobre chama ao rico que não estoura o dinheiro todo. Os ricos são forretas porque têm medo de ficar pobres. Ficar pobre, para um rico, é ficar como nós: obcecados com o dinheiro.
Os ricos contam os cêntimos porque nós não contamos. Nós, para compensar o não sermos ricos, gastamos o dinheiro todo até acabar, e depois ficamos à espera de que venha mais no fim do mês.
Os ricos têm horror a ficar assim, sem dinheiro. E, por isso, são forretas. São mais forretas ainda porque têm muito dinheiro. Têm mais a perder. A angústia é redobrada. Ter muito é ter muito medo de deixar de ter muito. “Mas ainda ficas com muito!”, dizem os pobres, a tentar convencê-los a comer uma lagosta em vez de uma navalheira.
“Sim”, respondem os ricos, “mas já não fico com tanto.”
Nós sabemos que o mundo não acaba quando não temos dinheiro: é apenas interrompido. Mas os ricos têm medo de não conseguir sobreviver. Têm medo de estar completamente dependentes do dinheiro. Podem até odiar o dinheiro. Mas não passam sem ele. Não são como os pobres. São ricos.
Os ricos horrorizam-se com os esquemas que os pobres arranjam para lhes sacar o dinheiro: investe aqui, empresta-me dali, filantropiza-me aquilo.
Nós não descansamos enquanto não forem pobres como nós — até para podermos ser amigos deles a sério. Os ricos pensam que só gostamos deles por causa do dinheiro. E, como querem que gostemos deles, agarram-se ao dinheiro.
Será antissemitismo denunciar coisas como essas?
Quando questionado sobre a nova prática, um comandante do exército disse ao Haaretz que as estruturas são selecionadas para serem queimadas com base em informações. Ao ser questionado sobre um prédio que foi incendiado não muito longe de onde ocorreu a entrevista, o comandante disse:
“Deve ter havido informações sobre o proprietário, ou talvez tenha sido encontrado alguma coisa lá. Não sei exatamente por que aquela casa foi incendiada”.
A emissora de televisão Al-Jazeera noticiou a descoberta, no Norte da Faixa de Gaza, de cerca de 30 corpos que estavam enterrados sob um monte de escombros num pátio de uma escola em Beit Lahia.
Os corpos, em decomposição, tinham “fitas de plástico nas mãos e pernas e panos à volta dos olhos e cabeças”. Não se sabe ainda de quem são, mas a descoberta levanta suspeitas de que possam ter sido mortos depois de detidos.
Em dezembro último, imagens de uma série de detidos na Faixa de Gaza a serem levados sem roupa, algemados e de olhos vendados – o que fora apresentado como uma “rendição em massa” do Hamas – provocaram fortes críticas a Israel, que mais tarde admitiu que apenas 10% a 15% daqueles detidos eram de fato membros do Hamas.
A acusação em relação aos 30 cadáveres surge um dia depois de uma operação de um grupo de militares israelenses num hospital de Jenin. Vestindo batas de pessoal de saúde e outros vestidos de mulher com lenço a cobrir a cabeça, em cerca de dez minutos, o grupo entrou num quarto e matou três palestinos usando armas com silenciador. Israel diz que os mortos faziam parte de uma célula do Hamas. O porta-voz do hospital Ibn Sina, onde ocorreu o ataque, disse que não houve trocas de tiros depois da entrada dos militares disfarçados.
“O que aconteceu é um precedente”, declarou. “Nunca houve um assassinato dentro de um hospital. Houve detenções e ataques, mas não um assassinato.” Israel diz que matou o líder de uma célula terrorista, Muhammad Jalamneh, que era também porta-voz do Hamas no campo de refugiados de Jenin.“Executaram os três homens enquanto eles dormiam no quarto”, descreveu à agência Reuters o diretor do hospital, Naji Nazzal. “Executaram-nos a sangue frio, disparando balas diretamente nas suas cabeças, no quarto onde estavam a ser tratados”.
Dezesseis países, incluindo EUA, Reino Unido, Alemanha e França, anunciaram a suspensão de financiamento da agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) depois de Israel ter denunciado que funcionários da agência teriam ajudado o Hamas a preparar e a cometer o ataque de 7 de Outubro. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que nove funcionários foram imediatamente identificados e despedidos”.
Em Gaza, 500 mil pessoas passam fome, e morreram, desde o início de outubro, cerca de 24 mil palestinos, metade dos quais crianças.
O todo pela pior parte
Por trás desse pressuposto amplamente difundido, há uma redução do todo à pior parte. O desacordo — e mesmo o desgosto — de progressistas pelos conservadores faz com que procurem seus piores elementos e os tratem como se fossem casos típicos, casos exemplares. Dessa maneira, distorcem e caricaturam o conservadorismo, tratando-o como meio essencialmente machista, obscurantista, antidemocrático e violento. A realidade, porém, é mais complicada.
Os conservadores valorizam a família, querem uma abordagem mais dura contra a criminalidade e são desconfiados de mudanças muito aceleradas nos costumes. Porém, como mostram as pesquisas, a grande maioria é contra a violência doméstica, é contra a perseguição e a discriminação de homossexuais, defende o respeito às escolhas das mulheres e a igualdade salarial entre os sexos.
O reducionismo e a distorção progressista destacam e amplificam no conservadorismo apenas o ridículo, o grotesco e o caricato, seja para atacar o adversário, seja para reafirmar o sentimento de pertencer ao lado “certo”, o lado “anti-eles”. Na imaginação progressista, o comportamento conservador típico não é aquele das igrejas que combatem a violência doméstica, a discriminação e promovem o respeito entre marido e mulher, mas o dos pequenos nichos de coaches de conquista, das tradwives que defendem a submissão aos maridos e dos ultratradicionalistas de toda sorte.
É verdade que esses elementos caricatos, violentos, reacionários e antidemocráticos existem e se abrigam no campo político conservador. Os progressistas podem perguntar por que então são tolerados ali. A resposta pode ser encontrada devolvendo a pergunta aos progressistas e pedindo que façam, eles também, um esforço de autoexame.
Por que nós, progressistas, toleramos em nosso meio apoiadores de ditaduras como Cuba, Nicarágua ou Venezuela? Por que toleramos em nosso meio feministas que dizem que toda relação heterossexual é um estupro? A resposta honesta é que toleramos essas posições nos meios progressistas porque partilhamos com elas alguns pressupostos e valores sobre como a sociedade deveria se organizar. Isso vale também para os conservadores.
O drama de nossa época politicamente polarizada é que essa caricatura que fazemos do adversário termina, no longo prazo, por moldá-lo. Ao reduzirmos o campo adversário a seus piores elementos, sinalizamos que são esses elementos os que mais nos incomodam. No outro lado, o ódio do adversário aparecerá como prestígio. Os grupos odiados pela esquerda se apresentarão na direita como os que mais incomodam, os que são verdadeiramente “anti-eles”. Pouco a pouco, vamos nos transformando na caricatura que o adversário faz de nós. Vamos nos tornando, nos dois lados, monstros.
A saída, um pouco contraintuitiva, é tentar escapar do jogo da polarização e se concentrar em cuidar da própria casa. Nossa principal responsabilidade é evitar que os piores elementos do nosso campo se desenvolvam e prosperem, com o empurrãozinho que recebem do adversário. Em resumo, precisamos de menos polarização e mais autocrítica.
De sapiens a humildes aprendizes
Certa espécie de mamífero se disse e acreditou ser sapiens! Colocou-se, arrogante, acima das demais, cuja extinção em massa tem provocado. No processo, destrói também suas próprias condições de vida!!
O suposto sapiens não aprende! Continua a fazer as mesmas coisas que causam tal destruição, uma forma de genocídio!!! E o faz por quê? Para quê? Se sobressair? O faz sem saber ou recusando-se a saber? Ciente, mas enganando-se? Constrangido a optar por ignorar a realidade? A história oficial diz que é para melhorar a qualidade de vida, mas mantém 70% da sua espécie em abjeta pobreza!
Extinguir ou tentar extinguir povos é crime; exterminar espécies também deveria ser, com agravante! Afinal, em cada espécie há muitos povos.
Mais que sapiens, é necessário que nós os membros dessa espécie nos tornemos “humildes aprendizes”! De Homo Sapiens a Homo Humilis Discipulus! Deixar a arrogância de lado e passar a aprender com as iterações dos diversos elementos da biosfera, de forma a nos tornarmos resilientes como ela é! Ou era, pois as ações daqueles “sábios” estão a detonar as bases da vida!
Parece, dizem os cientistas, que ainda há tempo para evitar o pior, mas é urgente abandonar o mito de sapiens e reconhecermo-nos como aprendizes, com humildade e vontade de aprender! Nas demais espécies, ninguém come além das suas necessidades, tornando-se obesos e de saúde frágil, exceto aqueles indivíduos que viraram animas domésticos dos “sábios”. Raríssimas guerreiam entre si, como fazem os ditos sábios!
É fundamental mudar as cabeças e os estilos de vida não apenas dos nossos dirigentes, mas de muito mais gente, se quisermos que nossos filhos possam evitar viver sob constantes e cada vez mais graves desastres que já não são mais “naturais”. Também não será agradável ver nossos descendentes presos em guetos, mesmo que luxuosos, como fazem hoje muitos europeus e norte americanos, buscando segurança (armada) contra os “outros da mesma espécie” que fogem da vida que sofrem!
Sim, enquanto nos acreditarmos sapiens, acima de todas as demais criaturas, continuaremos a maltratar todas elas, assim como convivemos com a maioria da nossa espécie sendo maltratada em razão das carências que caracterizam suas vidas! Se nos convencermos de que essa coisa de sapiens é uma fake news, que somos na realidade aprendizes que sequer sabemos conservar a nossa única casa, teremos chances de, humildemente, reconhecer o estrago que fizemos na nossa espécie e nos meios necessários para sobrevivermos. E agir para reparar tais
danos!
sábado, 3 de fevereiro de 2024
Por que dão a Bolsonaro uma importância que ele já não tem?
Antes também quando em pelo menos duas ocasiões planejou dar um golpe e não conseguiu, tentou comprar a reeleição gastando além do que tinha e não conseguiu, e por fim fugiu do país.
De longe, assistiu a uma tentativa amadora dos seus devotos de apear Lula do poder mal ele assumiu a presidência, e de perto, amargou a decisão da justiça que o tornou inelegível por oito anos.
Se não bastasse, está no centro do recém-descoberto escândalo de espionagem praticada pela Agência Brasileira de Inteligência (ou de Intimidação) à época em que (des)governava o país.
Ou a Abin, órgão de assessoramento do presidente da República, sob comando do seu cão de guarda, o delegado Alexandre Ramagem, seria capaz de espionar milhares de pessoas sem que Bolsonaro soubesse?
Bolsonaro confessou o crime antes de o crime começar a ser executado. Era preciso dispor de um sistema para evitar que ele, sua família e seus amigos se “fodessem”, foi o que disse e está gravado.
O sistema foi posto em ação, e sabe-se agora que bisbilhotou a vida de adversários do governo, de supostos adversários, e até de aliados que causaram ou poderiam causar incômodos a Bolsonaro.
O “Metrópoles” já revelou alguns nomes. O jornal da BAND, ontem à noite, revelou outros – entre eles, três ex-ministros de Bolsonaro, a saber:
* Abraham Weintraub, da Educação;
* Anderson Torres, da Justiça;
* e Flávia Arruda, da Secretaria de Governo.
O antecessor de Flávia também foi espionado, assim como o general e ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência, Carlos Alberto dos Santos Cruz, amigo há décadas de Bolsonaro.
Santos Cruz foi um dos primeiros-ministros de Bolsonaro a ser demitido por ele. O primeiro foi Gustavo Bebianno, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência.
A Bebianno, Carlos Bolsonaro, chefe do gabinete do ódio no Palácio do Planalto, contou que pretendia criar uma Abin paralela. Por exigência de Carlos, Bebianno e Santos Cruz acabaram desempregados.
Deputados federais que passaram a divergir do governo não escaparam à vigilância da Abin: Kim Kataguiri, Alexandre Frota e Joice Cristina Hasselmann; essa, sequer se reelegeu.
Entre os senadores, há nomes de todos os partidos: Otto Alencar, Rogério Carvalho, Omar Aziz, Humberto Costa, Alessandro Vieira, Renan Calheiros, Simone Tebet e Soraya Thronicke.
Ramagem piscou primeiro. Depois de negar que a Abin tenha espionado quem quer que seja, admitiu em entrevista ao “Metrópoles” que ocorreram por lá “atividades ilícitas”.
Para desviar a atenção de si e de Bolsonaro, Ramagem levantou suspeitas sobre a atuação de Paulo Maurício Fortunato, diretor de Operações da Abin ao longo de sua gestão:
“Foi na casa [de Fortunato] que foram encontrados 170 mil dólares, quase R$ 1 milhão. Fui eu que fiz toda a apuração que gerou a exoneração dele. Por que eu agora estou sendo investigado? É perseguição.”
A Polícia Federal já tem fortes indícios de que Bolsonaro seria um dos destinatários das informações do esquema de espionagem da Abin. Os relatórios da agência eram impressos e entregues a ele.
Dê-se, Bolsonaro, por satisfeito se emplacar o vice de Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo e candidato à reeleição. Mas até isso está difícil. A proximidade com Bolsonaro aumentaria a rejeição de Nunes.

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