domingo, 14 de dezembro de 2014
Armas
- Qual a mais
forte das armas,
a mais firme,
a mais certeira?
A lança, a
espada, a clavina,
ou a funda
aventureira?
A pistola? O
bacamarte?
A espingarda, ou
a flecha?
O canhão que
em praça forte
faz em dez
minutos brecha?
– Qual a mais
firme das armas? –
O terçado, a
fisga, o chuço,
o dardo, a
maça, o virote?
A faca, o
florete, o laço,
o punhal, ou o
chifarote?
A mais
tremenda das armas,
pior que a
durindana,
atendei, meus
bons amigos:
se apelida: –
a língua humana.
Fagundes Varela
Como seria o país do PT sem oposição
Graça Foster, presidente da
Petrobras, tenta se manter com a cabeça fora d’água. Se conseguir, pior para a
estatal. As ações voltaram a despencar nesta sexta-feira. Sim, caiu o preço do
barril do petróleo, como é sabido. É a razão da hora. A questão é saber onde
estava a empresa brasileira quando veio esse fator conjuntural. Resposta: no
fundo do poço. A agonia parece não ter fim, e Dilma, a nefelibata, finge que
não é com ela. Só que é.
Nesta sexta, o comando da
estatal resolveu agir como de costume. Diante das evidências — e evidências são
— de que fora advertida das lambanças como diretora e como presidente da
empresa, Graça mobilizou a sua turma para desqualificar a acusadora, Venina
Velosa da Fonseca — que teria até ameaçado seus chefes porque perdeu um posto
importante.
A questão aí não é “de quem”,
mas “do quê”. Sim, é sempre bom saber o nome do autor de uma denúncia. A pessoa
pode ter interesse objetivo quando faz uma acusação. Se uma grave ilegalidade
está sendo apontada, no entanto, é ainda mais relevante saber se estamos diante
de uma verdade ou de uma mentira.
Fato 1: a roubalheira na Petrobras
aconteceu.
Fato 2: Venina advertiu Graça
(pouco importam as suas intenções).
Fato 3: Graça não tomou nenhuma
providência.
Nem ela nem o presidente que a
antecedeu, José Sérgio Gabrielli, que vai se agigantando, a cada dia, como o
chefe de uma casa de horrores. Que ironia! A Petrobras serviu de cavalo de
batalha dos petistas nas eleições de 2002, 2006 e 2010. Lá vinha,
invariavelmente, a mentira em tom de ameaça: “Os tucanos querem privatizar a
Petrobras…”. Eis aí: essa Petrobras que temos é aquela privatizada pelo PT. O
que lhes parece?
Se o preço do barril do
petróleo cair mais um pouco — ou, vá lá, se vier a se estabilizar no atual
patamar, a Petrobras estará ainda mais encalacrada do que hoje. Todo o chamado
“Plano de Negócios” do pré-sal vai para a cucuia. Os males que o PT causou ao
setor de energia no Brasil não serão corrigidos num tempo curto. O partido
errou no diagnóstico, errou no prognóstico, errou na operação. E coroa a falta
de competência com a evidência de que comandou, com certeza, a gestão mais corrupta da
história da empresa. Procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato
esperam ouvir Venina nos próximos dias.
Geleia geral brasileira
Hegemonia pressupõe o contrário do que será o ministério de Dilma – e o que foi o ministério de Lula.
A reeleição,
por motivos óbvios, dispensa os ritos de transição, em que um presidente passa
a faixa a outro e equipes dos dois governos trocam informações para a sequência
administrativa. Dilma, claro, não passará a faixa a Dilma.
Não obstante,
o que se anuncia para seu próximo mandato, dada a mudança radical em
postos-chaves do ministério – Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento Industrial
e Agricultura, já anunciados -, é como se outro partido o assumisse.
Sai o, digamos
assim, heterodoxo Guido Mantega e entra o ortodoxo Joaquim Levy, discípulo de
Armínio Fraga, o mesmo que a candidata Dilma satanizou, como inimigo dos
pobres. Não se trata de cobrar coerência entre o que a candidata prometeu e o
que a governante fará. Isso é inútil – e já foi feito.
Trata-se de
saber como governará em tal ambiente, visto que as bases do PT já demonstraram
que não aceitam a novidade.
A presidente,
que não é exatamente um gênio político – nem sequer gosta da atividade -, terá
que administrar um quadro esquizofrênico que exigiria uma habilidade Talleyrand,
que não tem.
De um lado,
estão o mercado e a opinião conservadora, cuja expressão estatística já deu
mostras de que não é pequena. De outra, a base ruidosa da militância de
esquerda, que faz crer que é maior do que é. Essa base, a que faz coro o
presidente do PT, Rui Falcão, empenhou-se em trocar a candidata por Lula no
início da campanha. Não conseguindo, engoliu-a a força.
Ela quer de
Dilma o que não está politicamente em condições de entregar. A censura à
imprensa, por exemplo. E o plebiscito pela Constituinte exclusiva (como será
isso?) para, nos termos da proposta do PT, tornar a “sociedade hegemônica”.
Hegemonia
pressupõe o contrário do que será o ministério de Dilma – e o que foi o
ministério de Lula. Supõe um governo uniforme, com discurso único, sob a égide
uma mesma ideologia. O ministério Dilma é plural, vai da direita à esquerda,
passando pelo centro, subsolo e sobreloja. É o que, em política, se chama de
saco de gatos, de que o PMDB é símbolo.
Há dias, o
ministro Gilberto Carvalho, indagado sobre a presença da senadora Kátia Abreu,
presidente da CNA, no futuro Ministério da Agricultura, disse não estar
preocupado com quem comandará aquela pasta, mas com quem comandará o Ministério
do Desenvolvimento Agrário.
Aquela, sim, é
importante, na visão dele, pois é lá que se agregam o MST e os ativistas de
esquerda que combatem o agronegócio. Uma pasta neutraliza a outra, é o que
ficou implícito. Essa simples formulação vale um tratado a respeito do que têm
sido os governos do PT, que, sob a mesma estrela vermelha, reúnem invasores e
invadidos.
Funcionou até
aqui, argumentam os petistas, mas (se é que funcionou) a pergunta é: até
quando? A economia vai mal, os escândalos atingem níveis estratosféricos, a
presidente tem dificuldades em completar a escalação do ministério, receosa de
que algum escolhido seja citado na Operação Lava-Jato.
Impunidade, seu nome é Brasil
Na iminência
da divulgação pelo procurador-geral da República da nova lista de envolvidos no
escândalo da Petrobras, agora referente a deputados e senadores, emerge o
fantasma da impunidade. Ninguém garante que os possíveis acusados já não se
tenham blindado através de competentes advogados, prontos para apresentar uma
só defesa. No caso, o reconhecimento de terem recebido das empreiteiras e de
seus asseclas vultosas quantias, mas para ajudá-los nas campanhas eleitorais.
Ignoravam sua origem e, em especial, que provinham de desvio de recursos
públicos, do superfaturamento e de aditivos de contratos celebrados com a
estatal petrolífera.
O argumento,
apesar de falso, faz sentido e poderá ser admitido pelo relator do processo,
ministro Teori Savaski, e os demais ministros do Supremo Tribunal Federal.
Nessa hipótese, as denúncias assinadas por Rodrigo Janot não seriam aceitas, a
menos que o procurador-geral dispusesse de provas concretas sobre a
participação de parlamentares na lambança. Afinal, doações eleitorais feitas
por empresas privadas são permitidas por lei. Até as campanhas de Dilma
Rousseff e Aécio Neves foram aquinhoadas com milhões de reais por parte das
empreiteiras. Evidenciar que parlamentares e partidos ajudaram na concessão de
contratos fajutos não parece fácil. Será a palavra dos delatores contra a
suposta indignação dos parlamentares.
Esse nó
precisa ser desatado, pois apesar das expectativas, vem impedindo a divulgação
da lista. Provas testemunhais, como a dos dois bandidos beneficiados pela
delação premiada, não substituem provas documentais. E essas não se resumem a
anotações em folhas sem timbre nem assinaturas, como as apreendidas nas sedes
de algumas empreiteiras. Uma folha de papel, já se disse, aceita tudo, desde a
poesia mais bonita até a mais execrável das mentiras, bastando que se disponha
de um lápis.
Não deixa de
ser vergonhosa essa argumentação, superada pela evidência dos fatos e pela
indignação nacional, mas, infelizmente, é o cenário que se desenha. Os
corruptos estão temerosos, por certo, mas também confiantes em que escaparão
das condenações, das cassações e da prisão. Impunidade, seu nome é Brasil! A
menos que a Providência Divina e o Supremo Tribunal Federal venham em nosso
socorro.
sábado, 13 de dezembro de 2014
Brasil precisa dar resposta rápida para escândalos
Para Transparência Internacional, economia do país sofrerá impactos negativos caso não haja uma reação adequada. "Sob suspeita", empresas brasileiras podem ter dificuldades para fazer negócios.
"Os empresários e o governo devem mudar a forma como se
fazem negócios no Brasil. Se não agarrarem a oportunidade de fazer essa
limpeza, a economia brasileira vai sofrer muito nos próximos anos", disse
o diretor nesta quinta-feira (11/12), numa coletiva de imprensa da ONG em São
Paulo.
Segundo De Swardt, as empresas brasileiras terão
dificuldades para fazer negócios no exterior, caso permaneçam "sob
suspeita".
Um relatório da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), lançado em dezembro, indica que os casos de
corrupção levam em média sete anos para serem concluídos. Em 1999, demoravam
apenas dois anos.
De Swardt afirma que agora a rapidez será crucial no Brasil.
"Se o caso da Petrobras se alongar por sete anos, será um desastre para a
economia. Além disso, há um risco real de que a impaciência da população
brasileira chegue a um limite. O que seria muito difícil de reverter."
Estrela no paredão
Chororô da presidente tem que ser para todos
A Justiça brasileira não é apenas cega. É surda às apelações dos pobres, e muda para as elites e os políticos.
Correto, presidente. Respeita-se o choro na entrega do
relatório da Comissão Nacional da Verdade.
Mas cá entre nós, presidente, em 12 anos do petismo no
Planalto, o que se fez de concreto para se respeitar os direitos humanos com
mão forte do governo em casos como a mortandade em Pedrinhas, no Maranhão, os
assassinatos diários e bárbaros em todo o país, a violência tomando todos os
rincões, o crack invadindo famílias minando inclusive crianças, a droga
entrando livremente no país, os jovens caindo na mão dos traficantes e
patati-patatá?
Se o pau bateu ontem em Francisco, bate hoje nos Chicos, nos
Zés, nos Joões, nas Marias, nas Zefas. E aí ninguém rola uma lágrima; o governo
deixa rolar o sarrafo. Eles também perdem diariamente "familiares e parentes e que continuam sofrendo
como se eles morressem de novo e sempre a cada dia”. Como de costume, é
gente que morre na guerrilha urbana que tomou as cidades brasileiras pelo seu
desgoverno.
No entanto, não há uma manifestação do governo. O ministro
da Justiça, que em outros tempos era o segundo mais importante cargo do país,
agora não passa de advogado do petismo e guarda-costas presidencial para
garantir a toga no STF. Sai na defesa das elites e silencia com o destino da
população entregue às prisões desumanas, à violência policial e marginal, às
drogas, aos desaparecimentos, às balas perdidas. Para o povo, é uma nulidade em
justiça.
Não é à toa que o país se tornou o mais violento, do mundo
entre 133 nações avaliadas, e quando o número de homicídios está em queda no
mundo. Em números absolutos, é o país com o maior índice de assassinatos no
mundo: 64.357, o que equivale a 32,4 mortes para cada 100 mil pessoas, revela
relatório global para prevenção de violência preparado pelas agências das
Nações Unidas. O Brasil ultrapassa até a Índia (52 mil), o segundo país mais
populoso do planeta!
Se há tanto empenho em revelar e condenar os crimes da
ditadura, o que dá ibope e entra na agenda positiva presidencial, com alta
promoção da presidente, também deveria haver mais empenho contra a
criminalidade de hoje. Isso, sim, poria a presidência nas alturas. Mostraria,
enfim, que não só governa para mensaleiros, corruptos, políticos e elites, mas
como reza a Constituição todos os brasileiros, inclusive aqueles sem voz e
representantes, “que perderam
familiares e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e
sempre a cada dia”.
Corrupções comparadas
Muitos argentinos grafam korrupção. E nos jornais brasileiros fala-se de corruPTos. Como se o kirchnerismo e o Partido dos Trabalhadores não fossem organizações partidárias, mas um modus operandi.
Em “O Enigma
Belgrano”, o livro que publicou antes de morrer, o historiador Tulio Halperin
Donghi transcreveu uma carta de Manuel Belgrano datada de 10 de fevereiro de
1790 em Madri. Aquele que 20 anos depois seria um dos líderes da independência
argentina, informava seu pai que nessa capital “a prata pode muito se bem
dirigida, tendo algum conhecimento das coisas da Corte”. A observação de
Belgrano foi feita durante o reinado de Carlos IV. Na América Latina, a
corrupção parece crônica.
Às voltas com
a tragédia de Iguala, Peña Nieto teve que arranjar tempo para explicar a mansão
comprada por sua esposa de uma empreiteira que teria sido beneficiada pelo
Estado. O juiz da Suprema Corte paraguaia, Víctor Núñez, renunciou acusado de
dar cobertura ao tráfico de drogas. No entanto, os Governos mais afetados pela
contaminação entre política e negócios são os do Brasil e da Argentina. Os
subornos de milhares de dólares pagos à Petrobras envolvem Dilma Rousseff em um
pesadelo. Cristina Kirchner tampouco dorme bem. No ano passado, dois
consultores financeiros detalharam como negociavam com os bolsos repletos de
dólares que saíam da Austral Construcciones, a empresa de Lázaro Báez, uma
empreiteira de obras públicas. Batizaram sua financeira de La Rosadita, uma
sarcástica homenagem à Casa Rosada, o palácio de Governo.
Báez alugou
durante anos os 935 quartos do hotel Alto Calafate, que pertence aos Kirchner.
A estatal Aerolíneas Argentinas também aluga quartos nos hotéis da chefa de
Estado. A crise foi agravada há duas semanas quando o juiz Claudio Bonadio
ordenou uma operação de busca na empresa da presidenta.
Os corruptos
brasileiros e argentinos foram clássicos no modo de se apropriar do orçamento
nacional: contratos de obras públicas. Na Petrobras, um clube de construtoras
fazia acordos para as licitações. Até escreveram um manual de estilo. Na
Argentina, a distribuição dos ganhos foi menos sofisticada. Báez ficou com 90%
das obras públicas de Santa Cruz, a província dos Kirchner. E só alugava
quartos nos hotéis dos Kichner. Os estereótipos nacionais se reforçam: o
espírito de equipe brasileiro contra o pobre individualismo argentino.
Há outra
diferença relevante. Os recursos da Petrobras eram distribuídos entre o PT, o
PMDB e o PP, as forças que sustentam Dilma no poder. Um financiamento
multipartidário que repete o mensalão e lembra a Tangentopoli italiana. Segundo
o arrependido Paulo Roberto Costa, o método também é usado em ferrovias, portos
e aeroportos. É o lado B do presidencialismo de coalizão explicado pela ciência
política.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Inocente!
Agora a bola da vez somos
nós. O PT não pode continuar crescendo, tem que ser atacado de todos os lados,
em todas as frentes, com artilharia leve e pesada. Vamos fazer guerra eletrônica
contra o PT, não importa se é verdade ou mentira. Vamos tentar difamar,
destruir esse partido. No processo do mensalão, os companheiros que foram
julgados já estavam condenados. Esse processo da Petrobras, o que a gente está
vendo é que quando chegar na Suprema Corte, quando o Teori (Zavascki) for
analisar a delação premiada, instrumento criado por nós, a imprensa já vai ter
condenado. Todo o vazamento é contra o PT Uma presidente pela metade
A presença do
Lula em Brasília, esta semana, para demorados encontros com a presidente Dilma
e com as bancadas do PT, indica terem sido restabelecidas as relações entre o
antecessor e a sucessora. Claro que o ex-presidente deu mais do que palpites na
formação do novo ministério. Indicou nomes e partidos, insistindo na
preservação do modelo que impôs a Dilma nos últimos quatro anos: divisão do
governo em condomínio com os partidos de sua base parlamentar, permitindo que à
sombra do loteamento de cargos possa ser formada maioria no Congresso, capaz de
garantir a aprovação de projetos de interesse do palácio do Planalto.
Em suma, nada
de novo no limiar do segundo mandato, muito pelo contrário. Fica tudo como
estava, com uma presidente da República prisioneira do fisiologismo de sua
base.
Indaga-se da
hipótese de, dispondo de vontade política, Dilma poderia virar o jogo. A
resposta é não, mesmo se desejasse. Com todo o respeito, ela exerceu e mais
exercerá a função de presidente pela metade. Despojada de ideologia própria,
chorou ao lembrar episódios de sua vida pregressa, ao receber o relatório final
da Comissão da Verdade. Demonstrou, com isso, seu despreparo em aplicar a
promessa de “governo novo, pensamento novo”. A velha fórmula de contemporizar
com a chantagem defendida pelo Lula vedou esperanças e promessas feitas nos
palanques, em outubro.
Fica óbvia a
estratégia adotada para o futuro: repetir o passado, até mesmo com concessões à
direita, tendo como propósito a permanência do mesmo grupo no poder depois de
2018.
Apenas um
obstáculo poderá atrapalhar o plano diretor dos companheiros: sua
desmoralização diante dos sucessivos escândalos praticados à sombra dos poderes
público e privado. As denúncias não param, iniciativas adotadas e por adotar no
Poder Judiciário serão capazes de erodir a estrutura plena de corrupção no
Executivo e no Legislativo.
Nessa hora,
tudo poderá acontecer, até mesmo o rompimento entre Lula e Dilma, já ensaiado
no período seguinte às passadas eleições. Quem sabe a presidente conquiste a
outra metade de suas atribuições e de seus ideais? Pode não dar tempo, caso
continuem ignoradas as lições do passado, aquele que geralmente não diz o que
fazer, mas deixa claro o que evitar.
Noite
alguns sonhos e lugares quase apagados;
mortos os povos com as guerras,
a inflação e as doenças novas,
com o ódio de classe,
a guerra fria.
muitas as orações, a fé,
razão e civilização.
O manto negro da morte.
De uma janela no céu a lua calva
olha esquálida com olhos fixos
o cadáver...
As dores se seguem pelas ruas como espectros!
Anton
Buttigieg (1912-1983)
Petrolão respinga em obras na América Latina
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| Porto de Mariel, em Cuba, inaugurado por Dilma, é um dos escândalos da lista |
As listas de Yousseff trazem detalhes sobre 747 obras realizadas na região e que poderiam ser a ponta do iceberg de outro escândalo enorme
Quando o
primeiro ex-diretor da Petrobras detido na Operação Lava Jato, Paulo Roberto
Costa, afirmou que a corrupção investigada “acontece em todo o Brasil”, pode
não ter dito tudo o que sabia. O documento que a Polícia Federal encontrou na
residência do cambista “arrependido” Alberto Youssef, com registros de mais de
700 contratos, ameaça ampliar ainda mais, se possível, o âmbito do maior caso
de corrupção da história brasileira.
O já célebre
juiz do Paraná, Sergio Moro, reconheceu em uma diligência que as revelações são
“perturbadoras” e sugeriu que “o esquema criminoso de fraude, licitação,
superfaturamento e subornos poderia ir muito além” da petroleira estatal. Não se
refere somente ao restante do país. O citado documento inclui obras públicas
realizadas em vários outros países latino-americanos, como Argentina e Uruguai
(parceiros do Brasil no Mercosul), Equador e Colômbia.
As listas
apreendidas com Alberto Youssef, preso desde março e acusado de lavagem de
dinheiro, trazem (segundo informou a TV Globo no fim de semana) detalhes sobre
747 obras realizadas por 170 empresas, na maioria construtoras, em uma relação
que apresenta grande semelhança com a das empresas investigadas na enorme
operação desencadeada pela polícia federal há 18 meses. A soma total desses
projetos é de 11,5 bilhões de reais; talvez uma quantia modesta em comparação
com a gigantesca rede de subornos, lavagem de dinheiro e financiamento ilegal
de partidos políticos descoberta no entorno da Petrobras, “mas que poderia ser
apenas a ponta do iceberg de outro escândalo enorme”, dizem a esse canal de
televisão fontes ligadas ao caso.
Um total de
59% das obras que aparecem na lista apreendida com Youssef tinha a Petrobras
como cliente final. Os principais projetos eram obras de infraestrutura de
transporte (portos, aeroportos, metrôs), bem como refinarias e obras de
mineração e saneamento. O juiz Moro pediu explicitamente uma “profunda
investigação” para confirmar as suspeitas sobre as novas irregularidades.
Rodrigo Janot, procurador-geral da República, confirmou que as novas revelações
já estão sendo analisadas pelo Ministério Público.
Entre as obras
incluídas na relação se destaca a ampliação do porto de Mariel, a 50
quilômetros de Havana (Cuba), ambicioso projeto da nova zona franca comercial
realizado com financiamento brasileiro, cuja primeira parte foi inaugurada em
janeiro com a presença da presidenta Dilma Rousseff, e que foi criticado
durante a recente campanha eleitoral pelo oposicionista Aécio Neves. Construído
pela “gigante” Odebrecht (investigada na Lava Jato, embora seja uma das poucas
empresas do suposto “clube” de empreiteiras corruptoras que não teve nenhum
diretor preso), seu valor alcança o equivalente a 22,5 bilhões de reais. No
documento aparece citado com um valor de 3,6 milhões de reais, sem maior
explicação. A construtora nega ter pago qualquer suborno.
Nas listas explosivas
de Yousseff aparece também um gasoduto argentino da província de Córdoba que
tinha recebido em 2008 ajuda no valor de 60 milhões de reais do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o principal banco de fomento
latino-americano, que na última década concedeu empréstimos de bilhões de
dólares a seu vizinho austral para a expansão da rede de gás. Porta-vozes do
BNDES se apressaram a negar qualquer participação no esquema.
Um discurso ou o dinheiro de volta?
A retórica da indignação pode fazer bem à alma dos partidários do governo e aos admiradores da presidente, mas não resolve os problemas práticos da empresa.
Entre dezenas
de debates inúteis que enchem de som e fúria as redes sociais, onde hoje se
localizam as trincheiras da guerra ideológica, está aquele que pretende
determinar, afinal de contas, se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha da
corrupção.
No tsunami
provocado pela Operação Lava Jato, que vem esquartejando aos poucos as
entranhas da maior empresa do país, a mítica Petrobrás, ao lado de cifras
estratosféricas desfilam nomes inimagináveis e esquemas indecifráveis de
propinodutos ligados a siglas partidárias, o que insinua um loteamento político
de larga escala das diretorias da empresa.
A militância
política infanto-juvenil (uma qualificação que não é cronológica mas de
amadurecimento intelectual) atribui a descoberta e investigação do escândalo à
suposta coragem do governo petista, já que nunca antes na história deste pais a
corrupção foi tão investigada como agora.
A presidente,
como ela mesma não se cansa de repetir, repudia a corrupção mais do que
qualquer outra pessoa no mundo. Aliás, o verbo repudiar nunca esteve em tanta
evidência como nestes últimos tempos. Nunca a corrupção foi tão repudiada-e ,
paradoxalmente, tão praticada- como agora.
O discurso
indignado do procurador geral da República Rodrigo Janot no Dia Internacional
de Combate à Corrupção, no qual defendeu a troca da diretoria da Petrobrás,
provocou mais impacto do que as declarações do Controlador da União, Jorge
Hage, depois de apresentar seu pedido de demissão do cargo que exerceu durante
8 anos.
Janot foi mais
emocional (“Envergonha-nos estar onde estamos”) e Hage mais técnico ( criticou
o frouxo sistema de controle do governo sobre
estatais e a falta de investimentos na CGU, que segundo ele perdeu 300
auditores desde 2008), mas ambos miravam o mesmo alvo: a falta de
profissionalismo na relação do governo com as empresas que ele controla.
A reação da
presidente à fala de Janot foi a de considerá-la um “escândalo" e
determinar ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo que a respondesse, o que
ele fez naquele habitual tom de falsete, que consegue transformar questões de
Estado em arenga partidária; esse tom deve parecer adequado a alguém que cobiça
uma vaga no Supremo e sabe a quem deve agradar para consegui-lo.
O fato é que a
presidente está “indignada”, o fato é que ela “repudia" a corrupção, o
fato é que ela não tolera “malfeitos”, e ainda assim considera um escândalo que
o procurador-geral sugira o afastamento de uma diretoria sobre a qual pesa a
suspeita de uma gestão descuidada, para dizer o mínimo.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
E no temporal dos bilhões...
Hoje estamos num tempo transtornado, quando reina o arbítrio e o absurdo, quando honestidade, sobretudo de parte dos grandes, tornou-se letra morta, quando os vícios são aceitos e a virtude depreciada
Erasmo de Roterdã
Seca? Que
seca? Com os propinodutos jorrando bilhões, as bicas governamentais abertas,
dinheiro saindo pelo ladrão, chovendo dólares nas obras governamentais, cada
parlamentar aliado em Brasília custando a bagatela de R$ 749 mil, o Brasil está
mais afogado pela inundação generalizada de números monetários. A tempestade
desta Primavera não é de água, mas de corrupção. Estão afogando – não de hoje é
claro - as instituições num lameiro.
A cada dia cai
mais uma tempestade de roubalheira. Chovem escândalos novos. É preciso diariamente rezar a Santa Bárbara para evitar os
raios do governo caindo sobre a população. Raios de raiva da própria
incompetência, gerados na petulância, alimentado pela ganância sobre os cofres
públicos.
Não há dia em que os empregadinhos governamentais não surjam
com distorcidas visões colorizadas de um governo corrupto com mãos limpas. Escárnio
a quem é cidadão e trabalha para pagar uma corja de sanguessugas, embriagadas
de poder. Tem que aguentar governo se achando dono não apenas da terra, mas dos
corpos e do dinheiro do cidadão.
Nunca antes neste país se viu nada igual...
Venho observando as notícias sobre as investigações da
operação “Lava Jato”. Como a maioria dos brasileiros, permaneço cética em
relação aos resultados concretos, sempre adiados e depois esquecidos por todos,
inclusive pelos mais revoltados cidadãos brasileiros. Procuramos o culpado (ou
culpados), pelo frustrante resultado e infelizmente, não sabemos a quem debitar
a conta.
Como magistrada, participei de diversas operações policiais
grandiosas envolvendo autoridades. Fui juíza rigorosa e atenta, mas pouco pude
ver de concreto nos processos que consumiram grande parte do meu tempo como
julgadora. O que vi foram resultados muito aquém dos esforços e gastos na condução
do processo. Portanto, falo com a propriedade de quem conhece o sistema nas
suas entranhas.
Os únicos processos grandes, envolvendo corrupção da cúpula
do poder com resultados visíveis foram: o determinante do impeachment de
Collor, quando ficou provado ele ter recebido propina – representada por um
Fiat; o Mensalão, quando as provas evidentes do processo deixaram o STF, sem
alternativa senão a condenação.
GRANDES ESCÂNDALOS
Para não parecer pessimista, basta lembrar dentre os maiores
escândalos financeiros envolvendo altos figurões da República e desvios de
recursos públicos, cujo destino já se sabia de antemão – iriam para as
campanhas eleitorais e engordariam as contas pessoais dos candidatos e seus
parceiros: Anões do Orçamento (1989 a 1992, 800 milhões dentro do Congresso
Nacional); Vampiros (1990 a 2004, 2,4 bilhões, fraude a licitações dentro do
Ministério da Saúde); TRT de São Paulo (1992 a 1999, 923 milhões, envolvendo o
Senador Luiz Estevão e o Juiz conhecido como Lalau); Banestado (1996 a 2000, 42
milhões, no Estado do Paraná); Banco Marka (1999, 1,8 bilhões, dentro do Banco
Central; Pobre Amazônia (1998 e 1999, Sudam, 214 milhões); Máfia dos Fiscais
(1998 a 2008, 18 milhões, Câmara dos Vereadores de São Paulo); Mensalão (2005,
55 milhões, Câmara Federal, envolvendo o PT); Sanguessugas (2006, 140 milhões,
envolvendo 3 senadores e 70 deputados); Operação Navalha (2007, 610 milhões,
envolvendo o Ministério das Minas e Energia, nove Estados, o DF e a empresa
Gautama).
Todos esses escândalos foram investigados pela Polícia
Federal, monitorados pelo Ministério Público Federal e processados pela
Justiça. Mas, houve punição adequada?
Como vemos, a descoberta das falcatruas na Petrobras,
conhecidas por todos desde as eleições de 2010, foram repetidas com maior
perfeição nas eleições de 2014 e antes do segundo turno o governo se mobilizou
politicamente para abafar as investigações: esvaziou a CPI da Câmara, tentou
desconsiderar o magistrado Sérgio Moro, disse que se tratava de investigações
de cunho politico-partidário patrocinadas pela oposição e conseguiu retardar o
que só agora vem a tona, com força total, pouco menos de um mês após a apuração
de todas as urnas e a reeleição da Presidente.
JÁ EXISTE UMA
CERTEZA
Hoje comprova-se que não é especulação ou invenção eleitoral
e sim uma certeza – pelo que já está apurado por documentos e declarações –
trata-se do maior escândalo de corrupção do Brasil, alcançando a cifra de 60
bilhões retirados de uma única empresa, a Petrobras. Os mandantes e
beneficiários estão ligados diretamente ao governo federal, pertencem ao PT e
aos partidos que dão sustentação política a Dilma, via as maiores empreiteiras
do país. Os empreiteiros, presos provisoriamente, já com a experiência do
Mensalão, de que os figurões políticos conseguem a liberdade, estão aderindo
maciçamente ao instituto da delação premiada.
Diante do quadro que se tem no momento, quando tudo parece
levar ao caso do – sem saída para o governo que promoveu, ou ao menos chancelou
o absurdo desfalque, somos surpreendidos com a fala presidencial, que se
apossou da corrupção perpetrada para dizer em alto e bom som: “Nunca antes
neste país o governo promoveu tão séria e severa investigação pela MINHA
Polícia Federal, pelo MEU Ministério Público e pela MINHA Justiça Federal”.
Tudo virou governo (e do governo), porque não mais se tem a noção do que seja
Estado e do que seja governo. Tudo é uma coisa só.
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