terça-feira, 15 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


A sombra da guerra da Ucrânia no Brasil

Dizem que a guerra estimula mudanças e inovações. No entanto é difícil antecipá-las, num momento em que não se entende bem tudo o que se passa e, muito menos, o rumo que as coisas tomarão num futuro próximo.

A alternativa é começar pelo mais fácil, aquele conjunto de problemas que já nos preocupavam antes da guerra. O preço do combustível é um deles. Já estava nas alturas e subiria mais assim que fosse disparado o primeiro tiro na Ucrânia.

Perdeu-se um tempo enorme para definir medidas que atenuassem o impacto do aumento. E agora, que a guerra eclodiu, elas se tornam mais urgentes e ligeiramente menos eficazes.

Antes da guerra, o combustível fóssil não era questionado apenas pelo preço, mas também por sua insustentabilidade ambiental. A crise abre uma porta para o futuro de carros elétricos, boas ferrovias e hidrovias. Será que embarcamos nessa ou seguimos na janela vendo o mundo mudar?

Outra questão anterior à guerra era a dependência dos fertilizantes russos. Vale a pena escorar-se na boa vontade de um Putin isolado ou desenvolver um projeto de autossuficiência nesse campo?


Enfim, são questões que nem precisavam da guerra para figurar na agenda dos problemas estratégicos do país. Do óbvio, transitamos para uma área mais nebulosa e ambígua, mas que nem por isso deixa de ter uma importância vital para o planejamento.

A própria ideia de guerra talvez tenha de ser reavaliada e, com ela, os conceitos mais clássicos de defesa nacional.

O general Hamilton Mourão, ao condenar a invasão à Ucrânia, disse que o Brasil precisava ficar alerta para que algo parecido não acontecesse na Amazônia.

Compartilho a solidariedade à Ucrânia e acho que temos mesmo de reafirmar nossa condenação a um mundo que se rege pela lei do mais forte.

No entanto a invasão russa mostrou um lado da guerra convencional, ocupação armada de um território estrangeiro. Os próprios americanos parecem exaustos dessa solução, depois de tantas perdas humanas, tanto dinheiro jogado fora.

A guerra de agora mostrou um lado novo porque acontece num mundo tão influenciado pelas redes sociais. Zelensky faz todos os dias seu pronunciamento, e cada bombardeio de uma maternidade é uma explosão que se volta contra os próprios agressores.

Mas isso não é tão novo assim. No entanto a multiplicidade de atores não estatais numa guerra é uma novidade. Thomas Friedman perguntou num artigo seu no New York Times: “Será que o Anonymous aceitará um cessar-fogo negociado pelos Estados?”.

Empresas saem da Rússia, anunciam sanções, não tanto curvadas pelo poder do Estado, mas voltadas para a simpatia da própria clientela.

Depois dessa guerra, o tema do aquecimento voltará à tona com a importância que merece. Apesar da política devastadora na Amazônia, é delírio pensar numa invasão armada, tanques na lama, calor e mosquitos. Isso é arma de quem, como Putin, quer reescrever o passado, não de quem pretende garantir o futuro.

Um grande problema que se coloca para quem ameaça a sobrevivência no planeta é o perigo de um bloqueio econômico, cultural, esportivo e até mesmo uma sucessão de ataques cibernéticos.

Quando isso acontece, às vezes nem o bom senso escapa. Estão cancelando até Dostoiévski, que é um patrimônio da humanidade.

Compreendo que o general, num primeiro momento, tenha temido pela Amazônia, em termos de uma clássica invasão. Mas um amplo exercício estratégico mostra também que seu medo tem de ser virado de cabeça para baixo.

O grande perigo que nos ronda, com essa visão destrutiva da Amazônia, não são tanques atolados num mundo pretérito, mas sim o isolamento que hoje se impõe a quem desdenha a vida humana como Putin e que pode se deslocar para os que, sistematicamente, destroem as condições naturais de nossa sobrevivência no planeta.

São crimes de antibrasileirismo

Todas as propostas que partem de Bolsonaro ou mobilizam o seu empenho têm alguma ordinarice, de seu interesse pessoal, como motivação básica. Nem por isso a conduta por ele imposta à Presidência é o que mais compromete o futuro do Brasil como país —no conceito do mundo e no seu próprio sentimento de país envergonhado.

A aceitação da tragédia nacional pela quase total coletividade dos influentes, civis e militares, é ela mesma uma tragédia maior, por sua propagação incorrigível no futuro.


Tornar legal o garimpo em terras indígenas e a liberação prática do desmatamento são favorecimentos diretos às milícias criminais, que invadem as áreas preservadas, e ao empresariado que toma áreas imensas para plantio de soja ou criação de gado.

A imobilização do Ibama, da Funai e de tantas outras entidades de controle e estudo foi a preparação, iniciada já pela súcia dos dirigentes nomeados, para o que agora o governo e os mercenários da Câmara procuram oficializar.

Entraram na fase culminante do Plano Pró-Milícias, favorecida pelos desvios de atenção e apressada pelo risco de derrota eleitoral.

Bolsonaro e os deputados mercenários sob o domínio de Arthur Lira compõem uma espécie de milícia especializada em política como negócio imoral. Fizeram aprovar a urgência para o projeto da mineração homicida, a meio da semana, em deboche ao protesto de cantores e atores liderado, diante e dentro do Congresso, por Caetano (Caetano Velloso é músico, poeta e escritor, Caetano, só Caetano, é uma bandeira).

Mas, sobretudo, com isso os mercenários advertiram a população: “Não se metam nos nossos negócios, fazemos o que nos dê vantagens”. É isso mesmo.

A propósito, nunca se saberá o quanto custa a liberação, que Arthur Lira empurra na Câmara, para 69 cassinos, 6.000 bingos e 300 bicheiros empresariais.

No governo Figueiredo, o lobista que vinha tentar tal liberação era um general americano, reformado para presidir cassino de Las Vegas. Seu representante permanente aqui era o então deputado Amaral Neto, que organizava expedições remuneradas para cassinos nos EUA e no Uruguai.

O lobista de agora é também frequentador sistemático de Brasília, onde esteve pouco antes de aparecer o atual projeto. Só uma notinha, bem discreta, registrou essa estada profícua.

Assim como a defesa de Bolsonaro para entregar as terras indígenas a milícias e ao contrabando, a defesa dos cassinos e da jogatina é mentirosa. O potássio para suprir a falta do produto russo não está na Amazônia, onde é pouco e de difícil extração. Está em Sergipe, Minas e São Paulo.

O jogo clandestino não acabará, porque seus controladores não têm com que construir cassinos reais. E os impostos não resolverão nada: mesmo nas contas oníricas do relator Felipe Carreras, do PSB de Pernambuco, mal passam de insignificantes R$ 4,5 bi.

No pequeno varejo não é diferente. “Cancún em Angra”, onde Bolsonaro tem casa; fim das multas eletrônicas nas estradas, onde Bolsonaro é recordista na Rio-Angra; fim do imposto de importação de jet-ski enfiado em dispensa, também malandra, para “veículos aéreos sem propulsão a motor”; e por aí vai, a exemplo do gasto de R$ 1,5 milhão por dia no cartão de crédito da Presidência, durante férias em dependência militar.

O empresariado influente, que financia coisas como o MBL fundado pelo marginal Arthur do Val, preocupa-se é com o sério Stedile do MST em possível governo petista; e com hipotética relação de Lula e Maduro, ao qual Joe Biden recorre em um espetáculo de cinismo só igualado por ele mesmo, com sua corrida ao Irã.

São muitas as formas de milícias. Com meios e áreas diversos. Mas convergentes no alvo, na conivência e no ganho.

De Zelensky a Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro,

As coisas estão difíceis por aqui, mas fui eleito pelo povo para governar para todos os ucranianos por quatro anos e cumprirei meu compromisso na íntegra. Aprendi desde cedo que, nas democracias, os governantes são escolhidos pela maioria, mas, passada a eleição, devem olhar realmente por todos — os “do cercadinho” e aqueles que “atiram tomates no cercadinho”. O senhor me entende, certo? Acredito nisso e pratico isso. É o que tem me fortalecido como líder.

Soube que o senhor tem desaconselhado a população a se vacinar contra a Covid-19 e que o Brasil é o segundo país do mundo com mais mortes pelo vírus — mais de 650 mil. Aqui na Ucrânia, aconselhei pessoalmente a vacinação de todos e todas, pois penso que o exemplo vem do topo. Mas respeito seu ponto de vista. Peço que transmita meus sentimentos às famílias brasileiras enlutadas — nós, ucranianos, sentimos muito as perdas humanas e nos solidarizamos. É o mínimo que se pode fazer diante da tragédia.

Por mais duro que seja, meu lema tem sido a transparência. Límpida, translúcida como uma boa vodca. Cometo erros, como todo ser humano, mas presto contas permanentemente a meu povo do que se passa nas entranhas do poder, assegurando sempre pleno acesso à informação para a sociedade e absoluta liberdade de imprensa.


Nunca havia exercido cargo político. Estou presidente da República, e é minha primeira experiência na vida pública. Assumi compromisso inarredável de lutar contra a corrupção e seu enraizamento no poder. Sou contra a reeleição — tanto no Executivo quanto no Legislativo, pois acho importante o arejamento permanente. Até porque eu jamais aguentaria cinco, seis ou sete mandatos consecutivos no mesmo nível parlamentar. Perdão, o senhor foi deputado sete vezes seguidas: nada contra sua trajetória pessoal, sou apenas contra situações assim.

Soube pela imprensa que o senhor esteve visitando o presidente da Rússia na antevéspera do ataque à Ucrânia. Fiquei sinceramente curioso, imaginando o motivo que poderia tê-lo levado àquele país em momento tão agudo. Fui comediante sim, mas não é piada. Pergunto como estadista. O mundo quer saber.

Soube que apoiadores seus publicaram postagens em redes sociais afirmando que o senhor convenceu o presidente russo a não atacar nosso país e que seria até indicado a receber o Nobel da Paz por isso. Pensei seriamente em pedir os contatos dessas pessoas para recomendá-las ao showbiz da comédia ucraniana.

A Assembleia Geral da ONU aprovou resolução condenando a guerra russa por votação avassaladora. Notei que, apesar de a diplomacia brasileira ter votado contra a agressão, pessoalmente sua posição não tem sido categórica. Continuo em meu país, contrariando o prognóstico de muitos. Sempre na luta. Fica aqui meu convite cordial para uma visita regada a vodca ou tubaína (soube que aprecia). Se quiser vir nesta semana, ficarei feliz. O que Putin e o mundo pensarão a respeito? E daí?”

Volodymyr Zelensky

segunda-feira, 14 de março de 2022

É por isso que Putin não pode recuar

Carl von Clausewitz afirmou que a guerra é a continuação da política por outros meios. A invasão russa da Ucrânia é a continuação da política de identidade por outros meios.

Não sei quanto a você, mas descobri que os escritos de especialistas convencionais em relações internacionais não são muito úteis para entender do que se trata toda essa crise. Mas descobri que a escrita de especialistas em psicologia social é extremamente útil.

Isso porque Vladimir Putin não é um político convencional de grande potência. Ele é fundamentalmente um empreendedor de identidade. Sua conquista singular foi ajudar os russos a se recuperarem de um trauma psíquico – as consequências da União Soviética – e dar-lhes uma identidade coletiva para que possam sentir que são importantes, que sua vida tem dignidade.

A guerra na Ucrânia não é principalmente por terra; trata-se principalmente de status. Putin invadiu para que os russos pudessem sentir que são uma grande nação mais uma vez e para que o próprio Putin pudesse sentir que ele é uma figura histórica mundial nos moldes de Pedro, o Grande .


Talvez devêssemos ver essa invasão como uma forma raivosa de política de identidade. Putin passou anos alimentando ressentimentos russos em relação ao Ocidente. Ele afirmou falsamente que os falantes de russo estão sob ataque generalizado na Ucrânia. Ele usa as ferramentas da guerra na tentativa de fazer os russos se orgulharem de sua identidade de grupo.

A União Soviética era uma tirania confusa, mas como Gulnaz Sharafutdinova escreve em seu livro “O Espelho Vermelho”, a história e a retórica soviética deram aos russos a sensação de que eles estavam “vivendo em um país que era, em muitos aspectos, único e superior ao resto do mundo.” As pessoas podiam obter um senso de significado pessoal por fazer parte desse projeto soviético maior.

O fim da União Soviética poderia ter sido visto como uma libertação, uma chance de construir uma nova e maior Rússia. Mas Putin escolheu ver isso como uma perda catastrófica, que cria um sentimento de desamparo e uma identidade destruída. Quem somos nós agora? Nós importamos mais?

Como políticos de identidade em todos os lugares, Putin transformou essa crise de identidade em uma história de humilhação. Ele encobriu qualquer sentimento incipiente de vergonha e inferioridade declarando: Nós somos as vítimas inocentes. Eles — os americanos, os ocidentais, os caras legais de Davos — fizeram isso conosco. Como outros políticos de identidade ao redor do mundo, ele promoveu o ressentimento de status para aliviar as feridas do trauma, os medos da inferioridade.

Nos primeiros anos de seu reinado, ele reconstruiu a identidade russa. Ele reivindicou partes do legado soviético como algo para se orgulhar. Principalmente, sua visão da identidade russa girava em torno de si mesmo. Ao desfilar como uma figura poderosa no cenário mundial, Putin poderia fazer os russos se sentirem orgulhosos e parte de algo grande. Vyacheslav Volodin, então vice-chefe de gabinete do Kremlin, capturou a mentalidade do regime em 2014: “Não há Rússia hoje se não houver Putin”.

Essa grande estratégia parecia ter sido plenamente justificada naquele ano com a bem-sucedida invasão da Crimeia. Tendo recuperado esta terra, a Rússia poderia se exibir como uma grande potência mais uma vez. Cada vez mais, Putin se retratava não apenas como um líder nacional, mas como um líder civilizacional, liderando as forças da moralidade tradicional contra a depravação moral do Ocidente.

Mas agora está tudo fora de controle. As políticas de identidade de Putin são tão virulentas porque são tão narcisistas. Assim como os narcisistas individuais parecem ser egoístas inflados, mas são almas realmente inseguras tentando cobrir sua fragilidade, nações e grupos narcisistas que desfilam seu poder são frequentemente assombrados pelo medo de sua própria fraqueza. Os narcisistas anseiam por reconhecimento, mas nunca conseguem o suficiente. Os narcisistas anseiam por segurança psíquica, mas agem de maneiras autodestrutivas que garantem que estejam frequentemente sob ataque.

A identidade de Putin e a identidade russa são atualmente inseparáveis. A pergunta de um bilhão de rublos é: como um cara que passou a vida lutando contra sentimentos de vergonha e humilhação reage quando grandes partes do mundo o envergonham e humilham? Como um cara que passou a vida tentando parecer poderoso e visionário reage à medida que ele parece cada vez mais fraco e míope?

Imagino que, pelo menos por um tempo, Putin possa voltar à conhecida narrativa russa de “fortaleza sitiada”: o Ocidente está sempre atrás de nós. Sempre vencemos no final.

Houve indícios de que Putin poderia estar disposto a fechar um acordo com algum tipo de compromisso e se retirar da Ucrânia, mas isso seria um choque. Isso destruiria a identidade pessoal e nacional inchada e frágil que ele vem construindo todos esses anos. As pessoas tendem a não se comprometer quando sua própria identidade está em jogo.

Meu medo é que Putin conheça apenas uma maneira de lidar com a humilhação, que é culpar os outros e atacar. Há alguns anos, meu colega Thomas L. Friedman escreveu uma coluna presciente sobre a política da humilhação na qual citava Nelson Mandela: “Não há ninguém mais perigoso do que aquele que foi humilhado”.

Putin trouxe essa humilhação para si mesmo e para seu país. Falando como alguém que admira profundamente a cultura russa, acho um grande crime que uma nação com tantos caminhos para a dignidade e a grandeza tenha escolhido o caminho que leva tão cruelmente à degradação.
David Brooks, The New York Times

Pensamento do Dia

 


Orwell antecipou a sombra de Putin

O alistamento espontâneo de civis de diversas nacionalidades ao lado dos ucranianos desmonta uma certeza do filósofo francês (de direita) Luc Ferry: que nenhuma causa contemporânea mereceria a imolação da vida.

Estariam longe e abandonadas as paixões políticas, as empolgações estéticas (Maiakóvski saía no braço com seus interlocutores) e as identidades nacionais. Furores e arrebatamentos responsáveis por toneladas de mortes, principalmente no século passado.

Em sua conta não entram os fundamentalistas islâmicos, os tais homens-bomba — no caso, não seria sequer uma causa, mas um vácuo civilizacional.

O engajamento da população civil ucraniana, de outro lado, escande a identificação com um revelador instinto de nacionalidade, certamente para a desagradável surpresa de Putin, e em oposição ao conceito niilista e desossado de Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França.

Diante de Putin, parte da esquerda retomou o coro com a extrema direita. Bozo e o PCO se encontram do mesmo lado da trincheira — ele, porque jura ser seguidor da crença de Silas Malafaia; o grupelho, por lutar contra a vida alheia.


Não assusta outro naco da esquerda perfilar ao lado de Putin, portanto corroborando com as bombas sobre maternidades e asilos ucranianos, apenas para estar contra os Estados Unidos. É nesse instante que a obra-prima de George Orwell, “Homenagem à Catalunha”, mereceria entrar na cabeça dos putinescos de oportunidade.

Ao passar por Paris, e jantar com Henry Miller, glorioso autor da trilogia “Sexus”, “Nexus” e “Plexus”, Orwell contou-lhe que se juntaria às Brigadas Internacionais na luta contra Franco. Pacifista, Miller deu-lhe seu casaco. E disse: “Infelizmente não o protegerá das balas, apenas do frio”.

Como Putin agora na Ucrânia, os golpistas do general Franco não imaginavam ser ferozmente enfrentados por setores organizados da sociedade espanhola (sindicatos dos trabalhadores, principalmente) ou ainda por uma força internacional, num elenco estelar de intelectuais, como George Orwell, Ernest Hemingway, André Malraux e Arthur Koestler, entre muitos outros.

Talvez fosse ilusão.

Havia então uma crença. E um ingênuo romantismo.

As Brigadas Internacionais atraíram militantes de diversas nacionalidades, quase todos inexperientes em combates, mas apaixonados pela luta contra a tirania representada pelo General Franco e seu golpe num governo democraticamente eleito, levemente esquerdista, porém expressão do voto. A Guerra Civil Espanhola entraria para a História como sinônimo de traição às causas e às ideias.

Em 1936, à primeira vista, parecia não haver dúvida entre os opositores antifascistas. Franco deveria ser batido; a República, defendida; e não se negociava dar a vida em troca da liberdade.

Mesmo na superfície já ocorriam as clássicas divisões da esquerda. Comunistas não se bicavam com os trotskistas e os anarquistas, que desconfiavam de todos. Pareciam apenas divergências políticas, visões opostas na condução à vitória. O fascismo seria o único inimigo, escreveu Orwell em seu dramático relato.

Stálin não pensava assim. Porque ele era a sombra.

Orwell encarnava um tipo de intelectual que andou meio fora de moda até a atual guerra da Ucrânia. Acreditava nas suas ideias — e por elas, como Apollinaire ou Blaise Cendrars, pegou em armas, mesmo com a vida em risco.

Lutando na Catalunha, miliciano nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum), de inspiração trotskista, junto a um pelotão quase sem munição, passou fome, frio intenso, esteve sob feroz bombardeio, sofreu com os piolhos e acabou seriamente ferido. Por pouco não perdeu os movimentos do braço esquerdo — ao contrário de Bozo, não chorou.

Quando deixou o hospital, leu nos jornais comunistas que ele e seus companheiros do Poum eram fascistas. Com os anarquistas, se viam acusados de espionagem e traição. Andreu Nin, dirigente do Poum, já fora preso e “desaparecido”. Outros trotskistas também seriam eliminados. Estava em marcha a política stalinista de dizimação das forças opositoras a sua esquerda. Bastava espalhar mentiras (“espiões”) e os chamar de fascistas, talkey? Funcionou: milhares de trotskistas e anarquistas caíram presos — e mortos.

Ainda convalescente, Orwell, para não acabar como Nin, se escondeu dos franquistas e da polícia manietada pelos stalinistas. Dormiu nos escombros de uma igreja sem teto, nos canteiros de estradas, andou de esguelha pelas ruas, novamente passou fome. Mas não chorou. Tentou salvar seus companheiros, presos sob falsas acusações, mas, sem sucesso, teve de fugir da Espanha — dos franquistas e dos comunistas de Stálin.

A traição dos comunistas na Guerra Civil Espanhola custou a derrota da República, a vitória de Franco e uma ditadura sanguinária que matou milhares (entre eles, o poeta Federico García Lorca). Só terminou em 1975, com a morte do déspota.

Orwell chegou socialista. Mas saiu da Guerra Civil espanhola com a ideia de escrever “1984”, espécie de epitáfio do totalitarismo em nome da causa.

Putin é a sombra.

Para que servem os tribunais?

Numa aldeia, alguns camponeses que se haviam reunidos para ler os Evangelhos foram dispersados pelos guardas. No domingo seguinte voltaram a se reunir. Então o chefe dos soldados levantou-lhes um processo e levou-os a julgamento. Após um inquérito feito pelo juiz de instrução, o substituto redigiu uma ata de acusação, que o tribunal confirmou. Durante o requisitório foram apresentadas as provas do delito; eram os Evangelhos. Os camponeses foram deportados.

- É horrível! – Concluiu Nekliudov. – Será possível que isto é verdade?

- O que é que nisso o surpreende tanto?

- Tudo. Não falemos já no chefe dos soldados, mero executor e ordens, mas o substituto que redigiu a ata é um homem instruído...


- Aí é que está o erro. Estamos acostumados a creditar que os magistrados são homens modernos, de ideias liberais. Foi assim noutros tempos, mas agora é tudo diferente. São funcionários e apenas estão preocupados em que chegue o dia vinte de cada mês para receberem os seus vencimentos, que gostariam de ver continuamente aumentados. A isto se limitam os seus princípios. Julgam, acusam e condenam quem quer que seja.

- Mas existe alguma lei que permita deportar homens só porque se reúnem para ler os Evangelhos?

- Não só a lei permite deportá-los, mas até condená-los a trabalhos forçados quando se prove que se atreveram a comentar os Evangelhos de maneira diferente daquela que está estabelecida, pois isso constitui uma crítica ao comentário oficial. Ora, o artigo cento e noventa e seis pune com desterro o ultraje à fé ortodoxa.

- Isso não é possível!

- Afirmo-lho. Digo a todo momento aos senhores magistrados – continuou o advogado – que não posso vê-los sem sentir um profundo sentimento de gratidão para com eles, pois, se eu não estou na prisão, nem o senhor, nem toda a gente, é à sua benevolência que o devemos. Quanto a privar qualquer pessoa dos seus direitos civis e a deportá-la para um lugar mais ou menos longínquo, não há nada mais fácil.

- Sendo assim, se tudo depende da disposição do procurador ou das pessoas suscetíveis de aplicar ou não a lei, para que servem os tribunais?

O advogado soltou uma gargalhada.
Leon Tolstoi, "Ressurreição"

A guerra mundial contra os fatos

Vladimir Putin é um tirano bonapartista, típico do século 19. Para ele, a prosperidade só vem com o alargamento dos domínios territoriais. Exibicionista, proclama que seus armamentos são maiores que os dos outros. Aboletado no Executivo, atropela o Legislativo, subjuga o Judiciário e banca o pai forte do povo, passando por cima das mediações da democracia.

Outra faceta do autocrata de Moscou é sua obsessão por idolatrar o passado. O futuro dos sonhos dele é a restauração de uma fantasiosa glória pretérita (a sua “grande Rússia” parece o decalque de um mapa mistificado do século 18). Na verdade, mais do que bonapartista, seu ideário tem marcas de fascismo bruto.


Já se disse que a ambição do presidente russo poderia ser sintetizada no bordão “make Russia great again”. A boutade procede. O sujeito tem ares de um Trump em cenários de KGB, um Trump sem freios nem contrapesos. Aliás, ele faz tudo o que Trump gostaria de fazer e não consegue. Para trazer a conversa um pouco mais aqui para o nosso lado, ele é tudo o que Jair Bolsonaro gostaria de ser e jamais conseguirá ser. O russo parece um destes vilões trilionários de filme de 007, enquanto o presidente brasileiro nunca passou de lobisomem chinfrim de comédia de Mazzaropi. Vai daí que, tolerado pela China, bajulado pela Venezuela e elogiado discretamente por Trump, Putin é secretamente invejado pelo inquilino do Palácio da Alvorada.

Em resumo, quando o assunto é Vladimir Putin, figuras que parecem não ter nada em comum, como Maduro e Bolsonaro, entram num balé sincronizado. Por que será? O que faz vibrar na mesma frequência o trumpismo dos terraplanistas e o confucionismo maoísta do Partido Comunista Chinês? Por que os autocratas de Caracas, que enchem a boca para falar em “guerra anti-imperialista”, ganham eco no Palácio do Planalto, cujos ocupantes discursam em nome de “Deus” e da “família”? Que eixo transcontinental é este, tortuoso e rijo, que alinha corpos terrestres tão díspares?

As respostas para tais perguntas costumam denunciar equívocos nas análises de uns e outros, como se o apoio ao tirano russo decorresse de um defeito da razão ou de equívocos involuntários. Essas respostas têm sentido, claro, mas talvez não sejam a melhor explicação. É mais provável que o eixo libidinal do putinismo não tenha nada que ver com a razão – nada que ver com Otan, com fertilizantes, com petróleo, agronegócio ou geopolítica –, mas com o desejo. Os fãs de Putin, por mais arestas que tenham entre si, cultivam o mesmo ódio apaixonado e selvagem contra o que a civilização nos legou de melhor: o pensamento crítico, a liberdade em feitio de fraternidade e o primado da verdade de fato, também conhecida como verdade factual.

Eis por que estes brucutus que não sabem a diferença entre Crimeia e cremalheira se excitam diante das atrocidades milimetricamente calculadas pelo artífice da invasão armada da Ucrânia, que já matou aproximadamente 500 civis e já provocou a fuga de 2 milhões de pessoas. Putin angaria os fãs que tem – amuados ou ruidosos – não apesar de assassinar inocentes, mas justamente por não ter hesitação em dizimar quem quer que seja. Seu poder de atração não vem de um cálculo estratégico frio, mas do arrojo tanático, do manejo inescrupuloso do terror, da ausência de princípios e da desumanidade.

Agora, o ditador deflagrou uma guerra mundial contra a verdade de fato e contra a imprensa. Na sexta-feira, 4 de março, a Duma (o Parlamento russo), manietada por ele, aprovou uma lei proibindo o uso de palavras como “guerra” ou “invasão” para descrever os ataques russos contra a Ucrânia. Conforme estabelece a nova legislação, a guerra deve ser chamada de “operação militar especial”. Twitter e Facebook foram bloqueados. Os sites da BBC, da Voz da América e da Rádio Free Europe, interditados. O acesso à Deutsche Welle foi limitado. Ameaçadas, agências internacionais suspenderam ou reduziram as atividades no país. A guerra mundial contra a verdade dos fatos faz vítimas no mundo todo.

No lugar dos fatos, entram em cena as mentiras oficiais. Segundo a semântica do Kremlin, a “operação militar especial” foi deflagrada para libertar o povo ucraniano do “neonazismo”, e ninguém pode falar contra. Desde o dia 24 de fevereiro, estima-se que mais de 13 mil pessoas foram presas em protestos contra a guerra. Somente no domingo, dia 6 de março, as autoridades prenderam 4,3 mil manifestantes em Moscou e outras cidades, segundo números da ONG OVD-INFO.

Putin sabe que seu triunfo, cada vez mais incerto, depende de um nível planetário de desinformação industrializada e profunda. Seus apoiadores, velados ou descarados, sabem que estão no mesmo barco: se a verdade factual prevalecer, estão perdidos. Passa por aí a identidade dos estranhos que o admiram e a ele juram “solidariedade”. São “solidários” no repúdio às liberdades e aos direitos, são “solidários” na indústria internacional das fake news. Não é por ignorância que aplaudem o novo senhor da guerra – é por ódio.

Europa tem que parar de financiar a guerra de Putin

O presidente americano, Joe Biden, decretou um embargo de importações de petróleo bruto da Rússia, a fim de dar "mais um pesado golpe" na bárbara guerra de Vladimir Putin na Ucrânia: "Podemos dar este passo, se outros não podem", comentou.


Assim o político democrata se referia à autoimposta armadilha de abastecimento que é a dependência exagerada das importações de petróleo e gás russos. Cega para todos os riscos, a União Europeia caiu nela, mas sobretudo a Alemanha, desde 1998: 55% do gás natural e mais de 40% do petróleo consumidos no país são importados da Rússia.

Por décadas a fio, o lobby alemão da energia repetiu a cantilena de que uma dependência energética em relação à Rússia não trazia perigo, por ser recíproca: supostamente, o gigantesco império precisava tanto dos ingressos em euro quanto a Alemanha dos combustíveis russos.

Além disso, o slogan "Mudança através do comércio" (Wandel durch Handel), insinuava ser esse também um modo de apoiar supostas iniciativas de reforma do regime Putin. Na prática, contudo, só se legitimou esse regime, para poder fazer bons negócios.

Sob os chanceleres federais Gerhard Schröder e Angela Merkel, a política alemã dançou cegamente ao som desse canto de sereia. Assim chamados "especialistas" do Oxford Energy Institute, ligado ao setor econômico, ou do Conselho Alemão de Relações Estrangeiras (DGAP), próximo ao governo, engrossaram o coro, assim como outros "think tanks".

As advertências partindo dos EUA já estavam desacreditadas por princípio, devido ao antiamericanismo latente dos alemães: alegava-se que elas só visavam incentivar a exportação de energia americana, em interesse próprio.

Quanto às advertências dos governos do Leste Europeu e de uns poucos pesquisadores independentes, estas foram rapidamente descartadas sob o rótulo "saudosistas da Guerra Fria".

E agora a Alemanha está presa justamente na armadilha da energia contra a qual vem sendo alertada há décadas. E mais uma vez os EUA têm que colocar a mão na massa.

Constituindo entre 30% e 40% do orçamento russo, a exportação de petróleo e gás é a principal fonte com que Putin financia essa pavorosa guerra. Em 2021, os conglomerados estatais de Moscou embolsaram cerca de 180 bilhões de dólares em exportações de petróleo.

A estes, a cada dia se juntam outros 500 milhões de dólares – no momento, ainda mais, com a alta dos preços do combustível. Por sua vez, o gás natural exportado rendeu ao país 62 bilhões de dólares em 2021, segundo o Banco Central da Rússia.

A guerra custa diariamente a Putin cerca de 1 bilhão de dólares. Porém as reservas de divisas do Banco Central russo estão atualmente congeladas; o país não pode mais pedir empréstimos no mercado internacional, seus títulos de dívida estão classificados no nível "lixo".

"Petróleo garante o dinheiro, gás garante o poder", ouve-se há muito nos meios russos da energia. Portanto, se a intenção é realmente prejudicar Putin e sua cleptocracia – e não só o povo russo –, vai ser preciso reduzir seus ingressos através de um embargo do petróleo. O presidente Biden já deu o primeiro passo, a UE deveria segui-lo logo, na cúpula informal de dois dias em Versalhes iniciada na quinta-feira.

Do ponto de vista técnico, seria bem fácil aguentar um embargo desses: a Rússia atende a menos do que 5% da demanda global; o mercado mundial de petróleo é bem integrado, navios petroleiros podem entregar suas cargas por todo o mundo.

A Rússia até poderia vender partilhas menores à China ou à Índia, mas só com descontos consideráveis. Além disso, muitas nações industriais dispõem de grandes reservas do combustível, parte das quais já foi liberada, devendo bastar para vários meses. E se conseguirá que diversos exportadores por todo o mundo aumentem seu volume de produção de petróleo.

O próximo passo, contudo, é a UE e Berlim suspenderem a importação de gás russo. Isso atinge Putin ainda mais, pois só é possível redirecionar esse insumo até certo ponto. Tanto a Academia de Ciências Leopoldina quanto pesquisadores conceituados da Alemanha consideram viável uma suspensão das importações, também para o país.

Eles aconselham que se recorra ao gás natural liquefeito dos mercados internacionais, no curto prazo, e a um aumento do carvão mineral para produção de eletricidade, como substitutos parciais provisórios.

Na calefação doméstica, onde a demanda de gás natural é especialmente elevada, uma redução de apenas dois graus centígrados já resultaria numa economia considerável, sem que ninguém precise congelar. É claro que os preços de petróleo e gás na Europa vão subir. Por isso, os cidadãos de renda mais baixa necessitarão de apoio estatal, e para as empresas cabe um alívio fiscal.

Na falta de vitórias militares, Putin agora vai bombardear a população civil das cidades ainda mais, e de maneira ainda mais cruel – como já fez na capital tchetchena Grozny e em Aleppo, na Síria. Mas se continuarmos a financiar isso com nossas importações, tornamo-nos cúmplices desse crime de guerra.

Só com um rechaço consequente das matérias-primas russas se fará cair o império fóssil de Putin e sua brutal cleptocracia. Democracias liberais são mais poderosas do que qualquer autocracia: isso é o que está em questão, nada menos. Devemos estar prontos a pagar qualquer preço.
Jörg Himmelreich, professor afiliado da École Supérieure de Commerce à Paris

domingo, 13 de março de 2022

Pensamento do Dia

 


Foto da insensatez

A insensatez é um processo, só pode ser captada por filme, mas a guerra da Ucrânia conseguiu fazer uma foto que concentra neste instante a falta de sensatez ao longo de décadas. Analisando casos concretos, historiadora Barbara Tuchman publicou clássico sobre a insensatez nas decisões políticas de governantes. Entre eles, a decisão de Troia de aceitar o presente dos gregos, um cavalo cheio de soldados dentro; o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnam; a arrogância do Papa esnobando um simples e jovem padre chamado Martin Lutero.

A decisão de Vladmir Putin de invadir a Ucrânia muito provavelmente será um destes casos de insensatez que os historiadores futuro vão estudar. A história vai mostrar as consequências negativas da decisão do presidente para a própria Rússia.

Mesmo que as tropas russas cheguem a Kiev e os russos imponham um governo fantoche, os custos para a Rússia serão catastróficos, prova da insensatez de não ter levado em conta o apego dos ucranianos a seu país, nem da força de um líder que até pouco tempo era um ator comediante, ainda menos que os países do Ocidente se unirião para impor sanções draconianas, mesmo que tenham prejuízos. Estes custos já estão sendo mostrados pelas perdas econômicas imediatas decorrentes: inflação, desvalorização do rublo, desemprego. A Russia vai perder grande parte dos resultados que teve nas últimas décadas.

Muito maior serão as consequências no futuro: independência energética do Ocidente, armamentismo dos países limítrofes, isolamento russo por décadas adiante, fortalecimento da OTAN, desconfiança em todo o mundo, especialmente nos antigos países soviéticos.

A Ucrânia será um exemplo da insensatez da Russia sob Putin.

Mas a foto deste momento mostra uma insensatez mais antiga também dos países do Ocidente. Foi uma insensatez ter usado a fragilidade do fim da União Soviética para aumentar a presença da OTAN cercando a Rússia, um outro país, dono do maior arsenal nuclear do mundo e de frota de foguetes capaz de transportar as bombas. O sensato teria sido muito repetir o que se fez com a Alemanha depois do nazismo: oferecer apoio para a recuperação da Russia capitalista, destruída pela ineficiência do comunismo. Em troca, exigir o desarmamento nuclear universal, da Russia e de todos os países: banimento de armas atômicas no mundo.

Se a sensatez tivesse prevalecido, todos estariam hoje livres de chantagem nuclear por Putin, ou por outro governante russo no futuro, ou por futuros governos norte-americanos, até porque as únicas bombas atômicas usadas até hoje foi por um governo dos Estados Unidos. E se não for a Rússia ou os Estados Unidos, poderá ser qualquer outro dos governos que já dispõem de bomba atômica e dos diversos que em breve também terão. Ou até mesmo de grupos privados que em algum momento terão condições de produzir estas armas.

A guerra da Ucrânia é uma foto também da insensatez do consumo exagerado de enegia, sobretudos com combustível fóssil, no caso da Europa, depender do gás e do petróleo russo, em vez de diversificarem as origens e as fontes alternativas de energia. É uma insensatez consumir tanta energia, no lugar de praticar uma econômia austera, dupla insensatez basear a economia do combutível fóssil que provoca mudanças climáticas, tripla insensatez depender de um país.

A grande insensatez é decidir sem imaginar cenários alternativos, olhando apenas o imediato, sem a perspectiva de longo prazo. Foi que fizeram os gregos quando colocaram o presente dos gregos para dentro das suas muralhas, ou o Papa Leão X quando excomungou Lutero.

A verdade é que a Ucrânia é uma foto da insensatez da marcha civilizatória baseada na voracidade do consumo, no imediatismo e na arrogância do poder.

O Brasil precisa aprender com esta foto. A arrogância dos líderes de partidos democráticos, lutando entre eles, poderá levar a surpresas nas eleições de 2022, reelegendo o atual governo.

O que faz a falta de visão

Chega de centrão, ou acreditar que a direita de baixo intelecto é uma solução para o país. Hora de financiar um caminho saudável, manifestar-se contra a barbárie burra em que nos metemos por falta de visão

Ricardo Semler

São crimes de antibrasileirismo

Todas as propostas que partem de Bolsonaro ou mobilizam o seu empenho têm alguma ordinarice, de seu interesse pessoal, como motivação básica. Nem por isso a conduta por ele imposta à Presidência é o que mais compromete o futuro do Brasil como país —no conceito do mundo e no seu próprio sentimento de país envergonhado.

A aceitação da tragédia nacional pela quase total coletividade dos influentes, civis e militares, é ela mesma uma tragédia maior, por sua propagação incorrigível no futuro.

Tornar legal o garimpo em terras indígenas e a liberação prática do desmatamento são favorecimentos diretos às milícias criminais, que invadem as áreas preservadas, e ao empresariado que toma áreas imensas para plantio de soja ou criação de gado.


A imobilização do Ibama, da Funai e de tantas outras entidades de controle e estudo foi a preparação, iniciada já pela súcia dos dirigentes nomeados, para o que agora o governo e os mercenários da Câmara procuram oficializar.

Entraram na fase culminante do Plano Pró-Milícias, favorecida pelos desvios de atenção e apressada pelo risco de derrota eleitoral.

Bolsonaro e os deputados mercenários sob o domínio de Arthur Lira compõem uma espécie de milícia especializada em política como negócio imoral. Fizeram aprovar a urgência para o projeto da mineração homicida, a meio da semana, em deboche ao protesto de cantores e atores liderado, diante e dentro do Congresso, por Caetano (Caetano Velloso é músico, poeta e escritor, Caetano, só Caetano, é uma bandeira).

Mas, sobretudo, com isso os mercenários advertiram a população: "Não se metam nos nossos negócios, fazemos o que nos dê vantagens". É isso mesmo.

A propósito, nunca se saberá o quanto custa a liberação, que Arthur Lira empurra na Câmara, para 69 cassinos, 6.000 bingos e 300 bicheiros empresariais.

No governo Figueiredo, o lobista que vinha tentar tal liberação era um general americano, reformado para presidir cassino de Las Vegas. Seu representante permanente aqui era o então deputado Amaral Neto, que organizava expedições remuneradas para cassinos nos EUA e no Uruguai.

O lobista de agora é também frequentador sistemático de Brasília, onde esteve pouco antes de aparecer o atual projeto. Só uma notinha, bem discreta, registrou essa estada profícua.

Assim como a defesa de Bolsonaro para entregar as terras indígenas a milícias e ao contrabando, a defesa dos cassinos e da jogatina é mentirosa. O potássio para suprir a falta do produto russo não está na Amazônia, onde é pouco e de difícil extração. Está em Sergipe, Minas e São Paulo.

O jogo clandestino não acabará, porque seus controladores não têm com que construir cassinos reais. E os impostos não resolverão nada: mesmo nas contas oníricas do relator Felipe Carreras, do PSB de Pernambuco, mal passam de insignificantes R$ 4,5 bi.

No pequeno varejo não é diferente. "Cancún em Angra", onde Bolsonaro tem casa; fim das multas eletrônicas nas estradas, onde Bolsonaro é recordista na Rio-Angra; fim do imposto de importação de jet-ski enfiado em dispensa, também malandra, para "veículos aéreos sem propulsão a motor"; e por aí vai, a exemplo do gasto de R$ 1,5 milhão por dia no cartão de crédito da Presidência, durante férias em dependência militar.

O empresariado influente, que financia coisas como o MBL fundado pelo marginal Arthur do Val, preocupa-se é com o sério Stedile do MST em possível governo petista; e com hipotética relação de Lula e Maduro, ao qual Joe Biden recorre em um espetáculo de cinismo só igualado por ele mesmo, com sua corrida ao Irã.

São muitas as formas de milícias. Com meios e áreas diversos. Mas convergentes no alvo, na conivência e no ganho.

A Guerra da Amazônia

Tudo aconteceu depois do aumento abusivo da gasolina. Ninguém sabe muito bem quem começou a guerra, se foi a Venezuela que invadiu o Brasil ou se foi o Brasil que invadiu a Venezuela. Só sei que as tropas não se encontraram. As venezuelanas entraram via Puerto Ayacucho e as brasileiras via Colômbia. O governo Biden em franca negociação com Maduro ficou em uma situação de neutralidade o que confirmou ainda mais a posição pró-Trump de Bolsonaro e Macron ameaçou mandar tropas para defender a autonomia internacional da Amazônia.

Os venezuelanos ocuparam Tocantins e Manaus enquanto os brasileiros seguiram por Maracaibo até chegar às portas de Caracas. A ideia era conquistar as refinarias venezuelanas. O verão assolador alterava o ânimo das tropas. Os venezuelanos atolados na lama da estrada Belém- Brasilia e os brasileiros acampados às portas de Caracas tentando descobrir pelo waze onde ficavam as refinarias de petróleo.


Quando as tropas se encontraram no meio da floresta confraternizaram e enquanto aguardavam ordens rolou um carteado e uma roda de samba. Os foguetes haviam sido todos lançados e errado os alvos. Algumas crateras se formaram na periferia de Caracas e outras nos gramados de Brasilia. Bolsonaro se refugiou no Palácio da Alvorada e a cada tanto lançava uma live vestido de soldado dizendo que iria resistir até as eleições de outubro de 22.

Maduro fazia o mesmo de Caracas e Biden tentava colocar panos quentes na disputa dizendo também que ia resistir até as próximas eleições.

Bolsonaro mandou importar da Rússia uma mesa gigante para poder encontrar os lideres políticos envolvidos na batalha, que aliás eram poucos. Boric se dedicava aos problemas chilenos e Alberto Fernandes fazia o mesmo na Argentina. Bolsonaro andou usando a mesa gigante para jogar botão com seus filhos enquanto aguardava um movimento suspeito do seu inimigo Maduro. O petróleo no Brasil subia e a Venezuela só ria do problema brasileiro.

Como as tropas já estavam cansadas e praticamente desarmadas Bolsonaro começou a chamá-las de volta. Nada que uma boa fake news não resolvesse. Bastava dizer que foi um treinamento no norte do país e pronto. Se confundiram com as fronteiras, mas já voltaram ao Brasil. Alguns soldados venezuelanos pediram asilo ao Brasil e outros voltaram por Salvador e Recife para curtir uma praia. Nada como uma invasão para conhecer novos lugares.

Com o impasse estabelecido Bolsonaro pediu um novo aumento da gasolina, compreensão aos caminhoneiros e emendas ao congresso. Maduro foi passar férias na Disney a convite de Biden e a imprensa oficial continuava cobrindo o conflito da Ucrânia ignorando completamente a guerra da Amazônia por falta absoluta de imagens chocantes ou emocionantes. A fome habitual dos brasileiros já era matéria manjada e não dava mais audiência.

sábado, 12 de março de 2022

Verdade está à frente do nariz

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de fato, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico
Fiodor Dostoievski, "Diário de um Escitor"

Em busca do tesouro perdido

Um mapa, um caminho pontilhado, um X, uma expedição minuciosamente organizada, um deslocamento árduo – ainda que profícuo – a navegar pela internet, uma pá. Uma desilusão. A metáfora do tesouro perdido combina com a maioria dos casos do recém prometido reembolso do dinheiro esquecido nas contas desativadas do sistema bancário nacional.

Longe de mim julgar que todos saíram frustrados desta aventura de galeões e piratas. Acredito com todas as forças em histórias afortunadas e resgates épicos. De minha parte, o CPF perdeu feio para os bolsos dos casacos, calças e jaquetas do roupeiro: “nada consta” foi a seca resposta. Nas incursões distraídas de minhas mãos nas roupas, vira e mexe surge uma nota de dez ou, no mínimo, uma moedinha de 25 centavos. Bendita seja a distração!

Fico um pouco triste com a decepção da imensa maioria das pessoas. A promessa tinha ares de redenção: milhões dormindo em baús enterrados aos pés de coqueiros de uma ilha chamada Esperança. Não era loteria, que demanda sorteio: o sinalizado era a justa propriedade. Dinheiro nosso que determinados passos no site do Banco Central – a tal linha pontilhada – ajudaria a revelar. A correria foi tão grande que, nos primeiros dias, chegou a travar o sistema. O que ninguém imaginava é que milhares de CPFs pulverizam qualquer cifra…

Minha sogra, por exemplo. Ela foi uma que acreditou na boa nova. Confiou ser uma das afortunadas desafortunadas. Não descansou enquanto não averiguamos seu suspeitado tesouro. E o Banco Central não a decepcionou: havia não uma, mas duas contas com valores a resgatar. Porém, mesmo quando somados, os saldos não chegavam a R$1,00. Ou seja, desenterramos os baús e, dentro deles, uma garrafa de Pepsi-Cola com o gargalo lascado e um bilhete de rifa já vencido era todo o prêmio que nos aguardava.

Oh, dor. Em quase todos os mapas, para onde se olha, vemos tempos de muito desencantamento.
Rubem Penz

A ditadura explícita e a disfarçada

É fácil se ver no meio de uma manifestação ao caminhar pelas ruas de Budapeste, a belíssima capital da Hungria. De um lado do rio Danúbio, em Buda, o partido ultraconservador Mi-hazank exibe seus símbolos patrióticos. Do outro, em Peste, militantes antivacina prestam solidariedade aos caminhoneiros canadenses. Todos os anos há uma enorme parada gay, sem repressão policial.

Parece uma democracia, mas não é. Livros de temática inclusiva são multados, uma universidade inteira acabou expulsa do país por abrigar intelectuais críticos ao governo e a

Constituição foi reescrita para permitir a reeleição eterna do Fidesz, o partido do primeiro-ministro Viktor Orbán.

Nas duas últimas semanas foram divulgados os resultados anuais de dois rankings de democracia, o da revista britânica The Economist e o do instituto V-dem, que é sediado em Gotemburgo, na Suécia. Tais rankings são especialmente necessários em casos como o da Hungria, em que o autocrata de plantão, Viktor Orbán, usa o manto da democracia para esconder um duro regime autoritário. Os dois estudos estão anexados à versão digital da coluna.


Estive na Hungria quando Jair Bolsonaro visitou Viktor Orbán, a quem chamou de “irmão”. Antes, o presidente brasileiro havia visitado o autocrata russo, Vladimir Putin, que nunca tentou disfarçar seus ímpetos autoritários. “A visita de Bolsonaro a Putin e a Orbán não trouxe nenhum resultado prático, apenas serviu para mostrar à base do presidente que ele tem amigos no mundo”, analisa o cientista político Christian Lynch no minipodcast da semana.

E que amigos! Dias depois da visita de Bolsonaro, Vladimir Putin invadiu a Ucrânia. Num congresso no ano passado, o V-dem vaticinou que a onda autoritária aumentaria a possibilidade de guerras pelo planeta. Viktor Orbán enfrenta uma eleição difícil no próximo dia 3 de abril, e fustiga o tempo todo o Judiciário, a academia e a imprensa para se manter no poder. No Brasil, essas mesmas instituições têm ajudado a frear seu “irmão” Bolsonaro.

Vivemos numa época em que golpes de Estado, de direita ou de esquerda, saíram do cardápio político do Ocidente. O autoritarismo passou a ser uma doença que se instala aos poucos. Rankings como o do Vdem e o da The Economist detectam os primeiros sinais do mal.

No ranking do V-dem, o Brasil está entre os países em que a democracia mais se deteriorou nos últimos dez anos. Nossa situação não é comparável à da Rússia ou à da Hungria, a ditadura explícita e a disfarçada – mas é bom ficar de olho.

A esquerda que apoia o imperialismo

É perturbador acompanhar o debate na esquerda sobre a invasão à Ucrânia. Logo no começo do conflito, o perfil do PT no Senado no Twitter publicou nota dizendo que “condena a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às fronteiras russas”. Depois de ser criticada, a nota foi apagada, e manifestações individuais de senadores petistas contrários à invasão foram retuitadas. Mas a primeira nota ter saído mostra que forças relevantes no partido consideram a invasão justificada. A nota oficial do PT, publicada dois dias depois, reflete bem essa ambivalência, condenando uma solução militar, mas não a invasão: “Entendemos que a solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação em fóruns multilaterais”. Em sites de esquerda, predomina o apoio à invasão russa, em clima de torcida.

Para além do passado soviético, com que o atual regime não tem identidade política nem ideológica, é difícil entender a simpatia de parte da esquerda pela Rússia. O país não tem um regime socialista, mas uma economia capitalista bastante desigual, entre as mais desiguais da Europa. A Rússia também tem uma história imperialista de desrespeito à soberania e à autodeterminação dos seus vizinhos, já tendo invadido a Geórgia (em 2008) e a própria Ucrânia (na região da Crimeia, em 2014).

As violações aos direitos humanos lá são tão numerosas que é difícil resumi-las. A Rússia não respeita a liberdade de associação; persegue e impede o trabalho das mais tradicionais e respeitadas ONGs; dissidentes e opositores são presos, alguns assassinados, mesmo no exílio; o governo controla a imprensa; persegue e multa veículos; prende e mata jornalistas; a tortura nas forças policiais e militares é uma prática disseminada e tolerada; a população LGBTQIA+ não tem direitos civis básicos e é perseguida por agentes do Estado; e as eleições, embora aparentemente vencidas por Putin, são mesmo assim fraudadas, apenas para demonstrar força.

Se não é por simpatia pelas virtudes sociais e políticas do regime, a defesa da invasão por parte da esquerda parece se dar por razões geopolíticas, pelo efeito positivo de fazer emergir um mundo mais multipolar. Essa é, pelo menos, a tese mais frequente dos intelectuais e comentadores de esquerda que defendem a invasão.

O argumento é que a Otan, a aliança militar que na Guerra Fria se opunha à expansão da União Soviética, promoveu o atual conflito ao se ampliar para o Leste da Europa a partir dos anos 1990. Aproveitando a debilidade russa com o fim do regime socialista, a aliança incorporou países do antigo Pacto de Varsóvia e mesmo fronteiriços com a Rússia, como os bálticos. A tentativa recente da Ucrânia de aderir à Otan teria sido a gota-d’água para os russos, que teriam invadido o país num ato de defesa.

Os pressupostos do argumento estão corretos. De fato, a Otan aproveitou a fraqueza da Rússia para se expandir. Disso não deriva que os russos tenham o direito de violar a soberania ou de ameaçar a integridade territorial de um país vizinho para impedi-lo de entrar na União Europeia ou na Otan. Que direito legítimo é esse de um país invadir o outro em defesa de seus interesses geopolíticos? A esquerda, agora, em defesa de um mundo mais multipolar, passou a defender o imperialismo? Para extrair apenas uma consequência desse raciocínio: se um governo eleito no Brasil viesse a estreitar laços com a China, os Estados Unidos teriam o direito de invadir nosso território, já que a China estaria se expandindo a uma zona tradicional de influência americana?

Enquanto a maior parte da esquerda mundial protesta e repudia a invasão da Ucrânia, parte significativa da brasileira prefere defender o imperialismo. Se a esquerda quer manter um pouco de integridade moral, está na hora de romper com os defensores de ditaduras e impérios. Uma coisa é denunciar e combater todas as formas de imperialismo, inclusive o americano. Outra, bem diferente, é defender as ações imperialistas de um autocrata sanguinário, apenas porque equilibraria o jogo de forças no cenário mundial.
Pablo Ortellado