quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Polarização é ato de má-fé

Temos corpos repartidos em esquerda e direita. Mãos, pés, olhos, narinas, ouvidos, dedos, hemisférios cerebrais, tudo tem um outro polo que não é “reserva” ou “duplicata”, mas complemento. Somos constitucionalmente duplos, e nossa natureza bipolar facilita a automistificação.

Polarizar é parte de nossa natureza. Entretanto ela tem sido usada mais para dividir e condenar que para compreender. Os lados se complementam, mas, na politicagem, o conceito bloqueia a relativização. Passa a ser prova de certezas, quando o que está em jogo são circunstâncias e limites.

Polarização é uma palavra mais apropriada para uma enfermidade em que represento a verdade, enquanto você exprime erro e ignorância. Tudo o que digo traduz boa consciência do mundo e das coisas; ao passo que você é a personificação da má-fé. Estamos afundados nessa dualidade não complementar e destrutiva faz tempo.


Lula 3 diz que o regime de Maduro na Venezuela é “desagradável”, mas não hesitou em equacionar a reação de Israel ao terrorismo do Hamas como genocídio. Aliás, esse episódio revela nossa infortunada capacidade de somar selvagerias...

Tudo o que está comigo é verdadeiro e não é relativizável, mas seu lado é, invariavelmente, falso, hipócrita ou mentiroso. Hitler e Stálin não exterminaram ninguém; simplesmente foram antipáticos. Como Fidel ou Ortega.

A má consciência revela um autoritarismo rigoroso e, no limite, é o berço dos fascismos. O Diabo, que sempre desejou a morte de Deus e de suas incertezas, é fascista. Para ele, não pode haver outro lado além do seu. Eu tenho amor; você, ódio. A outra mão deve ser englobada em todas as situações. O aleijão resultante não é problema. Podemos viver sem um lado, como manda a lógica da má-fé e dos ficcionalismos modernos.

A má consciência é madrinha dos particularismos. Ser diferente é ser particular ou singular. Somos exclusivos em nossas identidades, mas não podemos equacionar peculiaridades com privilégios, exceto em casos especiais. Quando somos muito ricos, grandes ou poderosos.

Quando julgamos a esquerda subversiva e a direita reacionária, não contribuímos para a clareza. Pelo contrário, apagamos a luz do lado que consideramos inútil, malvado ou demoníaco.

Polarizar não é opor com objetivos de esclarecer ou enxergar melhor. É, como tristemente testemunhamos, um modo de esvaziar o outro lado de razão.

No fundo, trata-se de mutilar o debate, o contraste, a identidade e a compreensão pela eliminação moral ou ideológica do outro, porque temos a bala de prata do certíssimo, do claríssimo e do crudelíssimo. Só nós contamos, porque estamos absolutamente certos de que ultrapassamos a eterna dúvida humana que faz parte de nosso caminhar.

A certeza castra a competição. E a competição é a base do liberalismo democrático. É ela que testa a riqueza de certos caminhos e posições. Por causa disso, regimes democráticos têm como sina e determinação a mudança periódica dos cargos públicos. Todos regulados por ideais diversos, mas unidos num acordo pela transitoriedade do poder. Uma transitoriedade fundada em direitos individuais.

Para realizar tal objetivo, regimes democráticos articulam eleições — competição eleitoral em que se submetem ao julgamento da população de cidadãos, aqueles que votam e elegem seus candidatos por um período delimitado. A regra eleitoral é um dos melhores exemplos de norma universalista, pois vale para todos os candidatos e todos os votantes. Trata-se de “jogo inclusivo” e, como sabemos, arriscado.

Como um jogo de poder, ele desperta paixões espúrias e, em países cuja estrutura social se funda em valores aristocráticos e elitistas, existe permanente tentação de eliminar o opositor. O golpe nasce e cresce como malfadado projeto, justamente quando a polarização assegura certezas e armazena os argumentos das balas de prata que salvariam a sociedade. Trata-se de um pantanal ético de que — valha-me Deus! — ninguém escapa!

Inocentes condenados

Neste planeta há estimados dois bilhões de animais humanos com idade menor que 10 anos, e cerca de 650 milhões que ainda não fizeram o sexto aniversário. Todos eles são inocentes. Inocentes, e condenados!

É triste saber que meus filhos e netos, assim como os dos leitores, estão condenados, mesmo sendo inocentes. Condenados a quê? Inocentes de quê?

Nesse subconjunto da humanidade estão pessoas que, em sua maioria, estarão vivas no ano 2100, quando terão menos de 90 anos. Claro, muitos terão morrido, mas a maioria ainda estará viva, salvo alguma possível – provável? – guerra nuclear. Afinal, o aumento da expectativa de vida é um dos feitos positivos da humanidade. E os ainda estiverem vivos, em que mundo viverão?


No Brasil de hoje, do Sudeste ao Norte, estamos respirando ar seco, poluidíssimo, cheio de gases venenosos, agravado pela fumaça de incêndios, alguns dos quais criminosos, feitos em nome do progresso, em nome de abrir áreas para aumentar a produção de alimentos! Estamos vendo também a quase totalidade deste país, e de muitos outros, sob ameaça de mais incêndios queimando árvores que deveriam viver para reter água para nossa sobrevivência. Mas, em nome do “progresso”, continuamos a degradar a biosfera, a base da nossa sobrevivência.

Hoje, a Organização Mundial da Saúde estima em sete milhões as mortes, a cada ano, decorrentes “apenas” da poluição do ar. Quantas serão dentro de vinte, cinquenta anos, se seguirmos acreditando que explorar e queimar petróleo trás riqueza? É fato que quando tal queima começou, há quase dois séculos, ela ajudou a melhorar a vida de muitos, mas continuar a usá-lo passou a piorar e a condenar a vida de muitos mais, inclusive aqueles que hoje são crianças. Não é novidade comparar os combustíveis fósseis às drogas: euforia nos primeiros usos, morte quando se torna dependente!

Não são só os incêndios que preocupam, e matam. Há pouco, vimos o Rio Grande do Sul devastado por enchentes e, na Arábia Saudita, estimados 1.300 fiéis morreram em poucos dias, em decorrência do calor extremo, que afeta inúmeras regiões do planeta.

A rapidez com que aumenta a frequência e a gravidade dos desastres derivados dos extremos climáticos assusta até mesmo os cientistas, pois sua progressão tem se mostrado mais veloz e grave que as previsões. Nessa aceleração, já se aceita que o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5oC já não é mais viável, acréscimos bem maiores sendo prováveis. Com eventos ainda mais extremos, e sofrimentos maiores.

Daí a se concluir que, embora nossos filhos e netos sejam inocentes, pois nós é que decidimos por eles, somos nós, e principalmente os dirigentes de países e empresas que, ao insistir em manter nosso modo de vida poluente e insustentável, os estamos condenando a vidas bem mais difíceis.

Trata-se de uma nova versão de holocausto e genocídio, realizado a cada dia de forma mais acelerada, em nome do “desenvolvimento”.

Espécie humana, se és sapiens, acorda e age!

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Ameaça climática já está no horizonte

Parecia uma cena do antigo cinema francês. Domingo de manhã, na bruma que cobria o lago Paranoá, um jovem de pé remava em sua prancha de stand-up paddle, enquanto a companheira, de chapéu e pernas cruzadas, observava o estranho horizonte. Não se via a outra margem. Os ventos pareciam levar à capital federal perguntas sobre o futuro.

Poucas vezes o céu de Brasília esteve assim tão encoberto. Queimadas ocorrem na região nessa época. Mas a novidade do fim de semana foi a chegada da densa bruma proveniente do Sul, de queimadas ocorridas em São Paulo e Goiás.

Algumas delas foram intencionais, segundo investigações preliminares de polícias estaduais. Em Goiás, um dos responsáveis pelo fogo admitiu que o mandante do crime teria intenções de prejudicar um adversário político.

O governo prontamente acionou a Polícia Federal para investigar se algumas das queimadas teriam mesmo sido propositais. E a extensão do fogo pela região central do país já assusta os experimentados agentes do Ibama.

A bruma, que parecia cenário de cinema romântico, na verdade tinha contornos de um denso filme de ação. Ou, quem sabe, de ficção científica.

De agora até outubro, o cheiro das queimadas estará mais forte do que o de costume. Como se buscasse chegar aos gabinetes oficiais para lembrar a urgência climática.

Por enquanto pouca gente estará na capital federal para perceber o aviso. Muitos deputados e senadores permanecerão em seus estados a maior parte do tempo até a data das eleições municipais. Decisões em Plenário serão cirúrgicas e rápidas.

O governo permanece em pleno funcionamento, mas não são poucos os ministros que dividirão suas atenções nos próximos dois meses, que coincidem com o pior período da época seca, com o destino de seus aliados políticos nas próprias bases.

Quando as chuvas de novembro finalmente chegarem, trazendo de volta a normalidade à capital federal, será o momento de averiguar se os sinais da natureza terão tido algum êxito em atualizar a visão de mundo de muitos dos que decidem o futuro do país.

As queimadas contribuem para as maiores emissões do Brasil de gases do efeito estufa. A redução dessas emissões dependerá da contenção de ações criminosas e da conscientização dos produtores rurais – além de apoio político.

Mas outro setor importante para a redução das emissões e para a contenção dos riscos climáticos é o de energia. Para estimular a produção de energias renováveis, o governo enviou importantes projetos de lei ao Congresso Nacional.

Um deles estimula a produção de energia eólica offshore, ou seja, no oceano. Uma prática cada vez mais frequente na Europa, por exemplo, e que parece bastante promissora no vasto litoral brasileiro.

Pois o projeto foi populado, em sua tramitação no Senado, por diversos jabutis – como são chamadas as emendas que pouco têm a ver com a proposta original. Uma dessas emendas, por exemplo, permite a prorrogação de contratação de térmicas a carvão – entre as mais poluentes do mundo – a um custo de R$ 92 bilhões.

Os poderosos lobbies do setor de energia têm feito a sua parte no convencimento de parlamentares. Muitos interesses regionais também estão em jogo quando se discute o processo de transição energética do país.

Lobbies bem menos poderosos ligados aos movimentos ambientalistas também procuram atuar no Congresso Nacional, com resultados muito mais modestos.

Os sinais emitidos pelo clima terão algum sucesso na mudança de ventos em Brasília? Não se pode ser muito otimista, quando o Legislativo tem sido marcado pela forte influência das bancadas ultraconservadoras.

De qualquer forma, a ameaça da mudança climática já está, de fato, no horizonte. Vai ser cada vez mais difícil fechar os olhos para ela.

Foice no escuro

É de se lembrar aos que porventura se entusiasmem pelo personagem encarnado na figura de Pablo Marçal (PRTB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo: em 1959, a cidade "elegeu" para vereador, com 100 mil votos, Cacareco, rinoceronte fêmea residente no zoológico.

A rebeldia daquele eleitorado de 65 anos atrás não provocou efeito prático algum. Apenas marcou a entrada do episódio na história dos protestos contra os políticos tradicionais.E daí? Daí que os rebeldes se acreditaram engajados pela via do repúdio, mas jogaram no lixo a oportunidade de fazer uma boa escolha.


São Paulo é a maior, mais rica, mais poderosa e mais complexa cidade da América do Sul. Merece e carece de melhores opções para governantes por parte de seus residentes, interessados que deveriam estar em manter esse lugar de destaque.

Paulistanos orgulham-se da posição que também é motivo de admiração no restante do país. O estado é a locomotiva-mestre do desenvolvimento, como se diz, e a cidade tem papel preponderante nessa pujança.

A capital paulista não deve ser governada na base da galhofa, da subversão de regras de legalidade e civilidade. Necessita ser levada a sério, com governantes e governados que se deem ao respeito.

Não pode ser objeto de piadas ou de escárnio, muito menos de disputas que obedeçam à dinâmica de brigas de foice no escuro, como os atritos entre o clã Bolsonaro e o histriônico Marçal. Caberia aos candidatos adversários, aos partidos, aos organizadores de debates, às campanhas, à Justiça Eleitoral e, sobretudo, ao eleitorado, dar um jeito de encontrar a melhor maneira de retomar o rumo adequado desse debate político.

Se não for assim, estaremos mal. Vamos nos arriscar, absolutamente todos, a aceitar a lógica da contestação vazia contida na preferência por um similar de Cacareco que só nos leva ao fundo do poço da negação da política.

Pablo Marçal revela a ameaça em gestação

Sinto que é hora de planejar férias. Nada de grandes viagens, mas apenas um mergulho no território da literatura e de outras artes. Isso me ajudou na pandemia. Encontrei a obra de Jorge Luis Borges, quatro volumes editados pela Globo Livros, um refúgio de sensibilidade e erudição. Saltei alguns poemas, mas foi um tempo enriquecedor.

O ato de interpretar o cotidiano da política brasileira desgasta e pede um respiro anual. Pressenti o desgaste do STF quando decidiu julgar, sem estrutura adicional, milhares de pessoas. Prisões consideradas ilegais, problemas na própria cadeia, gente com câncer precisando de tratamento e, sobretudo, penas consideradas muito pesadas — enfim, uma sequência de problemas que acabariam se voltando contra a Corte.

Tentei ser discreto, mas não deixei de mencionar minha apreensão. O resultado foi a desconfiança de que protegia a direita. Da mesma forma que a própria direita acusa a defesa de direitos humanos como proteção de bandidos.


O Supremo agora tomou uma decisão importante, determinando que as emendas parlamentares sejam transparentes e rastreáveis. O Congresso queria retaliar, atribuindo-se o poder de anular decisões do STF. Tomar posição nesse caso valeu críticas dos que combatem o STF.

Enfim, como respondeu o personagem de Samuel Beckett que apanhava todos os dias quando lhe perguntaram quem bateu:

— São os mesmos de sempre.

Isso faz parte do jogo e pode ser levado com certo humor. Mas outros problemas me deixam mais preocupado. Pensei que as eleições municipais fossem discutir as mudanças climáticas e a necessidade de melhor proteção das cidades, sobretudo das áreas mais vulneráveis. A observação do debate em São Paulo não só me desapontou, como trouxe à cena uma imensa ameaça. Sabemos que o crime organizado se infiltra na política. Mas, para sobreviver, precisa aceitar as regras do jogo.

O que acontece lá é diferente. Um homem apontado como criminoso por inquéritos policiais entra na cena política cometendo crimes abertamente, como se invadisse uma residência e rendesse a família. E nada acontece.

Talvez tenha uma sensibilidade especial para esse tipo de problema. Mas, para mim, é o desdobramento da política da extrema direita na versão mais agressiva e, infelizmente, com chances de crescer. Steve Bannon, ex-assessor de Trump, já previu o surgimento de uma extrema direita mais audaciosa e disruptiva. Parece que isso acontece no Brasil.

Os ensinamentos básicos são estes: os políticos são corruptos ou comunistas; em ambos os casos, pode-se acusá-los de qualquer coisa sem provas. Para combater o sistema político, todos os meios são válidos, é possível cometer tantos crimes quantos forem tolerados por uma Justiça Eleitoral hesitante e tardia.

As eleições na maior cidade do Brasil trazem um ensinamento sobre o qual será preciso refletir. Não se trata apenas de uma aventura política camuflada pela luta anticorrupção. É um pouco mais que isso. É a mensagem apocalíptica de que todos são criminosos, e é preciso escolher entre os que falam diretamente com seus medos e preconceitos.

Até que ponto isso pode avançar? A extrema direita no poder na Itália temperou seu discurso. Mas essa é a tendência ou o que vemos no Brasil é algo que aponta para algum futuro, um tempo em que a própria tecnologia favorece a barbárie?

Não é simples formular o antídoto. Por onde começar? Pelo mundo político que precisa se voltar para as expectativas elementares da sociedade? Pelos setores da sociedade que conseguem se identificar com a barbárie na esperança de algo melhor?

Desses problemas não se tiram férias. A nova variante da extrema direita não se opõe apenas ao sistema político, à imprensa e à academia. Ela desafia abertamente a lei pelos crimes comuns em que se formou, mas também pela metralhadora giratória de falsas acusações. Houve todo um preparo do TSE para combater fake news. Chegaram com uma nova embalagem e ainda não foram reconhecidos.

A pilantragem nunca deu tantos votos

"Mas entretanto eu errei no golpe/ Você no golpe também tinha errado/ Você julgando que eu desse moleza/ Atrás de moleza também tenho andado", diz a letra do samba-choro "Dois Bicudos". Os autores, Cartola e Aluísio Dias, contam a história de dois golpistas, que antes trocavam carícias e agora não se beijam. A situação lembra a de Jair Bolsonaro e Pablo Marçal nas eleições de São Paulo.


Os golpistas-bicudos têm espantosas semelhanças, a começar pela compulsão de mentir. Estão ligados ao crime; falam em nome de um Deus só deles; manipulam as redes; vendem-se como antissistema; ignoram qualquer projeto de governo e atacam o Estado; defendem a trapaça como um ideal de vida. Correm na mesma faixa da direita para seduzir o eleitor e representam a enganação política —que sempre existiu— levada ao paroxismo.

Um já esteve na Presidência, e as consequências todos sabemos. O outro quer chegar lá. O coach leva uma vantagem em relação ao capitão: seu trabalho como golpista foi mais eficaz. Durante anos ele participou de uma quadrilha especializada em invadir contas bancárias pela internet. Quem foi fisgado —e quem não foi no país que trocou o jeitinho pelo golpinho?— não esquece.

Marçal foi condenado, o crime prescreveu. Bolsonaro está livre. O ex-presidente tem um medo pânico de perder o controle das forças conservadoras, impossibilitando os planos de reverter a inelegibilidade (por enquanto, tais planos continuam a ser articulados no Congresso).

Mesmo assim, o choque entre Bolsonaro e Marçal tem alguma coisa do antigo telecatch —mordidas, cabeçadas, dedos nos olhos, tijoladas na cabeça e tesouras voadoras de mentirinha. Enquanto eles brigam, ou encenam a briga, estão capturando as atenções. Guilherme Boulos, o candidato da esquerda, e Tabata Amaral, do centro, vão ficando em segundo plano. A pilantragem nunca deu tantos votos como hoje.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Uma visão distópica de um Brasil que deu errado

O ano é 2033 e mais uma crise paralisa o país. O novo presidente busca um acordo com os presidentes da Câmara e do Senado para aprovar um pacote de medidas para tentar salvar seu governo.

Transcorrida a metade de seu mandato, o ocupante do Palácio do Planalto, vencedor das primeiras eleições após o fim do longo ciclo em que a política brasileira ficou polarizada sob a influência de Lula e Bolsonaro, vivia um impasse.

Não havia sido fácil chegar ali. Os analistas políticos haviam classificado a disputa presidencial de 2030 como “a eleição do cansaço”.

As velhas fórmulas políticas da década que se encerrava estavam desgastadas. Eleitores à direita e à esquerda haviam se dado conta da energia gasta em tantos anos de brigas nas redes sociais e no convívio social e resolveram dar crédito àquele candidato que propunha o básico: melhorar as políticas públicas com foco nos mais pobres e destravar a economia para a prosperidade das empresas.


Seu tema de campanha era fácil de entender - ao mesmo tempo básico e revolucionário. Básico, por prometer aquilo que sempre se esperou de uma liderança política; revolucionário, porque ninguém, uma vez eleito, havia realmente levado aquela determinação às últimas consequências.

Seu compromisso eleitoral era tão somente tirar do papel o art. 3º da combalida Constituição de 1988, curiosamente um dos poucos dispositivos originais que, passados mais de 40 anos, não havia sido alvo de nenhuma mudança por emenda.

Nas propagandas de campanha, ele alternava slogans inspirados nos objetivos fundamentais da República. Suas propostas para a economia eram articuladas sob o lema “Para garantir o desenvolvimento nacional”; as ideias para a política social eram envelopadas na mensagem de “erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades”.

Suas falas moderadas miravam tanto os eleitores progressistas de esquerda (“promover o bem de todos, sem preconceitos e discriminação”) quanto aos conservadores da direita - sobretudo quando ele destacava a necessidade de se “construir uma sociedade livre, justa e solidária” (com ênfase nos dois primeiros adjetivos).

Seu programa de governo girava em torno de três eixos: i) reformular os gastos públicos para implementar uma cobertura integral do cidadão, com foco no trinômio saúde-educação-assistência; ii) promover um choque de produtividade na economia e iii) refundar o sistema tributário, tendo como norte outra determinação constitucional - a progressividade, que determinava que os mais ricos deveriam pagar mais impostos do que os mais pobres.

No fundo, ele tinha dúvidas se seria possível se eleger com aquela plataforma, ainda deixando claro nas entrevistas e debates que seria preciso mexer com o interesse de muita gente.

Mas aquela foi a eleição do cansaço, e depois de quase duas décadas com o país polarizado e dividido, a população se mostrou aberta para furar as próprias bolhas. Afinal, entre idas e vindas, avanços e retrocessos, o Brasil chegava no início da década de 30 preso aos velhos problemas do século XX: desigualdade social elevada, violência urbana fora de controle, inflação subindo, taxas de juros e carga tributária elevadas, crescimento pífio e desemprego preocupante.

Com os eleitores descrentes dos herdeiros do bolsonarismo e do lulismo, e depois das experiências desastrosas de celebridades televisivas e do mundo digital governando as maiores cidades do país, a sociedade se conscientizou de que a solução estava no meio.

E o candidato nem-nem (nem bolsonarista, nem lulista) cresceu primeiro agregando lideranças de movimentos sociais e empresariais para construir propostas de reformas da tributação da renda, de políticas públicas, do funcionalismo público, dos incentivos tributários. O debate foi ganhando corpo e ao longo da campanha o movimento se refletiu nas intenções de voto.

Transcorrida a metade de seu mandato, porém, o presidente eleito com quase 70% dos votos válidos no segundo turno experimentava a mais baixa taxa de aprovação desde o governo Temer e estava à beira de um processo de impeachment.

Nada de corrupção nem pedaladas fiscais: a queda de sustentação do governo pós-polarização se deu por paralisia. Governar havia se revelado muito mais difícil do que aparentava durante a campanha. Logo o novo presidente se deu conta de que não bastava um discurso que unia progressistas e conservadores ou propostas corajosas construídas após um amplo debate com a sociedade.

Em pouco mais de dois anos, a esperança de um país mais justo e dinâmico se perdeu pela oposição das velhas forças políticas reeleitas na base das emendas orçamentárias, do fundão eleitoral e de partidos personalistas e sem democracia interna, pelas mesmas regras eleitorais que favorecem candidaturas caras ou populistas.

Dez anos depois, em 2043, com o Brasil conflagrado por guerra civil e governado por um pseudoparlamentarismo autoritário, um acadêmico foi preso e torturado por escrever que a origem de nossas mazelas estava no conjunto de regras políticas e eleitorais, que nos levaram a fazer péssimas escolhas de parlamentares desde a Constituinte de 1987.

Mas aí já era tarde demais.

Humanoides clínicos

O American Board of Internal Medicine (Abim), entidade semelhante ao Conselho Federal de Medicina, no Brasil, revogou a certificação de dois médicos americanos conhecidos por liderar uma organização que promove a ivermectina como tratamento para Covid-19. A notícia tem relevância comparativa na profissão médica brasileira, onde acontece preocupante fissura qualitativa entre o nível da prática e o da instituição.

É o que revela a recente eleição no Conselho Federal de Medicina, vencida pelo bloco antiaborto, comprometido com o inútil receituário da cloroquina e da ivermectina durante a pandemia, explicitamente antenado à ultradireita. Há nele quem ainda apoie a violência depredatória na Praça dos Três Poderes.


O desconcerto evoca a narrativa do austríaco Robert Musil, "O Homem sem Qualidades", em que o personagem Ulrich, sem características próprias e indiferente ao mundo, busca um sentido para a vida. Embora do século passado, trata-se de uma construção romanesca atualíssima no século 21, quando as tecnologias da comunicação avançam céleres em eficácia técnica, mas viralizam os antagonismos políticos e o retrocesso de qualidades humanas.

Não se põe em dúvida a competência da maioria dos médicos brasileiros nem a excelência de determinados hospitais, tanto no setor público como no privado. Para cá, acorrem pacientes de várias partes do mundo atraídos pelo renome profissional de muitos. Há setores de pesquisa avançada conectados a centros de referência internacionais.

É pertinente, porém, a indagação sobre se o avanço clínico e cirúrgico se faz acompanhar por desenvolvimento ético compatível. Isso significa perguntar sobre a qualidade humana desse grupo técnico indispensável à saúde coletiva. Trata-se de refletir por quê indivíduos egressos de uma formação pautada pela integridade física da espécie acolhem em termos institucionais a regressão de valores humanos. Não há hospital sem hospitalidade ética, não há clínica sem inclinação visceral para a vida.

A questão aberta é que a exacerbação do individualismo de massa sob a manufatura capitalista de vidas supérfluas leva a uma profissionalização elitista em que o ego, inflado como um balão, perde de vista a dimensão social. A universidade teria subestimado a formação de caráter, algo que se adquire. Senão, o que ocorre já seria síndrome da supremacia técnica dos robôs, humanoides sem qualidades. Mas não é nada desprezível a suspeita rasteira de que a tentativa de importar mais médicos pés no chão, cubanos ainda por cima, tenha despertado um narcisismo corporativo afim ao que há de pior na ultradireita. Em suma, mais um surto do brutalismo nacional.

Onde é a 'Cracolândia'

A primeira vez em que ouvimos falar no vício de crack, aqui no Brasil, foi a propósito de um prefeito de Washington, negro – creio, aliás, o primeiro negro a exercer esse cargo. Escândalo tremendo, muita gente chegou a pensar que seria campanha dos brancos contra o chamado “homem de cor”. Mas o coitado confessou; os jornais tiveram de explicar ao público o que seria esse tal de crack, uma espécie de pasta, cujo ingrediente principal seria a cocaína. Passou o escândalo, como passam todos, e sumiram com o prefeito “craquista” no noticiário.

Mas já agora, infelizmente, ninguém mais no Brasil ignora o que é o crack.

E, pior: já é grande a difusão da droga entre nós, especialmente entre os jovens, em São Paulo, no Rio, e provavelmente na maior parte das grandes cidades do País. Há campanhas organizadas por associações beneficentes, e, claro, um pavor generalizado entre pais e parentes que já contam, em casa, com meninos e meninas consumidores ou pelo menos conhecedores da droga.


De São Paulo, recebo agora uma carta que me comoveu profundamente: uma coisa é a gente encarar um problema, embora grave, a distância; impressiona, revolta, mas não provoca o impacto, o susto daquilo que se vê com os próprios olhos, na casa de amigos.

Trata-se de um rapaz, que conheci garotinho, que sentei no meu colo, que já mostrava então nos olhos vivos uma inteligência precoce. Na carta, contam os pais, desesperados, que o menino, já rapaz agora, se tornou viciado em crack, e, dentro dessa rota, que parece sem retorno, caminha para o desastre final.

Dizem: “Nosso filho, o Junior (lembra-se como você gostava dele?), é hoje um desses menores perdidos pelas ruas do que eles chamam ‘Cracolândia’. Hoje, viciado assumido, já tem os pés danificados, perdeu dentes e traz nas costas as marcas das surras que, comumente, os jovens como ele levam de elementos da polícia, que por desvio de formação, talvez, maculam com violências a imagem da sua corporação. Da última internação que conseguimos para o nosso filho, o resultado foi catastrófico. Recorremos a uma clínica religiosa, que nos parecia capaz de conseguir uma solução. Pagamos R$ 200,00 na entrada e o soubemos de volta às ruas dentro de quatro dias.

Não lhe deram qualquer tipo de medicamento; como estudo, ensino bíblico, quatro horas por dia; e trabalhos de limpeza e cozinha como 'terapia'.

Confesso que não temos mais o que fazer, o que tentar. Recorremos a você, na esperança de que nos dê qualquer luz, que nos guie, neste pavor em que vivemos.”

Transcrevo aqui essa carta patética, mas veraz, levada pela mesma esperança desses amigos. Quem sabe o governo, a sociedade, a imprensa, qualquer pessoa influente ou organização (eles nos falam numa “Associação de Desenvolvimento Solidário”, que já existe em São Paulo, e se dedica ao problema) encontre uma solução. Dizem-me ainda os pais que esses meninos desviados não são só crianças carentes, alguns de classe média, outros de classe alta; trocam a casa dos pais pela rua, vivem de pequenos furtos e acabam dominados pelos traficantes de drogas.

Não serei a primeira nem serei a última a trazer esse assunto à imprensa.

O fato é que alguém tem de descobrir uma solução, antes que se perca, no crack, toda uma geração de jovens brasileiros.
Raquel de Queiroz (O Estado de São Paulo, 15 fev. 1997)

'Nós não somos iguais e nunca seremos'






“Nós não somos iguais e nunca seremos”. Ouvi a frase da boca do Chef Nuno Diniz, numa entrevista a Joana Barrios. Diniz di-la com firmeza a propósito do episódio em que um aluno de cozinha ousou tratá-lo por Nuno em vez de “Chef”. O tom altivo, áspero, seguro, que usa para afirmar a impossibilidade de ultrapassar a diferença fez-me pensar. Nos últimos 50 anos, vivemos numa democracia baseada numa ideia de igualdade formal perante a lei, que até agora ninguém parecia disposto a pôr em causa de maneira explícita, mesmo que as diferenças materiais tenham sido sempre tão grandes, que esta “igualdade” não passou nunca de uma abstração, que serve algumas boas consciências.

Mas por que me arrepiou tanto, então, a frase de Nuno Diniz, quando sei há muito que a igualdade é mais dita que real e o fosso entre os que estão por cima e os que ficaram por baixo não para de aumentar? Talvez porque Diniz diz de peito feito e voz límpida o que ao longo da minha vida ouvi sempre (e foram muitas vezes) em surdina.


Demos, então, outra vez a voz ao Chef para perceber de onde vem e como entende a diferença que lhe parece natural, incontestada e inultrapassável. “Eu pertenço a um meio social que já não se usa muito. (…) De cada vez que uma filha se casava, ia para a lua de mel logo com a criada. Portanto, havia a filha de uma das criadas da minha avó, que era despachada com a menina que casava. Isto quer dizer que eu até ter 22 ou 23 anos tive uma criada em casa, que era a Celeste. Para as pessoas com complexos, que me estejam a ouvir, ‘criada’ não é um termo depreciativo, o nome ‘criada’ é porque era criada connosco. E, portanto, era uma pessoa da família, comia connosco à mesa”, explica-nos Nuno Diniz.

A candura com que Diniz fala de uma pessoa que é dada a outra como um objeto e impossibilitada de qualquer arbítrio sobre si mesma mostra uma naturalização da desigualdade que parece incompreensível para alguém que acredite num sistema democrático. Há aqui uma ordem natural que confere direitos e deveres à nascença: há as que nascem ‘criadas’ e os que se dispõem a criá-las e até as deixam comer à mesa.

Nuno Diniz só se engana quando diz pertencer “a um meio social que já não se usa muito”. Entende-se-lhe a nostalgia nas palavras, perante um tempo em que não seria sequer preciso explicar o que lhe parece óbvio às “pessoas com complexos”.

Mas a verdade é que o sentimento de superioridade natural que ostenta usa-se muito. Usa-se cada vez mais. Vem disfarçado de “meritocracia” (que o que não se usa tanto é a “aristocracia”). Mas essa é só mais uma forma de distinguir entre os que à nascença têm quase tudo aquilo de que precisam para vingar na vida e os que só por um acaso da sorte estatisticamente muito irrelevante lá chegarão.

Agarrados à ideia de que se se esforçarem muito, conseguirão ter sucesso, os de baixo já não se vêm como as “criadas” que são dadas às filhas casadoiras. Mas os de cima ficam libertos para se assumirem como os vencedores naturais, mesmo que as condições de partida lhes tenham dado uma vantagem praticamente insuperável.

É neste contexto que a ostentação do luxo passou a ser uma espécie de pornografia social consumida em larga escala. O luxo é um objeto de desejo para quem nunca o terá, uma afirmação grotesca de superioridade para quem o alcança. É exibido sem pudor, precisamente porque se criou a ficção de que é acessível a quem se esforce. É o “mérito” que o torna aceitável.

As vidas medem-se, mais do que nunca, pelo seu peso em ouro. Não acreditam? Há uma matemática simples de fazer. Entre 2013 e 2023, mais de 26 mil pessoas perderam a vida a tentar cruzar o Mediterrâneo. Vinham em botes precários, fugidas da guerra, da fome e da miséria. Prestamos-lhes pouca atenção e, quando o fazemos, é para as temer como invasores. Mas seguimos atentamente e com ansiedade as buscas pelas cinco pessoas que naufragaram no submarino Titan, no ano passado, e cujas fortunas somadas equivaliam a 2,6 mil milhões de dólares (mais do que o PIB de Cabo Verde). E vemos agora com detalhe as vidas dos seis milionários que naufragaram num iate de luxo ao largo da Sicília.

Nuno Diniz tem razão. “Nós não somos iguais”. Só espero que um dia possamos vir a sê-lo. E essa é a diferença que nos separa.

Margarida Davim

domingo, 25 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


A história humana

Há momentos da história mundial que são singelos, mesmo quando a violência grassa, no fortalecimento da identidade do homem no que ele tem de melhor, na força da determinação e do bem-querer, contra tudo e contra todos, no desafio ao incabível e ao autoritário.

Às vezes, o artista supera o teórico. Três filmes simbolizam a força do que há de ser. Em Spartacus, de Kubrick, Kirk Douglas morre na cruz ao olhar para o seu filho, na injúria dos crucificados da Via Ápia pelo ideal da igualdade que tanto havia propagado a Lei Romana. Em Gladiator, de Ridley Scott, com Russell Crowe, o homem morre por seus ideais, ditando à beira da morte a receita para a sequência digna de Roma, o que não decorreu. Em “O resgate do soldado Ryan”, de Spielberg, a tentativa obstinada e bem sucedida do esforço supra humano pelo simbólico, em uma mensagem de bem-querer de muitos para poucos, para as futuras gerações.

Na “A insustentável leveza do ser” de Kundera, o homem se alterna nas dificuldades e esperança do ser.

Os pensadores sociais tinham sonhos para todos nós. Adam Smith achava que a ação individual levaria à prosperidade social, o que não ocorreu. Marx achava que iríamos para o paraíso socialista, o que não ocorreu. O positivismo e funcionalismo francês, com Comte e Durkheim, prescreviam o aprimoramento das sociedades, o que não ocorreu. Onde estamos? Na beira do abismo, com a indeterminação do amanhã.

Este é um choro humanista, no melhor de Proust, Montesquieu, Dostoievski e Tolstoi, para aqueles que mesmo sacrificaram a vida em prol de algo quem sabe por acontecer.

Os incêndios previnem-se, porque está difícil combatê-los

Podemos passar horas e dias a discutir se foi fogo posto ou provocado por causas naturais, se os meios de combate aéreo foram acionados a tempo ou se a estratégia para conter as chamas não foi a mais adequada e até discorrer, longamente, sobre a necessidade de os responsáveis políticos, do País ou da região, se deslocarem ao local do sinistro, como se fossem chefes militares num campo de batalha.

Podemos fazer isso, mas temos de ter a certeza de que nenhum desses pontos de discussão terá consequências em relação aos incêndios florestais se continuarmos a pensar que o foco tem de estar no combate e não na prevenção.

Os incêndios florestais não ocorrem apenas por desleixo ou por falta de meios, como sugerem tantos debates intermináveis. Eles existem porque, em primeiro lugar, são naturais e até necessários para a regeneração das florestas. E ocorrem por influência de fatores climáticos, que determinam as características do combustível a longo prazo, e em consequência das condições meteorológicas, que afetam o comportamento do fogo a curto prazo. Dias de calor extremo, com vento, são mais propícios à deflagração de grandes incêndios, especialmente quando, ao longo dos últimos anos, se foi acumulando combustível nas matas e florestas, e se multiplicaram os meses com tempo quente e seco.


Não é preciso ter dotes de adivinho para perceber que há um cada vez maior risco de incêndio, especialmente nas regiões mais vulneráveis à sua ocorrência. Um estudo científico recente, publicado na Nature Ecology & Evolution, não deixa grande margem para dúvidas numa das suas conclusões: o ano mais quente jamais registado, o de 2023, foi também o mais extremo em termos de incêndios florestais. Tudo em consequência de um clima mais quente e seco, que fez soar os alarmes em várias latitudes: tanto nos países pobres como nos mais ricos e poderosos. Como, por aquilo que se tem observado, este 2024 caminha para ser considerado ainda mais quente do que o ano anterior, ninguém pode admirar-se com a ocorrência de mais e mais incêndios florestais.

Na Madeira, um incêndio como o que atingiu o território nos últimos dias já não pode ser considerado um fenómeno anormal nem sequer absolutamente excecional. Nos últimos 14 anos, segundo os registos mais fiáveis, a ilha foi afetada por, pelo menos, quatro grandes incêndios (nos anos de 2010, 2012, 2016 e agora o de 2024), que deixaram uma área ardida, de floresta e de mato, claramente superior aos dos outros anos “normais” do mesmo período.

Uma publicação oficial do Observatório Clima Madeira, com a chancela da Secretaria Regional da Agricultura, Pescas e Ambiente, é absolutamente clara e definitiva acerca da ameaça que paira sobre a ilha. Vale a pena reproduzir o primeiro parágrafo do capítulo dedicado às florestas: “O principal risco para a floresta na Região Autónoma da Madeira são os incêndios florestais que, nos últimos anos, têm atingido proporções catastróficas. O histórico recente é tão preocupante que, mesmo num cenário onde a vulnerabilidade futura não aumentasse, a necessidade de adotar medidas para a redução dos incêndios florestais continuaria a ser urgente, já que representam elevados danos.”

O mesmo documento sublinha ainda que o risco de incêndio é potenciado, no caso da Madeira, não só pela persistência de altas temperaturas e de ventos fortes, mas também pelas condições estruturais das áreas florestais, em particular, o declive do terreno.

“Tanto a floresta Laurissilva como a floresta plantada encontram-se em áreas de acentuados declives, o que favorece a propagação do fogo, dificultando o seu combate”, lê-se ainda na mesma publicação.

A experiência recente de incêndios nos EUA, no Canadá e na Austrália, todos países do G20, demonstra que os grandes incêndios são quase impossíveis de ser controlados – mesmo quando se têm dezenas de aviões ao serviço e os bombeiros mais bem treinados. Por isso, é cada vez mais importante apostar na prevenção, na identificação dos sinais de alarme e, em último caso, na eficácia dos serviços de proteção civil para evitar vítimas mortais ou grandes prejuízos materiais. É na ótica da preparação e da prevenção que o debate sobre os incêndios precisa de ser centrado. Até porque, não tenhamos dúvidas, há sempre um dia em que as florestas acabam por arder. Temos é de estar preparados para evitar que o incêndio fique incontrolável.
Rui Tavares Guedes

Não é natural. É método

Ao longo do tempo, sempre tivemos candidatos que procuravam se destacar usando apelidos estranhos, adotando nomes de personagens de história em quadrinhos ou slogans peculiares. Um dos exemplos mais recentes é do deputado federal Tiririca, eleito sucessivamente para três mandatos desde 2010. Na ocasião, criou o bordão "Vote no Tiririca. Pior do que tá não fica", tendo a maior votação do país, com mais de 1,65 milhão de votos.

Também houve as chamadas candidaturas de protesto, como a do rinoceronte Cacareco, que obteve 100 mil votos para a Câmara de Vereadores de São Paulo em 1959, ou a do Macaco Tião, lançado pela turma do Casseta & Planeta como candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro em 1988, alcançando cerca de 400 mil votos. É importante registrar que só foi possível saber o total de votos desses mamíferos porque o eleitor escrevia o nome de seu candidato na cédula de papel.

Em 2008, tivemos uma mudança importante, que foi a utilização eficaz das redes sociais como instrumento de mobilização e adesão que marcou a vitória de Barack Obama. Seu exemplo passou a ser seguido, com maior ou menor competência, em diversos países. Porém, a mudança mais impactante tem seu marco inicial no ano de 2016. Primeiramente, pelos grupos e partidos que defendiam a saída do Reino Unido da União Europeia. E, logo em seguida, na campanha presidencial de Donald Trump.

Nesses dois exemplos, os estrategistas foram os primeiros a perceber que os algoritmos das redes sociais são baseados na cultura do engajamento e não da intermediação — ou seja, valem mais as publicações que têm maior número de curtidas e compartilhamentos. Também souberam combinar diferentes formas de comunicação, explorando as emoções negativas de pessoas e grupos, além de mostrar seu lado festivo e libertário por meio do escárnio.

E, não menos importante, a compreensão de que, a partir da ação em massa nas redes sociais, a política deixa de ser centrípeta para ser centrífuga, substituindo a lógica direita x esquerda pela lógica povo x elites, trabalhando os extremos a partir da revolta e da frustração latentes nas sociedades.

Essa lógica prevaleceu nas disputas eleitorais em diversos países, inclusive no Brasil, mas, nos últimos dois anos, surgiram algumas novidades. Há oito dias, começou a campanha eleitoral em que serão definidos os futuros prefeitos e prefeitas de 5.569 municípios, além de quase 60 mil vereadores.

O presidente eleito em 2018 fez e faz a alegria de seus milhões de seguidores ao adotar o estilo agressivo, popularesco, sem erudição, desprezando as convenções. Porém, após deixar o cargo em 2023, pressionado pela decisão judicial que o tornou inelegível e com a sombra de uma possível prisão, foi obrigado a mitigar esse comportamento.

Só que o gênio saiu da garrafa e aquilo que poderia ser considerado um comportamento naturalmente tosco passou a ser uma estratégia. Pode-se afirmar que a "tosquice" tornou-se um método estudado. No ano passado, Javier Milei foi seu maior representante no nosso continente com sua famosa motosserra.

Agredir adversários, se apresentar como antissistema e não se incomodar em divulgar mentiras é o novo normal para esse perfil de candidaturas. É o caso de um candidato à prefeitura de São Paulo cuja participação nos debates tem sido marcada pelo desrespeito às regras e pela falta de compostura. Tudo absolutamente estudado de modo a fazer as edições nos vídeos que gerem conteúdo para suas redes sociais que obtiveram um nível de engajamento tão gigantesco quanto entusiasmado.

Posto isso, a pergunta que precisa ser feita é: como há tanta gente que defende, segue e admira tal comportamento? É possível enfrentar esse movimento? Bem, nesta terça-feira, tivemos a oportunidade de ver como lideranças relevantes conseguem apontar caminhos. Refiro-me ao casal Obama, que, em seus discursos na convenção nacional do Partido Democrata, conseguiu pontuar as fragilidades de Trump ao mesmo tempo em que resgatou os valores dos chamados pais fundadores, indicando para os militantes como devem se conduzir para conseguir levar Kamala Harris à presidência. A própria Kamala tem seguido uma linha de ironizar o adversário, criando apelidos que têm deixado os trumpistas sem resposta.

Entretanto, estamos longe de superar essa situação. O ressentimento contra a política e os políticos, a concentração de renda e as mudanças tecnológicas que eliminam empregos compõem um caldo de cultura fértil para esse tipo de liderança desagregadora que solapa a democracia. O desafio é enorme e não se pode minimizar o risco.

A pipa da TV não sobe mais?

Eis que a vontade de matar a televisão aberta veio quase instantaneamente nos comentários sobre a morte de Silvio Santos. Do presidente Lula a Pedro Bial, passando por várias pessoas do ramo das influências nas redes sociais. O presidente Lula disse que este acontecimento “marca o fim de uma era na comunicação do país”. Pedro Bial sentenciou: “ele sai de cena num momento em que aquele meio de comunicação que ele inventou, que ele criou, ele não se reconhece mais na modernidade. Hoje estamos vivendo um outro momento e ele tem o ‘timing’ perfeito de sair de cena e deixar esse legado para que nós sigamos adiante”.


Essas duas falas são muito importantes e merecem o destaque. Como pessoas que pesquisam o setor das comunicações, perguntamos: o que Lula chama de “era na comunicação” mesmo? Quem somos o “nós” cujo lugar genuíno é seguir adiante a que se refere o apresentador e produtor de presença diária na TV aberta e nas plataformas da emissora concorrente? Fazemos essas perguntas, que entendemos necessárias, porque Lula e Bial não são as milhares de pessoas enlutadas, que usam seus celulares para ver TV ao meio-dia no intervalo do trabalho ou se sentam à frente dela nos parcos horários livres, e que tinham o Silvio Santos quase que como um integrante da família. Lula é, pela terceira vez, o presidente do país. Tem, portanto, responsabilidades quando o assunto é serviço público. Não devemos esquecer, é assim que a Constituição de 1988 define as comunicações. Bial, além de autor da biografia mais chapa branca do seu patrão, Roberto Marinho, é “a” imagem do homem branco, culto, urbano, um típico representante da sociedade lebloner-faria limer. Tem, portanto, lugar de fala muito claro, identidade facilmente atribuível.

Antes que as respostas aos questionamentos aqui feitos não surjam de lugar nenhum, queremos também dar alguns pitacos sobre uma tal “era na comunicação”. Primeiro, mais do que um apresentador, Silvio Santos era um empresário da radiodifusão. Não qualquer empresário, mas um que, por sua trajetória de articulações políticas e econômicas, expressa bem a histórica relação promíscua entre Estado e comunicações.

Vejamos…

Em 1975, durante a Ditadura Militar, Silvio Santos obteve a concessão para um canal de televisão no Rio de Janeiro, constituindo, assim, a TVS. Vale lembrar que, naquele momento, ele também já detinha 50% das ações da TV Record de São Paulo. Além disso, enquanto já controlava totalmente uma emissora de TV e metade de outra, Silvio Santos mantinha o seu “Programa Sílvio Santos” nas TVs Record e Tupi, em São Paulo, e na TV Tupi do Rio de Janeiro, por meio de aluguel da grade de programação, uma prática que é ilegal.

Anos depois, em 1980, ainda durante a Ditadura, Silvio Santos obteve as concessões da Tupi (São Paulo), TV Continental (Rio de Janeiro), TV Piratini (Porto Alegre), TV Marajoara (Belém). Ou seja, ainda antes do país reconquistar a democracia, Silvio Santos já estava consolidado como um dos principais radiodifusores do Brasil.

À época, o Sindicato dos Radialistas de São Paulo, em nota publicada no Jornal do Brasil, fez uma forte crítica: “a rigor, um dos dois ganhadores [das concessões] nem deveria estar participando da licitação, porque era impedido por lei. Mas o Sr. Sílvio Santos burlou a lei e entrou na concorrência com testas de ferro”. O questionamento do sindicato foi ao fato da legislação então vigente proibir que um proprietário tivesse duas concessões em um mesmo estado. Como descrito pela pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM-Brasil), “de fato, em termos formais, Sílvio Santos não aparecia entre os proprietários da sociedade, e sim sua cunhada, Carmen Torres Abravanel, além de outras pessoas vinculadas às demais empresas de Sílvio e do filho do empresário Paulo Machado de Carvalho, Carlos Marcelino Machado de Carvalho”.

Feito esse breve histórico, que poderia aqui ser estendido por linhas e linhas, voltamos à pergunta: o que Lula e Bial querem dizer com “fim de uma era na comunicação”?

Estamos em 2024 e, em verdade, a “era” que possibilitou a ascensão de Silvio Santos como radiodifusor se mantém. Um mito é mais importante pelo que ele esconde do que pelo que ele revela. É muito interessante observar o que se descortina de continuidade para uma pretensa morte do modelo de radiodifusão nacional massiva forjado na ditadura civil-militar.

Vejamos…

Se o assunto for concentração da propriedade na radiodifusão, um indício da permanência desta tal “era” é a sanção, justamente pelo presidente Lula, da Lei 14.812/24, em 15 de janeiro deste ano. Foi essa lei que ampliou os limites de concessões de rádio e TV por grupo. No caso das rádios, de seis para 20 (independente da modalidade de frequência). No caso das emissoras de televisão, de dez para 20. Vai-se Silvio Santos, que conseguiu emplacar seu genro, Fábio Faria, como Ministro das Comunicações do governo Bolsonaro. Ficam os interesses do grupo a que se filia Pedro Bial, a Globo, em discutir apenas regulação das plataformas de Internet, como o que há de novo para que “nós” sigamos adiante não tão distantes dos interesses das gigantes corporações internacionais, cada vez mais enfronhadas na exclusão social.

Se o assunto for a prática de atos ilegais, o controle de propriedade de radiodifusão por políticos com mandato eletivo, em flagrante desrespeito ao artigo 54 da Constituição de 1988, apenas cresce eleição após eleição. Cerca de 1/3 do Congresso Nacional é formado por pessoas com vínculos com emissoras de TV, assim como cerca de 1/3 das outorgas de rádio e TV no Brasil têm vínculos com lideranças políticas locais, regionais ou nacionais. As eleições municipais, que estarão na pauta dos próximos meses, são sempre “eleições de rádio” no interior e “da TV” nas capitais. Aliás, para sermos justos, Silvio Santos foi-se sem jamais ter conseguido ser candidato. Já para prefeito em 2024 ficam Datena, da Band em São Paulo; Jorge Wilson Xerife do Consumidor, da RecordTV em Guarulhos-SP; Paulo Martins, da Rede Massa, e Cristina Graeml, da Gazeta do Povo, em Curitiba; Alvaro Damião, da TV Alterosa, em Belo Horizonte; Jefferson Lima da TV Grão Pará, em Belém; Airton José e Ricardinho, da Rede Massa, em Foz do Iguaçu; Fernando Veloso, da TV Correio, e Matheus Ribeiro, da Record em Goiânia, e mais centenas de outras pessoas candidatas vinculadas ao rádio e à TV.

Se o assunto for o alinhamento dos proprietários de mídia ao que há de mais nefasto para a democracia brasileira, como fez Silvio Santos com o uso propagandista do SBT para a defesa da reforma da previdência de Bolsonaro, não faltam exemplos do compromisso político e econômico da mídia privado-comercial com a retirada de direitos trabalhistas. Vai-se Silvio Santos, ficam a Rede Massa, a Rede TV, a Jovem Pan.

Se o assunto for a naturalização da televisão e do rádio como palanque para a difusão de discursos racistas, misóginos e sexistas, como sempre fez Silvio Santos em seus programas dominicais, precisamos olhar o que se diz, o que se fala, o que dança, canta e representa na hora do almoço, nos fins de tarde, nos shows noturnos, nos realities, nos talk shows, nas novelas, nas canções populares, no cinema. O apelo popular, a Comunicação do Grotesco, tão bem compreendida por Muniz Sodré em 1973, quando Silvio Santos era ainda um jovem galã, há 51 anos, sempre causou grande aversão nas “pessoas da sala de jantar”, como cantariam os Mutantes em Panis et Circenses. O caricato, que se presta ao riso, bizarro, foi rapidamente associado ao brega e aos pobres. Se Odair José não podia cantar com Caetano Veloso por ser o cantor das empregadas domésticas, Silvio Santos também não podia ser levado a sério como empresário de comunicação. Roberto Marinho, do grupo Globo, e os Saad, da Band, cumpriam melhor esse papel.

Na morte de Silvio Santos, logo depois de passarmos pela Revolução do Baixo Clero que foi o golpe de 2016, e dos quatro anos de desmandos de um Tiozão do WhatsApp na presidência, é compreensível o desejo da morte de um padrão que rapidamente associamos à falta de modos, decência talvez. Mas essa associação esconde um traço muito importante do desejo de morte à televisão. Há uma armadilha: o ódio aos pobres. Silvio Santos sabia muito bem comunicar-se com os pobres. Assim como sabia também ser servil aos ricos para a conivência com os seus interesses econômicos. Mas o SBT não tinha uma rede constituída de senadores e deputados federais como afiliados, não foi a figura central no combate à democratização da comunicação, bem como, um olhar mais cuidadoso à programação, verá pontos importantes de inclusão social na história da sua programação. Enquanto Chacrinha, na Globo, cantava “olha a cabeleira do Zezé”, terminando com uma exaltação à violência física, “corta o cabelo dele! Corta o cabelo dele!”, o Concurso de Transformistas invadia a sala das famílias com cor, brilhos e alguma representatividade. Podemos dizer o mesmo sobre as “colegas de auditório”, mulheres pobres que se sentiam representadas naquelas brincadeiras das tardes de domingo e não nas empregadas domésticas com uniforme branco dando conta de todas as vontades das Helenas do Leblon de Manoel Carlos.

Não se trata aqui de “passar pano” para a criatura que expunha crianças à sexualização precoce tanto quanto Raul Gil, também da grade do SBT. Trata-se de perceber que há um incômodo seletivo no rápido asco a Silvio Santos, assim como à TV aberta em geral, que está entranhado no asco aos pobres e ao que é popular. Daí confundir o repúdio ao discurso de ódio com o ódio à televisão e ao rádio. A precarização da TV aberta em todo o mundo tornou o discurso de ódio uma ferramenta imprescindível para a sua sobrevivência. O que havia de mídia estatal no mundo foi minguando e, por outro lado, o financiamento por publicidade se mostrou inviável nos contextos locais. O que sustenta uma TV aberta ou uma rádio em pequenas cidades? O minguado comércio local? Não! O dinheiro da política, essencialmente. Se o discurso de ódio midiático tem berço nos traços socioeconômicos hereditários da formação da nossa sociedade, não podemos deixar de mencionar que os mesmos senhores que são donos de terras no Brasil, são também donos de mídia. Vai-se o Silvio Santos, ficam as outorgas e todas as outras posses de gente que um dia foi dona de gente e de gente que costuma achar que muita gente não é gente.

Se o assunto for visibilidade, sempre vêm à tona dados de audiência que dizem que temos mais celulares que TV, que as novas gerações não consomem televisão e rádio, que esta mídia de massa, assim como Silvio Santos, “não se reconhece mais na modernidade”. Calma, Calabreso!!!!

A audiência e o financiamento do Big Brother Brasil não são suficientes para pensarmos em como os índices de TV aberta e rádio, nacional, local e regional são subregistrados e invisibilizados. Mas o que há de racional em creditar à Internet as figuras televisivas assumindo cargos proeminentes e à extrema direita em todo o mundo? Bolsonaro e Milei se fizeram personas “polêmicas, diferentes de tudo o que está aí, defensores dos homens de bem” como personagens e comentaristas em shows populares. Trump, Zelensky, Duterte, Jimmy Morales chegaram ao centro do poder principalmente a partir da visibilidade da TV aberta como plataforma. Não das redes sociais. As TVs locais se tornaram economicamente frágeis pelo abandono do Estado e também das classes médias que migraram alegremente para os competidores internacionais. Rádio e TV se tornaram plataformas políticas baratas e livres de barreiras. Em simultaneidade, as grandes plataformas digitais, de Youtube aos vídeos dos grupos de família no WhatsApp, têm funcionado em grande medida como retransmissoras de TV. Mas sem outorgas nem escrutínio público. O Estado abriu mão da comunicação pública e gratuita enquanto o discurso fascista como mecanismo de falseamento da representação tem sido a principal forma de sustento do rádio e da televisão mundo afora. Façamos um exercício: olhe o que ouve o taxista ou motorista de Uber; ao passar por uma portaria, dê uma olhadinha em qual canal está a TV na frente do porteiro; chegue para os seus filhos que não assistem TV e pergunte se eles sabem quem é o Xaropinho. Vai-se Silvio Santos, ficam os memes, áudios, vídeo-denúncias… tudo TV aberta distribuída em plataformas sem regulação, sem responsabilidade social ou direcionamentos de incentivo. Mas, ainda, comunicação social.

Mas e se o assunto for regulação? E se tanto Lula quanto Bial se referirem ao fim da noção de comunicação como um serviço público essencial à democracia? Morre o Silvio Santos, que tantos favores prestou ao sistema político, mas não está morto o troca-troca de favores clientelistas que une sistema político e sistema midiático no país. E se morrem também as parcas e nunca reguladas premissas do capítulo de comunicação da Constituição Federal? A capilaridade e a estrutura das emissoras de rádio e TV espalhadas por todo o país, bem como toda a expertise na produção de conteúdos audiovisuais, com muitos ou com parcos recursos, permite que tenhamos em mãos um instrumento muito poderoso de combate à desinformação e de avanço social.

Recentemente, na UFRJ, tivemos a defesa da primeira dissertação de estudante indígena no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. E o tema? Rede de Radiofonia Indígena e a importância da radiofonia para a existência (e resistência) dos povos durante a pandemia na região do Rio Negro-AM. Sabemos, por tantas notícias, dos esforços de Elon Musk para espalhar a comunicação privada da Starlink como rede central de comunicação em todo o Brasil. No caso da Amazônia, sabemos também quem são os parceiros dele nessa empreitada. Gente que mata gente. De novo: gente que se esforça por animalizar muita gente. Vimos, há pouco tempo, no RS, os velhos radinhos de pilha e a rede pública da EBC sendo rota de emergência para saída de uma das maiores crises climáticas que tivemos notícia. Um lindo trabalho da Secretaria de Comunicação e da rede de emissoras de rádio. É esta era que se vai com Silvio Santos? E o que fica? Fica um Ministério das Comunicações fraco, vexatório e entregue ao jogo político enquanto o esforço do que temos de mais programático, capacitado e democrático fica concentrado na frágil figura institucional de uma secretaria vinculada à presidência. Precisamos de política pública coesa e socialmente orientada, precisamos de ministério, não da gambiarra do status de ministério sem ser ministério.

Na verdade, a “era” que Lula, Bial e tantos outros profetas do futuro sem TV dizem ter fim com a morte de Silvio Santos, parece uma figura mitológica que se quer imortal, mas se finge de morta. A regulação principal do sistema de rádio e televisão brasileira ainda é uma Lei de 1962! O capítulo de Comunicação da Constituição de 1988 ainda aguarda. Esta era só poderia (ou ainda poderá?) ter fim com a regulação democrática dos meios de comunicação, garantindo um ambiente comunicacional sem controle oligopólico, sem dinastias, e nos apropriando da imensa estrutura e conhecimento que já temos para serviço da sociedade, com diversidade e pluralismo. Não temos que matar a TV, temos que resgatar suas funções sociais genuínas e cantarmos, a la SS, “TV aberta, é coisa nossa. E o rádio todo, é coisa nossa!”

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Eis que surge algo pior que Bolsonaro

A pesquisa Datafolha divulgada ontem informou o Brasil que está surgindo na política algo pior que Bolsonaro, uma direita mais extremada, um fascismo mais escrachado, portador de mensagens ainda mais tenebrosas. É isso que representa Pablo Marçal, que ao longo de agosto, mês de lobisomens, cresceu de 14% para 21%, empatando tecnicamente com Boulos (23%) e com o prefeito Nunes (19%).

Pela primeira vez, Bolsonaro é desafiado como líder da extrema direita por alguém que se apresenta como o negador absoluto da política, apontando o ex-presidente como um falso anti-sistema, e esta talvez seja a única verdade cuspida por aquela boca maligna. Bolsonaro, um fingidor, mostrou na presidência seus genes políticos, adotou os códigos do fisiologismo, seduziu o Centrão e cooptou o Congresso com a entrega do orçamento.

O auto denominado ex-coach está falando e seduzindo os céticos com a política que se desiludiram também com Bolsonaro. E fala com a violência que agrada os mais revoltados e desesperados: fala palavrões, mente, ofende, desacata, insulta e põe apelidos jocosos em todos os políticos. E não só para os paulistanos que elegerão um novo prefeito, mas para todo o país, ele através de suas redes sociais: é de outros estados que estão vindo a maioria dos pix com a ajuda financeira que ele tem pedido.

Bolsonaro chegou a flertar com Marçal mas recuou ao perceber que estava diante de um competidor perigoso para sua liderança na extrema direita. Refluiu para Ricardo Nunes, agora nominalmente em terceiro lugar. Neste momento estão trocando farpas pelas redes, que Marçal parece dominar bem mais que Carlos Bolsonaro e faz o gabinete do ódio parecer uma traquinagem juvenil.

É cedo para saber se ele será um novo Russomano, o mais notável cavalo perdedor da política paulista, ou se terá fôlego para chegar ao segundo turno e quem sabe vencer. Talvez se afogue no mar de lama sobre sua vida, que apenas começou a ser revelado. De todo modo, é assustador que haja tanta gente declarando a pretensão de votar em alguém tão abjetamente oposto à civilidade.

É assustador que a extrema direita esteja conseguindo produzir algo ainda pior que Bolsonaro, alguém mais genuinamente fascista que Bolsonaro.

A política está cheia de som e fúria, e vazia de sentido

Esses dois substantivos aparecem em um dos trechos mais famosos da tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare, publicada no século XVII; formam o título de uma das obras-primas de William Faulkner no século XX; e, agora, dão o tom da política nacional.

“A vida é uma história contada por um tolo, cheia de som e fúria, que nada quer dizer”, constata um amargurado rei Macbeth, ao ser informado da morte de Lady Macbeth. Mas se o atormentado monarca se deparasse, de repente, com a nossa realidade, poderia afirmar: “A política brasileira é cheia de som e fúria, que nada quer dizer”.

E por que as tragédias de Shakespeare (“Macbeth”) e Faulkner (“O som e a fúria”) dialogam com o cenário brasileiro em plena campanha municipal, tumultuada pela suspensão do pagamento das emendas parlamentares? (Lembre-se que as emendas são um instrumento estratégico de deputados e senadores na relação com os prefeitos).


Pois esse paralelo é possível tomando-se, como exemplo, a acirrada campanha pela Prefeitura de São Paulo e a nova crise institucional em Brasília. A campanha e a crise dialogam com a ficção porque têm em comum o “som” estridente da disputa pelo controle do orçamento público, e a “fúria” predatória dos candidatos na briga pelo comando da capital paulista.

Em retrospecto, a coluna passa a relacionar, abaixo, fatos das últimas semanas que ilustram como princípios que deveriam pautar a política, como transparência dos gastos públicos, respeito ao adversário e ao eleitor, parecem coisa do passado, enquanto som (alto) e fúria dominam o ambiente.

Cena 1: 21 de agosto - Em vídeo divulgado nas redes sociais, o candidato a prefeito de São Paulo, Pablo Marçal (PRTB), usou um recado para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para disparar palavras de baixo calão (“banana”, “vagabundo”) contra seus adversários. Termos que, a rigor, não deveriam constar do vocabulário político. “O povo de São Paulo não vai prestar continência nem pro vagabundo do [deputado Guilherme] Boulos, nem pro banana do [prefeito Ricardo] Nunes”, xingou, ao afirmar que não desistirá da candidatura. “Não vou me [sic] retroceder”, concluiu, em um português claramente duvidoso.

Cena 2: 8 de agosto - No debate promovido pela Band/Portal UOL, Pablo Marçal chamou a adversária, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), de “adolescente”, que “precisa amadurecer um pouco”. Não satisfeito, insultou a parcela do público que defendeu a candidata: “Torcida kids, parachoque de comunista”. A “adolescente” a que ele se refere é uma mulher de 30 anos, admirada pela sua trajetória, iniciada em escolas públicas da periferia paulistana até a graduação em ciências sociais e astrofísica na prestigiada Universidade de Harvard.

Cena 3: 20 de agosto - No almoço realizado no Supremo Tribunal Federal (STF), que reuniu os chefes dos três Poderes, os 11 ministros da Corte e dois ministros de Estado, em busca de um entendimento por regras objetivas e transparentes para a liberação de emendas, houve momentos de tensão. Em um deles, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), subiu o tom em resposta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, que citou exemplos de mau emprego dos recursos públicos. Lira retrucou alegando que ministros da gestão Lula seguiriam as mesmas práticas, e disse não fazer questão de ser simpático: “Eu sei que não gostam do meu estilo direto, e eu não me importo com estereótipo de ser ríspido, eu sou assim", desafiou.

A nova crise entre os Poderes foi deflagrada por decisões do ministro do STF Flávio Dino que suspenderam a liberação das emendas, até que novas regras garantindo transparência e clareza dos gastos sejam instituídas. A principal polêmica envolve as chamadas “emendas Pix”, uma verba de R$ 8 bilhões, pela qual um ministério transfere recursos milionários diretamente para o caixa de uma prefeitura ou de governo estadual, sem identificação do autor da emenda, sem uma destinação específica para os valores, e sem que o gestor tenha de prestar contas.

Na esfera paulista, o comportamento de Marçal evoca o Jair Bolsonaro em seu auge na campanha de 2018, quando prometeu “fuzilar a petralhada”, e entre outras provocações, arrebatou o eleitorado com o estilo antissistema.

Embora Bolsonaro apoie a reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB), Marçal cresce sem parar nas pesquisas entre eleitores do ex-presidente. Mostra, com isso, que o perfil de político em fúria contra tudo e contra todos continua atraindo votos, e não é mais monopólio de Bolsonaro.

Esse movimento pode ser contido? O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, acredita que sim, e afirma que Marçal começará a derreter em duas semanas. “Ele sai atacando todos, o eleitor se cansa disso”, aposta.

Na campanha de Boulos, todavia, o sentimento é de que Marçal pode chegar ao segundo turno. Nessa hipótese, aliados do candidato do Psol veem no “coach” um adversário menos difícil, por não ter com ele as máquinas do poder municipal e estadual, que dão lastro à campanha de Nunes.

Voltando ao Bardo, se a vida é um conto de som e fúria, narrado por um tolo que ninguém compreende, a vida real deve ser som e silêncio, fúria e serenidade, onde o cidadão não seja o tolo, e a política faça todo sentido.

Progresso

Que devemos entender por essa palavra? Se a definirmos como bons gramáticos, diremos que é um acréscimo de bem ou de mal, na medida em que possamos discernir entre o bem e o mal; e estaremos assim a representar o próprio avanço da humanidade. Mas se, como se faz nesta época em que não se sabe mais pensar nem falar, dissermos que o progresso é o movimento da humanidade que se aperfeiçoa sem cessar, estaremos a dizer uma coisa que não corresponde à realidade. Esse movimento não se observa na História, a qual só nos apresenta uma sucessão de catástrofes e de avanços seguidos de retrocessos.

Anatole France, "A vida em flor"

A Venezuela de Maduro já é comparada à ditadura de Pinochet

A jornalista venezuelana Ana Carolina Guaita Barreto, repórter do site La Patilla, foi detida há mais de uma semana na região de La Guaira, estado de Vargas, muito próximo a Caracas. Seu paradeiro foi revelado ontem pelo jornalista Vladimir Villegas, ex-embaixador da Venezuela no Brasil, em suas redes sociais. Ana Carolina está, de acordo com Villegas, na sede da Direção de Segurança do governo de La Guaira. Também de acordo com o jornalista venezuelano, o chefe dessa direção, Andrés Goncalvez, disse aos pais de Ana Carolina, ambos dirigentes políticos da oposição que colaboraram com a campanha do candidato presidencial Edmundo González Urrutia, que soltariam sua filha se eles se entregassem.


Xiomara Barreto e Carlos Guaita saíram da Venezuela logo após a eleição presidencial de 28 de julho, fugindo de uma das maiores ondas de repressão do governo de Nicolás Maduro contra opositores, categoria que hoje na Venezuela inclui dirigentes, colaboradores da campanha opositora, militantes de partidos opositores, eleitores da oposição e jornalistas que cobrem atos opositores, entre outros.

Para Maduro e seus aliados civis e militares, qualquer pessoa relacionada à oposição é um potencial risco para o governo, e, em caso de detenção, a acusação é sempre a mesma: terrorismo. Segundo a ONG Foro Penal, entre 28 de julho e 18 de agosto, cerca de 1.503 pessoas foram presas e acusadas de serem terroristas. Ana Carolina é apenas uma dessas pessoas.

A situação na Venezuela em matéria de direitos humanos é crítica. Enquanto os governos de Brasil e Colômbia tentam achar uma saída política para a crise desencadeada após a eleição — tentativa hoje em suspenso, segundo fontes oficiais — Maduro deu sinal verde a uma repressão poucas vezes vista na América Latina após as ditaduras das décadas de 1960, 1970 e 1980. Defensores dos direitos humanos como Marino Alvarado, diretor do Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos (Provea), comparam a atuação do governo Maduro com a de ditaduras como a do chileno Augusto Pinochet (1973-1990).

Em entrevista ao programa de rádio de Villegas, o diretor do Provea afirmou que “há um arbitrário e excessivo uso da Lei Antiterrorista. Nenhum detido foi acusado de outro delito e, segundo o governo, temos 2.229 terroristas”. Alvarado mencionou o caso de Ana Carolina e explicou que ele se encaixa no já normalizado modus operandi do “desaparecimento forçado”. Na Venezuela, os detidos passam de dias a anos em paradeiros desconhecidos.

Hoje, ninguém está a salvo na Venezuela. O Aeroporto Internacional de Maiquetía virou, em palavras de um jornalista, “um lugar tóxico, que todos evitamos”. Qualquer venezuelano que não tenha credenciais chavistas teme passar pelo aeroporto porque sabe que, havendo razão ou não, poderá ser detido. Isso soma-se ao cancelamento arbitrário de milhares de passaportes de cidadãos venezuelanos que, caso não tenham uma segunda cidadania, têm como única alternativa sair do país na mala de um carro ou escondidos de alguma outra maneira.

Quando estive em Caracas para cobrir a eleição, conheci convidados internacionais que estavam no país para acompanhar o pleito. Um deles era um ex-ministro do governo de Salvador Allende (1970-1973), presidente chileno que Maduro costuma elogiar em discursos. A Venezuela atual se parece cada vez mais com o Chile de Pinochet, artífice do golpe que derrubou Allende em 11 de setembro de 1973.

Homenzinhos patéticos que fazem guerras

Vivemos num momento de suprema vergonha para o que normalmente é chamado de “humanidade”. A continuação sem qualquer barreira real do massacre do Governo israelita de Benjamin Netanyahu sobre a população de Gaza expõe a falência das instituições criadas para o mundo pós-Segunda Guerra Mundial. A guerra que a Rússia de Vladimir Putin trava contra a Ucrânia é uma brutalidade que parece ter sido assimilada como normalidade, o que a torna uma brutalidade ainda maior. Mais de metade da população do Sudão necessita de ajuda humanitária devido à guerra civil, mas esta e outras guerras no continente africano são invisíveis nas notícias diárias, apesar de pessoas violarem, torturarem e matarem todos os dias. Ainda assim, é um território familiar, já que a capacidade aparentemente infinita de infligir dor conta em grande parte na jornada humana. O território desconhecido é outro. E tem uma sigla desconhecida: AMOC, Atlantic Southern Overturning Circulation em inglês.

Os nomes que os cientistas dão não ajudam na tarefa urgente de levar o conhecimento onde ele precisa estar, mas é importante saber que a AMOC é um conjunto vital de correntes do oceano Atlântico que transporta águas superficiais quentes do hemisfério sul e as distribui no extremo norte, bem como águas profundas e frias do Norte para distribuí-las no Sul. O sistema natural espalha energia por todo o planeta e modula o aquecimento global, evitando que partes do hemisfério sul sobreaqueçam e que partes do hemisfério norte fiquem insuportavelmente frias. Ao mesmo tempo, espalha nutrientes que sustentam a vida nos ecossistemas marinhos.


Afetada pelo aumento da temperatura dos oceanos e pela diminuição da salinidade causada pelas alterações climáticas, estudos científicos recentes sugerem que a AMOC está em colapso. Ainda existem lacunas na investigação, mas a cada novo estudo, o que era apenas uma possibilidade há alguns anos parece provável mesmo neste século. Um destes trabalhos sugere que isso poderá acontecer antes de 2050, e mesmo no final da década de 2030. Cada vez mais, “se acontecer” está a tornar-se “quando acontecerá”. E quando isso acontecer, algumas partes do planeta ficarão completamente irreconhecíveis.

É mais uma variável aterrorizante num planeta que até junho viveu 13 meses consecutivos de temperaturas recordes. Mas mesmo com este panorama, as empresas de combustíveis fósseis, carne, soja, óleo de palma, agroquímicos e minerais continuam a produzir o colapso climático com a cumplicidade de governos e parlamentos. Mesmo com 12 meses em que a temperatura média global esteve 1,64 graus Celsius acima da média pré-industrial, homenzinhos como Netanyahu e Putin travam guerras. Mesmo com um julho com os três dias mais quentes da história, ditadores de esquerda como Nicolás Maduro e Daniel Ortega corrompem a democracia e a extrema direita avança atualizando o fascismo, com Donald Trump no comando.

Alguns homens jogam a guerra sem se aperceberem que nos próximos anos ou décadas poderá já não haver território pelo qual lutar, porque ou foi engolido pelos oceanos ou porque a vida humana se tornou muito difícil ou mesmo impossível. Nunca esteve tão claro que o narcisismo é o irmão siamês da ignorância e quão letal pode ser. Ou começamos a agir politicamente muito rapidamente, participando ativamente nas decisões, fortalecendo a democracia e restaurando o bem comum, apoiando e colocando no poder pessoas capazes de enfrentar os produtores do colapso climático e de produzir adaptação, ou continuaremos reféns destas patéticas homenzinhos e sua compulsão de exterminar, incapazes de ver um mundo além dos fiapos de seu umbigo.
Eliane Brum