terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A futura ordem global com Donald Trump, o novo 'xerife'

As provocações e confrontos que caracterizaram as primeiras semanas do segundo governo Trump afetaram primeiro os países latino-americanos.

As consequências desse estilo de impor seus interesses já estão sendo sentidas na Europa e em outras partes do mundo, não apenas por meio das tarifas que estão sendo impostas, mas também pelo padrão ideológico que o governante em Washington está tentando impor ao mundo inteiro.


"Há um novo xerife na cidade" foi uma das frases que pontuaram o discurso do vice-presidente JD Vance na Conferência de Segurança de Munique no último fim de semana.

Além do fato de que essa metáfora soa um pouco estranha no contexto da história europeia do desenvolvimento do Estado de direito, ela reflete a fraca compreensão da complexidade das relações internacionais na nova administração em Washington.

Tudo se resume ao que tem sido discutido sob o conceito de "política do homem forte", uma prática que também encontrou muita ressonância em países latino-americanos, caracterizados por uma longa tradição de personalismos.

O que o presidente dos EUA e seus vice-marechals estão tentando apresentar é um retorno a décadas passadas, quando a ordem mundial podia ser facilmente controlada por um pequeno grupo de pessoas que tinham o controle de armas de destruição em massa. Agora, essa narrativa parece ter retornado, não apenas no Ocidente, mas em partes mais amplas do mundo, com base em uma ideologia populista e/ou autocrática.

Por outro lado, a experiência democrática, com seus processos mais lentos e complicados, mas especialmente limitada por instituições de freios e contrapesos, não encontra muito eco entre os eleitores, que exigem respostas imediatas e contundentes aos problemas existentes, seja a situação econômica, a criminalidade ou a própria migração.

A pessoa que parece mais propensa a dar essa resposta é o homem forte, que, como o presidente dos EUA, cria a ilusão de que, ao assinar alguns decretos, a realidade já foi mudada.

Na América Latina, há experiências semelhantes que geraram um discurso de “mão de ferro” para resolver problemas com medidas extraordinárias que se justificam com instrumentos drásticos e ilimitados em sua aplicação. Mas o que parece eficaz à primeira vista em nível local ou nacional não necessariamente tem os efeitos desejados em nível regional ou global.

No entanto, os mesmos "homens fortes", independentemente da sua cor ideológica, continuam a gerar a expectativa de que a simples vontade de um governante é suficiente para mudar as coisas. Enquanto os cidadãos acreditarem que os homens fortes são capazes de apresentar atalhos confiáveis ​​para maior segurança e orgulho nacional, não se deve excluir que as maiores ameaças ainda estejam por vir na forma de colapsos das democracias existentes.

Esse padrão de "política de homem forte" é, de muitas maneiras e em múltiplos aspectos, um ambiente hostil para a UE, não apenas em termos de sua presença global, mas também em relação à sua tradicional aliança transatlântica, que agora é percebida não apenas como mais turbulenta, mas também mais fraca em termos de confiança mútua.

O mais desorientador é a substituição da busca contínua de consenso em nível internacional por uma "guerra cultural", cujos protagonistas não se encontram apenas no campo político republicano nos EUA, mas também na presença ideológica de Javier Milei e de muitos outros protagonistas desse estilo no mesmo território europeu.

Em vez disso, há ameaças aos membros do BRICS e outros organismos que poderiam facilitar a presença do Sul Global em nível internacional, o que poderia levar a uma nova marginalização nos tempos vindouros. Não apenas as ameaças de Trump à Colômbia e à República da África do Sul (que atualmente ocupa a presidência do G20) são prova de que as regras internacionais do direito internacional não são mais relevantes e podem ser substituídas pela força de vontade de uma parte contra as outras.

Os tempos benignos das regras e regimes internacionais dos últimos 30 anos já acabaram há muito tempo. Agora parece que chegou a hora de retomar o processo de "queda de braço" para afirmar os próprios interesses e estabelecer regras sensatas para a ordem global. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Ando com vontade de construir um muro à prova de textões que são a derrota do iluminismo

“Não se deixe distrair. Não se deixe perturbar. Não fique paralisado, nem seja engolido pelo caos que o presidente Trump e seus aliados têm propositalmente criado com a quantidade e a velocidade das ordens executivas; pelo esforço em desmantelar o governo federal; pelos ataques performáticos aos imigrantes, às pessoas trans e ao próprio conceito de diversidade; pela exigência de que os demais países aceitem os Estados Unidos como seus senhores; e pela sensação vertiginosa de que a Casa Branca pode dizer ou fazer qualquer coisa a qualquer momento. O objetivo disso tudo é manter o país na defensiva para que o presidente Trump possa seguir adiante na sua busca pelo máximo poder executivo, e para que ninguém possa deter a agenda audaciosa, equivocada e frequentemente ilegal promovida pela sua administração. Pelo amor de Deus, não desligue.”

Esta foi a abertura do principal editorial do The New York Times do sábado passado. Se parece alarmista, é porque é mesmo; e ainda é pouco diante do que está acontecendo lá em cima.

Eu li e achei que era comigo. Eu sou essa pessoa que está farta, que não aguenta mais o ritmo e o caráter dos acontecimentos, que quer distância do mundo e quer se desligar de tudo — não só do governo Trump e de suas consequências, mas também, e sobretudo, do que acontece no Brasil, onde a cada segundo dia o governo faz alguma coisa para botar mais lenha na fogueira e onde o nível de ódio das redes sociais está chegando ao limite do insuportável.

Aliás: é curioso observar que o ódio, nas redes sociais, atende por hate.

O hate tem um ar de bom moço que o ódio não tem; o hate é chique, o hate permite que os haters possam manter uma distância conveniente do seu próprio veneno e não precisem encarar o fato desabonador de que são pessoas odiosas. Hate dá muito engajamento.

“Eu sou contra linchamento” escrevem os alecrins dourados — e tome hate hate hate, lincha lincha lincha. Essa semana sobrou até para uma xícara da Tania Bulhões, primeiro caso de porcelana cancelada de que tenho notícia.

O New York Times tem razão quando implora aos leitores que não desliguem, porque o mal vence habitualmente pelo cansaço; mas é difícil manter a guarda. Não há Rivotril que baste para quem quer pensar fora da caixa ou remar contra a maré num mundo em que apenas acompanhar o noticiário, em silêncio, já tem um custo emocional tão alto.

Ando com vontade de seguir o ideário do próprio Trump e de construir um muro de todo o tamanho. Não em concreto, óbvio, até porque a decoração da casa não comporta essas coisas, mas um bom muro metafórico à prova de notificações, tuítes, textões e vídeos virais de cinco segundos que são a derrota do iluminismo.

Ou talvez quem sabe a solução seja uma abordagem mais enxuta. Em vez de tentar acompanhar o caos, posso me disciplinar e tentar me dedicar a uma única treta por semana, como quem assina um serviço de streaming, mas só vê uma série de cada vez para não se perder. Uma desgraça por dia, sem maratonas. E, nos fins de semana, só programação leve — um escândalo político do outro lado do mundo, um barraco entre celebridades, uma treta gourmet envolvendo quibe de jaca ou pão de fermentação natural.

Cadê aquela xícara?
Cora Rónai

Se alguém não deve 'esquecer nem perdoar', são os palestinos

Uma imagem vale mais que mil palavras: Centenas de detentos e prisioneiros palestinos que foram soltos no sábado são vistos de joelhos, na prisão, vestindo camisetas brancas com uma Estrela de Davi azul e as palavras "não esqueceremos nem perdoaremos". Israel, portanto, os forçou a se tornarem bandeiras ambulantes do sionismo em sua forma mais desprezível. Na semana passada, foram pulseiras com uma mensagem semelhante: "O 'povo eterno' nunca esquece".

Gideão Levy

Em tempos de intolerância, a palavra não oficial é vista como ameaça

Sábado, 23 de junho de 1934. O telefone toca na casa do poeta Bóris Pasternak em Moscou. É a secretária de Josef Stálin, líder supremo da União Soviética pós-revolucionária. O camarada queria dar uma palavrinha. A histórica ligação registrada pela KGB durou cerca de três minutos, e as perguntas formuladas por Stálin vieram de chofre, sem introito:

— O que você acha de Mandelstam?

— O que se fala sobre a prisão dele nos círculos literários?

Stálin se referia à detenção, um mês antes, do também poeta Osip Mandelstam. Autor de um ácido poema contra o líder, Mandelstam o recitara privadamente para um grupo de 14 intelectuais amigos — entre eles, Pasternak. Este último admirava o colega modernista, porém considerava desnecessária e perigosa para todos a crítica a Stálin. Pego de surpresa, o autor de “Doutor Jivago” e posteriormente Nobel de Literatura (1958) conseguiu apenas articular uma resposta genérica sobre o estilo literário de cada um, resposta essa de que se arrependeria o resto da vida:

— Nós somos diferentes, Camarada Stalin. Ele é modernista, enquanto eu sou de outra tendência. Nada posso lhe dizer sobre Mandelstam — respondeu.

— Só isso? Esse é o máximo de lealdade que você demonstra a um amigo? Você é um péssimo camarada, Camarada Pasternak — retorquiu Stálin antes de desligar.

O escritor ainda tentou se reconectar com o ditador para fazer reparos. Em vão. Stálin perdera interesse. Já sabia o que queria. Ademais, o número de telefone criado pela KGB para essa única chamada já não mais existia.

Esse é o tema do livro “Um ditador na linha” (Cia. das Letras, 2024), em que o autor albanês Ismail Kadaré analisa múltiplas versões do telefonema para refletir sobre a relação entre poder e política, totalitarismo e liberdade de expressão, ditador e poeta. Além da fonte primária — a gravação feita pela KGB —, existem outras 12 versões baseadas na memória do que intelectuais russos da época — como Anna Akhmátova, Ilya Ehrenburg e Isaiah Berlin — ouviram do próprio Pasternak.


Por que evocar esse episódio agora? Porque os tempos andam bicudos, e nunca é demais lembrar quanto o mundo atual precisa de um mínimo de retidão moral e intelectual de cada bípede capaz de pensar para além do próprio nariz. No auge da Segunda Guerra Mundial, o escritor americano John Steinbeck garantia a seu editor que todas as bondades e heroísmos do mundo haveriam de ressurgir, apenas para ser novamente derrotados. “Não é que o mal vá vencer”, escreveu ele. “Isso nunca acontecerá, o mal apenas não morre.”

Em tempos de intolerância galopante, a palavra não oficial (seja ela falada, escrita, cantada ou pensada) é vista como ameaça. E, uma vez farejada, é preciso higienizá-la, por subversiva. Levantamento recente do jornal The Washington Post detectou 662 exemplos de alteração no vocabulário de 14 agências federais sob Donald Trump, alterando a comunicação em 8 mil sites do governo. A palavra “diversidade” foi banida, não terá substituto, na esperança, talvez, de assim fazer desaparecer também a comunidade LGBT+, as diferenças de gênero, raça e cor. “Mudança climática” agora atende pelo nome de “resiliência climática”. “Direitos Humanos”, “aumento de desigualdades”, “promoção de justiça social” ou “violação de direitos civis” já estão na linha de tiro. O ideal imaginado de uma América grande, branca e macho?

Já se escreveu aqui que palavras são acontecimentos, elas fazem coisas, mudam coisas, transformam tanto quem as pronuncia como quem as ouve. Governos autoritários ao longo da História sempre procuraram encurtar o vocabulário oficial, simplificar ao máximo as palavras de ordem, os diktats, ucasses ou as ordens executivas de agora.

Em seu livro sobre a emergência de novos autocratas (“Autocracia, Inc.”), a jornalista Anne Applebaum cita um memorando interno do Partido Comunista Chinês intitulado “Sobre o estado atual da esfera ideológica”. O documento de 2013 listava os principais perigos a ser enfrentados pelo presidente Xi Jinping. No topo da lista vinha a “democracia constitucional ocidental”, seguida por “direitos humanos universais”, “independência da mídia”, “independência judicial” e “participação cívica”.

Passados 15 anos desde a circulação desse documento, a China de Xi Jinping já pode se concentrar noutras preocupações, pois, na toada atual, é o próprio Trump que parece estar empenhado em enterrar a democracia constitucional tal qual a conhecemos.

O amanhã dessa distopia em curso nos foi exibido dias atrás em cena no Salão Oval da Casa Branca. De pé e à vontade, envergando boné, capote preto e camiseta, estava a criatura Elon Musk, centro das atenções. Vez por outra ele levantava do chão sua indócil cria de 4 anos, cujo nome de batismo é X Æ A-12, para acomodá-lo nos ombros. Sentado e algo acabrunhado estava o 47º presidente dos Estados Unidos. Novos tempos.
Dorrit Harazim

Cápsula do tempo encontrada no planeta morto


Na primeira era, criamos deuses. Esculpimos-os em madeira; ainda havia madeira naquela época. Forjamos-os em metais brilhantes e os pintamos nas paredes dos templos. Eram deuses de muitos tipos, e deusas também. Às vezes eram cruéis e bebiam nosso sangue, mas também nos davam chuva e sol, ventos favoráveis, boas colheitas, animais férteis, muitos filhos. Um milhão de pássaros voavam sobre nós então, um milhão de peixes nadavam em nossos mares.

Nossos deuses tinham chifres em suas cabeças, ou luas, ou barbatanas, ou bicos de águia. Nós os chamávamos de Onipotentes, nós os chamávamos de Brilhante. Sabíamos que não éramos órfãos. Sentíamos o cheiro da terra e rolávamos nela; seus sucos corriam por nossos queixos.

2. Na segunda era, criamos o dinheiro. Esse dinheiro também era feito de metais brilhantes. Tinha duas faces: de um lado, uma cabeça decepada, a de um rei ou outra pessoa notável, do outro lado, algo mais, algo que nos daria conforto: um pássaro, um peixe, um animal peludo. Isso era tudo o que restava de nossos antigos deuses. O dinheiro era pequeno, e cada um de nós carregava um pouco dele todos os dias, o mais próximo possível da pele. Não podíamos comer esse dinheiro, usá-lo ou queimá-lo para nos aquecer; mas como que por mágica, ele podia ser transformado em tais coisas. O dinheiro era misterioso, e o admirávamos. Se você tivesse o suficiente, diziam, você seria capaz de voar.
Margaret Atwood

Dois em cada três israelitas abraçam a limpeza étnica. Pelo menos. Que fará a Europa?

Trump tirou a limpeza étnica do armário mal chegou à Casa Branca, e Israel está com ele. Não só Netanyahu, os seus avatares de extrema-direita e o espectro partidário em geral, mas também dois terços ou mais dos israelitas. É o que dizem as sondagens depois de o Presidente dos EUA anunciar uma “Riviera do Médio Oriente”, com a remoção dos palestinos de Gaza para sempre.

Na pesquisa do Canal 12 da TV israelita, 69% dos cidadãos apoiam o plano (apenas 18% se opõem a ele, 13% estão indecisos). Na pesquisa do Canal 13, o apoio é de 72%. Na pesquisa do Canal 14, sobe para 76%. Não há notícia de políticos israelitas se oporem. Até entre opositores do governo, o “plano” de Trump foi descrito como “interessante” ou “fora da caixa”. Esbarrei no título de um deputado (do Likud de Netanyahu) que seria contra realojar os palestinos no Egito e na Jordânia. Corri a ler: era contra realojar os palestinos… tão perto. Claro que entre a Groelândia e Elon Musk o céu não é o limite, vi até um cartoon com o foguetão a postos. Mas ainda nenhuma sondagem sobre Marte. Uma pesquisa do Jewish People Policy Institute pouco anterior à das TVs mostrou que 7 em cada 10 judeus israelitas querem “os árabes de Gaza realojados noutro país”. Aqui na Terra. Ainda.


Nos 80 anos da libertação de Auschwitz, o Estado fundado pelos sobreviventes do Holocausto apoia assim, largamente, a remoção de 2,3 milhões de palestinos. Chamando-lhe “emigração voluntária” ou “encorajamento à emigração”. Tal como chama “árabes” aos palestinos. Quando não “terroristas” ou “animais”.

Entretanto, nos EUA, 350 rabinos, intelectuais, artistas judeus compraram um anúncio de alto a baixo no New York Times de 13 de fevereiro: “Trump apelou à remoção de todos os palestinos de Gaza”, dizem em cima. Por baixo, uma caixa preta com grandes letras brancas a bold: “Judeus dizem NÃO à limpeza étnica!” E seis colunas de nomes (incluindo Naomi Klein, Tony Kushner, Joaquin Phoenix, Judith Butler). “O sonho de Hitler de tornar a Alemanha ‘Judenrein’, ‘limpa de judeus’ levou ao massacre do nosso povo”, resumiu o rabino Toba Spitzer. “Sabemos tão bem como qualquer pessoa a violência a que este tipo de fantasias leva.”

Onde está o anúncio equivalente em Israel? Onde estão os rabinos, os intelectuais, os artistas? E os médicos, os professores, os estudantes, os jovens, na sua grande maioria? Os letrados de Israel na mesma semana em que seis polícias de Jerusalém que não falavam inglês nem árabe fizeram um raide em duas lojas da Educational Bookshop, a mais amada livraria de Jerusalém Oriental Ocupada, onde, tal como milhares de leitores de todo o mundo, comprei incontáveis livros. E não só os polícias confiscaram mais de 100 livros em árabe ou inglês apenas porque tinham algum sinal da Palestina, como prenderam os irmãos livreiros Ahmed e Mahmoud Muna e fizeram-nos penar duas noites numa cadeia suja, apesar de uma multidão ter acorrido em protesto, incluindo diplomatas, e os israelitas (incluindo alguns na imprensa) que se tornaram menos do que uma minoria: a excepção.

Ali, aos pés das muralhas de Jerusalém, esse raide de domingo foi literalmente a polícia do Povo do Livro a atacar livros, vários espezinhados pelo chão. O que se segue? As brigadas do Fahrenheit 451? Fogueiras? Onde está o povo que durante séculos confiou nos livros o futuro, lendo-os, escrevendo-os? Que confiou neles para não morrer.

Eu tinha visto, não muito antes, o vídeo de uma biblioteca pública em Gaza destruída pelas bombas. Livros que se retiravam como pedaços de estuque, irreconhecíveis. Trazidos pouco a pouco por Mosab Abu Toha, um poeta que saiu de Gaza há meses e tem sido a (rara) voz palestina nas páginas da New Yorker, além dos poemas que publicou. Uma confiança na poesia, dita e escrita, e nos livros em geral, que vem das mais antigas tradições árabes e acompanha os palestinos como nunca desde a Nakba de 1948. Desde que isso se tornou parte da resistência: uma forma de estar vivo que não acaba.
Alexandra Lucas Coelho

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Matéria de que se faz democracia

Com um livro de memórias, Bill Gates vem a público para se dizer surpreso com a fragilidade da democracia norte-americana. Achava que fosse condição possível a qualquer país do mundo, menos ao seu. A declaração é de uma candura também surpreendente, vinda do bilionário, filantropo, fundador da Microsoft, alinhado entre os homens mais influentes do século. Mas relevante, porque espelha o sentimento de metade das pessoas que não votaram na ameaça a essa democracia. Inaugura a preocupação dos americanos de bom senso com a sua própria estabilidade institucional.


Um caminho simples para se compreender a cândida confiança nos alicerces democráticos da América é recorrer ao modo como isso é figurado no imaginário, matriz de crenças e convicções arraigadas. Com este foco, vale rever dramatizações de júris no cinema para identificar sketches ideológicos da democracia liberal em que a verdade na balança da Justiça parece transparecer na argumentação igualitária dos advogados, ponderada pelo juiz. Mas uma lógica utilitarista de negócios orienta (nos acordos) a redução de sentenças. E a garantia última de justiça é a Constituição, ratificada pela Bíblia. O "grand jury", tribunal de instrução, é um teatro ideológico, que faz igualdade, princípio ético constitucional, equivaler politicamente a liberdade, embora sejam conceitos diferentes.

A crer na encenação hollywoodiana, é nas delegacias e nos tribunais que se visibiliza a essência da república, uma igualdade pró-forma, cúmplice da escravidão e da discriminação dos não brancos, encoberta pela potência material. Já em 1938, Roosevelt temia: "Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país". Ou seja, o fascismo sempre esteve latente no senso comum.

Por isso, cresceu, reinventando-se no neofascismo moldado pela IA. A democracia vendida ao resto do mundo, quando não imposta por força militar, é como o quadro falso de um pintor, sem potência própria, sustentando numa bolha de ar as ilusões da cidadania americana. Agora, sinais de algo errado. Parece ter chegado ao ponto de saturação a forma social que abrigava no formalismo igualitário a formatação do simulacro de liberdade.

Noam Chomsky e outros críticos argutos sempre suspeitaram da corrida desenfreada para os extremos como um modo de encadeamento de coisas que só pode resultar em acontecimentos fatais. A ragilidade percebida por Gates é a fatalidade de um modelo em declínio, não ainda o estertor, mas um índice de sua inanidade. Democracia já é palavra incômoda, assim como diversidade e direitos humanos.

Donald Trump emerge da fossa moral cavada pela saturação. Criatura tóxica, impregna, inundando, espaços vulneráveis, afinado com Steve Bannon, que autodefine o seu método como "flood the zone with shit", isto é, "inundar a área com merda". A proposição expõe o bombardeio circense de ondas escatológicas sobre os cérebros da "parte errante" da população, imigrantes não brancos, minorias em busca de voz pública. Um hipercirco a ser levado a sério: Trump não é mero palhaço, é um elefante "shitting" no picadeiro. A estratégia de Bannon soa definitiva: sua é a matéria em que se transforma a democracia americana.

A mentira é a base da civilização moderna

É na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se, como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc... A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.

Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.

A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensaguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. ...

E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os moujiks da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que só a gente sincera, inculta e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens moujiks? A enxada será irmã da pena? A fome de pão paracer-se-à com a fome de luz?...
Teixeira de Pascoaes, "A Saudade e o Saudosismo"

Suspensão da lei antissuborno dos EUA afeta América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu por 180 dias, para análise e possível modificação, uma lei que proíbe as empresas americanas de oferecerem propina a autoridades estrangeiras para obter acordos comerciais.

A Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA, na sigla em inglês) foi promulgada em 1977, após o escândalo de Watergate. Os EUA vêm aplicando-a vigorosamente contra o suborno há décadas.

A FCPA é fundamental, pois permite a investigação de corrupção em grandes grupos corporativos de todo o mundo que estão listados na bolsa de valores dos EUA, assim como em empresas que fazem negócios nos EUA e movimentam milhões de dólares.

"Os Estados Unidos têm uma aplicação de suas leis que frequentemente ultrapassa fronteiras devido ao seu papel na economia global e ao seu sistema bancário, onde é processado o maior número de transações do mundo", explica Cristián Francos, advogado de Washington especializado em anticorrupção e crimes financeiros complexos.

Francos menciona o caráter "exemplar" da FCPA dos EUA para outros países.

Para o advogado, a suspensão da lei vai "na direção errada", já que isso deve ter como efeito colateral o enfraquecimento de práticas anticorrupção nos países latino-americanos. "Porque durante esse período não haveria investigações dos EUA contra empresas que oferecem subornos", diz. E ainda não se sabe quais serão as consequências de uma emenda à FCPA ou de seu completo revogamento, acrescenta.

"Mais de 40 países têm leis inspiradas na FCPA, e os EUA têm sido líderes nessa questão, de modo que a medida de Trump tem um forte caráter simbólico", ressalta Jonas von Hoffmann, cientista político e pesquisador do Instituto Alemão para Estudos Globais e Locais (Giga, na sigla em inglês) em Hamburgo.

Segundo ele, a suspensão parece indicar que, para Trump, "o principal compromisso é com os negócios e com a competitividade dos Estados Unidos, e não com o combate à corrupção ou o fortalecimento do Estado de Direito".

"Essa lei é uma ferramenta central na luta contra o suborno transnacional, com um enorme impacto em todo o mundo. É uma lei que tem contribuído para promover um clima de maior integridade nos negócios, concorrência leal, e exerce um poder dissuasivo quando uma empresa cogita pagar um suborno", diz Luciana Torchiaro, responsável da Transparência Internacional para a América Latina e o Caribe. "Isso pode afetar a integridade geral dos negócios na região, desincentivando empresas e indivíduos a se comportarem de maneira ética", acrescenta.

Por outro lado, Francos enfatiza que "a lei não tem apenas um impacto muito positivo para as empresas dos EUA, mas também para as multinacionais de outros países".

Ele menciona o "caso emblemático" da Siemens, acusada de pagar bilhões em subornos no Brasil, na Argentina e no México. "Após uma investigação minuciosa do Departamento de Justiça, juntamente com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), foram detectadas práticas corruptas da Siemens em dezenas de países", lembra. A empresa acabou tendo que pagar altas multas.

Mais recentemente, o caso Odebrecht abalou a América Latina. A construtora brasileira pagou milhões de dólares a 12 governos latino-americanos para ganhar contratos de obras públicas, o que envolveu políticos e empresários, num esquema desvendado pela Operação Lava Jato.

"Tanto a Siemens quanto a Odebrecht tiveram que se submeter à lei americana", enfatiza Francos. "Porque havia algum ponto de conexão com os Estados Unidos."

Von Hoffmann lembra ainda que "grande parte das informações que temos sobre o quão sistemático foi o esquema de subornos no caso Odebrecht e quanto foi pago em cada país vem do julgamento da Odebrecht nos EUA".
Mais corrupção, mais violência e menos direitos humanos

"O impacto que o cancelamento dessa lei teria é muito grande, pois quando uma empresa paga propina, é para obter favores políticos ou um contrato; sem passar, por exemplo, por um processo de licitação ou controle ambiental", afirma Torchiaro. "Isso pode ter um impacto enorme sobre os direitos humanos, como vimos no caso da Odebrecht. No final das contas, as obras de infraestrutura que não são construídas, ou que são de má qualidade, afetam a todos e têm consequências ambientais drásticas", enfatiza.

"Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru apresentam baixa conformidade quando se trata de investigar e punir o suborno. E no caso do México, a conformidade é muito escassa", diz Torchiaro.

Francos explica que "historicamente, a FCPA foi aplicada, nos casos mais importantes, a empresas não americanas, e não foram as empresas americanas que perderam dinheiro, como Trump justifica a suspensão da lei".

Embora as leis anticorrupção na América Latina "continuem a ser aplicadas", von Hoffmann esclarece que "os recursos dos EUA têm sido frequentemente fundamentais para aumentar a eficácia da luta contra a corrupção".

"Se essa lei for cancelada, isso teria consequências muito graves para os cidadãos da América Latina e do mundo, pois aumentaria a corrupção na região", enfatiza Torchiaro. Isso poderia até colocar em risco a estabilidade internacional, prevê ela, citando um comunicado da Transparência Internacional publicado na terça-feira.

O motivo: "Países onde o nível de corrupção é mais alto tendem a ter mais conflitos, mais violência". Além disso, "o aumento do suborno transnacional incentivará os fluxos financeiros ilícitos, dinheiro sujo que não será investido na solução dos problemas das pessoas e enriquecerá alguns poucos".
"Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei"

De acordo com von Hoffmann, essa suspensão "abre a porta para o uso discricionário da lei, que é algo infelizmente muito conhecido na América Latina: 'Para meus amigos, tudo; para meus inimigos, a lei'".

"Acho que muitas das coisas que Trump está tentando fazer são imediatas e temporárias, e teremos que ver o quanto disso se manterá nos tribunais", avalia o advogado Francos. "Os EUA têm um sistema muito bom de freios e contrapesos, e espero que eles continuem funcionando."

Embora seja uma alternativa menos vinculante, "o cumprimento efetivo da Convenção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contra o suborno transnacional pelos países signatários poderia ser um vetor para mitigar os efeitos de um possível cancelamento dessa lei dos EUA", sugere Torchiaro.

Onde está a revolução de que a educação brasileira precisa?

O governo acendeu uma fagulha de esperança com o programa Mais Professores para o Brasil e seu Pé-de-Meia Licenciaturas. A iniciativa, que injeta R$ 1.050 mensais em bolsas para futuros docentes, fez brilhar os olhos até dos mais céticos. Afinal, incentivar uma nova geração de professores é semear o futuro. Mas, como todo remendo em políticas compensatórias, há contradições que não podemos ignorar.

Em sala de aula, discutimos o Consenso de Washington e seu legado neoliberal, ainda vivo nas entranhas de programas sociais brasileiros. Chegamos a um entendimento comum de que a educação brasileira vive um ciclo de traumas. Este ciclo ocorre quando não se abordam problemas com a devida seriedade. Lembrando Freud, os traumas não tratados tendem a ressurgir.

O Pé-de-Meia surge como um analgésico, mas a pergunta que ecoa entre graduandos é incômoda: "E depois da formatura haverá vagas?". O medo da insegurança profissional persiste. Quando o Estado garantirá, de fato, estabilidade e valorização à carreira docente?


Uma colega de profissão, professora do ensino médio, compartilhou algo que me encheu o peito de alegria: seus alunos planejam usar o "pé-de-meia" para visitar museus. Imagine! Jovens enxergando na bolsa não só um alívio imediato, mas um passaporte para o capital cultural. Durante anos, sonhei com iniciativas assim – que transformassem o acesso à cultura num ato coletivo, não em privilégio de poucos.

Mas a realidade é ácida. Muitos docentes, mesmo com mestrado ou doutorado, não têm recursos para explorar exposições, teatros ou viagens pedagógicas.

Um professor que pisa no lugar histórico sobre o qual ensina há décadas, mas que viu apenas em livros e vídeos, vive uma emoção indescritível. Seu coração palpita, a aula ganha alma. A tecnoglobalização até nos permite "viajar" virtualmente, mas nada substitui a presença diante de um monumento antigo ou o silêncio reverente de um museu.

Aos meus alunos e futuros colegas, digo: se a bolsa chegar, invistam em livros, em experiências que alimentem a mente. O dinheiro é ponte, não destino. Nem tudo precisa ser "instagramável".

O Estado, porém, precisa ir além. Políticas paliativas não bastam. É urgente um projeto que una incentivo financeiro, garantia de carreira e acesso irrestrito à cultura.

Assim, aos meus estimados milhares de colegas da docência, mesmo que nunca os venha a conhecer pessoalmente, desejo que não enfrentem as estatísticas desalentadoras como as do estado de São Paulo, onde a predominância de professores temporários supera a de efetivos.

Enquanto isso, sigo esperançoso. Cada aluno que planeja uma excursão cultural, cada licenciando que sonha em transformar vidas, me lembra que a educação ainda pulsa. Resta ao poder público priorizar o humano em meio aos números. A hora é agora – antes que a esperança vire só nostalgia.

Já não se pode dizer nada

“Sinto-me livre. Já podemos dizer ‘retardado’ e ‘maricas’ sem medo de sermos cancelados. É um novo dia.”

As palavras de um banqueiro de topo, sob anonimato, ao Financial Times em vésperas do regresso de Donald Trump à Casa Branca, resumem bem o estado do debate público sobre a liberdade de expressão nos Estados Unidos.

Sempre foi possível dizer e escrever disparates neste país onde a liberdade para o fazer quase não conhece limites. Junto às caixas de supermercado, revistas como a Globe fazem capa com histórias completamente inventadas (Sabia que a rainha Camila está internada numa clínica de reabilitação para alcoólicos? E que Barack Obama está a divorciar-se de Michelle?). Na internet, redes sociais como o X tornaram o insulto numa profissão bem remunerada. Na política, é-se eleito com um chorrilho de mentiras.

Mas até nos EUA há limites, claro. Alex Jones foi à falência, condenado por difamação, depois de ter feito uma fortuna a negar a morte das crianças assassinadas em Sandy Hook. Esses limites são tênues, contudo. Trump voltou a ser Presidente depois de ter incitado uma multidão a atacar o Capitólio. E é possível marchar no centro de uma cidade norte-americana, de braço em riste e empunhando uma bandeira nazi, porque é visto como um exercício de liberdade política. E nem as arcaicas leis anti-obscenidade, raramente invocadas, impedem os EUA de ser o grande produtor e distribuidor mundial de pornografia.


É possível dizer e escrever quase tudo nos EUA, portanto. O que sempre houve, e continuará a haver, são as consequências sociais do que se diz e escreve. É possível insultar um colega de trabalho? Sim, mas a insubordinação e a hostilidade no local de trabalho são motivos universalmente aceites para despedimento. Pode-se contar uma piada racista entre amigos? Sim, mas não se estranhe se um deles deixar de recebê-lo em casa.

Isto sempre foi claro para quem quis perceber. Quem não quis, cavalgou durante a última década e meia o pânico moral do “já não se pode dizer nada”, da “cultura do cancelamento” e da “ditadura do politicamente correto”. Mas os seus grandes mártires sobreviveram e prosperaram. Humoristas supostamente “cancelados” acumularam fortunas e especiais na Netflix. Comentadores de outro modo irrelevantes construíram carreiras mediáticas. E políticos marginais alcançaram o centro do poder.

O “já não se pode dizer nada” foi um dos chavões do populismo contemporâneo que devolveu Trump à Casa Branca, sobretudo com a promessa de combate a restrições à liberdade de expressão nas redes sociais. O assunto merecia um debate adulto e civilizado. Quase todos os espaços, digitais ou físicos, têm exigências mínimas de civilidade. O diabo está nos detalhes, no que constitui essa exigência mínima, na obtenção de um equilíbrio aceitável entre a liberdade e a civilidade. Mas esses espaços devem também ter a liberdade de fazer essa sua reflexão e tomar as suas decisões.

No caso norte-americano, surge um equívoco recorrente quando se fala disto e é importante esclarecê-lo: a famosa Primeira Emenda da Constituição impede o Estado de restringir a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de culto e de participação política; não impede uma rede social de criar as suas próprias regras.

Paradoxalmente, mas sem grande surpresa para quem quis perceber o que sempre esteve em causa, é a Administração Trump que viola neste momento, e em múltiplas frentes, a Primeira Emenda.

O Governo norte-americano proíbe agora a utilização de um vasto conjunto de palavras nos seus sites e documentos, nas escolas e instituições financiadas pelo Estado, nas Forças Armadas, bem como nas candidaturas a verbas para investigação científica, para organizações não-governamentais ou para programas de assistência humanitária. Palavras como “transgénero”, “diversidade”, “desinformação”, “ativismo”, “institucional”, “racismo” ou “género” são algumas que entram em listas negras com dezenas ou centenas de vocábulos.

As listas de palavras proibidas evidenciam flagrantemente o seu propósito: proibir certos tipos de discursos e de atividades conotados com agendas progressistas. Mas acabam por gerar danos colaterais: termos que têm significados muito concretos nas ciências exatas e que não são correspondentes ao seu uso quotidiano, como “viés”, também podem motivar ações disciplinares ou o cancelamento de verbas.

A purga de palavras é também um instrumento na estratégia mais vasta de Donald Trump e de Elon Musk para reconstruir o Estado à imagem da sua agenda e dos seus interesses. Todo o trabalho de vastíssimas áreas da administração federal, da educação à ciência, passando pela ajuda humanitária ou pela regulação de produtos financeiros, encontra-se paralisado há quase um mês enquanto milhares de programas e iniciativas são passados à lupa, em busca de termos proibidos. Encerram-se agências, gabinetes e projetos. Suspendem-se e despedem-se funcionários. Rasgam-se contratos e congelam-se milhares de milhões de dólares em fundos devidamente aprovados pelo Congresso. Apagam-se arquivos valiosíssimos.

O direito à autodeterminação de gênero está agora largamente proibido nas Forças Armadas, na administração pública e nas escolas financiadas pelo Estado. Ninguém era antes obrigado a usar pronomes neutros; agora ninguém pode fazê-lo. Teme-se ainda que as tais leis arcaicas contra conteúdo obsceno venham a ser reinterpretadas e recuperadas para restringir o acesso ao aborto a nível federal e para criminalizar qualquer expressão pública por parte de indivíduos LGBTQ. Parece rebuscado, mas é uma estratégia que começa a fazer caminho nos tribunais, e é um assunto a que voltarei nos próximos meses.

A Administração Trump viola também a Primeira Emenda ao atacar e punir jornalistas por fazerem o seu trabalho. A agência noticiosa Associated Press foi esta semana expulsa da Sala Oval e de outros espaços da Casa Branca por ter optado por continuar a referir-se ao golfo do México como tal, e não como “golfo da América”, como Trump desejaria. Um artigo de opinião em tom crítico assinado por Eugene Robinson no Washington Post valeu uma publicação do Presidente nas redes sociais a dizer que o colunista “devia ser despedido imediatamente”. Katherine Long, do Wall Street Journal, foi também alvo do mesmo apelo, e de insultos pessoais, por ter revelado que um dos membros do gabinete de Elon Musk era autor de publicações racistas.

No Congresso, o Partido Republicano prepara comissões de inquérito a órgãos de comunicação social que Trump associa à oposição, como as cadeias públicas NPR e PBS. Televisões como a CBS, a NBC e a ABC vão ser investigadas pela Comissão Federal de Comunicações por queixas de cobertura desfavorável aos republicanos durante a última campanha eleitoral. Em alguns casos, as respectivas administrações aceitaram já celebrar acordos extrajudiciais multimilionários, mesmo que os seus jornalistas reiterem que fizeram apenas o seu trabalho.

Estes, sim, são exemplos reais de policiamento de palavras e de restrição, pelo Estado, da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa.

Os Estados Unidos estão a terminar a quarta semana do segundo mandato de Trump e têm pela frente outros quatro anos. Não sairão tão cedo da armadilha em que entraram, atrás do “já não se pode dizer nada”. Mas talvez sirvam de aviso aos que, fora das suas fronteiras, se preocupam verdadeiramente com a liberdade. Serão os mesmos que passaram a última década a vociferar contra o “wokismo” e o “politicamente correto” que, curiosamente, nunca os impediu de escrever e falar? Não é claro. De momento, parecem preferir exercer o seu direito ao silêncio.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Pensamento do Dia

 


Trump x Trans

O déspota americano Donald Trump proibiu as atletas trans de competirem nas categorias femininas dentro dos EUA. As entidades de direitos civis já protestaram e os órgãos internacionais do esporte também. Se cada país tiver regras próprias não será possível haver eventos como a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos —que, não por acaso, terão suas próximas versões sediadas nos EUA. Trump não quer saber da possibilidade de elas serem transferidas ou de os EUA serem banidos das competições. Confia em seu bullying à base de murros e ofensas.


Mas, nesta, ele pode se dar mal. A perseguição aos trans ameaça atingir uma instituição cara ao povo americano: a vida íntima de alguns de seus amados heróis dos quadrinhos e do cinema. Durante décadas, eles exerceram uma sexualidade ambígua, que as pessoas desconheciam. Com a estupidez de Trump, no entanto, ela pode sair do armário, e já não será sem tempo.

Quem diria, por exemplo, que Minnie Mouse, a rata de Walt Disney, é Mickey Mouse em travesti? É só observar: Minnie é Mickey de vestido de bolinhas, fita no cabelo e cílios postiços. As luvas de ambos têm quatro dedos e eles nunca aparecem juntos no mesmo quadrinho. E se o pato Donald não for um pato, mas um marreco, e, aliás, uma... marreca? Os patos têm uma membrana vermelha no bico, que Donald não tem. E só as marrecas têm aquele rabicho ondulante de Donald. Como se explica?

Fácil. Nos anos 1940, Walt era detestado pelos empregados de seu estúdio. Mau patrão, recusava-se a dar o crédito aos verdadeiros criadores de seus personagens para que todos pensassem que era ele quem os desenhava. O Mickey travesti pode ter sido uma vingança de seu desenhista, Ub Iwerks; o Donald-marreca, de Carl Barks.

E a Chita do Tarzan? O personagem era fêmea, mas o macaco-ator era macho. O bravo Rin-Tin-Tin era uma cadela e a doce Lassie, um cachorro. O que dirá o transfóbico Trump ao saber que Mickey, Minnie, Donald, Chita, Rin-Tin-Tin e Lassie pertencem ao grupo LGBTQIA+?

A estratégia de Trump é mais sistemática do que parece

Desde reformas radicais na imigração até o desmantelamento do Estado Profundo, Donald Trump busca transformar radicalmente os Estados Unidos sem se preocupar com oposição. Mas essa abordagem tem precedentes históricos, de acordo com o cientista político Thomas Greven, do Instituto Kennedy da Universidade Livre de Berlim, que a compara ao presidente Franklin D. Roosevelt e seu New Deal de 1933.

Roosevelt implementou uma enxurrada de leis e decretos para garantir que o governo federal liderasse a recuperação econômica, rompendo com as políticas de seus antecessores. Sua proposta enfrentou forte resistência da Suprema Corte, que bloqueou algumas de suas reformas.

Ao contrário de Roosevelt, Trump não enfrenta uma Suprema Corte hostil, tendo conseguido lotá-la de juízes conservadores que apoiam sua agenda. No entanto, o fator tempo é fundamental. Segundo Greven, Trump tem dois anos para implementar mudanças profundas antes das próximas eleições de meio de mandato. "Se as instituições democráticas continuarem a funcionar em 2026 ou 2028, é provável que haja uma correção, ou pelo menos a possibilidade de o eleitorado rejeitar sua agenda", prevê o cientista político.


Por enquanto, Trump tem forte apoio popular, beneficiando-se do desencanto com a democracia, um fenômeno que Greven diz não ser exclusivo dos EUA. A frustração surge porque constituições, tribunais e burocracia limitam o espaço de manobra dos governos eleitos. "Estamos vendo um apoio crescente a um modelo de democracia hipermajoritária, onde as barreiras institucionais ao poder executivo (os chamados freios e contrapesos nos Estados Unidos) são eliminadas", disse Greven.

Segundo o especialista, Trump busca desmantelar os controles democráticos para estabelecer estruturas autoritárias. A questão é até que ponto isso será possível.

Para levar adiante sua agenda, Trump usa uma tática conhecida como "inundar a zona com merda", conforme definido por seu ex-assessor Steve Bannon. Consiste em saturar o espaço midiático com uma avalanche de anúncios, declarações e escândalos, dificultando a reação da oposição.

Diante dessa estratégia, os democratas optaram por não cair em todas as provocações de Trump e, em vez disso, concentrar seus esforços na arena judicial. "Os democratas decidiram não responder a todos os ataques, pois isso enfraqueceria sua estratégia. Em vez disso, eles estão confiando na justiça e em uma possível correção eleitoral em 2026", explica Greven.

Trump está apostando em decretos executivos maximalistas, que incluem cláusulas de salvaguarda para que, mesmo que algumas partes sejam derrubadas na justiça, o restante permaneça em vigor.

O presidente republicano está se concentrando nas prioridades clássicas do partido: reduzir a burocracia, endurecer as políticas de imigração e fortalecer o controle de fronteiras. O que não tem precedentes, no entanto, é o radicalismo com que ele tenta implementar essas mudanças.

Segundo Sascha Lohmann, especialista norte-americano da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, essa abordagem visa promover uma transformação estrutural do país. "Trump não quer apenas reformas, mas uma revolução reacionária que enfraqueça os mecanismos de controle democrático e estabeleça um sistema mais autoritário", alerta Lohmann.

O resultado da estratégia de Trump dependerá não apenas dos tribunais, mas também da dinâmica política dos próximos anos. Um exemplo semelhante ocorreu na França, quando o ex-presidente Nicolas Sarkozy lançou uma série de reformas simultâneas em 2007 para superar seus oponentes.

No entanto, a tática criou confusão e muitas reformas ficaram inacabadas ou foram revertidas. A questão é se a agenda de Trump seguirá o mesmo destino ou se alcançará uma transformação duradoura e estrutural da democracia americana.

Extrema-direita: o retorno ao neandertal

A atual ascensão dessa extrema direita troglodita mundo afora vem sendo explicada das mais diversas maneiras por cientistas políticos, economistas e sociólogos. De modo geral, alguns entendem que se trata de um processo cíclico normal na história, como se fosse um vaivém periódico de valores morais e políticos. Nesse caso, estaria acontecendo um retorno temporário do pensamento reacionário e autoritário em todos os estratos das sociedades humanas, espalhando-se por todos os cantos do planeta. Mas, com o tempo, passaria.

Outra hipótese frequentemente considerada é a de que o consumismo descontrolado, estimulado pelo capitalismo moderno, turbinado pelo uso das redes digitais sem fronteiras nem pudores, teria criado uma geração de pessoas fúteis, com princípios rasos e portadoras de uma espécie de conservadorismo anarquista. Essa geração, menos atenta à realidade, seria mais suscetível às ideias retrógradas da extrema direita que julgávamos superadas.


Já no campo da política conservadora tradicional há uma resistência à opinião comum de que essa extrema direita no estilo Trump e Bolsonaro seja farinha do mesmo saco que a direita histórica da francesa Marine Le Pen ou do Partido Novo aqui no Brasil, por exemplo. Ou seja, não misturar a direita limpinha com os seguidores do marketeiro Steve Benon e do astrólogo Olavo de Carvalho. Deixemos de fora o Javier Milei que parece ser um caso à parte, levando-se em conta uma certa sintomatologia que envolve as atitudes e gestos do argentino.

Contudo, para quem enxergar alguma semelhança entre essas lideranças desvairadas da direita de hoje em dia e os homens das cavernas, não seria exagero considerar uma possibilidade alternativa, com fundamentação antropológica. Estudos biológicos avançados detectaram recentemente que não existe homo sapiens puro entre nós, que somos humanos modernos! Ao mapearem a composição genética de fósseis humanos, cadáveres recentes e pessoas vivas de diferentes partes do mundo, os cientistas estão descobrindo que o tipo europeu, de pele branca, com olhos e cabelos claros, ainda preserva até 2% de DNA neandertal. Ou seja, quando o homo sapiens (o hominídeo mais desenvolvido) migrou da África para outras regiões, encontrou os neandertais que se originaram nas áreas mais geladas do planeta, como a Europa, e houve cruzamento entre as duas espécies.

Os neandertais eram mais fortes fisicamente do que o homo sapiens e, também, mais resistentes ao frio e às grandes altitudes. Porém, apesar de já disporem de algumas armas, ferramentas e vestuário rudimentar, a espécie neandertal pura foi extinta há uns 40 mil anos. O homo sapiens tinha maior sociabilidade, raciocínio mais complexo e maior resistência a determinadas doenças.

Sendo assim, no mais puro interesse da compreensão do atual cenário político mundial, e sem querer estimular nenhum tipo de supremacismo racial moreno (o que seria um racismo às avessas), fica aqui uma boa pergunta para os mais curiosos fazerem ao ChatGPT ou ao DeepSeek: Será que essas pessoas de mente pré-histórica, terraplanistas, antivacina, neofascistas, homofóbicas, misóginas e antidemocráticas estão nesse grupo de humanos brancos agalegados que detém maior percentual de DNA neandertal em sua genética? A questão é puramente científica.

Trump e os 12 trabalhos do autocrata

Não há receita rígida para desmontar a democracia. A ordem de fatores e a dose variam. Mas o roteiro contemporâneo combina 12 tarefas. Invariavelmente. Um programa de transferência de tecnologia da autocratização. Aqui um resumo temático.

1. O autocrata e o Povo. Induza confusão entre vitória eleitoral e mandato ilimitado. A identificação existencial entre povo genuíno e líder eleito apaga a distinção entre maiorias e minorias. Estas, ou se aliam, ou são excluídas. Não há diversidade: "povo" de um lado contra os moralmente depravados de outro.

2. O autocrata e a Verdade. Estigmatize e inviabilize instituições de produção de informação, ciência e imaginação crítica. Ataque universidades, vigie salas de aula, intimide cientistas, professores, jornalistas. Invoque intenções maliciosas no que fazem.


3. O autocrata e Deus. Explore o poder religioso. O líder não é só encarnação messiânica do povo, mas se relaciona com a vontade de Deus. De um Deus.

4. O autocrata e o Tempo. Administre a velocidade. Saiba os benefícios da tempestade ("shock and awe") e o momento de desacelerar. Alterne avalanche e calmaria para desnortear. Invente um passado e dali tire seu plano de futuro.

5. O autocrata e a Lei. Da lei se imponha como último intérprete. A linguagem jurídica oferece potente ferramenta de autolegitimação. Formal e informalmente, inunde cortes e as desafie a controlar seus atos ("shock and law"). Ignore ou desobedeça a ordens judiciais. Desgaste capital político de cortes e, na hora certa, capture juízes e juristas.

6. O autocrata e a Palavra. Bagunce a semântica, descole as palavras de seus conceitos enraizados. Torne as ideias de liberdade, democracia e direitos o seu contrário. Esvazie a possibilidade da comunicação a partir de conceitos compartilhados.

7. O autocrata e a Força. Demonstre ser um sujeito de força e explore a exibição de força. Militares, policiais e milícias sectárias são extensão de suas mãos. Infalíveis no combate a inimigos, não devem satisfação à lei, apenas à sua pessoa.

8. O autocrata e a Burocracia. Combata expertise e autonomia, rejeite atos de governo baseados em razão e evidência. Estigmatize burocratas profissionais e os substitua por lealistas e apologistas.

9. O autocrata e a Política. Quase todas as dimensões da vida devem se politizar. Combata instituição imparcial. Todo indivíduo e instituição deve assumir lado, critério primário de autoidentificação pública e privada.

10. O autocrata e o Poder Econômico. Não deixe de trazer a oligarquia para o governo.

11. O autocrata e o Estrangeiro. Em nome da soberania, rejeite governança supranacional dos direitos humanos, da segurança internacional, sanitária e climática. E se credencie no consórcio global contra a democracia.

12. O autocrata e inimigos imaginários. Fabrique pânico moral permanente e legitime violência contra os grupos mais vulneráveis. Associe imigrantes, transgêneros, negros, indígenas, militantes sociais ao crime.

Na mitologia grega, o rei Euristeu impôs 12 missões a Hércules. Tarefas como matar o leão de Nemeia e roubar o cinturão de Hipólita. Parecia impossível aos cientistas políticos da época. Hércules foi lá e fez.

Trump e Bolsonaro se familiarizaram com a cartilha no primeiro mandato. Trump veio mais afiado e bem assessorado para efetivá-la no segundo.

Inversão é uma força poderosa

Se você acha que o tema é pedante — afinal, sou cancelado em alguns lugares —, experimente vestir uma roupa pelo avesso. Faça como eu, que vesti uma suéter pelo avesso nos Estados Unidos, país onde o mind your own business (cuide-se e não me encha o saco!) é dominante, e um colega que jamais me dera um humilde “bom-dia” parou-me no corredor para a advertir-me que eu estava com a veste pelo avesso!

— Você deve estar só... — disse em seguida, com voz tranquilizadora porque sabia o que significava estar sem o outro que nos ama, ajuda e desentorta...


O pai de um amigo foi internado com ataque cardíaco. Aos 88 anos, ele sofre de Alzheimer e foi socorrido num hospital público desenhado para mal atender pobre e preto. Depois dos rituais que Erving Goffman chamou de degradação e despersonalização, ficou ansioso e agressivo. Quando arrancou os acessos colocados em seus braços e tentou fugir, pois imaginou que havia sido preso, foi preciso amarrá-lo na cama — o que, obviamente, confirmou sua fantasia. Fantasia que se explicava porque a internação é uma poderosa inversão. Exige o controle e a neutralização dos elos emocionais rotineiros, produzindo o mesmo sentimento de vestir uma roupa pelo avesso. Não é banal substituir pessoas amadas por médicos e enfermeiros impessoais, que olham a doença mais que o doente, numa — reitero — poderosa inversão. A doença, como certos rituais de passagem, nos leva a um comportamento invertido.

Agitadíssimo, o pai de meu amigo ficou por três dias na emergência tentando escapar e dando imenso “trabalho” à mulher e aos filhos. Mas, quando sua única filha veio substituir os irmãos, ela promoveu um drama e apaziguou as aflições do pai que se considerava prisioneiro. A moça não usou remédio ou oração. Usou um poderoso mecanismo ritual que sociólogos comparativos como Goffman, Turner e Lévi-Strauss conhecem e estudam: a inversão que usa o isolamento obrigatório como agente de mudança, cura e transformação.

Assim que chegou ao quarto, a filha comunicou ao aflito pai que ela — e não ele — era a doente aprisionada e ele o livre visitante!

— Veja, papai. Estou amarrada depois do tombo que tomei. Sou grata por ter você ao meu lado, cuidando de mim...

O poder dos avessos — triviais nos ritos de passagem e nos cerimoniais de reversão político-social como o carnaval, conforme estudei em meu livro “Carnavais, malandros e heróis”, de 1979 — serve como solução para estados de angústia ou perigo, como revelam a literatura, o drama e os ritos.

Assim foi a noite dessa família aqui em Niterói. O mundo, entretanto, treme com as inversões de Donald Trump. Como um poderoso bruxo autocrático ranzinza, ele focaliza o lado perigoso e ambíguo das trocas. Pois, como revelou Marcel Mauss, trocar implica três, e não apenas as duas fases de dar e receber. Na reciprocidade de que tanto se fala sem saber, trocas de todo tipo implicam dar, receber e retribuir. Essa é a base da solidariedade que, paradoxalmente, nos obriga a retribuir os favores e obséquios que formam as cordas mais profundas da vida social. Dar, receber e retribuir com justiça constituem o cerne das sociabilidades e dessas misteriosas imposições do todo sobre as partes; da moralidade, do bem-estar e daquilo que chamamos de paz sobre a ansiedade, o primitivismo e a arrogância. Esses valores têm caracterizado as ações do presidente americano.

A brutalidade irmã de sangue da burrice, prima da ignorância e mãe do narcisismo promove a regressão ao isolamento num planeta interligado que sofre os efeitos da hiperconectividade. Brincar de transformar comércio em guerra acaba em guerra.

No nosso Brasil, que os políticos e juristas recriam dia a dia, a maior, a mais visível e a mais rotineira inversão é ficar rico, poderoso, isento de cumprir leis, dedicando-se ao santificado projeto político de cuidar dos pobres.

Atitudes de Trump atingem os pilares da ordem internacional

Analistas da política norte-americana se esforçam para distinguir, na enxurrada de decretos executivos expelidos pelo presidente Donald Trump, o que é para valer e o que é apenas para obter —pela intimidação— acordos mais vantajosos.

Seja qual for a intenção, o desastre é monumental e fere não apenas os habitantes do país, cuja grandeza passada o novo ocupante da Casa Branca prometeu ressuscitar —seja lá o que ele quis dizer.

No plano externo, palavras e atos do presidente atingem igualmente pilares da chamada ordem internacional baseada em regras —ou ordem liberal. Obra lapidada do Ocidente democrático, depois da Segunda Guerra Mundial, seu objetivo era reduzir o risco de novos conflitos generalizados e estabelecer limites à pura política de poder e ao exercício da força bruta nas relações entre países. Além de buscar soluções negociadas para problemas que ignoram fronteiras ­—como a crise ambiental ou as pandemias. Seu instrumento foram os numerosos organismos e arranjos multilaterais que se multiplicaram em torno das Nações Unidas e de entidades como o FMI e o Banco Mundial.

Eis por que as primeiras decisões de política externa de Trump foram a retirada dos EUA do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde. O primeiro, a duras penas, visa construir um caminho comum para lidar com as mudanças climáticas. O segundo, integrado ao sistema da ONU, sempre ficou aquém dos desafios criados pelas epidemias globais e pela abissal desigualdade de recursos entre nações, malgrado sua gritante importância.

Logo a seguir vieram as decisões de retirar a América do Conselho de Direitos Humanos da ONU; do Tribunal Penal Internacional; e do Conselho Interamericano de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos). Sem dúvida, a parte mais vulnerável do sistema internacional baseado em regras, pelas dificuldades de fazer cada país cumprir suas decisões, esses organismos expressam também suas aspirações mais elevadas de um mundo respeitoso da dignidade das pessoas e da sua proteção contra toda forma de violência.

O abandono dessas organizações multilaterais soma-se aos golpes ao livre comércio, às ameaças de anexação de territórios, como a Groenlândia, ou de ocupação, como no monstruoso projeto para Gaza. Em conjunto, anunciam uma concepção que faz lembrar a política de áreas de influência e de equilíbrio de poder características das grandes potências europeias no século 19, às quais os estudiosos atribuem a instabilidade internacional que teria desembocado na Grande Guerra de 1914.

É obvio que, hoje, o mundo é outro e a existência mesma de entidades multilaterais é disso uma prova —e, felizmente, um obstáculo ao agressivo nacionalismo de Trump, que, de resto, também enfrentará resistências internas. Mas não há dúvida de que suas políticas de caos e destruição aumentam a crise pré-existente das regras do jogo internacional e o risco de catástrofes globais.

"O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros." A frase é do notável pensador italiano Antonio Gramsci, falecido em 1937 depois de oito anos nos cárceres fascistas. Nunca pareceu tão atual.

Maria Hermínia Tavares

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

A primeira coisa é entender o Trumpismo

Para entender o nosso presente, marcado pela onipresença do capitalismo de plataforma e avanços reacionários, 1979 é um ano essencial. Foi então que Margaret Thatcher venceu sua primeira eleição. Em 1979, também foi criada a primeira rede colaborativa de Internet. São dois fatos aparentemente não relacionados, mas extremamente úteis para abordar duas questões essenciais hoje, em meio ao advento do Trumpismo 2.0: diagnóstico e alternativas; reação e digitalização. Ou seja: a necessidade de caracterizar adequadamente nossos tempos e a tarefa igualmente necessária de imaginar alternativas.

Em 1979, o thatcherismo chegou ao poder, um marco eleitoral que abriu as portas para um mundo cujos vestígios agonizantes ainda habitamos. Em um ensaio publicado na época, intitulado O Grande Espetáculo da Direita , Stuart Hall abordou o estado de desorientação em que a esquerda britânica se encontrava diante da primeira tempestade neoliberal. Esse texto continha duas frases que, embora talvez óbvias, se colocam como guias estratégicos de enorme relevância: “se quisermos ser eficazes, isso só poderá ser feito com base numa análise rigorosa das coisas como elas são, não como gostaríamos que fossem”. Além disso, Hall observou, “devemos denunciar as satisfações obtidas pela aplicação de esquemas analíticos simplificadores a eventos complexos”. O fenômeno Thatcher foi além das coordenadas políticas até então vigentes: para enfrentá-lo, era necessário, antes de tudo, entender as razões mais profundas do seu sucesso.


Algo semelhante está acontecendo hoje com o trumpismo, a herança bastarda da Dama de Ferro. Durante seu surgimento, houve muitas análises focadas em notícias falsas e desinformação. Lutar contra Trump era, então, desmascarar a “pós-verdade” que ele trazia consigo . Pouco depois, analogias históricas comparando o movimento MAGA ao fascismo entre guerras começaram a ressurgir. Esses discursos retoricamente evocativos mostraram-se politicamente estéreis: os apelos ao combate ao fascismo não impediram o seu regresso; A proliferação da verificação de fatos e sua contrapartida — “os dados matam a narrativa”, gritavam em todos os lugares — dificilmente contribuíram para a resistência. Ninguém disse que seria fácil: em meados do século passado, Theodor Adorno já alertava para a natureza “intrinsecamente antiteórica” e ilusória da reação.

Agora, no início de um segundo governo Trump, o novo fetiche por análise está se mudando para o Vale do Silício. Hoje, entender os pontos fortes e as novidades do Trumpismo significa falar em “tecnocasta”, “broligarquia”, “tribunal tecnológico”. Não é uma mudança trivial, claro: a imagem dos grandes chefões da tecnologia na primeira fila da coroação de Trump constitui um salto qualitativo com consequências inegáveis. Agora, o desafio, como Hall estipulou, é focar em diagnósticos complexos que permitam estratégias eficazes, e nunca o contrário.

Na dimensão estritamente teórica, há muitas objeções à abordagem da tecnocasta e sua tese subjacente: a suposição de que já vivemos em uma realidade “tecno-feudal”, na qual grandes empresas de tecnologia, agindo como senhores feudais, acumulam poder e riqueza controlando informações e dados. Como Evgeny Morozov aponta, rotular essas corporações como rentistas ignora a dimensão produtiva e criativa de seus modelos de negócios. Além de simplista, essa visão nos concebe como “servos digitais”, desprovidos de agência ou capacidade de ação. Por outro lado, é essencial reconhecer o papel do Estado na ascensão dessas empresas: o iPhone ou o mecanismo de busca Google não existiriam sem o investimento estatal.

Mas não estou preocupado com a falta de rigor em si, com a auto referencialidade da teoria. Minha obsessão pelo diagnóstico, assim como a de Hall, é fundamental: entender bem Trump e seus acólitos não é um bem em si; é uma condição para a possibilidade de uma estratégia política que possa enfrentá-los. Se a abordagem das notícias falsas tivesse ajudado a diluir o fenômeno dos magnatas de Nova York, isso teria sido bem-vindo. Meu medo, então, é que encontremos subterfúgios estilísticos para ignorar o fato de que o trumpismo politiza e dá sentido a um mal-estar real. Ernst Bloch cunhou a ideia de “fraude de execução” para descrever o fascismo: era sua maneira de levar muito a sério os desejos e anseios que ele explorava, mesmo que não conseguisse fornecer uma solução. Não é muito diferente do que vemos hoje.

Na verdade, minhas dúvidas sobre a designação de “tecnocasta” são suspeitas sobre sua eficácia: concentrar o debate na figura de Elon Musk desativa a possibilidade de questionar o sistema que o gerou? Será que isso torna invisíveis outras características essenciais do novo trumpismo, como o retorno ao expansionismo territorial de outrora, a subordinação da Groenlândia, do Panamá, do Canadá e até de Gaza? Estamos diante de uma sucessão de falsas dicotomias? Acredito que essas são as perguntas que devemos nos fazer antes de confiar no discurso da “tecnocasta” como antídoto para Trump.

Também em 1979, a milhares de quilômetros de distância, dois estudantes da Duke University criaram a Usenet, a “Arpanet para os pobres”: uma estrutura descentralizada baseada em servidores distribuídos, que facilitava discussões temáticas abertas, promovia a livre troca de ideias, com acessibilidade e horizontalidade, sem algoritmos ou hierarquias empresariais. Este exemplo é relevante porque hoje, em meio à privatização e à captura oligárquica das redes sociais, carecemos de comunidades de software livre como a Usenet.

Assim, nosso contexto, além do necessário antagonismo com a oligarquia tecnológica, exige novas ideias, propostas e criatividade. Em um de seus últimos artigos, Marta Peirano destacou três palavras que deveríamos ouvir com mais frequência: infraestrutura pública digital. Promover uma arquitetura tecnológica à escala europeia permitiria colocar a inteligência artificial ao serviço do bem comum, melhorar os serviços públicos, garantir a transparência algorítmica e ter voz própria num quadro geopolítico turbulento. Também deveríamos falar mais sobre como tornar redes horizontais como Bluesky ou Mastodon, as melhores alternativas ao X, mais parecidas com a Usenet; para evitar a sua ensitificação —a sua deterioração gradual, a sua conquista pelos trolls— .

Essas conversas já estão acontecendo. Em uma entrevista recente, Sam Altman, criador do ChatGPT, afirmou que “toda a estrutura social estará aberta ao debate e à reconfiguração”, prescrevendo “mudanças no contrato social”. Altman está certo. Este é o cerne da questão: reconstruir o contrato social diante da transformação digital e climática. A questão é, naturalmente, que direção essa remodelação toma: se ela aprofunda o desmantelamento oligárquico da nossa vida em comum; ou se a expande para democratizar todas as esferas da vida cotidiana, incluindo as redes sociais.

1979 marcou o início do mundo contemporâneo, com suas luzes —a promessa emancipatória da Internet— e suas muitas sombras —o primeiro triunfo do neoliberalismo—; um mundo que, em 2025, testemunhará seus últimos e agonizantes sofrimentos. Tenho plena consciência de que este texto suscita mais perguntas do que respostas, numa época em que a certeza é um desejo coletivo; Entretanto, como Hall demonstrou, a dúvida é a chave que abre a porta para todo o resto. Nossa tarefa agora é resistir às tentações retóricas, fazer as perguntas certas, construir ferramentas políticas eficazes e delinear horizontes desejáveis de transformação.
'

Cabeças no Congresso

Tem se fortalecido a ideia de que política é comunicação sem necessidade de conteúdo. O governo federal mudou o encarregado de sua comunicação sem qualquer reflexão sobre a falta de propostas novas e de alianças amplas. Outro exemplo de mudar a imagem sem mudar a substância foi cobrir os parlamentares com bonés para mostrar que cada um deles tem cabeça. Não houve esforço para que o sentimento de que faltam cabeças no Congresso fosse mudado graças a debates de ideias sobre os graves problemas que o país enfrenta.


Daqui a um mês, estaremos completando quatro décadas de democracia, resultado das cabeças de centenas de parlamentares liderados por Ulysses Guimarães. Na época, não havia necessidade de usar bonés para passar o sentimento de que os parlamentares pensavam, articulavam, convergiam e mudavam o país. Graças àquelas cabeças no Congresso, o Brasil saiu pacificamente de 21 anos de ditadura, libertou os presos políticos, trouxe os exilados, acabou a censura, fez uma nova Constituição. Os atuais parlamentares precisam lembrar o que foi feito para transformar ditadura em democracia, e criar rede de proteção social com o SUS, o Bolsa-Escola/Bolsa Família/Auxílio Brasil/Bolsa Família, realizar dois impeachments, vencer o vício de inflação.

No lugar de bonés, as atuais cabeças que substituíram aquela geração precisam debater com o povo brasileiro quais foram as conquistas do país nestas quatro décadas e o que não fizemos neste período para construir um Brasil eficiente, justo, democrático, sustentável. Pensar no que ainda não fizemos e no que fazer nos próximos anos. Debater por que o Brasil continua preso à armadilha da renda média baixa, estagnada há décadas. Formular caminhos para aumentar nossa produtividade e colocar a renda per capita no padrão de países que nestes 40 anos nos ultrapassaram.

Enfrentar a guerra civil que conflagra nossas ruas, especialmente nas grandes metrópoles. Equacionar a questão militar para incorporar os militares no corpo das instituições democráticas, no lugar de deixá-los como um poder separado que faz tremer todos os oito presidentes civis. Parar a banalização da corrupção que a democracia aumentou, trazer ética à política e, com isso, dar credibilidade e respeito aos representantes eleitos. Quebrar a promiscuidade entre políticos, juízes, sindicalistas, empresários com seus interesses misturados.

Eliminar a vergonha de privilégios e vantagens que fazem a República democrática dar mais benefícios aos seus dirigentes do que o Império oferecia a sua nobreza. Abolir a apartação social que nos divide em condomínios e favelas, escolas senzala e escolas casa grande. Adotar uma estratégia de distribuição que nos tire a vergonha do título de campeões em concentração de renda. Entender o esgotamento do Estado e buscar formas de compor os setores público e estatal, o planejamento e o empreendedorismo, com responsabilidade fiscal.

Erradicar o analfabetismo que se mantém no mesmo nível de 1985, acima de 10 milhões de adultos, por causa do fracasso da democracia para promover a educação de nossas crianças com excelência e equidade. Formular estratégia para implantar sistema educacional com máxima qualidade e total equidade, independentemente da renda e do endereço da criança. Definir estratégias para a abolição da pobreza, determinando um prazo para que nossa população não mais dependa do assistencialismo por transferências de renda sob a forma de bolsas. Assegurar estabilidade jurídica, livrando o país do caos legislativo e judicial.

Em novembro, o Brasil vai sediar a COP30 em um momento crítico para a humanidade. As cabeças do Congresso precisam mostrar que, além de bonés por fora, usam o cérebro para retomar no Senado a Comissão do Futuro, manter a Comissão do Meio Ambiente ativa e concentrada na formulação de propostas do Brasil para o mundo. Pelos próximos nove meses, o parlamento deve estar presente no debate sobre sugestões e exemplos do Brasil para enfrentar os problemas mundiais. Debater o que devemos levar ao mundo para evitar as mudanças climáticas que ocorrem e serão agravadas. Tomar posição sobre a perda de credibilidade do Brasil no caso de decidirmos explorar petróleo na margem equatorial da Amazônia.

O Congresso precisa debater como, no atual cenário geopolítico-ecológico, devemos assumir a posição de pedaço do mundo com seus êxitos e fracassos e com uma democracia de parlamentares ativos. O Brasil precisa comemorar sua democracia fazendo-a avançar social e economicamente com sustentabilidade, sem ilusões marqueteiras.

Ultradireita 'pauta' debate político na Alemanha

O clima político na Alemanha anda tudo, menos ameno. O país enfrenta uma crise econômica, e a ascensão da ultradireita, representada no país pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), assusta quem preza a democracia. A onze dias das eleições federais, manifestações com milhares de pessoas acontecem no país inteiro contra a extrema direita, mas também contra o candidato que ocupa com larga vantagem o primeiro lugar nas pesquisas, o conservador Friedrich Merz, da União Democrata Cristã (CDU), que tem cerca de 30% das intenções de voto.


O horror a Merz, que levou manifestantes a trocarem o já tradicional grito "todos odeiam a AfD" por "todos odeiam a CDU", aconteceu porque o parlamentar aceitou, no mês passado, o apoio da AfD para tentar aprovar um pesado pacote anti-imigração. E falhou. Isso causou escândalo no país, já que o chamado "cordão sanitário", um pacto que significa que os partidos do centro democrático não fazem qualquer tipo de acordo com a ultradireita, teria sido "quebrado" com esse ato do conservador.

Entre os críticos a Merz estava também seu principal adversário político no momento: o chanceler federal Olaf Scholz, cujo partido ocupa o terceiro lugar nas pesquisas, com entre 15% a 17% das intenções de voto. Ele, inclusive, agradeceu nas redes sociais aos manifestantes que foram para as ruas "defender nossos valores e a democracia".

Os dois nunca se deram bem e já trocaram acusações pesadas no parlamento alemão.

Foi nesse clima nada ameno que os candidatos se encontraram para um debate eleitoral considerado um duelo e transmitido ao vivo no horário nobre do domingo  pelos dois principais canais públicos de TV do país, a ARD e a ZDF. O debate tinha tudo para "pegar fogo". Mas, seguindo a tradição alemã, o clima foi ameno diante de tanta discordância. Quase chato, para quem gosta de debates eleitorais passionais.

Mas em tempos de tanto ódio político, chega a ser surpreendente ver que os dois, após o debate, ao invés de trocarem ofensas, se comportaram como políticos profissionais, se disseram satisfeitos com o debate "democrático" e afirmaram que as discordâncias "fazem parte". Os tempos estão tão malucos, que não deixa de ser um alívio ver dois candidatos falando coisas que você pode discordar (e eu discordo de várias) se comportando como o que são: adultos.

Não estou exagerando. É só lembrar do jeito como Donald Trump tratava Kamala Harris na campanha e de uma certa cidade (oi, São Paulo) onde um debate acabou com um candidato dando uma cadeirada em outro.

Scholz e Merz, apesar de educados e polidos, deixaram o debate descer de nível ao passarem parte do tempo falando sobre uma das pautas mais queridas da extrema direita global, as medidas anti-imigração, enquanto poderiam falar mais de questões urgentes para o país, como a economia.

Problemas na Alemanha não faltam no momento: o país atravessa uma crise com baixo crescimento da economia, enfrenta problemas com o preço da energia, há uma guerra no continente (entre Rússia e Ucrânia)…

Ou seja, assuntos urgentes não faltam, mas os dois, apesar da educação, acabaram sendo "pautados" pela ultradireita e passaram parte do debate falando sobre imigração, uma das principais bandeiras da AfD.

Para os extremistas de direita (e também para muitos outros cidadãos da Alemanha), tudo é culpa dos imigrantes. Faltam escolas? "Culpa dos refugiados". Existe violência? "Culpa dos refugiados". Não concordo com isso de jeito algum, e os números também não comprovam essas teses. Mas é espalhando essa histeria anti-imigração e a xenofobia que a extrema direita cresce.

Assim como acontece em muitos países, inclusive no Brasil, os partidos do centro democrático vão na onda. Em busca de eleitores e querendo responder a uma opinião pública contaminada pelas ideias anti-imigração (um vírus que atinge, inclusive, imigrantes, por mais estranho que isso pareça), os dois candidatos passaram parte do debate discutindo esse tema.

E, claro, assim como toda a terra, a Alemanha precisa discutir com seriedade medidas para tentar frear as mudanças climáticas. O assunto passou em branco, o que também pode ser visto como um "ganho" da AfD, formada por negacionistas climáticos. "É relevante para os eleitores, um tema vital para o futuro governo para a Alemanha. E eles não fazem uma única pergunta sobre o clima. É inacreditável", reclamou a ativista do movimento Fridays for Future, Luisa Neubauer no X. É mesmo.´