Chegou a vez da Argentina. Javier Gerardo Milei, economista de 53 anos, alcança a Presidência de seu país como a versão platense de uma tendência de governos de ultradireita que vêm atravessando outros países da região.
Suas particularidades são muitas em relação àqueles com quem costuma ser comparado: não tem apreço pelo conservadorismo moral ou pelos militares como tinha Jair Bolsonaro; não evoca ditadores do passado, como o chileno José Antonio Kast; não defende a construção de prisões gigantes nem um Estado hiperpaternalista como o salvadorenho Nayib Bukele; tampouco aprova que o Executivo seja enorme e abocanhe os demais Poderes, como o guatemalteco Alejandro Giammattei.
Mas, sim, Milei se parece com todos eles ao pregar um rompimento com o que considera política tradicional, ao abraçar o politicamente incorreto, ao desconsiderar as políticas de gênero e avançar contra os direitos de minorias e imigrantes, ao estar a favor da liberação do comércio de armas e ao elogiar e exaltar a meritocracia em um país em que isso deveria ser considerado obsceno devido a suas grandes desigualdades.

Nunca a Argentina teve um presidente tão excêntrico como Milei. Carlos Menem (1930-2021) poderia ser uma comparação nesse quesito. Adorava receber presentes caros, como Ferraris; embarcou no delírio da convertibilidade dólar/peso e das privatizações em um país não preparado para isso; esteve cercado de casos místicos em que mortes e intrigas de pessoas próximas a ele e a seu círculo de poder eram comuns; deu indultos a repressores da última ditadura (1976-1983), como a vice de Milei, Victoria Villarruel, deseja fazer.
Como Menem, Milei não esconde sua enorme vaidade, que o faz namorar mulheres do mundo do espetáculo e exibi-las por todos os lados, assim como transmitir a ideia do macho alfa que tem "superioridade estética" com relação aos que pensam diferente.
Também como Menem, Milei não quer saber dos países vizinhos e de se parecer com outros países latino-americanos. Para quem não se lembra, Menem falava em manter "relações carnais" com os EUA. Milei quer chutar o Mercosul em nome da "liberdade" de buscar tratados de livre-comércio com o mundo e se relacionar com "Israel e o mundo ocidental".
O clássico "Pizza Con Champán" (Sylvina Walger, 1995), que retrata a fervilhante excentricidade dos anos 1990, "dolarizados", com um presidente meio amalucado no comando do país, merece ser relido hoje como possível referência de coisas que podem ocorrer novamente.
Milei venceu as eleições por conta de um cansaço da população com o kirchnerismo —esta que vem sendo a corrente predominante do peronismo desde o surgimento de Néstor Kirchner, em 2003. Esse cansaço já havia dado mostras de uma escalada antes, abrindo espaço para a eleição de Mauricio Macri em 2015.
Este, porém, também falhou ao não conseguir reduzir a inflação, fazer os ajustes necessários e trazer investimentos. O resultado é que a pobreza aumentou até cifras muito parecidas às obscenas de hoje. Seu governo começou a ruir a partir de 2018, quando decidiu pedir o empréstimo de US$ 56 bilhões ao FMI (Fundo Monetário Internacional), que comprometeria a economia do país nos anos seguintes, junto à pandemia e à grave seca que fez com que o país tivesse um prejuízo de US$ 20 bilhões no ano passado.
Sergio Massa, ministro da Economia há apenas um ano, tem menos culpa do que se pintou contra ele durante a campanha eleitoral. As medidas que Alberto Fernández se recusou a tomar no começo de seu mandato estão mais relacionadas a essa situação econômica agônica na qual o país já arrastava. A má relação entre ele e sua vice, Cristina, e suas diferenças não "acalmaram a economia". De todo modo, a "narrativa" de que Massa era o culpado pela inflação foi eficiente.
O resultado do fracasso de Macri foi um cansaço ainda mais raivoso do que havia em 2015. Se naquele ano atacavam-se a corrupção e a deterioração econômica apontando apenas para o kirchnerismo, em 2023 essa insatisfação cresceu de modo mais hostil, abraçando também a oposição.
O achado de Milei, de chamar a todos, incluindo a oposição, de "casta" lhe deu vantagem desde o início de sua escalada, nas eleições legislativas de 2021, quando se elegeu deputado.
É preciso olhar para a história para avaliar as chances de êxito de Milei em seu governo. Macri teve como um de seus únicos sucessos o fato de ser o único opositor ao peronismo a completar um mandato. Os demais todos saíram antes. Esse fantasma acompanhará Milei, uma vez que o peronismo na oposição atua em sua forma mais eficiente, mobilizando sindicatos, militância e províncias em que reina há décadas.
Outro entrave para Milei será o Congresso, onde não terá maioria. Também a Constituição, que colocará travas a sua ideia de promover consultas populares vinculantes para aprovar medidas como a dolarização ou outras que não teriam chance, a princípio, de passar pelo Parlamento.
Se saem de cena os Kirchners, o peronismo vai se reagrupar em torno de novas figuras e terá o espaço deixado pelo Juntos pela Mudança.
O peronismo também tem recursos para conter "estallidos" e evitar grandes tensões sociais, justamente por distribuir benefícios. Milei não contará com isso. Se não entregar resultados rápidos nos primeiros meses, a chance de a insatisfação tomar as ruas é muito grande.
Há profundas alterações no clima do planeta, em decorrência da poluição, da economia desenfreada e poluente dos países desenvolvidos, e da baixa aderência aos protocolos climáticos.
Direitos e deveres surgirão para tornar ou manter a Terra, minimamente, habitável?
Esses novos direitos terão como prioridade a manutenção da vida? Tal catálogo está profundamente relacionado à água potável, à suportabilidade das altas temperaturas, à escassez dos alimentos e ao novo formato das habitações.
Isso relaciona-se com a desertificação de amplas áreas, hoje agricultáveis, da poluição das nascentes, dos rios e dos mares, da extinção das florestas, às enchentes inesperadas e aos novos fenômenos que resultam em multidões de refugiados climáticos.
Serão direitos conectados ao meio ambiente e à sobrevivência. Os deveres estarão relacionados à produção econômica das grandes corporações, que jamais se submeteram aos protocolos ambientais.
A supressão da poluição aérea, terrestre e hídrica deverá compor uma nova Constituição Global e Estatal, hoje relegada às franjas ineficazes dos ordenamentos jurídicos.
Como direitos sem sanção não funcionam, – as estruturas do poder estatal obrigarão o cumprimento desse novo sistema legal ambiental.
Por enquanto, está ocorrendo a perda considerável de vidas, faunas e floras, e os painéis científicos internacionais apenas orientam e alertam, nada mais.
Tal debate está distante das novas tecnologias, da inteligência artificial e das poderosas redes sociais que arrastam milhões de pessoas à superficialidade.
Enquanto isso, nos E.U.A., cujo PIB está crescendo graças à indústria armamentista, detém 45% da produção de armas globais.
Em 2022, esse mercado movimentou US$ 2,2 trilhões, em 2023 cresceu US$241 Bi (estimado). Resumo, tais lucros poderiam promover o fim da miséria no mundo, e reduzir a marcha do aquecimento climático. Nada é feito.
Os fins do Estado estão cada vez mais esquecidos: da segurança pública; dos transportes, do fornecimento da energia e da água potável; das políticas públicas e da economia em prol da população.
Ao lado da indústria das armas estão os bancos e a especulação financeira em grande escala, que espoliam bilhões de pessoas, com lucros sempre maiores que todos os outros setores econômicos. Resultado: a economia global movimenta-se no eixo das armas e das instituições financeiras.
Os ordenamentos preocupam-se com esses temas, ora escamoteando-os, ora garantindo-lhes a legalidade. Vejamos as recentes leis e as novas decisões de tribunais sempre favoráveis aos bancos no Brasil, como também a ideologia da independência dos bancos centrais, o livre mercado que se autorregula, enfim, tudo que desencadeou a quebradeira de 1929 e 2008 (dentre outras).
Os direitos e os deveres deverão focar nos profundos problemas globais do clima, das guerras e dos genocídios.
A primeira grande medida será a extinção dos arsenais bélicos e da indústria armamentista; a segunda, a alteração na economia global para voltá-la aos cidadãos do mundo e não ao rentismo. Na última conta, as atuais armas nucleares do mundo poderiam destruir 80 vezes a Terra. Tudo isso que está acontecendo não é uma grande e terrível lição para a humanidade?
Tudo está abafado. O ar condicionado mal dá conta, é preciso auxílio do ventilador. Luísa sua pela nuca, testa e virilhas, mas não pelas axilas. Nunca soube o porquê. Só sabe que há coisas na vida que desconhecem porquês e para quês. Só são como são. Luísa é assim, sudorenta irregular. O calor lhe desperta seus “não sei porquês” do corpo e da alma. Fica mais manhosa, às vezes, letárgica. O lento espalhar com as mãos do suor do pescoço e peito lhe dá um ar sedutor e, ao mesmo tempo, seu rosto adquire traços de cansaço e devaneio. Para quem a vê, Luísa torna-se um mistério. Mais um, num mundo quente sem porquês.
Resolveu almoçar na cafeteria da Lorena, a dois quarteirões do trabalho. Foram dois quarteirões de sol a pino e calor inescapável. Vez ou outra, seu rosto era atiçado por baforadas de vento quente que vinham como marolas de ar provocadas pelos ônibus barulhentos que cruzavam a cidade apinhados de gente suada. “Caminhar foi uma má ideia”, pensou.
Chegou melada de suor e incomodada com o vestido que se agarrava à pele suada em desalinho com seu corpo. Sentia-se suja. Incomodada. O garçom, que a conhecia, cumprimentou-a sem o sorriso de sempre. Suava mais que ela. O ar da cafeteria não dava conta do calor da rua, do abre e fecha da porta e do calor que irradiava da cozinha com um forte cheiro de manteiga derretida. Entregou-lhe o cardápio molhado do suor que lhe escorria pelo queixo. Pensou em ir embora, mas para onde fosse, haveria de encarar o calor bafento e malcheiroso da rua. Preferiu ficar no calor amanteigado da cafeteria.

Na mesa ao lado, um sujeito de voz grossa, quase gutural, chamava aos palavrões pelo garçom. “Cadê minha lasanha? E esse ar que não funciona!…”. Gesticulava exibindo duas enormes manchas molhadas e esbranquiçadas de desodorante nas mangas da camisa sob as axilas. Pareciam duas bocas gigantes de xícara de capuccino.
O garçom lhe respondeu tão rápida e displicentemente que Luísa não entendeu o que ele dissera, mas entendeu pelo tom que não era a resposta gentil de costume. Sem retrucar, o sujeito levantou quase num salto seu corpo pesado da cadeira, precipitando a mesa e todos os apetrechos sobre ela ao chão. A mão voou fechada e atingiu em cheio o queixo do garçom, lançando ao ar um leque de gotículas de suor. Um segundo soco o tirou da letargia do susto. Reagiu a pontapés. A cena se passava para Luísa como em câmera lenta, como se não fosse real, como se nada fosse real. O choque de realidade lhe veio na cabeça, atingida por uma cadeira lançada ao ar sabe-se lá por quem.
Em pouco tempo, todos batiam, todos apanhavam. A cafeteria foi se desfazendo em mesas quebradas, vidros e louças estilhaçadas. O chão tornou-se um atoleiro de suor, sangue, comidas e bebidas. Luísa caiu e preferiu não levantar mais. Assistia à barbárie do chão molhado, sem se preocupar com as bochechas que se molhavam na lama do chão. Sentiu-se protegida naquela sarjeta de restos dos incômodos e brutalidade dos que lutavam com palavras, pernas e punhos pela manutenção de seus orgulhos e paciências apequenadas pelo calor indiferente aos incômodos e outras miudezas humanas.
Luísa deu-se por si suja, malcheirosa, ferida e, pela primeira vez na vida, com as axilas suadas. Sentia-se completamente despida de sua dignidade. Largou-se ali até quase adormecer naquele chão menos quente do que o ar fedorento de suor do que, um dia, foi a cafeteria da Lorena.
Em qualquer zona de guerra, contar os mortos é um desafio. Em Gaza não é diferente.
À medida que as batalhas se intensificam, a situação caótica - com bombardeamentos por forças israelenses, combates terrestres, cortes de comunicações, escassez de combustível e infraestruturas em ruínas - torna extremamente difícil obter informações precisas sobre o número de pessoas que morreram.
E as autoridades palestinas afirmaram que existem agora “dificuldades significativas” na obtenção de informações atualizadas devido à interrupção das comunicações na Faixa de Gaza.
O Ministério da Saúde controlado pelo Hamas é a fonte oficial de Gaza para o número de mortos – que é atualizado regularmente. Na noite de segunda-feira (13/11), informou que 11.240 pessoas foram mortas, incluindo 4.630 crianças, desde os ataques do Hamas a Israel no dia 7 de outubro, que desencadearam a guerra atual.
Os números foram publicamente questionados por Israel, embora recentemente tenha tido de rever os seus próprios números de mortes para baixo em cerca de 200 – de 1.400 para cerca de 1.200.
O presidente dos EUA, Joe Biden, disse que “não tem confiança” nas estatísticas de Gaza. Mas organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) das Nações Unidas, afirmaram não ter motivos para não acreditar neles.
A BBC tem analisado detalhadamente como são contabilizados o número de vítimas em Gaza.

O Ministério da Saúde de Gaza publica regularmente o número de mortes nas redes sociais, com uma divisão separada no número de mulheres, crianças e idosos. Os números não indicam a causa da morte, mas descrevem os mortos como vítimas da “agressão israelense”.
O ministério também fornece números de feridos e desaparecidos. Alguns dos corpos permanecem presos sob pilhas de escombros, afirma a organização humanitária Crescente Vermelho Palestino.
Autoridades do Ministério da Saúde dizem que os números de mortes são registrados por profissionais médicos antes de serem repassados a eles e os números incluem apenas pessoas registradas como mortas no hospital.
Os números não fazem distinção entre mortes de militares e civis. E, como não levam em conta aqueles que morreram no local das explosões e cujos corpos não foram encontrados ou enterrados imediatamente, pode haver uma subcontagem, dizem as autoridades de Gaza.
Esse ponto foi amplificado pela administração Biden na semana passada, quando um alto funcionário dos EUA disse que o número de mortos provavelmente seria maior do que os números divulgados.
"Achamos que são muito altos, francamente", disse Barbara Leaf, secretária de Estado adjunta para Assuntos do Oriente Próximo, ao Comitê de Relações Exteriores da Câmara, "e pode ser que sejam ainda maiores do que os citados".
Isso contrasta fortemente com a opinião do próprio Biden, que, em 25 de outubro, disse não ter “nenhuma noção de que os palestinos estão dizendo a verdade sobre quantas pessoas foram mortas”.
No entanto, ele não forneceu nenhuma razão para seu ceticismo.
Um dia depois de Biden ter rejeitado os números, o Ministério da Saúde de Gaza forneceu mais informações, publicando uma extensa lista de nomes de todos aqueles que foram mortos entre 7 e 26 de outubro. A lista incluía mais de 6 mil nomes completos com idade, sexo e números de identidade.
Como foi compilado? A BBC conversou com pessoas envolvidas na coleta e organização dos dados, assim como com um acadêmico que verificou se havia duplicatas na lista de nomes.
Também falamos com um grupo de investigação independente, o Airwars, que está no processo de comparar as mortes que investigou com nomes que constam na lista do Ministério da Saúde, e com a ONU - que avaliou os números de mortes em Gaza durante períodos anteriores ao conflito.
Profissionais de saúde como Ghassan Abu-Sittah, um cirurgião plástico da Médicos Sem Fronteiras que vive em Londres e tem tratado pessoas em hospitais na Cidade de Gaza, são fundamentais para registar esses números.
Ele diz que o necrotério do hospital registra as mortes apenas após confirmar a identidade do falecido com seus familiares.
O número de mortes registradas até agora, acredita ele, é muito inferior ao que realmente ocorreu. “A maioria das mortes acontece em casa”, diz ele. “Aqueles que não conseguimos identificar, não registramos”.
No entanto, uma vez encontrado um corpo, “ele tem de ser levado ao hospital para ser registrado”, afirma um porta-voz do Crescente Vermelho Palestino.
Para examinar a lista do Ministério da Saúde, a BBC cruzou nomes nela incluídos com os de pessoas mortas que apareceram nas nossas reportagens. Uma dessas mortes relatadas pela BBC foi a de Midhat Mahmoud Saidam, morto num ataque em 14 de outubro. A BBC conversou com seus ex-colegas.
A análise de imagens de satélite realizada pela BBC mostrou danos na área onde ele morava por volta da data de sua morte. Uma imagem publicada nas redes sociais mostra um saco para cadáveres com o nome dele e detalhes escritos.
Trabalho semelhante, mas em maior escala, está sendo realizado pela Airwars. Como parte do seu trabalho de investigação de mortes de civis, ela comparou os nomes dos mortos na lista do Ministério da Saúde com as áreas que foram bombardeadas. Até agora, a Airwars encontrou 72 nomes na lista do ministério em cinco das áreas que investigou, incluindo o de Saidham.
A investigação descobriu ainda que 23 membros da família dele também morreram e todos foram registrados na lista do Ministério da Saúde.
A BBC também falou com a ONU e a Human Rights Watch - ambas afirmaram não ter motivos para desconfiar dos números divulgados pelo Ministério da Saúde em Gaza.
A ONU depende do Ministério da Saúde como fonte de números de vítimas na região.
“Continuamos incluindo os dados nos nossos relatórios e a sua origem é clara”, afirmou em comunicado. "É quase impossível neste momento fornecer qualquer verificação diária da ONU."
Outras pessoas que examinaram os números do Ministério da Saúde incluem o professor de economia Michael Spagat, da Royal Holloway, da Universidade de Londres – que preside a instituição de caridade Every Casualty Counts, que estuda o número de mortos em guerras.
Ele diz que, junto com um colega, encontrou apenas uma entrada duplicada no conjunto de dados do Ministério da Saúde – a de um menino de 14 anos.
No entanto, uma discrepância continua sendo fortemente contestada – a do número de mortos após uma explosão no hospital al-Ahli, na Cidade de Gaza, no dia 17 de outubro. O Ministério da Saúde disse que 500 pessoas foram mortas, e esse número foi posteriormente revisado para 471.
Uma avaliação da inteligência americana foi mais baixa, "provavelmente na extremidade inferior do espectro, de 100 a 300". Os militares de Israel citaram os números de Al-Ahli como base para a afirmação de que o Ministério da Saúde de Gaza “inflaciona continuamente o número de vítimas civis”.
A BBC fez repetidas tentativas de contato com o Ministério da Saúde de Gaza, mas não obteve respostas até a publicação deste texto.
O professor Spagat também analisou conflitos anteriores e descobriu que os números do Ministério da Saúde em Gaza não pareciam estar distantes da realidade.
Em uma análise dos números de mortes do Ministério da Saúde no conflito Israel-Gaza em 2014, no qual Gaza foi bombardeada, e em um registo separado dos números de mortes desse mesmo ano recolhido pela organização israelense de direitos humanos B'Tselem, Spagat encontrou consistência nos números relatados.
O Ministério da Saúde disse que 2.310 habitantes de Gaza foram mortos em 2014, enquanto B'Tselem contou 2.185 mortes. A ONU disse que 2.251 palestinos foram mortos, incluindo 1.462 civis, e o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse que a guerra de 2014 matou 2.125 palestinos.
Discrepâncias como essas são “bastante normais”, diz Spagat, já que algumas pessoas podem ter morrido no hospital por razões posteriormente demonstradas como não relacionadas com a violência no conflito.
Ola Awad-Shakhshir, presidente do Gabinete Central de Estatísticas Palestino, em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, recebe atualizações regulares sobre as mortes em Gaza.
Awad-Shakhshir diz que o Ministério do Interior de Israel controla efetivamente os números de identificação dos recém-nascidos em Gaza e na Cisjordânia – os mesmos números de identificação que aparecem no registo de mortes do Ministério da Saúde, gerido pelo Hamas.
O Gabinete de Registo da População de Israel mantém arquivos que correspondem aos de Gaza e da Cisjordânia.
Quando a BBC abordou um porta-voz das Forças de Defesa de Israel sobre o motivo pelo qual lançaram dúvidas sobre os números de mortes em Gaza, ele disse que o Ministério da Saúde era um ramo do Hamas e que qualquer informação fornecida por ele deveria ser “vista com cautela”. Mas não forneceu nenhuma evidência de inconsistências nos dados divulgados pelo Ministério da Saúde.
Também perguntamos ao gabinete do primeiro-ministro israelense como foi registrado o número de israelenses mortos no dia 7 de outubro pelo Hamas. Ele não respondeu a essa pergunta, no entanto, nos últimos dias, Israel revisou para baixo o número de pessoas mortas durante o ataque para cerca de 1.200, ante o número anterior de 1.400.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lior Haiat, disse que o número revisado se deve ao fato de muitos corpos não terem sido identificados imediatamente após o ataque e "agora pensamos que pertencem a terroristas... e não a vítimas israelenses".
O governo israelense não publicou uma lista detalhada das vítimas civis, embora alguns meios de comunicação israelenses tenham reunido essas listas com nomes, idades e locais das mortes.
A polícia de Israel afirma que mais de 850 corpos de civis foram identificados – o trabalho continua para tentar identificar restos mortais usando técnicas forenses especializadas.
Existe uma lista pública dos soldados israelenses mortos até agora que inclui 48 que morreram nos combates dentro de Gaza.
Kayleen Devlin
Manifestantes bolsonaristas invadem a Esplanada dos Ministérios e promovem atos de vandalismo e terrorismo em prédios públicos. Na imagem, eles entram em confronto com a polícia, que usam cavalos e escudos para deter vândalos - Metrópoles
A democracia não tem descanso. Sofre ameaças permanentes e frequentes agressões reais. A causa é uma contradição de difícil superação: paga o altíssimo preço mais pelas virtudes que abriga do que pelos defeitos que carrega como obra imperfeita da criação humana.
Os fundamentos do ideal democrático podem ser identificados na definição da notável filósofa, autora de obras marcantes, Hannah Arendt (1906-1975) sobre o que vem a ser a Política: “Tem por base a pluralidade de homens e a convivência de diferentes” (O que é política?; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p.21).

A sábia concisão de Arendt revela os elementos constitutivos da construção democrática: pluralismo, regras de convivência e solução pacífica dos conflitos.
A judia-alemã, naturalizada norte-americana, tinha pleno conhecimento do que dizia não só porque nos legou obras magistrais, frutos de profunda reflexão, como também por uma experiência vivida em que a democracia foi massacrada pela devastadora beligerância dos totalitarismos.
Sua sobrevivência pessoal à “solução final”, preconizada pelo nazismo como etapa derradeira da extinção dos judeus, equivale à uma narrativa épica; sua existência revelou a fortaleza de uma mulher dotada de inabalável empatia e capacidade de enxergar A Condição Humana (título de grande obra) em “ação” integrada à esfera pública, livre e plural.
Sem direitos do homem reconhecidos e protegidos no ambiente fecundo da diversidade, do antagonismo e do diálogo, o espaço da democracia é sufocado pela violência e supremacia do mais forte.
As regras de convivência e as instituições, derivadas do consentimento, separam a barbárie e da civilização; afirmam o governo da lei e as limitações do exercício do poder. Porém, não bastam códigos escritos, a força dos costumes, os imperativos morais ou religiosos, é necessário que a lei seja cumprida e eficaz, pois, quanto maior for a adesão voluntária dos cidadãos aos comandos normativos, mais democrática é uma sociedade.
O momento necessário de confirmação e reiteração do ideal democrático é a paz. Desde os pequenos círculos de convivência à configuração da geopolítica global, caso não haja possibilidade para solução pacífica dos conflitos, a democracia agônica perde continuamente a respiração para o poder dos tiranos e a consagração da estupidez que se chama guerra.
Pois bem, o estrondo das armas e a crueldade terrorista demonstram que a democracia não tem sossego. É o quadro do nosso cotidiano ao refletir as dores que emitem imagens e cores da tragédia humana. Não surpreende porque, na raiz dos conflitos, se encontra, talvez, a maior virtude das democracias: a tolerância.
O preâmbulo da Carta das Nações Unidas (26/6/1945) prescreve “praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais….”, no entanto, a experiência histórica tem mostrado como é difícil para uma verdadeira democracia, regime tolerante e permeável à opinião pública, lutar contra a intolerância.
Não custa lembrar o Acordo de Munique (28/9/1938), pacto firmado entre as potências europeias que dava à Alemanha nazista os Sudetos e o controle da Checoslováquia desde que fossem a última reivindicação territorial de Hitler. O então Primeiro-Ministro inglês Neville Chamberlain foi recebido em Londres com calorosos aplausos, a exceção de Churchill que proferiu uma de suas célebres e proféticas frases: “Entre a desonra e a guerra, escolheste a desonra e terás a guerra”.
Mais uma vez, o mundo sofre um ódio epidêmico que é a aversão às dessemelhanças. A negação do direito à alteridade. De todos os tipos. Das etnias aos imigrantes. Do racismo ao sexismo. E por aí vai. A questão desafiadora é qual o limite da tolerância? Tolerar o radicalmente intolerável?
É preciso atentar para o fato de que o intolerante não se contenta em recusar sua própria liberdade: quer obrigar todos os outros a renunciarem com ele à liberdade. A espontaneidade humana, mundo aberto, fonte radical da liberdade a que se referia Hannah Arendt, perde espaço para os extremismos a ponto de uma organização terrorista manifestar o objetivo de destruir Israel em permanente e subterrânea (literalmente) declaração de “guerra”.
Melhor dizendo: declaração estatutária de extinção de milhões de pessoas. Não há registro de guerras entres estados democráticos. A reação à ameaça de ampliação das agressões é o legítimo direito de defesa dos judeus e não-judeus que são alvos e escudos, reais e potenciais, da inominável e covarde agressão do Hamas.
Importante lembrar para não esquecer: o terrorismo é um crime contra a humanidade, logo seus fanáticos adeptos são criminosos adestrados para matar disseminando o medo e o horror dos conflitos.
Numa segunda-feira, falar de temas tão distantes como um hospital em Gaza, levantar questões como uma ainda inexistente ordem mundial, talvez não seja o melhor caminho.
“Alguma coisa está fora da nova ordem mundial” — diz a canção. Mas Henry Kissinger, em seu livro sobre o tema, diz que nunca houve uma verdadeira ordem mundial. A Paz de Vestfália no fim da Guerra dos 30 Anos (1618-1648) foi um evento europeu.
No momento em que as tropas de Israel entraram no Hospital Al-Shifa, em Gaza, nada pude fazer, exceto me informar. Mas a ONU também nada pode fazer, exceto dizer que hospitais não são campos de batalha. Estamos, portanto, no mesmo barco, eu a ONU.
As imagens do dia anterior foram terríveis. Bebês recém-nascidos fora das incubadoras, por falta de energia. Israel afirma que, com dados da Inteligência, sabe que o Hamas usa o hospital como base. O Hamas nega. Um palestino entrevistado pela Al Jazeera parece confirmar a tese de Israel: o Hamas deveria sair daqui e ir para o inferno. O Hamas usa as pessoas como escudo humano. Sua tese, pós-atentado, é que trouxe Israel para a guerra, e era isso que pretendia para manter acesa a causa palestina.

Não é possível concordar com quem usa mulheres e crianças como escudo humano. Mas também não é possível concordar com quem mata escudos humanos, numa tentativa de alcançar o Hamas.
O hospital está cheio de feridos de guerra e doentes. Sem remédios ou eletricidade. Os recém-nascidos estavam do lado de fora por causa disso. Uma fila de corpos enrolados em lençóis brancos à espera de uma cova comum nos fundos do hospital. As cirurgias eram feitas sem anestesia ou, nos casos mais graves, com meia dose. Médicos e enfermeiros dormem apenas duas horas por noite. E há ainda centenas de refugiados nos corredores do hospital.
As bombas caíram perto. Soldados de Israel invadem o hospital, visitam quarto por quarto. Homens são chamados para uma revista no pátio. Imagino tudo isso sendo visto pelos olhos de doentes e feridos. Vulneráveis e estupefatos, os pacientes do Al-Shifa foram internados no inferno.
Quando a OMS perdeu contato com os médicos e enfermeiros do hospital, percebi uma nova dimensão da tragédia: estavam isolados no centro de Gaza, sem contato com o mundo exterior. Israel permitiu uma visita controlada da imprensa, achou alguns fuzis, mas ainda procurava os túneis.
Minha vontade foi me sentar na calçada com a ONU e chorar a impossibilidade de fazer algo. No entanto o que sempre sonhei ser possível no Conselho de Segurança acabou se consumando: uma declaração enfatizando o direito das crianças e clamando por pausas humanitárias, inclusive a devolução daquelas que foram sequestradas pelo Hamas. Inicialmente, Israel resistirá.
Será que essa pequena dose de influência da comunidade internacional será cumprida? Será que é possível realmente sonhar com uma ordem mundial com tantos conflitos violentos, tanto extremismo religioso?
Algumas tentativas fracassaram ao longo da História. Mas, num momento como este em que nos sentimos tão frágeis, assim como a própria ONU criada para abrigar todos os países, é exatamente quando precisamos renovar a esperança. O que fizemos com a natureza ameaça nossa existência, só falta nos destruirmos antes de sermos expulsos pelo próprio planeta.
Não importa o resultado desta guerra no Oriente Médio. Ela já nos mostrou como são inadequados os instrumentos que temos, inclusive o próprio Conselho de Segurança, que, na verdade, sempre nos assegura que nada ou muito pouco será feito. Suas regras são feitas para que a rivalidade das potências leve à paralisia. Pelo menos as crianças conseguiram sensibilizar um organismo tão ineficaz. São as grandes vítimas e podem ser uma inspiração para a mudança.
Uma no cravo, outra na ferradura, e assim o governo do presidente Joe Biden vai levando a guerra que Israel trava com o Hamas. Não quer dizer que Biden ora apoia, ora desapoia Israel. Ele apoia incondicionalmente o maior aliado do seu país no Oriente Médio.
Acontece que esse apoio custa caro a Biden, dentro dos Estados Unidos e principalmente fora. E ele está a menos de um ano de tentar se reeleger. Será uma parada dura derrotar Donald Trump pela segunda vez. Daí porque tem de agradar todos os lados.
Então, um dia ele exalta o direito de Israel à defesa e diz que a guerra só terminará quando o Hamas for destruído; e no outro se opõe a ataques aéreos a hospitais e defende a criação de um Estado palestino. Israel entende a conduta de Biden e vai em frente.

O Programa Alimentar Mundial da ONU (PAM) alertou que a Faixa de Gaza enfrenta agora uma “enorme” lacuna alimentar e uma fome generalizada. Quase toda a população do enclave palestino necessita “desesperadamente” de assistência alimentar.
Disse na quinta-feira Cindy McCain, a diretora executiva do PMA, que “apenas uma fração” da ajuda humanitária necessária chega ao território através das fronteiras:
““Com o inverno a aproximar-se rapidamente, os abrigos inseguros e superlotados e a falta de água potável, os civis enfrentam a possibilidade imediata de morrer de fome. A única esperança é abrir outra porta de entrada em Gaza.”
A escassez de combustível também prejudica a distribuição de água, alimentos e remédios. A agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA) revelou que hoje não haverá entregas de ajuda a partir da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito.
Todas as comunicações caíram em Gaza na noite da quinta-feira. Quando isso ocorre é um mal sinal para os palestinos. Ou os bombardeios se intensificam ou Israel lhes reserva uma surpresa. Deixou de ser surpresa perto da meia-noite.
Anunciou o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant:
“Concluímos a retomada e limpeza da parte ocidental da Cidade de Gaza e estamos agora a passar para a próxima fase da ofensiva”.
Ao que acrescentou o chefe do Estado-Maior do exército, general Herzi Halevi:
“Estamos perto de destruir o sistema militar que existia no norte da Faixa de Gaza. Vamos completar isto.”
O hospital indonésio no norte de Gaza foi completamente fechado, e 45 pacientes que precisam de cirurgia deixados na área da recepção. O hospital está sitiado por tanques israelenses, informa a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino.
Continua o cerco israelense ao hospital de al-Shifa. Houve relatos de tiroteio no hospital. As Forças de Defesa de Israel IDF acusaram o Hamas de usar o hospital como centro de comando e controle à medida que as tropas avançam e aumenta a raiva global.
Você olha e fica boquiaberto. Mas como pode ser? Você esfrega os olhos, não é possível que esteja vendo o que vê. O modo como as pessoas reagem às notícias desperta no seu espírito uma incredulidade perplexa. Tudo na política – tudo mesmo, sem exceção – virou uma questão de torcida organizada, de arrebatamento de almas (pequenas) e de furor irracional. Nos tempos da covid a gente viu de perto: a hidroxicloroquina vai dar certo porque eu tenho fé; a ivermectina vai salvar vidas porque eu acredito; a vacina chinesa carrega um chip oculto que vai rastrear os desejos de consumo da vizinha, eu sei, eu vi um vídeo na internet. Parece loucura. É loucura.
A polarização se faz de ânimos conflagrados, não mais de opiniões divergentes. A metáfora da ágora grega não serve mais para representar o debate público. A imagem da disputa de pontos de vista entre seres racionais perdeu a validade. Agora, as multidões se sentem em guerras santas, em cruzadas sanguinárias, se sentem no Coliseu de Roma apontando o polegar para baixo. O script do tempo são os linchamentos virtuais. O fundamentalismo corre solto. Intolerância na veia. Nos Estados Unidos, os numerosos radicais do Partido Republicano trabalham com o dogma tácito de que as eleições de 2020 foram roubadas, e ai de quem discordar. Para muita gente, o aquecimento global é um mito fabricado. Eis o colégio eleitoral do nosso tempo.

Como explicar esses efeitos de estrondos e de fúria? As hipóteses são múltiplas, não necessariamente excludentes, mas uma delas fala mais alto: o universo da política foi inteiramente tragado pela linguagem do entretenimento – e, no entretenimento, a reafirmação do ego (ou do eu) vale mais do que a verdade dos fatos. Ponto. Parágrafo.
É verdade que, desde que o mundo é imundo, a política traz na sua fórmula ingredientes teatrais, elementos lúdicos e temperos passionais. Sempre foi assim. A partir da prevalência das plataformas sociais, contudo, a coisa mudou de patamar. Todas as escolhas que antes se resolviam na esfera da pólis hoje se decidem num imenso reality show interativo, onde o desejo íntimo sobrepuja com folga (e com gozo) o interesse público. A razão e a objetividade escasseiam, enquanto as emoções eclodem, em apoteoses surdas.
O que vemos diante de nós não combina mais com os conceitos que valiam até algumas décadas atrás. É outra coisa, outro bicho. Já deram a esse ambiente, em que as questões políticas se comportam como atrações circenses, o nome de “era da pós-verdade”. Foi com essa expressão, aliás, que a revista The Economist se referiu à campanha presidencial de Donald Trump, numa reportagem de capa em setembro de 2016. Por certo, podemos nos referir à nova geleia geral como a “era da pós-verdade”, mas o fenômeno é maior do que imaginávamos em 2016. É mais monstruoso e mais profundo.
Vejamos o que se passa com a comunicação dos partidos, das autoridades estatais, das ONGs ou dos organismos internacionais. Essa comunicação já não interpela a razão, mas a emoção – e faz isso em formatos melodramáticos. Ou a mensagem segue o alfabeto visual estabelecido pela indústria do entretenimento, quer dizer, ou a propaganda assimila as narrativas baseadas no modelo bonzinhos-contramalvados, ou não encontrará eco nas mentes e nos corações.
A que se reduziu o impasse da guerra do Oriente Médio? A uma disputa interminável sobre quem é que merece ser posto no papel de vítima. Os escombros da Faixa de Gaza – escombros urbanos, escombros humanos – são apenas o epicentro cenográfico de uma imensa guerra de imagem para ver quem consegue tomar para si o papel de vítima. Quem fizer jus a esse lugar merecerá o amor incondicional da plateia (antes conhecida como opinião pública). Acostume-se. A realidade se comporta como um filme de aventura, com princesinhas desprotegidas, cavalos suados e rapazes incultos, mas valentes.
Assim como o ideólogo do início do século 20 cedeu seu posto ao marqueteiro do início do século 21, o instituto da razão perdeu terreno para as identificações pulsionais, libidinais, fáceis e acachapantes propiciadas pelas técnicas industriais do entretenimento. A política hoje integra o vasto comércio das diversões públicas. O cidadão, que era a fonte de todo o poder, acomodou-se na condição de consumidor voraz de sensações estupefacientes. Não é mais como cidadão que ele se mobiliza, mas como torcedor fanático, como religioso fiel ou, ainda, como fã ardoroso. Se você ainda tem dúvidas, releia as mensagens que chegam nos grupos de WhatsApp. Lá estão os sintomas: os abaixo-assinados sentimentais, as figurinhas animadas que defendem uma tese em um único segundo, as subcelebridades desocupadas pontificando sobre assuntos complexos como se discorressem sobre o uso da cebola numa receita vegana. Está na cara, não está?
Não, isso aí não vai dar certo. Quando as decisões que afetam a ordem do comum repelem o entendimento do que seja o bem comum, é porque vai dar ruim. O conceito de República se desfaz na poeira do tempo.
Imaginem um terremoto na Faixa de Gaza maior do que aquele que ocorreu em fevereiro passado na Síria e na Turquia, quando morreram 7, 2 mil pessoas e 35 mil ficaram feridas. Todos os países da região, inclusive Israel, se mobilizariam para socorrer as vítimas, enviando bombeiros, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais. Doações de mantimentos e medicamentos, bem como equipamentos hospitalares e de construção civil, seriam providenciados, com a mobilização de organizações humanitárias para fazer com que tudo isso chegasse aos flagelados no menor espaço de tempo possível. Feridos e desabrigados seriam levados para hospitais e abrigos, respectivamente.
As imagens da destruição causada pelos bombardeios de Israel em Gaza são muito piores do que as de um terremoto daquelas proporções, mas nada disso está sendo feito, muito pelo contrário, a destruição continua. Apesar de o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez, aprovar uma resolução sem vetos sobre a guerra na Faixa de Gaza, que possibilitaria a mobilização humanitária descrita acima. Israel já avisou que não pretende acatar a decisão e continuará os ataques contra o Hamas, como aconteceu no hospital Al Shifa, ocupado desde quarta-feira.

Nesta quarta-feira, as Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram ter encontrado armas do Hamas no hospital e infraestrutura que seria o “coração” do grupo terrorista. Os soldados interrogaram dezenas de civis antes de liberá-los, mas há denúncias de violência contra pacientes e intimidação de médicos e enfermeiros. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o estabelecimento da ONU abriga, atualmente, 2.300 pessoas, entre pacientes, profissionais da saúde e deslocados pela ofensiva israelense no território palestino.
A resolução do Conselho de Segurança foi proposta por Malta, com foco nas crianças da Faixa de Gaza, que estão sendo mortas, muitas das quais soterradas nos bombardeios. Determina uma pausa nos ataques, para que ajuda humanitária chegue à população civil, principalmente às crianças que estão na área de conflito, muitas delas feridas ou recém-nascidas, que precisam ser resgatadas. O objetivo da pausa seria facilitar “o fornecimento contínuo, suficiente e sem entraves de bens e serviços essenciais — incluindo água, eletricidade, combustível, alimentos e suprimentos médicos”.
Entretanto, o Ministério das Relações Exteriores de Israel anunciou que não haverá pausa até que os reféns em poder do Hamas sejam libertados. A narrativa do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para justificar os bombardeios é de que os civis, sobretudo mulheres e crianças, são usados como escudo pelo Hamas.
Por ora, a decisão do Conselho de Segurança é uma declaração de intenções: Israel e o Hamas devem evitar privar a população de Gaza de serviços básicos e da assistência humanitária indispensáveis à sua sobrevivência; reparações de emergência em infraestruturas essenciais em Gaza; evacuação de crianças doentes ou feridas, e de seus cuidadores; ações de resgate de pessoas que desapareceram nos bombardeios, após edifícios do território palestino terem sido danificados e destruídos.
As resoluções do Conselho de Segurança, pela Carta da ONU, deveriam ter efeitos práticos. Nesse caso, permitir o acesso total à Faixa de Gaza das agências da ONU e de seus parceiros, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias. Para isso, é necessária a pausa na guerra e a liberação do acesso aos hospitais e às instituições que abrigam os palestinos. Isso é impossível sem autorização do exército israelense.
A resolução da ONU, porém, reflete uma mudança de postura do governo dos Estados Unidos, que se absteve na votação, ao lado da Rússia e do Reino Unido. A resolução foi aprovada por 12 votos. China, que agora preside o órgão, e França, que tem poder de veto, votaram a favor. Albânia, Brasil, China, Emirados Árabes Unidos, Equador, França, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique e Suíça, sem poder de veto, garantiram a aprovação.
Apesar de não condenar Israel nem classificar o Hamas como grupo terrorista, a resolução tende a aumentar o isolamento internacional de Netanyahu, que não demonstra nenhuma preocupação quanto a isso, porque sabe que os Estados Unidos não romperão os compromissos financeiros e militares que já assumiram nesta guerra. A abstenção norte-americana na votação deve-se à enorme pressão da opinião pública mundial e do desgaste junto aos países muçulmanos, principalmente países árabes da região.
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que muito se empenhou pela aprovação, comemorou a decisão, que vai facilitar o resgate dos brasileiros que ainda estão em Gaza. A abstenção dos EUA coincide com o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da China, Xi Jinping, que não trataram do assunto publicamente. Entretanto, Biden vem reiterando a posição favorável à existência de dois Estados e que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, após a guerra, sejam administradas pela Autoridade Palestina, posição que o atual governo de Israel não aceita.
Está sendo difícil acompanhar o noticiário da guerra em Gaza e, ao mesmo tempo, perceber a onda de antissemitismo que varre o mundo. Para nós, judeus e descendentes de judeus, o antissemitismo não é novidade; novidade é ver como está naturalizado. Até outro dia, pessoas antirracistas e defensoras de minorias tinham vergonha de se declarar abertamente antissemitas; não mais. Ser antissemita agora é cool, virou tendência.
Tento não ser paranoica e não ver um monstro em cada esquina. Tento acreditar que os pagodeiros que batucavam em São Paulo com bandeiras do Hamas, usando camisetas do Hamas, cantando slogans pró Hamas, não fazem ideia do que realmente seja o Hamas (ainda que não tenha ilusões quanto às pessoas que lhes forneceram tais camisetas e bandeiras).
Tento imaginar que as imensas manifestações nas grandes cidades cosmopolitas são de fato pró-Palestina, e não anti-Israel; mas é difícil. Não dá para ignorar os cartazes pregando o fim do povo judeu, nem deixar de perceber que boa parte dos manifestantes cobre o rosto à maneira dos terroristas do Hamas (e não do povo palestino em geral). Vários chegam a usar a faixa verde dos terroristas, com a clássica inscrição em árabe (o que está escrito é “Não há deus senão Alá, e Maomé é o seu profeta”).

Não dá para fazer a Pollyanna por muito tempo ao constatar que o Irã continua matando mulheres que não usam o hijab e não se ouve um pio de protesto; que a China continua dizimando os uigures e só há silêncio; que mais de 150 mil pessoas já morreram na guerra que a Arábia Saudita promove no Iêmen, ou que mais de 500 mil morreram na Síria, e quem se importa?
Quem foi aos Champs Élysées por elas, ao Times Square, à Cinelândia?
Não quero ser sommelier de manifestações, mas é difícil não juntar os pontos — e é difícil também não concordar com aqueles manifestantes que, sincera e genuinamente, sofrem pelo povo palestino e querem ver o fim da guerra.
Eles existem, e eu estaria entre eles se isso não me pusesse em tão má companhia.
* * *
A despeito do que venha a acontecer, o Hamas já ganhou a guerra da opinião pública. Não há ser humano que consiga absorver a violência em Gaza, dia após dia, sem um baque no coração. Diante do horror que sofreu, Israel deveria ter se recolhido e pensado com extrema cautela nos próximos passos, de preferência concentrando-se no destino dos reféns. Ao contrário, agiu exatamente como o Hamas esperava que reagisse. Xeque-mate.
Um país não pode lutar contra o terrorismo reagindo com o fígado. Países precisam ter cérebro, não vísceras, especialmente diante de um inimigo que cultiva o martírio de inocentes.
Fala-se muito da desproporção entre o poderio militar israelense e os recursos do Hamas, mas ela vai além de uma simples contagem bélica. O desequilíbrio não favorece Israel: não há exército que possa com fanáticos que almejam o paraíso (e dominam as redes sociais). Nada justifica que Benjamin Netanyahu ainda esteja no poder. O seu governo é uma praga bíblica, uma maldição que, pelo resto dos tempos, vai desafiar a compreensão do mundo.
É um sinal de que as coisas não andam bem no mundo do sionismo real quando vemos porta-vozes de Israel se desdobrando para tentar explicar a diferença entre o morticínio de crianças e civis provocado pelo Hamas e o morticínio de crianças e civis provocado por Binyamin Netanyahu.
Lembro-me aqui de atrocidades do socialismo soviético, vistas por intelectuais comunistas como efeitos colaterais da luta inarredável contra os inimigos da grande revolução. Eram claros os sinais, então, de que havia algo de podre no reino do socialismo real.
Já escrevi que Israel não é um Hamas às avessas, mas o país e seus aliados precisam querer manter essa diferença. Não borrá-la, no final das contas, a favor do antissemitismo e das desconfianças consideráveis que rondam a criação de um estado judeu na Palestina. A colonização acintosa da Cisjordânia é outro parafuso central dessa engrenagem ideológica que gira em falso.

Sob o fundamentalista e autocrático Bibi, o aperto metódico do cerco aos palestinos tem provocado reações expressivas mesmo na opinião pública judaica. A deriva radical e inescrupulosa para a extrema direita, que não poupa nem mesmo hospitais, vem erodindo o que restava de consenso moral em torno da defesa de Israel. Os tempos estão mudando e argumentos tradicionais estão em crise.
A "rua árabe" que se abriu no Ocidente, as periferias influentes do Sul Global e as desigualdades no coração do sistema chamam ao mínimo de realismo governos que dormitavam no piloto automático com Israel. Até Biden sentiu o bafo, baixou uma oitava em sua retórica, passou a falar em pausa humanitária no Vietnã de Bibi e agora aprovou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que basicamente repete a proposta brasileira, que estava na vanguarda, vetada por eu país.
O entendimento dessa guerra se inscreve no contexto de um anunciado "turning-point" da geopolítica internacional; ela é apenas mais um capítulo do rearranjo em curso das relações de força globais, a falada e perturbadora transição para um mundo multipolar.
As reivindicações que embasaram a defesa da criação do Estado de Israel são respeitáveis e se tornaram incontrastáveis depois do Holocausto e do histórico sinistro de perseguições que antecedeu a atrocidade nazista. Tudo então parecia fazer muito sentido para grande parte da opinião humanista do século 20.
Hoje, com a eternização do conflito, ganha mais projeção uma revisão historiográfica consistente do sionismo e de suas associações com o projeto colonialista inglês de criar um país judeu naquela parte do mundo. As evidências de que se procedeu a uma prévia limpeza étnica na região, entre outros episódios sombrios, são um segredo de polichinelo.
Bem, diante de tudo isso, caberia também perguntar: que Estado nacional não tem atrás de sua formação um rastro de violência? Guerras, colonialismo, escravidão, genocídios ou barbáries outras? O nosso querido Brasil? Os Estados Unidos? O Irã? La France? Por que Israel deveria ter uma história impoluta? Porque são judeus?
Na juventude intelectual, um filho de rabino chamado Karl Marx viu no seu ainda recente século 19 uma humanidade se debatendo com a pré-história. Eu adoraria ter nascido no futuro. Mas o que veria? Judeus e palestinos pescando e fazendo crítica literária no reino da sociedade sem classes? Ou o triunfo distributivo do capitalismo pós-financeiro numa pós-Los Angeles sem barracas nas ruas? Sabe-se lá.
Agora, Israel está perdendo a guerra que importa. Não será mais possível sustentar esse estado de coisas. Podemos esperar pelo milagre de uma mudança política profunda? Só me arrisco a dizer, neste final acaciano, que o caminho será longo e tortuoso.
Israelenses dificilmente trocarão de premiê em meio a uma guerra —e é aí que mora o perigo. Binyamin Netanyahu tem uma agenda pessoal que não coincide com a dos interesses de Israel no médio e longo prazo.
O ataque do Hamas em 7 de outubro mostrou que Israel só terá segurança real se surgir um Estado palestino, o que eliminaria ou pelo menos reduziria o apelo por movimentos teocrático-terroristas como o Hamas e o Jihad Islâmico. E o problema é que Netanyahu, por razões tão banais como manter-se no poder e evitar a cadeia (ele responde a processos por corrupção), fará o que estiver a seu alcance para bloquear iniciativas que possam resultar num Estado palestino.

Interessa a Netanyahu agora prolongar ao máximo o estado de guerra e reforçar seus vínculos com os partidos ultrarreligiosos de extrema direita, com o que iria adiando sua provável defenestração do poder.
Um eventual entendimento com os palestinos, porém, exige exatamente o contrário disso. O morticínio que Israel está impondo à população civil de Gaza precisa parar o quanto antes, e a pauta dos ultrarreligosos, que é essencialmente a de ampliar os assentamentos judaicos da Cisjordânia, tem de ser revertida. O Estado palestino precisa ser territorialmente viável, o que exige desmantelar ao menos parte das colônias.
A melhor chance de isso acontecer é por pressão dos norte-americanos. Joe Biden tem os meios e o interesse em recolocar israelenses e palestinos para discutir a paz. Se o processo não naufragar antes mesmo de começar, poderia ser vendido como trunfo eleitoral no pleito norte-americano do ano que vem. Para isso, o presidente dos EUA vai ter de falar duro com o premiê israelense.
Se é verdade que apostar em paz no Oriente Médio é jogar dinheiro fora, também é fato que, depois dos acontecimentos do último mês, o status quo se tornou insustentável. Algo vai ter de acontecer.
Olha, eu podia dizer que não espero nada. Mas seria uma resposta curta demais para um problema amplo, global. Por ser global, seria uma grave omissão os países ricos da Europa fingirem não ver que nós estamos fritando. Não só na Amazônia. Nós estamos degelando, torrando, fritando, em diferentes lugares do planeta. O El Niño e outros fenômenos que são marcadores das situações extremas climáticas não acontecem só na América do Sul, acontecem no planeta inteiro. Enquanto a Europa achar que é o centro do mundo, não vai poder ajudar ninguém em lugar nenhum. A gente deveria questionar essa ideia de ajuda e começar a pensar em corresponsabilidade de quem faz a governança global.
Quem está governando qualquer lugar do mundo teria que estar envolvido num programa obrigatório de corresponsabilidade. Esses países que estão se lambuzando na guerra agora, quando cessarem a hostilidade um com o outro, deveriam ser obrigados a pagar uma contribuição trilionária para os países que não participaram de guerra nenhuma enquanto eles estavam cagando no mundo. Porque nós vamos ter que limpar a merda deles. Aí, a gente ia criar uma economia um pouquinho mais cooperativa e menos caritativa. A Europa acha que faz caridade, tirando um pouco da sua fortuna para ajudar os outros que estão afundando. Mas é ela que afunda o mundo. As pessoas têm que ter corresponsabilidade, parar com esse papo furado de caridade.

Nós estamos imersos num oceano de ignorância, onde as pessoas querem dinheiro a todo custo. Os que não têm acham que vão ganhar, enquanto os que têm muito só querem aumentar suas fortunas. Isso é tão óbvio, mas é óbvio para quem já viveu e entendeu como é que funciona. Não é óbvio para as pessoas que acham que finalmente chegou a sua vez. Lá em Óbidos, no Pará, e em outras regiões carentes da Amazônia, se chegar uma mineradora na praça, eles vão adorar, porque nunca tiveram tanta facilidade para ter dinheiro de graça, para consumir tudo o que todo mundo consome. Essa sansara, essa roda da fortuna, onde sempre vai ter alguém chegando e falando "oba, agora é minha vez!”, é o motor que vai comer o mundo. O mundo vai ser comido assim, por idiotas que acham que chegou a sua vez.
Se você olhar a história, do século 19 ao 21, não vai ver nenhuma outra variante. O que apareceu no meio do caminho? O socialismo? Tem socialismo em algum lugar do mundo? O capitalismo virou a única religião planetária. Como você quer, dentro de uma religião planetária dessas, abrir rotas de fuga para outro tipo de vida que não seja a disputa constante contra a fúria da mercadoria? Como o genial (Davi) Kopenawa Yanomami nomeou, a sociedade não indígena se tornou a sociedade da mercadoria. Quer dizer, não tem outra coisa que justifica a vida dessas pessoas, é a mercadoria. É como se a mercadoria fosse o altar do capitalismo. É uma religião. Quem pensa que capitalismo é economia está enganado, é religião.
Em 1209, a população de Béziers, na França, foi massacrada. As cruzadas, a mando do Papa Inocêncio III, realizaram a tarefa. O representante do Papa, Arnaud Amalric, incapaz de distinguir hereges e religiosos, disse a frase que entrou para a História:
— Matem todos, Deus reconhecerá os seus.
A questão da morte de inocentes em guerra perpassa os séculos. Depois da Segunda Guerra, houve grandes julgamentos: Nuremberg e Tóquio. As potências ocidentais passaram a sensação de que as leis humanitárias internacionais seriam respeitadas a partir daquele momento.
Depois disso, vieram conflitos no Vietnã, Afeganistão, Iraque, e os americanos não foram julgados. De nada adiantaria, pois não aceitam o Estatuto de Roma, muito menos um tribunal internacional.
No entanto, em 2022, em Dublin, Estados Unidos, Brasil e mais 81 países firmaram um importante documento de proteção a civis durante uma guerra. O compromisso é não apenas restringir bombardeios que possam matar inocentes, mas reparar os possíveis danos colaterais.

Israel não assinou o documento. Mas poderia ser levado pelos Estados Unidos a considerar cada vez mais a questão de poupar vidas. Há um longo caminho subjetivo para chegar lá. É importante contestar a tese de que não existem inocentes em Gaza e de que mesmo as crianças são educadas para odiar. Da mesma forma, é essencial ver Israel como uma sociedade diversa, em que nem todos partilham a ideia de povo prometido ou mesmo da supremacia judaica.
As próprias organizações terroristas tornaram-se mais frias e cruéis que no passado. Há algum tempo, Moacyr Góes encenou a peça de Camus “Os justos”. Participei de um debate sobre ela em que se discutia o adiamento de um atentado ao arquiduque por causa das crianças na carruagem.
Os estigmas que a guerra produz em massa estão chegando ao Brasil. Há uma ideia de que a Tríplice Fronteira é uma retaguarda de terroristas. Essa ideia foi inspirada nas investigações da CIA e do Mossad. De fato, houve um caso de colaboração financeira com o Hezbollah. De fato, andando pelas ruas de Foz de Iguaçu, sente-se a presença forte da colônia árabe, assim como nos hotéis de luxo inúmeros visitantes muçulmanos são vistos no saguão.
Mas a colônia árabe em Foz do Iguaçu parece perfeitamente integrada ao clima pacífico do Brasil. Durante a guerra, não houve manifestações de rua como em Londres ou Paris. Nessas capitais europeias, o apoio aos palestinos é muito evidente. Em algumas concentrações, as pessoas chegam a gritar o slogan “From the river to the sea”, a geografia de um Estado árabe que vai do Rio Jordão ao Mediterrâneo, portanto, suprimindo Israel.
Tenho lido artigos em jornais londrinos criticando as organizações muçulmanas, como o Conselho Muçulmano Britânico. Na França, houve proibição de manifestações porque elas associavam o terrorismo do Hamas aos palestinos. Rigorosamente, portanto, as capitais europeias são um centro de apoio à causa palestina muito mais ativo, rumoroso e radical. No entanto não há o estigma, como não poderia haver, de associá-las ao terrorismo
Digo isso tudo porque fui à Tríplice Fronteira, falei com muita gente, e a maioria não entende por que se suspeita tanto da região, mergulhada em seu cotidiano e vivendo a relativa harmonia da vida no Brasil. Não significa que não se deva investigar. Pelo contrário, se o Hezbollah pensou em fazer atentados no Brasil, é algo muito sério em termos de relações internacionais.
O Hezbollah depende do Irã, que sempre recebeu um tratamento respeitoso do Brasil. Recentemente, um porta-helicópteros e uma fragata do Irã atracaram no Rio. Houve críticas dos Estados Unidos e de Israel. Esse período de guerra se apresenta também como um campo minado, no campo subjetivo.
É preciso andar com muito cuidado, pois, se as guerras ainda aniquilam vidas civis, preconceitos servem para racionalizar o massacre. No calor da paixões, contribuímos inconscientemente, às vezes, para que frases do tipo “matem todos” não desapareçam da história da humanidade.
“Eu não consigo encontrar as palavras. Tudo o que posso dizer é que esperamos a morte a cada segundo”, mensagens do nosso colega Rewaa via WhatsApp. As famílias em Gaza estão a tomar decisões diárias que nenhum de nós, sentados no conforto das nossas casas, pode compreender: ficar lá ou apostar na mudança para outro lugar, permanecer juntos ou separados, morrer como uma unidade ou permitir que a linhagem familiar tenha a melhor oportunidade de perdurar. . Até mesmo sair para comprar pão para barrigas desnutridas, ou viajar para a fronteira numa ambulância para evacuação médica urgente, traz agora o risco muito real de morte.

Rewaa é uma enfermeira qualificada que acabou de concluir seu treinamento em cuidados paliativos. O seu marido, Ahmed, trabalha como coordenador de educação no Hospital da Amizade Turco-Palestina. Apenas um dia antes do início da guerra, Rewaa e Ahmed deram as boas-vindas ao seu segundo filho, uma linda menina. A mãe de Rewaa ficou com eles para ajudar, mas voltou para casa, para Khan Yunis, quando a guerra começou: “Todos os dias ela me pedia para ir à casa deles porque é uma área mais segura”, escreve Rewaa. Rewaa e Ahmed optaram por permanecer na sua casa em Deir al-Balah, no centro de Gaza .
Numa mensagem dolorosa, Rewaa continua: “Às 5h30 da manhã do dia 27 de outubro, Ahmed recebeu um telefonema da minha irmã. A casa da família em Khan Yunis foi bombardeada e eles não puderam sair porque estavam presos sob as paredes e o fogo estava por toda parte. Ele ouviu vozes da minha família gritando e das crianças chorando.” A linha telefônica foi cortada. Os blecautes de comunicação tornaram ainda mais difícil para as famílias alcançar o suporte vital de ambulância, contatar os vizinhos para obter ajuda ou ouvir o destino de seus entes queridos.
À medida que a notícia foi sendo divulgada horas depois, a extensão das perdas e ferimentos angustiantes para a família de Rewaa que vivia em uma área supostamente segura tornou-se clara: “Minha mãe tem 70% de queimaduras, minha irmã tem 40% de queimaduras de terceiro grau, meu irmão tem fraturas no ambas as pernas, meu pai tem queimaduras no rosto e nas mãos. Meu parente morreu com sua esposa e três filhos. Três sobreviveram, mas um teve as duas pernas amputadas.” E depois a notícia mais traumática: “Perdi minha amiga e parente que estava grávida na mesma época que eu. Ela morreu com seus filhos de 10, 8, 6 e 10 horas. Sim, ela deu à luz o bebê e eles morreram juntos 10 horas depois.”
A primeira ligação informando a Fares Alghoul que a casa de um parente havia sido atingida por um ataque aéreo israelense chegou na noite de sexta-feira. A Internet em Gaza foi cortada momentos depois, obrigando-o a esperar 12 horas para saber os nomes dos 18 mortos. Ele teria que esperar ainda mais pela confirmação de que outros 18 familiares presos sob os escombros também haviam sido mortos, elevando o número de mortos de sua família para 36.
Como jornalista, Alghoul cobriu todas as guerras anteriores de Gaza, mas agora vive no Canadá, onde teve de observar à distância a extinção de gerações da sua família.
As famílias que sofrem perdas tão grandes tornaram-se uma característica do actual bombardeamento de Gaza. De acordo com as últimas estatísticas fornecidas pelo Ministério da Saúde palestino no território, 312 famílias perderam 10 ou mais membros.

Pelo menos 70% da população de Gaza foi deslocada, segundo a ONU , e muitas famílias agruparam-se, aglomerando dezenas delas nas suas casas, na esperança de poderem evitar o pesado bombardeamento ou, pelo menos, reunir recursos cada vez mais escassos, como água, combustível e comida.
“Dias depois, perdi as minhas três sobrinhas, com idades entre os 10 e os 16 anos, quando foram mortas com o pai na sua casa na Cidade de Gaza. Minha irmã estava em Deir al-Balah com minha mãe – foi assim que ela sobreviveu”, disse Alghoul.
“Você não tem tempo para processar seu medo e tristeza porque sempre espera que o pior esteja por vir. Mesmo que você perca familiares, você adia suas condolências”, disse ele. “Você gostaria que as pessoas não lhe enviassem condolências porque você não sabe quando as próximas [mortes] virão.”
A Airwars, que monitoriza os danos causados a civis durante conflitos, lançou recentemente uma base de dados de vítimas que está em constante atualização, mas que já acumulou vários casos envolvendo a morte de dezenas de pessoas num único incidente.
A organização registou relatos de até 69 pessoas mortas na sequência de um ataque aéreo perto de um mercado no campo de refugiados de Jabalia, incluindo 13 pessoas na casa de Abu Ashkian, em 9 de Outubro. Registou 16 membros da família al-Nabahin mortos em 8 de outubro e 25 membros da família do cirurgião Dr. Medhat Mahmoud Saidam em 14 de outubro.
O dicionário deixa clara a diferença entre os verbos explicar e justificar. O primeiro diz respeito a decisões lógicas, o outro, a gestos morais. Alguns podem explicar o ato terrorista do Hamas em 7 de outubro como reação a décadas de ocupação do território palestino, mas não há como justificar moralmente o crime de atirar contra pessoas desarmadas e indefesas, jovens se divertindo, crianças dormindo, idosos em visitas familiares e sequestrar reféns. Da mesma forma, as ações do governo de Israel podem ser explicadas como reação ao assassinato de seus cidadãos indefesos, mas não há como justificar o uso de sua poderosa máquina de guerra para atacar os milhões de moradores em Gaza, destruindo suas escolas, hospitais e moradias. Cada lado pode ter explicação lógica, mas nenhum tem justificativa moral. O ato terrorista do Hamas no sul de Israel e o bombardeio de Gaza pelas forças armadas de Israel ficarão registradas para sempre nos livros de história como crimes contra a humanidade.

A diferença é que o Hamas não tinha preocupação com imagem, nem com longo prazo. Para eles, o bombardeio de Gaza é explicável, para Israel, é um equívoco por causa das consequências para seus próprios interesses no longo prazo. O Hamas cometeu crime moral contra a humanidade, mas conseguiu a indecente vitória de mostrar os bombardeiros e tanques de Israel transformando Gaza em escombros, soterrando crianças, produzindo imagens do primeiro genocídio filmado e divulgado mundialmente, identificado.
Os terroristas não têm Estado, não são estadistas, depois de enterrados desaparecem, alguns viram heróis para jovens, que certamente vão repetir seus gestos tresloucados. Eles sabiam que o assassinato de israelenses não promoveria a independência da Palestina, ainda menos de Gaza. Desejavam que a reação de Israel fabricasse milhões de novos Hamas, ainda mais violentos, com apoio dos palestinos que sobreviverem e de seus descendentes. Cometeram um obsceno acerto com seu ato criminoso. O Hamas teria fracassado se o governo de Israel usasse o ato terrorista para criar um movimento internacional de apoio ao sionismo e contra o terror, e usasse a competência militar para eliminar aos criminosos sem assassinar crianças, destruir uma cidade, perseguir e maltratar um povo.
Não há justificativa moral para o terror dos tiros do Hamas contra israelenses nem para o terror dos bombardeios de Israel contra a população de Gaza, mas foi Israel quem perdeu ao errar logicamente. A bomba atômica sobre Hiroshima foi um gigantesco crime contra a humanidade, mas não foi um erro lógico, porque apressou o fim da guerra por alguns dias.
O bombardeio de Dresden foi tão violento quanto o de Gaza, mas não foi erro, porque levou ao fim do nazismo, à descoberta dos campos de concentração e do holocausto, ao surgimento de solidariedade mundial com os judeus e até à criação de um Estado para eles. A destruição de Gaza é um pecado do tamanho de Dresden, mas também um erro porque dos seus escombros surgirão mais ameaças contra Israel e judeus no mundo. Os escombros de Dresden levaram os nazistas à Nuremberg, Gaza talvez leve Israel. Embora explicável como reação à perda de vida de israelenses inocentes, o que hoje Israel faz com a população de Gaza, é um erro estratégico porque no longo prazo não aumentará sua segurança e diminuirá o sentimento de apoio Israel.
A história vai registrar como lamentável que o país com maior intensidade de saber em todo o mundo, graças à educação que oferece, à ciência e à tecnologia que realiza, tenha se deixado levar por seus líderes na busca de popularidade por eleitores corretamente traumatizados e desejos de vingança e proteção imediata.
Há muitos exemplos de erros históricos. Bill Fawcett escreveu “100 grandes erros da história”, Barbara W. Tuchman escreveu “A Marcha da Loucura – de Troia ao Vietnam” sobre atitudes políticas perseguidas contra o próprio interesse do país ou grupo social. A guerra de Israel contra a Palestina ficará como um destes grandes erros, mostrando que talvez tivesse razão o grande escritor judeu Arthur Koestler quando alertou, ainda nos anos 1960, dos riscos suicidas do ser humano ao desenvolver uma lógica capaz de construir bomba atômica e uma moral que permite usá-la contra os vizinhos, morrendo ao matar.